segunda-feira, 28 de julho de 2014

Projeto Quartas Baianas volta à Sala Walter

O projeto Quartas Baianas está de volta. Criado pela Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV), com o apoio da Diretoria de Audiovisual, da FUNCEB, o espaço dedicado à produção audiovisual do Estado retoma as projeções em 35 mm, na Sala Walter da Silveira, para oferecer às novas gerações não apenas o acesso a longas e curtas-metragens baianos clássicos, como ao formato original de exibição dessas obras. É a um só tempo um trabalho de resgate e difusão, sintonizado com o caráter de preservação da memória, que é uma das marcas do projeto ao longo de quase uma década de atividades.

Outra novidade do “Quartas” será a incorporação de projeções audiodescritivas, também com o intuito ampliar a acessibilidade à cinematografia local. No primeiro momento, o projeto, por meio de parceria com a Mostra “Terceiro Olho”, vai programar filmes baianos já adaptados ao processo de audiodescrição, mas, com a criação desse espaço regular para tal modalidade de exibição, espera estimular a incorporação da audiodescrição à produção baiana.

Informações divulgadas através de release.

Dia 30 de julho - 19h - Curtas 
Exibições em 35mm

50 anos do Golpe Militar - Memórias estilhaçadas




Porta de Fogo (Brasil, 1982)
Direção: Edgard Navarro
Duração: 21 minutos
Elenco: Edgard Navarro, Ricardo Almeida, Celso Aguiar, Pola Ribeiro e José Araripe Jr.
Classificação: 16 anos
Sinopse - Porta de fogo é um filme de curta metragem sobre a morte trágica do capitão-guerrilheiro Carlos Lamarca e de seu companheiro, Zequinha, no sertão da Bahia, em setembro de 1971. À luz da literatura de cordel, o filme inventa um encontro entre Lamarca e Lampião na derradeira hora. São dois capitães, dois guerreiros de valor marcados de diferentes formas pelo ódio à opressão e pelo amor à liberdade, levados a uma senda inglória pela força de um carisma feito de sangue. Numa celebração entre guerreiros que voltam às suas hostes, o cangaceiro vem preparar o guerrilheiro em meio ao delírio que antecede o transe final. Quando o cerco se fecha sobre aquele homem - acossado, faminto, doente - o tempo detém seu curso. O sol se parte, a terra treme, o visível se nega e a última batalha então se trava, metáfora de transcendência: uma fenda se abre no céu, entre os dois mundos - porta de fogo


Lua Violada (Brasil, 2002) Direção: José Umberto
Duração: 21 minutos
Elenco: Geraldo Cohen, Igor Marcelame, Gilson Santos de Assis, Ewald Hackler e Roque Araújo
Classificação: 16 anos
Sinopse - Dois adolescentes gozam a noite numa pacata cidade do recôncavo baiano. A paz é interrompida com a presença de um capelão que chega para impor uma nova ordem política. O golpe militar de 64 acaba de ser deflagrado e tem início a ditadura. Os jovens, alheios ao que se passa no País, pressentem a mudança de regime instalado e experimentam o rito de passagem para a maturidade pelo sacrifício da fúria.

Nós, por exemplo (Brasil, 1979)
Direção: José Walter Lima
Duração: 10 minutos
Elenco: Edgard Navarro, Marcia Vergner e Michel Argouges.
Classificação: 16 anos
Sinopse - Nas ruas de uma grande cidade, Edgard protesta. Absorto em seu apartamento, lê e reflete sobre a alienação do homem: livre para consumir, mas amarrado pelo desejo da propriedade privada. Mesmo grávida, sua companheira Márcia o abandona, mas não sem avisá-lo do perigo que o espreita. Sem rumo, Edgard retoma sua indignação contra a sociedade da qual faz parte.

Dia 6 de agosto - 19h
Quartas Baianas na Bienal



O Imaginário de Juraci Dórea no Sertão (Brasil, 2013)
Direção: Tuna Espinheira
Documentário
Classificação: Livre
Sinopse - O filme é um documentário contando a vida do artista plástico feirense Juraci Dórea.

Dia 13 de agosto - 19h
Saudades de Olney São Paulo


O Forte (Brasil, 1974) Direção: Olney São Paulo
Duração: 90 minutos
Elenco: Adriano Lisboa, Suzana Vieira, Sanda Mara e Monsuetto Menezes
Classificação: 14 anos
Sinopse - O engenheiro Jairo retorna à sua cidade - Salvador - para demolir o forte de São Marcelo, com mais de 400 anos de idade. No local será erguido um parque infantil. Para Jairo, essa destruição representa a aniquilação de todo o seu passado, pois foi naquele forte que ele um dia amou Tibiti, a namorada de juventude, e ouviu as histórias do velho Olegário, avô de Tibiti, que lá esteve preso por ter assassinado seu genro Michel.

Dia 20 de agosto - 19h
Exibições em 35mm - 
Curtas


A deslumbrante Lumbra 


Lenda do Pai Inácio (Brasil, 1987)
Direção: Pola Ribeiro
Duração: 38 minutos
Elenco: Kal Santos, Meran Vargens, Rui Funch, Tote Rocha e Moisés Augusto
Classificação: 14 anos
Sinopse - Em meados do século XIX na região da Chapada Diamantina, um escravo foge para escapar da fúria de seu Senhor. Inácio, que tem uma paixão proibida com a Senhora, sobe o morro, que tem hoje o seu nome e pula de 200 metros, apenas com a sombrinha, lembrança de seu amor.

Oropa, Luanda e Bahia (Brasil, 1983)
Direção: Fernando Bélens
Duração: 10 minutos
Classificação: 14 anos
Sinopse - A vinda dos negros como escravos para a Bahia no século 16. Relembra a progressiva conscientização dos negros e mestiços sobre as condições de jugo, as tomadas de posição e as sucessivas revoltas contra a dominação, através dos séculos.

Dia 27 de agosto - 19h

Pau Brasil (Brasil, 2009) Direção: Fernando Bélens
Duração: 98 minutos
Elenco: Bertrand Duarte, Oswaldo Mil, Fernanda Paquelet, Arany Santana, Fernanda Belling e 
Milena Flick
Classificação: 14 anos
Sinopse - Num pequeno e perdido povoado no coração do Brasil, as famílias de Joaquim e Nives moram lado a lado. Apesar de conviverem com a mesma estrutura perversa de opressão social, lidam com a vida de modo radicalmente diferente. A intolerância com o outro e a pobreza são os ingredientes desse drama trágico.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

"Até a Monalisa envelhece": Clube da Luta e a Filosofia


"Hey, even the Monalisa´s falling apart"

Clube da Luta vs Epicurismo/ Estoicismo

Em determinada cena do filme Clube da Luta, o anônimo personagem interpretado por Edward Norton, vê imagens publicitárias de modelos masculinos vestindo apenas roupas de baixo e indaga Tyler Durden, personagem vivido por Brad Pitt, se é aquilo a representação do “ser um homem”. A réplica: “Auto-desenvolvimento é masturbação. Agora, a auto-destruição...” e a resposta é deixada no vazio, acompanhada por um riso irônico de Durden e por um olhar de percepção (quase um insight) por parte do anônimo Norton. O riso irônico de Tyler Durden é a representação do domínio do conhecimento; sua consciência de que a sabedoria é mais importante que seu corpo. Em outro momento do filme, Tyler brada que “apenas após perder tudo, é que você estará livre para fazer o que quiser. Nada é estático. Tudo está desmoronando. Esta é a sua vida. E ela está terminando um minuto por vez”. Com tal frase, ele confirma a certeza de que, sim, ele sabe do que está falando. Ele reconhece o caminho que a sociedade consumista e capitalista está seguindo. Seja no culto ao corpo perfeito ou na dedicação do preenchimento do vazio da vida com objetos comprados no shopping, ele sabe para qual buraco fétido a sociedade caminha. Mas, o mais importante, é que ele está fazendo o que pode (e ele pode muito!) para resolver tal situação. “Apenas após perder tudo e estar em equilíbrio consigo, é que você estará livre para fazer o que quiser” complementa enquanto exibe a mão queimada e cicatrizada por lixívia.
"It's only after we've lost everything that we are free to do anything"

O anônimo Norton é a representação do modo de agir e pensar da atual sociedade capitalista. Fechada num mundo particular de consumismo e falsa segurança, ela é habitada em cada um de seus componentes por Tylers escondidos e loucos para sair. Aproxima-se do conceito platônico de conhecimento intimo na maiêutica: o conhecimento habita cada um, basta percebê-lo. Zenão de Cítio traz em sua doutrina o equilíbrio humano separando o corpo da razão. É como se Tyler representasse a figura de Zenão no século XXI: alguém ciente da necessidade de perder as amarras que o prendem ao mundo no sentido de alcançar o foco de sua própria sapiência. A partir da violência consciente (diferente totalmente dos atos de vandalismo praticados por certos grupos urbanos), os homens do Clube perderam suas amarras. Alcançaram o ideal de perceber o quanto suas mentes merecem ser valorizadas. “Vejo aqui reunidos os mais bravos e inteligentes homens do mundo. Uma lástima o fato uma geração inteira estar servindo mesas, enchendo tanques, entregando pizzas”, lamenta-se Tyler em determinado monólogo. E complementa fazendo um paralelo à nossa sociedade: “A mídia nos faz correr atrás de empregos inúteis para comprar coisas que não queremos, que não precisamos. A televisão nos fez acreditar que um dia seremos astros do Rock ou milionários. Mas não seremos. E estamos, aos poucos, percebendo isso e ficando muito, muito zangados”.

O estoicismo pregado por Zenão de Citio trazia em sua essência o desprendimento de tudo o que é inútil (incluindo nisso a importância que seu próprio corpo possui) para alcançar o equilíbrio do espírito. Nesse desprezo ao material, mesclou-se (ou confundiu-se) o conceito pregado por Jesus Cristo, onde o martírio e o sacrifício podem levar ao equilíbrio do conhecimento. Negado pelos cristãos como uma influência para sua religião, o estoicismo é encarado pelos seguidores de Jesus como um desprezo do homem por si mesmo e pelo mundo. Nada mais do que um desespero do ser humano ao constatar, no mundo e na sua própria existência, a ausência de um Deus por ele rejeitado. Impossível não relacionar esse fato a uma outra declaração de Tyler Durden: “Deus foi incluído em nossas vidas como um modelo de nossos pais. Se eles (os pais) nos abandonaram, Deus fez a mesma coisa. Somos os filhos indesejados de Deus. Provavelmente, ele nos odeia”.
"Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so wecan buy shit we don't need"

Contrário ao estoicismo, surge Epícuro e sua declaração de que o homem foi feito para a felicidade. O epicurismo traz, em seu conceito, limites para os exageros da vida. Para Epícuro, a doença que acomete uma pessoa é um aviso do corpo. Um aviso de um exagero cometido. A parcimônia (para usar um termo adequado ao conceito estudado) é a chave para a felicidade pregada pelo epicurismo: o homem deve buscar o prazer na medida de sua felicidade. A análise do epicurismo, relacionada à sociedade atual do século XXI, possui uma libertação interna do homem capitalista preso ao modo de vida imposto pelo trabalho.

Cita-se o professor de Filosofia Davidson Sepini, da PUC de Poços de Caldas, em artigo publicado on line:

“Epícuro acreditou em uma felicidade que flui de dentro do homem e, portanto, edificada a partir de um processo de libertação interior que exclui da vida, o medo e a dor causados, muitas vezes, pelo ritmo da sociedade atual. Isso faz do epicurismo uma teoria atual. Vivemos presos, temos medo e sentimos dor. Estamos impossibilitados pelo tempo e pelo espaço. A vida atual nos remete a uma “morte” diária, como disse João Cabral: ‘de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia’. Velhice causada pelos preconceitos, pelo trabalho alienado; emboscada que é própria da sociedade capitalista, que oferece todas as possibilidades e ao mesmo tempo exclui; de fome de entendimento, de aclaramento em relação ao que acontece no mundo e de fome de mudança, de transformação.”

"Self improvement is masturbation. Now self destruction..."

Nesse paralelo da doutrina de Epícuro com a sociedade atual, encontra-se uma relação, ao invés de contrária entre este e Zenão, complementar. Vendo por esse modo, o epicurismo e o estoicismo se completam dentro de seus conceitos e limitações. O homem da sociedade atual, vaidoso em seu culto ao corpo e desmedido na busca pelo prazer (seja ele relacionado ao dinheiro ou ao sexo), transforma sua vida em um ciclo vicioso, onde a conquista de pequenos prazeres lhe traz uma satisfação pessoal que logo é suprimida pela necessidade de querer mais. Nesse raciocínio, o conceito de Epícuro cai por terra, pois tal felicidade é volátil e sem substância. O homem precisa alcançar o equilíbrio mental e ter consciência de que sua felicidade é plena. Somente assim, ele estará seguindo o conceito epicurista. “Você precisa saber, não temer, o fato de que um dia você morrerá. Até o momento em que você souber disso, você é um inútil”, profetiza Tyler em uma frase que remete ao conceito de Epícuro sobre a morte.

A partir desse domínio do equilíbrio mental, volta-se a analisar a relação de Zenão com Tyler Durden. Para este último, o equilíbrio mental não está vinculado a nenhuma posse ou poder aquisitivo. Para Durden, o que importa não é o conteúdo de sua carteira ou o carro que dirige. O que interessa realmente é sua massa encefálica; é a sua razão; é o seu discernimento. É neste ponto que se conclui a relação de Zenão na Antiguidade e Tyler como representante do homem da época atual: o primeiro,entregou-se a todos os prazeres esquecendo-se do corpo e visando seu equilíbrio mental; o segundo, após ter conquistado tudo o que o mundo atual pôde oferecer de posse material, percebeu que nada daquilo importava. Na busca pelo conhecimento pessoal, encontrou, de forma inconsciente, o estoicismo e, a partir dele, conseguiu se salvar.

Um claro exemplo a ser seguido pelos consumistas do século XXI.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Agnès Varda em 35mm na Sala Walter da Silveira



Através de uma parceria com a Embaixada da França no Rio de Janeiro, a Sala Walter da Silveira apresenta, dentro da Bienal de Arte da Bahia, o Ciclo Agnès Varda. Com entrada franca, a mostra acontece de 25 a 29 de julho e traz longas e curtas da cineasta, sendo que os longas serão exibidos em 35mm!  

Considerada a "mãe da Nouvelle Vague", a cineasta belga radicada na França, Agnès Varda, tem em sua filmografia importantes obras de cunho político e com relevantes discussões acerca do feminismo. Com trabalhos que passeiam entre o ficcional e o documentário, seu filmes primam pela apresentação de personagens fortes e inesquecíveis. Com uma auto-descrição de seu trabalho como cinécriture (algo como escrever em película), Varda traz em suas criações um equilíbrio entre audaciosas ficções e auto-documentários reveladores e sem vaidades. Uma cineasta que se entrega às suas obras sem nenhuma insegurança. 

Confira abaixo a programação! 


Ciclo Agnès Varda

Dia 25/07
19h

Cléo das 5 às 7 (Cléo de 5 à 7, 1962) PROJEÇÃO EM 35mm.
Direção: Agnès Varda
Duração: 90 minutos
Elenco: Corinne Marchand, Antoine Bourseiller e Dominique Davray.
Classificação: 12 anos
Sinopse - Cléo, uma bela cantora, espera o resultado de seus exames médicos. Da superstição ao medo, da frivolidade à angustia, de sua casa ao Parque Montsouris, Cléo vive 90 minutos únicos.

Dia 26/07
17h



Uma canta, a outra não (L'une Chante, L'autre Pas, França 1976) PROJEÇÃO EM 35mm.
Direção: Agnès Varda.
Elenco:  Ali Raffi, Francis Lemaire, François Wertheimer, Jean-Pierre Pellegrin e Robert Dadies.
Duração: 120 minutos.
Classificação: 14 anos 
Sinopse - Duas jovens vivem em Paris em 1962: Pauline, 17 anos, é estudante e sonha em largar sua família para virar cantora. Suzanne, 22 anos, ocupa-se de seus dois filhos. Elas se separam e, cada uma de sua parte, continuam sua batalha diária. Elas se reencontram dez anos depois, numa manifestação. Suzanne trabalha num escritório de planejamento familiar e Pauline tornou-se cantora. O destino irá uni-las novamente mais tarde, em 1976, quando elas já terão experimentado a frase de Simone de Beauvoir que conclui os créditos do filme: “Mulher não se nasce, torna-se.”


Dia 26/07
19h
Programa de Curtas 1


Oh, Estações! Oh, Castelos! (Ô saisons Ô chateaux!, França, 1957)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 22 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - Passeio pelos castelos do vale do Loire, apresentados em ordem cronológica (de construção), com comentários incluindo poemas do século XVI e reflexões de seus jardineiros. 


Prazer Amoroso no Irã (Plaisir D'Amour en Iran, França, 1976).
Direção: Agnès Varda.
Elenco: Ali Raffi, Thérèse Liotard e Valerie Mairesse.
Duração: 6 minutos
Classificação Livre
Sinopse - Como falar de amor levando o olhar em direção às mesquitas, ou falar de arquitetura no buraco do travesseiro? Este curta-metragem é uma variação sobre as reviravoltas amorosas de Pomme e Ali Darius. Mas pode ser também o delírio de qualquer casal apaixonado, em lugares tão perfeitos quanto a Mesquita do Rei, em Ispahan, ponto de convergência entre arte sacra e arte profana. Curta-metragem produzido como complemento ao longa “Uma canta, a outra não”.


Do Lado da Riviera (Du Côté de la Côte,França, 1958)
Direção: Agnès Varda. 
Duração:  24 minutos.
Censura Livre
Sinopse - Visita turística e documentária ao longo da Riviera Francesa, enfatizando o exotismo, as cores do turismo, do carnaval e do paraíso: com uma ilha e guarda-sóis que se fecham no final, ao som de uma bela canção de Delerue


Tio Yanco (Oncle Yanco , França, 1967)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 22 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - “É um retrato-reportagem do pintor Jean Varda, meu tio. Na periferia aquática de São Francisco, centro intelectual e coração da boêmia, ele navega com velas latinas e pinta cidades celestes e bizantinas, pois é grego. No entanto, ele é muito ligado ao movimento jovem americano, e recebe hippies na sua casa-barco. Sobre como eu descobri o ‘meu tio da América’ e o quão maravilhoso ele é, é o que mostra este curta-metragem em cores.” (Agnès Varda).


Os Panteras Negras (Black Panthers, França, 1968)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 28 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - No verão de 68, os Panteras Negras, de Oakland (Califórnia), organizaram vários debates de conscientização em torno do processo de um de seus líderes, Huey Newton. Eles queriam – e conseguiram – chamar a atenção dos americanos e mobilizar as consciências negras, durante esse processo político. Neste sentido, deve-se realmente datar este documento: 1968.


Resposta de Mulheres (Réponse de Femmes, França, 1975)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 8 minutos.
Classificação Livre
Sinopse-  “A pergunta ‘O que é ser uma mulher?’ foi proposta pelo segundo canal de televisão francês a várias mulheres cineastas. Este cine-panfleto é uma das respostas possíveis, no que diz respeito ao corpo das mulheres – nosso corpo –, do qual se fala tão pouco quando se fala da condição feminina. Nosso corpo-objeto, nosso corpo-tabu, nosso corpo com ou sem seus filhos, nosso sexo, etc. Como viver nosso corpo? Nosso sexo, como vivê-lo?” (Agnès Varda).

Dia 27/07
17h


Os catadores e eu (Les Glaneurs et la Glaneuse, França, 2000)  PROJEÇÃO EM 35mm.
Direção: Agnès Varda. 
Elenco: Agnès Varda, Bodan Litnanski e François Wertheimer
Duração: 82 minutos. 
Classificação: 14 anos
Sinopse - Por toda a França, Agnès Varda encontra catadores e catadoras, respigadores e recuperadores. Por necessidade, acaso ou escolha, eles entram em contato com os restos dos outros. A partir de um célebre quadro de Millet, o filme de Varda é um olhar sobre a persistência na sociedade contemporânea dos respigadores, aqueles que vivem da recuperação de coisas (detritos, sobras) que os outros não querem ou deixam para trás. A catadora, nesse sentido, é a própria Agnès Varda, que experimentando pela primeira vez uma pequena câmara digital, se quer assumir como uma “recuperadora” das imagens que os outros não querem ver nem fazer, e que portanto deixam para trás (“le filmage est aussi glanage”). Um filme lúcido e livre, mediado pelas “mãos que envelhecem” da própria cineasta.


Dia 28/07
19h

                                                 Programa de Curtas 2




Ydessa, Ursos e Etc... (Ydessa, lês ours et etc..., França, 2004)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 43 minutos
Classificação Livre
Sinopse -  A exposição “Os Vivos, os Ursos e Etc.”, da artista plástica Ydessa Hendeles, impressionou de tal maneira a cineasta belga Agnès Varda, que ela viajou a Toronto especialmente para entrevistar Ydessa, filha de sobreviventes do Holocausto e dona de uma curiosa coleção de fotos


Ulisses (Ulysse, França, 1982)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 21 minutos
Classificação Livre
Sinopse - De frente para o mar, uma cabra, uma criança e um homem. Trata-se de uma fotografia feita por Agnès Varda, em 1954: a cabra estava morta, a criança se chamava Ulisses e o homem estava nu. A partir desta imagem fixa, o filme explora o que poderia existir entre o imaginário e o real. Flertando com a memória, pode-se deparar com ossos.


Saudações, cubanos! (Salut les cubains, França, 1962)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 28 minutos
Classificação Livre
Sinopse - Agnès Varda traz de Cuba mil e oitocentas fotos em preto e branco, e faz com elas um documentário didático e divertido. Fidel e os músicos, socialismo e chá-chá-chá. 
Pomba de Prata no Festival de Leipzig
Medalha de Bronze na 15a Mostra Internacional do Filme Documentário de Veneza 1964


Um minuto para uma imagem (Une minute pour une image, França, 1983)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 19 minutos
Classificação Livre
Sinopse-  Minissérie de 170 mini-filmes. Um comentário de um minuto em cada fotografia, com voz anônima. Só ao final descobrimos os nomes dos fotógrafos, anônimos ou famosos, e os nomes dos comentaristas. Neste DVD, em que Agnès comenta sobre seus curtas, foram eleitos 14 entre os 170 programas. "Um minuto para uma imagem", como ela mesma comenta.

Dia 29/07
19h

Programa de curtas 3


As Tais Cariátides (Les Dites Cariatides (França, 1984).
Direção: Agnès Varda.
Duração: 13 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - De frente para o mar, uma cabra, uma criança e um homem. Trata-se de uma fotografia feita por Agnès Varda, em 1954: a cabra estava morta, a criança se chamava Ulisses e o homem estava nu. A partir desta imagem fixa, o filme explora o que poderia existir entre o imaginário e o real. Flertando com a memória, pode-se deparar com ossos.



A Ópera-Mouffe (L'Opéra- Mouffe (França, 1958).
Direção: Agnès Varda
Duração: 16 minutos
Classificação Livre
Sinopse: A Ópera-Mouffe é o bloco de notas de uma mulher grávida, no contexto de um documentário sobre o bairro da rua Mouffetard, em Paris, apelidada “la Mouffe”. É um documentário subjetivo, com fotografia de Sacha Vierny e música de Georges Delerue.


Elsa, a rosa (Elsa la Rose (França, 1965).
Direção: Agnès Varda
Duração: 20 minutos
Classificação Livre
Sinopse: Imagens e poemas em torno de um célebre casal: Louis Aragon e Elsa Triolet. A juventude de Elsa é contada por Aragon e comentada por Elsa.


O Leão Volátil (Le Lion Volatil,França, 2003)
Direção: Agnès Varda.
Elenco: David Deciron, Grasser-Hermé, Julie Depardieu e Valérie Donzelli.
Duração: 12 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - Curta aventura em torno de uma estátua de leão entre Clarisse, aprendiz de vidente, e Lazare, funcionário das Catacumbas de Paris.
Prêmio do Público de Melhor Curta-metragem no Festival de Films de Femmes de Créteil 2004
Seleção oficial dos Festivais de Veneza, Chicago, Viena 2003 e de Berlim 2004


Você tem belas escadarias, sabia? (T’as de beaux escaliers, tu sais, França, 1986)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 3 minutos
Classificação Livre
Sinopse: Como, em 150 segundos, prestar homenagem à Cinemateca Francesa, na ocasião de seu cinqüentenário, de outra forma que não seja filmando os quase 50 degraus que, subindo, levam ao Museu do Cinema e, descendo, à sala escura onde são projetadas obras-primas com célebres escadarias?


Os Amantes da Ponte Mac Donald (Les Fiancés du Pont Mac Donald, França, 1961)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 5 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - Um jovem vê tudo negro quando põe os óculos escuros. Basta o arrancar para que as coisas se ajeitem...


7 Peças, Cozinha, Banheiro... Imperdível ( 7 P., Cuis., S. de B., ... À Saisir , França, 1984)
Direção: Agnès Varda.
Elenco:Catherine de Barbeyrac, Colette Bonnet, Folco Chevalier, Hervé Mangani, Marthe Jarnias, Michèle Nespoulet e Pierre Esposito.
Duração: 27 minutos.
Classificação Livre

Sinopse -  A visita de um corretor de imóveis a um antigo hospício, agora uma casa abandonada, remete a várias narrativas fragmentadas e ao imaginário surreal de seus antigos ocupantes. Residências, casas vazias ou cheias, o tempo passa e deixa traços bizarros.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Planeta dos Macacos: O Confronto

(Dawn of The Planet of the Apes) Direção: Matt Reeves. Com Andy Serkins, Jason Clarke, Gary Oldman, Keri Russel, Toby Kebbel, Kodi Smit-McPhee.



Por João Paulo Barreto

Ele é um pai que se preocupa em prover segurança, comida, saúde e um teto para sua família, composta por esposa, um impulsivo filho adolescente e um bebê recém-nascido. Além disso, tem sob sua responsabilidade a liderança de um grupo de iguais, o qual leva adiante sob um senso de ética e moral responsável e contagiante. Conquista o respeito dos seus pares através de atitudes sensatas e de um restrito código pacifico de convivência.

O protagonista de Planeta dos Macacos: O Confronto tem todas essas características, mas não é interpretado por um galã hollywoodiano, mas, sim, por um macaco. Ou melhor, por Andy Serkins, o homem de diversas faces, corpos e vozes que, aqui, empresta seu talento para a criação de Cesar, papel que reprisa no filme dirigido por Matt Reeves (Cloverfield). Cesar, apesar de símio, traz em sua personalidade e desenvolvimento todas as características que levariam qualquer um a se convencer que se trata de um líder nato da raça humana. E esse é o principal trunfo deste filme de transição da nova saga dos macacos no cinema: o modo como um primata consegue trazer mais humanidade, respeito mútuo e bondade do que qualquer outro homo sapiens visto na trama.

Malcolm: liderança posta à prova

Não que o lado humano da balança não seja equilibrado por outros personagens que possuem caráter semelhante. O espelho de Cesar na nossa espécie é Malcolm, um engenheiro viúvo, pai também de um adolescente, que precisa adentrar no domínio símio da floresta dos arredores de São Francisco para tentar religar os circuitos de uma usina hidrelétrica que poderá voltar a alimentar a cidade. Nessa jornada, encara a inicial animosidade dos macacos mutantes e acaba por encontrar um amigo entre os supostos animais. Malcolm, do mesmo modo que Cesar, tem sob sua responsabilidade a liderança e a vida de muitos.

Em seu roteiro escrito a seis mãos, o filme de Reeves é mais do que apenas uma aventura maniqueísta, na qual os humanos são pintados como vilões sanguinários (com algumas exceções) e os macacos (também com algumas exceções) vítimas bondosas de sua fúria. Nos dois lados, há personagens cujos conflitos de caráter colaboram para uma profundidade em suas motivações, sendo que é no lado dos macacos que esse desenvolvimento é realizado de forma muito mais eficiente.

Koba: ambição e instinto assassino
Na figura de Koba, braço direito de Cesar em sua liderança do grupo, se encontra a ambição e a sede pelo poder capazes de tornar a traição como algo concreto, mesmo nas relações amigáveis daqueles seres. Em Koba, o roteiro consegue criar certa profundidade em seus antagonistas, algo que não é visto, por exemplo, na figura humana de Dreyfus (Oldman), cujas ações irracionais, apesar de motivadas por um sentimento de perda levemente inserido na trama, não convencem como atitudes realmente críveis. Nesse sentido, o filme peca por não ter o mesmo apuro no desenvolvimento de seu núcleo humano como teve no símio.

Apresentando um título nacional que engana o espectador (creio que A Aurora do Planeta dos Macacos seria algo bem mais interessante), o filme traz até cenas bem construídas do tal confronto entre humanos e primatas, mas, claro, a real guerra será deixada para um próximo capítulo. No entanto, na batalha vista aqui, Reeves investe seu estilo apresentado em Cloverfield com uma interessante sequência na qual o ponto de vista de um macaco sobre um tanque de guerra a girar seu canhão em 360° é trazido ao espectador. A direção de arte capricha ao exibir a floresta com os troncos das árvores adaptados pelos animais para facilitar sua locomoção. Além disso, o refúgio humano em uma São Francisco abandonada exibe de forma satisfatória o modo como a cidade já não é mais habitada por multidões.

Andy Serkins no papel de Cesar: captação de movimento e talento
No entanto, é o talento de Andy Serkins na composição de Cesar que deve ser apreciado como ponto principal aqui. Com uma pintura de guerra que salienta as suas costelas e, no focinho, uma única linha vermelha demonstrando a concentração e comprometimento para com sua causa, o líder dos macacos é trazido a nós como um ser cativante. E a opção de Matt Reeves em iniciar e encerrar o longa com um super close-up nos olhos do personagem o torna ainda mais gigante.

Toda a tristeza que toma o lugar da determinação daquele olhar é a mais tocante representação do inferno que está para chegar na vida daquele animal. Se é que se pode chamá-lo assim.   

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste

(The Grand Hotel Budapest, EUA, 2014) Direção: Wes Anderson. Com Ralph Fiennes, Tony Revolori, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Adrien Brody, Jude Law, F. Murray Abraham.


Por João Paulo Barreto

Apresentando um leque de personagens excêntricos, cujo caráter e natureza são colocados ao julgamento do espectador durante todo o tempo, mas que, ao final, é inegável um reconhecimento de suas qualidades, Wes Anderson se superou em O Grande Hotel Budapeste.

Apesar do título do filme nos levar a crer que se tratará de uma história passada totalmente no ambiente do hotel, com seus excêntricos habitantes como objetos de estudo em um habitat restrito, como uma crônica ilustrada das histórias que aqueles quartos podem conter, a abrangência de Hotel Budapeste é, no entanto, bem maior. Tanto geográfica quanto emocionalmente.

M. Gustave H. (Ralph Fiennes) é o concierge do lendário hotel no período que antecede a guerra na Europa. Mais do que isso, ele é o gerente e principal responsável por manter o lugar funcionando. Atento a todos os detalhes, passa a treinar um novo ajudante e carregador de malas, garoto sugestivamente chamado de Zero. O homem, notório amante de senhoras ricas que se hospedam no hotel, precisará viajar para o funeral de uma delas, Madame D., de quem se torna herdeiro de uma caríssima obra de arte. Acusado de assassinato, Gustave acaba sendo preso e é através de sua tentativa de fuga e prova de inocência que o roteiro do filme se estenderá de forma brilhante.

Gustave e Madame D., uma de suas ricas e idosas amantes
Os personagens citados no começo são os mais precisos retratos da capacidade que o cineasta tem de tornar palpáveis figuras ao mesmo tempo surreais e cativantes. É o caso de Ludwig, presidiário vivido por Harvey Keitel, e seu grupo de companheiros de cela, que incluem Gustave em seus planos de fuga após se encantar com sua gentileza e simpatia no ato de servir mingau de cela em cela. O mesmo se vê no brutamontes assassino que, de início podendo ser encarado como alguém de poucos amigos, se releva fator principal no sucesso do plano de fuga dos rapazes. Mesmo que cometa um assassinato logo após, na ironia cruel de toda essa análise.

Claro que uma das razões para Gustave permanecer naquele grupo é seu poder de levar para prisão peças metálicas escondidas em doces finos, que, levados por Zero, passam pela revista da guarda sem a possibilidade de serem destruídos por conta de seu aspecto delicado. Em um enquadramento que já é símbolo do cinema de Anderson, vemos outros alimentos como pães, bolos e salsichões serem retalhados para não revelarem nada de perigoso em seus interiores. Ao chegar a vez da iguaria fina trazido por Zero, a mesma passa pela revista sem nenhuma problema. É uma metáfora precisa que simboliza justamente os habitantes do universo que Anderson criou. Seres de exterior suspeito, mas de atitudes que revelam caráter e camaradagem.

Ludwig: o homem com o plano 
Não somente um filme a tratar da excentricidade dos seus personagens, mas, também, da natureza do homem e do conceito de se tornar um ser humano melhor através dos próprios atos. Algo definido de modo perfeito por Zero ao se referir a seu mestre e amigo Gustave e dizer “ainda há fracos vislumbres de bondade e civilidade deixados nesse matadouro bárbaro antes conhecido como humanidade. Ele era um desses vislumbres”. É justamente essa reflexão que Anderson buscava com seu longa. Mais preciso, impossível.

Com seu universo de cores fortes e minimalismos, reforçado pelos habituais planos detalhes a exibir objetos que compõem as cenas, Anderson traz seu notório controle da mise em scène, juntamente à simetria da construção de seus quadros, criando, assim, seu melhor trabalho. 

domingo, 29 de junho de 2014

Jersey Boys

(EUA, 2014) Direção: Clint Eastwood. Com John Lloyd Young, Vincent Piazza, Erich Bergen, Michael Lomenda, Christopher Walken.



Por João Paulo Barreto

Clint Eastwood dirigiu em 1988 o ótimo Bird, cinebiografia da lenda do jazz, Charlie Parker. Filme cuja entrega do protagonista Forest Whitaker e a coragem de um roteiro que não temia flertar com as polêmicas da vida desregrada de Parker, Bird, quando revisto na sequência de Jersey Boys, mais uma cinebiografia musical levada por Eastwood às telas, nos ajuda a perceber de forma clara os erros cometido pelo veterano diretor neste seu novo trabalho.

Não que a obra sobre a maravilhosa banda Four Seasons seja um desastre. Longe disso. Mas, o que sobrava em Bird no que se refere a ousadia, falta (e muito) em Jersey Boys. Talvez por possuir os próprios músicos na produção executiva e a base do roteiro ser o popular musical da Broadway que conta a trajetória do grupo, a chapa branca do trabalho acabou por se tornar mais do que previsível.

Mas, friso, o filme, apesar de suas falhas e superficialidade no abordar da trajetória dos músicos, fica longe de ser descartável. Clint visita a Nova Jersey do começo dos anos 1950, reduto de ítalo-americanos e local onde Francesco Castellucio começaria sua banda se tornando o vocalista de voz melosa Frankie Valli. Em uma reconstrução de época exemplar, (algo que não surpreende em filmes do diretor, como no recente A Troca), a Nova Jersey e a Grande Maçã recriadas por Eastwood e seu habitual diretor de arte Patrick Sullivan impressionam.

Tommy DeVito e seu papo com o espectador
O filme acerta ao inserir os personagens que viriam a compor o Four Seasons em conversas diretas com o espectador, criando uma atmosfera de mockumentary. Já em sua primeira aparição, o guitarrista Tommy DeVito (Vincent Piazza) nos explica sua relação com o lugar onde vive. Fala dos golpes com o amigo Frankie, enquanto este canta e varre o chão da barbearia local tentando aprender o oficio barbeando o mafioso do bairro, Gyp DeCarlo (Christopher Walken sempre divertido). É um mergulho naquele tipo de cultura que Scorsese soube abordar tão bem, mas que Eastwood não teve a mesma ousadia de exibir de forma mais profunda, apenas pincelando todo aquele universo.

Após entradas e saídas de reformatórios, os integrantes da banda vão se consolidando em shows de bar e outros inferninhos. Mudam de nome algumas vezes, até chegar à marca Four Seasons. O momento em que o compositor e pianista Bob Gaudio (Erich Bergen) entra para banda é o mais marcante na trajetória dos rapazes, que passaram a contar com a união perfeita da voz incrível de Valli e a competência como compositor de Gaudio. A partir daí, o sucesso de canções como Big Girls Don´t Cry, Sherry e, finalmente, Can´t Take my Eyes off You, música mais marcante de toda a trajetória do grupo, mas que foi lançada já na fase em que os integrantes se separaram, sendo este um crédito solo de Valli com composição de Gaudio e Bob Crewe.

Frank Valli se arriscando no ramo da barbearia com o mafioso Gyp DeCarlo
Com um foco mais voltado para vida de Valli, o roteiro tenta trazer detalhes da trajetória pessoal do vocalista, mas acaba esbarrando em uma superficialidade que incomoda. Como, por exemplo, a relação do músico com sua esposa alcoólatra e instável, que é exibida apenas como alguém entregue aos vícios, em um perfil unidimensional que causa estranheza ao espectador.

Apesar de pecar nesse desenvolvimento superficial dos seus personagens, Jersey Boys acaba sendo um longa que traz algo da marca simplista de Eastwood filmar. Sem excessos ou a necessidade de apelar para o melodrama, por exemplo, o diretor traz um doloroso momento  da trajetória do grupo em uma rápida sequência, na qual o protagonista perde alguém por demais importante em sua vida. O que de início poderia ser tachado de superficial, afinal, é uma morte traumática que poderia desestabilizar a vida de qualquer um, é colocado por Clint na história sem a necessidade de tirar o filme do seu eixo, mostrando o protagonista em seu luto, mas mantendo a trajetória dos músicos em primeiro plano.

Valli: voz fantástica e trajetória de vida traumática
No entanto, há pontos desse mesmo eixo que são tratados de forma rasa, algo que, de fato, incomoda. A relação do guitarrista Tommy DeVito (cujo nome é o mesmo do personagem de Joe Pesci em Goodfellas) com os agiotas que extorquem a banda é exibida como algo fácil, sem refletir o violento universo que aquela situação possui.  Mais uma vez é perceptível a coragem que um Scorsese teria de adentrar nesse mundo.

Ao final, quando os personagens precisam explicar para a câmera suas motivações (confirmando, assim, a fragilidade do roteiro) e, logo em seguida, são vistos dançando na rua ao som de mais um sucesso do Four Season, consolida-se a impressão que tivemos desde o início. Eastwood se rendeu a uma produção, de fato, chapa branca, com a anuência de seus personagens reais e buscando trazer para a tela a leveza dos musicais da Broadway.


Observação: Note a citação ao próprio Joe Pesci, que teve participação na trajetória da banda sendo também oriundo de Nova Jersey.