domingo, 17 de setembro de 2017

Entrevista: Aly Muritiba

Entrevista originalmente publicada no A Tarde On line:


O cineasta Aly Muritiba durante o festival de San Sebastian
Nascido em Mairi, interior da Bahia, Aly Muritiba estudou História no sudeste e trabalhou durante vários anos como agente penitenciário no Paraná. Migrar para o cinema era algo impensável para o jovem de, até então, pouco menos de trinta anos. A abertura de um curso de cinema em uma universidade paranaense trouxe a ele não somente uma oportunidade de se dedicar à sétima arte, mas uma chance de escapar da estafante e estressante rotina de trabalho dentro do sistema carcerário. “Lembro-me que foram três coisas que me atraíram ao curso de cinema: uma era o fato de que era gratuito; a segunda razão era que acontecia durante as tardes, e a terceira e mais importante: significava uma pausa preciosa na minha rotina dentro da penitenciária como agente”, relembra o cineasta durante o papo pós-exibição de seu novo filme, A Gente, última parte da Trilogia do Cárcere, iniciada com os curtas A Fábrica e Pátio. Voltar ao seu mesmo local de trabalho antes da labuta como diretor traz um impacto significativo para o diretor. Na entrevista a seguir, Muritiba comenta essa experiência e salienta a desesperança de um sistema prisional que visa o lucro antes da teórica ressocialização dos seus internos.

Por João Paulo Barreto

Este é o seu terceiro filme a discutir o sistema prisional. Trata-se de um tema do qual você tem muita familiaridade pela sua experiência como agente penitenciário.
Na verdade, me interessa discutir temas que são relevantes para mim e que eu julgo que talvez sejam pertinentes discutir com a sociedade. As questões que são abordadas pela Trilogia do Cárcere, que é encerrada agora pelo A Gente, são questões que dizem respeito ao sistema penitenciário e que a sociedade precisa de alguma maneira encarar. Ela precisa discutir para de alguma forma encontrar uma... bem, solução eu não acredito que seja a palavra certa, mas pelo menos encontrarmos alguma maneira de remediar a situação calamitosa daqueles que habitam o sistema carcerário. Mas, claro, em meus filmes não é o único assunto sobre o qual eu falo e sobre o qual eu queira falar. Eu tenho alguns próximos trabalhos que estou desenvolvendo agora e que, também, abordam temas atuais e urgentes. No caso da cinematografia que eu faço, é justamente temas assim que me interessam.  (NE. O próximo filme de Aly Muritiba chama-se Ferrugem e aborda a exposição na internet pelo ponto de vista adolescente.)

Você opta por inserir códigos de radiocomunicação a dividir os atos do filme e isso funciona como um guia para o espectador diante daquele labirinto. Como se deu essa escolha?
O filme é dividido em cinco partes que são nominadas pelo código Q, uma linguagem universal, na radiocomunicação. E é uma linguagem que a gente utiliza, os agentes penitenciários, policiais, operadores de rádio amador para poder abreviar e tornar a comunicação mais precisa. Os códigos que aparecem na tela praticamente dão nomes aos capítulos. No entanto, estes nomes só são apreendidos por quem entende a língua Q. Para quem não entende, rola uma espécie de desnorteamento, algo que, inclusive, me interessa também.  Esse desnorteamento nos corredores da penitenciária traz a proposta do filme em dar ao espectador a oportunidade de entrar em uma penitenciária, de viver o dia a dia de uma prisão, quase que de maneira antropológica, sem grandes explicações, mas com a segurança e o conforto da cadeira de cinema.

O protagonista Jefferson Waiku e os desafios de sua rotina
Nessa entrada no sistema prisional, entretanto, você acaba levando o espectador para dentro da vida do agente Jefferson Waiku.
Sim. Era importante para mim, também, que o agente penitenciário fosse mostrado tanto na esfera privada quanto na profissional para que a gente enxergasse o homem que há por trás do colete, o homem que há por trás da farda. E o Jefferson, que acabou sendo escolhido como protagonista do filme, tem uma vida particular bastante peculiar. Ele é pastor evangélico de uma pequena comunidade e este aspecto é muito rico para o filme, muito interessante. Trata-se de um agente penitenciário que trabalha em um sistema que, embora a lei diga que deve  ser ressocializante, é na verdade punitivo. Assim, como agente penitenciário, ele trabalha na lógica da punição. E quando está fora da cadeia, atuando como pastor evangélico, ele esta trabalhando na lógica da salvação e do perdão, que são aspectos de certa maneira contraditórios. E isso torna o personagem dele bem mais profundo.

Exato. Eu enxergo essa atuação dele como pastor imaginando que sua postura é a de evitar que jovens entrem no crime e que ele precise encará-los no futuro.
É uma leitura possível, sim. Uma forma de atuar onde o Estado não atua. O Estado falha.

Seu filme traz uma desfragmentação do Jefferson Waiku, mostrando-o gradativamente perdendo sua postura fria e calma diante de sua rotina dentro do sistema penitenciário.
É. Esse sistema é uma máquina de moer carne. E ela mói a carne do detento e mói a carne do agente, também. É muito difícil você manter um equilíbrio. Digo isso com propriedade porque eu fui agente penitenciário. É difícil você manter a sanidade, a ética e a crença ali dentro. Porque as condições dadas, ou melhor, as não condições dadas pelo Estado destroem qualquer possibilidade de execução do trabalho de maneira adequada. O Estado se ausenta completamente. A burocracia estatal acaba com qualquer profissionalismo que você tenha. E isso acaba sendo encarnado pelo Jefferson de maneira bastante didática.

Após os dois curtas que traziam, também, o sistema prisional como foco, A Gente muda o foco de abordagem, causando, além disso, uma sensação claustrofóbica de labirinto no espectador.
Sim. Diferente dos dois filmes anteriores, que falam dos pontos de vista ou da família do preso, no caso de A Fábrica, ou do ponto de vista próprio preso, em Pátio, em A Gente, eu queria falar única e exclusivamente do agente penitenciário. Nesse sentido, o preso e a cela são os objetos de trabalho dele. Eles funcionam muito bem fora de quadro, como estes objetos sem rosto, mas com voz, com o quais ele tem que trabalhar diuturnamente. E a cadeia, no caso,  uma penitenciaria, é um grande labirinto kafkiano burocrático. Você tem que ficar tentando encontrar uma saída. E não tem saída. Aí, nesse sentido, a geografia e a arquitetura da penitenciária foram utilizadas para transmitir essa sensação de claustrofobia burocrática kafkiana.

O cineasta e seu protagonista
Como se deu sua migração de agente penitenciário para cineasta?
Eu fui estudar cinema muito tarde na vida. Já com vinte e sete anos de idade, eu fui fazer uma faculdade na área. Entrei na universidade porque a rotina na penitenciaria era estafante e estressante. Eu estava a fim de encontrar outra atividade social que fosse um pouco mais lúdica, na qual eu pudesse conviver e interagir com pessoas de outra natureza. Encontrei nas cadeiras acadêmicas esse refúgio. Escolhi esse campo porque imaginei que seria muito fácil estudar cinema, vendo filmes, escrevendo sobre filmes e coisas do gênero (risos). Mas, aí, ao entrar na faculdade, me encantei completamente com o fazer cinematográfico. Comecei a realizar e, depois, isso se tornou algo sustentável para mim. Após um tempo, deu para abandonar a cadeia e me dedicar apenas ao cinema.

Imagino que, para você, aquele período na sala de aula tinha um impacto bem maior de libertação que para muitos dos seus colegas de classe.
Ah, eu imagino que sim (risos).

Após passar pelo sistema carcerário como agente interno e como observador fílmico, você diria que há alguma possibilidade desse sistema mudar?
Ah, não. Eu não tenho qualquer esperança de que o sistema possa mudar. Também não tenho qualquer esperança de que meu filme possa contribuir para qualquer mudança neste sistema. Ele pode, no máximo, fomentar uma discussão, mas eu não tenho essa visão naive, inocente. Eu sei que o sistema gera muito lucro para empresas terceirizadas e para entes políticos. Quanto mais encarcerados mais serviços terceirizados são necessários. Então, eu tenho certeza que o sistema continuará tão ruim ou pior do que aquele que eu encontrei e que eu retrato no filme. Isso não vai mudar. 

A Gente

(Brasil, 2013) Direção: Aly Muritiba. 


Por João Paulo Barreto

Há um labirinto tanto físico, feito de paredes concretas, quanto um feito de burocracias que, apesar de imateriais, aprisionam do mesmo modo os personagens de A Gente, novo documentário do diretor Aly Muritiba. Nestes dois labirintos, co-habitam presos e agentes penitenciários, estes últimos, foco principal da lente do cineasta nesta terceira parte da trilogia do cárcere, iniciada pelos curtas A Fábrica e Pátio. Dentre estes agentes está Jefferson Walkiu, um dos coordenadores internos de um presídio em Curitiba. Observar a postura de Walkiu diante dos problemas que lhe são apresentados em sua rotina de trabalho é observar a desfragmentação contínua de um homem em cinco atos, que Muritiba insere na tela representados por códigos radiofônicos.

A câmera segue o agente Walkiu por estes corredores labirínticos. Mostra seus diálogos com os presos, focando sempre na imagem dele e dos outros profissionais. A voz dos presos é ouvida, mas o direcionamento está na relação dos funcionários diante dos desafios daquele dia a dia. Enquanto segue em sua abordagem de diálogo com os detentos, Walkiu esbarra nas limitações de um sistema carcerário que foca no lucro em detrimento de qualquer suposta função de ressocialização.

Ao espectador, fica a percepção de que a ideia quantitativa de pessoas atrás das grades rege todo o interesse comercial daquela forma de lucro. Quanto mais presos, maior a necessidade de terceirização de serviços e maior o número de contratos que o governo terá que abrir com empresas sem qualquer viés de investimentos na melhoria da qualidade de vida dos internos.

Jefferson Walkiu e sua rotina na penitenciária
Assim, observamos com perplexidade a ausência de algemas e coletes para os agentes; a diminuição quantitativa de itens, como o impressionante momento em que Walkiu precisa explicar aos detentos sobre a redução do café destinado a eles; as propostas sindicais de melhorias salariais que estagnam diante da omissão do Estado, e, ao final, o que notamos na expressão daquelas pessoas é uma crescente sensação de inércia perante aquela rotina.

Walkiu é apresentado, também, fora daqueles muros, quando atua como pastor evangélico. É inevitável perceber o sorriso no rosto do homem diante de sua congregação e não pensar que aquela expressão só existe quando além da instituição. Em outro momento, observá-lo conversar com alguns jovens acerca de estudos bíblicos faz o espectador imaginar que aquela conversa possui, também, uma ação conscientizadora: aja agora para que não seja preciso encarar aqueles jovens por entre barras de metal futuramente.

Ao retornar ao seu posto de trabalho, no entanto, aquele sentimento cessa. A tensão retorna e voltamos a perceber aquele desgaste correr o homem que parece ser inabalável diante de seus desafios profissionais. Um diálogo final, no entanto, e uma reação cansada perante um jogar da tolha, leva o espectador a concluir que todos possuem um limite. Para o agente Jefferson Walkiu, esse limite chegou. 


terça-feira, 12 de setembro de 2017

Entrevista: Sam Garbarski

O cineasta Sam Garbarski, diretor de Bye Bye Alemanha

Por João Paulo Barreto

Dez anos depois de Irina Palm, sucesso premiado em diversos festivais e exibido em mais de quarenta países, Sam Garbarski, cineasta radicado na Bélgica, volta à sua Alemanha natal para tratar de um tema delicado: a sobrevivência de ex-prisioneiros de guerra no período pós queda do Terceiro Reich, na Frankfurt arrasada pelo conflito bélico. O que poderia descambar para um drama maniqueísta, consegue se equilibrar muito bem entre a comédia sutil junto com uma dose pertinente de reflexão perante o peso de seus personagens. Bye Bye Alemanha aborda justamente a adaptação dos judeus nascidos no país germânico a uma rotina de sobrevivência, em 1946, logo após a vitória dos Aliados. “Hitler está morto. Mas nós, não”, afirma David Bermann, um típico malandro de bom coração, vivido por Moritiz Bleibtreu, ao incentivar seus conhecidos a entrar com ele na área de varejo, muito bem azeitada, friso, por técnicas incomuns e não muito éticas para convencer clientes. Trata-se de alguém que, apesar de tamanho trauma vivido nos anos anteriores, conseguiu, na medida do possível, utilizar seu bom humor, boa lábia (e uma dose de mentiras) para sobreviver aos horrores da guerra e, agora, ao capitalismo selvagem. Um filme que, de modo sagaz, acaba abrangendo não somente o período histórico em questão, mas, também, os xenofóbicos e racistas tempos atuais, como bem salientou o diretor em entrevista exclusiva ao jornal A TARDE.

Seu filme consegue trazer um equilíbrio muito eficiente entre humor e drama, abordando um tema tão pesado quanto a situação dos judeus no pós e durante a Segunda Guerra. Como se deu essa construção?
A ideia na criação do roteiro sempre foi essa. A de conseguir criar uma linha entre o humor e o drama. Mas ao optar por abordar esse humor, a intenção não era fazer algo pastelão, mas utilizar a sutileza daquelas situações de graça. De respostas rápidas e irônicas para situações tensas. No caso do filme, de alguém que precisa usar desse humor para sobreviver. E o personagem de Moritz Bleibtreu é justamente isso. Um sobrevivente.

Nessa sutiliza, é perceptível muito de um humor tipicamente do povo judeu, não é mesmo?
Sim. A minha intenção era de abordar aquele tema como uma sutil comédia, algo bem comum ao humor do povo judeu, na verdade, mas sem perder o peso dramático que a história possui. Da mesma forma, busquei um equilíbrio no estilo. Não queria que fosse um filme de gargalhadas rasgadas, mas algo que, através do riso, trouxesse uma reflexão sobre a seriedade de tudo aquilo.

Técnicas não muito ortodoxas de vendas: Moritiz Bleibtreu vive David Bermann
Creio que o longa vai gerar muita identificação com o público no Brasil por conta de um imaginário popular que temos aqui no Brasil. O do malandro de bom coração, que busca escapar de situações difíceis usando a boa lábia e o seu humor.
É mesmo? Que bom! Fico feliz em saber que a identificação poderá ser ainda mais forte com o público brasileiro. Sabe, esse tipo de postura, de usar o bom humor perante as dificuldades que encontramos no caminho, é um pouco a minha própria filosofia de vida. Então, ao fazer o filme, eu tinha um pouco dessa identificação, também.

Apesar de tantos momentos de graça, existe força nas situações dramáticas. Entre estas, lembro de uma cena que desenha esse drama de forma bem impactante, quando o protagonista é desafiado a jurar pela vida de alguém de sua família, mas percebe que não há mais ninguém por quem fazer isso.

Eu concordo com você. Este é um momento muito forte para o personagem vivido por Moritz Bleibtreu, David Bermann. O filme possui essas situações de graça, mas, por debaixo, está a dor do seu passado de sobrevivente. No entanto, mesmo assim, ele não deixa de lado aquele seu bom humor. Eu busquei esse equilíbrio, sabe? É um estilo de comédia discreta, um humor tipicamente judeu.

Podemos dizer que se trata de algo até mesmo filosófico, um atenuar da dor, não?
Sim. Algo mais filosófico, de fato. Não é o tipo de comédia em que o espectador gargalha. Eu queria mostrar naquela história que ele sempre buscava uma forma de usar seu otimismo e graça para escapar de situações que não eram nem um pouco engraçadas.

David e suas mercadorias valiosas
O filme conta com um roteiro adaptado de Michel Bergmann, a partir do livro escrito por ele mesmo. Como foi essa parceria entre você e o autor da obra original na criação da história?
No começo foi bem fácil, uma vez que eu realmente gosto do livro e tinha os personagens desenvolvidos em minha mente. Após um tempo, nós tivemos nossas discordâncias no processo de criação, porque eu tive que cortar alguns personagens que ele conhecia muito bem, afinal eram baseados em seu livro.

Na versão literária original, os personagens divergiam muito?
Eles eram um pouco diferentes dos que eu tinha em minha mente para o filme. Não era sempre que eu e Michel Bergman estávamos na mesma sintonia durante o processo de criação. Aliás, foi um processo de escrita longo, quase dois anos. Tivemos nossas diferenças naquele período, mas, ao final, após alguns ajustes, conseguimos um equilíbrio.

David e o adorável Motek: "Ele é alemão, mas nunca foi nazista"
Há bastante sutileza em suas metáforas relacionadas com o preconceito. Creio que a melhor delas envolve o cão de três patas adotado pela família judia e a cena em que Bermann afirma que, apesar de alemão, “o cachorro nunca foi um nazista”. Bastante pertinente em relação ao período atual.
Fico muito feliz com sua percepção desse detalhe no filme. Essa era a intenção. Bom, trata-se de um cachorro com apenas três patas. Como não se afeiçoar? (risos)

Exatamente. Mas o filme não abusa dessa artimanha de conquistar o público com animais adoráveis.
Na verdade, o cachorro é um sobrevivente alemão. Perdeu sua pata em algum bombardeio, foi abandonado pela família alemã e adotado pelos judeus quando encontrado vagando pelas ruas devastadas após a guerra.  Seu nome, Motek, vem do hebraico e significa “querido”.  Eles o apelidam assim, com um nome judaico, mas eles sabem que ele é alemão. Essa é a beleza desse detalhe e o modo como essa metáfora se adapta bem aos nossos tempos. Do mesmo modo que naqueles dias nem todos alemães eram nazistas, hoje, nem todo muçulmano é um terrorista.

A TARDE: Entrevista - Sam Garbarski




Entrevista: Sadek, de Tour de France

ENTREVISTA PUBLICADA ORIGINALMENTE EM A TARDE, DIA 09/09/2017

Rapper francês Sadek fala do desafio de atuar ao lado de Gérard Depardieu em Tour de France


Com um título que traz alusões geográficas ao adentrar e aprofundamento em solo francês, Tour de France aborda a afirmação de um jovem perante suas próprias raízes culturais, tanto no âmbito de suas origens quanto na assimilação plena de sua música. Em paralelo, trata-se de um filme que, em tempos de um estado de exceção e ascensão de uma nova direita xenofóbica e preconceituosa, garante uma reflexão pertinente sobre a imbecilidade de um pensamento retrogrado e racista no que se refere ao mundo islâmico.

O premiado rapper Sadek, aclamado na França como uma das revelações no estilo, surpreende com uma atuação sincera que não se deixa enfraquecer diante do desafio de atuar ao lado de um nome como Gérard Depardieu. Muito do vemos na tela em termos de atuação, ele afirma, é retirado de sua própria adaptação em abordagens da polícia. “Tive que aprender a atuar por conta dos desafios que encontrei nas ruas”, afirma.

No Brasil para divulgar Tour de France, o jovem falou sobre o rap e sobre a boa química com Gérard Depardieu.

Por João Paulo Barreto

Tour de France traz em sua essência uma reflexão bem pertinente acerca da marginalização do rap diante de uma sociedade elitista que não considera o tipo de música como arte. Na França, um país berço de diversas culturas clássicas, como é ser um rapper?
Eu lido muito com a condescendência. As pessoas tendem a ser muito condescendentes comigo e com os rappers. Para mim, os músicos de rap são, antes de tudo, poetas. Gênios e poetas. Eu acho um absurdo quando eles dizem que nós não temos cultura. O fato de não compartilharmos da mesma cultura que eles não quer dizer que nós não a possuamos. Essas pessoas admiram poetas que viveram há três séculos. E é engraçado observar que, na maior parte deles, tais poetas eram pessoas que viviam se drogando, viciados mesmo. Se você for enxergar por um ponto de vista técnico, aqueles poetas não têm o mesmo tipo de dificuldade que nós temos hoje. Nós temos que adaptar nossas palavras, nossas rimas, em um ritmo de música. Nós temos que gerir essa emoção musical que, para mim, é a linguagem da alma. Nós utilizamos maneiras de criação que são absolutamente geniais e que me emocionam muito. Eu li os dois. Eu li os poetas e li os textos e as letras dos rappers. E, para mim, o rappers são verdadeiros gênios. Então, que se foda Molière. (gargalhadas)

O rapper e ator, Sadek, em visita ao Brasil
Em uma das cenas, vemos o personagem de Depardieu destilar racismo e preconceito contra os rappers e contra o mundo árabe. E Far’Hook, seu personagem, o faz refletir acerca dos absurdos que ele está dizendo. Você considera essa cena algo que pode ser inspirado em suas próprias experiências pessoais?
Sim, totalmente. Porque, para mim, é uma questão totalmente social. Um exemplo que pode ilustrar isso e essa condescendência que falei antes aconteceu nessa minha visita ao Brasil. Ontem, eu estava em um jantar e uma produtora brasileira se aproximou de mim, pois naquele momento haviam dito a ela que eu sou rapper. Ela veio caminhando até mim, gesticulando uma postura que ela achava que seria de um rapper. Lá vinha ela com uma linda bolsa de grife, uma roupa de grife e, sei lá, ela deve ter sentido que podia criar asas (risos). Com toda condescendência possível, começou a gesticular daquele modo caricato, à maneira como supostamente um rapper se expressa para ela. Isso define bem a imagem que as pessoas desta classe dita superior possui dos rappers.

E como se deu o momento em que Depardieu faz um rap no filme? Você o ajudou de algum modo?
Foi algo bem espontâneo. O Gérard Depardieu é um cara que fez piada de tudo. Então, quando o personagem dele vem caçoar do rap daquele modo, é diferente do modo como ele mesmo faz. Porque nos momentos de pausa, quando conversávamos e ele vinha brincar, imitando um rapper, eu percebia que não tinha algo de malícia, de condescendência ou maldade. Durante as filmagens, ele vinha até mim às vezes e falava alguma coisa no meu ouvido, e aí cantava um rap baixinho para mim. E olha que ele faz um bom rap, também (risos). Eu vi que realmente não tinha condescendência da parte dele. Só posso dizer Viva Gérard. (risos)

Você ficou nervoso em trabalhar com Gérard Depardieu?
Não, de jeito nenhum. Eu sou uma pessoa que acredita em Deus. Então, eu penso assim, se eu estou aqui, é porque esse é o meu lugar. Ele vai ao banheiro do mesmo modo como eu vou,. (risos)

Mas, convenhamos, ele é um ator com uma trajetória incrível. Apesar de uma fase menor nos últimos anos, trabalhou com nomes pilares do cinema francês. De repente, você está diante dele e precisa atuar à altura. Como foi esse processo?
Claro, há uma disciplina. Para mim, ele é um monstro sagrado do cinema francês. Um mestre. E como eu nunca quis, na verdade, ser ator, eu estava ali para o que der e viesse. O que tivesse que acontecer, iria acontecer. Claro, eu e Gérard não temos a mesma idade. E eu sou uma pessoa que aprendeu a respeitar os outros. Eu digo o que eu penso, mas sempre com muito respeito. Nossa comunicação acabou sendo muito boa porque eu o respeitava. Ele, claro, uma pessoa com uma trajetória imensa, eu, um iniciante, mas havia muito respeito entre nós. Respeito de ideias.

Sadek e Depardieu em cena de Tour de France

O rapper Mos Def, atualmente conhecido como Yassin Bey, faz uma pequena participação no filme. É uma cena bem simbólica na qual ele lhe concede uma benção como um representante de uma nova geração de rappers na França.
Foi algo muito realista. Algo que me tocou, muito. O Mos Def é uma pessoa que me inspira muito no rap. Só de falar dele agora, eu fico arrepiado (mostra o braço com pelos eriçados). Eu me lembro que o Rachid (Djaidani, diretor do filme) me perguntou quem eu queria para fazer aquela cena. E eu não tive dúvidas que teria que ser o Mos Def, pelo respeito e admiração que eu tenho pelo trabalho dele. E algo curioso que aconteceu foi que, quando eu havia sugerido o nome dele para aquele papel, a produção ficou tentando entrar em contato com ele, mas ninguém estava conseguindo. Durante muito tempo estávamos tentando convidá-lo e nada. Aí, coincidentemente, o Clément Animalsons, que foi quem fez a música do filme, três dias antes de começar as filmagens, entra em um restaurante em Paris e encontra com Mos Def. Perguntou para ele se ele queria fazer. Ele estava lá com a esposa e aceitou o convite.

Você conhece muitos rappers brasileiros?
Ouço muito o saudoso Sabotage, que era um cara incrível. Nessa visita, eu escutei, em São Paulo, um pouco dos Racionais MCs e do Criolo, de quem gostei muito.  Gosto muito dos atores e filmes brasileiros, aliás. No cinema brasileiro, eu observo um leque gigantesco de possibilidades e atores fantásticos. Para mim, Wagner Moura não fica a dever em nada a Al Pacino.

Depardieu e Sadek: descobertas e superação de preconceitos
Alguma obra preferida no cinema brasileiro?
Eu acho Cidade de Deus uma obra prima. Eu fiquei pouco tempo no Brasil. Mas durante este período, eu conheci alguns lugares que me fizeram refletir sobre a necessidade de se fazer mais filmes que trouxessem uma reflexão acerca da realidade nas favelas, acerca da pobreza perpetuada pelo Estado. Filmes como este, uau, é algo que faz parte do patrimônio da filmografia mundial. Foi muito importante. Abordar a violência ao redor das pessoas que vivem na favela. Quando era “pobre” na França, eu morava em um lugar que tinha água corrente, eletricidade, mas era considerado um local pobre. E eu já fazia coisas erradas para poder sentir que eu era alguém, que eu poderia fazer alguma coisa. E a pobreza cultiva duas coisas. A obscuridade ou a luz. Tendo oportunidades, a pessoa pode se sentir iluminada por algo. Pela criatividade. Pela música. Eu creio que se tivesse crescido aqui nas favelas, eu acabaria me tornando ou uma pessoa muito má, muito ruim, ou então uma pessoa muito iluminada e criativa.

Após Tour de France, você já tem outros projetos de atuação. A experiência fez você se tomar gosto pela profissão?

Sim, totalmente. Já iniciei, inclusive, um novo trabalho ao lado de Vincent Cassel e Romain Duris. Chama-se Fleuve Noir e deve estrear no ano que vem. Quando o convite para fazer Tour de France surgiu, eu me senti um tanto inseguro, mas fui ganhando confiança. Após terminar, eu cheguei a achar a ideia de ser ator como algo inatingível, algo de sonho mesmo. Mas graças a esses encontros, a essa experiência trocada com pessoas como Depardieu, como Rachid Djaidani e o próprio Cassel, eu percebi que nada é inatingível, nada é inacessível. E mesmo que possa parecer um pouco pretensioso de minha parte, eu posso dizer que me considero um bom ator, eu sinto que sou um bom ator. Ao contrário de outros atores profissionais, que estudaram de modo teórico e prático as artes dramáticas, a minha experiência na atuação eu fui conseguindo nos controles de polícia. Nas vezes que eu cheguei a ser preso, eu tive que ser um ator e isso me evitou de ser ter problemas com os policiais muitas vezes. Eu fazia um papel de Rain Man, que o Dustin Hoffman fez (risos). Sem as câmeras, eu seguia aquela linha várias vezes quando a policia me interrogava e me abordava nas ruas por razão alguma. 

Encerramento e premiados - Cachoeira Doc 2017


Curtas e longas premiados na VIII edição do festival ratificam sua postura de cinema de urgência


João Paulo Barreto

O Cachoeria Doc encerrou sua oitava edição confirmando ser a grande festa do cinema no interior da Bahia. Com uma extensa programação que contou com mostras competitivas de curtas e longas-metragens; estreias mundiais de filmes; exibições especiais de curtas raros; homenagens a personalidades marcantes como Luiz Paulino dos Santos; mini-curso ministrado pela montadora e autoridade no ofício, Cristina Amaral; colóquio Cinema, Estética e Política, além de muita música ao final de cada dia, porque nenhum cinéfilo, crítico, parte da equipe do evento ou simples frequentador das sessões é de ferro. Animando a cidade, shows de diversos estilos esquentaram a noite às margens do rio Paraguaçu.

Sobre a premiação, o júri jovem, composto Álex Antonio dos Santos, estudante de cinema na UFRB; Fábio Rodrigues Filho, coordenador e designer do Cineclube Mário Gusmão e Geilane de Oliveira, também estudante de cinema em Cachoeira, premiou o impactante e essencial curta, A Gis, que conta a história do assassinato, em 2006, de Gisberta Salce, mulher transexual brasileira que vivia em Lisboa e foi torturada e morta por motivos homofóbicos.

A Gis, impactante curta de denúncia, recebeu menção honrosa
Além deste, o curta Deus, de Vinicius Silva, em um texto que salientou a plena identificação do júri com a luta de sua personagem principal, também foi premiado. Na menção honrosa, o júri jovem salientou a importância de Historiografia, filme de Amanda Pó, curta bem direto em sua mensagem de reconhecimento ao tabalho de mulheres no curso da história da humanidade.

O júri oficial do festival, composto pelo crítico e pesquisador, Rafael Carvalho; pela também pesquisadora Laura Bezerra e pela própria Cristina Amaral, confirmou um perfil que norteou todo o evento: o de valorizar um cinema de urgência, que dialogue com seu público buscando alertá-lo quanto ao esmagamento de minorias. Com duas menções honrosas, o júri salientou a importância de obras como Na Missão, com Kadu, de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito, no qual a abordagem tirânica das forças do Estado esmagam minorias que buscam apenas pelo direito de moradia.

Na Missão, Com Kadu, também lembrado em menção honrosa
Na segunda menção, o corpo de jurados ratificou a ideia de um cinema simples, mas eficiente, destacando um tema crucial como a liberdade de expressão sexual como símbolo de uma busca através da alegria. O curta em questão, CorpoStyleDanceMachine, uma pequena pérola de apenas 7 minutos, dirigida pelo jovem cachoeirano, Ulisses Arthur, aborda a figura folclórica de Tikal, morador da cidade do recôncavo que luta para manter sua afirmação em uma opção sexual que diverge de um padrão dito “normal”. Nas palavras do próprio Tikal ao contar sua história e na sua dança, uma eficiente mensagem de conscientização.

Como Melhor Curta Metragem, o júri agraciou Travessia, curta de Safira Morena, que aborda de modo poético a busca pela memória do povo negro através de fotografias e “a reconstrução de laços destruídos pelo processo de escravidão”. Bastante emocionada, a diretora desabafou no palco ao dedicar o prêmio a “todas as meninas pretas, pois é foda estar nesse rolê”.  Um dos momentos que definem essa edição.
Os dois júris, tanto o jovem como o oficial, optaram por premiar o filme denúncia Ava Yvi Vera – A Terra do Povo do Raio, longa dirigido por um grupo de jovens e lideranças das tribos Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso. O longa consegue casar imagens impactantes em sua beleza estética com uma crucial mensagem de restabelecimento da cultura nativa daquelas pessoas cujo desejo básico é o de viver da terra. 
Trata-se de um trabalho obrigatório para o audiovisual na sua função de registrar a luta atual dos Guarani e Kaiowá.

Cachoeira Doc termina e já deixa saudade.

Filmes premiados no VIII Cachoeira Doc

Júri oficial

- Melhor longa-metragem:
Ava Yvy Vera – A Terra do Povo do Raio (Minas Gerais, 2016, 52 min.)
De Genito Gomes, Valmir Gonçalves Cabreira, Jhonn Nara Gomes, Jhonatan Gomes, Edina Ximenez, Dulcídio Gomes, Sarah Brites, Joilson Brites

- Melhor curta-metragem:
Travessia (Rio de Janeiro,  2017, 4 min.)
De Safira Moreira

- Menção honrosa:
CorpoStyleDanceMachine (Bahia, 2017, 7 min.)
De Ulisses Arthur
Na Missão, com Kadu (Minas Gerais, 2016, 28 min.
De Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito

Cena de Ava Yvy Vera – A Terra do Povo do Raio, longa vencedor
Júri jovem

- Melhor longa-metragem:
Ava Yvy Vera – A Terra do Povo do Raio (Minas Gerais, 2016, 52 min.)
De Genito Gomes, Valmir Gonçalves Cabreira, Jhonn Nara Gomes, Jhonatan Gomes, Edina Ximenez, Dulcídio Gomes, Sarah Brites, Joilson Brites

- Melhor curta-metragem: A Gis (São Paulo, 2016, 20 min.)
De Thiago Carvalhaes
Deus (Rio Grande do Sul/ São Paulo, 2016, 25 min.)
De Vinicius Silva

- Menção honrosa:

Historiografia (São Paulo, 2017, 4 min.)
De Amanda Pó

O pequeno tesouro que é CorpoStyleDanceMachine, de  Ulisses Arthur

Em Nome da América, de Fernando Weller

TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE EM A TARDE, DIA 09/09/2017
http://atarde.uol.com.br/cinema/noticias/1893252-em-nome-da-america-traz-reflexao-geopolitica-para-cachoeira

Com estreia mundial no festival do recôncavo, filme de Fernando Weller esmiúça a ação política dos Estados Unidos no interior de Pernambuco

O diretor de Em Nome da América, Fernando Weller 

Por João Paulo Barreto

Com estreia mundial acontecendo na edição 2017 do Cachoeira Doc, festival de documentários que vai até domingo na cidade do recôncavo baiano, Em Nome da América, dirigido pelo pernambucano Fernando Weller, é um filme que causa desconforto. Tal sensação deve-se à percepção que o cineasta dá ao espectador acerca da ingerência estadunidense na política interna brasileira, fato que, normalmente, não soaria como novidade alguma diante do que já é notório na História. No entanto, o longa-metragem levanta questionamentos relacionados às ações do Tio Sam no Brasil que, mesmo diante de uma influência notoriamente conhecida, ainda surpreende pelo modo minucioso como ela se insere.

Em sua narrativa, o diretor busca respostas para as razões que justificassem a presença massiva de jovens norte-americanos na pequena cidade e arredores de Bom Jardim, no interior de Pernambuco, entre as décadas de 1960 a 1980. Tais pessoas, inicialmente apresentadas como membros do Corpo de Paz, programa de voluntariado inserido pelo então presidente John Kennedy, e voltado para um suposto desenvolvimento de países pobres da América Latina e de outros lugares do mundo, são resgatadas pelo cineasta e apresentam suas versões para o que aconteceu naquele período.

O suposto progresso chega a Bom Jardim
“É de conhecimento geral que os Estados Unidos teve ligação direta com a ditadura militar no Brasil. Documentos já desclassificados pela CIA (Departamento de Inteligência Americana) comprovam isso. Mas o que mais impressiona na história que eu quis apresentar é o nível de interesse do governo americano possa vir a ter em um local minúsculo como Bom Jardim” , explica o diretor Fernando Weller. Vale ressaltar que se trata de um período no qual a indisposição do governo Kennedy com Cuba, a crise da Baía dos Porcos, evento que quase causou o lançamento de um ataque ao país de Fidel Castro, bem como a aberta ligação da ilha com a União Soviética, tornou ainda mais exponencial a paranóia ianque perante focos de regimes comunistas e/ou socialista pelo mundo.

Mas é justamente o âmbito microscópico da sua atuação imperialista que impressiona. O filme, através de imagens e documentos de arquivo, esmiúça as suspeitas americanas de que um destes focos poderia surgir no nordeste brasileiro. No período, um dos maiores influenciadores do pensamento de luta proletária no Brasil, Francisco Julião, líder da Liga dos Camponeses, conclamava a massa de trabalhadores do interior de Pernambuco a se unir contra a exploração patronal nas culturas de cana-de-açúcar. Entrevistas realizadas pela TV americana à época exibem , por exemplo, um fazendeiro se gabando do poder que possui enquanto descarrega balas de revolver para o alto e para o chão; há também o momento em que um dos donos da plantação de cana admite, falando em inglês, que não tem interesse algum em pagar melhores salários aos seus homens, uma vez que, assim, eles não vão querer trabalhar. A região era justamente a de maior presença de jovens estadunidenses membros do Corpo de Paz, que oferecia a eles a opção de se voluntariar em países pobres, ao invés de serem convocados para a Guerra do Vietnã.

Moradores de Bom Jardim junto a alguns dos estrangeiros
Nas suas entrevistas, Weller apresenta as relações sinceras que muitos daqueles jovens americanos tinham com o idealismo humanitário, de ajuda real a um povo em necessidade. Uma delas, uma enfermeira que atuou no nordeste, se emociona ao lembrar que não conseguia aplicar injeções com vacinas em algumas crianças por conta da avançada desnutrição e ausência de músculos nos seus corpos pequeninos. Em outro ponto, durante um dos momentos de tensão por conta da impaciência da fonte, Weller entrevista um americano que admite o interesse da Casa Branca puramente na contenção de qualquer doutrina comunista ou socialista no local, contando para isso, inclusive, com a ajuda da igreja católica, que possuía padres à frente de órgãos financiados pelos Estados Unidos na atividade local.

“Havia entre os jovens naquele período, pessoas que enxergavam no projeto algo realmente humanista. Muitos deles estavam tentando ser úteis de alguma forma, algo que não seriam se tivessem que ir para a Guerra do Vietnã. Então, encontrar essas duas fontes representou justamente essa ideia de contradição. Alguém que genuinamente se emociona ao lembrar das dificuldades que encontrou no período passado no sertão e outro que estava lá por outras razões, montando todo um instrumento para, dentro daquela ajuda humanitária, aparelhar um projeto maior no real interesse americano”, explica Weller.

Ajuda paternalista

Sendo um dos poucos filmes a abordar a ação americana em países estrangeiros através do depoimento dos próprios estadunidenses, notoriamente não muito interessados em permitir que outros países os esmiúcem, o longa se destaca em um campo da denúncia política, mas sem perder o foco nos laços criados entre os estrangeiros e os brasileiros que viviam em Bom Jardim.

Em certos momentos, o longa confirma a impressão de uma ação paternalista por parte dos visitantes. Mas, Em Nome da América acaba por oferecer uma discussão que vai além de rótulos que o minimizem. “Minha intenção com o filme era demonstrar que há uma política não somente paternalista, mas, também, interessada. Que é participante de um sistema voltado para interesses específicos. Mas o que há por trás desse paternalismo? Não se trata apenas de chamá-los assim. Trata-se de dizer que existe um certo sentimento humanitário que é capturado por instituições e por uma política da Guerra Fria, no caso específico que o filme trata“, afirma o cineasta.

Grupo de pessoas lideradas por Francisco Julião em protesto
Ao final, a sensação para o espectador reforça o incômodo citado no começo deste texto. Uma percepção de que, naquele período, o ascender da dominação estadunidense perante nações que ousassem contestar seu modelo imperialista poderia ser tão sanguinolento quanto a intervenção militar no Vietnã. A diferença, aqui, é que eles possuíam um golpe militar financiado em parte por Washington, algo que os eximia de sujar as mãos diretamente. Porém, observar o alcance de suas ações em um local tão remoto como o interior de Pernambuco torna tal sentimento ainda mais amargo.


Weller lembra o momento do filme em que uma moradora justifica seu silêncio com o conformismo de que, ali, naquele lugar pacato, “quem manda é o mais forte e o mais fraco obedece. Se não, morre.” Em um nível geopolítico, a percepção é a mesma. 

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A Tarde: It - A Coisa

CRÍTICA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO JORNAL A TARDE DE 08/09/2017

(It, EUA, 2017) Direção: Andy Muschietti. Com Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis.



João Paulo Barreto

É curioso observar que uma das premissas de It: A Coisa, livro escrito por Stephen King, resida no fato de que a tal criatura do título renove seu ciclo de terror a cada vinte e sete anos. Sendo assim, nada mais pertinente que exatos vinte e sete anos depois do ator Tim Curry, famoso pelo mítico musical Rocky Horror Picture Show, vestir a fantasia do palhaço Pennywise na minissérie televisiva de 1990, o aterrorizante personagem ganhe sua versão definitiva na caracterização primorosa do jovem sueco Bill Skarsgård para a adaptação lançada este ano. E é justamente a essa construção a quem o filme dirigido pelo argentino Andy Muschietti deve cada um dos calafrios provocados no espectador durante as pouco mais de duas horas de 
projeção. Mas não somente a ela.

A partir de uma respeitosa fidelidade ao material original, no qual King trazia ao leitor uma análise acerca do rito de passagem entre infância e adolescência, os traumas e medos comuns a essa transição, além de abordar diretamente o bullying, quando, inclusive, ainda não se tinha noção da gravidade em torno dele, o roteiro escrito por Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman alcança um satisfatório equilíbrio da conversão literária para o cinema. O que, convenhamos, entre as adaptações oriundas dos livros do escritor do Maine, é um feito que não costuma ser muito comum, como, inclusive, prova a recente transposição do épico A Torre Negra para uma versão fílmica de roteiro inconsistente

Aqui, outro ponto que chama a atenção positivamente no olhar do diretor hermano é o modo como sua abordagem do terror se insere em opções bem delineadas entre o sanguinolento (o notável estilo gore) e o terror psicológico. Deste modo, apesar de ser um filme cujo grupo de protagonistas é composto por quase crianças a enfrentar não somente a tal figura sádica, mas, também, os próprios traumas, não espere por um longa que abra mão da violência gráfica e chocante (longe de ser gratuita, friso). E isso é feito sem a perda de um tom subjetivo ao incutir medo e reflexão no espectador. Reflexão, inclusive, que se faz presente em temáticas sérias como pedofilia e abuso paterno, o já citado bullying e a super proteção materna; já o medo, bem, o medo encontra sua representação plena na sub(in)versão da presença habitualmente graciosa de um palhaço para um elemento de suspense e pavor.

A infância colocada à prova
Como elemento de escape cômico, a adaptação acerta ao demarcar para o público sua linha temporal oitentista com uma trilha sonora repleta de representantes pop do período, como a impagável piada com New Kids on the Block, referências cinematográficas à série A Hora do Pesadelo e brincadeiras envolvendo símbolos como a atriz Molly Ringwald.


Contando com um grupo conciso de jovens atores, a começar pelo já citado Skarsgård, a obra de Muschietti tem nesta interação um dos seus trunfos. Skarsgård, com os olhos que passeiam entre o insano e o bestial, constrói seu Pennywise em detalhes pequenos, porém, marcantes, como quando, confirmando sua postura de predador, mira sua vitimas do mesmo modo que um animal o faz com suas presas.

A indiferença ao pavor, juntamente a um pragmatismo calculado, é o que causa a derrocada da figura horrenda de It perante o grupo de “Perdedores”. Em uma rima inversa, diante da obra cinematográfica It, creio que até o mais pragmático e indiferente espectador encontrará seus momentos de frio na espinha. 

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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Cachoeira Doc 2017


A oitava edição do já tradicional Cachoeira Doc, mostra de documentários que acontece na cidade do recôncavo baiano, começa hoje e segue até o próximo domingo, dia 10 de setembro. Trazendo uma leva de 65 produções (cinco delas inéditas), entre curtas e longas metragens, o festival contará com sessões gratuitas de mostras competitivas, retrospectivas, homenagens, colóquios, oficinas, além de diversas outras atividades. Mais uma vez, o evento confirma sua postura questionadora através de filmes que possuem uma reflexão social e política, travando um diálogo direto com o espectador e estendendo esse mesmo diálogo para além do cinema.

Desde seu longa de abertura, o impactante Quilombo Rio dos Macacos, do cineasta baiano Josias Pires, que será exibido amanhã, terça, às 19h30, passando pelo petardo dirigido por Marcelo Pedroso, Por Trás da Linha de Escudos; Escolas em Luta, de Eduardo Consonni, Rodrigo T. Marques e Tiago Tambelli, além de curtas como Na Missão, com Kadu, de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito, o Cachoeira Doc desse ano buscou em sua seleção de filmes trazer ao público a imprescindível ação de não passividade diante de um Estado tirânico e opressor.

 “A História esta sempre nos demandando uma reflexão instantânea e ao mesmo tempo uma ação. Essa é uma consciência que a gente desenvolveu. E os filmes escolhidos dizem respeito a essa consciência,” afirma a pesquisadora Amaranta Cesar, uma das curadoras e coordenadora do evento. Através de obras que desafiam um preconceito crítico e buscam enfrentar um déficit histórico aos cinemas militantes, o festival traz mostras como a Cinemas de Lutas, que, segundo a própria Amaranta, intenciona mostrar ao público um tipo de cinema que diverge de padrões formais do fazer fílmico. Padrões nos quais muitos dos trabalhos que estão sendo feitos não se encaixam. “No filme do Josias Pires, por exemplo, temos imagens feitas por quilombolas que registram a brutalidade das autoridades naquele lugar. São pessoas filmando com celular, câmeras portáteis, mas que acreditam na força daquelas imagens. É preciso entender de onde vem essa crença e dar lugar a elas. E nós, como realizadores, curadores e críticos de cinema, precisamos acompanhar e rever nossos padrões formais sob pena de apagar da História trabalhos importantíssimos ”, complementa Amaranta.


O filme de Josias Pires representa muito bem esse formato de cinema. O documentário abrange seis anos (de 2011 a 2017) da saga dos moradores do Quilombo Rio dos Macacos, localizado na Região Metropolitana de Salvador, na luta contra a ganância da Marinha do Brasil que, com truculência e brutalidade, tenta desalojar diversas famílias que vivem há décadas no lugar. O cineasta e sua equipe acompanharam audiências de representantes da comunidade com autoridades da Marinha; registraram manifestações públicas de protesto pela ação de despejo; conviveram no local, observando os meios rurais de sustento dos quilombolas; trouxe falas de procuradores da República, deputados e senadores, tudo reunido em mais de 150 horas de imagens brutas. Com a montagem de Cristina Amaral, tal material resultou em 120 minutos angustiantes, mas, acima de tudo, reveladores, de como a ação mesquinha e autoritária do Estado Brasileiro não visa o bem estar de seu cidadão, mas, sim a cessão de direitos adquiridos. 

“De certo modo, o desenrolar do filme no período de 2011 a 2017 abrange exatamente o período que nos leva à atual crise de identidade política que vivemos. Quilombo Rio dos Macacos é uma grande metáfora do Brasil atual. Principalmente no momento em que o filme mostra a aliança perversa do Estado com o Poder Judiciário,” explica o diretor Josias Pires. O realizador se refere ao momento do longa em que, durante uma audiência pública, uma procuradora da República se impressiona ao saber da ação arbitrária e parcial de um juiz, que definiu ações sem consultar a comunidade, agindo em prol unicamente da Marinha. “Curiosamente, vivemos no âmbito nacional essa evidência de algo histórico: de que o judiciário no Brasil não é parcial, que sempre teve um lado, que sempre teve partido. A justiça no Brasil tem classe. E não é a dos menos privilegiados como os quilombolas,” completa Josias Pires.

O saudoso Luiz Paulino em momento de reencontro

Homenagem à Luiz Paulino

Já estabelecida como parte importante do festival, a mostra Clássicos do Real relembra mestres do cinema documental. Esse ano, o veterano cineasta Luiz Paulino dos Santos, falecido em maio, será homenageado com a exibição de Índios Zoró: antes, agora e depois, último filme do diretor. O longa, de 2016, mostra o retorno de Paulino ao local onde, há trinta anos, filmou um curta sobre os costumes e práticas dos indígenas que dão título a este que viria a se tornar seu último trabalho. Neste reencontro, o baiano nascido no povoado de Altamira, traz ao público uma reflexão acerca da identidade indígena, apresentando uma comunidade modificada pela presença perniciosa da catequização cristã, pelo acesso dos nativos à bens de consumo e pela tecnologia que os descaracterizou. Uma bela homenagem a Luiz Paulino, um dos pilares do cinema baiano, o homem responsável pelo roteiro de Barravento e pela ascensão de Glauber Rocha.

Colóquio Cinema, Estética e Política

Reafirmando sua função de fomentador do pensamento cinematográfico e de atividades educacionais no âmbito acadêmico da Sétima Arte, o Cachoeira Doc traz para essa edição o VI Colóquio Cinema, Estética e Política, que é organizado pelo Grupo Poéticas da Experiência, vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Amaranta Cesar explica que “o evento reúne os pesquisadores mais importantes e atuais do cinema e das artes no Brasil. O grupo da UFMG nos convidou a abrigar o colóquio e a realizar a edição 2017 junto com eles. Isso nos alegra muito, pois é um sinal de que o que estamos fazendo está sendo ouvido fora daqui.” A coordenadora salienta que, desde a sua criação, em 2010, a intenção do festival era de criar um pensamento cinematográfico constante na então recém instalada Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). “O Cachoeira Doc foi pensado e construído dentro do curso de cinema da UFRB. Durante os governos Lula, o projeto de interiorização das universidades nos deu essa possibilidade. Com a criação do festival, a ideia era fazer chegar a Cachoeira e àquele curso que estava nascendo, o pensamento e os filmes que estavam sendo produzidos no Brasil. Além disso, trazer pessoas para conversar com os alunos, para intensificar, ali, um lugar de encontro. Ver esse convite do grupo de Minas Gerais me alegra muito, também, pois demonstra que conseguimos, hoje, fazer o fluxo inverso,” completa.




A Tarde: CachoeiraDoc 2017


sábado, 2 de setembro de 2017

Entrevista: Laís Bodanzky - Como Nossos Pais

(Brasil, 2017) Direção: Laís Bodanzky. Com Maria Ribeiro, Clarissa Abujamra, Paulo Vilhena, Jorge Mautner.


Por João Paulo Barreto

Laís Bodanzky, junto ao parceiro nos roteiros, Luiz Bolognesi, constrói em Como Nossos Pais uma análise de um tema obrigatório: a valorização da mulher dentro de nossa sociedade. Tal construção, no entanto, evita descambar para uma proposta maniqueísta, panfletária ou artificial no consolidar de suas situações. A ideia, aqui, reside não em um patrulhamento, mas, sim, em uma via de diálogo. Mais do que isso: ao contar a história de Rosa (Maria Ribeiro), a cineasta procura expurgar os conflitos internos de sua protagonista, relacionando seus dramas familiares com situações calcadas em uma dura realidade do Brasil.

Na busca de Rosa por uma forma de equilibrar seus sentimentos diante de um marido ausente, frustrações profissionais, filhos desafiadores e pais conflituosos, o filme se coloca para o espectador como um condutor de pertinentes discussões. Há o esperado choque de gerações, porém, tal inserção surge de forma orgânica. Há a profundidade de uma protagonista que não se limita a um direcionamento exclusivamente de mudança, mas, sim, demonstra-se humana ao, às vezes, apresentar seus conflitos em pensamentos conservadoramente contraditórios. Trata-se de uma obra essencialmente feminina e de acordo com suas propostas de conscientização, mas, além disso, temos ali uma história humana.

A relação das personagens de Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra parece caminhar em gelo fino. Quando o inevitável trincar surge, o turbilhão onde Rosa mergulha traz consequências permanentes para sua vida. Sua postura, no entanto, é colocada de forma a confirmar sua humanidade. São momentos em que a fragilidade alcança ápices, como quando a vemos buscar o carinho do pai vivido de modo tocante por Jorge Mautner. Em outros, é a fúria que vem à tona, como quando na discussão com o marido interpretado por Paulo Vilhena. Como Nossos Pais apresenta esses momentos, porém, de modo a confirmar não somente o respeito por um gênero específico, mas por um ser humano.
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Entrevista - Laís Bodanzky

A diretora com o prêmio em Gramado

Laís Bodanzky, após abordar uma adolescência conturbada, uma terceira idade nostálgica e infâncias desafiadoras, coloca o foco de sua lente em na geração da qual ela mesma é uma das representantes. Em Como Nossos Pais, a roteirista e diretora traz à tona, sem apelar para maniqueísmos ou competições de gênero, uma discussão atual e de suma importância: a valorização da mulher dentro, não somente do equilíbrio de um núcleo familiar, mas, também, de uma sociedade machista e, muitas vezes, misógina. Porém, ao conscientizar seu público através da história da Rosa, personagem de Maria Ribeiro, o longa busca abordar tais questões de forma orgânica, colocando à mesa um debate pertinente, mas sem descambar para o panfletário. “O filme, quando fala da questão da mulher, ele não a coloca contra os homens, mas, sim, procura colocá-la com os homens. Como é que a gente recombina a regra do jogo juntos? A discussão é no sentido de melhorar para que fique bom para todo mundo”, afirma a cineasta que acaba de ser agraciada com os Kikitos de melhor filme e direção no Festival de Gramado, que premiou, também, três integrantes de seu elenco: melhor atriz para Maria Ribeiro; atriz coadjuvante para Clarisse Abujamra e melhor ator para Paulo Vilhena, além do montador Rodrigo Menecucci. Sobre esta experiência, processos de construção e uma lembrança de seu primeiro filme, Bicho de Sete Cabeças, a diretora conversou por telefone com o blog Película Virtual


Confira o papo!

Parabéns pelas conquistas em Gramado. 

Puxa, obrigado. Foi uma coincidência muito feliz os prêmios no festival chegarem tão próximos da estreia nacional. O filme nasce no Brasil com esse DNA do festival de Gramado. Recebendo tantos títulos, tanto reconhecimento. Um holofote de destaque. E o mais bonito é poder dividir isso logo em seguida com todo o Brasil. Gramado foi um momento lindo. Inesquecível mesmo da vida, sabe? Todo filme dá um trabalhão, a gente sofre para fazer, e ter esse reconhecimento depois é algo muito significativo. Não que a gente faça filmes apenas para viver isso. A gente não faz um filme para competir, a gente faz para mostrar ao público. Mas ter esse retorno de um júri especializado que achou que nosso trabalho tinha todas essas qualidade, que merece esse reconhecimento, aí fica melhor ainda. Mas sem diminuir os outros que estavam em competição. A curadoria do Festival de Gramado foi excelente. Eu acho isso muito importante. A gente está em um momento tão interessante do cinema brasileiro que é preciso deixar claro que o mérito não pertence apenas a esse ou àquele outro filme. Isso seria diminuir demais. Eu acho que a arte, o cinema, como todo o mundo das artes, ele não é feito de uma única verdade. São muitas verdades.

Você citou a curadoria do festival e é importante salientar uma atenção dada pelo evento a produções protagonizadas por mulheres. 

Exatamente. A curadoria naturalmente mostrou como as mulheres do audiovisual estão participando intensamente, apesar de sermos poucas na direção e no roteiro. Com um discurso muito contundente, que é de interesse geral da sociedade.

Recentemente, numa mostra do Cinema Brasileira que aconteceu aqui em Salvador, eu revi seu filme Bicho de Sete Cabeças. Não o assistia no cinema desde 2001. Curioso como ele ainda possui um impacto na gente. Envelheceu bem.

Nossa, que forte! Que bom! Obrigada pelo depoimento. É bom saber que ele está aí, vivinho.

É um exercício interessante imaginar Como Nossos Pais tendo esse mesmo impacto no espectador daqui a dezesseis anos. 

Tomara. Porque, de certa forma, eu vejo o Como Nossos Pais como um filme crônica, sabe? Ele é uma fotografia dos dias de hoje. Eu sinto que nós estamos em pleno movimento. Não sei se a gente vai continuar sendo os mesmos daqui a quase vinte anos. Para falar a verdade, eu espero que não (risos). Que o filme sobreviva mais como um retrato de um período. Que gere observações como: “Olha, naquela época era assim. Essas eram as questões.” Mais no sentido de olhar para trás na linha da história, como uma forma da gente entender como nós éramos naquela época. Porque Bicho de Sete Cabeças é um filme que, infelizmente, ainda continua atual. Aqui em São Paulo, pelo menos, o que a gente está vivendo com a em situação dos usuários de crack, com o tratamento desumano com eles nas ruas, mostra que, infelizmente, ele ainda é um filme bem de acordo com a atual realidade.

Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em atuações fortes
Após um hiato de sete anos desde As Melhores Coisas do Mundo, seu filme de 2010, você retorna com o Como Nossos Pais. Como o projeto se apresentou a você?
A ideia do Como Nossos Pais nasceu há quatro anos. Nossa, quando a gente para e pensa sobre isso, a sensação é de que passa muito rápido, mesmo. (risos). Sobre esse hiato que você falou, para mim, quando encontro uma ideia, eu preciso ter certeza absoluta da necessidade dela ser contada. E com a história desse novo filme, não houve dúvidas. Hoje, diferente de quatro anos atrás, o tema da mulher contemporânea é algo que as pessoas estão bem mais à vontade para falar. Isso é curioso, mas é verdade. Há quatro anos era bem diferente. E lembrar como o projeto começou me faz recordar do meu filme de 2007, o Chega de Saudade, no qual eu abordo personagens da terceira idade. [Na divulgação], muitos jornalistas me perguntavam: “ah, mas você está falando agora sobre a terceira idade, seu filme anterior era sobre adolescência, quando é que você vai fazer um filme sobre a sua geração?” (risos) Claro que era uma provocação, uma brincadeira, mas eu escutei muito essa pergunta. É difícil dizer quando surgiu a vontade de contar essa história. O quanto vem mesmo dessa reflexão trazida pelos jornalistas. Certo, então, é para falar da minha geração? Qual é o meu depoimento? Porque, afinal, falar da minha geração também é falar do meu ponto de vista como mulher.

E o filme consegue construir personagens fortes ao abordar mulheres de gerações diferentes. 

A idade era abordar aquele período em que eu considero um momento sanduíche da vida, sabe? Com duas gerações se espremendo. No caso, a geração da Rosa (personagem da Maria Ribeiro), ainda com seus pais vivos, que precisa agir na postura de filha, mas que, ela mesma, já formou família. Ela já é mãe e tem esses dois papeis: o materno e o de filha, também. Em alguns momentos ela vira mãe da própria mãe, em outros ela vira filha da própria filha. Há essa confusão de papeis misturados na rotina dessa mulher que quer dar conta de tudo, quer ser perfeita, mas é impossível ser perfeita e acaba se culpando. Eram temas que, para mim, eram urgentes enquanto mulher, mas que as pessoas não falavam de forma tão clara como hoje, com a internet e as redes sociais tão ativas. Eu acho que esse movimento novo da mulher, um novo movimento feminista, é de dois anos para cá. É recente. Mas o filme já estava em pleno processo. Assim como eu, tantas outras mulheres estavam com esse desejo de falar. Cada uma no seu espaço, mas querendo fazer o seu discurso. E eu sentia esse desejo.

A escolha do elenco que vai dar voz a essa mensagem é algo bem importante. E é incontestável como a atuação da Maria Ribeiro e a da Clarisse Abujamra se complementam naquelas fagulhas, naquele atrito. E o reconhecimento de ambas em Gramado confirma isso. Como foi o processo de escolha do elenco?
Eu busquei tratar o casting com todo respeito. Aliás, em todos os meus filmes, eu acredito que uma parte significativa dele já está ali, na hora em que você escolhe o grupo de atores e atrizes com quem vai trabalhar. O ator certo para aquela personagem, para aquela história. É um trabalho artesanal. Um processo de ensaios, de conversa, de discussão, antes do set de filmagem. Para os atores ficarem à vontade na hora de ligar a câmera. E o resultado acaba sendo aqueles momentos entre a Maria e a Clarisse.

Terapia de casal: Maria Ribeiro e Paulo Vilhena encaram uma DR

Essa relação entre pais e filhos é um tema recorrente em sua filmografia. É algo que realmente lhe atrai?
Na hora em que eu me debruço sobre uma história, seja ela qual for, eu gosto muito de entender as minhas personagens. É difícil você entender as personagens sem entender de onde elas vieram, sabe? Filho de quem, com qual relação, com qual trajetória de vida. E é difícil você não ter uma pessoa que não tenha uma história forte ou significativa com seus pais ou com seus filhos. Então, seja que tema for, é difícil você fugir disso. Eu não consigo. Sempre quando eu percebo, estou voltando a isso (risos). Meu próximo filme, que tem uma temática totalmente diferente, eu também me debruço sobre esse tema. (N.E. A diretora abordará a juventude de D. Pedro I, que será vivido por Cauã Reymond). Então, é curioso. Este tema da relação entre pais e filhos realmente me atrai. Ele traz para mim muita coisa que me permite me aproximar do universo interior das personagens. Fazer uma análise mais psicanalítica delas.

Apesar de sua mensagem forte e direta, o filme não é maniqueísta ou panfletário na presença de sua protagonista, ela mesma alguém que, às vezes, parece ser conservadora e, em outros momentos, mais libertária. 

Isso. Porque eu acho que, na vida, é assim que acontece. Nós somos muitos em um só. Em um assunto, eu sou mais libertária, no outro eu sou mais careta. Essa, para mim, é uma das razões para que o filme esteja atraindo tantas atenções. E também do público masculino. É uma surpresa boa que os homens também estejam interessados no assunto, gostando e rindo também. Porque eles se identificam com algumas situações que foram colocadas na história. Eu escuto muitos deles dizer: “Nossa, eu faço exatamente assim, eu fiz isso, eu sou isso, ou lá em casa foi assim”. É porque é justamente essa ideia. Todo mundo erra. Nenhum dos personagens é perfeito. Mas todos são amorosos e todos querem acertar. O filme, quando fala da questão da mulher, ele não a coloca contra os homens, mas, sim, procura colocá-la com os homens. Como é que a gente recombina a regra do jogo juntos? A discussão é no sentido de melhorar para que fique bom para todo mundo. Não é aquela coisa do “eu não quero saber de você.” Não é uma visão maniqueísta dos temas. Porque todo mundo erra, mas querendo acertar, e isso é humano.

Jorge Mautner volta a atuar após décadas em papel tocante

Você trouxe o Jorge Mautner, que não fazia cinema desde os anos 1970, para o filme. Foi difícil colocá-lo para atuar?
Eu sou uma admiradora do trabalho dele. E queria muito um pai marcante para a personagem da Maria Ribeiro. Alguém que fosse amoroso. Para poder trazer justamente isso que a gente está falando. Porque a ideia é mostrar que se erra, mas se erra com amor. Assim fica mais fácil a gente seguir juntos. E eu vejo o Mautner assim na vida. Eu me lembro de assistir ao documentário dirigido pelo Pedro Bial sobre o ele (N.E. Jorge Mautner – O Filho do Holocausto). Em certo momento, ele conversa com a Amora, sua filha, e eu fiquei tão emocionada vendo a conversa deles, que fluía de um jeito tão bonito, mas falando coisas duras. Eu o tinha como uma referencia de postura, de jeito de ser. Acabei fazendo o convite. Lembro-me que ele me disse: “Olha, Laís, eu não consigo decorar textos”. E eu falei: “Mas, Mautner, a ideia não é essa ” (risos). Eu não poderia convidar o Mautner, um livre pensador, e colocá-lo numa jaula. Então, a gente conversava sobre as cenas, os objetivos, a duração, e muitas das falas dele nas cenas, não todas, mas uma boa parte, são do próprio Mautner. É absolutamente impossível escrever aqueles pensamentos. Ele foi muito generoso de contribuir nos pensamentos do personagem do Homero.

A escolha do nome do filme, uma referência à canção do Belchior que a Elis imortalizou, ganha um novo impacto com o recente falecimento do cantor.

Exatamente. Também teve esse momento de tristeza da perda dele. Mas perceber a importância da obra dele e sua influência para a gente é algo que nos deixa felizes. O título do filme surgiu antes do roteiro, e serviu muito para me lembrar do que eu queria falar. O título. Não necessariamente a letra, mas, sobretudo, o título. Era uma provocação para mim. O tempo inteiro eu voltava a esse título para eu não me perder na história