segunda-feira, 21 de julho de 2014

Agnès Varda em 35mm na Sala Walter da Silveira



Através de uma parceria com a Embaixada da França no Rio de Janeiro, a Sala Walter da Silveira apresenta, dentro da Bienal de Arte da Bahia, o Ciclo Agnès Varda. Com entrada franca, a mostra acontece de 25 a 29 de julho e traz longas e curtas da cineasta, sendo que os longas serão exibidos em 35mm!  

Considerada a "mãe da Nouvelle Vague", a cineasta belga radicada na França, Agnès Varda, tem em sua filmografia importantes obras de cunho político e com relevantes discussões acerca do feminismo. Com trabalhos que passeiam entre o ficcional e o documentário, seu filmes primam pela apresentação de personagens fortes e inesquecíveis. Com uma auto-descrição de seu trabalho como cinécriture (algo como escrever em película), Varda traz em suas criações um equilíbrio entre audaciosas ficções e auto-documentários reveladores e sem vaidades. Uma cineasta que se entrega às suas obras sem nenhuma insegurança. 

Confira abaixo a programação! 


Ciclo Agnès Varda

Dia 25/07
19h

Cléo das 5 às 7 (Cléo de 5 à 7, 1962) PROJEÇÃO EM 35mm.
Direção: Agnès Varda
Duração: 90 minutos
Elenco: Corinne Marchand, Antoine Bourseiller e Dominique Davray.
Classificação: 12 anos
Sinopse - Cléo, uma bela cantora, espera o resultado de seus exames médicos. Da superstição ao medo, da frivolidade à angustia, de sua casa ao Parque Montsouris, Cléo vive 90 minutos únicos.

Dia 26/07
17h



Uma canta, a outra não (L'une Chante, L'autre Pas, França 1976) PROJEÇÃO EM 35mm.
Direção: Agnès Varda.
Elenco:  Ali Raffi, Francis Lemaire, François Wertheimer, Jean-Pierre Pellegrin e Robert Dadies.
Duração: 120 minutos.
Classificação: 14 anos 
Sinopse - Duas jovens vivem em Paris em 1962: Pauline, 17 anos, é estudante e sonha em largar sua família para virar cantora. Suzanne, 22 anos, ocupa-se de seus dois filhos. Elas se separam e, cada uma de sua parte, continuam sua batalha diária. Elas se reencontram dez anos depois, numa manifestação. Suzanne trabalha num escritório de planejamento familiar e Pauline tornou-se cantora. O destino irá uni-las novamente mais tarde, em 1976, quando elas já terão experimentado a frase de Simone de Beauvoir que conclui os créditos do filme: “Mulher não se nasce, torna-se.”


Dia 26/07
19h
Programa de Curtas 1


Oh, Estações! Oh, Castelos! (Ô saisons Ô chateaux!, França, 1957)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 22 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - Passeio pelos castelos do vale do Loire, apresentados em ordem cronológica (de construção), com comentários incluindo poemas do século XVI e reflexões de seus jardineiros. 


Prazer Amoroso no Irã (Plaisir D'Amour en Iran, França, 1976).
Direção: Agnès Varda.
Elenco: Ali Raffi, Thérèse Liotard e Valerie Mairesse.
Duração: 6 minutos
Classificação Livre
Sinopse - Como falar de amor levando o olhar em direção às mesquitas, ou falar de arquitetura no buraco do travesseiro? Este curta-metragem é uma variação sobre as reviravoltas amorosas de Pomme e Ali Darius. Mas pode ser também o delírio de qualquer casal apaixonado, em lugares tão perfeitos quanto a Mesquita do Rei, em Ispahan, ponto de convergência entre arte sacra e arte profana. Curta-metragem produzido como complemento ao longa “Uma canta, a outra não”.


Do Lado da Riviera (Du Côté de la Côte,França, 1958)
Direção: Agnès Varda. 
Duração:  24 minutos.
Censura Livre
Sinopse - Visita turística e documentária ao longo da Riviera Francesa, enfatizando o exotismo, as cores do turismo, do carnaval e do paraíso: com uma ilha e guarda-sóis que se fecham no final, ao som de uma bela canção de Delerue


Tio Yanco (Oncle Yanco , França, 1967)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 22 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - “É um retrato-reportagem do pintor Jean Varda, meu tio. Na periferia aquática de São Francisco, centro intelectual e coração da boêmia, ele navega com velas latinas e pinta cidades celestes e bizantinas, pois é grego. No entanto, ele é muito ligado ao movimento jovem americano, e recebe hippies na sua casa-barco. Sobre como eu descobri o ‘meu tio da América’ e o quão maravilhoso ele é, é o que mostra este curta-metragem em cores.” (Agnès Varda).


Os Panteras Negras (Black Panthers, França, 1968)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 28 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - No verão de 68, os Panteras Negras, de Oakland (Califórnia), organizaram vários debates de conscientização em torno do processo de um de seus líderes, Huey Newton. Eles queriam – e conseguiram – chamar a atenção dos americanos e mobilizar as consciências negras, durante esse processo político. Neste sentido, deve-se realmente datar este documento: 1968.


Resposta de Mulheres (Réponse de Femmes, França, 1975)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 8 minutos.
Classificação Livre
Sinopse-  “A pergunta ‘O que é ser uma mulher?’ foi proposta pelo segundo canal de televisão francês a várias mulheres cineastas. Este cine-panfleto é uma das respostas possíveis, no que diz respeito ao corpo das mulheres – nosso corpo –, do qual se fala tão pouco quando se fala da condição feminina. Nosso corpo-objeto, nosso corpo-tabu, nosso corpo com ou sem seus filhos, nosso sexo, etc. Como viver nosso corpo? Nosso sexo, como vivê-lo?” (Agnès Varda).

Dia 27/07
17h


Os catadores e eu (Les Glaneurs et la Glaneuse, França, 2000)  PROJEÇÃO EM 35mm.
Direção: Agnès Varda. 
Elenco: Agnès Varda, Bodan Litnanski e François Wertheimer
Duração: 82 minutos. 
Classificação: 14 anos
Sinopse - Por toda a França, Agnès Varda encontra catadores e catadoras, respigadores e recuperadores. Por necessidade, acaso ou escolha, eles entram em contato com os restos dos outros. A partir de um célebre quadro de Millet, o filme de Varda é um olhar sobre a persistência na sociedade contemporânea dos respigadores, aqueles que vivem da recuperação de coisas (detritos, sobras) que os outros não querem ou deixam para trás. A catadora, nesse sentido, é a própria Agnès Varda, que experimentando pela primeira vez uma pequena câmara digital, se quer assumir como uma “recuperadora” das imagens que os outros não querem ver nem fazer, e que portanto deixam para trás (“le filmage est aussi glanage”). Um filme lúcido e livre, mediado pelas “mãos que envelhecem” da própria cineasta.


Dia 28/07
19h

                                                 Programa de Curtas 2




Ydessa, Ursos e Etc... (Ydessa, lês ours et etc..., França, 2004)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 43 minutos
Classificação Livre
Sinopse -  A exposição “Os Vivos, os Ursos e Etc.”, da artista plástica Ydessa Hendeles, impressionou de tal maneira a cineasta belga Agnès Varda, que ela viajou a Toronto especialmente para entrevistar Ydessa, filha de sobreviventes do Holocausto e dona de uma curiosa coleção de fotos


Ulisses (Ulysse, França, 1982)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 21 minutos
Classificação Livre
Sinopse - De frente para o mar, uma cabra, uma criança e um homem. Trata-se de uma fotografia feita por Agnès Varda, em 1954: a cabra estava morta, a criança se chamava Ulisses e o homem estava nu. A partir desta imagem fixa, o filme explora o que poderia existir entre o imaginário e o real. Flertando com a memória, pode-se deparar com ossos.


Saudações, cubanos! (Salut les cubains, França, 1962)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 28 minutos
Classificação Livre
Sinopse - Agnès Varda traz de Cuba mil e oitocentas fotos em preto e branco, e faz com elas um documentário didático e divertido. Fidel e os músicos, socialismo e chá-chá-chá. 
Pomba de Prata no Festival de Leipzig
Medalha de Bronze na 15a Mostra Internacional do Filme Documentário de Veneza 1964


Um minuto para uma imagem (Une minute pour une image, França, 1983)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 19 minutos
Classificação Livre
Sinopse-  Minissérie de 170 mini-filmes. Um comentário de um minuto em cada fotografia, com voz anônima. Só ao final descobrimos os nomes dos fotógrafos, anônimos ou famosos, e os nomes dos comentaristas. Neste DVD, em que Agnès comenta sobre seus curtas, foram eleitos 14 entre os 170 programas. "Um minuto para uma imagem", como ela mesma comenta.

Dia 29/07
19h

Programa de curtas 3


As Tais Cariátides (Les Dites Cariatides (França, 1984).
Direção: Agnès Varda.
Duração: 13 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - De frente para o mar, uma cabra, uma criança e um homem. Trata-se de uma fotografia feita por Agnès Varda, em 1954: a cabra estava morta, a criança se chamava Ulisses e o homem estava nu. A partir desta imagem fixa, o filme explora o que poderia existir entre o imaginário e o real. Flertando com a memória, pode-se deparar com ossos.



A Ópera-Mouffe (L'Opéra- Mouffe (França, 1958).
Direção: Agnès Varda
Duração: 16 minutos
Classificação Livre
Sinopse: A Ópera-Mouffe é o bloco de notas de uma mulher grávida, no contexto de um documentário sobre o bairro da rua Mouffetard, em Paris, apelidada “la Mouffe”. É um documentário subjetivo, com fotografia de Sacha Vierny e música de Georges Delerue.


Elsa, a rosa (Elsa la Rose (França, 1965).
Direção: Agnès Varda
Duração: 20 minutos
Classificação Livre
Sinopse: Imagens e poemas em torno de um célebre casal: Louis Aragon e Elsa Triolet. A juventude de Elsa é contada por Aragon e comentada por Elsa.


O Leão Volátil (Le Lion Volatil,França, 2003)
Direção: Agnès Varda.
Elenco: David Deciron, Grasser-Hermé, Julie Depardieu e Valérie Donzelli.
Duração: 12 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - Curta aventura em torno de uma estátua de leão entre Clarisse, aprendiz de vidente, e Lazare, funcionário das Catacumbas de Paris.
Prêmio do Público de Melhor Curta-metragem no Festival de Films de Femmes de Créteil 2004
Seleção oficial dos Festivais de Veneza, Chicago, Viena 2003 e de Berlim 2004


Você tem belas escadarias, sabia? (T’as de beaux escaliers, tu sais, França, 1986)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 3 minutos
Classificação Livre
Sinopse: Como, em 150 segundos, prestar homenagem à Cinemateca Francesa, na ocasião de seu cinqüentenário, de outra forma que não seja filmando os quase 50 degraus que, subindo, levam ao Museu do Cinema e, descendo, à sala escura onde são projetadas obras-primas com célebres escadarias?


Os Amantes da Ponte Mac Donald (Les Fiancés du Pont Mac Donald, França, 1961)
Direção: Agnès Varda.
Duração: 5 minutos.
Classificação Livre
Sinopse - Um jovem vê tudo negro quando põe os óculos escuros. Basta o arrancar para que as coisas se ajeitem...


7 Peças, Cozinha, Banheiro... Imperdível ( 7 P., Cuis., S. de B., ... À Saisir , França, 1984)
Direção: Agnès Varda.
Elenco:Catherine de Barbeyrac, Colette Bonnet, Folco Chevalier, Hervé Mangani, Marthe Jarnias, Michèle Nespoulet e Pierre Esposito.
Duração: 27 minutos.
Classificação Livre

Sinopse -  A visita de um corretor de imóveis a um antigo hospício, agora uma casa abandonada, remete a várias narrativas fragmentadas e ao imaginário surreal de seus antigos ocupantes. Residências, casas vazias ou cheias, o tempo passa e deixa traços bizarros.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Planeta dos Macacos: O Confronto

(Dawn of The Planet of the Apes) Direção: Matt Reeves. Com Andy Serkins, Jason Clarke, Gary Oldman, Keri Russel, Toby Kebbel, Kodi Smit-McPhee.



Por João Paulo Barreto

Ele é um pai que se preocupa em prover segurança, comida, saúde e um teto para sua família, composta por esposa, um impulsivo filho adolescente e um bebê recém-nascido. Além disso, tem sob sua responsabilidade a liderança de um grupo de iguais, o qual leva adiante sob um senso de ética e moral responsável e contagiante. Conquista o respeito dos seus pares através de atitudes sensatas e de um restrito código pacifico de convivência.

O protagonista de Planeta dos Macacos: O Confronto tem todas essas características, mas não é interpretado por um galã hollywoodiano, mas, sim, por um macaco. Ou melhor, por Andy Serkins, o homem de diversas faces, corpos e vozes que, aqui, empresta seu talento para a criação de Cesar, papel que reprisa no filme dirigido por Matt Reeves (Cloverfield). Cesar, apesar de símio, traz em sua personalidade e desenvolvimento todas as características que levariam qualquer um a se convencer que se trata de um líder nato da raça humana. E esse é o principal trunfo deste filme de transição da nova saga dos macacos no cinema: o modo como um primata consegue trazer mais humanidade, respeito mútuo e bondade do que qualquer outro homo sapiens visto na trama.

Malcolm: liderança posta à prova

Não que o lado humano da balança não seja equilibrado por outros personagens que possuem caráter semelhante. O espelho de Cesar na nossa espécie é Malcolm, um engenheiro viúvo, pai também de um adolescente, que precisa adentrar no domínio símio da floresta dos arredores de São Francisco para tentar religar os circuitos de uma usina hidrelétrica que poderá voltar a alimentar a cidade. Nessa jornada, encara a inicial animosidade dos macacos mutantes e acaba por encontrar um amigo entre os supostos animais. Malcolm, do mesmo modo que Cesar, tem sob sua responsabilidade a liderança e a vida de muitos.

Em seu roteiro escrito a seis mãos, o filme de Reeves é mais do que apenas uma aventura maniqueísta, na qual os humanos são pintados como vilões sanguinários (com algumas exceções) e os macacos (também com algumas exceções) vítimas bondosas de sua fúria. Nos dois lados, há personagens cujos conflitos de caráter colaboram para uma profundidade em suas motivações, sendo que é no lado dos macacos que esse desenvolvimento é realizado de forma muito mais eficiente.

Koba: ambição e instinto assassino
Na figura de Koba, braço direito de Cesar em sua liderança do grupo, se encontra a ambição e a sede pelo poder capazes de tornar a traição como algo concreto, mesmo nas relações amigáveis daqueles seres. Em Koba, o roteiro consegue criar certa profundidade em seus antagonistas, algo que não é visto, por exemplo, na figura humana de Dreyfus (Oldman), cujas ações irracionais, apesar de motivadas por um sentimento de perda levemente inserido na trama, não convencem como atitudes realmente críveis. Nesse sentido, o filme peca por não ter o mesmo apuro no desenvolvimento de seu núcleo humano como teve no símio.

Apresentando um título nacional que engana o espectador (creio que A Aurora do Planeta dos Macacos seria algo bem mais interessante), o filme traz até cenas bem construídas do tal confronto entre humanos e primatas, mas, claro, a real guerra será deixada para um próximo capítulo. No entanto, na batalha vista aqui, Reeves investe seu estilo apresentado em Cloverfield com uma interessante sequência na qual o ponto de vista de um macaco sobre um tanque de guerra a girar seu canhão em 360° é trazido ao espectador. A direção de arte capricha ao exibir a floresta com os troncos das árvores adaptados pelos animais para facilitar sua locomoção. Além disso, o refúgio humano em uma São Francisco abandonada exibe de forma satisfatória o modo como a cidade já não é mais habitada por multidões.

Andy Serkins no papel de Cesar: captação de movimento e talento
No entanto, é o talento de Andy Serkins na composição de Cesar que deve ser apreciado como ponto principal aqui. Com uma pintura de guerra que salienta as suas costelas e, no focinho, uma única linha vermelha demonstrando a concentração e comprometimento para com sua causa, o líder dos macacos é trazido a nós como um ser cativante. E a opção de Matt Reeves em iniciar e encerrar o longa com um super close-up nos olhos do personagem o torna ainda mais gigante.

Toda a tristeza que toma o lugar da determinação daquele olhar é a mais tocante representação do inferno que está para chegar na vida daquele animal. Se é que se pode chamá-lo assim.   

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste

(The Grand Hotel Budapest, EUA, 2014) Direção: Wes Anderson. Com Ralph Fiennes, Tony Revolori, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Adrien Brody, Jude Law, F. Murray Abraham.


Por João Paulo Barreto

Apresentando um leque de personagens excêntricos, cujo caráter e natureza são colocados ao julgamento do espectador durante todo o tempo, mas que, ao final, é inegável um reconhecimento de suas qualidades, Wes Anderson se superou em O Grande Hotel Budapeste.

Apesar do título do filme nos levar a crer que se tratará de uma história passada totalmente no ambiente do hotel, com seus excêntricos habitantes como objetos de estudo em um habitat restrito, como uma crônica ilustrada das histórias que aqueles quartos podem conter, a abrangência de Hotel Budapeste é, no entanto, bem maior. Tanto geográfica quanto emocionalmente.

M. Gustave H. (Ralph Fiennes) é o concierge do lendário hotel no período que antecede a guerra na Europa. Mais do que isso, ele é o gerente e principal responsável por manter o lugar funcionando. Atento a todos os detalhes, passa a treinar um novo ajudante e carregador de malas, garoto sugestivamente chamado de Zero. O homem, notório amante de senhoras ricas que se hospedam no hotel, precisará viajar para o funeral de uma delas, Madame D., de quem se torna herdeiro de uma caríssima obra de arte. Acusado de assassinato, Gustave acaba sendo preso e é através de sua tentativa de fuga e prova de inocência que o roteiro do filme se estenderá de forma brilhante.

Gustave e Madame D., uma de suas ricas e idosas amantes
Os personagens citados no começo são os mais precisos retratos da capacidade que o cineasta tem de tornar palpáveis figuras ao mesmo tempo surreais e cativantes. É o caso de Ludwig, presidiário vivido por Harvey Keitel, e seu grupo de companheiros de cela, que incluem Gustave em seus planos de fuga após se encantar com sua gentileza e simpatia no ato de servir mingau de cela em cela. O mesmo se vê no brutamontes assassino que, de início podendo ser encarado como alguém de poucos amigos, se releva fator principal no sucesso do plano de fuga dos rapazes. Mesmo que cometa um assassinato logo após, na ironia cruel de toda essa análise.

Claro que uma das razões para Gustave permanecer naquele grupo é seu poder de levar para prisão peças metálicas escondidas em doces finos, que, levados por Zero, passam pela revista da guarda sem a possibilidade de serem destruídos por conta de seu aspecto delicado. Em um enquadramento que já é símbolo do cinema de Anderson, vemos outros alimentos como pães, bolos e salsichões serem retalhados para não revelarem nada de perigoso em seus interiores. Ao chegar a vez da iguaria fina trazido por Zero, a mesma passa pela revista sem nenhuma problema. É uma metáfora precisa que simboliza justamente os habitantes do universo que Anderson criou. Seres de exterior suspeito, mas de atitudes que revelam caráter e camaradagem.

Ludwig: o homem com o plano 
Não somente um filme a tratar da excentricidade dos seus personagens, mas, também, da natureza do homem e do conceito de se tornar um ser humano melhor através dos próprios atos. Algo definido de modo perfeito por Zero ao se referir a seu mestre e amigo Gustave e dizer “ainda há fracos vislumbres de bondade e civilidade deixados nesse matadouro bárbaro antes conhecido como humanidade. Ele era um desses vislumbres”. É justamente essa reflexão que Anderson buscava com seu longa. Mais preciso, impossível.

Com seu universo de cores fortes e minimalismos, reforçado pelos habituais planos detalhes a exibir objetos que compõem as cenas, Anderson traz seu notório controle da mise em scène, juntamente à simetria da construção de seus quadros, criando, assim, seu melhor trabalho. 

domingo, 29 de junho de 2014

Jersey Boys

(EUA, 2014) Direção: Clint Eastwood. Com John Lloyd Young, Vincent Piazza, Erich Bergen, Michael Lomenda, Christopher Walken.



Por João Paulo Barreto

Clint Eastwood dirigiu em 1988 o ótimo Bird, cinebiografia da lenda do jazz, Charlie Parker. Filme cuja entrega do protagonista Forest Whitaker e a coragem de um roteiro que não temia flertar com as polêmicas da vida desregrada de Parker, Bird, quando revisto na sequência de Jersey Boys, mais uma cinebiografia musical levada por Eastwood às telas, nos ajuda a perceber de forma clara os erros cometido pelo veterano diretor neste seu novo trabalho.

Não que a obra sobre a maravilhosa banda Four Seasons seja um desastre. Longe disso. Mas, o que sobrava em Bird no que se refere a ousadia, falta (e muito) em Jersey Boys. Talvez por possuir os próprios músicos na produção executiva e a base do roteiro ser o popular musical da Broadway que conta a trajetória do grupo, a chapa branca do trabalho acabou por se tornar mais do que previsível.

Mas, friso, o filme, apesar de suas falhas e superficialidade no abordar da trajetória dos músicos, fica longe de ser descartável. Clint visita a Nova Jersey do começo dos anos 1950, reduto de ítalo-americanos e local onde Francesco Castellucio começaria sua banda se tornando o vocalista de voz melosa Frankie Valli. Em uma reconstrução de época exemplar, (algo que não surpreende em filmes do diretor, como no recente A Troca), a Nova Jersey e a Grande Maçã recriadas por Eastwood e seu habitual diretor de arte Patrick Sullivan impressionam.

Tommy DeVito e seu papo com o espectador
O filme acerta ao inserir os personagens que viriam a compor o Four Seasons em conversas diretas com o espectador, criando uma atmosfera de mockumentary. Já em sua primeira aparição, o guitarrista Tommy DeVito (Vincent Piazza) nos explica sua relação com o lugar onde vive. Fala dos golpes com o amigo Frankie, enquanto este canta e varre o chão da barbearia local tentando aprender o oficio barbeando o mafioso do bairro, Gyp DeCarlo (Christopher Walken sempre divertido). É um mergulho naquele tipo de cultura que Scorsese soube abordar tão bem, mas que Eastwood não teve a mesma ousadia de exibir de forma mais profunda, apenas pincelando todo aquele universo.

Após entradas e saídas de reformatórios, os integrantes da banda vão se consolidando em shows de bar e outros inferninhos. Mudam de nome algumas vezes, até chegar à marca Four Seasons. O momento em que o compositor e pianista Bob Gaudio (Erich Bergen) entra para banda é o mais marcante na trajetória dos rapazes, que passaram a contar com a união perfeita da voz incrível de Valli e a competência como compositor de Gaudio. A partir daí, o sucesso de canções como Big Girls Don´t Cry, Sherry e, finalmente, Can´t Take my Eyes off You, música mais marcante de toda a trajetória do grupo, mas que foi lançada já na fase em que os integrantes se separaram, sendo este um crédito solo de Valli com composição de Gaudio e Bob Crewe.

Frank Valli se arriscando no ramo da barbearia com o mafioso Gyp DeCarlo
Com um foco mais voltado para vida de Valli, o roteiro tenta trazer detalhes da trajetória pessoal do vocalista, mas acaba esbarrando em uma superficialidade que incomoda. Como, por exemplo, a relação do músico com sua esposa alcoólatra e instável, que é exibida apenas como alguém entregue aos vícios, em um perfil unidimensional que causa estranheza ao espectador.

Apesar de pecar nesse desenvolvimento superficial dos seus personagens, Jersey Boys acaba sendo um longa que traz algo da marca simplista de Eastwood filmar. Sem excessos ou a necessidade de apelar para o melodrama, por exemplo, o diretor traz um doloroso momento  da trajetória do grupo em uma rápida sequência, na qual o protagonista perde alguém por demais importante em sua vida. O que de início poderia ser tachado de superficial, afinal, é uma morte traumática que poderia desestabilizar a vida de qualquer um, é colocado por Clint na história sem a necessidade de tirar o filme do seu eixo, mostrando o protagonista em seu luto, mas mantendo a trajetória dos músicos em primeiro plano.

Valli: voz fantástica e trajetória de vida traumática
No entanto, há pontos desse mesmo eixo que são tratados de forma rasa, algo que, de fato, incomoda. A relação do guitarrista Tommy DeVito (cujo nome é o mesmo do personagem de Joe Pesci em Goodfellas) com os agiotas que extorquem a banda é exibida como algo fácil, sem refletir o violento universo que aquela situação possui.  Mais uma vez é perceptível a coragem que um Scorsese teria de adentrar nesse mundo.

Ao final, quando os personagens precisam explicar para a câmera suas motivações (confirmando, assim, a fragilidade do roteiro) e, logo em seguida, são vistos dançando na rua ao som de mais um sucesso do Four Season, consolida-se a impressão que tivemos desde o início. Eastwood se rendeu a uma produção, de fato, chapa branca, com a anuência de seus personagens reais e buscando trazer para a tela a leveza dos musicais da Broadway.


Observação: Note a citação ao próprio Joe Pesci, que teve participação na trajetória da banda sendo também oriundo de Nova Jersey.  

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Hiroshima Meu Amor

(Hiroshima Mon Amour, França, Japão, 1959) Direção: Alain Resnais. Com Emmanuelle Riva, Eiji Okada.

Por João Paulo Barreto

Um dos símbolos mais marcantes da Nouvelle Vague, Hiroshima Mon Amour, do recém falecido diretor Alain Resnais, foi o terceiro filme exibido no Cineclube Glauber Rocha. Projeção em película 35mm, som acachapante, Emmanuelle Riva em toda sua beleza estonteante, equilibrando momentos de felicidade plena com lampejos de tristeza e desespero agonizantes no papel de uma atriz que grava, 14 anos depois da guerra, um filme em Hiroshima sobre a paz mundial.

Resnais apresenta em sua obra uma síntese sensível dos males que a guerra trouxe para o ser humano. Sem ser panfletário, o roteiro de Marguerite Duras tem duas faces de uma dor lancinante que destruiu vidas de forma brutal e que trouxe para a protagonista, uma francesa sem nome (nos créditos, simplesmente batizada de "Elle" - ela, no idioma francês), uma batalha intima e psicológica que parece tirar seu equilíbrio. A guerra terminou, mas suas feridas permanecem abertas nos habitantes de Hiroshima, bem como nas suas torturas mentais.

 
Um dos poucos (e aparentes) momentos de paz
Ao colocar o espectador diante de imagens dos sobreviventes retalhados da explosão nuclear, de pedaços de metal retorcido expostos em museus; peles e cabelos humanos conservados e exibidos como símbolos da insanidade da bomba, Hiroshima Mon Amour constrói uma relação entre toda aquela barbárie física com as dores pessoais de sua protagonista, que não viveu o horror de Hiroshima, mas teve seus reflexos em sua vida. Apaixonada por um soldado inimigo, sua tortura mental em ter perdido esse amor para a guerra a coloca em um conflito de aceitação desta perda e a adaptação de um novo amor que, apesar de fugaz, lhe oferece a atenção necessária para não sucumbir.

Um arquiteto japonês fluente em francês parece representar esse novo amor. Ela, apesar de casada, se deixa levar pela paixão por aquele homem, o qual, pacientemente, tenta entender seus traumas, tornando sua guerra interna menos insuportável. Na resistência em se deixar ajudar pelo anônimo rapaz, ela foge daquela relação, porém, permitindo-se usá-lo como alguém que a escute em sua autoflagelação, cede aos seus cuidados. Em certo momento, ela parece não ter forças nem para erguer um copo, algo que denota bem sua condição física e psicológica. Quando questionada sobre a nacionalidade de sua paixão durante a guerra, silencia por receio de admitir ter se apaixonado pelo inimigo.

A fraqueza diante da dor de um passado revisitado

Resnais construiu uma obra que aborda a culpa e a forma como a mesma pode destruir um ser humano em sua fraqueza e insegurança.Ela passa justamente por isso e tenta fugir de seu passado com a mesma intensidade com que o busca incessantemente em memórias dolorosas e conflitantes. Ao contar sua trajetória de vida, ela retorna a Nevers, cidade francesa onde cresceu e passou pelos momentos de horror durante a guerra. Revisitar aquele passado a esgota, e seu renegar daquela cidade simboliza toda a dor que esta representa. “Jamais voltarei a Nevers”, afirma.

Ao inserir a protagonista em andanças perdidas por uma cidade onde o idioma é um enigma e seus pensamentos seguem à deriva, Resnais nos mostra uma face daquele sofrimento que apenas o encarar do passado pode lhe trazer algum conforto. Curiosamente, é este mesmo encarar que a faz perder o equilíbrio e mergulhar no desespero. Na paixão inconsequente pelo japonês, um vestígio de uma paz fugaz, mas logo suplantada por uma razão que insiste em fazê-la voltar ao comportamento estoico.

Nos desencontros daquela última madrugada juntos em Hiroshima, os dois se percebem presos a um passado comum, maculado pelo trauma de uma guerra que, apesar da insistência mútua pelo esquecimento, acaba aceito por ambos na marcante afirmação de suas origens. “Hiroshima é seu nome”, afirma ela. “Sim. E Nevers é o seu”, replica ele. É quando se conclui que a dor de um passado é algo sem a possibilidade de se suplantar.

sábado, 24 de maio de 2014

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

(X-Men: Days of Future Past) Direção: Bryan Singer. Com Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Ian McKellen, Patrick Stewart, Halle Berry.


Por João Paulo Barreto

Dentro de um clima soturno, caótico e desesperador, X-Men – Dias de um Futuro Esquecido diz a que veio já em seus minutos iniciais, quando vemos todos os mutantes remanescentes de um universo pós-apocalíptico morrerem de forma hedionda nas mãos dos sentinelas, máquinas humanoides criadas para identificá-los e exterminá-los. Ok, eu sei que soou estranho. Mas, não se preocupe. Isso não é um spoiler.

Nesse quinto filme centrado na equipe mutante, o diretor Bryan Singer retorna ao posto que comandou muito bem nos dois primeiros longas dos heróis e se apresenta como uma grata surpresa ao conseguir superar todos exemplares da franquia. Mais uma vez focando sua premissa na mensagem principal proposta pelo grupo da Marvel Comics (o preconceito, o medo daquilo que é diferente e a consequente guerra entre mutantes e humanos), o roteiro de Simon Kinberg, que já havia escrito o terceiro filme, acerta ao se aprofundar nesta questão de forma mais dramática e violenta.

Justamente por poder contar com a vantagem de ter sua base na viagem do tempo, o roteiro de Dias de um Futuro Esquecido toma liberdades de criação e modificações claramente inseridas para que uma nova franquia dos X-Men possa ser estabelecida para a geração atual (pois é, já faz quatorze anos desde o primeiro filme). Sendo assim, quando a mente de Logan (Hugh Jackman, provando ser sempre capaz de voltar a Wolverine sem ficar preso ao personagem), retorna ao passado para impedir que Mistica (Jennifer Lawrence) assassine o criador dos sentinelas, Dr. Bolivar Trask (Peter Dinklage), evento que os levaria para a era pós-apocalíptica citada, toda a trama terá como propósito a criação de uma nova base no universo cinematográfico mutante.

Bolivar Trask (Peter Dinklage): visionário cientista anti-mutantes 
Na busca por cumprir sua missão, Logan precisa convencer o jovem e desiludido Professor Xavier (James McAvoy) a acreditar que foi enviado por sua versão do futuro e a ajudá-lo na libertação do jovem Magneto (Michael Fassbender). Utilizando pouco os personagens mais velhos interpretados por Patrick Stewart e Ian McKellen, e focando sua ação em suas versões jovens (já nos avisando de quem será a nova franquia), o longa relega todos os acontecimentos no futuro apocalíptico a um óbvio segundo plano. A ideia é fazer os espectadores se habituarem às imagens de Fassbender e McAvoy nos papéis.

A vantagem disto é que a trama que se passa nos anos 1970 flui muito bem, apesar de ter as questões suscitadas pelo tema viagem no tempo a todo tempo (!!) levantadas pelos mais atentos. Mas com uma reconstrução de época impecável e uma liberdade de utilização da História muito bem aproveitada (a inserção de Richard Nixon é uma ótima continuidade à trama da Baía dos Porcos utilizada em First Class), este exemplar mutante se torna um interessante exercício de adaptação do roteiro a fatos e personagens reais. Além, claro, de brincar com uma época onde a liberdade de expressão andava mais em voga, refletindo nas roupas e nas atitudes. O momento em que um Xavier de cabelos longos pergunta se Logan tomou LSD já paga o filme...

Recriação de época muito bem aplicada nos figurinos dos anos 1970
Inserindo os elementos do universo Marvel para os fãs iniciados nos quadrinhos de forma sutil e hilária (a fala em que o mutante com supervelocidade, Mercúrio, afirma que sua mãe namorou um cara com o mesmo poder de Magneto é única), Dias de um Futuro Esquecido não se mantém exclusivo em suas referências somente aos leitores. Afinal, o próprio Singer assumiu não ser um colecionador de quadrinhos quando foi escalado para dirigir o primeiro filme. Sendo assim, mesmo baseado em uma história das lendas das HQs Chris Claremont e John Byrne, o filme não tenta ser voltado apenas para fãs leitores, mesmo que acabe inserindo personagens sem um desenvolvimento. Dentre eles, o mutante Bishop (Omar Sy), que, junto com alguns pertencentes ao arco do futuro, como Apache e Blink, aparecem em cena quase como figurantes e reconhecíveis somente para os leitores.

Com essa questão de desenvolvimento dos personagens à parte, algo que aconteceu, também, no terceiro exemplar da franquia, cabe a Dias de um Futuro Esquecido centrar-se nas excelentes sequências visuais. Nesta, estão incluídas um resgate de Magneto de sua prisão no Pentágono até a utilização de todo um anel superior de um estádio como campo de proteção em um atentado contra políticos (uma boa solução para os elefantes brancos que nossa copa vai deixar. Divago...).

Como leitor de quadrinhos, preciso dizer que a inserção dos sentinelas (já vislumbrados em O Confronto Final), foi um momento de regozijo. Não somente pela precisa liberdade de adaptação que o filme toma no que se refere à suas habilidades (o modo como os futuristas se adéquam aos poderes mutantes é impressionante), mas, também, por criar uma rima visual interessante quando os comparamos em suas versões protótipo, semelhantes aos dos quadrinhos, àquelas em ação no futuro. Sem contar o fato de que, em termos de violência, o avanço apresentado aqui é imenso. Empalações e decapitações em filme para adolescente ver? Hummm, ok. Aprovado.

Violência bem enquadrada: Sentinelas mostrando a que vieram
Não somente no que tange aos caçadores de mutantes, o filme tem um cuidado singular na recriação tecnológica, comparando as duas épocas em que se passa. Os monitores e câmeras de vigilância retro do Pentágono em comparação com os equipamentos vistos no futuro criam um equilíbrio pertinente na reconstrução de época. O único choque neste sentido está em ver uma tecnologia muito mais avançada no porão da Mansão X, mas isso é aquilo que talvez possamos chamar de liberdade criativa e suspensão da descrença.

Fica a torcida para que a mesma liberdade criativa que foi aplicada na recriação de um universo que levou três filmes para ser inserido funcione nos novos exemplares. Observando o fato de que cena final envolvendo o resgate de Logan derruba por terra todo o desenvolvimento visto em X2, é perceptível a abertura de possibilidades de vermos, finalmente, uma adaptação real do arco Arma X, e não aquele desastre que Wolverine Origens tentou nos enfiar goela abaixo.

Além disso, com o título Apocalypse já apresentado para um novo filme e a cena pós-créditos deste confirmando isso, o universo mutante no cinema tem tudo para manter uma expansão positiva para agradar leitores de quadrinhos e não iniciados.

E não é disso que a proposta dos X-Men trata? Equilíbrio pacífico entre as partes? Como diria um dos criadores dos mutantes, Excelsior! 

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Era uma vez em Tóquio

(Tôkyô monogatari, Japão, 1953) Direção: Yasujirô Ozu. Com Chishû Ryû, Chieko Higashiyama, Setsuko Hara, Haruko Sugimura.



Por João Paulo Barreto

Era uma vez em Tóquio, notório trabalho do cineasta japonês Yasujirô Ozu, traz exposto em cada frame a marca de um cineasta que propôs em toda sua filmografia uma discussão acerca de dramas familiares e a observação do cotidiano humano como algo bem mais complexo do que um simples olhar pode captar.

O cinema de Ozu pede uma observação mais aguçada e atenta para detalhes presentes na natureza do convívio familiar. São sutilezas ilustradas em histórias que transparecem simplicidades. Seus dramas, porém, são bem mais profundos do que aparentam a cordialidade e os sorrisos de seus personagens. Em Era uma vez em Tóquio, o que vemos é a necessidade de adaptação e equilíbrio mútuo entre gerações separadas não somente pela distância geográfica, mas, também, por elos emocionais que parecem perdidos.

Na história, os pais idosos Shukishi e Tomi Hirayama viajam para Tóquio em visita aos filhos que lá vivem. Deixam o bucolismo do interior do Japão na expectativa de conhecer em Tóquio toda a ideia de metrópole industrializada que têm em mente. A ilustração dessa diferença de ares é inserida por Ozu com a passagem de chaminés em uma fábrica, o que contrasta diretamente com o que o casal está habituado em sua rotina no interior.

Sorrisos a esconder a melancolia de uma velhice solitária 
A partir do reencontro, começa um cuidadoso estudo dos personagens. As impressões iniciais que os idosos tinham da metrópole não se cumprem com as suas expectativas ao perceber que os filhos vivem na periferia campestre da cidade. A expectativa frustrada do pai ao perceber que seu filho, apesar de médico, não goza do prestigio imaginado pelo senhor quanto a tal cobiçada profissão só é abertamente demonstrada após o incentivo da coragem liquida contida no saquê.  

Os netos, um tanto avessos socialmente, parecem indiferentes à presença dos avós na casa. Em certo momento, a matriarca busca uma aproximação do garoto mais jovem. O mesmo parece ignorar as palavras que lhe são direcionadas. Esta, por sinal, é uma das primeiras cenas onde a aparência sempre cortês e sorridente da senhora cede espaço à melancolia ao admitir que não tem esperança de estar presente quando o neto estiver crescido e formado em medicina. São pessoas que vivem escondendo suas dores. Que parecem não se sentir confortáveis em compartilhar sentimentos e vivem presas à introspecção.    

Os filhos do casal Hirayama vivem em suas rotinas e tentam se adaptar à presença dos pais da melhor forma possível. Preocupados em tornar confortável a estadia dos dois, erram ao enviá-los para um período nas termas da cidade, local que, repleto de jovens e música, contrasta com a necessidade de sossego e silêncio dos pais. Mais um momento onde se percebe a inadaptação dos dois ao ritmo de vida fora do lugar onde moram.

A nora, mais que uma filha após morte do marido oito anos antes, ainda não superou a perda e não atende aos pedidos dos sogros para que se case novamente. Esta personagem, diga-se de passagem, representa um dos mais belos elos da história, demonstrando que os laços afetivos do universo de Ozu não estão restritos apenas a ligações consanguíneas. O modo como o casal, em prol da felicidade que a nora merece, parece abdicar da dor e do luto pela morte do filho oito anos antes, encanta em sua simplicidade. Um simples “arigato” ganha um significado imenso pelo ato simples, mas gigantesco que o gerou.   

Enquadramentos estáticos e mise en scène exata 
Em uma obra que prima por um estudo das relações familiares acerca da adaptação das pessoas à perda de seus entes, Era uma vez em Tóquio traz um leque de personagens que, presos a uma tradição que parece não permitir a falta de discrição no demonstrar de emoções, acabam, por isso, se entregando a elas de um modo bem mais doloroso.      

 Com seus quadros estáticos a simbolizar a rotina aparentemente imutável dos seus personagens e o modo como a mise en scène parece milimetricamente exata, o longa traz uma serenidade precisa em sua montagem, jamais deixando que os dramas das pessoas que habitam aquela história transpareçam no modo como Ozu optou por registrá-la. É quase como se o espectador fosse um voyeur naqueles ambientes.

As rimas visuais são precisas, justificando as repetições de enquadramentos de uma forma que a ausência de certo personagem ao final é sentida de modo ainda mais doloroso.

Rima visual: Ozu cria na repetição de quadros um impacto doloroso
Exibido em vinte de maio de 2014, na segunda sessão do Cineclube Glauber Rocha, o filme era observado em um silêncio contagiante pela platéia. As cenas, quase que em sua totalidade ausentes de trilha sonora, tinham suas falas naquele idioma musical e contagiante que ecoava na sala 1 do Espaço Itaú de Cinema de forma triste, mas belíssima.

Após a sessão, o amigo Rafael Carvalho, crítico de cinema do Moviola Digital e do site Coisa de Cinema, nos apresentou uma elucidativa palestra sobre o cinema de Yasujirô Ozu, contribuindo para o melhor entendimento daquela complexa gama de sentimentos.  

Uma noite memorável.

Rafael Carvalho durante o papo pós filme. Foto: Lara Carvalho