(Bahia, 2017) Direção: Edgard Navarro. Com Everaldo Pontes, Rita Carelli, Bertrand Duarte, Fábio Vidal, Ramon Vane.
O conflito de fé e racionalidade como norte
Por João Paulo Barreto
A contradição entre fé, religiosidade e razão tem sido temas
recorrentes na filmografia recente de Edgard Navarro, um dos diretores da
geração Super8, na Bahia dos anos 1980, quando realizou o marco SuperOutro, média metragem que
demonstrava uma Salvador distante da fantasia do cartão postal. Junto a Pola
Ribeiro, Fernando Belens e José Araripe, Navarro moldou um formato de cinema no
estado do nordeste, algo que, em um período de escassez na produção, marcou
época.
Revisitando suas memórias afetivas em Eu me Lembro, longa de 2005 bastante premiado no Festival de
Brasília, o diretor reencontrou sua infância e reviveu uma capital baiana
perdida, mas ainda firme em um imaginário nostálgico. Já em 2011, com O Homem que Não Dormia, Navarro trouxe uma discussão mais
idiossincrática, aprofundada, transparecendo seus conflitos internos e
dividindo-os com o público. À época, tratou-se de um filme de difícil acesso,
mas, uma vez visitado, acompanhava o espectador por bastante tempo. Lá, a ideia
do choque entre fé, razão, tentações e religiosidade já havia sido abordada
profundamente.
Em seu novo longa, Abaixo
a Gravidade, exibido na Mostra CineBH 2018,desde o título, um
questionamento a essa condição estanque de regras e, por consequência, à ideia
do conflito entre o racional e a crença se faz presente. Na figura de Bené
(Everaldo Pontes), um idoso que optou por uma vida bucólica e simples no Vale
do Capão, a figura construída da fé e do otimismo que, aos poucos, vai se
perdendo perante as condições adversas que sua frágil saúde começa a
demonstrar. Na fuga para a capital, Salvador, um reencontro com o passado e o
embate com a lucidez de Galego, morador de rua cujo ceticismo fascina. Na pele
de Ramon Vane, falecido recentemente e a quem o filme é dedicado, e que já
havia dado vida ao Prafrente Brasil, o militar reformado e entregue ao próprio
caos de O Homem que Não Dormia, encontra-se
um sopro de lucidez. São dele as melhores observações do roteiro, acerca da fé
na humanidade e no desregrar para se encontrar um norte. Perante a sua própria
desgraça, abraçar a miséria e esquecer-se de qualquer traço de conforto é o que
lhe resta.
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Bené e a entre às tentações |
Navarro, ao inserir uma sagaz imagem de uma estátua do
Pensador, de Rodin, sendo levada por um helicóptero nos ares soteropolitanos,
cria uma rima visual pertinente ainda no mesmo argumento de crença vs
racionalidade. Ao nos fazer pensar na icônica imagem de La Dolce Vita, clássico de Fellini, em cuja abertura vê-se uma
estátua de Jesus Cristo ser, também, carregada por uma aeronave, o cineasta
baiano acerta nesse diálogo que seu filme oferece aos mais atentos. Entre Bené e Galego, essa ideia de crença em
uma força maior a nos confortar e o total niilismo e pessimismo por parte do
segundo, move aquela relação. Mas, apesar de um pragmatismo nos aproximar mais
da visão do morador de rua, nos perguntamos a que outro argumento pode se
apoiar Bené, quando até mesmo um tratamento médico lhe é impossível e, na
figura de Maselfe, interpretado por Bertrand Duarte, parceiro habitual do
diretor, encontramos a mesma doença, mas um total apego não à própria vida, mas
à vaidade que o move. Maselfe, na verdade, é o que teria se tornado Bené, se
não tivesse optado por uma vida sem a reclusão bucólica que o levou para a
morada no campo. Quando é atingido por uma saraivada de merda, em um reencontro
com SuperOutro, o personagem de Maselfe
é colocado justamente onde sua posição materialista e vaidosa o disfarça.
Naquele momento, seu verdadeiro eu lhe é apresentado.
Abaixo a Gravidade, ao
seguir a ideia transgressora e questionadora de seu realizador, acerta ao criar
justamente esse diálogo. Mesmo que, ao final, venha a tender à muleta da fé
perante o ceticismo, a obra deixa claro ser aquela a única opção de lucidez e
equilíbrio que seu protagonista possui. O desprendimento e niilismo de Galego
são para poucos. No orgasmo, Bené admite a existência de um deus. Para nós,
claro, a escolha de quem é essa entidade fica a critério próprio. O que o filme
nos leva a concluir reside justamente nessa idiossincrasia básica da escolha no
que se prefere acreditar. Pode ser em ervas para curar câncer; pode ser em voar
com asas feitas de sucata (em uma bela referência a Brewster McCloud, clássico de Robert Altman) ou pode ser na vaidade
como forma se salvação, como vemos Maselfe (em um nome mais que apropriado)
crer piamente. Em qualquer uma das opções, o quebrar de regras segue como
obrigatório.
Mesmo que a principal dela, aqui, seja a da irrevogável
gravidade. Relembrando o grito de Bertrand Duarte em SuperOutro, e repetido em O Homem que Não Dormia, essa vontade de
quebrá-la segue como que por insistência. Ainda bem.
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