quarta-feira, 25 de maio de 2016

Roteiro de Casamento

(Me Case com um Boludo, ARG, 2016) Direção: Juan Taratuto. Com Adrián Suar, Valeria Bertuccelli.


Por João Paulo Barreto

Em Roteiro de Casamento, há uma tentativa pífia de se construir uma crítica à hiper-exposição de celebridades na mídia do mesmo modo como tenta criar uma análise do quão nocivo é a idealização do romance em um relacionamento.

Propondo-se funcionar como uma comédia romântica, o filme consegue até criar bons momentos na interação entre os dois protagonistas, Fabián Brando, o ator de sucesso vivido por Adrián Suar, e a novata no oficio Florencia Córmik (Valéria Bertuccelli), principalmente nas cenas em que Fabián conta vantagem em suas experiências no cinema.

Fabian e Florencia: romance precipitado e idealizado
No entanto, ao insistir por muito tempo nas mesmas situações, o que parece sempre focar no choro descontrolado por parte de Florencia e na postura egocêntrica de Fabian (cuja mudança, sabe-se desde o começo, será a razão para sua redenção), o filme cansa em sua proposta de fazer rir.

Curiosamente, a história da atriz que se apaixona pelo personagem vivido por seu parceiro em cena e começa um relacionamento com o ator que o interpreta, até engata certo interesse quando aborda o modo como o ceder, a adaptação e o reconhecimento dos erros podem influenciar de modo construtivo a vida a dois. Mas, quando essa proposta é colocada em prática, o filme já esgotou a paciência do espectador em uma repetição de piadas baseadas nas mesmas muletas de atuação que os atores usam à exaustão nos 100 minutos de projeção.

Piadas carente de timing cômico
Para sermos justos, o longa até funciona em algumas de suas gags visuais, como o momento em que o galã vivido por Adrián Suar sai de seu trailer na chuva e segue sem se molhar em direção ao carro. Do mesmo modo, ainda em sua abordagem romântica, a ideia de usar o roteirista de cinema como conselheiro de Fabián quando este precisa de ajuda para se tornar o tal personagem pelo qual a esposa se apaixonou, acerta por levar um aspecto metalinguístico a um filme cuja banalidade de sua história o torna quase descartável.

Mas diante de tantas cenas forçadamente engraçadas e sem um necessário timing cômico para se sustentar, como na irritante cena da cegueira ao final, a paciência se esgota logo.

  

Jogo do Dinheiro

(Money Monster , EUA, 2016) Direção: Jodie Foster. Com George Clooney, Julia Roberts, 
Jack O´Connell, Giancarlo Esposito, Dominic West.


Por João Paulo Barreto

Em Jogo do Dinheiro, a diretora Jodie Foster consegue trazer de modo pertinente relevantes discussões acerca da selvageria desenfreada do mundo capitalista no mercado financeiro, além de focar incisivamente o universo midiático da televisão e sua não menos selvagem ação em busca de audiência.

Ao optar por um cenário no qual aparentemente não veremos redenção alguma para nenhum dos personagens envolvidos, a história surpreendentemente escrita pelos mesmos roteiristas por trás de banalidades como A Hora do Rush, A Lenda do Tesouro Perdido e Taxi (sim, aquele com a Gisele Bündchen), cria uma reflexão acerca da natureza pela busca sem limites por lucro, independente de quantos serão prejudicados em detrimento do saldo positivo de apenas um pequeno grupo de pessoas.

Aqui, temos uma pane sistêmica causando a perda de todo o capital investido em um fundo de ações da bolsa. Resultado: economias de milhares são perdidas da noite para o dia, num montante de 800 milhões de dólares. Nesse ínterim, Lee Gates (Clooney), o âncora extrovertido e falastrão de um programa que dá dicas financeiras (recomendando tal investimento, inclusive) tem seu show invadido por Kyle Budwell (O’Connell) que, armado e portando um colete de bombas, exige explicações para a perda de todo seu dinheiro aplicado em tal fundo.

Gates é confrontado por Budwell em busca de respostas
A partir dessa premissa, o filme busca criar um ambiente de tensão em torno de toda a situação, conseguindo esse intento inicialmente, mas falhando de forma pontual em determinados momentos na criação dessa atmosfera nervosa na interação entre os dois personagens, como quando a arma é deixada de modo artificial ao alcance do apresentador ou quando o estúdio começa a ser evacuado sem que o Budwell perceba.

Há, entretanto, um acerto na presença de Julia Roberts como a diretora do programa que continua sendo transmitido ao vivo por exigência do invasor. Com seu tom de voz calmo, refletindo sua longa experiência à frente da equipe, sua Patty Fenn acaba por ser um ponto de equilíbrio diante do histrionismo de O´Connell.  

Histrionismo este que até se justifica por conta do arco relacionado ao personagem, o que é muito bem demonstrado pela impactante cena em que ele se vê diante da namorada grávida, em um momento cujo constrangimento do homem desesperado perante as duras palavras da garota atinge, também, o espectador.

Julia Roberts no papel da diretora do programa Money Monster
A despeito da complexidade relativa às questões técnica do mundo financeiro, um dos trunfos na execução da trama está em conseguir exprimir para o espectador essa tecnicidade dos aspectos econômicos por trás dos fatos. Não é somente uma questão de “o dinheiro que estava aqui sumiu por conta de uma pane”, mas toda uma análise relacionada a algoritmos e impossibilidades matemáticas que o filme traduz de modo eficiente, tornando, apesar de certos diálogos expositivos, crível e compreensível ao público.

Trata-se de um filme que busca trazer uma reflexão acerca das vitimas deste sistema. Do modo como a busca insana por dividendos sobrepõe qualquer tipo de ética.  E é somente em uma situação de caos, somente quando a sensação de perda é levada, também, para o topo da pirâmide, que se torna perceptível o quão animalesco é o supostamente civilizado mundo corporativo.

Não é surpresa que, ao final, o único realmente prejudicado em toda a história seja justamente o que já a começou sem esperanças. Ao vermos diretora e âncora planejarem o próximo programa antes mesmo de a poeira baixar, percebemos como as vitimas deste universo serão sempre as mesmas. 

Corrigindo uma observação feita no começo desse texto, a redenção pode até chegar, mas os que a receberão serão os mesmos a sempre lucrar com a desgraça alheia.

A corda só se parte para o lado mais fraco, de fato.




segunda-feira, 23 de maio de 2016

A Garota do Livro

(The Girl in the Book, EUA, 2016) Direção: Marya Cohn. Com Emily VanCamp, Michael Nyqvist, Ana Mulvoy-Ten. 


Por João Paulo Barreto

Existe uma análise bem relevante proposta por A Garota do Livro. Tal ideia está na premissa que filme tenta levar à frente ao iniciar uma discussão acerca dos traumas psicológicos que a pedofilia, o abuso de vulneráveis e, tão grave quanto, a ausência familiar em tais situações podem causar.

No entanto, talvez por preguiça da roteirista e diretora Marya Cohn, tal tentativa de apresentar em seu filme algo que fugisse do banal e raso ciclo do “1) apaixonar-se; 2) pisar na bola; 3) perder a pessoa amada; 4) consequente fossa; 5) luta pela reconquista; 6) previsível final feliz” acaba ficando em segundo plano justamente por essa proposta simplista com a qual o público se depara no desenvolvimento da trama.

Curiosamente, é justamente por perceber sua possível profundidade que a história da agente literária Alice Harvey (VanCamp) capta um pouco da atenção do espectador. Filha de um editor de livros de sucesso, a jovem é estimulada desde cedo a dar vazão à sua veia de escritora. Quando Milan Daneker (Nyqvist), um dos autores agenciados por seu pai passa a servir como tutor intelectual no desenvolvimento de sua escrita, fica óbvio que o interesse do escritor naquela relação passará a ser um pouco mais do que avaliar os textos da bela adolescente de dezesseis anos.

Predador e caça: Daneker manipula os sentimentos de Alice para ter material
E o filme até ameaça construir de modo pertinente a situação, colocando ambos em um visível desconforto diante dos sentimentos que começam a aflorar, em uma clara tentativa de não rotular vilão e vitima naquele enlace. Claro que, pela própria natureza do fato e pela repulsiva manipulação que se descobre existir por trás das ações de Daneker, qualquer empatia nesse desenvolvimento se torna impossível, principalmente ao conhecermos as consequências psicológicas que aquela relação trouxe para a vida da jovem.

Já adulta, inclusive, Alice acaba por se ver agindo na mesma posição de seu agressor, quando seduz um adolescente. Tal fato, de certo modo, corrobora a ideia de que, em algum ponto, o roteiro de A Garota do Livro tentou elaborar uma discussão mais contundente a respeito dos traumas relacionados à sua premissa, mas a preferência por tornar o longa maleável e adocicado para a audiência tornou mais atrativa para a diretora toda a fraca trama secundária abordando a reconquista do namorado traído no gesto impulsivo de Alice.

Alice e o começo da superação de seu trauma

Mas até que valeu a pena por podermos confirmar que crescer é, de fato, um termo bem subjetivo, ainda mais quando vemos a protagonista criar um blog do tipo “100 razões para você me perdoar” e colocar como uma dessas razões a ideia de que ela, agora, “está pronta para crescer”.

Tal ação confirma bem esse fato. E qualquer percepção de profundidade naquela história caiu por terra em algum momento dos incrivelmente longos 86 minutos de projeção.


sexta-feira, 20 de maio de 2016

X-Men: Apocalipse

(X-Men: Apocalypse, EUA, 2016) Direção: Bryan Singer. Com James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac. 


Por João Paulo Barreto

Existe um fator emocional que sempre funciona bem nos filmes dos X-Men. Independente dos cineastas, seja Bryan Singer, Brett Ratner ou Matthew Vaughn que ocupem a função de diretor dos exemplares da franquia, dentre acertos e erros cometidos na criação dos longas, há algo sempre acima da média: o modo como os personagens conseguem se interligar emocionalmente e a forma eficiente como os realizadores constroem isso para o público.

Mesmo com um resultado final abaixo dos dois filmes anteriores, First Class e Dias de um Futuro Esquecido, X-Men: Apocalipse erra pouco. E, o mais importante, seus acertos acabam por suplantar possíveis equívocos que encontramos aqui e ali durante os 144 minutos de projeção. Dentre os acertos, justamente a citada força de sua história ao trabalhar bem a ligação emocional de seus personagens.

Aqui, vemos novamente a tragicidade da vida Eric Lehnsherr, o Magneto, cumprir boa parte da carga dramática que sustenta o roteiro do longa. Na perda dos seus entes mais queridos, algo que já vimos de modo semelhante no primeiro exemplar da nova trilogia, e na descoberta desse fato pelo seu amigo Charles Xavier, é onde está, em Apocalipse, a principal relevância do filme. E nas boas atuações de James McAvoy e Michael Fassbender, seu maior trunfo.

Eric Lehnsherr revive a dor da perda que definirá suas escolhas
Da mesma forma como vimos os dois personagens encontrarem um elo em uma bela cena de First Class, quando um compartilhamento de lembranças é genuinamente agradecido entre lágrimas pelo professor X, aqui, ao adentrar na mente do amigo e perceber que uma nova tragédia se fez em sua vida, uma sincera demonstração de pesar é trazida à tona pelo mutante telepata. Assim, o diretor Bryan Singer acerta no tom dramático de sua história, algo que vemos novamente em outros momentos chave da trama. 

Na história, o Apocalipse do título, no caso o primeiro mutante a surgir na terra, no antigo Egito, acorda de seu sono após ter sofrido a interrupção do processo que o transformaria no regente do planeta. Milênios se passam e seu ressurgimento coincide com o momento em que os mutantes possuem uma boa relação com os humanos, uma vez que foram os mesmos que impediram o assassinato do presidente Nixon.

Com uma voz impactante e presença soturna e misteriosa, Oscar Isaac até consegue realizar um bom trabalho na criação de seu vilão. No entanto, toda sua participação soa um tanto deslocada, quase carnavalesca, diante da proposta de ambientação séria e (até certo ponto) calcada na realidade que os dois longas anteriores optaram por inserir.

Apocalipse e sua presença carnavalesca
Esse ponto é perceptível, por exemplo, quando vemos o personagem em locais como Auschwitz ou mesmo na metalúrgica onde o Eric tenta se esconder: a presença burlesca daqueles mutantes específicos se desloca um pouco da trama. Não à toa, o filme funciona bem melhor quando não está trabalhando na criação de seu arco, o que nota-se quando o roteiro opta por desenvolver a história da motivação do luto de Magneto, a captura dos mutantes pelo coronel Stryker e, claro, a impressionante e sangrenta participação de Wolverine, algo que, por si só, já vale filme inteiro. 

Trazendo de volta ideias que funcionaram bem no longa anterior, como a ação do veloz Mercúrio exibida em câmera lenta, aqui, essa utilização, apesar de divertida, soa deslocada não somente pelo uso de uma trilha sonora divergente do momento dramático que a perda de um personagem central pediria, mas, também, por soar como uma muleta para o roteiro. Não à toa, a descoberta de tal perda perde seu impacto emocional quando trazida à tona logo em seguida ao termino da sequência do mutante velocista.

Ao final, a sensação é justamente a de um filme que funciona bem no já citado elo emocional que liga seus personagens, apesar de ter dado um passo atrás ao optar por um vilão simplório e convencional (e vê-lo como designer de uniformes, de fato, não ajuda muito na sua credibilidade) ao invés de se aprofundar em outras questões que o drama mutante pode oferecer.

Mas nada que uma nova trilogia não possa resolver.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Truman

(Espanha, Argentina, 2015) Direção: Cesc Gay. Com Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi.


Por João Paulo Barreto

Alguns filmes conseguem captar de modo doloroso a força da amizade entre dois homens. A cumplicidade encontrada na relação de longa data, o entendimento mútuo diante de um simples olhar e o suporte para os momentos de dor que um deles possa viver. Truman é um desses filmes.

Apesar de seu pôster enganar a audiência por transmitir a ideia de ser um longa acerca de um cachorro e todas as conotações clichês que esse tipo de trabalho traz consigo, Truman é um trabalho sobre companheirismo, sobre estar presente, sobre compreensão e respeito pelas escolhas definitivas.

É sobre dois amigos de longa data, o ator argentino radicado na Espanha, Julián (Darin) e Tomás (Cámara), espanhol e professor universitário radicado no Canadá, mas que retorna ao país europeu para uma estada de quatro dias por conta de um câncer que acomete o primeiro. No entanto, acaba sendo um filme acerca de algo mais.

Tomás e Julián: amigos em seu reencontro
Desde o primeiro momento dos dois em cena, percebe-se como a cumplicidade faz parte da vida de 
ambos. “Vejo pelo seu pau duro que está feliz em me ver”, brinca Tomás, uma vez que chegou de manhã cedo à casa de Julián e o encontrou ainda em seus trajes de dormir. No olhar e sorriso do amigo ao abrir a porta e reencontrar o outro que não via faz muito tempo, um carinho que o conforta.

Não se engane. Apesar de toda a descrição piegas deste texto, Truman consegue passar longe de qualquer tipo de sentimentalismo barato ou melodrama raso no contar de sua história. A película do diretor catalão Cesc Gay é um alento ao conseguir captar a emoção do espectador sem a necessidade de apelar para qualquer dramalhão envolvendo a história do homem que desiste de seu tratamento de câncer por perceber que não quer passar seus últimos dias entrando e saindo do hospital, convalescendo por conta dos efeitos da quimioterapia.

No título, o nome do cachorro companheiro de Julián, que busca encontrar um novo dono para o animal uma vez que lhe resta pouco tempo. Durante os quatro dias da estadia de Tomás em Madrid, vamos sendo apresentados aos hábitos e teimosia do argentino. Em seu roteiro, o diretor Cesc Gay e o co-roteirista Tomàs Aragay conseguem nos apresentar à personalidade de Julián de modo natural, colocando-o perante sua doença e o modo como a mesma afeta a ele e às pessoas que o cercam. As duas cenas distintas em um restaurante, nas quais Julián confronta e é confrontado por pessoas de seu passado ilustram bem essa ideia.

Os amigos e Truman
É um filme sobre reconhecimento dos próprios erros diante da inevitabilidade, mas sem a ideia de passar um complexo de coitado, que merece perdão pelo fato de estar para morrer. Não. O filme trata do reencontro de um homem com as verdades de sua trajetória. É o momento de abraçar seu filho; é o momento de encarar a despedida da labuta nos palcos que lhe dá um dos poucos prazeres que lhe resta; é o momento em que percebe que precisa deixar para trás seus amigos. E é justamente isso que Julián se prepara para fazer ao tentar encontrar um lar para Truman. 

Em sua história, o diretor Cesc Gay nos faz refletir acerca da importância dessa cumplicidade. Do modo como uma amizade pode sobreviver mesmo diante da incapacidade de se demonstrar emoções. E isso sem descambar para um apelativo melodrama. Os momentos em que Julián cede às lágrimas são aqueles em que poucos não cederiam. Trata-se de um homem que se vê deslocado. Que não consegue se abrir para o próprio filho, mas que o silêncio de um abraço final diz mito mais.

Na presença de um congelado Tomás, estagnado diante daquele turbilhão que se vê diante, tendo que processar tamanhas mudanças na vida do seu melhor amigo, um exemplo de uma pessoa incapaz de ceder às emoções. Quando interrogado acerca deste aparente insensibilidade, se defende, como se alguma culpa lhe caísse sobre os ombros.

Em seu momento final junto ao amigo que, possivelmente, não voltará a ver, os olhos marejados é o máximo que consegue demonstrar. Diferente do belo momento em que, diante do prazer junto a uma paixão da juventude, cede às lágrimas em desespero.

Durante a visita, Tomás pode não somente reencontrar o velho companheiro, como a si próprio. De fato, um filme a se memorado.

O Caçador e a Rainha do Gelo

(The Huntsman: Winter´s War, EUA, 2016) Direção: Cedric Nicolas-Troyan. Com Chris Hemsworth, Jessica Chastain, EmilyBlunt, Charlize Theron, Nick Frost. 



Por João Paulo Barreto

Continuação do divertido Branca de Neve e o Caçador, filme de 2012 que tinha na presença dos anões vividos por alguns veteranos atores britânicos, como Bob Hoskins, Ray Winstone e Toby Jones, seu melhor trunfo, O Caçador e a Rainha de Gelo funciona bem como um simultâneo preview e continuação para a história vista na aventura anterior, apesar de não trazer de volta o grupo completo de anões do original.

Aqui, conhecemos a origem do caçador representado pelo Thor Chris Hemsworth, raptado quando criança e treinado junto a outras para compor a guarda pessoal da rainha do gelo, Freya (a inexpressiva Emily Blunt). Antes disso, a relação da rainha com sua irmã Ravenna, a bruxa má do original (Theron, que parece se divertir com a caricatura), é passada a limpo em um breve prólogo que consegue representar bem as motivações malignas de Freya, cuja trágica história traz elementos dolorosos envolvendo a perda do filho ainda bebê.

A construção da personalidade de Freya, que passa a renegar qualquer tipo de amor quando sofre a morte do próprio bebê, é um dos acertos do roteiro. Ao optar por essa abordagem pesada, representada pela perda mais dolorosa que uma pessoa pode sofrer, o filme consegue criar um forte argumento na motivação de sua vilã inicial, o que, diferente da vaidade da clássica personagem da bruxa má, consegue criar uma crível situação dentro de uma fábula infantil.

Freya no momento de sua maior dor
E justamente por se tratar de uma fábula infantil em sua origem, o longa acaba utilizando alguns artifícios tradicionais nessa construção, como a ideia de um narrador onipresente que situa o espectador em relação à história vista no trabalho anterior, além de manter alguns elementos do conto clássico dos irmãos Grimm. Neste aspecto fantasioso, apesar da necessidade autoexplicativa do narrador incomodar um pouco, o filme se sai bem na inserção dos elementos fantásticos, como minotauros (a cena da luta do caçador com uma dessas criaturas impressiona), fadas e outros seres míticos. 

Ainda em relação ao deslocado uso da narração em off, é valido citar o incômodo em ver a história girar em torno do fato da Branca de Neve estar morrendo, mas, por conta da não participação de Kristen Stewart, que viveu a personagem no original, o filme acaba encontrando saídas fáceis e ineficientes para resolver esse problema, como ao mostrar a personagem de costas em sua convalescência.

Eric e Sara em seu trágico romance
Obviamente, o fato de termos não somente uma bruxa má aqui, mas DUAS, meio que justifica a não utilização de Branca de Neve como personagem de destaque, já que as coisas poderiam ficar um tanto congestionadas no desenvolvimento da história, uma vez que ainda é preciso encontrar tempo para abordar o romance entre o caçador Eric e Sara (Chastain), outra que ainda criança foi treinada para compor o exército de Freya. 

Diante de uma personagem feminina cuja motivação reside apenas no fato superficial de desejar ser a mais bela das mulheres, é louvável ver que o filme tenha a atenção de inserir uma representante feminina a lutar por algo que realmente cause identificação no público. E o filme tem seu mérito ao acertar nas duas personagens, tanto a vilã Freya, quanto a heroína Sara. E Jessica Chastain se sai muito bem na aspereza e no lado violento de sua heroína.

Divertido, o filme consegue captar bem a atenção infantil na reimaginação de um texto clássico.

Amor por Direito

(Freeheld, EUA, 2015) Direção: Peter Sollett. Com Julianne Moore, Ellen Page, Michael Shannon, Steve Carell, Luke Grimes.



Por João Paulo Barreto

Há duas análises que precisam ser feitas acerca de Amor por Direito, novo filme estrelado por Julianne Moore, atriz de admirável entrega aos seus personagens e que, aqui, não faz diferente. A primeira diz respeito à importância do tema abordado pelo longa, que traz na história real do casal formado pela detetive de destaque Laurel Hester (Moore) e Stacie Andree (Page).

No começo dos anos 2000, as duas passaram a viver através de uma união estável devidamente registrada legalmente. Adquiriram juntas uma casa e tocaram a vida. No entanto, um câncer em estágio terminal no pulmão de Laurel, que fumava constantemente, interrompe o que seria um final feliz e a preocupação desta passa a ser não somente por seu tratamento, mas no fato de que, após partir, Stacie não poderá receber a pensão que vai permitir que ela possa manter a casa adquirida por ambas.

Nesta análise inicial, como disse, é preciso abordar a relevância do tema que o filme traz. No ano seguinte ao reconhecimento legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo em solo estadunidense, conhecer uma história como essa, na qual um grupo vereadores de Nova Jérsei decide não conceder a pensão à sobrevivente por conta de detalhes burocráticos, é bastante impactante.

Julianne Moore e Ellen Page em boas atuações
A luta de ambas por reconhecimento movimenta todo o condado onde vivem, com grupos de suporte protestando pela liberação do direito de Stacie ser beneficiária legal de Laurel. Steve Carell rouba a cena como um afetado líder em prol dos direitos dos gays. É uma história deveras tocante e a atuação de ambas, tanto Moore quanto Page, emociona em seu ato final. 

Porém, em sua segunda análise, dessa vez abordando os aspectos técnicos e o trabalho de roteiro escrito por Ron Nyswaner, que já havia concebido a história de Filadélfia, o filme traz certos incômodos impossíveis de não notar. Primeiramente, o modo como a relação das duas mulheres é desenvolvido é um tanto superficial, não gerando (ou tardando a gerar) uma empatia por parte do público. O longa, talvez por conta de suas elipses, falha ao construir para o espectador a sólida relação de Laurel e Stacie. Claro, há os momentos em que ambas encaram o preconceito, mas o filme carece de uma força no sentido de criar a dependência emocional de uma para com a outra.

Claro que existe o fato de que as duas vêm de um universo incontestavelmente machista. Uma é policial, a outra trabalha em uma oficina mecânica. Tais fatos colaboram na ideia de que, calejadas por toda homofobia que vivem no dia a dia, seja difícil demonstrar uma entrega a uma relação de modo aberto e sem amarras. E isso o filme consegue trazer de modo satisfatório, nos momentos em que vemos Laurel recriminar Stacie por atender seu telefone ou quando a policial precisa deixar um bar devido ao fato de que viu um colega de trabalho. Porém, é inegável que o roteiro careça, ao menos em seu primeiro ato, de uma melhor construção emocional daquela relação.

Fase terminal da doença: luta pelos direitos e pela vida
Frisei o primeiro ato por conta do fato de que, em sua segunda parte, após o diagnóstico de Laurel, há uma inegável mudança na narrativa, trazendo os personagens mais estabelecidos em sua conexão emocional. Isso acaba por refletir de modo positivo no espectador, uma vez que a dor, tanto física quanto mental, observada na relação das duas consegue, finalmente, criar junto ao público o necessário envolvimento para com toda aquela situação. Não que seja necessária uma conexão estoica com o filme, mas, por conta da alteração do tom das atuações, principalmente no trabalho de Ellen Page, o longa passa a funcionar melhor neste ponto.

Relevando os momentos panfletários e artificiais, como a já clichê cena de tribunal, quando um esperado veredito é dado e todos aplaudem felizes, ou quando personagens antes insensíveis à causa passam a lhe dar suporte, Amor por Direito consegue captar bem a reflexão do importante tema.

E ter Julianne Moore em mais uma entrega excepcional, não atrapalha de forma alguma.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Em Nome da Lei

(Brasil, 2016) Direção: Sergio Rezende. Com Mateus Solano, Paolla Oliveira, Chico Diaz, Eduardo Galvão.



Por João Paulo Barreto

Lançado em um momento oportuno da cena política brasileira, Em Nome da Lei até que não faz referências explicitas ao juiz Sergio Moro na construção do personagem vivido por Mateus Solano, aqui, também um magistrado. Porém, é impossível não lembrar da figura jovial do responsável pelas investigações da lava-jato na presença do juiz Vitor Ferreira, que assume como titular na comarca de uma cidade situada na fronteira com o Paraguai, terra sem lei e dominada por um chefão do tráfico.

Em seu fraco roteiro, o veterano diretor Sergio Rezende apresenta uma espécie de faroeste moderno e até se sai bem na ambientação do local no que se refere à violência e insegurança. No entanto, há detalhes na construção de seus personagens e na criação um tanto novelesca de suas tramas paralelas que não deixam de incomodar o espectador no decorrer da apresentação e desenvolvimento destes elementos.

Alice e Vitor, procuradora e juiz se envolvem em uma terra sem lei
A começar pelo próprio Vitor, que chega à cidade com ar de galã e já começa a demonstrar uma falta de profissionalismo ao cantar sua procuradora na primeira semana de trabalho. Ok, admito que seria difícil se concentrar tanto na labuta tendo na sala ao lado (e no quarto vizinho do hotel, friso) alguém tão bonita quanto Paolla Oliveira, que vive a procuradora Alice Costa. Mas qualquer credibilidade que o roteiro tente passar para seu protagonista cai por terra quando o vemos secar garrafas de vinho em jantares durante dias úteis (sem qualquer sinal de ressaca no dia seguinte) e tenha como meta levar sua funcionária para cama. O que, claro, acaba por acontecer. 

Deixando de lado esse detalhe da personalidade do juiz Vitor, Solano até consegue transmitir segurança nas ações perpetradas pelo seu personagem. Diante de uma cidade cuja justiça parece sempre omissa, a forma enérgica como o novo juiz passa a agir diante das atividades de tráfico de drogas do chefão Gomez (Chico Diaz) constrói bem um clima de antagonismo entre os dois, colaborando de forma positiva na ideia de um faroeste moderno. Porém, o modo como o roteiro insiste em inserir subtramas que não colaboram em nada para a história e a forma capenga como as motivações que levam ao desfecho frouxo do longa são inseridas na trama acabam por decepcionar.

Chico Diaz no papel do chefão do tráfico, Gomez. 

ATENÇÃO, SPOILERS!

Na figura do chefe do tráfico e senhor do crime na região, Chico Diz até convence. Ator de expressão marcante, Diaz consegue transmitir bem a aspereza de seu personagem, alguém cuja autoconfiança bem como a certeza da impunidade subiu-lhe à cabeça. O problema está na ingenuidade de alguns dos seus atos, como no suposto desespero de sua atitude final, quando decide peitar de arma em punho a figura do juiz, algo que não condiz com a sua frieza construída pelo desenvolvimento do roteiro.

Do mesmo modo, há uma tentativa inútil de se inserir subplots que em nada acrescentam para a trama central, como a história do piloto de avião que leva as drogas para Gomez. Ao tentar estabelecer um conflito com o drama do personagem ao desconfiar de que sua mulher o trai e o resultado dessa dúvida sendo constatado na presença do chefão em fotos nonsenses tiradas com a digníssima, o filme tenta criar um possível choque ao espectador por conta do desfecho de crime passional e suicídio do traído, mas sem nenhum sucesso.

Além disso, há uma constrangedora maneira de se construir um desfecho surpreendente na ação do pacato e frágil oficial de justiça, que atira no vilão por conta de uma vingança cuja motivação é plantada no filme de modo a querer subestimar a inteligência do espectador.

Subestimar e ofender, na verdade.







quinta-feira, 14 de abril de 2016

Mais Forte que Bombas

(Louder Than Bombs, França, Dinamarca, 2015) Direção: Joachim Trier. Com Gabriel Byrne, Jesse Eisenberg, Isabelle Huppert, Devin Druid.


Por João Paulo Barreto

Mais Forte que Bombas tem um inicio precioso, trazendo na imagem frágil de um recém-nascido a segurar com sua pequenina mão a gigantesca ponta do dedo de seu pai. Essa fragilidade física daquele novo ser humano a habitar o mundo encontra paralelo justamente na fragilidade emocional de seu progenitor, Jonah (Eisenberg), alguém cujo sucesso intelectual e acadêmico vai de encontro à insegurança que parece dominar sua atual fase.

Na vida do rapaz, uma família em pedaços por conta da morte precoce de sua mãe, Isabelle, uma conceituada fotógrafa em um brutal acidente de carro. A perda desestabiliza de modo mais evidente não ele, mas seu irmão adolescente, Conrad, e seu pai, o professor secundarista Gene (Byrne), que tenta se aproximar do caçula, cada vez mais distante em seu próprio mundo, mesmo passados alguns anos desde a tragédia.

Mais Forte que Bombas é uma brilhante análise acerca do processo de luto e como essa convalescência afeta de modo diferente cada individuo. Em seu filme, o diretor e co-roteirista Joachim Trier traz para o espectador uma análise não somente de algo trágico e que muitos podem não ter presenciado em suas vidas, mas, sim, um modo de nos fazer refletir sobre o envelhecer, sobre as fases de nossas trajetórias que parecemos não conseguir enfrentar, mas que, ainda assim, teremos. 

Jonah e Conrad: diferentes modos de passar pelo luto
Em seus personagens, pessoas que, mesmo em faixas etárias distintas, encontram-se perdidas em suas próprias autocobranças, inseguranças e dores particulares. Curioso observar Jonah, tão seguro de si, doutor, professor universitário, aconselhando seu pai acerca de questões familiares, mas sem ao menos conseguir estar ao lado da esposa e do filho com semanas de vida. Entrega-se a casinhos mal resolvidos do passado e empurra seus problemas para um futuro que ele espera não chegar, mas que, obviamente, é inevitável. 

Seu pai, Gene, um ex-ator que desistiu da carreira artística a pedido da falecida esposa e que, agora, se dedica a ensinar adolescentes, parece não conseguir se desvencilhar do próprio luto por saber de segredos escusos de sua mulher. Seu relacionamento atual é mantido em segredo, uma vez que namora a professora do seu próprio filho. Na realidade, sua dependência perene à morta recai diretamente em sua preocupação perante seu filho mais jovem, Conrad, o mais afetado pela perda.

Em um período terrível como a puberdade, o garoto segue em sua introspecção e autoisolamento. Seu arco é o mais significativo de todo o longa. Abordando situações identificáveis por todos que passaram por tal fase, vemos o rapaz se apaixonar pela garota popular; o vemos conseguir extravasar algum traço do que parece sufocá-lo em textos um tanto desconexos, mas elogiados por seu irmão mais velho; o vemos encontrar-se mais presente em um mundo virtual de vídeo game do que na sua própria dolorosa realidade. No entanto, mesmo tendo todos esses clichês do período, seu modo de encará-lo acaba sendo distinto por conta de toda dor sufocada em sua perda.

Gene e sua tentativa de decifrar e se aproximar do filho caçula 
O longa tem no uso das imagens captadas por Isabelle em suas passagens por conflitos bélicos, uma comparação da fragilidade da vida em aspectos e realidades diferentes. Se no olhar atento de profissional ela conseguia enxergar momentos que poucos seriam capazes, sua atenção pessoal para o próprio cotidiano familiar se perdia confusa e desesperançosa. 

O diretor Joachim Trier consegue construir um trabalho que, apesar de certo tom melancólico, torna-se um exercício de reflexão acerca não somente da perda e do luto, como já disse antes, mas do modo como isso invariavelmente ficará para traz. Nos diversos simbolismos de suas cenas, há uma mensagem acerca da aceitação, da calma e da necessidade do tempo ao tempo.

Não há finais felizes. Ao menos, não sempre. As cicatrizes surgem e ficarão ali para serem observadas diante do espelho. Como um lembrete de nossas trajetórias. Do mesmo modo que Isabelle fazia observando suas marcas de ferimentos pelo corpo ao perseguir as melhores fotos.



quarta-feira, 13 de abril de 2016

O Escaravelho do Diabo

(Brasil, 2016) Direção: Carlo Milani. Com Thiago Rosseti, Bruna Cavalieri, Marcos Caruso, Jonas Bloch, Lourenço Mutarelli.


Por João Paulo Barreto

Amada por uma geração inteira de jovens leitores dos anos 1980 e 1990, a Coleção Vagalume, da Editora Ática, apresentou a diversas crianças e adolescentes do período o gosto pela leitura. Fui um deles, devorando obras como A Ilha Perdida e Meninos sem Pátria. Outro livro especial daquele período era O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida, que contava a história de um assassino de ruivos, e que, agora, ganha uma versão para o cinema que consegue emular bem o clima soturno da sua fonte literária.

Acertando na mudança da faixa etária de seu protagonista (no livro, ele é um estudante de medicina), aqui, Alberto é apenas um pré-adolescente na faixa dos 12 anos que tem no seu popular irmão, o motociclista ruivo e bonitão Hugo, a presença de um ídolo. Ao receber pelo correio o tal escaravelho do título, ambos pensam se tratar de uma brincadeira de algum amigo, mas, após ser encontrado morto com uma espada cravada no peito, Hugo torna-se a primeira vitima de uma série de crimes que Alberto, fã de programas como CSI, decide investigar.

Alberto encontra o escaravelho destinado a seu irmão
Essa alteração na idade reflete no alcance do filme para com seu público alvo, o infanto-juvenil, que, apesar de não ter tido acesso ao livro na época da alta popularidade da coleção Vagalume, poderá se identificar bastante com os personagens na tela. Aqui, há a inserção do par romântico de Hugo, na pele da jovem Raquel. Também ruiva (a cidade, por razões convenientes, é repleta de pessoas assim), a paixão do jovem detetive não tarda a receber o mesmo escaravelho pelo correio e, também, a estar em perigo nas mãos do tal assassino que tem nas pessoas de cabelos avermelhados suas principais vitimas. 

Com momentos de tensão bem construídos, como nas cenas passadas em um cemitério onde Hugo é perseguido por criaturas horripilantes e cuja explicação surge no ápice da história, O Escaravelho do Diabo cria uma boa atmosfera diante de um tema que o cinema nacional voltado para a faixa etária deste público não costuma abordar.

Jonas Bloch (Pe. Paulo Afonso) e Marcos Caruso (Del. Pimentel): bom elenco
E esse é mais um dos acertos do diretor Carlo Milani e dos roteiristas Melanie Dimantas e Ronaldo Santos. Ao optar por não suavizar de modo exagerado o teor brutal do livro de Lúcia Machado de Almeida, mantendo certo grau de violência visual (essencial para a trama) em suas cenas, os realizadores conseguem tanto agradar os leitores adultos que conheceram a obra na adolescência quanto os jovens atuais, sem necessariamente perder de foco a qualidade da fonte original. 

Trata-se de um filme eficiente, que consegue atualizar um pequeno clássico literário recente em uma trama fluída, na qual as intenções do vilão são críveis e têm um bom respaldo na realidade.

Uma boa homenagem ao livro preferido da infância  e adolescência de alguns trintões.


domingo, 10 de abril de 2016

Ave, César!

(Hail, Caesar!, EUA, 2016) Direção: Joel e Ethan Coen. Com Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Ralph Fiennes, Scarlet Johansson, Tilda Swinton, Chanin Tatum.


Por João Paulo Barreto

Existe uma capacidade dos irmãos Coen de criar seus filmes em um universo próprio deles. Há uma identificação por parte do público mais atento quando uma obra possui a assinatura dos dois diretores. E isso não significa que seus filmes sejam reconhecíveis por conta de uma estética especifica, de uma fotografia inconfundível (apesar de trabalharem há tempos com Roger Deakins e este possuir, sim, um tipo de posicionamento de câmera especifico) ou de um tipo único de história a ser contada.

Não, é um pouco mais do que isso. A marca dos Coen está no apuro que seus filmes possuem independente do teor de suas tramas. Em suas produções, o espectador encontrará um nível de qualidade técnica e narrativa independente da seriedade ou não na abordagem de sua história. Assim, os dois conseguem criar obras que, apesar de díspares, carregam semelhante esmero nas construções, seja para denotar um mundo brutal e repleto de monstruosidades com Onde os Fracos não têm Vez, seja em seu trabalho seguinte, a paródia dos filmes de espionagem Queime Depois de Ler.

Em Ave, César!, os dois acertam novamente, mas, dessa vez, o êxito está tanto na capacidade de não se levar a sério quanto na possibilidade de abordar a história na Hollywood dos anos 1950 de modo quase documental. E seu escrevi “quase” é justamente porque com uma comédia dos Coen, essa linha entre fato e ficção tende a se confundir em benefício da comédia (observe o letreiro inicial de Fargo e entenderá o que quero dizer). 

Clooney e seu general romano: a piada preferida dos Coen
Mas, neste novo trabalho, o que acontece é a utilização de versões de personagens e fatos levemente baseados em pessoas e acontecimentos verídicos, mas sem a necessidade de propriamente se abordar questões reais. Não, não houve um sequestro de um astro por comunistas. Não, não havia um agente soviético disfarçado de ator e dançarino em meio às gravações dos estúdios. Claro, aqui e ali, quem conhece um pouco da história da Hollywood dos anos 1950, identifica algumas piadinhas com as fofocas da época. Mas, nenhum dano é causado à memória dos supostos envolvidos e a vida segue. 

Aqui, o tal astro sequestrado por comunistas em pleno período da caça às bruxas é Baird Whitlock, que é levado de dentro do estúdio ainda usando suas sandálias romanas e espada de general. Na escolha de George Clooney para o papel, os Coen corroboram sua insistência em desmistificar a presença de galã do ator ao sempre escalá-lo para papeis estúpidos (colocá-lo em um saiote durante todo o filme não foi algo sem planejamento). Na busca pelo seu astro e tendo que resolver todos os problemas do estúdio, o chefe do local, Eddie Mannix (Brolin), tem seu dia de cão ao lidar com egos inflados, atrizes solteiras grávidas e colunistas sociais feito abutres.

Channing Tatum e seu subliminar sapateado
E neste ponto reside um dos acertos de Ave, César! Para os roteiristas e diretores, há um prazer em brincar com o período dos anos 1950 em Hollywood. E eles não perdem tempo em inserir diversas situações que fazem alusão não somente à década na qual se passa sua trama, mas a outras situações anteriores. É o caso da personagem de Scarlett Johansson, DeeAnna Moran, cuja gravidez remete diretamente a situação vivida pela atriz Loreta Young, cujo resultado do caso com Clark Gable levou o estúdio a encobrir toda a situação. 

Do mesmo modo, a recriação das irmãs, jornalistas e rivais, Ann Landers e Abigail Van Buren, que aqui ganha os contornos de Tilda Swinton vivendo os papéis paralelos de Thora e Thessaly Thacker. Outros pontos da de recriação ficam, claro, para o papel de Channing Tatum como dançarino que remete a Fred Astaire e Donald O´Connor, além do próprio Clooney, cuja presença em cena, naqueles trajes, lembra muito Charlton Heston em Ben- Hur e Robert Taylor, em Quo Vadis.

No entanto, todas essas referências podem levar o espectador a achar necessário um (re)conhecimento enciclopédico da Hollywood da época, mas, não é o caso. O longa tem em sua proposta não uma caça de pistas, mas uma recriação do período com os Coen fazendo piada daquilo que eles parecem utilizar em beneficio próprio, mas sem deixar se influenciar negativamente, que é, justamente, o studio system, cuja modelo de produção industrial de filmes tão bem representado aqui parece não castrar a criatividade dos dois diretores. 

Mannix (Brolin) e sua labuta de afagar egos dos seus astros
Mas é por demais recompensador notar como os dois conseguiram aproveitar a oportunidade para dirigir, no mesmo trabalho, um musical com dançarinos de sapateado cheio de mensagens subliminares; um popular show com dançarinas aquáticas tão comum à época, além, claro, de um faroeste musical. 

E ver Frances McDormand sendo quase morta após sua echarpe prender na moviola que sua personagem usa para montar um filme é perceber que sim, os dois irmãos sabem o que estão fazendo quando decidem referenciar e reverenciar a velha Hollywood.

Ao observar toda a sequência na qual o chefe de estúdio, Manninx, busca opiniões de representantes de diversas religiões acerca do novo filme bíblico que está produzindo, percebe-se como o esmero de um roteiro tão repleto de sutis ironias fazem a diferença.

Deixo o crítico de lado e permito o fã assumir neste fechamento: Joel e Ethan Coen são gênios. Ponto.   

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Festival de Cinema Baiano - FECIBA 2016

O Película Virtual conversou com o cineasta Edson Bastos, produtor e um dos curadores do Festival de Cinema Baiano - FECIBA. O resultado você confere na matéria abaixo. Boa leitura!


Amanhã, dia 08 de abril, tem início na cidade de Juazeiro mais um Festival do Cinema Baiano (FECIBA), que esse ano chega à sua sexta edição apresentando uma variedade de temas nas Mostras tanto competitiva quanto nas demais escolhas que ilustram muito bem a produção baiana de curtas metragens, bem como exemplares do que vem sendo produzido fora do estado.

Entrocamento, de Maria Carolina e Igor Souza
Em uma edição itinerante, o festival acontecerá entre os dias 08 e 10 desse mês na cidade de Juazeiro; em seguida, será a vez de Feira de Santana, entre os dias 13 e 15 de maio, receber as mostras e, fechando as exibições e apresentando os premiados, Itabuna encerrará a mostra 2016 entre os dias 9 e 11 de junho.

Cordilheira de Amora II, de Jamile Fortunato
Com uma curadoria que prima pela variedade de estilos e técnicas nos curtas e longas metragens selecionados, o FECIBA 2016 trará para cidades que dificilmente receberiam estes lançamentos comerciais recentes, obras como Travessia, de João Gabriel; Que Horas Ela Volta?, de Ana Muylaert e Para Além dos Seios, de Adriano Big. Para o idealizador do festival e um dos seus curadores, o diretor e produtor Edson Bastos, o critério de seleção das obras visou justamente diminuir essa carência de distribuição fora das capitais. “[A Escolha] parte da necessidade de fazer com que os filmes sejam vistos e debatidos e do desejo de que a população tenha acesso ao que é produzido”, explica Edson. “Certamente se não fosse por um festival como o FECIBA, muitas pessoas não teriam acesso e não saberiam da existência de muitos dos filmes que estão sendo produzidos dentro do nosso estado”, complementa o idealizador do festival em entrevista para o blog (Confira restante do papo logo abaixo).

Sísifo do Vale, de George Neri é um dos curtas selecionados
Dez curtas metragens baianos participam da Mostra Competitiva 2016, que será dividida em dois programas de cinco filmes cada. Na primeira grade, Cordilheira de Amor II, de Jamile Fortunato; Órun Àiye: A Criação do Mundo, de Jamile Coelho e Cintia Maria; Neandertais, de Marcus Curvelo; Entrocamento, de Maria Carolina e Igor Souza e, fechando, Retomada, de Leon Sampaio.

Salitre, de Lara Belov
Na segunda grade da Mostra Competitiva, os curtas que compõem a programação são: Salitre, de Lara Belov; Sísifo do Vale, de George Varanese; Ana, de Camila Camila; IFÁ, de Leo França e, fechando, Sandrine, de Elen Linth e Leandro Rodrigues. Uma seleção que prima pela variedade de temas e de estilos de cinema, conseguindo alcançar um ótimo apanhado da produção recente na Bahia.


A animação Órun Àiye: A Criaçao do Mundo
Sobre as escolhas, a equipe de curadoria composta pelos cineastas Clarissa Rebouças e Henrique Filho, e pelo comunicólogo e especialista em audiovisual, Victor Aziz, definiu bem a missão de selecionar dez filmes de um universo tão amplo de inscritos.

Retomada, de Leon Sampaio
“Um ponto da curadoria que a gente buscou ressaltar foram filmes com temas que rompessem limites sociais e políticos. Barreiras que não podemos aceitar mais. É preciso dar voz, ouvir e conhecer a história pela perspectiva negra, indígena e da mulher. É preciso ter outros representes como protagonistas dos filmes”, explica Clarissa Rebouças. Sobre a labuta da seleção, a cineasta afirma que “foi bem difícil fazer a curadoria. Neste ano tivemos uma ótima qualidade de filmes inscritos, de diversos lugares e fechar em 10 filmes realmente foi uma tarefa árdua”, completou.


Neandertais, de Marcus Curvelo 
Para o diretor Henrique Filho, o processo de curadoria demanda uma relação com o contexto do período atual. “Estamos em uma época de muita discussão sobre os direitos humanos e inclusão social, então tivemos bastante atenção com o discurso dos filmes. Tivemos uma ótima qualidade técnica e de conteúdo no resultado da curadoria. Bastante coerente com o tema proposto no evento. E estamos muito felizes por ter uma ótima representação do cinema baiano nesta edição do FECIBA”, explicou.

Ana, de Camila Camila
As dificuldades na escolha, bem como a missão de ter uma variedade de temas na seleção foram elementos destacados por Victor Aziz. “Escolher é algo muito difícil, mas buscamos enxergar alem, ultrapassar o limite imposto. Selecionamos no que nos foi apresentado o que há de diverso e com qualidade, não só nas temáticas abordadas, quanto na técnica. Feliz por ver o documentário ter espaço, o experimental revelar talento no interior e a animação mostrar sua força. Optamos pelo cinema baiano sem limites e sem fronteiras”, afirma.
               
IFÁ, de Leo França

Sandrine, de Elen Linth e Leandro Rodrigues
Ainda nesta edição, haverá uma homenagem ao pioneiro do teatro e cinema baianos, primeiro ator negro a se formar pela escola de teatro da UFBA e símbolo da luta pela resistência, Mário Gusmão. Na ocasião, será exibido o documentário Mário Gusmão - O Anjo Negro da Bahia, que conta com a direção de Elson Rosário.

Cena do documentário abordando a vida de Mário Gusmão
Para Edson Bastos, a escolha de Gusmão como homenageado na Mostra Retrospectiva acerta pelo fato da memória do ator baiano gerar um debate. “Mário Gusmão nos leva a um debate amplo, ao mesmo tempo em que rememoramos a sua história e tomamos seu exemplo de resistência”, afirma o produtor do festival. “Quando começamos a debater sobre o homenageado, Victor Aziz, diretor do Núproart [e curador do FECIBA], sugeriu o nome de Gusmão e concordamos de imediato”, relembra Edson. “Num tempo em que questionamos sobre o protagonismo do negro na cena audiovisual, Mário Gusmão, por ser pioneiro, é referência para esse debate. E precisamos debater, pois mesmo nosso estado sendo tão diverso, com sua capital sendo a cidade com maior número de descendentes de africanos no mundo, é a sétima no ranking em homicídios contra negros em todo o país”, enfatiza.

Além da exibição do seu filme, Elson Rosário ministrará uma oficina de produção de elenco. Outras duas oficinas na área do audiovisual serão realizadas, entre elas a de Produção de Curta-Metragem, com a roteirista e diretora Paula Gomes, bem como a de Direção de Fotografia, com o diretor de fotografia, Jerônimo Soffer.

Outras mostras do festival vão apresentar trabalhos voltados para o público infantojuvenil, além de outros longas recentes, como os documentários A Loucura entre Nós, de Fernanda Fontes Vareille e Faz-se Filmes, de Violeta Martinez.

Outro ponto alto do evento será a mesa “A Linha de Fronteira se Rompeu” (Wally Salomão) que, nas três cidades, contará com a presença de diversos representantes do audiovisual nacional.

O Película Virtual conversou com o idealizador do festival, produtor e um dos seus curadores, Edson Bastos, acerca do projeto, do desafio de realizá-lo em três cidades, além da política de editais atualmente realizada na Bahia e no Brasil. Confira a continuação do papo logo abaixo. 

O diretor, produtor, curador e um dos idealizadores do FECIBA, Edson Bastos
Passando por três cidades do interior da Bahia, o FECIBA ganha um alcance bem maior de publico, podendo ir até onde está o espectador. Esse é um formato que você acredita que deveria ser adotado por outros festivais? A logística dificulta muito?

Edson Bastos -
Ainda não sabemos o resultado. Só no final para avaliarmos. Mas já percebemos dificuldades e limitações em realizar o projeto, agora em 03 cidades, com o mesmo orçamento dos outros anos. Acredito que a itinerância é algo importante para possibilitar acesso, sobretudo em lugares carentes de recursos e o FECIBA, por ter o papel de apresentar o que o nosso estado produz, precisa estar cada vez mais próximo dos espectadores, da população.

Juntamente com o Panorama Internacional Coisa de Cinema, o FECIBA tem conseguindo manter uma regularidade das suas edições, principalmente por conta do incentivo de editais. No entanto, outros importantes eventos, como a tradicional Jornada de Cinema da Bahia e o Festival Cinco Minutos, não aconteceram em 2015. Qual sua opinião em relação à política de editais oriunda tanto do governo da Bahia quanto do MinC?

Edson Bastos - É uma política importante, na medida em que antes, precisávamos ir ao balcão, pedir ao secretário, ou ter amizade com deputado para conseguir realizar um projeto. Os editais possibilitam a concorrência entre os produtores, que precisam cada vez mais se aperfeiçoar. Mas ao mesmo tempo, é uma política ainda excludente pois, aprova 50 projetos e exclui 250. Sem contar a concentração de recursos na Capital e Região Metropolitana (85%), uma vez que no último Edital Setorial de Audiovisual de 2013, o último aberto pelo Fundo de Cultura, apenas 15% foi direcionado para projetos do interior da Bahia. A SECULT-BA não lança editais setoriais desde 2013 (o resultado do edital saiu em 2014), estamos há dois anos sem os Editais Setoriais. Não fosse pelo Fundo Setorial do Audiovisual, do Governo Federal, as produtoras estariam paradas. Mas hoje temos, aproximadamente, 15 a 20 longas e séries de ficção, documentais e de animação, sendo produzidos nos próximos meses. É preciso haver uma continuidade, os editais precisam ser garantidos anualmente, pois são eles que têm possibilitado a realização de diversos projetos em nosso estado, têm gerado emprego, renda, além de estar mostrando uma diversidade de imagens nunca antes vista. Em contraponto é preciso pensar em outras políticas que agreguem mais, que diminuam as diferenças territoriais, que descentralizem mais recursos.

Outros eventos, como o itinerante Cine Avuadora, do CUAL, o Cineclube Walter da Silveira, em Salvador, o Cine Odé, em Ilhéus, têm conseguido manter viva a importante questão do “discutir cinema”. Você acredita na possibilidade de haver incentivos para que mais importantes eventos como estes possam acontecer?

Edson Bastos -
Sim, existem incentivos em diversas instâncias, privado, público, sobretudo para o debate, a formação, muito mais que a produção. Todos esses eventos, assim como o FECIBA, foram fruto do Edital de Agitação Cultural, promovido pela SECULT-BA. Eles pegaram todo o recurso de caixa do Fundo, 15 milhões, e investiram exclusivamente nesse edital. Esperamos que neste ano de 2016, além de serem abertos os editais Setoriais de Audiovisual, que seja aberto novamente o Edital de Agitação Cultural, com o dobro do valor investido.

Qual sua expectativa para o FECIBA 2016?

Edson Bastos
- Que as fronteiras sejam rompidas em todos os aspectos. Desde a perspectiva de público, à formação de mão-de-obra, aos temas dialogados, nas reflexões proporcionadas e nas ações a serem tomadas após essa edição.

Mais informações sobre o FECIBA 2016 você encontra no site do festival: www.feciba.com.br

quarta-feira, 6 de abril de 2016

De onde eu te vejo

(Brasil, 2016) Direção: Luiz Villaça. Com Denise Fraga, Domingos Montagner, Manoela Aliperti, Marisa Orth, Laura Cardoso. 


Por João Paulo Barreto

Parceiros em diversos projetos, o casal Luiz Villaça e Denise Fraga volta a trabalhar junto nesta comédia romântica que utiliza a nostalgia paulistana de modo curioso e, diferente de outros longas oriundos da Globo Filmes, sem o escracho exagerado e a caracterização forçada de seus personagens. É um filme de atuações bem sutis, o que não deixa de ser um alívio.

De onde eu te vejo exibe um casal em processo de separação. Mas, de modo estranho, o espectador não consegue enxergar as razões para aquele divórcio estar acontecendo. O filme não denota nenhum problema entre Ana Lúcia (Fraga) e Fábio (Domingos Montagner). Pelo contrário. Ela o ajuda a decorar seu apartamento, ele ainda lhe pede para arrumar sua gravata. Curiosamente, as brigas só começam quando eles não estão mais juntos.

Ex-casal entre janelas: gag visual criativa, mas que cansa após diversas utilizações
Excetuando o fato dele sair de casa para morar em um apartamento no prédio em frente (algo que funciona inicialmente como gag visual, mas que cansa um pouco após diversas inserções), não há muitos elementos no roteiro de Rafael Gomes e Leonardo Moreira para convencer o espectador de todo o drama que o casal aparentemente atravessa. Inevitável lembrar-se de outras comédias que trabalharam de maneira satisfatória a questão da crise em relacionamentos e o modo bem justificado como um divórcio ou tempo entre os casais foram inseridos. A História de Nós Dois, Separados pelo Casamento e Annie Hall são três dos que vieram à mente. 

Superado esse incômodo, o filme agrada pela boa química entre os dois protagonistas. Como dito antes, há uma eficiente utilização do sentimento da nostalgia para ilustrar boa parte da fase ruim que o casal atravessa. A ideia de que era no passado que as coisas davam certo, de que a era de ouro de nossas vidas parece já ter ficado para trás, de fato, acomete várias pessoas. E o filme, com uma bela trilha sonora instrumental composta por Dimi Kireeff, consegue ilustrar muito bem essa sensação dos personagens, transmitindo-a para o espectador. 

A cidade de São Paulo, com seus cinemas de rua fechando e restaurantes tradicionais virando estacionamentos, colabora nesse sentimento nostálgico. Na profissão de arquiteta não atuante, mas trabalhando na função de localizar imóveis para compra e demolição, Ana Lúcia cria uma interessante metáfora de sua vida pessoal com sua atual ocupação. Uma pena que os diálogos proferidos nos momentos de discussão entre ela e Fábio precisem salientar isso, preterindo qualquer sutiliza planejada.

Ana Lúcia e Fábio: a aparente distância que lhes fez bem
Na interação entre os protagonistas, percebe-se o acerto na escolha do elenco. Domingos Montagner consegue manter bem o tom entre a graça de suas situações e a tristeza que seu personagem carrega. Do mesmo modo, Denise Fraga deixa um pouco de lado os trejeitos de suas personagens televisas e entrega uma atuação sutil, tanto nos momentos de graça quanto nos de lágrimas. Ou até mesmo quando ambos os sentimentos se mesclam, como na boa gag dos dois se debulhando em lágrimas após deixar a filha na república estudantil de outra cidade. 

É um filme notoriamente sem grandes ambições e que, no final, agrada justamente por isso.

PS 1. A produção acerta em não utilizar versões jovens do casal ou tentar rejuvenescê-los de alguma forma para exibi-los em flashbacks. Após uma breve explicação de Ana Lúcia na breve quebra da quarta parede que o filme traz, conseguimos nos localizar facilmente na linha temporal da narrativa. 

PS 2. Que satisfação ver Laura Cardoso atuando com tamanha desenvoltura em sua personagem. Com um sorriso cativante, a veterana atriz entrega um dos belos momentos do filme, quando sua personagem ilustra, a partir de um simples raio de sol, as pequenas coisas que lhe dão alegria.