domingo, 15 de julho de 2018

Mostra CCN acontece no Cuca, em Feira


Mostra de Cinema Baiano e Nordestino em Feira de Santana 

Com amplo recorte de produções, a Mostra de Cinema Contemporâneo do Nordeste movimenta a cinefilia na Princesa do Sertão a partir de amanhã

Por João Paulo Barreto

Começa amanhã e segue até o dia 21 de julho, no Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), em Feira de Santana, a segunda edição da Mostra de Cinema Contemporâneo do Nordeste. Com perfil competitivo, o evento vai abranger curtas e longas metragens produzidos exclusivamente na região nordeste. Em um total de mais de cinquenta filmes, a Mostra fará um apanhado da recente e prolífica produção realizada em diversos estados, incluindo a Bahia, que estará presente com 24 trabalhos, entre longas e curtas.

Com entrada franca, além da exibição dos filmes, a Mostra CCN vai oferecer outras atividades. Dentre elas estão a Oficina Curtas para Internet, ministrada pela cineasta Larissa Fulana de Tal, e a Oficina Direção de Videoclipes, ministrada pelo cineasta Ícaro de Oliveira. Acompanhando os minicursos, o seminário “Curar e programar cinema no interior, da perspectiva das minorias”, será ministrado pela pesquisadora, cineasta e curadora do festival Cachoeira Doc, Amaranta Cesar. Além da palestra, Amaranta vai apresentar seu novo filme, Maré, impactante documentário que aborda diferentes gerações de mulheres negras e suas relações com o local onde vivem nos arredores de um mangue.

Cena de Verde Limão, filme de Henrique Arruda

COMPETITIVAS

Dividida em três mostras competitivas, a CCN 2018 vai exibir cinco longas metragens do nordeste, dentre eles os baianos Diário de Classe, de Maria Carolina e Igor Souza, que apresenta um pungente olhar em distintos processos de alfabetização; e o premiado Quilombo Rio dos Macacos, documentário dirigido por Josias Pires, que aborda a ação excludente da Marinha no processo de demarcação do terreiro de mesmo nome existente na região metropolitana de Salvador. Na Competitiva Nordeste de Curtas Metragens, filmes de Pernambuco, Maranhão, Ceará, Paraíba e Bahia compõem os dez selecionados para a mostra. Daqui, representam o tocante O Som do Silêncio, de David Aynan, filme que aborda com propriedade o dia a dia de um deficiente auditivo e suas relações familiares; e, além dele, Orgulho, breve curta dirigido por Ricardo Sena, que trata da relação violenta entre dois irmãos e seus receios em demonstrar emoções.

Com produções exclusivamente do nosso estado, a Competitiva Baiana trará um total de 11 curtas metragens, dentre eles Estela, filme dirigido por Hilda Lopes Pontes, que tem como protagonista a atriz Paula Lice, cuja atuação recebeu Menção Honrosa na edição do ano passado do Panorama Coisa de Cinema.  

Paula Lice em Estela, de Hilda Lopes Pontes

HOMENAGEM

Completando vinte anos de carreira como cineasta e com nove produções no currículo, entre curtas e longas metragens, o diretor maranhense Frederico Machado receberá o Troféu CCN e terá seu novo trabalho, o longa inédito Boi de Lágrimas, como filme de abertura da Mostra. Além deste trabalho, o cineasta terá exibido seu filme anterior, o premiado Lamparinas da Aurora, e o curta metragem Angústia, produzido em 2016. O realizador também participará de um bate papo acerca da produção de um cinema feito de forma enxuta, com equipes pequenas, mas que demonstra um resultado repleto de esmero e apuro técnico e estético. 

MOSTRAS TEMÁTICAS

A CCN também apresentará Mostras Temáticas, com filmes que dialogam na importante discussão do feminino, na questão LGBTQ, bem como na de relacionamentos afetivos. Dentre os destaques das três Mostras Perspectivas no Olhar, Fervendo, de Camila Gregório, curta urgente que aborda a necessidade de discutir a legalização do aborto; Verde Limão, filme de Henrique Arruda que aborda as lembranças de uma Drag Queen veterana prestes a entrar no palco pela última vez, e Não Falo Com Estranhos, de Klaus Hastenreiter, um enérgico e visualmente dinâmico curta acerca das paranóias que precedem as inseguranças no aproximar do sexo oposto. Com este trabalho, o diretor foi premiado na edição desse ano do Cine PE.

Para o coordenador geral da Mostra CCN e um dos curadores, Jessé Patrício, a busca do equilíbrio entre curtas e longas metragens, visando exibir um panorama abrangente da produção nordestina recente, foi um dos fatores principais no processo de seleção. Mas, outro ponto se destacou ainda mais nessa empreitada. “Para mim, um dos pontos que eu priorizei na idealização da Mostra foi o da possibilidade de criar um público de espectadores de cinema em Feira de Santana, uma cidade carente no que se refere a opções de acesso a produções. Mostrar para os feirenses que existe um cinema feito na Bahia e no nordeste”, explica.

*Matéria publicada originalmente no Jornal A Tarde, dia 15/07/2018

sábado, 14 de julho de 2018

Centenário de Bergman


A completude de um artista único


Centenário do diretor sueco é oportunidade de mergulho profundo em sua obra 

Por João Paulo Barreto

Em qualquer visita feita a exemplares da extensa obra de Ingmar Bergman, não há como sair incólume da experiência. Comemorando seu centenário de nascimento neste sábado, 14 de julho, precisar pinçar um filme na estante para simbolizar seu legado é um trabalho difícil. Há uma necessidade de se preparar psicológica e fisicamente para tal tarefa. Nesse intuito, revisitei alguns dos seus clássicos essa semana. Monika e o Desejo, Persona, O Silêncio e Gritos e Sussurros me levaram novamente pelos caminhos psicológicos de um olhar exclusivamente feminino, que o diretor conseguiu tão bem representar. Sorrisos de uma Noite de Amor nos aproxima de um perfil de comédia romântica que o cineasta desenhou à maestria. Inevitavelmente, retornei a O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, filmes que, mesmo realizados no mesmo ano (1957), denotam caminhos dispares nas abordagens psicológicas do diretor sueco no que se refere a um otimismo esperançoso vinculado a nostalgia, e à desesperança pessimista atrelada à inevitabilidade da morte. E por aqui mesmo fiquei.

PILARES

Talvez, escolher essas duas obras especificamente dentre as mais de sessenta que o realizador tem em seu currículo, sendo produções para o cinema e para a TV, se justifique por esse contraste que ambas possuem. Não somente pelas imagens simbólicas que atraem o cinéfilo para tais marcos do cinema bergmaniano, como a partida de xadrez ou o sorriso melancólico do professor a revisitar seu passado, mas lançar um olhar paralelo a esses dois filmes, símbolos do legado de Bergman, é tentar encontrar um equilíbrio entre suas duas propostas aqui: a da esperança e a do pessimismo.

 
Borg e seu mergulhar nostálgico no revisitar de memórias
A escolha de Morangos Silvestres pode até refletir a idiossincrasia de uma personalidade nostálgica e saudosista, mas o que se leva consigo após o término do filme é a mesma sensação de completude que o protagonista Isak Borg teve no reencontro de suas memórias afetivas. Das imagens oriundas dos vívidos sonhos do professor, surge a sua impulsão em se reencontrar com o passado. Quando a morte lhe espreita em um pesadelo silencioso, ao ver a si mesmo em um caixão caído de uma carruagem cujo eixo danificado parece ecoar como o choro de um recém nascido, Isak percebe a necessidade de repassar suas memórias. Morte e nascimento; esperança e pessimismo são constantes e estoicamente agonizantes nos dois pilares de Bergman. Morangos Silvestres e O Sétimo Selo se complementam em uma reflexão acerca de sentimentos tão díspares.

INEVITABILIDADE

Diante de todas as cenas marcantes de O Sétimo Selo, o impacto mais extenuante emocionalmente não foi o icônico jogo de xadrez com a personificação da Morte em sua visita ao cavaleiro na praia que o salvara, ou o encontro do mesmo Antonius Block (Max Von Sydow) com a “bruxa” condenada à fogueira pela culpa na peste. Ou nem mesmo os momentos de graça feitos pelo cavaleiro descrente de qualquer confiança nas mulheres ao predizer todas as falas da infiel esposa no pedido de perdão ao marido; ou, ainda, a última cena com parte dos personagens sendo levada para o além em uma dança macabra nas montanhas.

Mesmo diante de tamanho peso, a mais profunda cena de um filme que traz tantas reflexões acerca das tragédias de um mundo áspero e sem esperança é representada por um fugaz momento de felicidade. Nela, o cavaleiro Block conversa com o casal de artistas circenses enquanto come morangos silvestres (em uma clara referência para Bergman trabalhar o conceito de nostalgia em sua outra obra) e se permite falar sobre sua esposa que espera reencontrar. Ao ouvir os planos futuros daqueles pobres artistas, Antonius ousa sonhar da mesma forma. Ousa ser contagiado por uma esperança e fé em um futuro brilhante para si próprio. Seu sorriso traz um consolo, sua alegria, mesmo que frágil, nos faz sentir o mesmo sentimento daquele homem.
Embate simbolo na filmografia de Bergman
No momento seguinte, seu destino já fadado a ser interrompido pela fria mão da Morte lhe é recordado com a aparição da própria. Seu semblante muda por um rápido segundo, mas volta a ficar desafiador contra aquela figura pálida, vestida de preto. No entanto, a realidade já lhe derrubou. Não há sentido naquela sua alegria. Como um paciente em sobrevida, que tem momentos de ilusão na melhora do seu quadro, aquela sensação de felicidade do cavaleiro não perdura. Sua vida e seu destino, já estão entregues. Resta-lhe a dignidade de partir aceitando sua condição. Dignidade que, tragicamente, ele perde no seu último momento, quando o desespero diante de sua ruína lhe abraça.

Ingmar Bergman completaria 100 anos, hoje. Partiu há onze anos, aos 89, deixando uma completude artística única. Dono de uma filmografia que primava pelo domínio na direção de atores, perfeição aprimorada em anos de experiência no teatro, tinha como uma de suas marcas os closes fechados em rostos expressivos e a análise de sentimentos que causavam tormentas tantos em seus personagens quanto em seu espectador fiel. Sua obra completa encontra-se acessível àqueles cuja curiosidade aguçada se equipara à mesma resiliência artística de seu criador. Eu ainda voltarei mais vezes à nostalgia de Isak e a outros encontros com a criatura pálida trajando preto.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 14/07/2018








terça-feira, 10 de julho de 2018

Acertando o Passo

(Finding Your Feet, UK, 2018) Direção: Richard Loncraine. Com Imelda Staunton, Celia Imrie, Timothy Spall.


Acertando o Passo traz pertinente discussão sobre envelhecer

Apesar do rótulo feeling good movie, longa inglês acerta em sua reflexão sobre maturidade de relações

Por João Paulo Barreto

Acertando o Passo pode até ser o típico trabalho comumente chamado de feeling good movie. Lá estão diversos elementos que comprovam isso. O reencontro com um real propósito de vida após os sessenta anos de idade; a perda de uma vaidade inútil por parte da protagonista quando percebe seu mundo perfeito desabar; o abraçar de uma humildade até então esquecida no reconhecimento dos erros cometidos tanto no passado quanto neste novo processo de reencontro emocional. Mas, em sua construção, a comédia dramática acerta na abordagem do revisitar de velhos e desnecessários orgulhos, bem como no reestruturar de uma rotina diante do acolhimento de novas experiências.

O que o diretor britânico Richard Loncraine propõe aqui é justamente esse tipo de análise na vida de sua protagonista, Sandra Abbott, que, após descobrir a infidelidade de seu marido, resolve terminar o casamento de décadas. Vivida por uma bem à vontade Imelda Staunton, o longa traz como seu mote a adaptação a uma nova vida por parte de Sandra. Porém, o que seria comum e clichê de se esperar em comédias com tal viés, é visto aqui com uma bem vinda sutileza. Deixando de lado gags visuais que colocariam a personagem em situações constrangedoras no readaptar-se a uma nova fase de dificuldades que sua vida atravessa, Loncraine prefere focar sua câmera na adaptação psicológica da mulher diante daquela fase.

Sandra e sua adaptação a uma nova realidade
Claro que, tendo a dança como fator primordial para aquela superação de mágoas, o filme também utiliza a comédia física para causar risos no espectador. Timothy Spall, um dos rostos mais marcantes do cinema britânico, com diversos trabalhos ao lado do diretor Mike Leigh, se entregou bem ao papel de Charlie Glover, para quem a dança significa um extravasar da dor de ver sua esposa sucumbir ao Alzheimer. Parte do grupo de idosos a praticar os passos dançantes como forma de terapia de grupo, Spall se destaca por conseguir unir sua falta de perspicácia junto à música com uma insistência cativante, algo que gera comoção por perceber o intuito do homem em utilizar aqueles momentos como uma fuga de sua realidade dolorosa.

Assim, o ponto de partida no coração magoado de Sandra e sua mudança de vida ao decidir morar com a irmã, Bif (Celia Imrie) torna-se acertadamente não o destaque crucial do filme, apesar de sua importância, mas um convite ao espectador para visitar as vidas daqueles três protagonistas, sendo que na irmã Bif, ou Elizabeth, Sandra encontra mais do que uma redenção. Imrie, inclusive, com sua presença espevitada e atrevida, questionando qualquer limite moral que sua idade venha lhe impor, consegue dar vida à sua personagem, algo que, diante da tristeza enfrentada por Charlie, acaba por se tornar um equilíbrio entre a doçura e a tristeza do filme.

Sandra encontra seu par
Dono de uma filmografia eclética, que passeia por comédias românticas eficientes como Wimbledon: O Jogo do Amor e filmes de ação como Firewall – Segurança em Risco, Loncraine, aqui, comprova sua competência ao criar momentos tocantes sem a necessidade de apelar para o drama barato no ilustrar da dor de seus personagens. Isso é perceptível principalmente em dois momentos, um deles envolvendo um afetivo abraço entre as irmãs, quando uma delas lhe entrega uma confissão; e, finalmente, no dobrar de algumas peças roupas por parte de Charlie. Aqui, o olhar pesado e soturno de Spall revela a dor de seu personagem pela doença com a qual sofre a esposa. Não precisa de muita coisa. Tudo está no olhar. E, claro, ter Timothy Spall nessa função é metade do esforço alcançado. 

*Crítica publicada originalmente em A Tarde, dia 10/07/2018



sexta-feira, 22 de junho de 2018

Jurassic World - Reino Ameaçado


(Jurassic World - Fallen Kingdom, EUA, 2018) Direção: Juan Antonio Bayona. Com Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Justice Smith, Rafe Spall, James Cromwell


Terror em casa mal assombrada encontra dinossauros

Com mescla de estilos, Jurassic World: Reino Ameaçado acerta ao inserir
elementos de gênero incomuns à franquia

Por João Paulo Barreto

O principal acerto do diretor espanhol Juan Antonio Bayona ao adentrar no universo criado por Steven Spielberg no clássico de 1993, Parque dos Dinossauros, é utilizar sua experiência em filmes de suspense e de fantasia para reinventar o conceito de pavor que as criaturas ferozes do período jurássico podem causar tanto em suas “vitimas reais” quanto no espectador que experimenta aqueles medos de dentro da sala escura.  Ao optar por não mais apostar na óbvia utilização dos cenários grandiosos da natureza como ponto de clímax para seu filme, algo realizado com eficiência em Jurassic World, longa de 2015, o cineasta trilha um caminho de tensão que se aproxima da eficiente claustrofobia vista no desfecho da obra original. Aqui, entretanto, ele a constrói com uma assumida referência ao gênero do terror.

Claro que o filme ainda investe no espetáculo visual oriundo da Ilha Nublar, que, agora, segue ameaçada não somente pela ingerência humana na ambição de tirar lucro das criaturas não mais extintas, mas, também, por conta de um vulcão em erupção que deverá destruí-la junto a boa parte dos seus animais. As sequências de fuga, tanto dos bichos quanto dos humanos que seguem para o local no intuito de salvar algumas espécies, impressiona. Dentre estes, o herói Owen Grady, vivido por Chris Pratt, e, também, a agora defensora dos direitos dos dinos, Claire Dearing, mais uma vez na pele de Bryce Dallas Howard. 

Climax na mansão: elementos de terror clássico em casa mal assombrada

Acompanhando os dois, os coadjuvantes clichês de sempre, sendo eles uma cientista de aparência moderna e agilidade surpreendente, e o alívio cômico na presença de Justice Smith, jovem ator negro repleto de caras e bocas cujo único propósito em cena parece ser o de fazer a audiência rir por conta de sua insegurança.  Claro que isso o levará à coragem no momento ideal. Curioso como Hollywood ainda insiste em escalar atores afrodescendentes com um intuito reservado apenas ao campo da comédia.

TERROR CLÁSSICO

Mas, mesmo com a estrutura previsível cujo destino dos personagens parece estar fadado no momento em que os conhecemos, o que mais chama atenção na proposta de Bayona é justamente a adequação daquele terror a algo mais de acordo com sua experiência oriunda de filmes como O Orfanato, de 2007, e o recente Sete Minutos Depois da Meia-Noite. Lá, sensações como o suspense e o pânico que experimentavam os habitantes de suas histórias possuíam uma roupagem sobrenatural e de apelo para um cinema thriller mais tradicional. O que vemos em Jurassic World é uma reutilização destes elementos e artifícios clássicos, mas acertadamente usando os repteis não somente como ferramentas de sustos fáceis, mas como símbolos de um terror, apesar de simples, eficiente. Logo, é com um sorriso de canto de boca que vemos um dinossauro caminhar pelo telhado de um casarão para, em seguida, adentrar sorrateiramente em um quarto escuro através da janela para espreitar sua pequena vitima que se esconde debaixo de um lençol. Quer pesadelo mais ameaçador para uma infância do que aquele que se esconde debaixo da cama como um bicho papão?

Dino-Papão: reutilização do terror infantil em estilo jurássico 
O uso elementar da mansão na qual o terceiro ato se desenrola confirma esse controle de Bayona no mesclar de gêneros em seu filme.  No porão da casa, dezenas de monstros se fazem presentes tanto na figura das gigantescas criaturas, quanto na de gananciosos bilionários a participar de um leilão para a compra dos animais. Impossível não pensar nas seminais obras que utilizam o simbolismo da casa mal assombrada com criaturas escondidas, como A Queda da Casa de Usher, A Volta dos Mortos Vivos ou até mesmo Evil Dead. Mais do que isso, neste ponto, Bayona  dá ao seu filme aquela discussão comum, mas ainda pertinente, das obras anteriores e questiona: quem são os verdadeiros monstros naquela história?

Apresentando um final simbólico e que retorna à discussão vista na obra de 1993 acerca dos riscos vinculados aos poderes que a ciência concede ao ser humano, Jurassic World – Reino Ameaçado acaba por levar a franquia para um nível que desperta a curiosidade do espectador justamente pela ideia de sair da premissa básica e, convenhamos, esgotada dos quatro filmes anteriores. Com um desfecho em aberto, as possibilidades que uma conclusão para essa nova trilogia trazem são diversas. Resta torcer para que, no próximo filme, os nomes por trás do roteiro e direção ousem da mesma forma que Juan Antonio Bayona fez aqui.


*Texto publicado original em A Tarde, dia 23/06/2018


quinta-feira, 21 de junho de 2018

Tungstênio


Dhalia concede movimento à maestria de Quintanilha


(Brasil, 2018) Direção: Heitor Dhalia. Com Fabrício Boliveira, Wesley Guimarães, José Dumont.

Por João Paulo Barreto

 “Bom é quando não tem erro. O negócio é meter logo bomba, pai!” A frase simbólica proferida pelo narrador enquanto pescadores trapaceiam no mar da cidade baixa, às margens do Forte de Monte Serrat, reverbera na vida de todos os personagens de Tungstênio, novo filme de Heitor Dhalia. E o peso da tensão oriunda das explosões a matar os peixes parece afetar não somente àqueles que estão próximos, mas se alastra como uma teia na vida de outros indivíduos, colocando-os em situações limítrofes. E essa série de narrativas paralelas é algo que o longa exibe de modo constante, quase frenético, e com uma fluidez palpável, passando de um arco para o outro e retornando ao seu ponto, sem atropelos.

Dhalia, a partir da obra original de Marcello Quintanilha, captou de modo pungente a criação do seu autor. O que o espectador presencia na tela é um encadeamento de histórias lineares e não lineares, com flashbacks distantes e recentes, tudo em uma urgência que, apesar de sua velocidade, consegue se tornar fluída na narrativa, sem confusão para o espectador. Oriunda de uma história em quadrinhos na qual Quintanilha explora ao máximo as formas de contar uma saga através dessa arte específica, Dhalia tinha em mãos o desafio de transformar em imagens em movimento aquela graphic novel que já possuía uma estrutura com enquadramentos cinematográficos. Mas não que isso torne fácil o trabalho do diretor. O desafio aqui é ainda maior na busca de tentar transcrever em movimentos reais algo que parecia já possuí-los nas páginas impressas.

Seu Ney (Dumont) libera a fúria repreendida

Na história, Seu Ney (um José Dumont inspirado) deixa subir-lhe à cabeça a arrogância dos tempos de militarismo ao exigir que os dois pescadores sejam autuados pela pesca predatória. Caju, jovem com pequenos furtos e tráfico no currículo, é a vitima da raiva do homem. Acaba aceitando forçadamente ajudá-lo e telefona para um conhecido, Richard, policial truculento que vai até a praia em busca dos meliantes que pescam com bomba. É neste ponto que a violência que parece ligar a todos e mantê-los em um mesmo patamar se confirma como fio condutor do filme. A explosão de fúria abarca a todos. Tungstênio ilustra bem o fato de que a mesma truculência que abarca militares reformados como Ney, atua de forma igual na conduta de Richard (Fabrício Boliveira, insano). A violência vicia. Pode ficar adormecida por um período, mas sempre está ali à espreita, buscando escapar. E na obra de Quintanilha, quando ela escapa, é implacável em seu estrago, algo que Dhalia ilustra com maestria. 

Fabrício Boliveira na pele de Richard: truculência militar de geração para geração

A cidade de Salvador, aqui, pode até ter berimbaus ao fundo, como que a ilustrar seu calor e trânsito infernais, mas foge de qualquer clichê global de baianidade e povo condenado a ser feliz. Aqui, é cobra comendo cobra. A voz over de Milhem Cortaz não pega o espectador pela mão de modo didático. Ela se faz presente como um comichão a incomodar e mostrar com ainda mais crueza aquela realidade. Caju é surrado pelo militar reformado e busca sua vingança contra aquela agressão. Mas, ao mesmo tempo, rouba um telefone de uma trabalhadora e engana um amigo que vende geladinho. Não há autopiedade que dure muito tempo quando sobreviver fala mais alto. E que se danem os escrúpulos. Caju é um exemplo dessa sobrevivência forçada. Apanha na cara de vários, mas que só ousa se vingar de um. No seu papel, Wesley Guimarães consegue trazer uma frustração pulsante. Desde a falta que faz seu pai, morto sete anos antes, até o ódio e admiração simultâneos que sente por Richard, o rapaz transmite tais sentimentos de forma a captar a atenção do espectador sem os estereótipos comuns quando soteropolitanos são representados. Um achado.

Sem redenção, Tungstênio é tão pesado quanto o metal de seu título. Qualquer esperança de final feliz quando um encontro inesperado é presenciado por Caju com um olhar de curiosidade e quase satisfação cai por terra no seu desfecho virulento e brutal que deixa as marcas não só no personagem quanto no público. “O negócio é meter logo bomba, pai!”. E foi justamente isso que Dhalia e Quintanilha fizeram aqui.


* Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 21/06/2017




terça-feira, 19 de junho de 2018

Fevereiros

Menina dos Olhos de Oyá


Exibido na Mostra de Cinema de Outro Preto e vencedor do Festival InEdit Brasil, documentário Fevereiros aborda com esmero a religiosidade e musicalidade de Maria Bethânia

Por João Paulo Barreto

Com projeção ao ar livre na bela Praça Tiradentes, durante a 13ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, Fevereiros, documentário que aborda a história do clã Veloso, mais especificamente de Maria Bethânia, sua religiosidade e sincretismo, bem como a paixão mútua da cantora pela escola de samba Mangueira,  gerou comoção e emocionou o público presente no último domingo. Dirigido por Marcio Debellian, que também assina o roteiro ao lado de Diana Vasconcellos, o filme capta de modo preciso a relação da interprete com seus pilares tanto de fé quanto musicais e culturais.

Como o próprio nome já diz, o filme tem no carnaval e os festejos do mês em questão um mote central e ponto de partida em seu desenvolvimento. Mas, mais do que apenas abordar a dedicação da Mangueira e a conquista do título no desfile de 2016, Fevereiros aposta (e ganha) no esmiuçar da proposta da escola de samba no estudo da relação de Bethânia com suas influências dentro do catolicismo, do candomblé e do, como já dito, sincretismo que une as duas religiões.  Assim, é através dos depoimentos da imortalizada como “Menina dos Olhos de Oyá”, que adentramos nas raízes da cantora. Em sua dedicação a manter tradições, logo de inicio a ouvimos dizer que fevereiro é um mês que ela sempre busca passar em Santo Amaro, sua cidade natal, que, durante o período, realiza a secular festa em louvor a Nossa Senhora da Purificação. Entre sorrisos, Bethânia explica que muitos dos itens de vestuário que ela ganha ou compra durante o ano, ela reserva para usar em fevereiro, em sua estadia na cidade natal. E que isso é algo prioritário para ela, chegando a mudar compromissos profissionais e que, inclusive, nunca esteve na lavagem do Bomfim ou na festa do Rio Vermelho para Iemanjá por conta do choque nas datas dos rituais na cidade do recôncavo. O corte para a imagem de Bethânia, aos 70 anos, a correr pelas ruas de Santo Amaro denota essa importância de modo único. Em uma dedicação singular, a paixão da cantora se torna algo 
palpável para o espectador.

Caetano relembra os momentos da infância com a irmã


CAETANO É DEUS

Neste ponto, percebe-se a escolha da montadora Diana Vasconcellos em usar no filme três abordagens, que acabam por se misturar de modo fluído, sendo também perceptível o equilíbrio e ritmo alcançado no resultado. A primeira refere-se à influência da religião católica na sua vida como um todo, mas mais precisamente na juventude de Bethânia. Sua aproximação da novena de Santo Amaro, que tinha a matriarca Dona Canô como uma das principais organizadoras; a primeira comunhão sua e de seu irmão Caetano, cujo depoimento causa risos pelo receio do músico ao saber que “consumiria o corpo de Cristo” e, mais impactante ainda, a fala de Bethânia a explicar que tinha medo da dita onipresença de Deus, tão propagada pelos mais velhos em tom de ameaça e que, por isso, buscou conforto na figura feminina de Nossa Senhora. Tudo isso embalado pelo riso ao contar que a criança Caetano a acalmou dizendo que não precisava ter medo, pois ele era Deus.

Neste encaminhamento, Fevereiros segue em sua narrativa abordando a aproximação de Bethânia para a religião de matriz africana, que começara ainda na infância, quando uma irmã de criação teve experiências de incorporação espiritual na sua presença e de Caetano. Com inserções de imagens de arquivo, o longa ilustra bem essa relação, com ela ainda jovem a explicar a Chico Buarque a influência em sua vida (em um diálogo que prima pelo surreal), a importância de Mãe Menininha do Gantois, sua guia espiritual, e a tradição em Santo Amaro na presença da fala de Pai Poti e Pai Gilson, dois representantes da religião na cidade. Aqui, é quando o filme alcança o sincretismo em sua abordagem, que, mesmo presente desde o começo da projeção, se confirma na mensagem central da obra acerca da tolerância e do respeito pelas diversas crenças e credos existentes no Brasil. E, ainda, trazendo questões vinculadas com o ateísmo de Caetano, Chico e Jorge Amado em paralelo à admiração que têm pela religião candomblecista, a obra aborda um respeito até ao direito de não crença. Caetano, inclusive, explica a influência da letra clássica de Milagres do Povo como oriunda de uma fala de Jorge, algo que coroa o filme como uma revelação. O diretor Marcio Debellian explica que “Milagres do Povo é uma canção fundamental para o filme, pois ela acaba fazendo parte do roteiro. Nem a Bethânia sabia dessa história de que foi o Jorge Amado que influenciou o Caetano a escrever aquilo”, afirma

Chico e Bethânia em dueto mágico

PESQUISA MUSICAL

Sendo um documentário genuinamente musical, a pesquisa de canções representou uma parte crucial do trabalho. Desde o hino, Reconvexo, clássico de Caetano gravado por Bethânia, a abrir o filme como um anúncio da baianidade presente na tela, passando pelo samba de roda de Santo Amaro, que é algo que a própria Bethânia traz para a narrativa, até o marco inicial É de Manhã, primeira composição de Caetano a ser gravada por sua irmã no compacto que trazia Carcará no seu lado A, o longa é permeado por momentos símbolos dentro da história da musica popular. “Havia canções que eu já planejava colocar, coisas que eu amo da discografia da Bethânia. Mas houve outras que o filme pedia. Ao abordar a relação dela com Mãe Menininha, eu precisava colocar um Ijexá de Oxum, por exemplo”, explica o diretor. E não somente canções de Caetano se fizeram presentes, como o momento em que um dueto entre ela e Chico enche a tela ou quando a música de Gerônimo, Salve as Folhas, é utilizada. “Nesse caso, essa é uma louvação aos orixás. E como era um momento em que o filme falava da lavagem de Santo Amaro, a música de Gerônimo casou muito bem”, conclui.

TOLERÂNCIA RELIGIOSA URGENTE

Ao final, a mensagem de Fevereiros rima muito bem com a do próprio enredo da Mangueira, no carnaval de 2016, quando surgiu o esboço inicial do longa. No entanto, o que mais chama atenção é o modo como o tema, em pouco mais de dois anos e meio, se tornou tão urgente para o diretor Márcio Debellian e para o espectador. “Hoje, no Rio, temos um prefeito evangélico que impõe restrições ao carnaval e emite opiniões terríveis sobre as religiões de matriz africana. Casos de intolerância religiosa acontecendo novamente, samba sendo chamado de coisa de bandido”, contextualiza.  O documentário leva a uma conclusão ilustrada muito bem no exemplo dos Veloso, onde Caetano tem uma postura atéia, sua irmã, Mabel, católica e Bethânia, além de católica, é filha de Iansã, representando bem sua personalidade e sincretismo. “O papel do meu filme é levar uma reflexão, e não um juízo de valor. O mais importante é respeitar todas as religiões e conviver bem entre si. Ver as belezas que todas elas têm”, afirma o cineasta. Intento alcançado.

*Texto publicado originalmente no jornal A Tarde, dia 19/06/2018



domingo, 17 de junho de 2018

Cine OP 2018 - Mostra Histórica de Curtas




Na Mostra Histórica de Curtas apresentada na 13ª edição da Cine OP, um equilíbrio atrativo de filmes. Indo de Rogério Sganzerla a Ivan Cardoso, a seleção foi bem pertinente.
Escrevi um pouco sobre eles. Confira!

Brasil (1981). Direção: Rogério Sganzerla. Com imagens de arquivo de  Caetano, Gil, João Gilberto, Maria Bethania, Orson Welles.


Apesar de soar apenas como uma pura e simples homenagem de Sganzerla a símbolos e heróis da cultura brasileira, o filme do diretor de Sem Essa Aranha, Brasil, curta realizado em 1981, tem disfarçado em suas diversas colagens de momentos ícones da cultura musical e cinematográfica do país uma sutil análise do modo como tais elementos do imaginário interagem entre si diante da atenção do espectador. A começar pela lavagem da estátua do Cristo Redentor pelos operários que se arriscam em seus ombros para tirar a sujeira acumulada. Ao som de Aquarela do Brasil, de João Gilberto, vemos aquelas pessoas a dezenas de metros do solo em busca do seu pão em um país reservado para poucos. Ao tirar da colheita do coco o sustento, outros suam e calejam as mãos a abrir a casca dura dos frutos. Caetano, Gil, Bethania e o próprio João Gilberto sorriem descontraídos ao som da música hino, representando ainda um pouco da resistência e os sinais de que aquele país, apesar de realmente lindo, é reservado para poucos.

Não há ingenuidade ou romantização na proposta de Rogério Sganzerla. De fato, não seria comum a um diretor com filmografia tão única em sua crítica ao seu próprio tempo e país se render a uma proposta de simples homenagem ao seu país e a seus belos símbolos. Talvez, claro, isso seja apenas um pessimismo de um escriba descrente. Talvez Sganzerla tenha, de fato, apenas salientar a beleza de seu lugar de origem. Ou não. Ver Orson Welles surgir como símbolo de um cinema dominador ianque ao ser recebido no Brasil com tamanha pompa é algo que nos faz pensar na figura controversa de Rogério. Divago...
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A Fila (1993) Direção: Katia Maciel.



Dentre os curtas exibidos na sessão, o dirigido por Katia Maciel é o de proposta mais pertinente. Em 10 de novembro de 1993, ao registrar a fila de cineastas que se formou diante de um prédio governamental onde haveria a análise por parte de algum resquício da implodida  Embrafilme para distribuição de verbas para produção, Maciel acabou por ilustrar a situação caótica deixada por Fernando Collor de Mello quando fechou a agência pouco tempo antes. Munidos de malas e caixas com as cópias dos projetos a serem apresentados para análise, nomes como Júlio Bressane, Tizuka Yamasaki, Nelson Xavier, dentre muitos outros, se fizeram presentes na busca de financiamentos. O curta é ilustrado com uma trilha sonora que emula certa comicidade naquele momento, mas é na tristeza de ver artistas plantados diante de um símbolo burocrata, reféns dessa mesma burocracia que exige carimbos, xérox e muita paciência por parte daqueles interessados em fazer o cinema nacional evoluir. Entre diversos sorrisos e brincadeiras na fila, um lastimar palpável em registro histórico.

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Ver Ouvir (1966) Direção: Antonio Carlos de Fontoura.


Antonio Carlos Fontoura, veterano cineasta, esteve em Ouro Preto para exibir um curta que realizou em 1966. Documento histórico, Ver Ouvir registra as impressões de três jovens artistas, Roberto Magalhães, Antonio Dias e Rubens Gerchman acerca da relação que possuem com a urbanização, com as cidades em si. Seus passos na metrópole que observam em busca não somente de temas a serem abordados em seus trabalhos, os tornam analistas atentos de seu próprio tempo. O filme registra intervenções artísticas dos homens, bem como os locais de trabalho onde cada um deles exprimia suas criatividades. Um estudo do modo como cada processo de criação se revela, o filme de Fontoura leva o espectador à reflexão acerca desse tipo de fruição. Ao espectador que se esforçará para exprimir em palavras suas impressões, uma identificação plena acerca da dificuldade daqueles três no que se refere à insistência em tentar viver do que se cria intelectualmente.
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O Som ou Tratado de Harmonia (1984) Direção: Arthur Omar


Em certo momento de O Som ou Tratado de Harmonia, uma piada diverte o espectador quando um trecho do clássico Édipo Rei é lido por uma voz grave e, em seguida, pela mesma voz sob efeito de gás hélio. A narração explica que, se a atmosfera terrestre fosse composta por hélio ao invés de oxigênio, a dramaticidade da leitura não seria possível. Apesar de sua comicidade, o trecho leva a uma reflexão importante.

No audiovisual, o som cumpre papel fundamental, algo que não é novidade. Mas o que diretor Arthur Omar propõe em seu curta é uma observação mais profunda acerca da importância deste elemento. Criando uma ilustração visual de diversos exemplos deste elemento, o cineasta cria uma narrativa envolta por símbolos às vezes simples, como os contidos nos sons de uma metrópole, às vezes chocantes, como imagens de uma necropsia a exibir o canal auditivo em sua ligação com o cérebro.

Ilustrando o cinema como arte totalmente dependente do som em seu processo de criação, Omar apresenta uma relação também do espectador como ser humano em suas lembranças e sonhos atrelados aos sons. Um filme de difícil abordagem, mas muito bem sucedido em seu resultado.
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Das Ruínas à Rexistência (2007-2009) Direção: Carlos Adriano.



Conheci a obra do cineasta Carlos Adriano tardiamente. Foi através do belíssimo Sem Título # 1: Dance of Leitfossil, homenagem que o realizador fez ao seu companheiro Bernardo Vorobow, curador e cinéfilo mestre que falecera em 2009. Tratava-se de um filme rápido, ímpar, no qual uma colagem de imagens de Fred Astaire a bailar com Ginger Rogers levava o som de um fado português e tinha o sorriso de Vorobow a ilustrar alguns frames. Um filme deveras apaixonante. Calhou que assisti a mais dois filmes da sequência Sem Título de Adriano e percebi se tratar de um cineasta de identidade única, cuja proposta de realização desafia o espectador. Aqui, os diversos símbolos representados em colagens nos fazem querer decifrá-los em tarefas, apesar de nem sempre fáceis, recompensadoras.

Em Das Ruínas à Rexistência, realizado entre 2007 e 2009, Adriano se debruça sobre imagens captadas pelo poeta Décio Pignatari entre os anos de 1961 e 1962. São imagens que o próprio diretor explicou na apresentação de seu filme aqui em Ouro Preto como parte de trabalhos nunca finalizados ou exibidos por Décio e ficaram no esquecimento até a aproximação dos dois. Adriano afirmou, ainda, que explicou ao poeta que faria um filme do seu jeito, algo que foi apoiado por Décio.

O resultado final é uma colagem de imagens que beira ao caleidoscópico, como bem colocou o cineasta em texto publicado on line. Com registros históricos da greve dos vidreiros de Osasco, em 1910, que levaria a uma proposta de documentário nunca realizado, bem como uma ficção também não filmada, Carlos Adriano reimagina e reconfigura toda a captação feita por Pignatari, trazendo para o campo do poético/experimental o que poderia seguir uma estrutura mais tradicional, mas não menos eficiente. Um filme enigmático e cativante.
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À Meia-Noite com Glauber (1997) Direção: Ivan Cardoso.


Trabalho homenagem de Ivan Cardoso destinada à figura enigmática de Glauber Rocha, À Meia Noite com Glauber apresenta uma colagem de momentos marcantes da sua filmografia e busca centralizar sua montagem nas declarações polêmicas do diretor baiano em paralelo às imagens tanto dos seus clássicos quanto de outras obras nacionais realizadas no mesmo período.

O acerto de Cardoso é comparar os filmes com os de José Mojica Marins, um dos seus heróis e principal influenciador na criação do gênero do terror no Brasil. Tendo uma carreira centrada em filmes do gênero “terrir”, Cardoso se apropria bem dos registros de Mojica em paralelo aos de Glauber, analisando a evolução da filmografia nacional de gênero em paralelo aos marcos do Cinema Novo que o cineasta de Vitória da Conquista proclamava-se como criador.

Nesse viés, dois pilares injustiçados da produção nacional ganham uma comparação pertinente, em um amalgama que denota o abismo existente entre as duas filmografias, sendo a de Mojica relegada a um patamar popular bem inferior à de Glauber.


sábado, 16 de junho de 2018

Talvez uma História de Amor


Comédia romântica traz reflexão sobre valorizar relacionamentos


Com Mateus Solano, Talvez uma História de Amor derrapa em alguns momentos, mas acerta ao ilustrar a perda em uma relação amorosa

João Paulo Barreto

Baseado no livro homônimo do francês Martin Page, Talvez uma História de Amor é tão simpático quanto seu próprio título já entrega. Daqueles tipos de trabalho que podem até não despertar sua atenção por conta de um já esperado final romântico e meloso, mas que, ao menos, podem garantir sua curiosidade devido a incomum e nonsense trama. Nela, Virgílio (Mateus Solano), é um publicitário boa praça que joga baralho com a vizinha idosa, cumprimenta a todos com gentileza, mas que foge de relacionamentos amorosos. A surpresa aqui é que ele vive em um, mas não sabia. Ou melhor, não se lembrava. E ainda mais surpreendente: só percebe sua amnésia após ouvir um fora da namorada deixado em uma mensagem na secretária eletrônica. Quando entende que nem se quer se lembra quem é a dona daquela voz, resta pouco ao metódico homem a não ser procurar sua psiquiatra, fazer uma tomografia e esperar pelo pior (cena que inclui uma participação hilária de Gero Camilo).

Metódico, Virgílio vive seu pesadelo pessoal de esquecimento

O filme é a estreia em longas metragens de Rodrigo Bernardo, cineasta por trás de diversos curtas e da série (Des)Encontros, onde já abordava temas ligados a relacionamentos românticos. Com Talvez uma História de Amor, é perceptível uma maturidade do diretor e segurança em sua câmera através da ilustração visual do TOC e da personalidade de hábitos rotineiros e metódicos de seu protagonista. Ao apresentar a figura de Virgilio ao espectador, Bernardo consegue utilizar bem posicionamentos estáticos em quadros amplos nos quais nota-se a presença solitária do homem junto a itens milimetricamente posicionados, desde os quadros nas paredes, móveis e utensílios domésticos de sua casa, até as peças que compõem sua mesa de escritório, como posts it, papéis e canetas em perfeita justaposição (sendo este, claro, um artifício pra lá de batido). Mas, mesmo em certos aspectos previsíveis, é pertinente observar que os elementos aparentemente estáticos ilustrados pelo filme e que compõem seu dia-a-dia vão se alterando e tornando-se caóticos à medida que sua confusão mental se agrava.

ANÁLISE DE RELACIONAMENTOS           

Gradativamente, quando a busca por Clara, a namorada esquecida, se torna infrutífera e a ordem planejada na vida do publicitário começa a desmoronar em uma série de acontecimentos descabidos (a suspensão do fornecimento de energia elétrica e água de sua casa ou a ordem de empacotar seus objetos oriunda do dono do apartamento, por exemplo), é curioso notar como visualmente isso é ilustrado pelo diretor, que transforma o lugar uma vez irretocável em uma bagunça, repleta de caixas e sem luz. Neste ponto, inclusive, o roteiro acerta em demonstrar visualmente a busca do protagonista pela resolução do mistério e pelas suas lembranças através de um capacete com lanterna, item comum em escavações. A rima visual contida no ato de Virgilio “enxergar no escuro” de sua casa as lembranças de sua vida a dois com a ajuda de um instrumento comumente utilizado em escavações denota bem a ideia de perda de uma relação cujo valor não dado por uma das partes a faz cair em um abismo de esquecimento. E esse é um dos pontos de profundidade que se escondem atrás de uma história aparentemente simples, mas que carrega uma mensagem bastante pertinente acerca do equilíbrio necessário em relacionamentos. 

Sozinho na multidão: Virgílio tenta desvendar o mistério

Envolto em uma áurea de comédia romântica, com direito a cenas em Nova York, algo que remete aos filmes de Norah Ephron (que é até homenageada no filme) e, claro, por conta de um encontro no topo de um prédio, nos faz lembrar de Segredos do Coração, com Warren Beatty e Annette Bening, Talvez uma História de Amor pode ter seus momentos em que o roteiro demonstra-se repetitivo, como as sequências de encontros seguidos de Virgilio com as várias amigas que podem levá-lo à Clara, ou a absurdamente irreal utilização dos telões em Times Square para enviar um recado (tudo engendrado simplesmente em questão de minutos e após um telefonema), mas, como disse lá no começo, acaba sendo um filme cuja simpatia de sua premissa e reflexão trazida acerca do risco oriundo de um desgaste em relacionamentos cujo um único lado apenas é priorizado, acaba por ganhar o espectador. Ele nos faz pensar, inclusive, no clássico Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o que não é pouco. E sair do cinema refletindo sobre isso é algo por demais recompensador quando nos propomos a simplesmente assistir a uma comédia romântica.

*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde de 17/06/2018




Cine OP homenageia Maria Gladys

"Cara do cinema nacional", Maria Gladys revisita carreira na Cine OP Foto: Leo Lara


Na 13ª Mostra de Cinema de Ouro Preto - Cine OP, a homenageada do evento, a atriz carioca Maria Gladys, recebeu o troféu Vila Rica e viu Sem Essa Aranha, clássico de Rogério Sganzerla, juntamente com um curta que leva seu nome e foi dirigido pela baiana Norma Bengell, serem exibidos em comemoração a sua longa e profícua carreira. Em um evento que priorizou mesas e seminários acerca da preservação e da história do cinema nacional, a escolha de Gladys como homenageada é mais do que acertada, “Gladys tem a verdadeira cara do cinema feito no Brasil”, afirma Neville d’Almeida, um dos cineastas símbolos do período, que traz, também, o próprio Sganzerla e Júlio Bressane como pilares. Sobre estes, Gladys relembrou da experiência de atuar sob a batuta de ambos. “Quando eu trabalhei nos filmes da (produtora) Belair, do Rogério (Sganzerla) e do Júlio (Bressane), eu vi minha vida mudar totalmente. Foi uma experiência que me abriu muitas portas em um período do Brasil que precisava daquele tipo de cinema. Ter feito parte disso é algo muito importante para mim”, afirma a atriz.

Também presente no seminal longa do Cinema Novo, Os Fuzis, filme de 1964, dirigido por Ruy Guerra, Gladys relembra a experiência de filmar com o diretor do mesmo modo como a frustração de acreditar que após esse trabalho, conseguiria se manter ativa trabalhando em diversas produções no cinema. “Mesmo tendo tido essa experiência com o Ruy, eu fiquei quatro anos sem trabalhar com cinema no Rio de Janeiro. Acabei me dedicando somente ao teatro”, afirma a atriz. A experiência frutífera a levou à peça O Chão dos Penitentes, de 1965, no qual protagonizou o primeiro nu da história dos palcos brasileiros. Não tardou muito para acontecer o encontro com Bressane e Sganzerla, que a levaria ao marco Sem Essa Aranha. Antes, trabalhou com a dupla responsável pela produtora Belair em O Anjo Nasceu e com Cuidado Madame. Mas a marca alcançada com Aranha foi o que mais marcou sua carreira inicial. “Os filmes da Belair possuíam muito de improviso. Chegávamos e gravar alguns em três ou quatro dias. Isso hoje é impossível. Essa característica daquele cinema foi algo marcante e que o tornava único”, diz.

EXÍLIO VOLUNTÁRIO EM LONDRES

Porém, a mudança e acúmulo de experiências na vida da atriz intensificou-se com sua partida para Londres, em 1970. Na Inglaterra durante três anos, integrou a turma que tinha Caetano Veloso como parte, além do próprio Bressane, que revelou os negativos dos seus filmes lá mesmo. “Londres foi uma experiência maravilhosa. Não senti falta do Brasil com minha ida para lá. Caetano, sim. Sentia muita saudade. Mas, claro, com ele as razões de sua ida eram diferentes”, explica Gladys.  “Naquele tempo, conseguíamos viver em um bairro como Notting Hill, que era um reduto de hippies. Hoje, isso é impossível. Muito caro”, comenta entre risos.

A atriz em cena do clássico Sem Essa Aranha 

“EU TÔ COM FOME!”

Mítico na história do cinema, Sem Essa Aranha foi uma licença do Sganzerla para poder falar da desesperança de um país. Com Luiz Gonzaga tocando em participações marcantes, o filme tem Jorge Loredo, o Zé Bonitinho, introduzindo seu personagem lenda na figura de um malandro ao mesmo tempo questionador e sedutor. Na figura de Maria Gladys, que divide a cena com Helena Ignez, o filme encontra um escapismo baseado no improviso. “Lembro-me que o Rogério chegou pra mim e disse pra eu gritar que tava com fome e que cantasse uma música qualquer”, diz a atriz. “Eu só consegui lembrar de uma canção de minha infância. E fiquei lá, gritando que tava com fome e com dor de barriga. Tudo no improviso, mesmo”, conclui.

A imagem se tornou um dos momentos mais conhecidos da filmografia brasileira. “Uma vez, eu estava passado pelo bairro de Botafogo, no Rio, e tinha um bar lá cheio de jovens. Um deles se aproximou de mim e disse que era fã do cinema do Sganzerla. Ele chegou e disse: ’Maria, fala aí, você estava muito doida naquela cena, não tava? ’”, conta a atriz entre risos. “Eu me lembro que, para não decepcionar o menino, disse que sim, que estava doidona e nós começamos a rir alto. Mas claro que eu não estava. Aquilo era um improviso consciente”, conta no meio de uma risada.

HOMENAGEM NA CINE OP

A Mostra de Cinema de Ouro Preto, com a homenagem a Maria Gladys, cumpre um papel de fazer justiça a essa atriz, dona de uma carreira distante da futilidade do glamour. “É uma loucura poder ver minha vida em retrospecto do modo como esse prêmio em Ouro Preto me fez ver. Eu fico pensando assim, que eu não posso acreditar que cheguei aqui. Porque tudo foi feito com muita luta, sofrendo muito preconceito, sempre em épocas barra pesada. Fazer aquele cinema. que eu adorei fazer, com o Júlio e com o Rogério, nossa, lembrar disso e ver essas imagens ainda nas telas me emociona”, conclui.

Maria Gladys durante a abertura da Cine OP 2018


terça-feira, 12 de junho de 2018

Cine OP começa amanhã em Outro Preto - MG


Com um perfil voltado para discutir preservação e história,
Mostra de Cinema de Ouro Preto chega à 13ª edição


Por João Paulo Barreto

Com abertura oficial nesta quinta feira, dia 14 de junho, a décima terceira edição da Mostra de Cinema de Ouro Preto – Cine OP apresentará até o próximo dia 18 na cidade mineira patrimônio mundial da humanidade, uma série de eventos relacionados à Preservação, Educação e História no âmbito da Sétima Arte no Brasil e no mundo. Como seu próprio slogan já anuncia, “a mostra que trata o cinema como patrimônio”, do mesmo modo que nas outras 12 edições anteriores, não decepcionou na programação dos atrativos cinematográficos destinados aos visitantes. Desde 2006, quando foi criada, a Mostra leva como bandeira os três eixos citados como seus principais focos de atuação, sendo o da Preservação o que mais se destaca na edição desse ano, que trará uma série de encontros e discussões em torno do conceito central da temática.

ÍCONE DO CINEMA NACIONAL

Um dos destaques do festival é a homenagem à icônica atriz Maria Gladys. Dona de um dos rostos mais marcantes das telas brasileiras, a atriz nascida em Cachambi, Rio de Janeiro, que completará oitenta anos em 2019, teve longa e marcante trajetória no Cinema Novo e no cinema marginal brasileiros, bem como na televisão até os dias atuais, e em diversas produções cinematográficas desde o final dos anos 1960 até esta década. Com um invejável currículo, contendo trabalhos realizados sob a batuta de Ruy Guerra, Domingos de Oliveira, Júlio Bressane e Neville de Almeida, Maria Gladys receberá o Troféu Vila Rica e terá duas obras exibidas em sua homenagem: o seminal Sem Essa, Aranha, filme de 1970 com direção de Rogério Sganzerla, e os documentário Maria Gladys, Uma atriz Brasileira, dirigido pela baiana Norma Bengell em 1980, e Vida, assinado por Paula Gaitan e que, também, esmiúça a trajetória da atriz, a primeira, inclusive, a fazer o primeiro nu no teatro brasileiro com a peça O Chão dos Penitentes, de 1965.

Ícone do Cinema Novo e do cinema marginal, Maria Gladys é a homenageada desse ano

PRESENÇA BAIANA 

Alguns filmes baianos também serão exibidos durante os cinco dias da mostra. Um deles é o tocante Jonas e o Circo sem Lona, de PaulaGomes, que terá duas sessões voltadas para estudantes de escolas mineiras previamente inscritas. Premiado em diversos festivais, o documentário é um brilhante registro dos sonhos do pequeno Jonas, que almeja possuir um circo quando crescer e começa a colocar em prática sua ambição ainda criança, com a criação de um circo feito no seu quintal com a ajuda de amigos que também se entusiasmam com a ideia. Sendo uma obra que questiona as restrições da escola para com a criatividade de seu protagonista, para a diretora Paula Gomes, vê-la exibida especificamente para um público oriundo das salas de aula é ­­­­­­­maravilhoso. “Eu me sinto muito agradecida por ver o filme chegar a plateias tão potentes como essa, formada por alunos de escolas mineiras, do interior do Estado. Conversar com jovens tem, sem dúvidas, um peso enorme, e é isso que lá no fundo a gente deseja quando passa tanto tempo sonhando, escrevendo, filmando, vivendo a produção de uma obra: que ela chegue onde ela faz a diferença”, afirma Paula. 
Jonas e o Circo sem Lona ganha duas exibições para alunos de escolas mineiras 
Outra produção marco a ser exibida na Cine OP é Caveira My Friend, clássico de 1970 dirigido pelo baiano Álvaro Guimarães. Trazendo um registro da inquietação de um grupo de jovens a simplesmente passar pela vida, o filme não necessariamente segue a estrutura clássica de começo, meio e fim comum às narrativas, mas, sim, algo mais de acordo com a proposta do cinema marginal feito à época. Aqui, a proposta de esquetes e a ausência de um elo para com as sequências denotam, justamente, o sufocamento e apreensões daquelas pessoas em suas vidas. Vale lembrar que o filme, lançado há 48 anos, havia sido exibido no Festival de Brasília de 1969, ano do AI-5, e teve uma de suas cópias incendiada em plena Praça dos Três Poderes em forma de protesto pela censura que recebeu. 

Clássico baiano Caveira My Friend também será exibido
Com sua trilha marcante na presença do som dos Novos Baianos, e até mesmo a participação da então Baby Consuelo como atriz, a obra de Álvaro Guimarães é um dos principais atrativos da Cine OP. A exibição de Caveira My Friend na atual conjuntura de perdas de direitos que vivemos, do mesmo modo que reflete em seus personagens angústia e sensação de inércia semelhante à nossa, serve como uma tentativa de percepção de um abismo que aquela geração de quase cinquenta anos atrás notou e lutou para escapar. A atual parece querer mergulhar.

* Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde de 13/06/2018



domingo, 10 de junho de 2018

Entre Laços

(當他們認真編織時 Close Knit, Japão, 2017) Direção: Naoko Ogigami. Com Tôma Ikuta, Kenta Kiritani e Mugi Kadowaki.


Quando o afeto e a compreensão derrubam preconceitos

Com ecos do cinema de Ozu, Entre Laços é uma imprescindível análise do
conceito de família no século XXI



Por João Paulo Barreto

Nenhum cineasta oriental representou tão bem em seus filmes a família japonesa do seu próprio tempo quanto Yasujiro Ozu. São dele as mais tocantes histórias de busca e reconhecimento de uma cumplicidade entre pessoas de um mesmo clã. São dele as mais belas histórias relacionadas ao cuidado necessário com os pais idosos e as lições que os mesmos trazem às confusões mentais vinculadas à imaturidade de seus filhos. É de Ozu o retrato perfeito da representação da família dentro de seu contexto histórico da primeira e começo da segunda metade do século passado.

Com os longos enquadramentos semelhantes aos vistos na filmografia do mestre, diálogos preenchendo panorâmicas de modo a destrinchar aqueles dramas ao espectador de forma sutil, sem artifícios expositivos em excesso e com os dramas familiares sendo colocados em um contexto imprescindível de discussão acerca do que são tais núcleos no século XXI, a cineasta Naoko Ogigami conseguiu apresentar em Entre Laços uma obra singular cujas nuances e estilo no modo de trabalhar tais discussões não somente remetem ao estilo como Ozu fazia em seus filmes, mas atualiza tal influência de forma a reinventá-la para um novo contexto.

O equilíbrio familiar que tanto fazia falta à Tomo

Aqui, a diretora e roteirista traz uma análise da família tão perfeita quanto as feitas pelo seu compatriota. Em seu filme, Ogigami saúda Ozu de modo não somente a homenageá-lo, mas trazer para o cinema contemporâneo nipônico uma atualização dos conceitos de família que o mestre trabalhou tão bem, e que, desta vez, ganham contornos ainda mais importantes e urgentes. Na história de Rinko, uma mulher trans que adota Tomo, a sobrinha de seu namorado, a discussão acerca do afeto encontrado na criação perfeita que ela dá à criança, e que a mesma não encontra sob a guarda da sua irresponsável mãe biológica, permite ao espectador a percepção de uma complexidade profunda nas camadas que a realizadora se propõe a trazer com sua obra.

REVENDO (PRÉ)CONCEITOS

Na pureza da personalidade ainda em formação da pequena Tomo, uma forma de ainda salvá-la do estigmatizar de preconceitos. O roteiro de Ogigami desenvolve gradativamente a personalidade da criança, fazendo-a perceber as pessoas ao seu redor a partir da nova perspectiva que ela encontra no convívio com sua nova família.

Ao seguir este aspecto, a diretora acerta ao criar um equilíbrio notável nas rimas visuais da obra, como quando uma tentativa de suicídio por parte de um garoto que se vê proibido de extravasar seu sentimento e afeição por outro menino é representado como um pedido de ajuda cujo pretenso socorro é direcionado para a criança errada. Note como, neste momento, o som inicialmente diegético (de dentro do filme) de um violino tocado pelo suicida toma conta da cena, tornando-se a música a embalar a dor não somente física daquele que foi tomado pelo desespero, mas de Rinko, cujo amor por Tomo é colocado em julgamento, e pela menina, que percebe o quão frágil é aquela perfeita nova estrutura familiar que ela conseguiu. Isso tudo embalado por um quase réquiem. A sensibilidade aqui é palpável.

O tricô usado não como metáfora para o encontro e libertação

TRICÔ COMO METÁFORA

Na utilização de preceitos budista para representar o equilíbrio que Rinko busca para sua vida, ela determina a si mesma a meta de tricotar 108 “pênis” para, assim, poder queimá-los em um ato simbólico da sua mudança total. Após isso, planeja alterar legalmente seu nome. Ogigami traz, aqui, uma outra riquíssima rima temática, quando coloca a personagem a explicar para a pequena Tomo que o tricô, para ela, é uma forma de extravasar toda sua raiva, frustração e depressão que o mundo ao seu redor lhe impõe por conta de sua opção de gênero. De temperamento explosivo, a criança experimenta o ato e percebe-se de fato a diminuir suas frustrações.

Durante um momento de fúria por saber que um hospital se recusa a colocar Rinko em uma ala feminina, Tomo adentra no leito da mãe adotiva e começa a tricotar entre lágrimas raivosas. Naquele ponto, ela ainda possuía esse artifício como meio de fuga. Em seu desfecho, após já ter havido o simbólico ato da queima das peças tricotadas, a menina extravasa sua raiva em tapas a esmo, destinados a sua progenitora. É neste ponto que ela percebe não ter mais tanto o artifício terapêutico que lhe fora ensinado por Rinko, quanto, do mesmo modo, o próprio suporte de sua nova família, que começa a lhe ser retirado de forma súbita e dolorosa. A dor da perda naquele segundo lhe é tão pungente que apenas a violência física lhe soa como solução em seu extravasar. Mesmo que tal extravasar seja substituído logo em seguida pelo desespero e pedido de perdão diante da possível perda da mãe.

Em um filme de temas precisos, Entre Laços abarca uma série discussões urgentes. A sutileza de suas camadas e rimas, bem como a referência a um cinema clássico como de Ozu, fazem do filme de Naoko Ogigmi um achado.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde de 10/06/2018