sexta-feira, 3 de abril de 2020

Isolados, mas com Cultura


Quarentena
com Cinema Baiano

Astrogildo e a Astronave, de Edson Bastos,
é um dos destaques disponíveis 

Com as imprescindíveis medidas de confinamento para evitar uma ainda maior epidemia do COVID 19, uma opção de acesso à cultura vem da recente filmografia baiana disponível on line

Por João Paulo Barreto

Com o necessário fechamento de salas de cinema, teatros, suspensão de shows musicais e outros eventos de entretenimento, o confinamento em lares até que haja um controle mínimo da pandemia do COVID - 19 tem feito as pessoas se voltarem aos filmes disponibilizados em plataformas digitais, bem como, os que ainda mantêm o hábito de consumir filmes em mídia física (o caso deste que vos escreve), os bons e velhos disquinhos de DVD e blu-ray. E, em decorrência da imprescindível necessidade de se ficar em casa, cineastas da Bahia têm liberado seus conteúdos em plataformas digitais, como YouTube, Vimeo, além de canais de streaming, que já exibem as produções feitas aqui no estado.

CURTAS METRAGENS

A produtora Olho de Vidro, por exemplo, liberou on line no Vimeo curtas recentes, como Estela (vimeo.com/238511289), curta de 2017 estrelado por Paula Lice, que, no Panorama Internacional Coisa de Cinema, recebeu menção honrosa por sua atuação. O curta é dirigido por Hilda Lopes Pontes e também teve exibição no II Festival Poe de Cinema Fantástico. Ainda no âmbito do cinema de gênero, A Triste Figura (vimeo.com/255212158), filme de 2018, dirigido por Calebe Lopes, também teve seu link aberto para apreciação on line. Na obra, Carlos Betão vive um pastor evangélico de comportamento nefasto e abusivo. Confrontado por sua filha, vivida por Dora Goritzki, o homem tem um surpreendente encontro com um destino fatídico. Com uma ambientação precisa na criação de uma proposta sobrenatural, o curta é mais um exemplo da evolução do diretor como contador de histórias no cinema fantástico. Por último, O Sorriso de Felícia (vimeo.com/265312447), psicodélico curta dirigido por Klaus Hastenreiter, também teve seu link liberado no Vimeo. Para o cineasta e fundador da Olho de Vidro, “Esse é um momento muito delicado que estamos vivendo e esta é a nossa singela maneira de procurar contribuir com a rotina enclausurada de quem está neste isolamento”

Paula Lice em Estela, de Hilda Lopes Pontes

A Triste Figura, de Calebe Lopes, e O Sorriso de Felícia, de Klaus Hastenreiter

Outra produtora baiana a liberar alguns dos seus trabalhos on line é a Gran Maître Filmes. Os filmes Ele Foge, de Dino Galeazzi e O Vizinho de Frau Kutner, do diretor Marcos Alexandre, ficam disponíveis no canal YouTube da produtora a partir de 08 e 09 de abril, respectivamente. Na obra dirigida por Marcos Alexandre, uma representação da arte da atuação através das lembranças de um ator e seu último papel. Indiretamente, uma coincidente rima com a necessidade atual da clausura se faz valer. Já em Ele foge, Dino Galeazzi, outro representante do cinema de gênero na Bahia, traz um vislumbre de um apocalipse zumbi. Para o fundador da Gran Maître, Marcos Alexandre, a disponibilidade dos filmes possibilitará com que novos públicos possam conhecer mais sobre as nossas histórias e realizações. “É um momento em que grande parte das pessoas estão em sua casa, em quarentena, usufruindo e a procura de conteúdo audiovisual, seja pela internet e/ou streaming. Portanto, vejo que entraremos junto com outros coletivos, produtoras e realizadores para distribuição online de filmes independentes”, afirma. 

Ele Foge, de Dino Lucas Galleazzi

O Vizinho de Frau Kutner, de Marcos Alexandre

A Voo Audiovisual, dos cineastas Edson Bastos e Henrique Filho, também liberou diversas produções no canal YouTube da produtora. Dentre elas, O Filme de Carlinhos, lúdica homenagem ao cinema pelos olhos infantis, e Astrogildo e a Astronave, outro curta a abordar, através da beleza da fantasia, um notório personagem de Ipiaú, terra natal de Edson. Para o diretor e fundador da Voo Audiovisual, a situação, mesmo apresentando aparência de uma ficção científica, tem resultados brutais na realidade. “Nunca imaginamos que isso um dia aconteceria na vida real. Sets de filmagens adiados, telenovelas adiadas, cinemas fechados, projetos parados, eventos adiados, mas tudo isso porque confiamos nas orientações das organizações de saúde como a OMS, estamos vendo o que outros países estão passando e acreditamos que o isolamento é fundamental”, afirma Edson Bastos e salienta: “Já estamos vivendo desemprego no Audiovisual desde que Bolsonaro foi eleito. São muitos projetos parados, sem liberação de recursos, por questões ideológicas do presidente, que não entende nada sobre cultura e audiovisual, e emperra a nossa economia de gerar emprego e renda.”

O  Filme de Carlinhos, de Edson Bastos e Henrique Filho

LONGAS

No âmbito dos longas baianos, um dos destaques são os da produtora Hamaca Filmes, do cineasta Henrique Dantas, que também disponibilizou alguns dos seus trabalhos, como os documentários Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade (vimeo.com/133508577) e A Noite Escura da Alma (vimeo.com/134948902). Dentre os curtas, o infantil A Bicicleta do Vovô (vimeo.com/298676827) e o documentário Ser Tão Cinzento (vimeo.com/401492387). 

“Estamos ouvindo nestes tempos recentes essa ladainha deque artistas não servem para nada, que artistas são um câncer para a sociedade. Agora, nesse momento de quarentena, se não existisse arte, estariam todos pirados. Então, a Hamaca Filmes, em tempos de pandemia, onde a Arte ganha novos significados numa sociedade que tentava desmerecê-la, vem a público disponibilizar parte dos seus filmes”, pontua Henrique Dantas e salienta que está fazendo os esforços necessários para disponibilizar o restante das obras. 
                     

Cartazes de dois dos filmes de Henrique Dantas disponibilizados on line na plataforma Vimeo




Outros dois longas baianos disponibilizados on line são Depois da Chuva (vimeo.com/112407880), filme de Cláudio Marques e Marília Hughes, bem como Trampolim do Forte, longa metragem de João Rodrigo Mattos, disponibilizado no YouTube, na página da produtora DocDorma. Em tempos de clausura para nossa própria segurança, esse mergulho na filmografia recente do cinema baiano traz um respiro necessário para a arte. 

Cena de Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes 
Cena de Trampolim do Forte, de João Rodrigo Mattos 

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 04/04/2020






quinta-feira, 2 de abril de 2020

Pearl Jam - Gigaton


Pearl Jam e o rock como luto político



Com Gigaton, décimo primeiro álbum de estúdio, banda de Eddie Vedder leva aos fãs uma precisa reflexão da dor do luto e da necessidade de agir em tempos politicamente sombrios

Por João Paulo Barreto

Quando, há quase três anos, Chris Cornell cometeu suicídio, enforcando-se em um quarto de hotel após ceder sua mente torturada a essa maldita doença chamada depressão, não somente um pai, esposo, lenda do rock e dono de uma das vozes mais possantes do grunge nos deixou. Para Eddie Vedder, também um fiel amigo, irmão e companheiro se despedia desse mundo amargurado e sofrível. Tal perda afetou profundamente o vocalista do Pearl Jam. Juntos, no começo dos anos 1990, momento chave tanto para o Pearl Jam quanto para o Soundgarden, os dois criaram o breve, porém pulsante, projeto paralelo Temple of the Dog, algo que os uniria afetivamente para sempre.

Introspectivo, Vedder calou-se diante da tragédia da perda de Cornell e seguiu para sua turnê solo por países europeus. Stone Gossard, Mike McCready, Jeff Ament e Matt Cameron, seus companheiros de palco, de estúdio e de vida, entenderam e respeitaram seu silêncio. Mas, para os fãs, o medo de um fim da banda devido a esse golpe era palpável. O último disco datava de quatro anos antes, e levaria mais três para que um novo trabalho surgisse, cravando o maior hiato sem qualquer lançamento do Pearl Jam desde seu debut: o petardo Ten, há quase trinta anos, em 1991.    

Mike, Matt, Eddie, Jeff e Stone: quase 30 anos de banda

CONTRA TRUMP

Sempre ativistas politicamente, os integrantes da banda começaram a se concentrar no novo trabalho em tempos ainda mais tristes do que os do começo do século XXI, quando Riot Act, disco de 2002, fora lançado como um míssil direcionado à gestão de George W. Bush. Aqui, tal míssil é substituído pelo resultado de um Gigaton, explosivo nome que batiza o álbum recém lançado. E tal explosão, claro, é direcionada para a estupidez representada pelo atual presidente estadunidense. Em Quick Escape, por exemplo, a tal fuga repentina do título narra a busca por algum lugar que “Trump não tenha fodido ainda”. Em um crescente inicial que remete a Kashmir, clássico do Led Zeppelin, Vedder, em parceria com o baixista Jeff Ament, em uma linha exata do instrumento, canta sobre um mundo cujas fronteiras ficam além da prepotência e egoísmo do atual cheetos lua que ocupa a Casa Branca.

Antes disso, em sua evolutiva faixa de abertura na constante batida das baquetas de Matt Cameron, Vedder traz a denúncia de um ensurdecedor silêncio que a inércia dos que aceitaram o fúnebre futuro do mundo pontua de maneira torturante. “Enquanto o silêncio se torna mais e mais alto, meu coração passa a martelar/E os ventrículos bombeiam em horas extras/Nossas liberdades cheias com o risco de serem circunscritas/Uma vida interrompida e circuncidada ”. O homem por trás de clássicos como Do the Evolution e Given to Fly traz a necessidade de acordar para essa reflexão.

Mas este silêncio ensurdecedor que advém da inércia logo cai por terra quando, em Seven O’Clock, Vedder canta sobre a urgência que nos persegue. “Não há tempo para depressão ou auto-indulgente hesitação/Essa situação fodida requer todas as mãos à obra”. E nessa avalanche, logo a tal bomba é jogada novamente no salão oval, onde “a merda presidindo na figura de nosso presidente/falando com o próprio espelho, o que ele fala, o que ouve em retorno?” E como amordaçar esse cão sarnento e raivoso é mais do que necessário, Eddie Vedder sentencia e pergunta: “Em uma tragédia de erros, quem será o último a dar risada?” E tudo isso através de uma melodia que embala os ouvidos em uma balada a contar a pesarosa história de nossa tragédia contemporânea.

Chris Cornell e Eddie Vedder no começo dos anos 1990

CORNELL

Ainda sobre o amigo Chris Cornell, pode soar como uma livre interpretação de um ouvinte de longa data da banda, mas, pensar em Cornell e no luto de Vedder ao escutar uma balada bluesy como Comes Then Goes, é inevitável. Aqui, Eddie pergunta: “Onde você esteve? Posso encontrar um vislumbre do meu amigo? Não saberia dizer onde ou quando um de nós deixou o outro para trás”. E, nessa mesma leva reflexiva de perguntas e modos de encontrar um conforto mental para a dor do luto e da comichão advindo do “eu poderia ter feito mais”, ele volta a arguir aquele que parece não estar mais ali: “É você? Aqui eu estou. Intensa lembrança de dor, autonegligenciada de novo./Igual a você, eu a mantenho aqui dentro.” E parece encerrar a conversa com um lamento e uma constatação da dor física e aparentemente irremediável que advém da depressão: “Pensei que você havia encontrado um jogo no qual você pudesse vencer. Ao final, tudo é uma vivissecção”.

AINDA OTIMISTA

Mesmo com sombrias e densas reflexões, Gigaton, dentre as suas doze faixas, é capaz de trazer certo otimismo. E isso distante de qualquer falso discurso de coach. No seu quase fechamento, Retrograde, como uma mescla de desesperança e um aviso para que o futuro não seja perdido por conta da mediocridade, egoísmo e oportunismo dos que atualmente detêm o poder, quase encerra o disco de modo totalmente preciso, porém pessimista como penúltima faixa. “Sete mares se elevam/Futuros para sempre desvanecidos/Sinta o atraso em nosso entorno” canta Vedder em longos vocais que remetem ao seu disco solo, Into the Wild, trilha sonora para o filme homônimo dirigido por Sean Penn há 12 anos.

Tal sensação de que vamos terminar aquela viagem de maneira a perceber que tal atraso oriundo de forças retrogradas são inevitáveis, acaba por ficar para trás no momento em que a proposta de encarar nossos dias como uma fase ruim que superaremos nos atinge positivamente. Esse sentimento nos pega na última faixa, River Cross,mas não sem antes, em sua exata metáfora de passagem de tempo, nos alertar do quão urgente é a necessidade de mudança. “Através de nuvens de tempestades, eles tomaram o palco” lembra Vedder como tal situação tomou conta de nosso presente. E sobre essa desesperança, um otimismo disfarçado diante de tamanhas e densas sombras que se avizinham: “Deixe que seja uma mentira que todos os futuros morrem”.

Esperamos que sim.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 03/04/2020





quinta-feira, 26 de março de 2020

Entrevista: Paulo Sérgio Almeida, diretor do Portal Filme B


“Para a indústria do cinema,
o que está acontecendo é uma devastação.”

Paulo Sérgio Almeida, diretor do Filme B
Nada é mais importante do que a preservação das vidas humanas nessa pandemia do coronavírus. As medidas de não aglomeração de pessoas diante da proliferação do COVID-19 fizeram muitos filmes cuja demanda de público lotariam salas de cinemas em situações normais serem adiados para o final do ano, diminuído, assim, um imenso e já certo prejuízo financeiro. São obras como Um Lugar Silencioso Parte II, continuação do esmero de 2018 dirigido por John Krasinski; o novo filme da Marvel Studios, Viúva Negra, além dos novos 007 e o mais novo longa da lucrativa franquia Velozes e Furiosos.


Sobre o assunto, o A Tarde conversou com Paulo Sergio Almeida, fundador da Filme B, empresa brasileira especializada em análise e números do mercado cinematográfico no Brasil. Mais completo site no acesso a informações relacionadas ao aspecto de negócios oriundos da produção de cinema e distribuição de filmes em território nacional, o Filme B é peça fundamental na pesquisa para quem se interessa ou tem o cinema como meio de subsistência direta ou indireta. Confira a entrevista.

Por João Paulo Barreto

Com o adiamento e suspensão dos lançamentos, como você prevê os próximos meses no mercado das salas de cinema no Brasil?
Em 2020, você pode contabilizar um janeiro e fevereiro muito bons. Março com sinais de crise. Havia algumas salas abertas no começo do mês, mas, a partir de agora aí, temos zero de cinemas funcionando no Brasil. Abril, maio, junho e julho, zero de salas. Nós nunca vivemos uma situação como essa. É o colapso! O cinema, como o resto da economia, vai entrar em colapso. A previsão é de no mínimo três meses sem possibilidade de reabertura de salas. 
A mesma previsão vale para outros países. China, Itália, França, Inglaterra, Coréia do Sul, Japão, Espanha, Portugal e EUA. Todas as salas fechadas. Quer mais do que isso? É uma devastação. Para a indústria do cinema, o que está acontecendo é uma devastação. Quando acabar a crise, a gente vai ver quem sobrou.

Com os adiamentos das estreias internacionais, como o streaming entra nisso?  
O cinema hoje está globalizado. Eu não posso lançar um filme no Brasil ou em qualquer outro lugar de maneira separada. Ou o filme vai para o mundo todo ou não vai. Isso em relação ao filme estrangeiro. Todos os lançamentos de blockbusters estão sendo adiados, um depois do outro. Acabou de ser adiado o Minions, grande blockbuster infantil para as férias de julho. Já foi adiado 007, Trolls e o novo Velozes e Furiosos. Não é caso destes citados, mas há uma série de filmes que deverão ser lançados diretamente no streaming. Essa é a grande revolução. Os filmes estão, na sua maioria, prontos. Exceto Minions 2, que foi cancelado e o Ilumination, o estúdio de animação sediado em Paris, foi fechado. Mas todos os outros estão prontos e com a campanha na rua. Os investimentos estão feitos, e não podem parar de repente para ser lançados apenas no ano que vem. Aí você tem que investir de novo no marketing, fazer tudo de novo, para recuperar as campanhas. O que está acontecendo é que os filmes estão indo direto para streaming. Vai ser um ano perdido para o cinema. Praticamente perdido. Se voltar à atividade no Brasil, deverá voltar por volta de agosto, setembro. Mas aí com títulos debilitados, com a frequência ao cinema debilitada. Não podemos esperar grande coisa. 

Um Lugar Silencioso - Parte II é dum dos filmes adiados

E para o cinema nacional?
Em relação ao cinema nacional, o panorama é mais dramático. Porque toda a operação de cinema nacional no Brasil, a Ancine, Secretaria Especial de Cultura, está tudo paralisado desde que o governo Bolsonaro entrou.  Todos os lançamentos já vinham sendo adiados por falta não de recurso da Ancine, pois eles existem, mas por falta de uma diretoria, por falta de comando e de gestão. São atos que esse governo vem fazendo com a cultura propositadamente. O que os filmes nacionais estão tentando fazer, também, é ir direto para o streaming. Mas a Ancine proíbe esse lançamento direto nas plataformas. Em relação ao filme americano, não tem lei que proíba. É um acordo entre o exibidor e o distribuidor de se manter uma janela. Mas em um momento como esse, de força maior, os exibidores estão compreendendo que eles não podem fazer nada, já que as salas estão fechadas e o distribuidor não pode ficar com o filme parado sem faturamento. Ele tem que pagar seus empregados. Tem que fazer a máquina girar. Aqui no Brasil, os principais filmes são financiados com dinheiro do fundo setorial, via Ancine, via BNDES, e tem uma regulação que obriga os filmes a estrearem antes nos cinemas e depois no streaming. Os produtores estão tentando, junto à agência, que essa proibição seja cancelada. Pelo menos momentaneamente, para que os filmes possam entrar direto no streaming, também. Porque, senão, vão ficar dois anos parados. 

Filmes de alto orçamento como 007, Um Lugar Silencioso Parte 2 e Velozes e Furiosos, apesar de já adiados, podem ser lançados no streaming?
Não. Hoje, os filmes de orçamento muito alto precisam da bilheteria do cinema. Mesmo a Disney, que já tem o seu próprio canal. Ela até poderia lançar os filmes no seu próprio streaming, mas não teria um bom retorno. Só poderia ser feito com filmes médios e pequenos. Filmes de grandes orçamentos, não. Isso poderia até quebrar a MGM, que é a detentora dos direitos dos filmes da franquia 007. Não pode abrir mão da bilheteria. Principalmente da China. Hoje, o mercado dos grandes filmes é guiado pela China. Então, esses filmes não podem ir para o streaming diretamente. Um Lugar Silencioso Parte II não vai direto para o streaming nunca. O retorno é muito baixo. Minions 2 seria um desperdício lançar direto no streaming. O que está sendo lançado no streaming são filmes como Bloodshot, da Sony, que teve a bilheteria interrompida e tem que ser lançado no streaming, ou Trolls, que é um desenho da Universal que já está com a sua campanha no ar e tem uma bilheteria média. Agora, é importante ressaltar o seguinte: não é só ver isso na área da produção dos filmes, a gente tem que ver isso na área do mercado. Poucos exibidores vão resistir a ficar quatro meses fechados. Só os grandes. E, assim mesmo, com medidas drásticas de demissão de funcionários, de corte de custos violentos. Enfim, vai ser uma loucura. Realmente, a indústria nunca mais será a mesma. 

Nova aventura do 007, principal investimento da MGM, pode dar prejuízo

Podemos prever como será a relação entre shoppings e salas de cinema quanto a taxas de aluguel?
Isso vai ser uma longa negociação. Depende, primeiro, de determinações oficiais. Se o governo do estado determinou que os shoppings e cinemas têm que fechar,  ou que existe um estado de calamidade pública, isso abre um espaço enorme para os exibidores negociarem com os shoppings. De pagar o mínimo, que eles chamam de mínimo garantido. Fora isso, tem a negociação com os empregados. O governo autorizou a você fazer o pagamento de férias de um mês. Após isso, ou a pessoa trabalha em casa com 50% de redução de salário, ou partem para demissão voluntária. A exibição no Brasil é muito diferenciada. Existem desde de empresas internacionais, multinacionais, como Cinemark e UCI, como empresas nacionais familiares, como a Orient, aí em Salvador. Todos os outros, tirando a Cinemark, a Cinepólis e a UCI, são empresas nacionais familiares que não têm acesso a crédito como as multinacionais têm. Cada uma precisará de uma solução. Já lá fora, a situação é preocupante no seguinte sentido: os estúdios de hoje estão ligados a conglomerados de mídia. Estúdios como Universal Pictures  e a Paramount, por exemplo, estão alavancados em Wall Street. E a bolsa de valores está virando pó. Eles estão pedindo ajuda ao Trump. E eu tenho certeza que Trump vai dar. Tanto os exibidores como os estúdios vão ter um apoio. Para eles, o cinema é uma questão de Estado. Enquanto aqui no Brasil, o Estado é contra o cinema.

*Entrevista originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 26/03/2020



quarta-feira, 18 de março de 2020

CORONAVÍRUS - Fechamento dos Cinemas

Cultura e Salas Fechadas 


Com o necessário fechamento dos cinemas como forma de impedir aglomerações e a proliferação do coronavírus, a economia do setor do audiovisual sofre mais um baque 

Por João Paulo Barreto

O trágico impacto da pandemia do coronavírus, também conhecido como COVID-19, começou a ser sentido no Brasil no final de fevereiro. Após surgir na China, local onde o número de mortos já passa de 3500 e ter, fora do oriente, seu maior número de contágios e de vitimas fatais (o número de mortos já passa de 2000) na Itália, país com a população majoritariamente idosa, a doença atravessou o oceano Atlântico e já possui milhares de casos confirmados nas Américas. A primeira morte no Brasil foi confirmada na terça-feira, dia 17, em São Paulo, cidade com maior número de infectados no Brasil (mais de 150) e local onde vivia o homem de 62 anos que estava internado em um hospital particular.

Com mais de 230 casos confirmados em território nacional, as orientações para que aglomerações de pessoas sejam evitadas e os cuidados básicos com higiene (lavar as mãos com frequência, evitar o toque no rosto, usar álcool em gel para esterilização) se tornaram prioritárias. Isso, claro, mesmo que o homem com o maior cargo político do Brasil e símbolo de maior incompetência, com uma missão de desmonte da cultura e da pesquisa científica, queira minimizar a situação e incentive seu gado, digo, seguidores a ir às ruas em manifestações públicas de apoio ao seu desgoverno. 

“Com a chegada do coronavírus ao Brasil, começamos a sentir os efeitos na bilheteria e já sabíamos que, mesmo se o governo não tomasse alguma providencia, teríamos, realmente, que fechar as salas."
Suzana Argollo 


CINEMAS DE SALVADOR

No quesito relacionado ao evitar aglomerações de pessoas, as salas de cinemas de Salvador também já começam a sentir o impacto da suspensão das atividades e da ausência de programação. Fechadas desde a ontem por um período de 15 dias, através de um necessário decreto do prefeito da cidade, e por 30 dias a partir do decreto do governo da Bahia, pela primeira vez na história não haverá estreias de filmes nas telonas da cidade. O negativo impacto econômico para os estabelecimentos é palpável. Cláudio Marques, sócio proprietário e gestor do Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha, na Praça Castro Alves, lembra que, em outros locais do mundo, como França, o governo local propôs subsídios como isenções de contas de energia, água e gás para toda a população. “Na Alemanha, o governo local vai subsidiar os cinemas de rua. É um momento dessa economia da maneira com ela vinha sendo tocada em muitos países, ser revista. Esse chamado neoliberalismo, todo poder ao mercado, é o momento em que talvez ele seja revisto. E talvez isso seja alguma coisa positiva, vinda dessa crise. Mas, eu, sinceramente, não sei ainda o que vai acontecer. Estamos em um momento de recessão e, mais grave, de depressão econômica. Vamos ter que esperar um pouco para saber como vamos ressurgir depois de duas, três semanas de quarentena”, afirma Cláudio.

No Circuito Saladearte, que possui cinco salas em Salvador, sendo três delas cinemas de rua, a sócia proprietária, gestora e programadora, Suzana Argollo, salientou uma queda de público de quase 70% no último final semana em comparação ao da semana anterior. “Já esperávamos, mesmo sem a pandemia, uma queda de público em março, uma vez que os filmes do Oscar tiveram seu maior público nos meses anteriores”, explica Suzana. “Com a chegada do coronavírus ao Brasil, começamos a sentir os efeitos na bilheteria e já sabíamos que, mesmo se o governo não tomasse alguma providencia, teríamos, realmente, que fechar as salas. Primeiro por um compromisso social e coletivo. Para que isso não atingisse os mesmo níveis que acontecem na Itália. Segundo porque nosso público é, em sua maioria, formado por idosos”, complementa a gestora. 

“Precisamos pensar em como manter as atividades culturais, como manter os pequenos dentro do comércio, da atividade econômica de uma maneira geral."
Cláudio Marques

FECHAMENTO TEMPORÁRIO

Tanto Suzana Argollo quanto Cláudio Marques pontuam que, diferente da rede Cinemark, que propôs um plano de demissão voluntária, o quadro de seus funcionários é uma prioridade. “A questão dos funcionários é uma preocupação nossa. De que, em um primeiro momento, não existam demissões. É uma situação difícil para todo mundo. Como manter sem ter receita? Lembrando que as duas últimas semanas já foram de diminuição radical da receita e do público aqui nas salas de cinema. Mas é um momento de ter calma para tentar pensar da melhor maneira possível”, pontua Cláudio.

No Circuito Saladearte, Suzana esclarece que a empresa está trabalhando no sentido de minimizar o impacto. “As salas terão que ficar fechadas por 30 dias, segundo decreto do governo do estado”, explica Suzana. “O que a gente pode fazer agora? Dar férias coletivas para os funcionários? Sabemos que vamos tirar os direitos dos funcionários de gozar livremente essas férias, porque, com a quarentena, ele está cerceado até mesmo no direito dele de ir e vir. Mas se nós não fizermos isso, não sabemos se depois a gente sobrevive. Queremos minimizar impactos, reduzir os danos na empresa, mas também não querermos fazer suspensão de contratos de trabalho de ninguém. Não queremos que coisas desse tipo aconteçam, como reduzir salários. Queremos fazer o máximo que puder para minimizar os riscos e os danos sem prejudicar os funcionários. Queremos ter a garantia de que eles terão emprego quando isso tudo acabar”, finaliza.

Sobre os exemplos oriundos de outros locais no aspecto de subsidio governamental voltado para a Cultura, Cláudio Marques é incisivo: “Precisamos pensar em como manter as atividades culturais, como manter os pequenos dentro do comércio, da atividade econômica de uma maneira geral. Caso contrário, vamos ter uma economia totalmente dominada pelos de fora. A estética de fora, o olhar de fora, o dinheiro de fora. E o dinheiro que vai pra fora. Isso em todos os setores”.

CINEMARK E UCI

Seguindo por uma via diferente, a rede Cinemark anunciou um plano de demissão voluntária de seus funcionários ou a opção de um programa de qualificação, no qual o empregado ficaria sem trabalhar, mas teria que realizar cursos on line, e o pagamento do salário ficaria na faixa de até 80%. Tanto a Cinemark quanto a rede UCI, em contato com A Tarde, divulgaram a carta aberta da Feneec (Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas), na qual é feito um pedido aos gestores públicos para que os importantes decretos de fechamento das salas sejam feitos de forma emergencial, por conta da pandemia do coronavírus.

Sobre o imbróglio envolvendo a possível demissão de seu quadro de funcionários sem pagamento de multa rescisória, a Cinemark divulgou a seguinte nota: "Em cumprimento às determinações de fechamento das salas pelas autoridades estaduais e municipais, a Rede Cinemark suspendeu o funcionamento dos cinemas. Diante disso, a Rede iniciou diálogo com seus colaboradores em parceria com o sindicato dos funcionários para encontrar de forma conjunta as melhores alternativas para a administração da crise sanitária e econômica.”

*Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde, dua 19/03/2020


sábado, 14 de março de 2020

Better Call Saul


“Doutor” em Pilantragem



Tendo o respeito pela inteligência do público como prioridade de seu roteiro, Better Call Saul chega à quinta temporada na Netflix fazendo jus à sua genial origem: o marco Breaking Bad

Por João Paulo Barreto

Breaking Bad, pilar da TV no século XXI e série definitiva em termos de construção de roteiro no que tange aos arcos dramáticos de seus protagonistas, trazia Walter White, personagem magistralmente interpretado por Bryan Cranston, em uma perfeita curva dramática de 180 graus a representar todas as violentas mudanças que a sua vida teve em dois anos de trajetória errática.  Refletindo de modo exato o “ficando mau” do seu título original na figura de Walter a se transformar gradativamente no “cozinheiro” de metanfetamina e assassino Heisenberg e, claro, tendo que lidar com as brutais consequências de seus atos, BrBa trazia um brilhantismo na escrita de seu criador, o roteirista e diretor Vince Gilligan. Nesta escrita, era perceptível um respeito pela sua audiência fiel, colocando de maneira crível as situações daquele mundo do crime em paridade às frustrações profissionais de um inteligentíssimo, mas fracassado, White, que se vê, aos 50 anos, com uma esposa grávida, um filho com paralisia cerebral e com a data de sua morte agendada por um câncer devastador.Torcíamos por aquele homem que, devagar, vai ganhando nosso asco e rejeição por seus atos. Assistindo Breaking Bad, o público sentia a segurança de estar diante de um seriado dramático que privilegiava tanto a humanidade de suas figuras centrais (o Jesse Pinkman de Aaron Paul e sua devastação psicológica, por exemplo), quanto a noção de realidade que os profundos temas da série traziam consigo.

Dentro desse variado grupo de personagens inesquecíveis estava Saul Goodman, o competente advogado com um, digamos, flexível código mora. Vivido pelo notório comediante do programa de auditório Saturday Night Live, Bob Odenkirk, Goodman, a partir de sua aparição original na segunda temporada de Breaking Bad, passou a roubar (sem trocadilhos) todas as cenas nas quais participava. Sua sagacidade como advogado só se equiparava com o poder que ele tinha em observar as brechas legais do Direito e como isso o ajudaria a lidar com seus clientes traficantes, assaltantes, espancadores e trambiqueiros em geral, para usar apenas quatro adjetivos. Todos eles culpados, friso. Odenkirk, na pele do asqueroso Goodman, tinha uma personalidade magnética, que levava os olhos dos fãs de Breaking Bad diretamente a ele. Ao acabar a série, no distante setembro de 2013, mais do que um encerramento do perfeito arco dramático de Walter White e da curiosidade pelo que aconteceu a um liberto Jesse (algo que só descobrimos ano passado, no não menos brilhante El Camino), ansiávamos por saber mais da trajetória de Saul Goodman (ou it´s all good, man!, em sua referência à malandragem inerente ao dono daquele pseudônimo).

Jimmy em seu momento de virada para Saul

PARCIMÔNIA E SAGACIDADE

Corta para fevereiro de 2015, e o primeiro episódio de Better Call Saul vai ao ar pela Netflix. Nele, não é o repugnante Saul Goodman que aparece, mas, sim, um adorável Jimmy McGill, o carismático e boa praça advogado que se esforça para ganhar (pouco) dinheiro como defensor público em causas onde os réus são pessoas sem condições financeiras para arcar com os custos processuais gerados pelos seus crimes. Passando-se cinco anos antes dos eventos iniciados em Breaking Bad, Better Call Saul trabalha o desenvolvimento e mutação de seu protagonista de modo parcimonioso. E esse é o ponto mais notável no crescer dessa, digamos, gênese de vários elementos que vimos na outra série criada por Vince Gilligan, que, aqui, tem como co-criador o roteirista e diretor Peter Gould. Não há pressa em criar rimas temáticas forçadas entre as duas séries visando qualquer catarse do fãs. Um dos méritos é uma independência temática e de ritmo entre os programas. Claro que, logo de cara, estão dois queridos e conhecidos personagens: o próprio Goodman (ou Jimmy) e o competente “consultor de segurança” da rede de restaurantes Los Pollos Hermanos, Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks). Mas Gilligan e Gould, juntamente a um azeitado grupo de roteiristas (muitos deles oriundos de Breaking Bad), sabem de modo preciso como construir aquelas pontes entre os seriados.

Vivendo à sombra do peso do nome McGill, que tem na figura do seu irmão mais velho, o renomado e bem sucedido advogado Charles “Chuck” McGill (Michael McKean, o eterno David St. Hubbins, de This is Spinal Tap), a imponência e o respeito social advindo da nata da profissão do Direito, Jimmy é apresentado pela série que leva seu futuro bordão como nome, em uma rotina de trabalhos estafantes e de cuidados pelo irmão doente e semi-aposentado. No carisma e personalidade magnética do homem, além do seu histórico de trambiques e problemas com a lei, um disfarçado atrito com o irmão idoso, que suporta Jimmy por precisar dele, mas não nutre a mínima confiança no caçula. Nessa construção de amor e desprezo, a necessidade da presença de Jimmy em sua vida gera a Chuck uma amarga sensação de manter por perto alguém que precisa estar em constante vigilância devido ao seu histórico de desonestidade. Tendo, hoje, um diploma de advogado, as tendências perigosas de seu irmão mais novo se multiplicam. E essa relação é um dos pontos para entendermos como Jimmy caminhou para se tornar Saul, alguém cuja necessidade de andar na linha já ficou para trás há tempos.

Velhos rostos: Mike e Tio Salamanca

DRAMA PROFUNDO

Nas citadas pontes entre as duas séries, vemos ressurgir pouco a pouco personagens marcantes como Hector “Tio” Salamanca e Gustavo Fring, figuras cujas origens já conhecemos, mas que têm, aqui, seus desenvolvimentos a pavimentar suas personalidades insanas, assassinas e calculistas. Mas é na figura de Mike, o articulador de olhos mortos, mas um adorável vovô preocupado com o futuro da neta, o outro lado de uma balança dramática precisa. Tendo seu passado violento e traumático como o ex-policial que perdeu um filho para colegas corruptos na força, destrinchado de maneira densa pela série, o Mike Ehrmantraut de Better Call Saul dá a Jonathan Banks uma oportunidade de (des)construir aquela figura anti-heróica que aprendemos a amar em Breaking Bad. Em tal desconstrução, a dor do pai que perdeu o filho, mas soube vingá-lo de maneira catártica, é o que é salientado de maneira pontual na melhor origem que a série trouxe logo em sua temporada inicial.

Caminhando para o seu sexto e derradeiro ano em 2021, Better Call Saul se consolida, junto ao recente El Camino, como o terceiro pilar desse universo ficcional indefectível criado por Vince Gillingan há 13 anos. A inteligência do seu público cativo agradece.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 15/03/2020


sábado, 7 de março de 2020

Dois Irmãos



Magia Fraternal



Novo filme da Pixar, Dois Irmãos, ou apenas Seguindo em Frente, em seu motriz título original, traz análise do luto e a superação da perda paterna como sua maior força

Por João Paulo Barreto

Há um aspecto pessoal na labuta da escrita crítica cinematográfica que eu, desde meus primeiros e, convenhamos, constrangedores textos (todos têm um começo, oras...), deixo que se expanda livremente através das palavras colocadas na tela do computador: o modo idiossincrático como um filme me toca. Hoje em dia, porém, nem tanto. As reservas particulares e a antissocial característica de um pessimismo e amargor oriundos da idade chegaram. Mas, no geral, para mim, nestes doze anos de trabalho dentro de uma tentativa de se expressar analiticamente nos aspectos oferecidos por filmes, a ideia de que o modo como uma película lhe toca pessoal, afetiva ou ideologicamente pode, sim, servir como um norte na escrita e na construção de uma análise para o leitor. Isso, claro, unindo tais impressões afetivas a um destrinchar dos aspectos técnicos da obra em questão.

Dois Irmãos, novo filme dos Estúdios Pixar, me remeteu àquele período inicial dentro dessa tentativa de labuta na área da crítica de cinema. Na ocasião, havia perdido meu pai, vitima de um câncer fulminante que lhe tirou a dignidade e a vida no decorrer de extenuantes 14 meses. Vê-lo deixar de ser ele mesmo (frase citada em momento pungente de Dois Irmãos, friso) foi uma das coisas que mais me tornaram introspectivo naqueles meses, há dez anos. Tais sentimentos se expressaram em textos que eu fiz, por exemplo, acerca de Transeunte, obra de Eryk Rocha, e Hugo, de Martin Scorsese. E essa lembrança do modo como o velho Barreto se extinguiu gradativamente surgiu como uma pancada durante a sessão de Onward (em tradução literal, “superando e seguindo em frente”), animação na qual a Pixar, mais uma vez, estilhaça sentimentos e renova corações. Cafona, admito, mas a pura verdade.

Ian em sua introspecção e saudade do pai

HUMOR EMOCIONAL

Aqui, os dois irmãos do título nacional são Ian e Barley Lightfoot, elfos adolescentes em um mundo onde a magia de seres como centuriões, dragões, fadas e unicórnios se extinguiu diante da tecnologia que os tornou obsoletos, e do capitalismo que os tornou opacos em seu brilho. E tudo é apresentado dentro de elipses temporais em um resumo cômico e prático típico do Monty Python. Ian e Barley (dublados por Tom Holland e Chris Pratt), após descobrirem que, utilizando um cajado mágico, podem trazer o falecido pai de volta à vida durante o período de 24h, acabam alcançando tal intento pela metade, ficando com apenas as pernas e cintura do patriarca. As gags visuais na presença dos membros inferiores do pai cumprem a boa parte da “comédia física” do filme, mas é nos detalhes pequenos a representar aquela figura e sua relação nostálgica com os dois garotos que dão mais significado à animação da Pixar.

Nas fotos do pai, Wilden Lightfoot, estão presentes as roupas que rimam precisamente com as que o pequeno Ian tenta emular em um vestígio de lembranças daquele homem que não conheceu. São peças que também aparecem como uma marca do que se vê naquele atrapalhado par de pernas, com suas meias características e seus sapatos a refletir a lembrança que os dois garotos têm do seu velho. A fita K-7, na qual o único registro da voz extrovertida do homem a sorrir serve como consolo momentâneo, se torna um porto seguro para a insegurança do caçula que só ouviu falar daquela figura. Quem nunca se pegou pensando em ou tocando algum objeto pessoal que pertenceu a um ente querido? A Pixar insere isso de modo pungente.

Ian, Barley e seu meio pai em momento de diversão

PESSOAL E CRIATIVO

Independente de todas as suas sequências de risos causadas pelas brincadeiras que o roteiro co-escrito pelo diretor Dan Scanlon (que já havia feito o ótimo Universidade Monstro) cria nas disparidades entre o nosso mundo real, físico e capitalista, e seu encontro com o mágico universo em decadência que o filme traz, Dois Irmãos tem seu pilar exatamente nas reminiscências que a perda de alguém tão querido quanto um bom pai traz ao amadurecimento. Seja no constante esconder de suas dores e frustrações atrás de um senso de humor e carisma gritantes, como aquele que o mais velho Barley tem, ou na introspecção e timidez que o caçula Ian mantém como um escudo

“O que é mais pessoal é sempre o mais criativo”. Essa frase de Scorsese foi citada por Bong Joon-Ho no seu discurso de agradecimento pelo prêmio de Melhor Diretor na cerimônia do Oscar desse ano, momento no qual saudou o mestre quase octogenário. Saber que o diretor Dan Scanlon trouxe para sua escrita exatamente essa falta pessoal que a perda precoce de seu próprio pai lhe causou, torna essa máxima do velho Scorsese tão precisa e emocional quanto Dois Irmãos o é em seu dilacerante (sem exageros) resultado final.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 08/03/2020


sábado, 29 de fevereiro de 2020

Hunters


Caçadores Ingloriosos 


Com o lendário Al Pacino liderando caçadores de nazistas, Hunters, série da Amazon Prime Vídeo, expõe um mal da extrema-direita que, infelizmente, ainda tenta ressurgir

Por João Paulo Barreto

Logo no segundo episódio de Hunters (do inglês, Caçadores), nova série do canal streaming Amazon Prime Vídeo, há uma amistosa conversa entre Meyer Offerman (Al Pacino) e uma “promotora de encontros” (matchmaker, no original) que ajuda o milionário não somente a montar sua equipe de caçadores de nazistas, como, também, tem em suas atribuições unir casais judeus no intuito de diminuir o impacto causado pelo genocídio em massa que aquele povo sofreu na Segunda Guerra Mundial.

O ano em questão é 1977, apenas trinta e duas primaveras desde que as duas bombas atômicas lançadas pelos EUA no Japão encerraram de modo monstruoso o conflito bélico. Em tal conversa, a simpática senhora comemora as uniões que promoveu em seus anos de experiência e cita um número (pouco mais de seiscentos) de pessoas que nasceram desde que iniciou aquela sua missão. “Mas ainda faltam milhões”, ela lamenta para logo depois deixar o otimismo voltar ao dizer que “ainda há tempo”.

Al Pacino: retorno à TV após 17 anos desde 2003 com Angels in America

Para além do catártico modo de conceder à sua audiência o mesmo regozijo que Quentin Tarantino concedeu em sua obra prima de 2009, Bastardos Inglórios, a série em dez episódios  escrita pelo estreante David Weil e com produção executiva de Jordan Peele (Nós e Corra!), apesar de sua premissa de vingança contra os ratos nazistas em um destaque um tanto óbvio de se observar, vai além disso justamente por denotar em sua roupagem o alerta denunciatório de algo que nunca deve ser esquecido. Principalmente em um momento no qual forças da extrema-direita tentam levantar questionamentos tendenciosos quanto à veracidade do Holocausto e busquem rotular desonestamente como meio de ascensão política o nazismo como sendo um movimento de esquerda.

CULTURA POP VS BRUTAL REALIDADE

No formato citado inicialmente, dentro de uma roupagem pop que referencia seu período temporal da segunda metade dos anos 1970, Hunters vai mudando de tom gradativamente no decorrer de seus episódios. Quando conhecemos no seu segundo capítulo todos os integrantes do grupo de caçadores liderados por Pacino, cada um deles é apresentado dentro de vinhetas que remetem a, por exemplo, filmes da Blaxploitation, a seriados como Agente 86, a longas de guerra como Apocalypse Now, tudo em um conceito de resgate da época dentro do cinema e da cultura pop oriunda dos quadrinhos. Algo que contrasta claramente com o peso do tema central de sua premissa.

O grupo de Caçadores se alinha para definir estratégias

Tem-se a impressão de se buscar inserir uma leveza para um assunto denso e sério de se tratar, como campos de concentração e a ainda existência de membros do alto escalão terceiro reich em solo estadunidense trinta anos após a queda de Hitler. Mas tal impressão de frivolidade que se confunde com leveza, a qual se assiste com um riso de dentes trincados, felizmente, vai ficando para trás à medida que se mergulha naquela trama densa na qual Hunters apresenta para sua audiência o peso de sua narrativa.

RECRIAÇÃO FRÍVOLA?

Na recriação dos horrores acontecidos nos campos de concentração, a série parece se perder um pouco em uma tentativa fantasiosa de chocar, como ao inserir um jogo de xadrez humano, no qual prisioneiros eram obrigados a atuar como peças de um tabuleiro e a matar seus “oponentes” (algo de inserção justificada talvez pela rima em vinheta de abertura).

Porém, há uma responsabilidade em qualquer peça de ficção dentro de uma proposta de representação da monstruosidade dos campos de concentração de trazer uma fidelidade denunciatória do que houve. Ao se permitir uma liberdade dramática como essa, Hunters acaba por diminuir a seriedade do que aconteceu nos campos e, por consequência, torna frívolo seu apelo à reflexão em uma peça de entretenimento. Por isso, é com alívio que se percebe a citada mudança de tom que acontece nos episódios seguintes, nos quais a caça aos nazistas ganha maior destaque e os flashbacks dos campos, uma abordagem mais fidedigna e calcada no real.

A cena do xadrez humano: noção de brutalidade banalizada?

ECOS EM 2020

Na história do garoto nova-iorquino judeu que, após perder a avó (uma sobrevivente dos campos) em um assassinato com rastros antissemitas, é recrutado para o grupo de caçadores criado pelo personagem de Pacino, Hunters segue em uma estrutura que assusta por sua capacidade de se assemelhar com um possível real. Com a ideia proposta de um governo como o estadunidense a esconder em seu solo e recrutar as mentes pensantes do nazismo para seu próprio desenvolvimento científico e econômico, a série de Weil, mesmo se passando em 1977, consegue referenciar um século XXI sombrio.

O mesmo século que tem nas ruas pessoas a usar abertamente suásticas em posturas desafiadoras e governos supostamente democráticos que têm em seus discursos argumentos antissemitas, racistas, homofóbicos, misóginos e de intolerância religiosa. A máxima que afirma que quem não conhece o passado está fadado a repetir os mesmos erros no futuro se faz presente, infelizmente.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 01/03/2020




quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

O Homem Invisível


O Mal Bem Visível


Mais um esmero da Blumhouse Produções, O Homem Invisível traz releitura de clássico de 1933 unindo cinema de gênero com uma urgente denúncia ao abuso contra a mulher

Por João Paulo Barreto

Na atualização para os tempos atuais, clássicos cinematográficos de ficção científica, quando recriados, correm grandes riscos de parecerem datados em suas propostas ou ineficientes em uma comparação ao contexto de suas épocas originais. Vide, por exemplo, filmes como O Dia em Que a Terra Parou, marco dirigido por Robert Wise em 1951, e sua versão de 2008, estrelada por Keanu Reeves. Enquanto o primeiro trazia um claro tom denunciatório contra a postura belicista das potências mundiais naqueles anos iniciais da Guerra Fria, quando o fantasma das duas bombas atômicas lançadas apenas seis anos antes ainda assombrava pessoas de todo o planeta, seu remake da década retrasada se rendia a uma simplória proposta de filme de ação. Havia, claro, até um esforço se manter fiel a uma mensagem antibélica, mas todo tom se perdia diante da necessidade do espetáculo visual.  

Adentrando no âmbito dos monstros clássicos da Universal Studios, cujas adaptações da primeira metade do século XX ajudaram a moldar o imaginário dos filmes de terror e ficção científica que viriam a surgir, o cenário não é tão diferente em termos de perda de um frescor (não confundir tal sensação de perda com preciosismo) que as obras originais possuíam. Um exemplo dessa perda são as versões do clássico O Lobisomem, sendo a primeira de 1941 ainda conseguindo construir uma melhor atmosfera de terror que a sua insossa e homônima de 2010.

Cecilia (Elizabeth Moss) em momento chave no sotão

A surpresa, porém, é gigante quando entramos no cinema para encarar uma adaptação de O Homem Invisível, cujo apreço pelo clássico de 1933 dirigido por James Whale é tão grande quanto pelo original literário de H.G. Wells, e percebemos estar diante de uma pérola do horror tanto físico quanto psicológico, bem como uma peça pungente de alerta contra abusos em relacionamentos e contra a violência misógina. Claro que boa parte dessa percepção de sucesso se deve à logomarca da Blumhouse Productions a abrir o longa. Responsável por filmes como Atividade Paranormal, Corra!, A Visita, Fragmentado e Vidro, a empresa de Jason Blum tem dado um revigorante frescor às produções do gênero de horror. Aqui, mais uma vez, não decepcionou.

DENÚNCIA CONTRA MISOGINIA 

Utilizando um roteiro que insere a característica vilanesca de seu personagem título de uma maneira mais orgânica, sem caricaturas, e calcada em uma brutal realidade (no original de 1933, o personagem enlouquece gradativamente por conta da invisibilidade irreversível), o filme de 2020, dirigido por Leigh Whannell, desenvolve tal figura através da perspectiva de sua namorada, Cecilia Kass (Elizabeth Moss).  Vitima de abusos físicos e mentais, a jovem decide fugir do cárcere privado onde era mantida por seu namorado, o milionário empresário e pesquisador do campo da óptica, Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen). E é neste ponto violento e pesado de sua abordagem que O Homem Invisível se diferencia, deixando de ser apenas um filme de ficção científica para se tornar um essencial exemplar de uma união entre o horror e uma temática séria de sua imersão no terror psicológico.

With a Little Help From My Friends: Cecilia busca ajuda

Ao construir sua trama nos tempos atuais, Whannell trouxe para o século XXI não somente o contexto tecnológico de seu personagem título, mas toda uma proposta de alerta dentro de uma questão grave que é a misoginia. E, ainda, além de inserir essa discussão no filme, o roteiro de Whannell desmistifica a postura clichê da presença feminina em filmes de horror. Normalmente vistas como figuras frágeis, manipuláveis e vitimas de dores infringidas por presenças masculinas, a Cecilia de Elizabeth Moss se diferencia por seu pulso firme que, mesmo abalada inicialmente, consegue se sobressair e defender-se diante de tamanha brutalidade contra si.

TÉCNICA E AMBIENTAÇÃO

Na mescla de uma presença física e psicológica, mas com a necessária ausência visual de seu vilão invisível, o diretor Leigh Whannell concede ao espectador uma série de artifícios para desenhar a tensão de sua obra. Sem necessariamente apelar para os sustos fáceis oriundos dos já ultrapassados jump scares (inserções de tons repentinos e altos de trilha sonora ou imagens bruscas para causar impacto na audiência), Whannell prefere trazer seu foco para a sugestão oriunda dessa ausência visual. Assim, contorna a ideia do medo pela “simples” proposta (eficiente aqui, friso) slasher e gore na sanguinolência de seu filme, preferindo causar mais impacto pela sugestão de tais sustos.

E neste trilhar do horror através da sugestão, a presença física de seu vilão vai se desenhando aos poucos em cena. E é bastante recompensador perceber, neste desenhar, as pistas que o cineasta insere de maneira tão orgânica em elementos que se tornarão recompensas centrais para a audiência no desenvolvimento do longa. Dois exemplos são a (apesar de não tão natural) escada com a qual Cecilia presenteia James (Aldis Hodge), o amigo policial que a acolhe; e a cena de maior impacto, quando um extintor de incêndio apresentado em um tenso momento anterior ilustra precisamente este modelo orgânico de pista e recompensa (termo que define artifício do roteiro em plantar elementos em cena) citado anteriormente.
A melhor recompensa, no entanto, é perceber que ainda há vida inteligente no atualmente combalido (e quase rendido a clichês) cinema de gênero.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 28/02/2020




Você Não Estava Aqui


Por esse pão pra comer


Você Não Estava Aqui, de Ken Loach, traz o registro de uma realidade social que nos espelha como reféns do capitalismo e do trabalho como opressor de vidas e mentes

Por João Paulo Barreto

Na carreira do cineasta britânico Ken Loach, a reflexão voltada para o esmagamento do capitalismo perante a vida das pessoas é algo notório. Em seus filmes, uma imersão da audiência dentro do contexto realista social da Inglaterra, e, por identificação, de boa parte do mundo, é inevitável. Desde o começo de sua longa trajetória como diretor de ficções e de documentários para TV e cinema, Loach, hoje com 83 anos, buscou trazer para seu espectador um pensar cinematográfico para além do puro entretenimento, usando suas narrativas como uma oportunidade do público adentrar em textos reflexivos e calcados em situações reais.

Em um ano como o de 2019, onde o Oscar e Hollywood se renderam a Parasita, uma instigante análise da natureza de classes, uma obra como Você Não Estava Aqui delineia a noção de que essa estrada que hoje o brilhante cineasta sul-coreano Bong Joo Ho percorre foi pavimentada pelo veterano Ken Loach, um diretor que nunca foi hipnotizado pelo chamado hollywoodiano. Seus filmes acerca de uma realidade especificamente britânica, mas com aplicações mundiais de certa forma não traduzíveis para plateias estadunidenses, há tempos se apresentam como esse estudo de classe proposto por Bong  em sua obra prima.

Um exemplo, inclusive, de tal impacto da filmografia do cineasta nascido no Reino Unido é a notória mudança da legislação britânica no que tange às obrigações do país perante sua população de rua após a comoção causada por Cathy Come Home, episódio televisivo da BBC que foi ao ar em 1966, escrito e dirigido por Loach. E isso em seu início na profissão de diretor.

Ken Loach no set de Você Não Estava Aqui

POR ESSE CHÃO PRA DORMIR

No decorrer desses mais de cinquenta anos de cinema e TV, ele continuou a oferecer à sua audiência maneiras de percebermos para além dos próprios umbigos. Seja em temas como o preconceito em relacionamentos entre pessoas de etnias diferentes (Apenas um Beijo), relacionamentos em uma superação da vida sob o julgo do trabalho e sua ausência (Meu Nome é Joe) e, mais recentemente, com uma de suas mais impactantes obras a abordar a crueldade do estado e sua burocracia que, junto com o capitalismo brutal, esmaga cidadãos: Eu, Daniel Blake, filme de 2016 que ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Na obra, uma visita ao inferno da “vida” após décadas de labor, quando o personagem título, um idoso que tem sua pensão da aposentadoria colocada em risco pela burocracia britânica, tenta não sucumbir àquele purgatório social.

Mantendo o mesmo registro quase documental e de proximidade realista na rotina e interações de seus personagens, em Você Não Estava Aqui, o que temos, dentro de uma imaginação do espectador familiarizado com a filmografia de Loach, é um registro da juventude de alguém como Daniel Blake, quando as forças dos trinta e poucos anos ainda possui vigor e os sonhos ainda existem no seu horizonte. Força esta que, aos poucos, se esvai.

Ricky (Kris Hitchen) em momento de decisão quanto a gastar dinheiro que não tem

Esforçando-se para manter sua família alimentada e abrigada, Ricky Turner consegue um trabalho como entregador em uma transportadora. Em sua jornada de 14 horas diárias, mantém um apertado cronograma no qual qualquer atraso ou necessidade de se ausentar significam multas que ele tem que pagar do próprio bolso. Em um inútil orgulho, afirma na entrevista que nunca deu entrada em seguro desemprego. “Prefiro morrer antes”, uma frase que delineia a mentalidade posta numa coleira social estupidamente orgulhosa e submissa. Lembra muito o personagem do cavalo, no clássico A Revolução dos Bichos, de George Orwell, outro britânico a perceber já há muito tempo como essa coleira funciona.

POR ME DEIXAR RESPIRAR

Sua esposa, Abbie, que trabalha como cuidadora de idosos, tem, também, uma extenuante rotina em visitas a casas de pessoas solitárias que, literalmente, precisam de sua presença para sobreviver. Mantendo um equilíbrio emocional constante (algo imprescindível para seu emprego), Abbie ainda lida com o filho adolescente rebelde e com a filha precocemente abalada pela maturidade que chega. E o faz sem a armadilha fácil da hostilidade autoritária e buscando sempre um diálogo com ambos. Nesse quadro, há a já clichê e injusta imagem da mulher colocada como o bastião do equilíbrio emocional em um relacionamento. Porém, tal impressão fica para trás quando, no ápice de sua frustração e pressão psicológica sofrida diante das diversas situações que os problemas familiares lhe trazem, Abbie, como qualquer ser humano, alcança seu limite.

Abbie Turner (Debbie Honeywood) em sua rotina de cuidadora de idosos

Analisando o contexto de um ambiente familiar em dificuldades financeiras, Você Não Estava Aqui (em versão portuguesa, o Sorry, we missed you dos cartões referenciando uma entrega não realizada), com seu título a criar uma eficiente metáfora entre a necessidade do trabalho na vida de Ricky e uma relação da ausência justificada do pai nos problemas de sua família, o filme de Ken Loach, com seu poderoso e impressionante desfecho, nos dá muito a refletir sobre a opressão que abraça a quase todos no mundo.

O termo “quase”, aqui, refere-se àqueles a quem tal opressão serve justamente como ferramenta de sobrevivência no topo dessa pirâmide social. E de um Estado conivente com tal opressão que, de modo direto, o permite surfar e se perpetuar nesse status que alimenta poucos, mas que usa a força de muitos para se manter como está. E muitos aqui embaixo são obrigados a dizer “por me deixar existir, Deus lhe pague”.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 27/02/2020