quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

1917


O Horror sem Cortes


Bem mais do que apenas um perfume visual, plano sequência de 1917 coloca a audiência em uma imersão emocional e física dentro do terror das trincheiras da Primeira Guerra Mundial 

Por João Paulo Barreto

Na proposta de um filme que tem um longo plano sequência como atrativo principal para seu desenvolvimento, há um risco de tal virtuosismo tomar na obra um lugar intelectualmente pretensioso e, em consequência disso, frágil. Isso por conta de um claro disfarçar suas falhas narrativas e do aprofundar de seus personagens devido a uma suposta qualidade (técnica e dramática) oriunda unicamente do seu modo de captação de imagens. Felizmente, esse medo que tive até pouco antes de iniciar a sessão de 1917 ficou para trás logo no primeiro ato do épico de guerra dirigido por Sam Mendes. 

O cineasta por trás das duas últimas aventuras de James Bond e do jovem clássico Beleza Americana desenvolve, aqui, uma estrutura de aprofundamento de seus dois personagens centrais que deixa de lado qualquer receio do espectador diante de uma decepção vinda da possibilidade de um filme cujo citado virtuosismo visual seja apenas (e nada mais) o que a obra tem a oferecer.

Os dois protagonistas citados são companheiros de guerra, cabo Blake (Dean-Charles Chapman, de Game of Thrones) e o cabo Schofield (George MacKay, de Capitão Fantástico). Em sua opção de desenvolver a cumplicidade entre ambos, o roteiro de Mendes e Krysty Wilson-Cairns utiliza o aspecto familiar de suas relações afetivas não como uma simples muleta dramática e motivacional, comum a diversos filmes de guerra que têm nas raízes fraternas de seus personagens uma ponte emocional para com o público, mas, sim, como uma lembrança do que está verdadeiramente em risco naquele pesadelo. Quando vemos, por exemplo, Blake tentar ajudar um inimigo em chamas, trata-se do evitar da perda de uma humanidade oriunda de sua relação familiar e fraterna, algo que se percebe como algo a ser evitado. Mesmo que, em tal ingenuidade, um erro fatal seja cometido.

Blake e Scho: cumplicidade e camaradagem 

FOCO HUMANO

Quando a missão de alertar o comandante de um batalhão antes que este mande seus homens para a morte certa por conta de uma armadilha plantada pelos alemães na Primeira Guerra é designada para os dois, Blake tem, sim, no fato de seu irmão fazer parte de tal batalhão uma motivação para seguir em frente. Mas é na camaradagem encontrada em Schofield, a quem ele chama de “Scho”, que está a sua real força para seguir adiante naquela missão suicida além das linhas inimigas.

As relações familiares de ambos britânicos são inseridas de modo orgânico, da mesma forma como vislumbres destas são vistas como um reflexo entre os inimigos alemães. Uma foto dentro de um bunker alemão, por exemplo, é encontrada por Schofield em uma alusão a como, do outro lado da insana guerra, há também homens saudosos dos seus. Tal momento, inclusive, retorna ao espectador no último enquadramento da história, como uma bela rima visual e temática que define a sobriedade com que o roteiro de Mendes e Clairns foi desenhado. Entre Blake e Scho tais relações fraternas são aprofundadas, sejam nas histórias contadas pelo primeiro, ou em como o segundo acaba por se tornar um ponto de suporte para o trágico Blake.

As ruínas da guerra 

TÉCNICA E EMOCÃO

Nos longos planos sequenciais, os personagens são levados à frente de maneira constante. Não há volta para cada passo dado pelos dois soldados em sua missão. E é notável perceber como o uso de ângulos em 360° permite uma “solução” para esse tipo de condição do filme. Há cortes escondidos, obviamente, mas seria uma quebra de uma densa e pesada imersão passar o filme tentando encontrá-los. Ao invés disso, 1917 oferece um deleite aos olhos da audiência que é levada por Mendes e pelo diretor de Fotografia, Roger Deakins, pelos confins daqueles campos de batalha. A cada nova situação que se apresenta, o aprofundar dos dois soldados não é somente geográfico pelas linhas inimigas, mas, também, psicológico em suas próprias sanidades.

Observe o momento em que, preso em uma cidade francesa em ruínas, Schofield tem a sua frente apenas a iluminação oriunda de sinalizadores. Uma sequência que define Roger Deakins, notório fotógrafo responsável por diversas obras dos Coen, Denis Villeneuve e do próprio Sam Mendes, como um dos grandes de seu campo. Quando a catástrofe da guerra ganha uma bizarra beleza física apenas por conta da captação de sua luz em uma interminável destruição, é algo que não dá para deixar fugir aos olhos atentos.

Do mesmo modo a beleza encontrada na “coincidência” quando voltamos a referenciar uma coleta de leite fresco retirado do pasto de uma fazenda francesa. Daqueles momentos que concedem ao primor técnico e cinematográfico de Mendes e Deakins um sentimento e esperança precisos para uma obra que tem no horror bélico um atrativo tão forte.

                              *Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 17/01/2020






segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Kursk - A Última Missão


Afogados pela inércia política



Em Kursk, o drama da tragédia real do submarino russo é levado às telas por Thomas Vinterberg em denúncia contra negligência governamental da cúpula militar de Putin

Por João Paulo Barreto

Para o público familiarizado à filmografia do diretor dinamarquês, há uma estranheza natural ao ver o nome de Thomas Vinterberg atrelado a um projeto que possui o militarismo naval como pano de fundo. Principalmente quando um genérico subtítulo nacional como A Última Missão tendencia o espectador a achar que batalhas navais a bordo de um submarino ditarão a ação e todo o ritmo dos 117 minutos de projeção na tal “missão”.

No entanto, no drama baseado em fatos reais de homens confinados em um claustrofóbico submarino russo naufragado após uma explosão durante um treinamento, e no sufocamento gradativo e literal de suas vidas sendo descartadas pela negligência governamental, uma construção dramática bem de acordo com a filmografia do cineasta por trás do perturbador A Caça é encontrada em Kursk, longa que conta a história verídica do desastre acontecido nas águas russas em agosto de 2000.

O foco de Vinterberg e do roteirista Robert Rodat é justamente esse. O de trazer à audiência um olhar além dos frios números que se referem às 108 vitimas da incompetência técnica, da burocracia e dos imbróglios diplomáticos do Kremlin. Dentre estas, as 23 vidas então sobreviventes que a inércia do governo russo matou ao não agir com a urgência necessária na retirada das ferragens do naufrágio.

Matthias Schoenaets e Léia Seydoux

FOCO HUMANO

Assim, o filme tem em seu primeiro ato um olhar à cumplicidade do grupo de marinheiros residentes do vilarejo de Vidyayevo, local onde parte da tripulação vivia. O casamento de um deles acontece. A festa tem suas bebidas financiadas pela venda dos caros relógios especiais de submarinistas que o grupo liderado por Mikhail Averin (Matthias Schoenaets) possui. Este, pai de um garoto de não mais que oito anos e com a esposa grávida, brinca com sua família pela manhã e treina a apneia seu filho na banheira de casa (uma rima temática que veremos nos momentos de terror mais à frente).

Roteirista de filmes como O Resgate do Soldado Ryan e O Patriota, Rodat não resiste em trazer para seu texto, aqui, uma inserção um tanto forçada e clichê de companheirismo militar dentro da Marinha, quando o grupo de amigos no casamento entoa uma canção enaltecedora de sua profissão. Algo que, inicialmente, até soa um tanto constrangedor por tentar emular uma emocional relação fraterna, mas que, em seu clímax, traz para o longa uma rima dramática pontual. Diante da homenagem àqueles homens, acabamos por relevar tal dramaticidade excessiva.

Tormenta no horizonte: marinheiros a embarcar

DESPLAT

É nas cenas de confinamento, porém, que a presença de Vinterberg se justifica à frente do projeto. Trazendo um silêncio só quebrado pelo som das águas a inundar o submarino, e equilibrando-se com as pontuais inserções da trilha original de Alexandre Desplat, uma claustrofóbica atmosfera cria-se e amplifica o pesadelo daqueles homens.  Desplat, experiente autor de trilhas marcantes como as de A Forma da Água e O Grande Hotel Budapeste, mescla os sons do sonar submarino e das batidas com martelo no metal na sinalização do SOS em um mergulho do espectador naquele pesadelo real.

A sequência em que reservas de oxigênio são resgatadas em um local inundado, onde, na apneia, Mikhail e um outro sobrevivente precisam nadar submersos para salvar as vidas de todos, salienta essa tensão amplificada pela trilha de Desplat. E Vinterberg, diante de um confinamento de homens no limiar do desespero, cria com precisão um escape tragicômico com a sensação de frio congelante de seus personagens.

Na opção de intercalar o drama dos homens confinados e os de suas famílias ansiosas por respostas, Kursk traz a presença emocional de Léa Seydoux no papel da esposa de Mikhail, que, junto com outras mulheres do vilarejo, anseiam por qualquer notícia referente ao iminente resgate. O momento em que ela, ao saber que todos estão vivos, grita os nomes das outras esposas diante das janelas dos prédios residenciais, delineia bem esse citado limiar do desespero entre a vida e a morte sendo que, ali, em terra firme, tem uma sensação de confinamento diferente, mas tão dilacerante quanto.

Acabam sendo todos vitimas não só de uma fatalidade por conta do acidente da explosão, mas da inércia dos altos escalões militares, desenhados, aqui, na presença inóspita da expressão do grande Max Von Sydow. Na reação de uma criança ao recusar-se a aceitar um cumprimento de pêsames, muito do que nós mesmos queremos transmitir àqueles que pensam nos governar.  

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 12/01/2020







quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Aleluia - O Canto Infinito do Tincoã


Espírito e Arte Livres



Com exibição especial amanhã no Glauber, Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã, doc de Tenille Bezerra sobre Mateus Aleluia, define a maestria e grandeza de um artista único

Por João Paulo Barreto

Em suas imagens iniciais das águas calmas do rio Paraguaçu, navegado em uma paz bucólica, os sons de povos nativos a compor o quadro são interrompidos pela violência dos tiros que anunciam os sequestros provocados pela escravidão humana. Do extirpar doloroso oriundo da retirada de homens, mulheres e crianças do solo a que pertencem para seguir como aqueles que fizeram a roda da brutalidade capitalista girar em outro continente, ao banzo sentido como uma pungente lembrança do lugar de onde vieram, um caminho de resistência física, cultural e religiosa se faz presente.

Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã, documentário dirigido por Tenille Bezerra acerca do músico baiano Mateus Aleluia, fala de um artista que cantou essas dores durante toda a sua vida. Mas que cantou não somente tais dores da tristeza, como, também, a alegria do pertencimento. Da felicidade de poder ser parte de algo maior. De algo eterno. Esse algo reside no orgulho de compor uma resistência que ultrapassa o conceito de apenas uma religião.

“O Candomblé tinha vindo para o Brasil com os africanos, na época do tráfico de escravos. E tudo o que veio com o tráfico de escravos ficou relegado à segunda categoria. Ficou como subcultura. O Candomblé era subreligião. Era preciso quebrar esse paradigma. O Candomblé era uma religião como outra qualquer. Mostrar que a música cantada nos rituais era uma música que tinha todo um trabalho como uma música bachiana e outras coisas mais”, afirma Mateus durante o filme. A afirmação age como definição para uma trajetória de vida fiel à suas raízes como ser humano e como artista.


Mateus Aleluia em seu terra natal, Cachoeira, às margens do rio Paraguaçu

PONTE BAHIA - ANGOLA

Membro, junto com Dadinho e Heraldo, do grupo musical Os Tincoãs, que ficou em atividade nessa formação de 1963 até 2000, Mateus Aleluia traz nessa citada trajetória uma afirmação que se destaca pela valorização de uma identidade imprescindível. Aquela que segue de mãos dadas entre as raízes da sua cultura, arte e da sua religiosidade. Como pilares, estes são os três suportes que tornam imortais o trabalho musical criado tanto com seus dois parceiros quanto em sua carreira solo.


O artista em sua labuta: serenidade de uma vida plena 
No filme de Tenille Bezerra, é palpável uma sensação de liberdade na vida de Mateus, um artista cujo pensamento preciso transparece muito do que é vital para uma reflexão acerca do mundo atual. Acerca da importância de uma identidade. Acerca da valorização dessa identidade como algo crucial. A cineasta destaca essa noção de vida que a trajetória de Mateus Aleluia traz para sua arte e salienta a cumplicidade e amizade surgida nos sete anos que durou a produção.


“Da idéia inicial até hoje se passaram sete anos. Quando Seo Mateus aceitou o meu convite para fazer o filme, eu ainda não tinha um projeto estruturado. A idéia inicial era um documentário musical sobre os Tincoãs, que na época não eram conhecidos como são hoje. Comecei a filmar mesmo sem ter financiamento (o filme foi feito graças ao Fundo de Cultura da Bahia e ao FSA, através da ANCINE). Passei a acompanhá-lo nas viagens, nos shows e no cotidiano em casa. Dessa convivência surgiu uma forte relação de amizade que hoje se reflete em diversos projetos que desenvolvemos em parceria”, explica Tenille.

Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã é um filme que cria essa ponte entre Luanda e Cachoeira. Que cria uma ponte, também, entre o quase garoto Mateus de um tempo passado com a presença austera, tenra e afetuosa desse senhor com cabelos brancos e expressão compenetrada. “Nada foi, tudo está aqui. Eu estou falando de 1963 como se fosse hoje”, diz Mateus entre sorrisos. E conclui: “A gente fica assim, mas é só fechar os olhos por alguns segundos e estamos vivendo aquilo.” A frase é dita sem preciosismo, sem qualquer sensação de ficar preso ao passado, mas, sim, com uma compreensão de uma vida plena. “É tudo tão efêmero. Quem captou, captou. É como um acorde perfeito. Ele é perfeito naquele momento. Dentro de segundos à frente, talvez, ele já não seja nem tão perfeito. Já não carrega aquela emoção que carregou há pouquíssimo tempo antes“, define Mateus com exatidão.


LIBERDADE E PERTENCIMENTO

Tenille Bezerra fala sobre o estreitar de uma amizade entre ela e Mateus Aleluia como uma das forças para a criação da identidade do filme. “A relação de amizade e confiança me permitiu conhecer em profundidade Seo Mateus e aos poucos fui entendendo como sua experiência, em constante deslocamento, marcou seu pensamento e a relação que ele tem com a arte,” explica.  

Esse entendimento traz para o filme uma estrutura que passeia pelas fases da vida de Mateus Aleluia, os locais onde ele viveu, Cachoeira, Luanda, nos quais o espectador é convidado a adentrar e a conhecer. Isso sem didatismo. O filme deixa de lado a opção de destrinchar a trajetória de Mateus, dando à audiência a oportunidade de conhecê-lo a partir de seus deslocamentos. “É a partir dessa liberdade que Seo Mateus emana que o filme foi se tecendo, tendo o deslocamento como signo mais forte. Deslocamento temporal (uso de materiais de arquivo com imagens de hoje), deslocamento geográfico (passamos de Cachoeira a Luanda), deslocamento existencial “, explica a diretora. Pedagogo de formação, inquieto por natureza, Seo Mateus é um dos raros espíritos livres de nosso tempo”, conclui Tenille.

Sobre a liberdade, Mateus traz uma observação que nos permite a reflexão tanto acerca desse significado, quanto uma análise da importância e da perenidade da sua arte como criação. “A gente fala muito de liberdade, mas nós não estamos preparados para liberdade. Nós estamos preparados é para o aprisionamento. Nós só não queremos ser aprisionados. Mas queremos aprisionar. A gente quer a nossa liberdade para poder aprisionar o outro. E a arte, não. A arte é livre. Ela não quer aprisionar nada. Ela nem está preocupada se você a reconhece ou não. Para mim a arte é isso. Ela é o momento. Ela é um sopro.” 

Preciso, mestre.

*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 09/01/2020




sábado, 4 de janeiro de 2020

O Caso Richard Jewell


Descartável Humanidade


Dirigido por Clint Eastwood, O Caso Richard Jewell discute o esmagar do cidadão 
por um Estado tirânico e por uma mídia desumana

Por João Paulo Barreto

Há um adesivo na parede do advogado falastrão Watson Bryant, personagem vivido com energia por Sam Rockwell, que diz: “Tenho mais medo do governo do que de terroristas”. Lido em um ano tão longínquo quanto o de 1996, quando a internet engatinhava, celulares ainda (e apenas) telefonavam, ao invés de espalhar fake news que elegeriam exemplos desses temíveis governos liderados por terrorista e apoiado por fanáticos, e as redes sociais ainda seriam um pesadelo reservado ao futuro, o impacto de tal sentimento oriundo de um advogado ciente dos tentáculos destruidores de um país autoritário como os Estados Unidos, desenha com precisão o norte do novo filme de Clint Eastwood. 

O foco, aqui, além de um brutal exemplo de como a mídia e o Estado podem esmagar um cidadão e sua reputação, reside na desconstrução emocional de um homem vitima de sua ingenuidade e fé em uma diretriz governamental que ele sempre julgou como incorruptível: aquela que coloca a segurança do cidadão como prioridade. O Richard do título é esse homem. Aficionado por aspectos relacionados a procedimentos emergenciais e de prevenção a acidentes, o jovem Jewell é trazido ao público em sua rotina, inicialmente com vinte e poucos anos, em um emprego de organizador de suprimentos de escritório, onde conhece o advogado em questão.

Tragédia famíliar imposta por uma mídia selvagem e desumana

Quase dez anos depois, em 1996, a representação legal de Bryant salvaria a vida de Jewell no caso do atentado a bomba na Olimpíada de Atlanta, evento onde Richard trabalhava como segurança e foi responsável por salvar dezenas de vidas ao descobrir uma bomba escondida. Três dias após o fatídico momento, o funcionário tornou-se suspeito em investigação do FBI e teve seu nome divulgado por um dos maiores jornais de Atlanta.

Interpretado pelo promissor Paul Walter Hauser (quase um sósia do verdadeiro Richard), conhecido por participações marcantes em Infiltrado na Klan e Eu, Tonya, a figura de Jewell é trazida como a de alguém cujo senso de responsabilidade em torno da segurança de terceiros alcança níveis calculistas e sagazes. Quase até paranóicos. E isso bem antes de toda paranóia governamental se institucionalizar no pós 11 de setembro.

DESPREZO JORNALÍSTICO

A destruição da reputação de Jewell e, por consequência, de sua vida e paz de espírito, aconteceu em nome do aumento das vendas de exemplares do Atlanta Journal –Constitution. O impresso divulgou o nome do segurança como investigado pelo FBI (algo que deveria ter sido mantido em sigilo) em matéria escrita pela então jornalista Kathy Scruggs, que alegou estar reportando fatos, mas, desse modo, esqueceu-se que a vida de um homem estava em jogo. Interpretada no filme por Olivia Wilde, a personagem é um dos pontos frágeis da narrativa, uma vez que a coloca de maneira mal construída em suas motivações que beiram ao maquiavélico clichê da vilã inescrupulosa. Após a inocência de Jewell ser provada ainda em 1996, Scruggs enfrentou o ostracismo em sua carreira, vindo a falecer em 2001.

Olivia Wilde no papel da inescrupulosa Kathy Scruggs

Hauser dá a Jewell, em sua corpulência a contrastar com a maneira delicada como se portava; na construção de uma relação afetuosa com sua mãe (vivida com ternura e solidez por Kathy Bates), além do tom de voz sempre controlado, uma doçura que capta a atenção da audiência não de maneira maniqueísta, mas de forma a mostrar que, até mesmo em suas falhas de conduta (o homem chegou a fingir ser um policial na juventude), ele tinha uma vontade de fazer o bem. Colocado no limite da perda desse equilíbrio mental, Hauser constrói a figura de Jewell como um homem que, de maneira gradativa, vai perdendo a ingenuidade diante dos golpes que recebe justamente de símbolos de um mundo pelo qual ele mantinha sua admiração: a lei representada pelo FBI. Seu contra-ataque, porém, não se faz violento, como seria esperado, mas, sim, equilibrado.

Essa citada desconstrução emocional não é entregue de maneira óbvia ou manipuladora emocionalmente por Clint ou por seu roteirista, Billy Ray (que já havia escrito Capitão Phillip, outra marcante história real). O que Eastwood traz neste aspecto de seu protagonista chega até mesmo a causar a irritação do espectador diante de tamanha passividade que Richard Jewell possui em seu bom e (facilmente manipulável) caráter. Ao chegarmos, finalmente, ao momento em que seu limite emocional é alcançado, Hauser nos entrega algo em sua atuação que define toda a proposta de construir e desconstruir emocionalmente o personagem que Ray e Eastwood propuseram na real história de O Caso de Richard Jewell.

Kathy Bates em seu momento central no papel de Bobi Jewell, mãe de Richard

KATHY BATES

Tal momento final que nos mostra Paul Walter Hauser trazer a desolação de Jewell paralela a um alívio diante do peso que lhe sai das costas, acontece, vale citar, após vermos Kathy Bates entregar mais uma atuação de acordo com sua grandeza.

Notória por suas personagens de posturas fortes e decisivas, Bates, no papel da tenra Barbara (Bobi) Jewell, tanto em um momento de desespero diante do que acontece ao seu filho quanto em uma fala à imprensa diante do inferno causado pela irresponsável matéria jornalística e pela investigação desastrosa do FBI, traz momentos definidores de sua longa e bela carreira. Clint, com quase 90 anos de idade, alcança, aqui, o mesmo intento.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 04/01/2020


domingo, 29 de dezembro de 2019

Cats


O público como gato escaldado


Constrangedor visual e dramaticamente, adaptação do musical Cats 
para as telas te dá vontade de ver a peça teatral

Por João Paulo Barreto


Qual a ideia de resultado plausível no que se refere a efeitos visuais que um filme quer transmitir (ou quiçá alcançar) quando coloca todo o seu elenco formado tanto por rostos conhecidos quanto por quase anônimos dentro de um artifício cujo resultado aplicativos de câmeras de celular conseguem construir melhor do que o exibido nos cinemas?

Dirigido por Tom Hopper e estrelado por diversos desses rostos, Cats, a adaptação para a telona do bem sucedido musical de teatro escrito por Andrew Lloyd Weber em 1981, nos faz sair do cinema com essa pergunta na cabeça. Não somente pela estranheza que cada uma das cenas leva à mente do espectador por conta de aspecto visual de sobreposição tosca de pelos de gato em rosto de atores, mas, também, por esse fato trazer a noção exata do quão não adaptável para o cinema aquela peça teatral é.

E tal estranheza não é apenas uma questão de gosto pessoal diante das imagens vistas. Em termos de utilizar o “estranho” e o “tosco” como atributos cinematográficos, nomes como o de Tim Burton, por exemplo, já fazem isso há muito tempo e encantam com resultados muito melhores que os de Hopper aqui. Não. O que acontece com Cats é justamente a ideia de tentar disfarçar através de sua não maquiagem uma proposta de live-action que simplesmente diminui qualquer impacto dramático que seu elenco (muito esforçadamente, saliento) tenta trazer à tona.

Aquele efeito básico de aplicativo engraçadinho de celular

BARATAS DANÇARINAS

Diferente da adaptação realizada em 1998, quando a própria peça teatral foi transposta para um projeto filmado pelo diretor David Mallet, com a presença de diversos atores que se juntaram ao elenco de bailarinos, a versão Cats de 2019 deixa de possuir qualquer razão em sua existência justamente por levar ao seu público a reflexão de que tal experiência, se vista em um palco de teatro, possivelmente alcançaria melhores resultados do que a que temos na sala de cinema.

Na história, a gata abandonada Victoria (Fancesca Hayward) encontra um grupo de gatos de rua que vivem no bando dos jellicle, felinos dançarinos e cantores liderados por Old Deuteronomy (Judi Dench) e que têm na boêmia e na glória dos velhos tempos representados por figuras como Gus - O Gato Teatral (Ian McKellen) e Bustopher Jones (James Corden) suas rotinas de ode à nostalgia.

As baratas dançarinas: constrangedor 

De número musical em número musical, vamos sendo apresentados a diversos personagens felinos e suas personalidades. A melhor delas está em James Corden, que sabe usar bem sua presença física rechonchuda como meio de comédia, e em Ian McKellen, que consegue, mesmo com seu rosto felino, trazer peso para a melancolia de seu personagem cujos dias de brilho desvanecem.

Mas o que fica na memória, de fato, são os momentos de constrangimento alheio, como quando um grupo de ratos e baratas humanóides dançam (e são degustadas) para a gata vivida por Rebel Wilson. É neste ponto em que o público, diante daquela tentativa preguiçosa de se fazer comédia, percebe o desastre daquele projeto e seu fracasso ao tentar empreender qualquer gag visual que cause alguma graça.

E desanima ver o esforço gigante (e não recompensado) de uma atriz e cantora de tamanho talento quanto Jennifer Hudson, que até tenta inserir peso em sua personagem combalida pela rejeição e fracasso, mas acaba por perder-se em uma expressão constante de tristeza que se embaça no efeito felino de seu rosto. Ao menos na sua voz marcante durante o número musical, um vislumbre desse talento.

Mas aí já é tarde demais. A lembrança das baratas humanóides cantando, dançando e alimentando gatos já nos marcou.

*Texto originalmente publicado no jornal A Tarde, dia 30/12/2019

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Playmobil - O Filme


Desbravando a Imaginação Infantil


Ao dar vida aos bonequinhos que ilustraram brincadeiras de várias gerações, Playmobil – O Filme diverte com bom timing cômico e reverência aos musicais Disney

Por João Paulo Barreto

Desde que o primeiro filme para cinema tendo os brinquedos Lego como tema surgiu em 2014 (para TV, as produções são anteriores), foi perceptível o filão que a Warner Bros. tinha em mãos. Ao utilizar uma marca de bonequinhos de montar conhecida mundialmente, metade do caminho em relação a apresentar uma nova franquia de sucesso para crianças e adolescentes (adultos, também, convenhamos) do século XXI, abastecidas desde sempre com tais brinquedos, já estava andado. Faltava apenas conceder personalidades cômicas aos seus personagens, utilizar vozes hilárias, uma história que explorasse seus diversos mundos e pronto. Lá estava um sucesso que gerou grana, continuações e outros filmes temáticos a explorar seus personagens (como o próprio Batman, cuja licença já é da Warner).

Assim, não tardaria muito para que outro brinquedo clássico que estimula imaginações de crianças há décadas seguisse ideia semelhante e chegasse às telas de cinema com uma história que visita seus diversos mundos, traz várias referências à cinefilia e à cultura pop como um todo e, reconheço, se sai bem na função de divertir adultos e, possivelmente, crianças. A criança que ainda mora em mim (piegas, eu sei) se divertiu, ao menos. Playmobil – O Filme segue exatamente essa cartilha de preencher 100 minutos com as várias possibilidades de imaginação que muitos pequeninos tiveram ao crescer em contato com os pouco articulados bonequinhos e seus vários cenários criados para catapultar vendas.

Personagens em busca 

O diretor estadunidense, Lino DiSalvo, experiente animador oriundo do Walt Disney Studios, em entrevista para  A Tarde, afirma que, ter um tema que reside na imaginação de diversas crianças e adultos há tanto tempo, foi algo que o desafiou na possibilidade de dar vida a um brinquedo notório por uma expressão única e uma limitação em seus movimentos. No entanto, encontrou um bom artifício.

“Playmobil é um tipo de brinquedo que você tem originalmente na vida real. Conhecemos sua expressão única. Por isso, foi  uma decisão na animação fazer os olhos dos Playmobils de uma maneira mais expressiva. Assim, eu poderia conseguir "atuações" maiores e expressar emoções de maneira mais ampla. No filme, muitas das expressões que você vê foram criadas em desenhos à mão. A minha parte preferida da animação é a atuação”, explica DiSalvo.

Diretor Lino DiSalvo

DIVERSOS MUNDOS

Com esse detalhe das expressões dos bonequinhos resolvido, mas ainda mantendo a marca das carinhas sorridentes como algo contínuo, caberia ao diretor e seus roteiristas utilizarem a proposta de visitar os muitos mundos que os cenários de Playmobil oferecem para criar uma narrativa fluída e que se aproveitasse bem dessa já estabelecida premissa de vários ambientes.

Na história, Charlie e Marla, dois órfãos vividos por Gabriel Bateman e Anya Taylor-Joy (que precisa criar o irmão caçula rebelde) são transportados para o mundo dos Playmobils, onde encontram diversos personagens, em especial um grupo de selvagens que acaba sequestrando Gabriel (agora transformado em um Viking). Na busca pelo irmão, os tais mundos são visitados por Marla, o que acaba servindo para DiSalvo inserir vários temas, o que vai desde as batalhas campais que remetem a Coração Valente a lutas em arenas lembrando obras como Gladiador.

Entre todos estes, porém, o que mais diverte é um breve mundo do velho oeste onde inicialmente vai parar Marla. Com inserções a referenciar o faroeste espaguete de Sergio Leone (lembrando das raízes italianas de Lino DiSalvo), essa passagem tem nos close-ups clássicos e em sua reverencial trilha uma momento de regozijo para os adultos fãs do Western na sessão a acompanhar os filhos.

Homage a Sergio Leone

MÚSICAS E ATORES REAIS

Lino DiSalvo traz para seu primeiro longa metragem como diretor uma vasta experiência na animação. Porém, para ele, a direção de atores de verdade, em cenas que não fossem animadas (popularmente conhecidas como live-action), foi uma experiência que lhe deu um pouco de medo.

“Para mim, dirigir pessoas de verdade, sendo que eu venho de uma carreira ligada unicamente à animação, foi algo muito assustador (risos). Quando você desenha algo e faz a animação, você tem o controle sobre aquelas expressões. Você pode, por exemplo, apagar uma sobrancelha e a ajustar melhor. Mas, claro, quando há uma pessoa atuando e você dirige, quem detém esse poder é ela,“ explica o diretor entre sorrisos. O diretor resume sua atividade como diretor de atores reais: “Meu trabalho no set era que, emocionalmente os atores estivessem no lugar preciso ,” explica DiSalvo.

Playmobil utiliza, ainda, uma ferramenta narrativa em seu desenvolvimento que remete aos clássicos Disney (mesmo que tenha sido deixada acertadamente de lado em filmes como os da Pixar e Dreamworks). Trata-se dos números musicais no desenvolvimento de seus personagens. Um tanto cansativo em alguns momentos, mesmo tendo essa ideia de homenagem pregada pelo cineasta.

“Eu amo a ideia vinda do cinema clássico em que um personagem consegue se expressar através de uma música. Eu me lembro de, quando criança, ver estas animações musicadas e cada parte delas era algo muito especial. Honrar esse tipo de cinema representa muito para mim”, finaliza Lino.

*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 23/12/2019




sábado, 21 de dezembro de 2019

Star Wars - A Ascensão Skywalker



O Declínio Imperialista

Apesar de previsível em suas reviravoltas, novo Star Wars encerra com boa reflexão político-social, emoção e espetáculo visual a trilogia Jedi dessa década

Por João Paulo Barreto

Após dois filmes nos quais a emoção do reencontro com velhos personagens, bem como com elementos pilares da clássica trilogia Star Wars, se sobrepunha dentro da trama em termos de impacto junto às audiências compostas tanto por fãs fervorosos como por apenas apreciadores de ficção espacial e da saga criada por George Lucas, o fechamento da nova série de longas iniciada em 2015 sob a batuta de J.J. Abrams retorna à essência original da ideia de Guerra nas Estrelas como um contexto prioritariamente da luta de classes por sobrevivência.

Sim, basicamente, neste último capítulo da terceira trilogia, o que se propõe é colocar em evidência a ideia precisa de uma resistência indo contra um opressor (ou ideia opressora) que retorna gradativamente à sua força de dominação, tentando espalhar seu poder (ou influência) através da violência (ou de ofertas falsamente promissoras que, ao final, só beneficiarão os seus), mas que bate de frente com a união de pessoas cientes que aquele mal não pode retornar das trevas.

Sim, qualquer semelhança com a realidade, infelizmente, não é mera coincidência e, ainda mais infelizmente, aqui, na nossa galáxia do real, o Lado Sombrio da Força está vencendo. E, sim. É exatamente isso. Tomei a liberdade de salientar um contexto político brasileiro nessa crítica. Nunca é demais lembrar-se do abismo do nosso próprio “Dark Side” e pretenso “Império”.

Rey e seu momento da verdade no despertar de sua Força

UNIÃO FAZ A FORÇA

Por este caminho, é bastante pontual que em seu tomo de encerramento, a trilogia volte à premissa original do clássico de 1977, colocando como argumento central a batalha pela sobrevivência de diversos povos unidos por um ideal de vida e contra a dominação armamentícia e econômica de um Império capaz de destruir todo um planeta com o fugaz apertar de um canhão.  Neste intento, a salvação reside na jovem padawan Ray (Daisy Ridley), que segue seu treinamento Jedi dessa vez sob a batuta da general Leia Organa (Carrie Fisher), irmã de seu antigo mestre, o falecido Luke Skywalker (Mark Hamil).

No reencontro com atormentado e dúbio vilão Kylo Ren (Adam Driver), mais do que uma simples dicotomia entre os símbolos do bem e do mal é trazida pelo filme de J.J. Abrams. Aqui, encontramos o personagem do rapaz corrompido desde a infância pelas ideias maléficas daquele lado obscuro citado acima, que acaba por se tornar um patricida, mas que, gradativamente, percebe o grau da manipulação que sofreu (o que não o redime de seu crime, pontuo). Lá, a jovem conhecida como catadora de sucata, mas que se nota possuidora de um poder Jedi que, neste episódio, percebemos esconder muito mais do que o “simples” equilíbrio da Força.

Na união das duas forças manipuladas pela tentação do Lado Sombrio, exatamente o que é necessário para suprir de energia renovada tal símbolo maléfico representado pelo retorno do Império. O que vemos a seguir, porém, é o acordar de uma autopercepção: a de que a força para destruir aquele mal residia na própria jovem. Intocada, Imperceptível. Bastava a sapiência de notá-la e usá-la de maneira perspicaz. Ok, não é necessário ligar os pontos aqui para compreender o simbolismo de Star Wars - ­ A Ascensão Skywalker em tempos tão sombrios e de levantar de forças obscuras em todo planeta Terra.

Eterna princesa Leia (Carrie Fisher): despedida 

FÓRMULA VS ESPETÁCULO VISUAL

Apesar de sua estrutura previsível de reviravoltas no que tange às batalhas espaciais, o encerramento da franquia pelas mãos J.J. Abrams (um declarado aficionado pelo universo Star Wars), faz jus a um objeto de culto de diversos fã radicais, que, óbvio, torcerão o nariz do mesmo modo como fizeram para muitas coisas vistas nos dois primeiros filmes. Porém, mesmo com seus perceptíveis problemas dentro dessa previsibilidade em seu desfecho, como resolução para a saga reiniciada há quatro anos, este último capítulo entrega visualmente os melhores momentos dos três filmes que integram a trilogia.

As lutas entre Rey e Kylo Ren em um oceano revolto, por exemplo, ou o momento em que certo personagem retorna para um emocional reencontro, compõem um belo cenário para um encerramento de peso.  Além disso, vale salientar o impacto do momento em que o elmo de Vader, como a representar todo um falho e vilanesco Império, é derrubado por um golpe de ambos, Kylo Ren e Rey, trazendo mais uma eficiente metáfora para a união daqueles dois pólos da Força contra um mal maior.

E quando um filme consegue te emocionar a partir do choro doloroso de um wookiee diante da perda de um dos personagens pilares daquele universo, bom, seu intento principal conseguiu ser alcançado. E isso em uma obra que lhe impede, mesmo dentro de um universo tão fantasioso, não esquecer, para o bem ou para o mal, do Lado Sombrio que está na realidade do lado de fora da sala de cinema.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 21/12/2019



sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Crime sem Saída


Caminhos Perigosos, Pontes Fechadas


Claustrofóbico e intenso em sua violência, Crime sem Saída, apesar do genérico nome nacional, reflete bem a metáfora das 21 Pontes fechadas do seu título original   


Por João Paulo Barreto

Há um frenesi constante nos 99 minutos de Crime sem Saída (título nacional genérico e preguiçoso que quebra o impacto e a metáfora de seu original, 21 Pontes) que colabora com precisão na criação de uma claustrofobia para seus personagens e, por consequência, para o seu público.

Na história da busca pela captura de dois suspeitos de assassinar oito policiais durante um roubo de drogas, e deixar a cena do crime com 50 quilos de cocaína, essa construção de uma atmosfera claustrofóbica, curiosamente, reflete não em um único local fechado como ponto de partida, mas, sim, toda a ilha de Manhattan. E tal ambientação, construída a partir da busca frenética de um policial honesto dentro de um ninho de ratos corruptos e fardados, alcança este intento não somente com enquadramentos e cenários sufocantes nas suas cenas de tiroteios, mas, de maneira inversa, também nas várias imagens aéreas da cidade de Nova York e das 21 pontes do rio Hudson, fechadas para impedir a fuga dos suspeitos.

Chadwick Boseman, notório ator que interpretou o Pantera Negra nos filmes da Marvel Studios, desenha com precisão a pressão sofrida por seu protagonista, o detetive Andre Davis, dentro daquela rede de corrupção e morte que gradativamente vai se estendendo como cenário para sua busca pelos dois supostos assassinos. Com uma conturbada herança familiar, o filho de um também policial famoso por sua competência, porém morto violentamente em ação, Andre segue os passos do pai dentro de um universo no qual sua sombra e lenda pesam-lhe nos ombros.

Boseman no papel do detetive Andre Davis: peso diante da lenda do pai

PONTES METAFÓRICAS
Aprofundando a trajetória dos dois supostos antagonistas que cometem os crimes (vividos por Stephen James e Taylor Kitsch) com peso semelhante ao que desenvolve o drama do próprio Andre Davis, Crime sem Saída concede uma reflexão acerca dos dois lados daquela trajetória de violência. A mesma violência que massacrou a infância de Andre, mas que, com o guia certo, pôde ser colocado nos trilhos da justiça, foi a que mutilou a família do jovem Michael, fazendo-o ceder a um impulso que, sem o mesmo tipo de guia e direcionado pela fúria constante da não aceitação, o levou para um caminho tortuoso cujo final refletiu em uma tragicidade.

Em seu título original, 21 Pontes, uma pertinente metáfora para tal construção dos personagens em fuga é construída. Ao desenvolver o personagem de Stephen James como um jovem de infância conturbada pela perda do irmão mais velho na guerra do Afeganistão e a tentativa desastrosa de seguir seus passos nas forças armadas, o filme tem no fechamento das pontes de Manhattan para impedir sua fuga, uma rima precisa para todos os caminhos que foram fechados na vida do jovem Michael.

Stephen James, que já havia brilhado em Raça e Se a Rua Beale Falasse, traz em seu olhar perdido durante seus tropeços criminosos, mas obstinado ao perceber o quão profundo é o abismo de corrupção miliciana em que se afunda, um peso essencial para a tragicidade de seu personagem.

Stephen James em sua simbólica cena

REALIDADES DISTINTAS
Nesse paralelo que a obra desenha, exibindo duas vidas oriundas de tragicidades semelhantes, mas escapando por diferentes caminhos, o filme constrói essa relação entre as existências conturbadas de suas duas figuras centrais. Michael, em seu desespero por perceber-se levado em um turbilhão do qual perdera qualquer controle, encontra pragmatismo e um pouco de fé na para encarar os olhos do seu talvez algoz, Andre.

A cena em questão coloca os dois homens cara a cara em um vagão de trem, em mais um dos símbolos da claustrofobia oferecida pelo diretor Brian Kirk (conhecido pela direção de alguns episódios de Game of Thrones). O momento põe os dois personagens apontando armas simultâneas entre si. Dois extremos de uma mesma origem de violência. Dois homens negros em desesperos semelhantes e, gradativamente, vitimas caçadas pelos mesmos algozes.

Em sua conclusão, a cena insere um terceiro personagem. Branco. Corrupto. Assassino. Manipulador. Como um símbolo vergonhoso para uma suposta justificativa para os atos de corrupção, o diálogo que fecha o filme traz uma ótima oportunidade para observar como funciona a deturpação de um sistema de segurança falido moralmente, onde policiais oprimem através do medo, impondo não autoridade, mas, sim, terror. Vindo de um país como os Estados Unidos, a mensagem contida em um filme de rótulo de ação é muito bem vinda à reflexão.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde dia 13/12/2019

domingo, 8 de dezembro de 2019

Western Stars


A Plenitude de um Mestre 


Mescla de documentário e performance ao vivo, Western Stars nos presenteia com um Bruce Springsteen, aos 70 anos, completo em sua sabedoria e talento


Por João Paulo Barreto

Há uma introspecção oferecida por Western Stars, mescla de documentário intimista e performance ao vivo de Bruce Springsteen, que alcança indivíduos além dos seus ávidos fãs que devem comparecer ao cinema para conferir tal experiência. O que Western Stars oferece ao espectador atento para essa pérola em cartaz no Circuito Sala de Arte é uma reflexão acerca da vida em sua completude. Acerca de erros cometidos em uma trajetória e acerca da necessidade de se perdoar no que tange a tais erros. Mas, sobretudo, Western Stars é sobre envelhecer com uma consciência tranquila e uma serenidade que possa lhe dar paz. Independente dos percalços que aquela sua trajetória lhe trouxe, o que esta obra pode lhe oferecer como ser humano, e isso não necessariamente exige uma familiaridade sua com a biografia do boss, é uma redenção intima e uma reflexão sobre o seu próprio envelhecer.

Ler isso pode soar romantizado e idiossincrático, mas a obra de Bruce Springsteen, que completou 70 anos de idade esse ano, dialoga com as pessoas de maneira singular, trazendo reflexos da experiência de uma trajetória com a qual muitos podem se identificar. Lutar contra os próprios demônios, angústias e apreensões é algo que aflige a muitos. É o meu caso. É o caso de muitas pessoas que seguem em frente em tempos tão estranhos e sombrios. Ter a capacidade para reconhecer e valorizar a arte e o poder de um compositor como ele, a força de sua escrita para alcançar um conforto pessoal mínimo, é algo deveras importante para quem se interessa por música como uma força de reflexão.

Bruce aos 70: a serenidade que a longa e sinuosa estrada trouxe

CARISMA E DIÁLOGO

Com um artista notório por seu carisma e criações capazes de dialogar com um público de diversas classes sociais e etnias, podemos encontrar um conforto em letras que abordam desde paixões amorosas (correspondidas ou não, como é o caso de Bobby Jean); dificuldades de uma vida de sufocos financeiros e sonhos despedaçados (The River); superação dessas mesmas dificuldades (Better Days); nostalgia de um tempo bem vivido, mas só reconhecido tardiamente (Glory Days); peso de uma pátria exploradora e corruptamente bélica (Born in the USA); denúncia contra a fascista brutalidade da polícia (American Skin – 41 Shots), além de um (entre vários) hinos do azarado em busca da própria estrela, como é o caso de Born to Run. Bruce Springsteen é aquele tipo de ídolo que, independente do mesmo trazer um som que lhe agrade, suas letras, em algum momento, vão falar diretamente aos seus ouvidos. Basta ficar atento(a).

ENTREGA PESSOAL

Em Western Stars, o boss revisita lembranças de sua vida, aborda seu envelhecimento, sua relação com a esposa Patti Scialfa, e concede ao público um presente especial: um show com o novo álbum homônimo tocado na integra direto de seu secular celeiro, em uma atmosfera brilhante, e acompanhado por uma orquestra com trinta integrantes. Nas faixas do disco, mais um documento da sinceridade e honestidade de um artista pleno, que não esconde os próprios tormentos, preferindo compartilhá-los, distante de qualquer auto-piedade, na busca do evoluir além deles. “É fácil se perder de si ou nunca encontrar a si mesmo. Quanto mais velho você fica, mais pesado aquela bagagem que você carrega e que não superou fica. É quando você foge. E eu cometi muito desse tipo de fuga ”, afirma Bruce, em sua inconfundível voz rouca, entregando um dos muitos diálogos redentores do filme. Em outro momento, ele fala da sua constante luta contra aquele sentimento que o atormenta, referindo-se à luta contra a depressão que quase o 
combaliu. 

Bruce e sua esposa, Patti Scialfa

Passei 35 anos tentando aprender a deixar para trás as partes destrutivas de minha persona. E ainda há dias em que eu preciso lutar conta isso”, salienta o chefe antes de introduzir uma das novas faixas, em um dos momentos mais marcantes da obra.

“Todos nós temos nossas partes despedaçadas. Emocionalmente, espiritualmente, nessa vida, ninguém consegue escapar sem se machucar. Nós estamos sempre tentando achar alguém cujas partes despedaçadas se encaixam com as nossas próprias e, assim, algo inteiro possa emergir”, reconhece Bruce, ao abordar seu casamento de quase trinta anos após vermos imagens de arquivo dos dois bem mais jovens em uma rima exata com a sintonia no palco.

De certa maneira, é bom ver o Boss sorrir, feliz. Se alguém que nos ajudou e fez refletir diante de tantos percalços consegue alcançar essa plenitude após caminhos tortuosos de uma vida, a esperança te aquece o peito de forma especial ao assistir a Western Stars.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 08/12/2019


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O Juízo


SOBRENATURAL VINGANÇA

Em O Juízo, o crescente destroçar psicológico e físico de um pai e sua racionalidade encontra paralelos na reparação histórica da escravidão no Brasil


Por João Paulo Barreto

A gradativa perda de uma sanidade ameaçada por vícios e fraquezas, juntamente a um estado de ganância cega e inescrupulosa, são o mote principal de O Juízo, novo filme de Andrucha Waddington. Com um título a abordar a proposta dessa perda de uma consciência mental (um juízo de comportamento intimo) diante do não compreensível sobrenatural, a obra de Waddington, escrita por Fernanda Torres, traz essa desconstrução de seu protagonista diante daquilo que ele não entende e que advém do intangível.  Junto a isso, também está aquilo que já o corrói há tempos dentro de um mundo e de uma vida material constituídos por um vício no alcoolismo e as consequentes derrotas atreladas ao mesmo.    

Na figura de um destroçado pai que tenta salvar um casamento fracassado, o drama de O Juízo, além do apropriar de uma alegoria do sobrenatural para contar uma história de vingança, tem nessa desconstrução de seu personagem central sua mais notável característica. Porém, para além dessa proposta direta de análise da quebra psíquica de um homem, Torres traz em sua escrita e título do filme uma questão de juízo e justiça que resvala em uma questão histórica. Na opressão de senhores do garimpo contra escravizados em busca de diamantes da salvação, o longa de Waddington concede ao seu público uma reflexão pertinente do real em uma rima precisa com o gênero do terror e suspense.

“A escravidão que aconteceu no Brasil é algo irreparável, mas que deve ser encarada. É algo que está dentro da sociedade brasileira de uma maneira muito violenta. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Então, é uma questão muito séria. A presença forte de Criolo no papel do Couraça colocou toda essa personificação neste personagem. A encarnação desse Couraça trouxe essa questão ao filme”, explica o diretor Andrucha Waddington.


Criolo e Felipe Camargo: peso em interpretações 

DESMONTAR FÍSICO

Em Augusto, o pai em questão, centra-se a tal desconstrução de um homem a ceder aos próprios fantasmas e àqueles que o cercam de maneira sobrenatural. No papel, Felipe Camargo, em sua postura combalida e expressão de constante pesar, coloca sua presença física de maneira a salientar exatamente essa ideia da loucura que gradativamente engole sua psique.  E Waddington salienta esse crescente de loucura de maneira surpreendente dentro de uma proposta de terror.

Essa abordagem reside no construir de uma ambientação dentro do cinema de gênero que não necessariamente precisa apelar para os sustos fáceis, os conhecidos jump scares, para causar em seu público uma reação artificial diante dos elementos que o filme traz. Assim, naquela casa no interior de Minas Gerais, cercada por montanhas, matas e silêncio, Waddington alcança uma densa atmosfera de tensão que se vale bem mais da sugestão de um terror à espreita do que de algo palpável a gerar em sua audiência qualquer falsa catarse dentro do horror. “Lembro de um filme chamado Os Inocentes, dirigido por Jack Clayton. Um suspense com um toque de loucura, do sobrenatural. Uma obra absolutamente clássica. Foi uma grande inspiração para mim”, afirma Waddington acerca das influências na construção de O Juízo.

Fernanda Montenegro no papel da médium espírita Marta Amarantes

ARQUÉTIPOS E RELIGIOSIDADE

Na história, aqui, o espírito de um ex-escravo e garimpeiro volta em busca de vingança contra a família cujo ancestral o traiu, causando sua morte e a de sua filha. No papel do atormentado Couraça, Criolo cria um personagem cuja dor e um planejamento calculista contra o homem que o traiu anos antes guia sua jornada no pós-morte. Esse pós-morte é um dos pontos louváveis da obra, que, em um ambiente que remete à desolação de um Hotel Overlook, cria para o público uma sensação de sufocamento que, mesmo em um cenário de tamanha amplitude, consegue tornar palpável o desconforto do espectador diante do destroçar físico e psicológico daquele pai atormentado, vitima da vingança e da própria ganância.

“Como referência, de uma maneira geral, eu tenho todos os grandes filmes que vi em minha vida. É algo que fica dentro de você. Vendo essa ideia de um cara que vai com a família para uma casa e lá fica preso, com a loucura a dominá-lo, não tem como não pensar em O Iluminado. São arquétipos do gênero que se você não esbarrar em um, esbarrará em outro. Cabe a você se apropriar da história que está contando e fazê-la da maneira mais autoral e fidedigna para a dramaturgia que está levando para a tela,” salienta o cineasta.

É comum em diversas produções brasileiras vermos a religião espírita ser abordada de uma maneira que se mantém, na maioria das vezes, entre o romantismo e um tom pretensamente científico. Assim, ao inserir a personagem de Marta Amarantes, uma médium espírita em uma proposta que, apesar de se ater ao cinema de gênero, traz um conceito respeitoso e fiel ao espiritismo (e digo isso como alguém que, mesmo ateu, foi criado na doutrina kardecista). Uma abordagem bem vinda para uma obra que, apesar de calcada no fantástico, tem um consciente viés dentro da religião espírita. E com a presença de Fernanda Montenegro a viver a personagem de Marta, é alcançado um peso para um papel que poderia facilmente derrapar em um clichê místico, mas que tem em sua naturalidade outro ponto alto.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 06/12/2019