sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Ford vs. Ferrari


Vidas Fugazes e Velozes



Com Ford vs Ferrari, Christian Bale e Matt Damon vão além de um simples
contar da rivalidade de duas gigantes automobilísticas

Por João Paulo Barreto

Há um claro desafio no roteiro de Ford vs Ferrari: criar um clímax cinematográfico para uma obra que tem como pano de fundo uma prova automobilística que dura 24h. O lendário Le Mans, circuito localizado na França, era notório diante da adversidade proposta aos seus pilotos, que tinham que atravessá-lo durante um dia inteiro, revezando-se em horas ao volante, para testar os limites de engenharia das máquinas poderosas que guiavam. Além disso, obviamente, as próprias condições físicas daqueles homens eram colocadas em constante risco perante os perigos relacionados à alta velocidade em uma época que, comparada à atual Fórmula 1, avançadíssima tecnologicamente e com alta prioridade na segurança de seus profissionais, trazia, naquele tempo, vários riscos às vidas daqueles loucos por adrenalina.

Assim, para adaptar o roteiro escrito a seis mãos, o cineasta James Mangold (do excelente Logan) precisava se ater a algo mais eficiente que uma simples estrutura de apresentação de personagens e seus respectivos conflitos; à simplória criação de um antagonista; aos percalços criados por este embate, para, finalmente, trazer a glória emblemática e derradeira que um filme acerca de provas de velocidade possui como lugar comum. Deste modo, restou a Ford vs. Ferrari, além de uma utilização contida dos tais momentos de clímax dentro da proposta relacionada à alta velocidade, investir com maior cuidado em um desenvolvimento humano de seus personagens.

Na recente filmografia, a obra que mais se destaca nesse viés é Rush, longa de Ron Howard que aborda a rivalidade entre James Hunt e Niki Lauda. E foi justamente por se propor a trazer algo mais impactante dramaticamente do que um espetáculo visual para fãs do automobilismo, o trabalho de Howard chamou a atenção de maneira tão precisa. Aqui, porém, apesar de seu título, não é a tal rixa entre as duas famílias de construtores, a estadunidense e a italiana, que leva Ford vs Ferrari à frente.

Miles após vitória em Daytona

AMIZADE EXPLOSIVA

A proposta de Mangold reside na ideia de aprofundar a amizade entre o ex-piloto e designer automotivo Carroll Shelby (Matt Damon) e o piloto e engenheiro Ken Miles (Christian Bale), ao mesmo tempo que desenha para o seu público, leigo ou conhecedor no que tange ao automobilismo (eu me incluo no primeiro grupo), toda técnica necessária para a construção de carros de corrida.

Assim, mesmo que diversos momentos da obra tragam sequências eficientes de provas de velocidade (incluindo a citada corrida francesa, bem como a estadunidense Daytona, também com 24h de duração), é na relação entre seus dois protagonistas que o filme encontra sua verdadeira essência, ilustrando nesta cumplicidade uma demonstração crescente da mecânica por trás da construção dos veículos de alta performance.

Com um Matt Damon carregando pesado o forte sotaque texano para desenhar um frustrado Shelby, que teve que interromper sua carreira de piloto por conta de uma condição cardíaca, Mangold insere um personagem pragmático que, apesar de se render a momentos de fúria em sua frustração, consegue balancear bem a relação com o explosivo Ken Miles vivido por Bale. O britânico, aliás, surpreende mais uma vez na constituição física de seu personagem. Com uma magreza já característica em diversos de seus papeis, Christian Bale dá a Ken Miles algo além da aparência suja e de pele avermelhada pelo calor dos motores com os quais mantém contato durante quase todo o dia na profissão de mecânico.

Miles testa a potência de um novo motor

RIMA COMPORTAMENTAL

Explosivo em sua relação pessoal com aqueles que o cercam, temos no seu trato profissional uma variação exata para como é desenhado o Ken Miles de Christian Bale. É perceptível como seu personagem se deixa levar pela fúria somente quando o que está em jogo é o seu desempenho nas provas de alta velocidade. Um exemplo disso é quando, logo em sua introdução, o vemos lidar com ironia e calma diante de um cliente violento, mas, quando é sua participação em uma corrida que é colocada em jogo, golpes de martelo em uma lataria de carro, além de uma pesada ferramenta sendo atirada contra Shelby, tornam-se variações esperadas de seu comportamento que beira o psicótico.

Do mesmo modo, em seu trato familiar, a figura de um homem atento e cuidadoso com o filho, bem como paciente diante das justas cobranças de sua esposa diante da delicada situação financeira do seu lar, ajudam o público a notar como a construção de sua figura explosiva se restringe aos momentos por trás do volante. 
E essa comparação comportamental de sua figura diante das explosões causadas pela aceleração de possantes motores, criam uma eficiente rima em seu desenvolvimento, tornando Ken e o Ford que ele pilota quase que o mesmo elemento fílmico em cena.

Fugindo dos clichês comuns ao optar por não utilizar partes internas de motores para ilustrar a potência de duas cenas envolvendo carros, mas evidenciando o clássico design de suas máquinas de corrida, Ford vs. Ferrari acaba sendo uma precisa reconstrução histórica. Reconstrução de um período em que a ousadia de engenheiros e de pilotos insanos até encontrava freios em leis da física e da aerodinâmica, mas nessa citada loucura de seus personagens, a estrada à frente cedia espaço para algo tão fugaz e breve quanto aqueles momentos velozes: vidas humanas.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 15/11/2019



terça-feira, 29 de outubro de 2019

XV Panorama Internacional Coisa de Cinema


O Cinema no Centro!


Chegando à sua décima quinta edição, o Panorama Internacional Coisa de Cinema 

começa nessa quarta e apresenta mais de 120 filmes

Por João Paulo Barreto

Mais do que um simples slogan, a frase que estampa essa matéria, O Cinema no Centro!, denota precisamente a importância do festival Panorama Internacional Coisa de Cinema na missão de trazer vida ao Centro de Salvador e a salientar a sétima arte, censurada pelo atual (des)governo, como algo central na movimentação cultual e econômica do país. Quinze primaveras cinematográficas rimam com quinze edições do festival. Debutando em 2019, a mais importante janela de exibição fílmica em Salvador começa nessa quarta-feira, dia 30, e segue até o dia 06 de novembro. Nestes oito dias, a maratona cinéfila contará com mais de 120 filmes entre curtas e longas metragens que vão ocupar três espaços, sendo dois em Salvador (o Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha e a Sala Walter da Silveira) e o Cine Theatro Cachoeirano, localizado na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano.

Dentre os destaques, temos logo na abertura, no Espaço Itaú- Glauber, às 20h, o escolhido para representar o Brasil na corrida do Oscar, A Vida Invisível, filme de Karim Aïnouz (de Madame Satá). O filme venceu a Mostra Um Certo Olhar, da edição 2019 do festival de Cannes, e tem recebido boas críticas por onde passa. O longa conta a história das irmãs Eurídice e Guida Gusmão (Carol Duarte e Julia Stockler), duas jovens idealistas que se tornam vitimas de uma sociedade machista e paternalista,  sendo separadas durante os anos 1950 e vivendo um envelhecimento amargo e repleto de desencontros. Aos 80 anos de idade, Eurídice (vivida quando idosa por Fernanda Montenegro), encontra cartas escritas pela irmã desaparecida na juventude. A sessão de A Vida Invisível terá a presença de Carol Duarte, além do diretor Karim Aïnouz.

Outro destaque a lotar as salas do Espaço Itaú – Glauber na abertura do Panorama é o documentário Meu Amigo Fela. Dirigido por Joelzito Araújo, o filme traça um vivo retrato do multi-intrumentista nigeriano Fela Kuti. Falecido em 1997, Fela teve grande destaque como líder político, influenciando toda uma geração africana. Após o filme, um papo com o diretor Joelzito Araújo e o público presente acontece. As duas sessões terão entrada franca com ingressos sendo retirados duas horas antes dos filmes. A noite de abertura se encerra com a apresentação musical de Okwei  + Banda Awetto. Com o setlist baseado no repertório de Fela Kuti, o show acontece no saguão do Espaço Itaú – Glauber. A entrada tem preço simbólico de R$2 (inteira).

A Vida Invisível, filme de Karim Aïnouz

DIFICULDADES E SUPERAÇÕES

Para o diretor geral e um dos curadores do festival, o cineasta Cláudio Marques, a atual conjuntura política e a guerra contra a cultura promovida pela situação governamental, tem dificultado qualquer meio de produção cultural. “Psicologicamente, foi o pior ano para se produzir qualquer coisa desde o início dos anos 2000. Estamos sendo atacados frontalmente, mas também por trás, através de uma crescente burocracia que está asfixiando a produção de eventos, festivais e filmes no país. Está cada vez mais complicado! Eles querem que a gente desista. É uma asfixia”, afirma Cláudio.

Mas a superação do Panorama como essa citada janela de importância vital para a cultura cinematográfica na Bahia, juntamente com a experiência de já ter produzido quatorze edições anteriores, tornam possível o processo de alcançar mais um ano com as já esperadas, mas não menos complicadas, dificuldades. “Nós Já sabemos como fazer o Panorama. Vamos aprimorando aqui e ali, experimentando algumas coisas. Mas, trata-se de um formato consolidado. O Panorama é vital para Salvador, em termos de abertura para o mundo. Um dos festivais mais importantes e reconhecidos do país”, finaliza o cineasta..

Clássico soteropólitano de Edgard Navarro, Superoutro terá exibição de 30 anos

COMPETITIVAS E CLÁSSICOS

Como já é tradicional, o Panorama trará mostras competitivas de curtas e longas metragens baianos, estrangeiros e de outros estados do Brasil. Dentre os destaques estão Pacarrete, filme do Ceará que conta a história da protagonista título, uma já aposentada professora de dança que sonha em organizar um grande balé para a população local. O longa foi o vencedor do Festival de Gramado desse ano. Além deste, Uma Breve Miragem de Sol, filme com Fabrício Boliveira e dirigido por Eryk Rocha, que, para o curador Cláudio Marques, trata-se de uma obra necessária para a reflexão acerca dos tempos atuais. “É um filme pessimista, triste como os nossos tempos. A vontade de cessar a experiência humana. Não é isso que queremos, mas é muito disso que vivemos.”, complementa Cláudio.

Dentre os clássicos exibidos, o Panorama fará apresentações especiais em comemoração a diversos aniversários de lançamentos. 2019 marca os 30 anos de Superoutro , clássico baiano dirigido por Edgard Navarro e estrelado por Bertrand Duarte (a arte dessa edição do festival homenageia o filme, inclusive). Além disso, Meteorango Kid- O Herói Intergalático, outro clássico baiano, dirigido por André Luiz Oliveira, chega aos 50 anos ainda mais atual. Ambos serão exibidos em 35mm. Outro destaque é  Redenção, de Roberto Pires, primeiro longa produzido na Bahia, completa 60 anos, que também contará com sessão especial, juntamente a uma mostra especial em homenagem a Glauber Rocha, que completaria 80 anos de idade em 2019. O Panorama celebra a cultura em um ano cuja lembrança de uma história cinematográfica é perseguida na tentativa de apagá-la. Mas, resistiremos.

“Rever Redenção, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, Meteorango Kid e Superoutro, filmes seminais da nossa cinematografia, em sequência, é uma oportunidade rara! É entender de onde viemos e uma chance para estabelecermos de uma maneira mais adequada o sentido dos nossos caminhos daqui para frente!”, finaliza Cláudio Marques.

A maratona cinéfila começa nesta quarta!

Pacarrete, vencedor em Gramado, terá sessão no Panorama



domingo, 27 de outubro de 2019

Fight Club

A Primeira Regra do Clube da Luta 


Há 20 anos, a cultuada obra dirigida por David Fincher estreava e elevava 
o patamar do Cinema como reflexão filosófica 

Por João Paulo Barreto

Em determinada cena de Clube da Luta, o anônimo personagem interpretado por Edward Norton, vê imagens publicitárias de modelos masculinos vestindo apenas roupas de baixo e indaga o “amigo” Tyler Durden, vivido por Brad Pitt, se é aquela a representação do “ser um homem”. A réplica: “Auto-desenvolvimento é masturbação. Agora, a auto-destruição...” e a resposta é deixada no vazio, acompanhada por um riso irônico de Durden e por um olhar de percepção (quase um insight) por parte do anônimo Norton. O riso irônico de Tyler Durden é a autoconsciência de que a sua sapiência é mais importante que qualquer estética. Sapiência essa que, 20 anos depois, em um 2019 dominado pelos símbolos alvos do Project Mayhem idealizado por Tyler dominando políticas públicas e pessoas através da desinformação das fakenews, torna-se imensurável. “As redes sociais deram voz aos imbecis”, disse Umberto Eco. Imbecis e, também, oportunistas. Valorizar a própria inteligência, hoje, é um desafio.

Essa semana, a obra dirigida por David Fincher em 1999 completa 20 anos desde sua estreia nos cinemas brasileiros. Voltar os olhos para a capacidade de uma análise filosófica em Clube da Luta é um modo precioso de entendermos melhor o poço onde estamos afundando. Por exemplo, em outro momento do longa, Tyler Durden diz que “apenas após perder tudo, é que você estará livre para fazer o que quiser. Nada é estático. Tudo está desmoronando. Esta é a sua vida. E ela está terminando um minuto por vez”. Com tal frase, ele confirma a certeza de que sabe o caminho que a sociedade está seguindo. Seja na necessidade simplista de se existir e “lacrar” em redes sociais, ou na dedicação do preenchimento do vazio da vida com objetos comprados no shopping, ele sabe para qual buraco fétido caminhamos. Mas, o mais importante, é que ele está fazendo o que pode (e ele pode muito!) para resolver tal situação. “Apenas após estar em equilíbrio consigo, é que você estará livre para fazer o que quiser” complementa Tyler enquanto exibe a mão queimada e cicatrizada por lixívia. 

"Autodesenolvimento é masturbação..."

ESTOICISMO LIBERTADOR

O narrador Norton é a representação do modo de agir e pensar da atual sociedade capitalista. Fechada num mundo de consumismo, egoísmo e falsa segurança, ela é habitada em cada um de seus integrantes por Tylers escondidos e loucos para sair. Aproxima-se do conceito platônico de conhecimento intimo: o conhecimento habita cada um, basta percebê-lo. Remete ao filósofo grego Zenão de Cítio, que trouxe em sua doutrina o equilíbrio humano separando o corpo da razão. É como se Tyler representasse a figura de Zenão hoje: alguém ciente da necessidade de perder as amarras que o prendem ao mundo para alcançar o foco de sua própria sapiência (olha ela de novo). Assim, os homens do Clube (e, por que não, nós mesmos) perdem(os) as amarras. Alcançam o ideal de perceber o quanto suas mentes merecem ser valorizadas. “Vejo aqui reunidos os mais bravos e inteligentes homens do mundo. Uma lástima o fato uma geração inteira estar servindo mesas, enchendo tanques, entregando pizzas”, lamenta-se Tyler em um monólogo que colocaria qualquer “coach” oportunista no chinelo.

O estoicismo pregado por Zenão de Citio trazia em sua essência o desprendimento de tudo o que é inútil (incluindo nisso a importância de seu próprio corpo) para alcançar o equilíbrio do espírito. Nesse desprezo ao material, mesclou-se (ou confundiu-se) o conceito pregado por Cristo, onde o martírio pode levar ao equilíbrio do conhecimento. Negado pelos cristãos como uma influência para sua religião, o estoicismo é encarado pelos seguidores de Jesus como um desprezo do homem por si mesmo. Nada mais do que um desespero do ser humano ao constatar, no mundo e na sua própria existência, a ausência de um Deus por ele rejeitado. Ver esse mesmo Deus estampando slogans políticos não ajuda. 

O narrador anônimo "como ele mesmo"

Impossível não relacionar esse fato a outra declaração de Tyler Durden: “Deus foi incluído em nossas vidas como um modelo de nossos pais. Se eles (os pais) nos abandonaram, Deus fez a mesma coisa. Somos os filhos indesejados de Deus. Provavelmente, ele nos odeia”. E é neste momento que pensamos em outro grego, Epícuro, e sua declaração de que o homem foi feito para a felicidade. O conceito do epicurismo traz limites para os exageros da vida. Para Epícuro, a doença que acomete uma pessoa é um aviso do corpo. Um aviso de um exagero cometido. A análise do epicurismo, relacionada à sociedade atual do século XXI, possui uma libertação interna do homem capitalista preso ao modo de vida imposto pelo trabalho. “Só trabalho, sem diversão, fazem de Jack um bobão”, profetizou Kubrick em O Iluminado.

E, por fim, lembramos de João Cabral de Melo Neto e pensamos na morte diária “de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia”. Sendo essa fome também intelectual ao vermos tantos imbecis ascendendo ao poder por estarmos distraídos sendo manipulados diante de tantas timelines, stories e a necessidade de aparecer e “lacrar”. “A mídia nos faz correr atrás de empregos inúteis para comprar coisas que não precisamos. A televisão nos fez acreditar que um dia seríamos astros do rock ou milionários. Mas não seremos. E estamos, aos poucos, percebendo isso e ficando muito, muito zangados”, profetiza Tyler. 

Acordar é preciso!

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 27/10/2019

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

IV Mostra de Cinema - CINE HORROR


Cinema fantástico presente!


Abrangendo o cinema de gênero e o fantástico, 
Mostra CINE HORROR chega à sua quarta edição na tradicional Sala Walter

Por João Paulo Barreto

Fãs do cinema de gênero de horror, sejam os clássicos ou contemporâneos, das obras de ficção científica e dos filmes que se aventuram pelo desafiar do espectador dentro de um conceito fantástico no contar de histórias, têm, a partir de hoje, na Sala Walter da Silveira, um leque variado de opções para alimentar essa cinefília. E o melhor: com entrada franca! A quarta edição da Mostra de Cinema CINE HORROR apresentará para o público frequentador da tradicional sala localizada no complexo cultural dos Barris, no Centro de Salvador, mais de 70 filmes, entre longas e curtas metragens, além de debates com pesquisadores e realizadores do cinema de gênero.

A Mostra CINE HORROR acontece essa semana, entre os dias 17 e 20 (de hoje a domingo), e volta na próxima, nas datas de 25, 26 e 27 de outubro (sexta, sábado e domingo). As sessões acontecem sempre a partir das 14h, e a programação completa pode ser conferida no site www.cinehorror.com.br e nas redes sociais da Mostra. Na abertura, amanhã, o evento contará com a apresentação da Camerata Opus Lúmen, parte integrante da OSBA (Orquestra Sinfônica da Bahia).

Cena de Dona Oldina vai às Compras, de Felipe Guerra

O idealizador da Mostra de Cinema CINE HORROR, o professor e artista gráfico, Valmar Oliveira, comenta as dificuldades e a perseverança de, no quarto ano do evento, conseguir realizá-lo sem qualquer suporte financeiro oficial. “Aos poucos, vamos nos firmando no calendário, não só baiano, mas nacional, chamando atenção de produtores e diretores estrangeiros. É uma luta diária para que o evento aconteça, sempre procurando apoios, parcerias, já que a Mostra é completamente independente”, pontua Valmar, que também realiza sessões mensais na mesma Sala Walter.

DESTAQUES BAIANOS

Dentre os filmes selecionados, várias produções baianas mostram que o estado é um dos representantes de maior impacto na filmografia de horror fantástico e suspense no Brasil. Filmes como Onze Minutos, de Hilda Lopes Ponte; Necropolis,de Ítalo da Silva Oliveira; Tropykaos, de Daniel Lisboa ; Baby Trap e M for Mess, ambos de Carlos Faria; A Face do Sonho, de Alana Pinheiro e O Sorriso de Felícia, de Klaus Hastenheiter, desenham um bom panorama do estilo fantástico de cinema que é feito na Bahia.

Para além da catarse que o cinema de gênero concede aos seus admiradores, o CINE HORROR visa um diálogo dentro dessa linguagem repleta de metáforas. Uma das curadoras do evento, a professora Ana Lima, salienta que “o cinema de gênero conduz o público por caminhos logicamente irretocáveis, que oferecem novas perspectivas, como lentes que vestimos sobre os olhos por um momento, e que, com frequência, deixam resíduos sobre a retina que ali permanece mesmo depois de removidas as lentes”. Além disso, Ana Lima destaca a importância desse tipo de obra como enriquecedor da cultura do cinema. “Incorporar o cinema de gênero como uma experiência de metáforas, como forma de viver novos modelos de descrição, diferentes formas de ver o mundo, produz grandes benefícios à cultura cinematográfica em geral”, finaliza.  

Cena Você, Morto, de Raphel Araújo

CLÁSSICOS E ATUAIS ESTRANGEIROS

Em memória do escritor estadunidense Edgard Allan Poe, morto há 170 anos, e a publicação de “A Queda da Casa de Usher”, uma de suas obras-primas, o CINE HORROR apresentará O Solar Maldito, adaptação dirigida pelo lendário Roger Corman em 1960, e protagonizada por Vincent Price. Outro escritor homenageado é HP Lovecraft, que publicou há cem anos seu clássico conto Dagon. A mostra trará a adaptação espanhola homônima, levada aos cinemas em 2001. Ambos serão exibidos no dia 20 de outubro.

A curadoria do CINE HORROR, além de mapear o cenário local e brasileiro do gênero, também focou em obras de diversos outros países como Espanha, Portugal, Israel, Noruega, Irlanda e França. Uma prova de que, mesmo distante de uma divulgação popular massiva do cinema comercial (ou mainstream, comumente chamado), o gênero caminha forte em várias partes do planeta e a Mostra baiana está ciente disso. Saul Mendes Filho, um dos curadores, confirma isso. “A consolidação do CINE HORROR se dá por abraçar essa proposta intermediária, esse espaço de interseção onde perambulam os filmes que não se enquadram no circuito mainstream, apesar de ser substancialmente entretenimento, e que não se enquadram exatamente no cinema de arte, apesar de carregar muitas vezes uma personalidade autoral ou uma estética diferenciada”, afirma Saul.


Parte da equipe do Cine Horror na Sala Walter.

Sala Walter. Ocupar é preciso!

Negligenciada pelo governo do estado, a Sala Walter da Silveira, bem como a Sala Alexandre Robatto, ambas localizadas no complexo cultural dos Barris, no subsolo da Biblioteca Central, possuem na Mostra de Cinema CINE HORROR um dos bastiões na sobrevivência de um espaço crucial para a cultura cinematográfica em Salvador. É lá que acontecem diversos eventos como este, como a Mostra Lugar de Mulher é no Cinema, o Panorama Internacional Coisa de Cinema e a Mostra de Cinemas Negros – Mohamed Bamba. Além disso, uma constante programação de clássicos semanais é exibida.

Local de confluência e de encontros, a Sala Walter passa por dificuldades há anos, como poltronas quebradas, manutenção de banheiros, problemas no ar condicionado e qualidade de projetores. Ao menos agora, coincidindo com o começo da Mostra de Cinema CINE HORROR, a Walter teve uma melhoria nestes dois últimos itens, com a reinstalação do ar condicionado central e a compra de um novo projetor. Rafael Saraiva, um dos curadores da Mostra, comenta a importância do lugar para o projeto, mas lamenta esse descaso.

 “A Sala Walter da Silveira acolheu o Cine Horror de forma bem aberta desde 2017, tanto para o evento anual quanto para as sessões mensais. Infelizmente, ao longo desse tempo, também fomos acompanhando o sucateamento do espaço, o que se reflete obviamente no público que frequenta o local (não apenas nas sessões do Cine Horror, mas da programação da sala em geral)”, explica Rafael.

Há um potencial imenso em uma revitalização da Sala Walter, mas as incertezas angustiam os apreciadores do lugar, que temem seu fechamento. Rafael comenta que a mudança de endereço da Diretoria de Audiovisual da FUNCEB não colabora muito com a valorização da sala. “A mudança da DIMAS para longe da biblioteca central, onde fica a Walter da Silveira, gerou uma instabilidade sobre a continuidade daquele equipamento. Esperamos que a reforma em curso, com reinstalação de aparelhos de ar condicionado e novo projetor traga novamente as pessoas para ocuparem a sala. E que desfrutem de sua programação gratuita e sempre bem escolhida”, conclui Rafael Saraiva.

*Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 17/10/2019




sábado, 5 de outubro de 2019

Cinema Baiano no Panorama 2019


Tradicional festival local debuta e apresenta 
a Competitiva da Baiana edição 2019 


Por João Paulo Barreto

Obras que flertam com a ficção científica e que desenham o futuro apocalíptico a se anunciar no atual e triste Brasil. Em forma de musical, a solidão da vida plástica da internet. Animações e cinema de gênero de horror. A esperança residente no ato de amor atrelado à labuta do fazer Cinema mesmo em tempos sombrios. Documentários a relembrar a nostálgica locomoção na linha férrea de Salvador ou a denunciar o descaso com a educação pública perante a especulação imobiliária no Corredor da Vitória, local onde fica o histórico Colégio Estadual  Odorico Tavares. Estes são apenas alguns dos diversos temas presentes dentre os 25 filmes que a décima quinta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema levará às telas Competitiva Baiana do festival que começa no dia 30 de outubro.

Acontecendo simultaneamente em Salvador, no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, e no Cine Theatro Cachoeirano, na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano, o Panorama completa em 2019 quinze edições dando visibilidade às produções de realizadores e realizadoras daqui. Assim, busca gerar um diálogo constante com as diversas vertentes do cinema feito em um estado como a nossa Bahia, notória por gerar obras pilares da filmografia brasileira.

Cena de Em Cima do Muro, de Hilda Lopes Pontes

VARIEDADE TEMÁTICA

Na categoria de longas metragens, o diretor do festival e curador dos longas, o cineasta Cláudio Marques aponta que, na escolha do filmes este ano, resolveu optar por uma competição mais enxuta. “Escolhi, realmente, os mais significativos tanto em termos de conteúdo quanto na forma. Há uma diversidade interessante: uma animação com seu universo próprio; um belo e honesto filme caseiro, além de dois filmes de cunho ativista. Interessante que esses dois últimos filmes, os que eu denomino “ativistas”, possuem estética e aproximação totalmente distintas. Creio que em termos de qualidade nós ganhamos bastante na competição baiana de 2019”, pontua Cláudio.

Na seleção de curtas metragens, um foco em variados temas e urgências foi colocado em evidência na escolha dos filmes. O professor, pesquisador e crítico de cinema, Rafael Carvalho, que integra a equipe de curadoria responsável pela seleção dos curtas, salienta a dificuldade na escolha dos trabalhos a serem exibidos. "Mais uma vez tivemos um ano muito bom de inscrição de curtas baianos e certa dificuldade em escolher os selecionados, principalmente pela diferenças de abordagem, formato, gêneros e temáticas que os filmes espelham. Mais que tudo, escolhemos filmes que gostaríamos que o público visse para conhecer o que temos produzido em termos de cinema hoje aqui no Estado", conclui Rafael.

Cena de Fundo do Céu, de Matheus Vianna

O Panorama Internacional Coisa de Cinema possui o apoio do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura, fazendo, desde 2012, parte do edital “Projetos Culturais Calendarizados”. Trata-se de um edital responsável por formar plateias para as artes, além de valorizar a cultura local, bem como trazer benefícios na geração de emprego e renda. A Bahia é um dos poucos estados do Brasil a possuir esse tipo de incentivo. Que possa permanecer e se expandir para que novos trabalhos continuem a ter uma janela de exibição tão ampla quanto o Panorama.

*Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 06/10/2019



CONFIRA OS SELECIONADOS PARA A COMPETITIVA BAIANA DO
XV PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA


LONGAS
Cinema de Amor, de Edson Bastos e Henrique Filho.

Jaçanã, de Laryssa Valim Machada.

Miúda e o Guarda-Chuva, de Amadeu Alban.

Uma Mulher, Uma Aldeia, de Daniel Dourado e Marcelo Abreu Góis.

CURTAS
A Mulher no Fim do Mundo, de Ana do Carmo.

A Sete Tragos Do Chão, de Ariel L. Dibernaci e Cláudia Sater.

Ada, de Rafaela Uchoa.

Arco do Tempo, de Juan Rodrigues.

Cabelos Brancos, de Lina Cirino e Elza Cirino.

Cartas para Ana, de Carla Caroline.

Chica, de Andrea Guanais.

Corações Encouraçados, de Jamile Coelho e Cintia Maria.

Em Cima do Muro, de Hilda Lopes Pontes.

Enjoy Your Sunday, de Victor Marinho.

Enquanto Eu For Lembrado, de Állan Maia.

Entre o Céu e o Subsolo, de Felipe da Silva Borges.

Fundo do Céu, de Matheus Vianna.

Japanese Nano Food, de Liz Riscado.

Joderismo, de Marcus Curvelo.

Necropolis, de Italo Oliveira.

O Garoto no Fim do Mundo, de Antônio Victor e Lailson Brito.

Pelano!, de Christina Christina Mariani e Calebe Lopes.

Tem um Monte de Oxum no SUS, de Aline Brune.

Vapor SubUrbano, de Dodias An.

Vigia - Um Olhar para a Morte, de Victor Marinho.















Coringa


Os Degraus da Insanidade


Com um inspirado Joaquin Phoenix, Coringa traz origem de lendário 

vilão em humano, violento e reflexivo espiral psicológico

Por João Paulo Barreto

Em um dos recorrentes enquadramentos utilizados pelo diretor Todd Phillips na sua vertiginosa viagem dentro do labirinto mental de Arthur Fleck (um Joaquin Phoenix em estado de graça), o comediante fracassado que se torna o assassino serial autointitulado Coringa, vemos o homem de aparência frágil subir algumas vezes vários lances de escada em uma conexão entre as imundas ruas da fictícia Gotham City, ou, a Nova York setentista que o filme soube emular tão bem de obras como Perdidos na Noite, Serpico e Taxi Driver.

Aqui, percebemos em suas costas curvadas o peso de sua existência naquelas constantes escaladas de degraus em diários retornos para o apartamento decrépito onde vive com sua mãe doente, após mais uma jornada de derrotas na carreira como palhaço de rua a anunciar promoções de lojas decadentes, animar crianças doentes em hospitais, ou no alimentar do sonho inútil de fazer sucesso na comédia de stand-up.

Da mesma maneira, esse retorno também acontece após mais um dia de violências sofridas e de escape do sufocamento urbano, e, também, após mais uma tentativa fracassada de se adaptar, através de visitas ao Serviço Social, a um mundo que o renega rotineiramente. A repetição é a vida de Arthur. Bem como é uma das precisas definições do inferno

Arthur e sua condição: risos incontroláveis 
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Não com surpresa o espectador atento percebe naquela escada constante a bela rima visual ao ver o protagonista iniciar sua pessoal, e, por isso, aliviante espiral descendente em direção à loucura com um atravessar daqueles mesmos degraus, só que no sentido contrário, seguindo para a entrega total à violência catártica e deixando para trás qualquer chance de redenção. Ao subir aqueles degraus em sua postura de desistência e desânimo, mas, ainda assim, lutando para de algum modo conseguir escapar, seja com a ajuda de remédios ou cogitando um interesse amoroso, ainda tem-se ali a presença de alguém que quer se ver curado e “feliz” como, ironicamente, o chama sua mãe, Penny (Frances Conroy). Na postura confiante e reversa da descida daqueles mesmos degraus, com suas roupas berrantes, com uma maquiagem a mostrar seu verdadeiro rosto e em uma incisiva dança, o que vemos é justamente essa citada entrega à catarse.

ÁSPERA SOCIEDADE

É disso que trata Coringa, incursão dentro da trajetória do mais conhecido vilão dos quadrinhos do Batman que, aqui, é desenhado em uma humana e, calcada no real, gênese. É sobre a perda das amarras na entrega a uma insanidade nociva, brutal e assassina causada pela crueldade familiar e pela omissão áspera de uma sociedade amarga. Demonstrando esse peso a martirizá-lo, está a presença física de Joaquin Phoenix.

Com sua impressionante magreza, suas costas arqueadas, omoplatas protuberantes, uma postura que, de maneira contrastante, desenha fragilidade e, simultaneamente, força bruta em sua personagem, o ator dá a Arthur um paralelo de empatia e de medo junto ao público. E essa força bruta é denotada logo em seu começo, quando, sem camisa e exibindo hematomas da recente surra sofrida, tenta rasgar o couro de suas botas de palhaço como maneira de descarregar algo. Aqui, o desenho de som preciso cria justamente essa sensação de brutalidade escondida sob aquele corpo esquelético. E nas gargalhadas incontroláveis acompanhadas por um cartão explicativo daquela condição, ou naqueles risos agudos que ele manipula muito bem, o seu autocontrole é evidenciado e nós o entendemos com os dentes trincados.

De Niro na pele de Murray Franklin: nocivo e humilhante oportunismo

MÍDIA NOCIVA

Em uma Gotham City que representa tudo de ruim que a desigualdade social pode criar, na qual a ingerência irresponsável de políticos incompetentes e corruptos desenha o presente, o futuro e o desespero de cidadãos sem amparo social e vitimas de um capitalismo nocivo, a imagem de um povo se levantar sob o símbolo de um palhaço assassino dá à experiência Coringa um peso ainda mais relevante. Distante de qualquer denúncia rasa e insustentável de um suposto teor irresponsável em suas ideias niilistas, a obra de Todd Phillips concede ao seu público uma possibilidade imensa de reflexão. “É a vida”, como bem pontua Robert De Niro na pele de um oportunista apresentador de TV. E observe que isso vem de um filme que possui um selo de origem nos quadrinhos. Não é pouca coisa.

Inclusive, a presença de De Niro como o anfitrião do programa de entrevistas e comediante Murray Franklin, uma evidente relação à subestimada obra O Rei da Comédia, dirigida por Martin Scorsese em 1982. Aqui, porém, Rupert Pupkin troca de lugar com Arthur Fleck, mas a mesma carência afetiva está lá presente. O que muda é somente a intensidade e velocidade de seu caos interno. Como catalisador para toda fúria do protagonista, Murray Franklin vem como um símbolo de todas auguras que atormentam Fleck.

No ato extremo a fechar o filme, uma imagem simbólica de diversos monitores de TV exprime o caos causado pelo já batizado Coringa. Alguns dos canais continuam a exibir sua programação normal, com publicidades e episódios semanais “a colocar um sorriso no rosto” do espectador. A vida segue. Mas o caos permanece. Às vezes disfarçado, às vezes evidente. Mas sempre nocivo.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 05/10/2019


domingo, 29 de setembro de 2019

Sócrates


Existência como martírio e resistência


Com Sócrates, jovem Christian Malheiros estreia com atuação

densa para drama de um Brasil amargo e real

Por João Paulo Barreto

A jornada de dor do garoto Sócrates começa sem nenhum tipo de prólogo. É como a sua própria existência e realidade se apresentam para ele. Logo no primeiro frame do homônimo filme dirigido por Alexandre Moratto, a aspereza da vida daquele menino é lançada na tela de maneira violenta. Não há uma comparação entre o antes e o depois. A vida dele é aquilo que vemos se desenhar. Deparar-se com o corpo da mãe, que parece ter falecido durante o sono, é o inicio de uma fase ainda pior na trajetória do adolescente de 15 anos.  A partida dela é como um chute do destino em suas costas, que o empurra de maneira agressiva em direção a uma rotina em que cada esquina lhe chega como um soco na cara. Tendo na mãe seu único porto seguro, Sócrates se vê na vida sem qualquer norte, e é nesse mergulho sem direção que a câmera de Moratto nos leva.

Na presença de Christian Malheiros (da série Sintonia) como protagonista daquela jornada, a construção de um jovem que tem o peso do mundo sobre si, mas segue em um insistente duelo contra este esmagamento. Malheiros constrói seu Sócrates de forma gradativa. Aos poucos vemos aquele mundo quebrar o menino. E é doloroso ver isso. Aqui, não há deus ex machina ou a estrutura de conto de fadas. A vida de Sócrates não é uma fábula onde sua rotina é desenhada como uma série de percalços, lutas, e reviravoltas para, finalmente, surgir um final feliz. Não. Sua realidade é uma constante batalha pelo próximo dia, pois é nele que a fome vai chegar; é nele que a grana vai faltar; é nele que o aluguel vai vencer e que a solidão vai bater dolorosamente. E ele não vai ter opção alguma a não ser a de levantar e seguir.

Tales Ordakji no papel de Maicon e Christian Malheiros

LUTO E AMOR NEGADOS


Com uma entonação otimista de sua voz, Malheiros dá a Sócrates uma forma de esconder, mesmo que brevemente, seu cansaço. Ele quer continuar lutando, mas o que vem do lado de lá insiste em jogá-lo no chão. Porém, lá está ele, naquele tom empolgado, dizendo que pode fazer aquele trabalho, que está aí caso precisem de alguém para cobrir aquele turno ou que está disposto a aprender o que a função exige que ele aprenda. Porém, nem mesmo o luto lhe é permitido. Precisa esconder a morte da mãe para que não perca o emprego nos serviços de limpeza, vaga que pertence a ela, mas que conseguiu substituir para que, enquanto convalescia, não perdesse o trabalho.  

Nos poucos momentos que se permite escapar daquele peso, Sócrates dança embriagado por água ardente ou pela breve paixão por Maicon (Tales Ordakji), que tem um segredo em sua vida que impedirá de seguir com ele. Até mesmo essa paixão por Maicon surge em sua vida de maneira violenta, quando os olhares entre si terminam em socos de auto-recriminação e medo de demonstrar fraqueza por se sentir atraído. Na despedida, quando o segredo de Maicon lhe é apresentado em uma cena que se equilibra entre algo tão bonito, porém doloroso, mas que significa a percepção do fim por Sócrates, Maicon coloca um dinheiro em seu bolso, dizendo para ele ir embora. Ao menos ali estava alguém que se importava, mesmo que a sua própria realidade o impedisse de seguir em sua felicidade.

Sócrates e um reencontro amargo

SEM VOYEURISMO

No reencontro com pai, que apenas conhecíamos pela resistência de Sócrates em não querer tê-lo de volta em sua vida, percebemos a razão para aquele trauma exigindo a distância. Não há afeto, mas, sim, uma autoridade doente, baseada em hipócritas preceitos religiosos e em um sádico comportamento homofóbico. Ao atingir um nível alarmante de necessidade, recorrendo ao lixo para não morrer de fome, é quando sua fúria contra aquele que deveria lhe dar afeto ao invés de sadismo se manifesta. Apesar da catarse ao ver Sócrates se vingar de toda aquela animosidade, não a sentimos como sendo algo a nos dar regozijo. Ali, Sócrates encontra, ao menos, algo que traga uma mera lembrança de sua mãe, mesmo que seja um símbolo de sua partida. Símbolo este que se tornará um rito de passagem para aquele garoto.

Moratto coloca o público dentro da realidade de Sócrates não como um voyeur. Não há estilização do sofrimento para a plateia retirar 70 minutos do seu tempo como modo de experimentar e avaliar aquele percalço alheio de maneira oportunista. A reflexão que Sócrates, o filme, concede ao espectador atento é a de uma realidade que está ali, densa, pesada, sem floreios, frases de efeito ou epifanias. E ela permanece até o fim. Nem mesmo o purificador mergulho no mar de Santos a representar o citado rito faz o público deixar de carregar consigo o peso daquela história para fora da sala de exibição. E que este peso sirva como uma reflexão e busca de solução para uma realidade que assombra a muitos.

 *Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 29/09/2019


domingo, 22 de setembro de 2019

Os Jovens Baumann


O desaparecimento dos dias da juventude


Com suspense como falsa ambientação, Os Jovens Baumann cria reflexão s
obre a nostalgia de uma fase deixada para trás

Por João Paulo Barreto

Dentre os filmes definidos como found footage, termo em inglês que indica obras de ficção a emular uma quase documental realidade, trágica ou não, acontecida no passado através de registros caseiros ou não profissionais, uma gama diversa de possibilidades narrativas pode ser concebida. Habitualmente relacionado ao terror sobrenatural ou ao gore (estilo mais sanguinolento e gráfico de violência no cinema), os found footage (em tradução literal, “gravações encontradas”) têm um dos seus primeiros registros no cinema com Holocausto Canibal, obra de 1980 que trazia a trágica incursão de um grupo de aventureiros/cientistas em visita às matas da América do Sul em uma viagem que custaria suas vidas e, antes disso, sanidades. De lá pra cá, o mais famoso dos exemplares é A Bruxa de Blair, que também trazia as fitas com registros encontrados de um grupo de pessoas a desvendar uma floresta com um folclore sobrenatural em suas raízes. 

Mas, diante dessa citada gama de possibilidades narrativas, o que a diretora Bruna Carvalho Almeida alcança em Os Jovens Baumann, exemplar brasileiro do gênero, é justamente o subverter dessa expectativa pesarosa para seu público. Aqui, ela cria uma narrativa baseada em imagens encontradas em um local onde supostamente algo trágico ocorreu. No entanto, essa expectativa é mantida sempre em um limiar de entrega de algo catártico, mas que nunca se concretiza. E é justamente neste aspecto que seu filme se consolida como ótimo exemplar desse gênero. Pelo suspense não manipulador, mas que, ao mesmo tempo, se faz sempre presente de maneira a causar aquele bem-vindo comichão incômodo.

Um dos Baumann brinca como se desse adeus 

OLHAR RETRÔ

A rotina dos primos da Família Baumann, herdeiros de uma longa tradição no cultivo de café, em visita a uma fazenda parte dessa herança, é o mote para a criação dessa expectativa na audiência que convive por pouco mais de uma hora com as brincadeiras daquele grupo simpático de jovens. Na captação através de uma câmera VHS e com breves interlúdios narrativos explicando as circunstâncias do desaparecimento do grupo e o subsequente encontrar das fitas, o longa cria uma ambientação na qual sabemos que algo trágico se avizinha. Gradativamente, penetramos nas conversas e brincadeiras daqueles garotos e garotas de classe média alta a contar suas aventuras prévias e a definir ao público suas personalidades.

Localizado em 1992, o contexto social no qual está inserido o grupo é pincelado ao espectador de maneira sutil. Algumas pistas são colocadas ali para entendermos o quão abastada é aquela família, como quando um deles brinca em um interrogatório para saber quem planejava roubar a fortuna dos Baumann. Até mesmo a postura elitista daquela classe é desenhada no momento em que a reforma agrária entra como tema de uma conversa e uma das jovens destila certo preconceito ao falar que mendigos iriam invadir o lugar. Tais inserções, para além de qualquer intenção de se lançar em um terreno que se baseie em uma crítica social daquelas pessoas, servem mais como uma ilustração de suas maturidades, colocando-os, quando vistos pela cortina do tempo e pelo olhar da câmera retrô, como uma maneira dos jovens se perceberem ingênuos na passagem de1/4 de século. Algo que, claro, não se concretiza pela tragicidade dos fatos.

Brincadeiras como prelúdio de uma despedida

ALEGORIA DA JUVENTUDE

Com suas liberdades expostas e comportamentos o tempo inteiro festivos, os integrantes daquele grupo de primos são desenhados como símbolos de uma época nostálgica, algo denotado ainda mais pela utilização das imagens de uma captação em VHS. A fuga de um cavalo, o desaparecimento de uma cidade nas águas de uma represa, são elementos a representar esse escape e perda.

Disfarçado como um filme de suspense, Os Jovens Baumann se torna uma alegoria eficiente para a juventude descompromissada, a mesma que desaparece com o passar dos anos no encontro com outros focos e pesos na vida. No final, esse é o suspense que se consolida.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 22/09/2019





domingo, 15 de setembro de 2019

Legalidade


Quando Brizola peitou os golpistas


Com Legalidade, um vislumbre de um Brasil que poderia ter escapado da tragédia da ditadura

Por João Paulo Barreto

Impressionante como o timing do lançamento de um filme se torna preciso de acordo com a época e a conjuntura social e política em que ele é lançado. Se tivesse estreado há 10 ou 15 anos, Legalidade, novo trabalho dirigido por Zeca Brito (do excelente A Vida Extraordinária de Tarso de Castro) geraria, sim, reflexão e impacto semelhante ao que vemos hoje, em um desolador 2019, ano vitima que resultou de manipulações jurídicas e fake news em um processo de eleitoral vicioso.

Porém, adentrar atualmente no processo de luta liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul em 1961, Leonel Brizola, por ocasião da renúncia desastrosa do presidente Jânio Quadros, torna inevitável a reflexão, comparação e consequente desânimo diante de nossos dias.  Jânio, em livro organizado pelo seu neto, admitiu no leito de morte que usou o ato da renúncia como uma tentativa de recuperar popularidade voltando “nos braços do povo ao poder”. Para que este não assumisse, enviou seu vice, João Goulart, em visita diplomática à China e acabou dando um tiro no pé (e no país) uma vez que, de fato, deixou a presidência e abriu as portas para a sombra das Forças Armadas.

A partir disso, a manipulação militar para impedir que Goulart assumisse, ou que assumisse através de um acordo com os milicos (como aconteceu), a influência estadunidense nestes conchavos e o folclore propagado em torno do “terror vermelho” (sensação de déjà vu com a campanha de 2018), levou o Brasil a apenas três anos de governo de Jango e uma caminhada à beira de um precipício uma vez que, em abril de 1964, este foi deposto e país caiu nas trevas da ditadura.

Brizola (Leonardo Machado) convoca população à luta

MOVIMENTO PELA LEGALIDADE

O foco, porém, está nas ações perpetradas por Leonel Brizola (Leonardo Machado) e o movimento iniciado a partir do Palácio Piratini, sede do governo gaucho. Legalidade recria os momentos de tensão com o comunicado da renúncia de JQ e ausência de Jango no país. Brizola, percebendo os interesses militares em não deixar que o vice-presidente assumisse, inicia uma série de comunicados ao povo do RS informando-os acerca da real possibilidade de um golpe militar. Assim, diante de ameaças de bombardeios no palácio, fechamento de rádios e transmissão de pronunciamentos a partir dos porões da sede do governo, Brizola passou a comandar a frente democrática para que Goulart, ao retornar ao Brasil, assumisse a presidência.

O falecido ator Leonardo Machado (a quem o filme é dedicado) constrói a presença de Brizola em todos os trejeitos exatos que o PDTista possuía. Desde sua entonação pausada, com palavras pronunciadas em cada silaba, até seu olhar compenetrado, de baixo pra cima, que prenunciava um sorriso aberto, Machado recriou a presença do jovem Brizola de maneira precisa.

Como contra ponto para o foco biográfico da obra, o roteiro de Legalidade insere a presença fictícia da jornalista correspondente do Washington Post, Cecília (Cleo Pires, que, na verdade, interpreta uma agente infiltrada do governo dos EUA) em um triângulo amoroso com os irmãos Luis Carlos (um antropólogo revolucionário vivido por Fernando Alves Pinto) e Tonho (José Ligabue, que interpreta um fotojornalista em um escape para o humor no longa).

Nesta abordagem, o filme perde força por conta da fragilidade deste arco narrativo, bem como o tom um tanto de novela com que o diretor Zeca Brito optou por trazer aquele romance. Assim, It´s Now or Never, na voz de Elvis, e outras músicas incidentais não ajudam muito na dramaticidade do filme, trazendo uma proposta que incomoda por conta dessa opção pelo tom folhetim. Para perceber isso, basta observar como o impacto do diálogo entre Cecília e Luiz em frente a um desfiladeiro com o mar ao fundo gera muito mais apelo dramático com o som ambiente do que com qualquer música a embalar o momento.

Luz pela legalidade: Brizola nos porões da democracia
FUTURO REPETE PASSADO

Ligando os acontecimentos da juventude de Brizola aos seus dias na velhice (com Sapiran Brito no papel), temos a filha de Cecília (vivida por Letícia Sabatella) em busca de respostas acerca da trajetória da mãe, morta em 1968. Em visitas a arquivos públicos durante o ano de 2004, mesmo do falecimento de Brizola, a personagem consegue criar um elo representativo da memória do brasileiro com seu passado, algo que parece não ser muito possível quinze anos depois. Uma metáfora eficiente, mesmo que, em uma dessas visitas, o filme falhe ao mostrar a personagem rabiscando um jornal do acervo.

Apesar de uma construção clichê da relação de Cecília com o governo estadunidense (as cenas em que ela conversa com um agente da CIA entregam essa fragilidade do roteiro), a inserção da personagem na trama denota bem a manipulação do governo de Kennedy e seu interesse em manter a influência dos Estados Unidos entre os líderes da América Latina. A ideia de uma sombra vermelha, propagandeada pelos ianques e abraçada pelos militares daqui como meio de manipular a opinião pública é bem desenhada pelo texto de Leo Garcia e do próprio diretor Zeca Brito.  A comparação citada no começo em relação aos diferentes meios de manipulação de um mesmo rumor para criar uma massa de manobra entre eleitores é algo que se repetiu de forma muito mais sórdida em tempos recentes.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 15/09/2019


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

It - Capítulo 2


A relevância do Terror


Apesar do tom episódico com sequências de terror, 
conclusão de It – A Coisa faz jus à grandeza do clássico de Stephen King

Por João Paulo Barreto

Quando se inicia o capítulo dois e final de It – A Coisa, adaptação da obra literária homônima de Stephen King, uma atmosfera específica inserida pelo cineasta argentino Andy Muschietti desde sua primeira parte, de 2017, surge. Trata-se da eficiente ideia de nostalgia misturada ao terror dos medos infantis. O já comum uso de risadas de crianças para criar essa tensão colabora, claro, mas é por conhecer a proposta de seu autor, tanto o literário King quanto a do roteirista Gary Dauberman (que já havia explorado esses medos no ótimo Annabelle 2), que percebemos o quão aterrorizante  é esse retorno à infância, podendo ser representado apenas por uma saudade, mas que, aqui, se relaciona com um genuíno pavor.
Derry, a cidade imaginada por Stephen King para ilustrar A Coisa e diversos de seus outros livros reaparece em It – Capítulo 2 como um presságio. Inicialmente, como uma lembrança doce. Os sons de um parque de diversões, o cheiro da pipoca, o sorriso das crianças e os casais de mãos dadas nos trazem isso. 

Ao utilizar a nostalgia de um parque que, mesmo funcionando em 2019, remete o espectador (e o leitor) a uma visita em sua infância de muitos anos antes, Muschietti, junto ao seu diretor de fotografia, o peruano Checco Varese, recriam exatamente a palpável tensão marcante de sua fonte original. Mesmo diante do medo, lá estão o ar de cidade de interior, os aromas, as cores douradas a nos levar a períodos equivalentes de encanto.  Mas, conhecendo a literatura de King, percebe-se que o mal está incrustado em tudo, apenas esperando o momento mais oportuno para se manifestar. Logo, essa crueldade se torna um anúncio para a tragédia quando aquele ambiente declina para uma violência homofóbica que serve como prelúdio para o ressurgimento do personagem central e símbolo daquele horror.

Perdedores em suas versões adultas

PERDEDORES DE VOLTA

Nas versões adultas, os losers do primeiro filme seguem em suas vidas. Alguns com sucesso, outros nem tanto. No mais simbólico dos casos, Beverly Marsh (agora vivida por Jessica Chastain), vive em um casamento abusivo e escapa dessa violência a partir do chamado de Mike Hanlon (Isaiah Mustafa), o único dos “perdedores” do grupo a ter ficado em sua cidade natal. Mike, ao perceber o retorno do símbolo daquele horror citado, convoca os amigos a cumprirem o juramento de voltar à Derry para enfrentar o mal representado pelo palhaço Pennywise, interpretado magnificamente por Bill Skarsgård. Assim, lá estão de volta Bill Denbrough (James McAvoy), Richie Tozier (Bill Hader, hilário), Ben Hanscom (Jay Ryan) e Eddie Kaspbrak (James Ransone, em uma impressionante semelhança física com o ator Jack Dylan Grazer, sua versão criança).

Neste reencontro, porém, é onde o filme, com seus quase 170 minutos, demonstra sua falha, algo perceptível principalmente em comparação à sua primeira parte. Com a necessidade de abarcar os dramas de todos os personagens junto ao terror oriundo do contato com Pennywise, o roteiro de It – Capítulo 2 acaba, em alguns momentos, por perder seu ritmo, tornando-se episódico e expositivo na ideia de criar sequências de terror. Assim, cada um dos adultos passa a ter uma experiência singular com a criatura, algo que espelha um trauma vindo da infância. Diante de tantos momentos nos quais o palhaço surge como um elemento fantasioso a explorar o medo de cada um dos perdedores (ou otários, em sua adaptação), o longa perde um pouco do seu impacto como filme de terror, como, por exemplo,  a sequência envolvendo uma estátua gigante de lenhador a ganhar vida.

Porém, é válido salientar que, em algumas dessas sequências, como a que aborda o encontro de Bill e seu irmão caçula junto a um bueiro conhecido ou o momento em que Beverly se vê de volta à casa onde morou com seu pai molestador e alcoólatra, assustam justamente por abordar dramas onde o terror fantasioso de Pennywise se torna uma alegoria para o real trauma psicológico de seus protagonistas, algo muito bem explorado nessa conclusão com outros personagens, também. Dentre eles, Stanley Uris (Andy Bean), que, em breve participação, insere um denso tom dramático em um arco envolvendo suicídio.

Pennywise e sua verdadeira face

REENCONTRO COM PASSADO

Excetuando o caráter episódico existente na ideia abordar diversas passagens de terror em seus muitos personagens, essa conclusão de It figura como um ótimo exemplar do gênero, e isso se deve principalmente à participação de Bill Skarsgård como Pennywise. Aqui, inclusive, é possível um vislumbre do ator sem a pesada maquiagem de palhaço, em uma pertinente homenagem que Muschietti faz ao seu protagonista. E ele consegue transferir em sua versão humana horror tão sufocante quanto o de sua persona circense e doentia.

Demonstrando uma montagem precisa em relação a mesclar flashbacks com a trama que acontece na atualidade, trazer a continuidade da história dos losers ainda adolescentes e criar diversas rimas visuais de suas vidas com suas atormentadas versões adultas, a conclusão da adaptação da obra de Stephen King (que faz uma participação hilária em cena) coloca It – O Filme, considerando ambos como uma obra única, como aquele tipo de transposição para os cinemas a ocupar o mesmo lugar afetivo do seu original literário.

E ver em It e em suas homenagens (as que abordam Carrie e O Iluminado, ambas obras de King, saltam aos olhos) o Terror como gênero alcançar tamanha relevância dentro de uma onda de filmes que se repetem e se banalizam em suas propostas de causar medo, não é algo a se menosprezar.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 06/09/2019