quarta-feira, 22 de abril de 2015

Um 2015 cinematograficamente baiano

Um breve panorama do vem por aí na produção baiana para cinema e TV, abrangendo curtas e longas metragens de ficção, documentários e séries para a telinha.



Por João Paulo Barreto

Homenageado com uma Mostra especial na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, dedicada aos seus cinquenta anos de carreira, o ator Paulo José disparou duras críticas ao atual cinema feito no Brasil. Especialmente por conta do domínio de uma produção que parece reciclar o que se vê nas telenovelas, Paulo José, em matéria publicada no jornal O Globo, apresentou uma pertinente visão sobre o que os diretores têm feito na mágica de “transformar roteiros incipientes em filmes medíocres”. Indo mais fundo na sua crítica ao atual cenário praticamente dominado por produções vazias da Globo Filmes, o ator entrega a fórmula de sucesso que prega o macete de utilizar “atores e atrizes de TV fazendo caretas nas cenas de riso e vertendo lágrimas nas de emoção”. No entanto, o veterano salienta uma luz ao afirmar que, sim, ainda há quem faça cinema por uma necessidade de expressão, “mas são poucos”, frisa.

Esse trecho final de sua declaração poderia definir bem o que vem sendo realizado no cinema baiano. A necessidade de expressão é o que rege muito do que é feito aqui atualmente. Não temos uma Globo Filmes bancando execução e distribuição por trás de projetos (e, pensando bem, é provável que nem queiramos correr o risco que esse pacto poderia acarretar) e, quando não contamos com editais que têm demonstrado exemplos de atrasos de pagamento, acaba-se por fazer cinema com o próprio bolso. É o caso de cineastas como Maurício Amorim, que, em 2014, trouxe seu segundo longa metragem (O Seminarista) à vida sem nenhum suporte de edital.

Após a notável presença de Depois da Chuva, longa de estreia dos cineastas Cláudio Marques e Marília Hughes, em diversos festivais mundo afora, além dos prêmios de melhor roteiro, ator e trilha sonora em Brasília, o longa deixou uma boa ansiedade para o que mais o nosso cinema terá a apresentar daqui para frente. E tem muita coisa boa despontando.

O cineasta Daniel Lisboa ao lado de peça de divulgação do filme
O exemplo citado no quesito atraso de repasse de verbas de edital está em Tropikaos, longa de Daniel Lisboa (O Fim do Homem Cordial, Sarcófago) que sofreu com o não pagamento de uma das parcelas do edital, mas que, regularizado esse problema, pôde dar continuidade ao projeto que, atualmente, se encontra na fase de pós-produção. A história aborda o calor de Salvador e sua “ultraviolência solar” assim como seus problemas sociais e desigualdades a partir do olhar de um poeta viciado em crack. Tropikaos, a julgar pela filmografia de seu diretor, promete ser uma experiência inquietante.

Outro cineasta baiano com filme praticamente pronto é Henrique Dantas. Diretor dos documentários Os Filhos de João - Admirável Mundo Novo Baiano e Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade, Dantas, dessa vez, retorna seu olhar para o período da ditadura militar, tema central do doc sobre o cineasta Olney São Paulo, uma das vítimas do período. Em seu novo trabalho, A Noite Escura da Alma, o diretor traz um recorte do período aqui na Bahia. Sem trabalhar com imagens de arquivo, o longa conta com depoimentos de nomes como Juca de Oliveira, Lúcia Murat, Emiliano José, dentre outros. Ao todo, foram trinta entrevistados ouvidos no Forte do Barbalho, local notório por ter sido utilizado nas torturas realizadas pelos militares. As gravações ocorreram sempre durante a noite, o que explica o título do filme, relacionando-o, também, com a densidade de seu tema. As falas são alternadas com performances de atores, algo que ilustra o peso dos depoimentos. O filme teve uma exibição teste no começo do mês para uma platéia paulistana e, agora, encontra-se em fase de montagem. Segundo Henrique, a intenção é exibi-lo em festivais durante 2015 e batalhar por um espaço no circuito comercial em 2016.

A Noite Escura da Alma, documentário de Henrique Dantas
Apesar de nascido na França, Bernard Attal já pode ser chamado de baiano. Radicado no Brasil desde 2005, Attal teve seu primeiro longa, A Coleção Invisível, premiado em diversos países do mundo. Estrelado por Vladmir Brichita e Walmor Chagas, sendo este o último trabalho do veterano ator, que faleceu em 2013, a obra foi rodada em Salvador e no interior da Bahia, e traz a tocante história de um homem em busca da superação do trauma das mortes de amigos enquanto tenta decifrar a relação de um colecionador com seus quadros raros. Attal foi um dos contemplados no Edital de Fomento à Produção Audiovisual Baiana de 2014. Seu próximo longa, A Finada Mãe da Madame, será um telefilme inspirado na peça homônima de Georges Feydeau e narra a história de um bancário boêmio, na Bahia dos anos setenta, que enfrenta uma crise familiar com inesperadas conclusões. Atualmente, o projeto está em fase de pré-produção.

Bernard Attal em entrevista ao BahiaDoc
Contemplados no mesmo edital, os cineastas Cláudio Marques e Marília Hughes já iniciaram as gravações do filme A Cidade do Futuro, longa rodado na cidade de Serra do Ramalho e que, segundo os próprios realizadores, “é um documentário de encenação-construída com fortes elementos dramáticos, onde os personagens são os atores de suas próprias trajetórias”. Após a primeira experiência na construção de um longa-metragem com o êxito de Depois da Chuva, a dupla, que já possui na carreira diversos curtas, assume o desafio de criar mais um longa a partir de um tema de contexto atual no qual quatro jovens enfrentam as dificuldades de assumir sua homossexualidade na cidade localizada no sertão baiano. Apesar de ser uma produção inicialmente voltada para TV, o co-diretor Cláudio Marques planeja uma versão também para as salas de cinema.

Na primeira foto oficial, vemos Serra do Ramalho, local do segundo filme
Vencedores da edição do ano passado do Panorama na categoria Filme Baiano com o curta Menino da Gamboa, a dupla Rodrigo Luna e Pedro Perazzo já tem o próximo trabalho agendado para o segundo semestre desse ano. O Enterro de Neide será um longa metragem ambientado na Chapada Diamantina que conta a história de um jovem de classe média que decide realizar o desejo da empregada doméstica de sua casa que pediu para ser enterrada no mesmo vilarejo onde nasceu. O filme abordará a viagem do jovem que leva o corpo da mulher que praticamente o criou para o local remoto onde ela passou os primeiros anos de sua vida.

Luna e Perazzo  recebem o prêmio de Melhor Curta no Panorama
SÉRIES DE TV

Além de longas, a produção audiovisual baiana também tem em 2015 uma excelente representatividade com séries de TV. Através do Edital de Fomento à Produção Audiovisual Baiana 2014, séries de episódios vão ilustrar essa diversidade de produções. E nomes de notória qualidade vão estar por trás desta empreitada. Um deles é o de Sofia Federico, diretora de elogiados curtas como o Cega Sega (2003), Vermelho Rubro do Céu da Boca (2005) e Caçadores de Saci (2005). No projeto Francisco só quer jogar bola, série infantil com 13 episódios, a diretora apresenta o garoto Francisco, que vive em uma cidade grande que tem de tudo, menos espaço para o futebol. Com roteiro escrito em parceria com João Rodrigo Mattos (Trampolim do Forte), a série será exibida na TVE.

Outra série também destinada à TVE tem a direção de Jorge Alfredo, cineasta por trás do documentário Samba Riachão. Em O Senhor das Jornadas, Alfredo traça um panorama sobre o trabalho de Guido Araújo, cineasta e criador da Jornada do Cinema Baiano. Um dos pioneiros na produção de cinema na Bahia, Guido terá nessa série de cinco episódios de 26 minutos de duração cada, um dossiê acerca de sua filmografia e trabalhos voltados para o audiovisual baiano.

Após o impactante Joelma, curta que aborda o universo LGBT e a violência e preconceitos sofridos por gays e transexuais, o diretor Edson Bastos, em parceria com o cineasta Henrique Oliveira, apresenta a série em 13 episódios, A Professora de Música. Trata-se de um projeto que aborda as dificuldades de Íris, a professora do título, com a preparação de um recital em uma escola de música. A série também terá exibição na TVE.

No universo LGBT, o representante é a série de cinco episódios Diversidade, dirigida por Leandro Santos Rodrigues e Elen Linth, que “acompanhará durante cinco meses oito personagens em processos legais em instituições pública e/ou órgãos jurídicos de direito”. A sinopse oficial publicada no site da Ancine chama atenção para um problema que aflige os membros da comunidade LGBT e a busca por reconhecimento de seus direitos legais em diversos segmentos.

CURTAS METRAGENS

Na produção de curtas metragens, a Bahia se destaca com curtas que alcançaram grande relevância nacional, como é o caso de trabalhos como Menino do Cinco e Carranca, curtas selecionados para festivais como o de Gramado e Paulínia. Seus diretores, Marcelo Matos e Wallace Nogueira, inclusive, já estão com dois novos projetos previstos. Sob o título provisório de A mulher que replicava quadros, um deles aborda a história de amor entre uma deficiente visual e um rapaz que, gradativamente, vem perdendo a visão. ”É um filme que mescla cegueira, amor e arte. Estamos em fase de pré-produção. A ideia é quase a totalidade dos atores seja formada por deficientes visuais”, explica o co-diretor Marcelo Matos. A previsão é que o lançamento fique para o primeiro semestre de 2016.

Os diretores Marcelo Matos e Wallace Nogueira

Outro curta da dupla com a mesma previsão de lançamento é Cavalo Baio, filme que encerra a trilogia da infância iniciada com Menino do Cinco e Carranca. Rodado na cidade de Cachoeira, o roteiro aborda o ciúme de um garoto filho de fazendeiro e o filho de um dos peões por conta do amor que ambos sentem por um cavalo de estimação.

Com uma produção constante, a equipe do CUAL – Coletivo Urgente Audiovisual faz jus ao seu nome e tem três trabalhos em produção no momento. Selecionados para a competitiva nacional da décima edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema, ano passado, com o curta Com fome no fim do mundo, os jovens do coletivo realizaram, recentemente, no Espaço Itaú Glauber Rocha, uma premiere do filme Gaivotas ou o que fazer com os braços. O curta discute o processo de atuação através da conversa de dois atores durante uma cena do texto teatral “A Gaivota”, do dramaturgo e escritor russo, Anton Tchekhov. Além deste, o coletivo trabalha na produção de Vandalismo, próximo a ser finalizado e que aborda o atual contexto político brasileiro. Junto com este, porém já encerrado, aparece o Estamos aqui, que, segundo Ramon Coutinho, um dos cineastas da equipe, “trata-se de um filme hibrido sobre o próprio coletivo, um trabalho ficcional sobre a nossa amizade”, explica. Neandertais é outro trabalho que se une a prolífica produção dos rapazes em 2015. Atualmente em fase de pré-produção, o curta vai abordar “dois funcionários de uma rede de fast foods que acreditam ter encontrado um homem-de-neandertal faminto”. Observando o tom tragicômico de alguns trabalhos do coletivo, esse parece seguir linha semelhante. Fechando, temos o curta Feio, Velho e Ruim, uma crítica à necessidade constante que a geração dos selfies têm de ser aceita, amada e, claro, curtida. Confira o trailer no link: http://cualcinema.com/feiovelhoeruim/

Galera do Coletivo Urgente Audiovisual - CUAL
A dupla Pedro Perazzo e Rodrigo Luna também está envolvida na produção de curtas esse ano, só que em projetos separados. Restos, por exemplo, é um curta metragem cujo roteiro é do próprio Perazzo e a direção ficou com Renato Gaiarsa (que trabalhou na montagem de Menino da Gamboa e Jessy, curta dirigido por Luna em parceria com Paula Lince e Ronei Jorge). Neste novo curta, uma greve de funcionários da limpeza pública cria um cenário caótico na cidade, onde o lixo se acumula. A situação nos é apresentada através do olhar de Souza, um dos garis da região que, apesar de não possuir consciência de classe, observa seu poder crescer a cada novo saco de lixo nas ruas.

Renovando a parceria premiada de Jessy, Rodrigo Luna voltará a trabalhar com Paula Lice e Ronei Jorge em Ridículos. Trata-se de um documentário sobre o ofício e a arte dos palhaços. Com a excelente incursão no universo das drag queens de Jessy, este é mais um curta baiano que promete.

Luna, Lice e Jorge voltam à parceria
Diretor de Nunca mais vou filmar, curta de montagem ágil e história simples, porém cativante e que remete à trilogia do Antes de Richard Linklater, o cineasta Leandro Afonso apresenta nesse ano o curta Argentina, me desculpe. Realizado unicamente através de fotografias, o filme tem em sua sinopse a polêmica rivalidade entre os brasileiros e seus hermanos, só que, aqui, essa rivalidade não fica só no futebol, mas, também, nas mulheres de cada país.

Durante a entrevista para a coleta de dados dessa matéria, o papo com Afonso foi, no mínimo, engraçado e curioso. Ao ser arguido sobre a sinopse de Gengivas Sangrentas, curta dirigido por ele e com o roteiro de Bruno Bandido, foi com surpresa que recebi a resposta de que ele não saberia dizer. “É que eu e Bruno temos em comum uma péssima capacidade para fazê-las”, brincou Leandro. Ao final, consegui extrair o seguinte plot: “Pedro e Mel fugiram de suas cidades e agora vivem num quarto e sala onde recebem a visita de Julio”. Quando perguntei acerca da amizade entre esses três personagens, o diretor respondeu que eles não são amigos. “Na verdade, a palavra ‘tensão’ se aplica melhor entre eles que ‘amizade’”, frisou.

Confesso que bateu um calafrio e a curiosidade foi lá pra cima depois dessa...

O diretor na preparação do set de Argentina, me desculpe (Foto: Bruno Bandido)
Mesmo que este texto seja apenas um breve panorama sobre o que desponta aqui na Bahia nesse ano, dá para concluir que sim, a polêmica declaração de Paulo José citada lá no começo da matéria tem seu embasamento. O atual contexto cinematográfico brasileiro subsiste em produções pobres, mas que, com uma distribuição assombrosa e excludente, drena rios de dinheiro e multiplica esse tipo de filmografia.

No entanto, ao observar o cenário de produções baianas já em andamento nesse 2015, conclui-se que, sim, ainda há aqueles que fazem cinema de expressão . E não, pelo menos por aqui, não são poucos. Não mesmo.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Vingadores - Era de Ultron

(Avengers - Age of Ultron, EUA, 2015) Direção: Joss Whedon. Com Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner. 


Por João Paulo Barreto

Mais um passo no plano da Marvel em criar um equivalente (e bilionário) paralelo de seus heróis de papel nas telas do cinema, Vingadores – A Era de Ultron solidifica ainda mais o terreno narrativo e interligado por todos os filmes dos personagens licenciados pela editora para o cinema desde Homem de Ferro (2008).

Nesta nova aventura, somos apresentados à inteligência artificial, e supostamente pacificadora, Ultron, criada por Tony Stark (Downey Jr.) e pelo Dr. Bruce Banner (Mark Ruffalo) a partir da tecnologia alienígena contida no cetro do personagem Loki, subjugado no filme anterior. Como de praxe, a tal inteligência, capaz de transmutar-se em robôs assassinos, se rebela contra seu criador e parceiros preferindo ela mesma colocar em prática aquilo que chama de pacificação da humanidade através da extinção da mesma.

Com a criação de um antagonista à altura dos poderes dos heróis, resta ao diretor e roteirista Joss Whedon a criação do espetáculo visual habitual nos filmes do grupo. Aqui, utilizando a fórmula já aproveitada na primeira parte, ele volta a colocar parte dos heróis para lutar entre si, deixando, dessa vez, que os esforços se concentrem entre a versão parruda do Homem de Ferro (batizada de Hulkbuster) contra a sua inspiração na forma da fúria verde do Hulk. E a fórmula se repete do mesmo modo eficiente visto no anterior.

Tony Stark em sua versão parruda Hulkbuster
Dando um tempo na já comum destruição da cidade de Nova York, A Era de Ultron leva esse espetáculo visual para a Europa Oriental, onde traficantes de armas negociam com a versão robótica de Ultron o material necessário para a criação do seu exército e este recruta dois novos seres com superpoderes: os irmãos Mercúrio e Feiticeira Escarlate. O primeiro, superveloz, e a segunda, capaz de manipulação mental e de criar rajadas de energia.

Desde a sua cena de abertura, reconhecemos um hábito do diretor Joss Whedon. Com cada ação dos heróis sendo exibida separadamente através de uma câmera baseada em planos contínuos e travellings ágeis, já sabemos que em algum momento os veremos reunidos no mesmo quadro em uma pose heroica (algo já visto no predecessor). As velozes e empolgantes sequências compostas pelo diretor e roteirista de quadrinhos nos levam a reconhecer um estilo de filmagem que marca os dois primeiros filmes dos Vingadores e, claro, encontram diversos ecos nos enquadramentos vistos nas HQs.

No quesito da criação visual do filme, as expressões faciais do Hulk em sua fúria domada pela Viúva Negra, e a inserção de Ultron inicialmente como um destruído e (justamente por isso) horripilante robô para uma evolução gradual à imponente presença no apogeu de sua forma, fazem deste novo capitulo algo realmente admirável. Curioso observar como sua expressão facial nos remete à Maschinenmensch (máquina-humana) de Metropolis, clássico de Fritz Lang. Sendo Ultron uma criação de Stark, nada mais irônico que o complexo de Frankenstein visto nos dois filmes seja tão evidente.

Ultron "in the flesh"
Some a isso o domínio de voz que James Spader utiliza ao dublar Ultron (algo que será perdido pelos que preferem as versões em português),  e o que se vê no personagem é uma criação de vilania que, ironicamente, se mostra muito mais eficiente que a versão em carne e osso trazida pelo vilão Loki, interpretado por Tom Hiddleston e seu forçadamente onipresente sorriso. E a forma encontrada por Ultron para se descrever quando se apresenta salienta ainda mais tal ironia.

Apesar de pecar na ingenuidade simplista como a resolução do conflito é apresentada a partir da ação do novo personagem Visão, que simplesmente deleta Ultron do seu domínio cibernético, e a reciclagem do clímax do filme anterior, onde a destruição de um artefato resolve todos os problemas, Vingadores – A Era de Ultron, se apresenta como uma obra mais bem resolvida que sua primeira parte. 

De fato, o universo Marvel no cinema, com todos os seus filmes formando uma eficiente unidade, acaba se consolidando como algo notável que a sua rival, DC Comics, terá que suar um pouco para alcançar.

  

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Filmes de chocolate no Jornal Correio

A convite do colega Ronney Argolo, repórter do jornal Correio da Bahia, listei alguns filmes que podem ser a opção para os cinéfilos que queiram fugir das reprises dos longas bíblicos que infestam as exibições no período de Páscoa (a lista foi publicada no blog no domingo).

Abaixo, segue a matéria que foi impressa no caderno Bazar, do jornal soteropolitano. Nela, deu para se descobrir o real sentido da Páscoa: se empaturrar de chocolate! 

Clique na imagem para ampliar. 


domingo, 5 de abril de 2015

Páscoa e alguns filmes de chocolate

Direto ao ponto. Que tal seis filmes para fugir das reprises de A Paixão de Cristo e aproveitar o sabor dos chocolates da Páscoa? Confere aí! 

Por João Paulo Barreto 


A Fantástica Fábrica de Chocolates (Willy Wonka & The Chocolate Factory, EUA, 1971)
Pensar em chocolate no cinema e não se lembrar desse clássico absoluto é um tanto impossível. Filme nostálgico para muito trintão de hoje em dia, o longa é baseado no livro do britânico Roald Dahl, e representa um dos mais adorados best sellers do século XX. Narrando a história do pequeno Charlie, um jovem de origem humilde que sonha em conhecer o interior da Fábrica de Chocolates Wonka, o filme apresenta o pequenino e sua pobre família, que ajuda o garoto a realizar seu desejo através de um cupom dourado encontrado por sorte em uma barra da guloseima. Junto com um grupo de crianças que também encontraram (de forma honesta ou trapaceando) um cupom, Charlie adentra com o avô na fábrica capitaneada pelo tal Willy Wonka, um (sádico?) simpático homem que insere diversas provas pelas quais os garotos têm que passar. Diversas teorias conspiratórias pregam que Wonka não passa de um sádico que, na verdade, odeia crianças. Vivido por um sorridente Gene Wilder, essa teoria não é assim tão perceptível durante o longa. A não ser, claro, se você o assista já com isso em mente.


Como água para Chocolate (Como água para Chocolate, México, 1992)
Apesar de seu título, não é somente a iguaria mais consumida nessa época do ano que é abordada nesse filme mexicano que traz o trabalho de fotografia do vencedor dos dois últimos Oscars na categoria, Emmanuel Lubezki (aqui, ainda em começo de carreira). Utilizando como metáfora para o desejo sexual tanto a guloseima à base cacau quanto diversas outras comidas, o filme apresenta uma época em que a repressão desse desejo tem um apoio conservador oriundo da sociedade e da família daquele tempo, período da Revolução Mexicana. Quando vemos uma mulher que havia sido proibida de se casar com o homem que ama por conta dos caprichos da própria mãe, ter sua libido desperta de forma selvagem e autodestrutiva, o simbolismo da libertação a partir de uma arte como a culinária se torna evidente. E uma cena envolvendo um bolo de chocolate e tudo o que ele pode causar a um casamento retrata de forma sagaz essa liberdade perseguida.


Chocolate (Chocolate, EUA, 2000)
Bobinho, embora pretensioso em sua produção feita para ganhar o Oscar de 2001 (e indicado a cinco prêmios da Academia), esse filme dirigido pelo especialista em dramalhões, Lasse Hallström (de Regras da Vida e o recente Querido John), tenta emular um pouco da revolução que a culinária pode causar em um pequeno lugarejo como o visto em Como água para Chocolate. Aqui, a trama é transferida para uma vila no interior da França e o aspecto sociológico e histórico do período político mexicano é reduzido para as fofocas de simplórias donas de casa francesas. Juliette Binoche interpreta uma pequena comerciante de talentos extraordinários na confecção de chocolates que resolve abrir uma pequena loja para vender suas iguarias. Semelhante ao que vimos na película mexicana, os doces causam um rebuliço na vida social e sexual dos casais da região. Tendo um Johnny Depp no papel de um cigano musicista e vitima do racismo local, o par romântico de nossa protagonista está formado.


A Fantástica Fábrica de Chocolates (Charlie and the Chocolate Factory, EUA, 2005)
Em sua refilmagem (feita em parceria com Johnny Depp, seu colega constante), Tim Burton apresenta uma versão mais ácida e óbvia quanto aos ressentimentos que Willy Wonka nutre pelas crianças que convida a conhecer o interior de sua fábrica. Vivido por um Depp que sempre se esforça para tornar evidente a bizarrice de seus personagens, essa colorida versão dirigida pelo quase sempre monocromático Burton investe bem mais no aspecto psicológico do seu protagonista e nos seus traumas familiares para explicar o porquê de suas rusgas para com os pequeninos (e, em alguns casos, irritantes) visitantes. Do mesmo modo como na versão original, a vontade de comer chocolates é inevitável ao subir os créditos. Cantarolar as músicas, idem. Ainda mais, aliás.


Românticos Anônimos (Les émotifs anonymes, França, 2010)
Mais um filme a abordar a confecção do chocolate e suas consequências românticas. Aqui, temos outra expert na arte de criar as guloseimas, mas sem nenhum traquejo social para lidar com pessoas, muito menos para encarar qualquer possibilidade de relacionamento amoroso. Ao conseguir um emprego em uma fábrica de chocolates, Angélique, além de surpreender a todos com seus dotes culinários, precisa lidar com as investidas românticas de Jean-René, seu chefe, que, assim como ela, tem problemas crônicos sobre como lidar com sua timidez. No caso dele, tal problema é exclusivo das relações com o sexo oposto. Situações hilárias e um tanto nonsenses ilustram bem a condição dos protagonistas em um filme bem amarrado e divertido.


Me Late Chocolate (Idem, México, 2013)
Inédito no Brasil, Me Late Chocolate (algo como “Chocolate, me bate”, em tradução livre do espanhol) é mais uma obra mexicana a mesclar relações amorosas ao hábito de confeccionar chocolates. De qualidade inferior aos outros filmes dessa lista, Me Late, Chocolate é uma comédia romântica leve que, apesar de irregular, diverte de forma despretensiosa. Abusando dos desencontros amorosos de sua protagonista, Moni, que, após perder seu quase noivo em um acidente inusitado, decide se dedicar ao que mais gosta: fabricar chocolates. O problema é que qualquer tentativa de achar um novo amor é frustrada por visões hilárias do falecido. Vale tanto pelas risadas das situações absurdas, como pela rápida participação de Edgar Vivar, nosso eterno Seu Barriga, de Chaves.



quinta-feira, 2 de abril de 2015

Golpe Duplo

(Focus, EUA, 2015) Direção: Glen Ficarra, John Requa. Com Will Smith, Margot Robbie, Rodrigo Santoro. 



Por João Paulo Barreto

Já é bem conhecida a simpatia que o público nutre por anti-heróis. Ladrões charmosos que tiram a grana de ricaços inescrupulosos ou de instituições que enxergam apenas o próprio lucro enquanto castigam o povo ao seu redor. Já vimos isso em diversos filmes. Seja nas versões de Robin Hood em live action ou animações, seja no grupo de malandros charmosos chefiado por George Clooney e por Frank Sinatra nas versões para o cinema de Onze homens e um segredo. Torcíamos pelo bando de pilantras mesmo sabendo que o que eles faziam era contra a lei. A simpatia chegava a ser irrestrita.

Por que, então, fui incapaz de sentir o mesmo pelo grupo liderado por Will Smith em Golpe Duplo? Talvez porque, dessa vez, o aspecto honra fique um pouco distante desses meliantes. Ok, ok, temos Margot Robbie ainda abusando da beleza apresentada em O Lobo de Wall Street; temos o membro engraçado e surreal da gangue, aqui representado por Farhad (Adrian Martinez) e suas indiretas deslocadas que, uma pena, não encontram resultado positivo na total falta de timing cômico de Robbie. E, claro, o próprio Will Smith, que tenta ao máximo emular o charme vigarista de Clooney, mas sem sucesso.

A linda Jess (Margot Robbie) e o sem-noção Farhad (Adrian Martinez)
Não que a culpa esteja na interpretação dele. Will Smith até convence como chefe do bando e organizador dos golpes. Mas o problema está justamente nestes golpes. Qual a simpatia que o público pode ter quando a identificação do mesmo está nas pobres vitimas daquelas pessoas? Como torcer por um grupo de ladrões que rouba lentes de câmeras de turistas, relógios, carteiras, clona cartões de crédito, adultera caixas eletrônicos em busca de dados de correntistas? Como gostar de um bando de personagens que não se importam em destruir economias de trabalhadores ou lesar bens materiais de pessoas que se esforçaram, suaram e ralaram muito para conseguir itens de seu conforto?

Diferente de outros filmes desse tipo, cujo roteiro fazia questão de salientar o quão mau caráter eram as supostas vitimas do bando (Andy Garcia e Pacino na trilogia Ocean, por exemplo), em Golpe Duplo, a suposta vitima a seguir esse conceito surge com um certo atraso. Já do meio para o fim é que o tal “vilão” interpretado por Rodrigo Santoro aparece na trama, que sai inexplicavelmente de Nova Orleans para Buenos Aires, deixando de lado os pequenos golpes e partindo para algo mais ambicioso envolvendo combustível de carros de Fórmula 1. Agora, no entanto, já é um pouco tarde demais. Qualquer simpatia que poderíamos começar a nutrir pelo protagonista, dessa vez apaixonado e com ciuminhos, já caiu por terra ao nos colocarmos sempre no lugar das vítimas de seus golpes. Eu, por exemplo, imaginei a dor de cabeça de ter que procurar refazer documentos, pedir estorno em financeiras e bancos e lutar para ter meu nome limpo na praça novamente.

Santoro esbanjando charme como o suposto vilão, Garriga
Curioso. Durante o filme, uma cena que não parava de surgir em minha mente era uma em que John Dillinger, em Inimigos Público, no momento em que assalta um banco, permite que um idoso que deu azar de estar na agência naquele momento guarde o dinheiro que acabara de receber.

Viram? Não é tão difícil assim conseguir a simpatia do espectador, caros. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Depois da Chuva e a desilusão de uma geração


Por João Paulo Barreto

Depois da Chuva, primeiro longa metragem dos cineastas Cláudio Marques e Marília Hughes, estreou essa semana. Justamente no primeiro mês que o Brasil se vê livre de um dos últimos tumores da época que o longa aborda. José Ribamar Sarney, um dos suportes do golpe militar de 1964, e símbolo da continuidade política imposta pelo regime na abertura de vinte anos depois, saiu da cena pública ao não se reeleger para o senado em 2014.

No longa, a figura oportunista de Sarney está representada pelo seu homônimo, Ribamar (Victor Corujeira), personagem que denota em sua personalidade ainda um pouco da inocência juvenil, mas cujo interesse pernicioso de ascensão social decorrente da influência de amizades poderosas já é notável.

“É o nascimento de um corrupto”, pontua o co-diretor Cláudio Marques. “O outro que vemos é o Paulo (Ricardo Pisani), nossa homenagem ao Paulo Maluf. Você observa que o Paulo é mais pesado, autoritário. Uma caricatura em cena. Isso ficou mais evidente. Ele já é um corrupto. O Ribamar é mais sutil. Vai se tornar aos poucos o corrupto que conhecemos”, explica.

Ribamar e Paulo tentam ganhar os votos dos alunos. Foto: Agnes Cajaiba
São jovens estudantes interessados na criação de um grêmio estudantil no colégio em 1984, período marcado pelo fim da ditadura militar no Brasil. Caio (Pedro Maia) é um dissidente dessa turma, mas um dos poucos com a real percepção do que realmente significa aquele momento histórico. Na Salvador daquele ano marcante, passa os seus dias com os dois amigos mais velhos, Tales (Talis Castro) e Sara (Paula Carneiro), influências poderosas na sua formação de ideias e visão de mundo. A desilusão, no entanto, é palpável. A anarquia como pilar de vida se choca diretamente com a falta de esperança naquele país que surge.

Vendo o filme pela segunda vez na pré-estreia dessa semana (a primeira foi em 2013, logo após os prêmios alcançados no Festival de Brasília), foi palpável a percepção do impacto dessa obra para o atual contexto nacional. Após as manifestações que marcaram o país há um ano e meio, diversos estados brasileiros optaram por manter os mesmos representantes políticos que os levaram a protestar contra. É desse tipo de desilusão que o filme trata. Mesmo após a abertura, durante os últimos 30 anos, estivemos presos em um ciclo vicioso de trocas de cargos por figuras de uma mesma estirpe. Personagens principais (e suas variações) de uma fase sombria pela qual o Brasil passou.

Nessa desilusão vive o personagem Tales, mentor e amigo do protagonista Caio. Em sua personalidade, está uma vontade de mudança, uma revolta escancarada pela percepção de que aquela farsa da abertura política não passa realmente disso: uma farsa. Os poderosos que vão mexer as marionetes são os mesmos. E Tales sabe disso. Sua figura séria, de olhar soturno e comportamento introspectivo reflete esse conhecimento. Mas ele luta para manter um foco no poder da indignação. Na ação popular. Com os dois amigos, invade a faixa de rádio com uma transmissão pirata que esclarece a ilusão que aquele novo cenário representa e busca distribuir na escola de Caio o zine “Inimigo do Rei”, falando justamente sobre essa “Demencracia” que o garoto abordou em sua redação censurada com uma nota zero.

Talis Castro em cena de Depois da Chuva. Foto: Agnes Cajaíba
Talis Castro afirma ser bem diferente do seu personagem quase homônimo e que, por isso, sua construção foi um processo bem desafiador. "Primeiro pela carga dramática, segundo pela sua representatividade dentro da trama e terceiro pela linguagem do cinema, a qual não estava familiarizado”, explica o jovem ator, que tem em Depois da Chuva sua estreia no cinema. No entanto, acreditar na mudança é algo que os dois têm em comum “O que realmente me aproxima dele é o credo nos movimentos coletivos, na força popular enquanto organização política e que as mudanças estão nas pequenas atitudes, individuais, do dia-a-dia", complementa.

Oriundo dos palcos, Talis caminha bem em diversos estilos, como a comédia,o stand up, o drama e o teatro infantil. Convidado pelos diretores Cláudio Marques e Marília Hughes para o papel em Depois da Chuva, Talis afirma que estrear nas telas foi a realização de um sonho e que pretende continuar a se aventurar tanto no tablado quanto nas telas. “Minha prioridade é atuar. O teatro foi o meu primeiro contato com esta arte, e adoro fazer. Nele encontrei maiores oportunidades e consegui construir uma carreira bacana que me possibilitou dialogar com diversas linguagens”, afirma.

Sobre a aprendizagem constante na atuação, tanto no teatro quanto no audiovisual, o ator afirma ter se apaixonado ainda mais pelo cinema após o trabalho com os diretores. “Eles sabiam exatamente o que queriam em termos de atuação, e nos encaminhavam muito bem para este ‘tom’ que o filme tem. São muito atenciosos, generosos e souberam conduzir tudo com maestria, nos dando liberdade para criar e sempre dando o caminho a seguir. Espero encontrá-los em breve em mais uma produção”, diz Talis.

O ator lamenta que as oportunidades na área sejam poucas em Salvador, mas garante que, mesmo tendo uma carreira construída nos palcos, busca outras chances no campo do audiovisual, tanto no cinema quanto na TV. “Espero que o filme abra caminhos para novos trabalhos. E ouso dizer que, mais para frente, quero dirigir cinema.”, surpreende.

Os diretores durante as gravações. Foto: Agnes Cajaíba
Gravado em 2012, Depois da Chuva correu mais de 30 festivais em 14 países, demonstrando uma estratégia de divulgação arriscada, mas que, no final, provou-se certeira. “Foi um planejamento, sim, mas muito arriscado. Já imaginou se o filme não entrasse nessa quantidade de festivais? Era um risco. Mas funcionou”, explica o co-diretor Cláudio Marques. “Os festivais que nós mais queríamos, nós conseguimos. Queríamos estrear em Brasília, estreamos. Queríamos estrear no festival de Rotterdam, conseguimos. Argentina, circuito de festivais nos Estados Unidos, cinemateca de Paris, enfim, foi arriscado, mas conseguimos”, finaliza.

Alcançando uma distribuição nacional que, apesar de não ter o número de salas que as bobagens produzidas pela Globo Filmes alcança, Depois da Chuva chega a diversas capitais do Brasil com uma bagagem grande, fruto justamente dessa grande temporada de festivais mundo afora. O tema distribuição, inclusive, foi um dos pontos abordados pelo cineasta ao falar dos percalços na luta para lançar o longa. “Adhemar Oliveira, meu sócio aqui no Espaço Itaú de Cinema, foi a primeira pessoa para quem eu mostrei o filme. Ele é o único cara que faz política de exibição para o filme nacional no Brasil. Ele é distribuidor e exibidor. A quantidade de filmes nacionais que ele faz questão de sustentar em cartaz é incrível. Bancando até quando não tem público”, explica Cláudio, que foi responsável pela abertura do então Espaço Unibanco de Cinema em 2008, um local histórico por abrigar o Cine Glauber Rocha (antigo Guarani) e que estava fadado a se tornar uma igreja evangélica.

Para o cineasta, a presença de Adhemar foi crucial nesse lançamento e na sustentação de diversos filmes nacionais em cartaz. “Lembro-me de ter mostrado o Depois da Chuva para ele e a frase que ele disse ao terminar o longa foi incrível: ‘Cláudio, seu filme me fez ter saudade de ser jovem’”, lembra o cineasta e exibidor. Mesmo contando com essa parceria, Cláudio Marques lamenta o fato de que, em outras capitais, a dificuldade de conseguir salas foi imensa. “No Rio de Janeiro, por exemplo, nós só conseguimos a sala do Adhemar”, explica.

Inovando por exibir um cinema que foge do clichê usual com o qual a Bahia é ambientada no audiovisual e, o mais importante, trazendo seu foco para uma época pouco abordada pelo cinema nacional, Depois da Chuva representa um frescor para a filmografia brasileira, uma força jovem que, da mesma forma que Tales e Caio, batalham por uma mudança de paradigmas e fogem da mesmice.

Em um Brasil que parece nunca alcançar a reforma tão almejada em seu cenário político, a ocasião de seu lançamento acaba sendo a melhor possível, quando o país se livra de um dos seus cânceres no Senado em Brasília. Ainda restam vários, mas um dos mais antigos já foi extirpado.






terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Mostra Orson Welles na Sala Walter

Em mais uma mostra promovida em parceria com o Sesc Bahia, a Sala Walter da Silveira realiza a partir dessa quinta-feira uma retrospectiva em homenagem a Orson Welles. Confira abaixo a programação divulgada através de release.

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Mostra dedicada ao grande cineasta norte-americano acontece de 15 a 21 de janeiro, com entrada gratuita

Paradigma do cinema moderno, Orson Welles foi quem desencadeou, em retrospectiva, o que hoje conhecemos como “a política dos autores”. No seio da indústria hollywoodiana, experimentou o controle total sobre o filme, tal como uma escrita pessoal, para em seguida ser exilado de tudo o que conquistou, de si mesmo e da aura que construiu em torno da sua figura cinematográfica. O público de Salvador poderá conferir, entre os dias 15 e 21 de janeiro, quase a totalidade da obra desse importante cineasta. Filmes como “Cidadão Kane”, “O Processo”, “A Dama de Shangai” e “Verdades e Mentiras” serão exibidos na Sala Walter da Silveira, com entrada gratuita.

A mostra “O Cinema de Orson Welles” é promovida pelo Sesc Bahia em parceria com a Dimas. Confira a programação completa.


De 15 a 21 de janeiro de 2015
Realização: Sesc/ Bahia

Entrada franca

Programação

Dia 15/1
18h


Dom Quixote (Don quijote, EUA, 1992 )
Direção: Orson Welles
Duração: 116 minutos
Elenco: Francisco Reiguera, Akim Tamiroff e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Após ler muitos romances sobre cavaleiros e suas histórias
heróicas, Dom Quixote decide viajar pelas estradas da Espanha junto
com seu escudeiro Sancho Pança para proteger os fracos e fazer
caridades. Mas o mundo real não é tão mágico quanto ele imagina.

Dia 16/1
16h


Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941)
Direção: Orson Welles
Duração: 119 minutos
Elenco: George Coulouris, William Allandf e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - A ascensão de um mito da imprensa americana, de garoto pobre no interior a magnata de um império dos meios de comunicação. Inspirado na vida do milionário William Randolph Hearst.

Dia 17/1
16h e 18h


Soberba (The Magnificent Ambersons, EUA, 1942)
Direção: Orson Welles
Duração: 88 minutos
Elenco: Joseph Cotten, Agnes Moorehead e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - A família Amberson vive em Indianápolis, no finalzinho do século XIX e reluta em acompanhar as evoluções do mundo. Isabel (Dolores Costello) não quer se casar com Eugene (Joseph Cotten), um rapaz por quem está apaixonada, por causa do preconceito social, e acaba se casando com outro, ao qual não ama. Após algum tempo, Eugene se torna um rico homem de negócios, e retorna à cidade com sua filha Lucy. Isabel está viúva, e o amor entre os dois reacende, apesar de George (Tim Holt) fazer de tudo para sabotá-lo.

Dia 18/1
16h


Mr. Arkadin (Mr. Arkadin, EUA, 1955)
Direção: Orson Welles
Duração: 93 minutos
Elenco: Michael Redgrave, Patricia Medina e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Reclamando de amnésia, o milionário Arkadin contrata o detetive Guy Von Straten para investigar seu passado. Quando a procura de Straten por todo mundo revela a sórdida origem da fortuna de
Arkadin, testemunhas começam a morrer.

18h

A Marca da Maldade (Touch of Evil, EUA, 1958)
Direção: Orson Welles
Duração: 95 minutos
Elenco: Janet Leigh, Charlton Heston e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Ao investigar um assassinato, Ramon Miguel Vargas (Charlton Heston), um chefe de polícia mexicano em lua-de-mel em uma pequena cidade da fronteira dos Estados Unidos com o México, entra em choque com Hank Quinlan (Orson Welles), um corrupto detetive americano que utiliza qualquer meio para manter o controle da situação. 


Dia 19/1
16h e 18h


A Dama de Shanghai (The Lady From Shanghai, EUA, 1948)
Direção: Orson Welles
Duração: 87minutos
Elenco: Rita Hayworth, Everett Sloane e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Michael O'Hara (Orson Welles) é um marinheiro que vê a bela Elsa Bannister (Rita Hayworth) passeando de charrete no parque. Ele a ajuda quando ela é assaltada por três homens, levando-a até seu carro. No dia seguinte Michael recebe a visita de Arthur Bannister (Everet Sloane), marido de Elsa e um advogado criminalista consagrado, que deseja que ele trabalhe em seu iate durante uma viagem que o casal fará. Inicialmente relutante Michael aceita o trabalho devido à atração que sente por Elsa. Na viagem também está George Grisby (Glenn Anders), sócio de Arthur, que oferece a Michael US$ 5 mil caso ele mate o milionário.

Dia 20/1
16h


O Estranho (The stranger, EUA, 1946)
Direção: Orson Welles
Duração: 95 minutos
Elenco: Edward G. Robinson , Loretta Young e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - O detetive Wilson (Edward G. Robinson), da Comissão de Crimes de Guerra, deve encontrar o nazista Franz Kindler, idealizador dos campos de extermínio. Acompanhando de Meinike (Konstantin Shayne), que conheceu pessoalmente o criminoso, Wilson segue as pistas que levam até uma cidade universitária em Connecticut, onde vive o perfeito e insuspeito casal Charles Rankin (Orson Welles) e Mary Longstreet (Loretta Young).

18h

O Processo (The Trial, Alemanha, 1962)
Direção: Orson Welles
Duração: 118 minutos
Elenco: Anthony Perkins, Jeanne Moreau e Romy Schneider
Classificação: Livre




Sinopse - Joseph K. (Anthony Perkins) é um homem reservado, que vive na pensão da senhora Grubach (Madeleine Robinson) e se dá bem com todos os demais moradores do local. Um dia ele é acordado por um inspetor de polícia (Arnoldo Foà), que lhe informa que está preso, mas não o leva sob custódia. Durante o processo, Joseph segue com suas atividades normais, tendo apenas que ficar à disposição das autoridades a qualquer hora do dia. Incomodado por não saber do que está sendo acusado, ele decide investigar em busca de uma resposta.

Dia 21/1
16h e 18h



Verdades e Mentiras (F For Fake , Alemanha/EUA ,1973)
Direção: Orson Welles
Duração: 85 minutos
Elenco: Oja Kodar e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Nesse último filme dirigido por Orson Welles, ele desmistifica um grupo de falsificadores. Elmyr de Hory, perito em cópias de quadros famosos, e seu confidente Clifford, responsável pela biografia de Howard Hughes que é lembrada como a maior falsificação da década de 70. Welles se coloca em meio aos dois e desvenda as verdades e mentiras existentes nos diversos tipos de arte .

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Boyhood

(EUA, 2013) Direção: Richard Linklater. Com Ellar Coltrane, Patrícia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater.


Por João Paulo Barreto

A infância e adolescência, quando olhadas em retrospecto, nos parecem as melhores fases de nossas vidas. Em momentos de introspecção, olhar para trás sempre causa aquele sentimento curioso de saudade, acompanhada por um sorriso de canto de boca, um fugaz brilho nos olhos e um amargo despertar para a realidade atual, que, invariavelmente, nos faz perceber que era no passado que nossa felicidade estava.

Claro, o parágrafo acima faz parte daquela ilusão que vem atrelada à nostalgia. Aquela ideia de que, no período em que não tínhamos preocupações, contas a pagar e responsabilidades pesadas a cumprir, nossas vidas eram mais felizes. Pode até funcionar para algumas pessoas, mas, quando a maturidade chega, nem sempre essa variação romântica da vida permanece. Mas, enfim, é possível que isso seja apenas uma reflexão amarga.

No entanto, Boyhood, perfeição costurada pelo diretor Richard Linklater no decorrer de doze anos, nos faz pensar com mais carinho e doçura sobre nossos dias de juventude, quando constatações inocentes de um menino sobre o surgimento de mariposas nos espirros vão, gradativamente, se tornando, na adolescência, perguntas existenciais sobre o sentido da vida. É aquele tipo de filme tão cativante que te permite adentrar de modo completo na vida de seus personagens e, ao final, fica difícil deixá-los para trás quando a luz se acende.

Rigidez e doçura: Patricia Arquette vive a mãe do pequeno Mason
Narrando a vida do garoto Mason (o pequeno autor das questões citadas antes) entre os seis e os 18 anos de idade, Linklater conseguiu apresentar uma obra concisa, enxuta, que, apesar de sua duração acima da média, consegue manter o espectador atento, levando-o por todas as fases da juventude do menino sem se tornar maçante ou enfadonho. Já é notório o fato de que o diretor usou os mesmos atores durante todos os 12 anos de gravação, reunindo-os uma vez por ano para gravação de novas cenas. Além da percepção de observarmos o protagonista crescer cena após cena de forma tão natural e orgânica, com elipses precisas, sem fades, flashbacks desnecessários ou montagem complexa, é o impacto da passagem do tempo na vida dos adultos nos leva a essa reflexão citada antes sobre o gosto amargo que ela pode deixar.

Não somente as mudanças físicas, como, por exemplo, as que a personagem de Patrícia Arquette teve no decorrer do período, mas as mudanças psicológicas que os traumas de casamentos fracassados, divórcios dolorosos, homens de personalidade difícil e, às vezes, até violentos trouxeram. No decorrer do tempo, suas posições firmes junto ao casal de filhos e a constante busca por melhorias em suas vidas, denotam em sua personagem essa força que a coloca como um pilar na vida deles, mas que, em sua última e mais tocante cena, não resiste às lágrimas ao perceber que o final de um ciclo na sua vida familiar chegara ao fim.

Mason sir e Jr. dividem uma juventude que parece se confundir
No papel do pai de Mason, o amigo e parceiro de longa data de Linklater, Ethan Hawke traz para seu personagem aquela descontração que pais jovens parecem possuir de forma natural, sem a necessidade de forçar um estereótipo moderninho para agradar os filhos pré-adolescentes. Ele é naturalmente assim. Afinal, tornou-se pai por acidente aos 22 anos e continuou com a mesma personalidade jovial que, apesar de transparecer uma postura irresponsável, garante a ele uma melhor aproximação do casal de filhos em conversas acerca de sexualidade e outros temas espinhosos na relação paterna.

Coube a ele uma das cenas mais belas do filme, quando presenteia o adolescente com uma compilação das melhores músicas dos quatro Beatles em suas carreiras solo e traz uma  precisa explicação da razão para a banda ter feito tanto sucesso. É o aniversário de 15 anos de Mason. Ele está indo passar o dia com o pai e sua nova mulher, que já tem um bebê e parece ter colocado a vida de seu velho no eixo. É um momento que representa bem a cultura do Texas, estado onde se passa o filme. Neste dia, Mason ganhou de presente uma espingarda e uma bíblia. Nada mais de acordo.

Essa fase da vida do adolescente e de seu pai representa bem as mudanças que as pessoas podem sofrer no decorrer de uma década. Mason sir, antes um garotão de trinta e poucos, agora sustenta um bigodão formal, se veste de modo um tanto carola e procura seguir as opções religiosas de sua esposa e sogros. No entanto, lá ainda está um pouco daquele sujeito aventureiro, ainda desprendido de muitas ambições, mas que sabe que, apesar de estar encerrando um ciclo de criação, tem outro pela frente com seu novo bebê.

Maturidade chega para pai e filho
Sobre Mason, o que mais chama atenção é sua personalidade calma, seu modo reflexivo de encarar o mundo que o cerca sem deixar que as coisas que possam machucá-lo ganhem muita importância. A atuação de Ellar Coltrane evolui de uma espontaneidade  infantil para um jeito sempre introspectivo de observar o mundo à sua volta. Crescendo juntamente com seu personagem, Coltrane acerta em manter uma atuação discreta, de voz calma: um adolescente que não chega a ser antissocial, mas que não deixa que nenhuma agressividade do ambiente ao seu redor lhe afete.

Mais do que um registro da vida de uma família ao longo de 12 anos, Boyhood é uma registro histórico da década passada. Com sua trilha sonora a passear por diversas músicas icônicas dos anos 2000, como Wilco e Coldplay, além de alguns clássicos, como Band  on the Run, de Paul McCartney, o roteiro de Linklater marca sua passagem do tempo com  inserções sutis, como quando vemos Mason sir fazer campanha contra a reeleição de George W. Bush em 2004; a favor da eleição de Barack Obama ou ainda quando cita postagens do Facebook para aconselhar sua filha adolescente em seus relacionamentos amorosos.

Mason e seu constante (e pertinente) questionamento da vida
Neste aspecto, vale citar que o longa se vale de um modo já comum na filmografia de seu cineasta. Galgado em diálogos, Boyhood remete bastante à trilogia do Antes, filmes estrelados pelo próprio Ethan Hawke e por Julie Delpy, sob a batuta de Linklater. Diversos momentos nos fazem pensar no jovem Jesse, um dos protagonistas da trilogia, em suas conversas com Celine. Vide o momento em que Mason conversa com sua namorada sobre a futilidade do Facebook; ou quando está caminhando em direção a faculdade onde a mãe leciona e encontra com uma colega de sala e o papo se equilibra entre livros preferidos e potenciais relacionamentos; ou, para fechar, no belíssimo diálogo final acerca da busca irrefreável do ser humano em aproveitar o momento.

Acompanhar 12 anos da vida de um garoto como Mason acaba por nos fazer pensar a respeito de nossa própria vida e no modo como podemos acabar não percebendo a forma como a passagem do tempo pode, para o bem ou para o mal, nos afetar. 



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Cineclube Glauber Rocha - Monty Python e O Sentido da Vida


*Fotos do evento: Lara Carvalho

E aí as luzes se apagam e uma série de situações nonsenses e surreais começam a bombardear as retinas e mentes dos espectadores da oitava edição do Cineclube Glauber Rocha. Ontem foi dia de descobrir o Sentido da Vida com um grupo de cinco malucos britânicos e um americano. O Monty Python deu o ar de sua graça em uma sessão cujas gargalhadas e “whatafucks??” ressoaram quase que indefinidamente durante aqueles breves 100 minutos de filme.

Como o nome já diz, nesse terceiro longa metragem, os malandros venderam a ideia de que iam nos entregar as respostas para as perguntas que movem o universo. Para onde vamos? De onde viemos? Qual o razão de tudo isso? Mas, claro, pura picaretagem e desculpa para nos presentear com as situações mais esdrúxulas carregadas de um cinismo fino e uma inclemente crítica a instituições como o governo e a igreja católica. Principalmente a igreja católica.

Família grande e os dogmas da igreja católica
Em um dos esquetes iniciais, o filme traz uma família católica com dezenas de filhos e a impossibilidade de criá-los. A culpa? De certa instituição milenar que não permite que os seus seguidores usem camisinha, pregando que todo esperma é sagrado e Deus sabe muito bem se você anda desperdiçando-o por aí. Enquanto as crianças, em um caminhar sofrido e desanimado, são destinadas para pesquisa científica, já que o pai não pode criá-las, vemos o vizinho protestante olhar pela janela e defender a ideia de que, em seu credo, ele pode ir em qualquer farmácia e comprar um preservativo. Mesmo que só tenha feito sexo com a esposa duas vezes. E tenha dois filhos com ela.

Na escola, antes da aula PRÁTICA de educação sexual (!!), uma oração na qual o padre se resume a salientar e admirar a grandeza de Deus (“Oh senhor, como você é grande! Como você é enorme! Super!”). Mais uma alfinetada na igreja. Na tal aula, John Cleese apresenta as regras de como excitar e fazer sexo com a mulher, enquanto desinteressados alunos são forçados a prestar atenção.

Educação sexual prática
O filme segue de esquete em esquete, apresentando, em algumas, conceitos que podem ser relacionados ao tema central da obra e alternando com outros sem qualquer relação ao tal sentido da vida. É o caso da escatológica sequência com o obeso Sr. Creosote, que vomita no salão de um restaurante, causando asco (e vômitos) em todos os clientes. Até o momento em que ele, literalmente, explode de tanto comer. A cena, inclusive, quase foi excluída por conta do teor escatológico, mas acabou sendo mantida, pois se percebeu que a graça estava no personagem do garçom vivido por Cleese e nas confissões filosóficas do seu colega, Gaston (Eric Idle).

Oriundos da TV e seu programa Flyng Circus, os Pythons voltam à sua estrutura televisa após dois longas com estrutura narrativa convencional (A Vida de Brian e Em Busca do Cálice Sagrado), mas, ainda assim, os diretores Terry Jones e Terry Gilliam (este dirigiu o curta-metragem prólogo que abre o filme) conseguem explorar bem essa migração para o cinema em enquadramentos criativos, como o que mostra as crianças deixando a casa enquanto, em primeiro plano, vemos o casal protestante conversar. Outro ponto que se destaca é a montagem do curta The Crimson Permanent Assurance, dirigindo por Gilliam, que abre o filme. Combinando bem o uso de maquetes e cenários de tamanho real, o filme consegue equilibrar essa mescla fazendo graça da percepção óbvia do espectador quanto a suas dimensões.

Plateia atenta. Hora de falar dos doidos do Python
Na sessão de ontem, ficou evidente para o público presente essa não obrigatoriedade do filme em se levar a sério. São os Pythons, ora essa. No entanto, por debaixo desse verniz surreal, uma relevante observação da realidade é colocada em evidência. Em uma Inglaterra recém maculada pela Guerra das Malvinas (o filme é de 1983), o tipo de crítica que é feito ao exército inglês em três dos esquetes vistos, faz o filme crescer ainda mais em sua importância, como bem pontuou um dos curadores do Cineclube, Cláudio Marques, no debate pós sessão.

No debate, pertinentes observações feitas pelo teólogo e amigo Vitor Sousa ajudaram a ilustrar bem as questões religiosas levantadas pelos seis comediantes. Mesmo mantendo a linha debochada, o texto apresenta um respaldo histórico embasado, citando Lutero, por exemplo. No céu dos Pythons, inclusive, cabem todos, como observou Vitor em sua fala.

Difícil não sorrir enquanto se fala acerca de uma trupe dessas
Ao final, a resposta ao sentido da vida não poderia ser mais de acordo com nossa realidade de guerras, racismo e homofobia. “Tente ser gentil com as pessoas e viva em paz e harmonia com as pessoas de diferentes credos e nações”. E não é que se déssemos ouvidos aos doidos 31 anos atrás as coisas hoje poderiam ser diferentes?

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Cineclube Glauber Rocha - Era uma vez no Oeste


Fotos do evento: Lara Carvalho

Falar em público é complicado. Falar em público sobre um gênero tão rico quanto o Western é ainda mais complicado. Agora, imagina falar em público sobre Sergio Leone e sua obra máxima, Era uma vez no Oeste. A noite de 26 de agosto, no Itaú Glauber Rocha, teve momentos de pura imersão cinematográfica, encantamento diante de tamanha perfeição de um filme e, digamos, momentâneo pânico pelo fato de precisar exprimir ideias acerca de um artista que tanto admiro quanto Sergio Leone em frente a uma platéia atenta. Mas, nada que não passasse em poucos minutos após o debate engrenar da forma como ele foi planejado.


Público presente para o debate pós filme
A proposta sensacional do Cineclube Glauber Rocha de reunir um público apaixonado por cinema, uma obra marcante em condições fantásticas de áudio e imagem, e alguém para conduzir o encadeamento de ideias sobre aquele trabalho, já se consolida nesta sexta sessão. Com o formato planejado pelas produtoras Tais Bichara e Lara Carvalho, e pelos curadores Cláudio Marques e Marília Hughes, e que remete ao Cineclube original da década de 1950 que o então Cine Guarani possuía sob a batuta do crítico Walter da Silveira, o nosso atual Cineclube é o que de melhor se encontra no leque de opções cinéfilas de Salvador.

Breve nervosismo diante de um tema tão grandiosos quanto Sergio Leone

Pouco antes do papo pós filme começar, lembrei que, coincidentemente, exatos quatro meses antes eu havia conversado pela última vez com João Carlos Sampaio. O papo aconteceu ali mesmo, no Espaço Itaú Glauber Rocha. Papeamos sobre diversos assuntos e, claro, sobre o cineclube, que começaria na semana seguinte com a exibição de Laranja Mecânica, do Kubrick, e debate mediado pelo próprio João. Eu, já um tanto ansioso pela ocasião de me postar em frente à plateia, perguntei a JC como ele, que já tinha tantos anos de prática, fazia. A resposta não poderia ter sido melhor ou mais de acordo com a personalidade adorável de Janjão: “Eu sei lá, nego. Apenas chego lá na frente e falo”, ele disse, com aquele sorriso de canto de boca que lhe era tão característico. Eu apenas sorri e entendi o recado. Bastava manter a calma (difícil) e expressar as impressões sobre a obra. Disse a João que o projeto era foda. Sensacional, mesmo. Ele concordou e falou algo ainda mais de acordo com seu senso de humor único: “pois é, nego. A ideia é muito boa, mesmo. Reunir um público antenado e chamar gente com carisma, cinesmática e bacana para explanar sobre os filmes exibidos é algo sensacional. Pena que não acharam ninguém e tiveram que chamar você, eu, Rafael Saraiva, Rafael Carvalho...”. Esse era o João que eu tanto admirava. E foi legal ter pensado nele no momento em que eu me postei lá na frente.

Harmônica e Cheyenne: vingança soturna e carisma irônico
A exibição de Era uma vez no Oeste foi como um retorno pra casa. Já é clichê dizer que é no cinema que obras como essa devem ser testemunhadas. Mas são poucas as que seguem tão à risca esse condicionamento. As marcas do modo Sergio Leone de se fazer cinema estão incrivelmente evidentes neste filme. E vê-las naquela tela gigante da Sala 1 do Espaço Itaú Glauber Rocha nos traz a percepção completa deste modo obrigatório de testemunho. As panorâmicas do Monuent Valley mostrando as intenções de Leone em prestar, com seu filme, um tributo a mestres anteriores como John Ford e Howard Hawks; os supercloses sinônimos de seu nome como cineasta; as marcas pesadas nos rostos de Charles Bronson, Henry Fonda e Jason Robbards denotando justamente a história de vida marcada pela violência daqueles personagens. Claro, há, também, a beleza estonteante de Claudia Cardinale, que parece nunca ter estado tão linda quanto neste filme. E, obviamente, os quatro temas musicais criados por Enio Morricone, um para cada protagonista, conseguem oscilar de forma sublime entre a emoção de Jill, a ex-prostituta vivida por Cardinale; a tensão que a vingança perpetrada por Harmônica (o matador vivido por Bronson); o terror da presença de Frank, o assassino encarnado por Fonda, e o toque de comédia que Cheyenne (Robards) traz em seu personagem. As músicas são orgânicas e criam uma identificação com cada um deles, destacando cada tema.

Estonteante: Claudia Cardinale nunca esteve tão linda
Não bastando somente os temas musicais, Morricone traz em seu trabalho um desenho de som inspirador, que valoriza este elemento de modo primordial, criando sequências como a de abertura, quando quase treze minutos de filme são preenchidos somente com sons diegéticos oriundos apenas dos elementos materiais em cena. Há outros momentos, como quando conhecemos Cheyenne quando este adentra na taverna após escapar de uma escolta policial ou quando as cigarras da fazenda McBain param de cantar prevendo a morte que se aproxima que nos faz perceber esse cuidado com o uso do som no filme como motivo de regozijo. Além disso, há os raccords sonoros encantadores, como quando há uma união entre o som do tiro que mata o pequeno Timmy com a chegada do trem de Jill; ou o trem de Morton com o serrote na construção da ferrovia. São pequenos detalhes que nos faz perceber o apuro e cuidado de um mestre na criação de sua obra. É notória uma frase de Leone que dizia que 40% de um filme é música. No entanto, nos outros 60%, ele também não decepcionava.

No caráter imagético, ele tinha uma habilidade incrível de equilibrar cenas panorâmicas de paisagens com os rostos marcantes dos personagens. Esses rostos, marcados pelo sol forte e pela passagem do tempo, acabam servindo de peças na construção visual do filme. O equilíbrio dos dois elementos encontrado aqui é visto em cada uma de suas composições cênicas. São detalhes que abordam a aridez daquele universo e o seu reflexo físico nos personagens.

Henry Fonda perde sua face de mocinho na pele do matador Frank
A orquestração da obra de Sergio Leone, com seus personagens em passos lentos, caminhando em direção à morte, quase que dançando com ela ao som da música de Enio Morricone, é outro ponto que chama a atenção. Sua mise en scene é perfeita. Há momentos como aquele quando a câmera sobe por sobre a estação de trem em uma panorâmica da cidade de Flagstone em que, com o crescente musical do momento e a apresentação daquele ambiente, fica difícil não perder o fôlego tamanha precisão dos movimentos. 

Creio que a sessão de 26 de agosto foi a que mais fez jus à proposta de exibir clássicos na tela do Cineclube Glauber Rocha. A grandiosidade da obra prima de Sergio Leone pedia por isso.

Mais uma vez, meu muito obrigado a Tais, Lara, Cláudio e Marília por esse presente e pelo convite para fazer parte disso.