A
sombra da maturidade precoce
Com A Sombra
do Pai, a cineasta baiana Gabriela Amaral aborda
com esmero o terror
oriundo da infância deixada para trás
Por João Paulo Barreto
É comum que o cinema de gênero, mais precisamente
nas obras de terror, em que o ponto de vista infantil muitas vezes representado
por clichês de meninas macabras com longas madeixas a esconder seus rostos e
áurea sobrenatural assassina, utilize a pureza como modo de perpetrar o medo e
a violência simbolizados pela força da perda da inocência. É no contraste entre
tal inocência e a brutalidade de seus atos que reside muito do conteúdo de tais
obras. Vide filmes como O Chamado, A
Profecia e Cemitério Maldito, para
citar apenas três.
Porém, ainda mais rico é o tipo de filme de terror
no qual essa perda da pureza não necessariamente descamba para a violência
assassina, mas, sim, para um encarar da realidade e da maturidade forçada, algo
que surge na esteira de acontecimentos brutais, cuja influência na mente e no
ponto de vista infantis tem resultado narrativo mais apurado do que o simples
apelo slasher (para usar um termo
oriundo desse cinema) e sanguinolento que thrillers simplórios e rasos utilizam
para brincar com o choque causado a audiências não muito exigentes.
Não que haja algum problema nisso. No aspecto
sanguinolência, filmes como os das séries Sexta-feira
13, A Hora do Pesadelo, Halloween e vários outros divertiram e, com seus
méritos, formaram audiências durante boa parte dos anos 1980 e 1990. Sou um
destes, inclusive. Mas a diferença para melhor reside em quando nos deparamos
com obras cujo descortinar da perda da inocência infantil traz profundas consequências
de cunho psicológico e o resultado disso, acompanhado de uma premissa
sobrenatural, alcança reflexões que escapam à pura e simples catarse fílmica
através da violência física. Em A Sombra
do Pai, a cineasta Gabriela Amaral Almeida sabe exatamente aonde quer
chegar com a história de Dalva (o achado Nina Medeiros), garotinha que enfrenta
a perda da mãe e a ausência psicológica do pai através de sua introspecção e
ligação com a magia. Aos poucos, o encontro com elementos que representam a
morte começa a formar o julgamento da criança perante sua realidade. E Gabriela
Amaral, também roteirista do filme, consegue com esmero representar isso.
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Dalva (Nina Medeiros) e sua maturidade forçada e precoce |
RIMAS VISUAIS
Desde sua cena inicial, quando uma boneca é
desenterrada no quintal da casa onde Dalva vive, rima visual que planta uma
pista cuja recompensa se dará no seu extasiante desfecho, a diretora constrói
uma análise exata desse citado processo desencadeado pela perda da inocência
infantil. Os símbolos são todos inseridos de modo orgânico, como quando a
exumação do corpo de sua mãe para liberação do jazigo leva o pai a trazer de
volta para casa cabelos e dentes que pertenceram à finada esposa. Cabelos,
inclusive, que dão vazão a outra rima visual exata quando vemos na figura
diminuta de Dalva um espelho para o que surge no clímax do longa. Como
apreciadora do cinema de terror, Gabriela Amaral exibe trechos do citado Cemitério Maldito e de A Volta dos Mortos Vivos, filmes que a
pequena Dalva assiste e alimentam seu imaginário de criança. Passo a passo, a
criação de uma personalidade ainda mais introspectiva, mas repleta de
entendimento do caos familiar que a cerca faz da garotinha alguém atropelada
pelo trauma de crescer antes da hora.
TERROR REAL
Na figura do pai, Julio Machado dá a Jorge a
presença exata do peso da sua existência tanto como obrigatório mantenedor do
sustento do lar quanto na dolorosa rotina que leva para frente na ausência de
sua amada. Diariamente subindo a construção como se fosse máquina, para citar a
cadência exata de Chico e seu terror proletário, Jorge é mais um símbolo da
derrota em seus aspectos mais extenuantes. Pálido e cadavérico, é forçado a
dominar seus medos diante do desemprego iminente que representa a sombra a
torturar a si mesmo a aos seus colegas de obra. O terror na vida de Jorge
assume outras faces além do sobrenatural. Mas é na figura do soldador mascarado
que Gabriela Amaral ilustra de modo exato e sombrio o desespero a espreitar o
homem. E na tentativa de desanuviar sua ausência como pai bem como suas
frustrações como símbolo a ser visto como exemplo, ele força um convívio
natural com a filha quando a leva para passear no parque, cena que beira o
cômico de tão trágica.
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Cena chave a definir o elo inexistente entre pai e filha |
Comicidade essa que a cineasta confere de forma
sagaz, como na cena do aniversário de Dalva, que, com seu bolo de nome escrito
errado e ausência de qualquer traço infantil, denota esse trágico beirando o
cômico que já havíamos visto no seu curta de 2012, A Mão que Afaga. Rimos, mas com os dentes trincados. Além deste, é com admiração que
percebemos em um dos seus primeiros curtas, Uma
Primavera, lá de 2011, um ensaio para essa proposta vinculada à perda da
inocência infantil. Após trazer o mal
escondido na natureza educada, mas provocada ao limite em O Animal Cordial, a cineasta alcançou em A Sombra do Pai uma maturidade que impressiona. O cinema de gênero
brasileiro tem em Gabriela Amaral Almeida sua representante mais engenhosa. Que
venham os próximos. Isso, claro, se o terror que toma conta do Brasil permitir.
*Texto originalmente publicado no jornal A Tarde, dia 05/05/2019
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