sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Depois da Chuva e a desilusão de uma geração


Por João Paulo Barreto

Depois da Chuva, primeiro longa metragem dos cineastas Cláudio Marques e Marília Hughes, estreou essa semana. Justamente no primeiro mês que o Brasil se vê livre de um dos últimos tumores da época que o longa aborda. José Ribamar Sarney, um dos suportes do golpe militar de 1964, e símbolo da continuidade política imposta pelo regime na abertura de vinte anos depois, saiu da cena pública ao não se reeleger para o senado em 2014.

No longa, a figura oportunista de Sarney está representada pelo seu homônimo, Ribamar (Victor Corujeira), personagem que denota em sua personalidade ainda um pouco da inocência juvenil, mas cujo interesse pernicioso de ascensão social decorrente da influência de amizades poderosas já é notável.

“É o nascimento de um corrupto”, pontua o co-diretor Cláudio Marques. “O outro que vemos é o Paulo (Ricardo Pisani), nossa homenagem ao Paulo Maluf. Você observa que o Paulo é mais pesado, autoritário. Uma caricatura em cena. Isso ficou mais evidente. Ele já é um corrupto. O Ribamar é mais sutil. Vai se tornar aos poucos o corrupto que conhecemos”, explica.

Ribamar e Paulo tentam ganhar os votos dos alunos. Foto: Agnes Cajaiba
São jovens estudantes interessados na criação de um grêmio estudantil no colégio em 1984, período marcado pelo fim da ditadura militar no Brasil. Caio (Pedro Maia) é um dissidente dessa turma, mas um dos poucos com a real percepção do que realmente significa aquele momento histórico. Na Salvador daquele ano marcante, passa os seus dias com os dois amigos mais velhos, Tales (Talis Castro) e Sara (Paula Carneiro), influências poderosas na sua formação de ideias e visão de mundo. A desilusão, no entanto, é palpável. A anarquia como pilar de vida se choca diretamente com a falta de esperança naquele país que surge.

Vendo o filme pela segunda vez na pré-estreia dessa semana (a primeira foi em 2013, logo após os prêmios alcançados no Festival de Brasília), foi palpável a percepção do impacto dessa obra para o atual contexto nacional. Após as manifestações que marcaram o país há um ano e meio, diversos estados brasileiros optaram por manter os mesmos representantes políticos que os levaram a protestar contra. É desse tipo de desilusão que o filme trata. Mesmo após a abertura, durante os últimos 30 anos, estivemos presos em um ciclo vicioso de trocas de cargos por figuras de uma mesma estirpe. Personagens principais (e suas variações) de uma fase sombria pela qual o Brasil passou.

Nessa desilusão vive o personagem Tales, mentor e amigo do protagonista Caio. Em sua personalidade, está uma vontade de mudança, uma revolta escancarada pela percepção de que aquela farsa da abertura política não passa realmente disso: uma farsa. Os poderosos que vão mexer as marionetes são os mesmos. E Tales sabe disso. Sua figura séria, de olhar soturno e comportamento introspectivo reflete esse conhecimento. Mas ele luta para manter um foco no poder da indignação. Na ação popular. Com os dois amigos, invade a faixa de rádio com uma transmissão pirata que esclarece a ilusão que aquele novo cenário representa e busca distribuir na escola de Caio o zine “Inimigo do Rei”, falando justamente sobre essa “Demencracia” que o garoto abordou em sua redação censurada com uma nota zero.

Talis Castro em cena de Depois da Chuva. Foto: Agnes Cajaíba
Talis Castro afirma ser bem diferente do seu personagem quase homônimo e que, por isso, sua construção foi um processo bem desafiador. "Primeiro pela carga dramática, segundo pela sua representatividade dentro da trama e terceiro pela linguagem do cinema, a qual não estava familiarizado”, explica o jovem ator, que tem em Depois da Chuva sua estreia no cinema. No entanto, acreditar na mudança é algo que os dois têm em comum “O que realmente me aproxima dele é o credo nos movimentos coletivos, na força popular enquanto organização política e que as mudanças estão nas pequenas atitudes, individuais, do dia-a-dia", complementa.

Oriundo dos palcos, Talis caminha bem em diversos estilos, como a comédia,o stand up, o drama e o teatro infantil. Convidado pelos diretores Cláudio Marques e Marília Hughes para o papel em Depois da Chuva, Talis afirma que estrear nas telas foi a realização de um sonho e que pretende continuar a se aventurar tanto no tablado quanto nas telas. “Minha prioridade é atuar. O teatro foi o meu primeiro contato com esta arte, e adoro fazer. Nele encontrei maiores oportunidades e consegui construir uma carreira bacana que me possibilitou dialogar com diversas linguagens”, afirma.

Sobre a aprendizagem constante na atuação, tanto no teatro quanto no audiovisual, o ator afirma ter se apaixonado ainda mais pelo cinema após o trabalho com os diretores. “Eles sabiam exatamente o que queriam em termos de atuação, e nos encaminhavam muito bem para este ‘tom’ que o filme tem. São muito atenciosos, generosos e souberam conduzir tudo com maestria, nos dando liberdade para criar e sempre dando o caminho a seguir. Espero encontrá-los em breve em mais uma produção”, diz Talis.

O ator lamenta que as oportunidades na área sejam poucas em Salvador, mas garante que, mesmo tendo uma carreira construída nos palcos, busca outras chances no campo do audiovisual, tanto no cinema quanto na TV. “Espero que o filme abra caminhos para novos trabalhos. E ouso dizer que, mais para frente, quero dirigir cinema.”, surpreende.

Os diretores durante as gravações. Foto: Agnes Cajaíba
Gravado em 2012, Depois da Chuva correu mais de 30 festivais em 14 países, demonstrando uma estratégia de divulgação arriscada, mas que, no final, provou-se certeira. “Foi um planejamento, sim, mas muito arriscado. Já imaginou se o filme não entrasse nessa quantidade de festivais? Era um risco. Mas funcionou”, explica o co-diretor Cláudio Marques. “Os festivais que nós mais queríamos, nós conseguimos. Queríamos estrear em Brasília, estreamos. Queríamos estrear no festival de Rotterdam, conseguimos. Argentina, circuito de festivais nos Estados Unidos, cinemateca de Paris, enfim, foi arriscado, mas conseguimos”, finaliza.

Alcançando uma distribuição nacional que, apesar de não ter o número de salas que as bobagens produzidas pela Globo Filmes alcança, Depois da Chuva chega a diversas capitais do Brasil com uma bagagem grande, fruto justamente dessa grande temporada de festivais mundo afora. O tema distribuição, inclusive, foi um dos pontos abordados pelo cineasta ao falar dos percalços na luta para lançar o longa. “Adhemar Oliveira, meu sócio aqui no Espaço Itaú de Cinema, foi a primeira pessoa para quem eu mostrei o filme. Ele é o único cara que faz política de exibição para o filme nacional no Brasil. Ele é distribuidor e exibidor. A quantidade de filmes nacionais que ele faz questão de sustentar em cartaz é incrível. Bancando até quando não tem público”, explica Cláudio, que foi responsável pela abertura do então Espaço Unibanco de Cinema em 2008, um local histórico por abrigar o Cine Glauber Rocha (antigo Guarani) e que estava fadado a se tornar uma igreja evangélica.

Para o cineasta, a presença de Adhemar foi crucial nesse lançamento e na sustentação de diversos filmes nacionais em cartaz. “Lembro-me de ter mostrado o Depois da Chuva para ele e a frase que ele disse ao terminar o longa foi incrível: ‘Cláudio, seu filme me fez ter saudade de ser jovem’”, lembra o cineasta e exibidor. Mesmo contando com essa parceria, Cláudio Marques lamenta o fato de que, em outras capitais, a dificuldade de conseguir salas foi imensa. “No Rio de Janeiro, por exemplo, nós só conseguimos a sala do Adhemar”, explica.

Inovando por exibir um cinema que foge do clichê usual com o qual a Bahia é ambientada no audiovisual e, o mais importante, trazendo seu foco para uma época pouco abordada pelo cinema nacional, Depois da Chuva representa um frescor para a filmografia brasileira, uma força jovem que, da mesma forma que Tales e Caio, batalham por uma mudança de paradigmas e fogem da mesmice.

Em um Brasil que parece nunca alcançar a reforma tão almejada em seu cenário político, a ocasião de seu lançamento acaba sendo a melhor possível, quando o país se livra de um dos seus cânceres no Senado em Brasília. Ainda restam vários, mas um dos mais antigos já foi extirpado.






terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Mostra Orson Welles na Sala Walter

Em mais uma mostra promovida em parceria com o Sesc Bahia, a Sala Walter da Silveira realiza a partir dessa quinta-feira uma retrospectiva em homenagem a Orson Welles. Confira abaixo a programação divulgada através de release.

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Mostra dedicada ao grande cineasta norte-americano acontece de 15 a 21 de janeiro, com entrada gratuita

Paradigma do cinema moderno, Orson Welles foi quem desencadeou, em retrospectiva, o que hoje conhecemos como “a política dos autores”. No seio da indústria hollywoodiana, experimentou o controle total sobre o filme, tal como uma escrita pessoal, para em seguida ser exilado de tudo o que conquistou, de si mesmo e da aura que construiu em torno da sua figura cinematográfica. O público de Salvador poderá conferir, entre os dias 15 e 21 de janeiro, quase a totalidade da obra desse importante cineasta. Filmes como “Cidadão Kane”, “O Processo”, “A Dama de Shangai” e “Verdades e Mentiras” serão exibidos na Sala Walter da Silveira, com entrada gratuita.

A mostra “O Cinema de Orson Welles” é promovida pelo Sesc Bahia em parceria com a Dimas. Confira a programação completa.


De 15 a 21 de janeiro de 2015
Realização: Sesc/ Bahia

Entrada franca

Programação

Dia 15/1
18h


Dom Quixote (Don quijote, EUA, 1992 )
Direção: Orson Welles
Duração: 116 minutos
Elenco: Francisco Reiguera, Akim Tamiroff e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Após ler muitos romances sobre cavaleiros e suas histórias
heróicas, Dom Quixote decide viajar pelas estradas da Espanha junto
com seu escudeiro Sancho Pança para proteger os fracos e fazer
caridades. Mas o mundo real não é tão mágico quanto ele imagina.

Dia 16/1
16h


Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941)
Direção: Orson Welles
Duração: 119 minutos
Elenco: George Coulouris, William Allandf e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - A ascensão de um mito da imprensa americana, de garoto pobre no interior a magnata de um império dos meios de comunicação. Inspirado na vida do milionário William Randolph Hearst.

Dia 17/1
16h e 18h


Soberba (The Magnificent Ambersons, EUA, 1942)
Direção: Orson Welles
Duração: 88 minutos
Elenco: Joseph Cotten, Agnes Moorehead e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - A família Amberson vive em Indianápolis, no finalzinho do século XIX e reluta em acompanhar as evoluções do mundo. Isabel (Dolores Costello) não quer se casar com Eugene (Joseph Cotten), um rapaz por quem está apaixonada, por causa do preconceito social, e acaba se casando com outro, ao qual não ama. Após algum tempo, Eugene se torna um rico homem de negócios, e retorna à cidade com sua filha Lucy. Isabel está viúva, e o amor entre os dois reacende, apesar de George (Tim Holt) fazer de tudo para sabotá-lo.

Dia 18/1
16h


Mr. Arkadin (Mr. Arkadin, EUA, 1955)
Direção: Orson Welles
Duração: 93 minutos
Elenco: Michael Redgrave, Patricia Medina e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Reclamando de amnésia, o milionário Arkadin contrata o detetive Guy Von Straten para investigar seu passado. Quando a procura de Straten por todo mundo revela a sórdida origem da fortuna de
Arkadin, testemunhas começam a morrer.

18h

A Marca da Maldade (Touch of Evil, EUA, 1958)
Direção: Orson Welles
Duração: 95 minutos
Elenco: Janet Leigh, Charlton Heston e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Ao investigar um assassinato, Ramon Miguel Vargas (Charlton Heston), um chefe de polícia mexicano em lua-de-mel em uma pequena cidade da fronteira dos Estados Unidos com o México, entra em choque com Hank Quinlan (Orson Welles), um corrupto detetive americano que utiliza qualquer meio para manter o controle da situação. 


Dia 19/1
16h e 18h


A Dama de Shanghai (The Lady From Shanghai, EUA, 1948)
Direção: Orson Welles
Duração: 87minutos
Elenco: Rita Hayworth, Everett Sloane e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Michael O'Hara (Orson Welles) é um marinheiro que vê a bela Elsa Bannister (Rita Hayworth) passeando de charrete no parque. Ele a ajuda quando ela é assaltada por três homens, levando-a até seu carro. No dia seguinte Michael recebe a visita de Arthur Bannister (Everet Sloane), marido de Elsa e um advogado criminalista consagrado, que deseja que ele trabalhe em seu iate durante uma viagem que o casal fará. Inicialmente relutante Michael aceita o trabalho devido à atração que sente por Elsa. Na viagem também está George Grisby (Glenn Anders), sócio de Arthur, que oferece a Michael US$ 5 mil caso ele mate o milionário.

Dia 20/1
16h


O Estranho (The stranger, EUA, 1946)
Direção: Orson Welles
Duração: 95 minutos
Elenco: Edward G. Robinson , Loretta Young e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - O detetive Wilson (Edward G. Robinson), da Comissão de Crimes de Guerra, deve encontrar o nazista Franz Kindler, idealizador dos campos de extermínio. Acompanhando de Meinike (Konstantin Shayne), que conheceu pessoalmente o criminoso, Wilson segue as pistas que levam até uma cidade universitária em Connecticut, onde vive o perfeito e insuspeito casal Charles Rankin (Orson Welles) e Mary Longstreet (Loretta Young).

18h

O Processo (The Trial, Alemanha, 1962)
Direção: Orson Welles
Duração: 118 minutos
Elenco: Anthony Perkins, Jeanne Moreau e Romy Schneider
Classificação: Livre




Sinopse - Joseph K. (Anthony Perkins) é um homem reservado, que vive na pensão da senhora Grubach (Madeleine Robinson) e se dá bem com todos os demais moradores do local. Um dia ele é acordado por um inspetor de polícia (Arnoldo Foà), que lhe informa que está preso, mas não o leva sob custódia. Durante o processo, Joseph segue com suas atividades normais, tendo apenas que ficar à disposição das autoridades a qualquer hora do dia. Incomodado por não saber do que está sendo acusado, ele decide investigar em busca de uma resposta.

Dia 21/1
16h e 18h



Verdades e Mentiras (F For Fake , Alemanha/EUA ,1973)
Direção: Orson Welles
Duração: 85 minutos
Elenco: Oja Kodar e Orson Welles
Classificação: Livre



Sinopse - Nesse último filme dirigido por Orson Welles, ele desmistifica um grupo de falsificadores. Elmyr de Hory, perito em cópias de quadros famosos, e seu confidente Clifford, responsável pela biografia de Howard Hughes que é lembrada como a maior falsificação da década de 70. Welles se coloca em meio aos dois e desvenda as verdades e mentiras existentes nos diversos tipos de arte .

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Boyhood

(EUA, 2013) Direção: Richard Linklater. Com Ellar Coltrane, Patrícia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater.


Por João Paulo Barreto

A infância e adolescência, quando olhadas em retrospecto, nos parecem as melhores fases de nossas vidas. Em momentos de introspecção, olhar para trás sempre causa aquele sentimento curioso de saudade, acompanhada por um sorriso de canto de boca, um fugaz brilho nos olhos e um amargo despertar para a realidade atual, que, invariavelmente, nos faz perceber que era no passado que nossa felicidade estava.

Claro, o parágrafo acima faz parte daquela ilusão que vem atrelada à nostalgia. Aquela ideia de que, no período em que não tínhamos preocupações, contas a pagar e responsabilidades pesadas a cumprir, nossas vidas eram mais felizes. Pode até funcionar para algumas pessoas, mas, quando a maturidade chega, nem sempre essa variação romântica da vida permanece. Mas, enfim, é possível que isso seja apenas uma reflexão amarga.

No entanto, Boyhood, perfeição costurada pelo diretor Richard Linklater no decorrer de doze anos, nos faz pensar com mais carinho e doçura sobre nossos dias de juventude, quando constatações inocentes de um menino sobre o surgimento de mariposas nos espirros vão, gradativamente, se tornando, na adolescência, perguntas existenciais sobre o sentido da vida. É aquele tipo de filme tão cativante que te permite adentrar de modo completo na vida de seus personagens e, ao final, fica difícil deixá-los para trás quando a luz se acende.

Rigidez e doçura: Patricia Arquette vive a mãe do pequeno Mason
Narrando a vida do garoto Mason (o pequeno autor das questões citadas antes) entre os seis e os 18 anos de idade, Linklater conseguiu apresentar uma obra concisa, enxuta, que, apesar de sua duração acima da média, consegue manter o espectador atento, levando-o por todas as fases da juventude do menino sem se tornar maçante ou enfadonho. Já é notório o fato de que o diretor usou os mesmos atores durante todos os 12 anos de gravação, reunindo-os uma vez por ano para gravação de novas cenas. Além da percepção de observarmos o protagonista crescer cena após cena de forma tão natural e orgânica, com elipses precisas, sem fades, flashbacks desnecessários ou montagem complexa, é o impacto da passagem do tempo na vida dos adultos nos leva a essa reflexão citada antes sobre o gosto amargo que ela pode deixar.

Não somente as mudanças físicas, como, por exemplo, as que a personagem de Patrícia Arquette teve no decorrer do período, mas as mudanças psicológicas que os traumas de casamentos fracassados, divórcios dolorosos, homens de personalidade difícil e, às vezes, até violentos trouxeram. No decorrer do tempo, suas posições firmes junto ao casal de filhos e a constante busca por melhorias em suas vidas, denotam em sua personagem essa força que a coloca como um pilar na vida deles, mas que, em sua última e mais tocante cena, não resiste às lágrimas ao perceber que o final de um ciclo na sua vida familiar chegara ao fim.

Mason sir e Jr. dividem uma juventude que parece se confundir
No papel do pai de Mason, o amigo e parceiro de longa data de Linklater, Ethan Hawke traz para seu personagem aquela descontração que pais jovens parecem possuir de forma natural, sem a necessidade de forçar um estereótipo moderninho para agradar os filhos pré-adolescentes. Ele é naturalmente assim. Afinal, tornou-se pai por acidente aos 22 anos e continuou com a mesma personalidade jovial que, apesar de transparecer uma postura irresponsável, garante a ele uma melhor aproximação do casal de filhos em conversas acerca de sexualidade e outros temas espinhosos na relação paterna.

Coube a ele uma das cenas mais belas do filme, quando presenteia o adolescente com uma compilação das melhores músicas dos quatro Beatles em suas carreiras solo e traz uma  precisa explicação da razão para a banda ter feito tanto sucesso. É o aniversário de 15 anos de Mason. Ele está indo passar o dia com o pai e sua nova mulher, que já tem um bebê e parece ter colocado a vida de seu velho no eixo. É um momento que representa bem a cultura do Texas, estado onde se passa o filme. Neste dia, Mason ganhou de presente uma espingarda e uma bíblia. Nada mais de acordo.

Essa fase da vida do adolescente e de seu pai representa bem as mudanças que as pessoas podem sofrer no decorrer de uma década. Mason sir, antes um garotão de trinta e poucos, agora sustenta um bigodão formal, se veste de modo um tanto carola e procura seguir as opções religiosas de sua esposa e sogros. No entanto, lá ainda está um pouco daquele sujeito aventureiro, ainda desprendido de muitas ambições, mas que sabe que, apesar de estar encerrando um ciclo de criação, tem outro pela frente com seu novo bebê.

Maturidade chega para pai e filho
Sobre Mason, o que mais chama atenção é sua personalidade calma, seu modo reflexivo de encarar o mundo que o cerca sem deixar que as coisas que possam machucá-lo ganhem muita importância. A atuação de Ellar Coltrane evolui de uma espontaneidade  infantil para um jeito sempre introspectivo de observar o mundo à sua volta. Crescendo juntamente com seu personagem, Coltrane acerta em manter uma atuação discreta, de voz calma: um adolescente que não chega a ser antissocial, mas que não deixa que nenhuma agressividade do ambiente ao seu redor lhe afete.

Mais do que um registro da vida de uma família ao longo de 12 anos, Boyhood é uma registro histórico da década passada. Com sua trilha sonora a passear por diversas músicas icônicas dos anos 2000, como Wilco e Coldplay, além de alguns clássicos, como Band  on the Run, de Paul McCartney, o roteiro de Linklater marca sua passagem do tempo com  inserções sutis, como quando vemos Mason sir fazer campanha contra a reeleição de George W. Bush em 2004; a favor da eleição de Barack Obama ou ainda quando cita postagens do Facebook para aconselhar sua filha adolescente em seus relacionamentos amorosos.

Mason e seu constante (e pertinente) questionamento da vida
Neste aspecto, vale citar que o longa se vale de um modo já comum na filmografia de seu cineasta. Galgado em diálogos, Boyhood remete bastante à trilogia do Antes, filmes estrelados pelo próprio Ethan Hawke e por Julie Delpy, sob a batuta de Linklater. Diversos momentos nos fazem pensar no jovem Jesse, um dos protagonistas da trilogia, em suas conversas com Celine. Vide o momento em que Mason conversa com sua namorada sobre a futilidade do Facebook; ou quando está caminhando em direção a faculdade onde a mãe leciona e encontra com uma colega de sala e o papo se equilibra entre livros preferidos e potenciais relacionamentos; ou, para fechar, no belíssimo diálogo final acerca da busca irrefreável do ser humano em aproveitar o momento.

Acompanhar 12 anos da vida de um garoto como Mason acaba por nos fazer pensar a respeito de nossa própria vida e no modo como podemos acabar não percebendo a forma como a passagem do tempo pode, para o bem ou para o mal, nos afetar. 



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Cineclube Glauber Rocha - Monty Python e O Sentido da Vida


*Fotos do evento: Lara Carvalho

E aí as luzes se apagam e uma série de situações nonsenses e surreais começam a bombardear as retinas e mentes dos espectadores da oitava edição do Cineclube Glauber Rocha. Ontem foi dia de descobrir o Sentido da Vida com um grupo de cinco malucos britânicos e um americano. O Monty Python deu o ar de sua graça em uma sessão cujas gargalhadas e “whatafucks??” ressoaram quase que indefinidamente durante aqueles breves 100 minutos de filme.

Como o nome já diz, nesse terceiro longa metragem, os malandros venderam a ideia de que iam nos entregar as respostas para as perguntas que movem o universo. Para onde vamos? De onde viemos? Qual o razão de tudo isso? Mas, claro, pura picaretagem e desculpa para nos presentear com as situações mais esdrúxulas carregadas de um cinismo fino e uma inclemente crítica a instituições como o governo e a igreja católica. Principalmente a igreja católica.

Família grande e os dogmas da igreja católica
Em um dos esquetes iniciais, o filme traz uma família católica com dezenas de filhos e a impossibilidade de criá-los. A culpa? De certa instituição milenar que não permite que os seus seguidores usem camisinha, pregando que todo esperma é sagrado e Deus sabe muito bem se você anda desperdiçando-o por aí. Enquanto as crianças, em um caminhar sofrido e desanimado, são destinadas para pesquisa científica, já que o pai não pode criá-las, vemos o vizinho protestante olhar pela janela e defender a ideia de que, em seu credo, ele pode ir em qualquer farmácia e comprar um preservativo. Mesmo que só tenha feito sexo com a esposa duas vezes. E tenha dois filhos com ela.

Na escola, antes da aula PRÁTICA de educação sexual (!!), uma oração na qual o padre se resume a salientar e admirar a grandeza de Deus (“Oh senhor, como você é grande! Como você é enorme! Super!”). Mais uma alfinetada na igreja. Na tal aula, John Cleese apresenta as regras de como excitar e fazer sexo com a mulher, enquanto desinteressados alunos são forçados a prestar atenção.

Educação sexual prática
O filme segue de esquete em esquete, apresentando, em algumas, conceitos que podem ser relacionados ao tema central da obra e alternando com outros sem qualquer relação ao tal sentido da vida. É o caso da escatológica sequência com o obeso Sr. Creosote, que vomita no salão de um restaurante, causando asco (e vômitos) em todos os clientes. Até o momento em que ele, literalmente, explode de tanto comer. A cena, inclusive, quase foi excluída por conta do teor escatológico, mas acabou sendo mantida, pois se percebeu que a graça estava no personagem do garçom vivido por Cleese e nas confissões filosóficas do seu colega, Gaston (Eric Idle).

Oriundos da TV e seu programa Flyng Circus, os Pythons voltam à sua estrutura televisa após dois longas com estrutura narrativa convencional (A Vida de Brian e Em Busca do Cálice Sagrado), mas, ainda assim, os diretores Terry Jones e Terry Gilliam (este dirigiu o curta-metragem prólogo que abre o filme) conseguem explorar bem essa migração para o cinema em enquadramentos criativos, como o que mostra as crianças deixando a casa enquanto, em primeiro plano, vemos o casal protestante conversar. Outro ponto que se destaca é a montagem do curta The Crimson Permanent Assurance, dirigindo por Gilliam, que abre o filme. Combinando bem o uso de maquetes e cenários de tamanho real, o filme consegue equilibrar essa mescla fazendo graça da percepção óbvia do espectador quanto a suas dimensões.

Plateia atenta. Hora de falar dos doidos do Python
Na sessão de ontem, ficou evidente para o público presente essa não obrigatoriedade do filme em se levar a sério. São os Pythons, ora essa. No entanto, por debaixo desse verniz surreal, uma relevante observação da realidade é colocada em evidência. Em uma Inglaterra recém maculada pela Guerra das Malvinas (o filme é de 1983), o tipo de crítica que é feito ao exército inglês em três dos esquetes vistos, faz o filme crescer ainda mais em sua importância, como bem pontuou um dos curadores do Cineclube, Cláudio Marques, no debate pós sessão.

No debate, pertinentes observações feitas pelo teólogo e amigo Vitor Sousa ajudaram a ilustrar bem as questões religiosas levantadas pelos seis comediantes. Mesmo mantendo a linha debochada, o texto apresenta um respaldo histórico embasado, citando Lutero, por exemplo. No céu dos Pythons, inclusive, cabem todos, como observou Vitor em sua fala.

Difícil não sorrir enquanto se fala acerca de uma trupe dessas
Ao final, a resposta ao sentido da vida não poderia ser mais de acordo com nossa realidade de guerras, racismo e homofobia. “Tente ser gentil com as pessoas e viva em paz e harmonia com as pessoas de diferentes credos e nações”. E não é que se déssemos ouvidos aos doidos 31 anos atrás as coisas hoje poderiam ser diferentes?

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Cineclube Glauber Rocha - Era uma vez no Oeste


Fotos do evento: Lara Carvalho

Falar em público é complicado. Falar em público sobre um gênero tão rico quanto o Western é ainda mais complicado. Agora, imagina falar em público sobre Sergio Leone e sua obra máxima, Era uma vez no Oeste. A noite de 26 de agosto, no Itaú Glauber Rocha, teve momentos de pura imersão cinematográfica, encantamento diante de tamanha perfeição de um filme e, digamos, momentâneo pânico pelo fato de precisar exprimir ideias acerca de um artista que tanto admiro quanto Sergio Leone em frente a uma platéia atenta. Mas, nada que não passasse em poucos minutos após o debate engrenar da forma como ele foi planejado.


Público presente para o debate pós filme
A proposta sensacional do Cineclube Glauber Rocha de reunir um público apaixonado por cinema, uma obra marcante em condições fantásticas de áudio e imagem, e alguém para conduzir o encadeamento de ideias sobre aquele trabalho, já se consolida nesta sexta sessão. Com o formato planejado pelas produtoras Tais Bichara e Lara Carvalho, e pelos curadores Cláudio Marques e Marília Hughes, e que remete ao Cineclube original da década de 1950 que o então Cine Guarani possuía sob a batuta do crítico Walter da Silveira, o nosso atual Cineclube é o que de melhor se encontra no leque de opções cinéfilas de Salvador.

Breve nervosismo diante de um tema tão grandiosos quanto Sergio Leone

Pouco antes do papo pós filme começar, lembrei que, coincidentemente, exatos quatro meses antes eu havia conversado pela última vez com João Carlos Sampaio. O papo aconteceu ali mesmo, no Espaço Itaú Glauber Rocha. Papeamos sobre diversos assuntos e, claro, sobre o cineclube, que começaria na semana seguinte com a exibição de Laranja Mecânica, do Kubrick, e debate mediado pelo próprio João. Eu, já um tanto ansioso pela ocasião de me postar em frente à plateia, perguntei a JC como ele, que já tinha tantos anos de prática, fazia. A resposta não poderia ter sido melhor ou mais de acordo com a personalidade adorável de Janjão: “Eu sei lá, nego. Apenas chego lá na frente e falo”, ele disse, com aquele sorriso de canto de boca que lhe era tão característico. Eu apenas sorri e entendi o recado. Bastava manter a calma (difícil) e expressar as impressões sobre a obra. Disse a João que o projeto era foda. Sensacional, mesmo. Ele concordou e falou algo ainda mais de acordo com seu senso de humor único: “pois é, nego. A ideia é muito boa, mesmo. Reunir um público antenado e chamar gente com carisma, cinesmática e bacana para explanar sobre os filmes exibidos é algo sensacional. Pena que não acharam ninguém e tiveram que chamar você, eu, Rafael Saraiva, Rafael Carvalho...”. Esse era o João que eu tanto admirava. E foi legal ter pensado nele no momento em que eu me postei lá na frente.

Harmônica e Cheyenne: vingança soturna e carisma irônico
A exibição de Era uma vez no Oeste foi como um retorno pra casa. Já é clichê dizer que é no cinema que obras como essa devem ser testemunhadas. Mas são poucas as que seguem tão à risca esse condicionamento. As marcas do modo Sergio Leone de se fazer cinema estão incrivelmente evidentes neste filme. E vê-las naquela tela gigante da Sala 1 do Espaço Itaú Glauber Rocha nos traz a percepção completa deste modo obrigatório de testemunho. As panorâmicas do Monuent Valley mostrando as intenções de Leone em prestar, com seu filme, um tributo a mestres anteriores como John Ford e Howard Hawks; os supercloses sinônimos de seu nome como cineasta; as marcas pesadas nos rostos de Charles Bronson, Henry Fonda e Jason Robbards denotando justamente a história de vida marcada pela violência daqueles personagens. Claro, há, também, a beleza estonteante de Claudia Cardinale, que parece nunca ter estado tão linda quanto neste filme. E, obviamente, os quatro temas musicais criados por Enio Morricone, um para cada protagonista, conseguem oscilar de forma sublime entre a emoção de Jill, a ex-prostituta vivida por Cardinale; a tensão que a vingança perpetrada por Harmônica (o matador vivido por Bronson); o terror da presença de Frank, o assassino encarnado por Fonda, e o toque de comédia que Cheyenne (Robards) traz em seu personagem. As músicas são orgânicas e criam uma identificação com cada um deles, destacando cada tema.

Estonteante: Claudia Cardinale nunca esteve tão linda
Não bastando somente os temas musicais, Morricone traz em seu trabalho um desenho de som inspirador, que valoriza este elemento de modo primordial, criando sequências como a de abertura, quando quase treze minutos de filme são preenchidos somente com sons diegéticos oriundos apenas dos elementos materiais em cena. Há outros momentos, como quando conhecemos Cheyenne quando este adentra na taverna após escapar de uma escolta policial ou quando as cigarras da fazenda McBain param de cantar prevendo a morte que se aproxima que nos faz perceber esse cuidado com o uso do som no filme como motivo de regozijo. Além disso, há os raccords sonoros encantadores, como quando há uma união entre o som do tiro que mata o pequeno Timmy com a chegada do trem de Jill; ou o trem de Morton com o serrote na construção da ferrovia. São pequenos detalhes que nos faz perceber o apuro e cuidado de um mestre na criação de sua obra. É notória uma frase de Leone que dizia que 40% de um filme é música. No entanto, nos outros 60%, ele também não decepcionava.

No caráter imagético, ele tinha uma habilidade incrível de equilibrar cenas panorâmicas de paisagens com os rostos marcantes dos personagens. Esses rostos, marcados pelo sol forte e pela passagem do tempo, acabam servindo de peças na construção visual do filme. O equilíbrio dos dois elementos encontrado aqui é visto em cada uma de suas composições cênicas. São detalhes que abordam a aridez daquele universo e o seu reflexo físico nos personagens.

Henry Fonda perde sua face de mocinho na pele do matador Frank
A orquestração da obra de Sergio Leone, com seus personagens em passos lentos, caminhando em direção à morte, quase que dançando com ela ao som da música de Enio Morricone, é outro ponto que chama a atenção. Sua mise en scene é perfeita. Há momentos como aquele quando a câmera sobe por sobre a estação de trem em uma panorâmica da cidade de Flagstone em que, com o crescente musical do momento e a apresentação daquele ambiente, fica difícil não perder o fôlego tamanha precisão dos movimentos. 

Creio que a sessão de 26 de agosto foi a que mais fez jus à proposta de exibir clássicos na tela do Cineclube Glauber Rocha. A grandiosidade da obra prima de Sergio Leone pedia por isso.

Mais uma vez, meu muito obrigado a Tais, Lara, Cláudio e Marília por esse presente e pelo convite para fazer parte disso. 





segunda-feira, 18 de agosto de 2014

The Rover - A Caçada

(The Rover, Austrália, 2014) Direção: David Michôd. Com Guy Pearce, Robert Pattinson, Scott McNairy.



Por João Paulo Barreto

Diferente da ambientação urbana de seu longa anterior, o premiado Reino Animal, de 2010, o diretor David Michôd trouxe para The Rover um teor pós apocalíptico característico do outback australiano, local que parece sempre repleto de desespero e terror latentes oriundos de personagens psicopatas.

Aqui, a coisa não é muito diferente. No tal futuro pós-apocalíptico que o letreiro inicial informa se passar 10 anos depois de um colapso da sociedade (colapso esse que parece ser econômico, e não causado por algum agente biológico ou coisa do tipo), Eric, um maltrapilho homem com aparência de poucos amigos, tem seu carro roubado por supostos assassinos que abandonam o próprio veículo após um acidente.  Começa, então, a busca pelos ladrões e pelo seu carro, que parece ser seu último bem material.

Funcionando como um road movie suicida, The Rover traz Guy Pierce como um protagonista no limite emocional que o faz não pensar duas vezes antes de executar a sangue frio um traficante de armas que não aceita negociar preços ou encarar um revolver apontado para sua testa com a mesma coragem de quem encara uma briga justa. É o tipo de personagem perdido, sem esperanças de redenção, mas com um único norte como meta, algo que leva o espectador a torcer por ele mesmo sem conhecer nenhum traço de seu passado brutal.

Eric: atitudes suicidas de quem nada tem a perder
Na busca pelos ladrões de seu carro, topa com o irmão deficiente mental de um deles. À beira da morte, o rapaz pede ajuda e acaba servindo de guia para Eric seguir os rastros dos bandidos. A relação que se desenvolve entre ambos torna-se a tona do filme. Robert Pattinson, no papel do jovem assassino Rey, volta a confirmar que há vida pós Crepúsculo e apresenta uma atuação complexa, repleta de tiques nervosos, com um pesado sotaque australiano e sem vaidades na entrega.

A história da relação da amizade baseada na sobrevivência dos dois protagonistas, apesar de se valer de certas conveniências do roteiro para seguir em frente, é o que torna intrigante a história escrita pelo ator Joel Edgerton (Guerreiro) e pelo próprio diretor. Enxergando na imagem do homem mais velho uma autoridade paterna, a personalidade manipulável de Rey torna-se evidente e passamos a vê-lo como uma vitima dos homens que agora persegue.

Rey: confusão mental, carência afetiva e instinto assassino
Na construção de seu personagem, Pattinson, em trajes sujos, olhares desencontrados e repletos de confusão, esconde uma profundidade palpável. O choque entre a dureza de Eric e o pedido involuntário por socorro de Rey é perceptível quando este o questiona sobre o fato dele não conseguir parar de pensar em uma de suas vítimas. “É o preço a se pagar por ter tirado uma vida. Você tem que carregá-la consigo para sempre”, é a resposta de Eric, que define a personalidade e entrega parte do passado daquele homem.  

Um dos pontos de acerto da produção está na escolha de elenco, com a inserção de atores direcionados a personagens cujas aparências incomuns e estranhas refletem o ambiente inóspito onde vivem. Os rostos marcantes acabam por se tornar peças na construção visual do filme. Não somente em suas aparências físicas, com queimaduras oriundas do sol escaldante e aspereza visual denotando bem o universo onde vivem, mas suas atitudes refletem um desenho daquele mundo destruído social e economicamente.

Em certo momento, vemos um comerciante condicionar uma informação à compra de qualquer mercadoria de sua loja caótica. Ao parar em um posto de gasolina, Eric argumenta com o vendedor que só tem dólares australianos e este, de modo agressivo, replica dizendo que apenas americanos são aceitos. Pelo visto, a economia estadunidense se manteve dominadora naquele caos. Uma mensagem subliminar para quem seria o maior beneficiado em uma situação social como aquela? Divago.

[ATENÇÃO, SPOILER] Na aparente irracional busca pelo seu carro, Eric apresenta uma motivação apenas revelada na última cena do filme e que, infelizmente, acaba por não conseguir trazer o impacto desejado pelo diretor ao inseri-la. Quando o vemos retirar um animal morto do porta-malas (algo que, aparentemente, pretende enterrar de forma digna), obviamente temos um vislumbre da complexidade daquele personagem, que descarta vidas humanas de forma tão banal, mas se importa em dar a um animal uma simbólica e apropriada despedida.

No entanto, não deixo de imaginar como seria o impacto do roteiro se o visemos retirar do porta-malas o corpo da esposa, que ele admitiu ter assassinado por conta de uma traição.





sábado, 16 de agosto de 2014

Oficina “A mutação histórica do cinema – em película, eletrônico e digital”


Como parte das atividades relacionadas ao Cineclube Glauber Rocha, será realizada na Sala Walter da Silveira uma oficina gratuita com o professor, curador e restaurador Hernani Heffner. Além da oficina, obras clássicas em película serão exibidas.Confira abaixo as informações pela produção do Cineclube através de release.



A Oficina “A mutação histórica do cinema – em película, eletrônico e digital” é uma realização do Cineclube Glauber Rocha em parceria com a Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia.

As aulas acontecerão na Sala Walter da Silveira, das 13h às 17h, entre os dias 15 e 18 de setembro e serão ministradas pelo professor, curador e restaurador Hernani Heffner (foto abaixo). O curso é gratuito e as inscrições devem ser feitas até o dia 05 de Setembro no link: http://cineclubegr.com/oficina/inscreva-se/


EMENTA DA OFICINA


O curso apresentará um breve panorama das principais fases, escolas, movimentos e personalidades dos pouco mais de 120 anos de história do cinema, forma de expressão artística, documental, jornalística e experimental que assumiu um papel central na cultura audiovisual do século XX.


Em um paralelo com diferentes proposições de verdade científica, a criação cinematográfica será analisada a partir de noções como causalidade/cinema clássico (paradigma newtoniano), relatividade/cinema moderno (paradigma einsteiniano), incerteza/cinema maneirista (paradigma heisenberguiano) e caos/cinema contemporâneo (paradigma mandelbrotiano).

O curso apresentará trechos de filmes e terá uma mostra de obras consagradas a ser apresentada na Sala Walter da Silveira.

SOBRE O MINISTRANTE


Foto: Leo Fontes

Hernani Heffner é graduado em Comunicação Social – Habilitação Cinema pela Universidade Federal Fluminense. Entrou como pesquisador contratado para a Cinédia Estúdios em 1986, passando 13 anos na companhia, primeiro como pesquisador e depois como responsável pelo acervo de filmes. A partir de 1996 assumiu o trabalho de restauração dos principais títulos da companhia, como “O Ébrio”, “Alô, Alô, Carnaval” e “Berlim na Batucada”. No mesmo ano passou a trabalhar como Curador de Documentação e Pesquisa da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, transferindo-se três mais tarde para o Arquivo de Filmes da instituição, onde atua até a atualidade como Conservador-Chefe.

A partir de 2000 passou a atuar como professor de História do Cinema e de Preservação de Filmes, tendo passado pelas seguintes instituições de ensino: Universidade Federal Fluminense, Estácio de Sá, Cândido Mendes, Fundação Getúlio Vargas, CineTV-Paraná e Usina João Donato. Desde 2005 dá aulas no curso de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É autor de inúmeros artigos para revistas, catálogos e livros, além de mais de cem verbetes da Enciclopédia do Cinema Brasileiro (Editora Senac, várias edições). Participou de dezenas de debates, oficinas, cursos livres. Foi curador das Mostras Raízes do Século XXI, Miragens do Sertão, A Tela Aberta e Cinédia 75 Anos, realizadas na Caixa Cultural e no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. É curador dos Festivais Cine Música e Mostra de Cinema de Ouro Preto – CineOP – Temática Preservação.

Professor: Hernani Heffner (RJ)
Carga horária: 16 horas*
Data: 15 a 18 de setembro
Horário: 13 às 17h
Local: Sala Walter da Silveira, Biblioteca Pública do Estado da Bahia
Inscrições: até 05 de Setembro
*Terá direito a certificado o participante que cumprir 100% da carga horária do curso.


MOSTRA "CINEMA - OBRAS FUNDAMENTAIS"


A Mostra “Cinema – Obras Fundamentais” é uma realização do Cineclube Glauber Rocha em parceria com a Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia, com o apoio da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e da Cinemateca da Embaixada da França no Brasil.

A curadoria da Mostra foi feita por Hernani Heffner, e as sessões estão associadas à Oficina “A mutação histórica do cinema – em película, eletrônico, digital”, ministrada por Heffner no mesmo período também na Sala Walter da Silveira.

PROGRAMAÇÃO

Segunda-feira, 15/09, às 17h

                                        

“A Mãe”, de Vsevolod Pudovkin

Ficção, 89’, URSS, 1926, 35mm

Adaptado do romance de Maxim Gorky, o filme narra a história de Niovna-Vlasova, esposa de um ferreiro alcóolotra morto acidentalmente por um militante, amigo de seu filho e a sua participação na investigação polical da morte de seu marido.

Segunda-feira, 15/09, às 19h

                                            

“Aurora”, de Friedrich Murnau

Ficção, 94’, EUA, 1927, 16mm

Um homem está passando por uma crise conjugal e com a sua fazenda, enquanto sua mulher sofre silenciosamente com a infidelidade de seu marido enquanto cuida de seu filho. Entretanto, quando o homem começa a se relacionar com uma mulher da cidade, ela tenta convencê-lo a matar a sua esposa.

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Terça-feira, 16/09, às 17h


“Othello”, de Orson Welles
Ficção, 90’, EUA, 1952, 35mm

Baseado na peça homônima de William Shakespeare, o filme segue Othello, que se casa com a linda Desdemona, mas, influenciado pelo malvado Iago, logo começa a duvidar da fidelidade de sua esposa.

Terça-feira, 16/09, às 19h



“A Regra do Jogo”, de Jean Renoir
Ficção, 110’, França, 1939, 35mm

Em uma adaptação da comédia de Alfred de Musset, “Les Caprices de Marianne”, um baile de máscaras que acontece na casa de campo da alta burguesia francesa é o palco para o desenvolvimento de diversos romances amorosos tanto na alta burguesia como nos empregados da mesma.

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Quarta-feira, 17/09, às 17h

                             
             

“Os Boas Vidas”, de Frederico Fellini.
Ficção, 104' , Itália, 1953, 35mm

Numa pequena cidade da Itália, cinco jovens amigos são típicos “vitelloni” (inúteis) e vivem uma vida boêmia cheia de bebidas e mulheres. Sem perspectivas de vida, cada um encontra um modo de escapar da monotonia da vida provinciana tentando aproveitar e curtir as aventuras que esse mundo os reserva.

Quarta-feira, 17/09, às 19h

                                             
 


“A Guerra Acabou”,de Alain Resnais 
Ficção, 121’, França, 1966, 35mm

O líder do Partido Comunista espanhol Diego está voltando para Paris, a cidade onde mora, de uma missão em Madri. Após ser preso na fronteira por usar um passaporte pertencente a outra pessoa e conseguir ser liberado, ele procura por um de seus colegas, Juan, para impedir a sua ida à Madri, onde ele também poderia ser preso pela polícia.

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Quinta-feira, 18/09, às 17h

“O Massacre da Serra Elétrica”, de Tobe Hooper
Ficção, 83’, EUA, 1974, 35mm

Após a polícia texana dar como encerrado o caso de um massacre de 33 pessoas, a instituição é acusada de conduzir uma investigação errônea e matar o homem errado. Dessa vez, o único sobrevivente fornece o seu depoimento do que aconteceu na noite do massacre.


Sessão surpresa

Quinta-feira, 18/09, às 19h




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

As Tartarugas Ninja

(Teenage Mutant Ninja Turtles, EUA, 2014) Direção: Jonathan Liebesman. Com Megan Fox, Will Arnett, William Fichter.



Por João Paulo Barreto

Começar um texto sobre um filme com o elogio de que “a obra, por não se levar a sério, acaba por apresentar um bom resultado”, não é a melhor maneira. Isso é fato. No entanto, é preciso levar em consideração essa possibilidade quando se trata da versão século XXI de As Tartarugas Ninja. Todos os pontos positivos do longa de Jonathan Liebesman se baseiam justamente nisso. Explico.

A começar, claro, pela premissa de tartarugas adolescentes mutantes ninjas lutando contra o crime em uma Nova York cujo principal grupo de bandidos é conhecido por Clã do Pé (sim, isso se deve ao fato de que eles pisam nos seus inimigos ¬¬). Esse mesmo grupo se alia a um cientista magnata com o plano de espalhar pela cidade um vírus cujo antídoto somente ele possui e pretende vendê-lo a um preço que o tornará ainda mais rico. E não somente isso: o líder do clã, um ninja cuja armadura reflete as obras recentes do produtor Michael Bay, pretende governar a cidade. Ufa.

Transformer fazendo ponta no filme: produção de Michael Bay

Classificando todos esses “meros detalhes” como motivos para não se levar a sério mesmo, As Tartarugas Ninja até que agrada como comédia. As tiradas das criaturas adolescentes do título são divertidas, principalmente quando centradas na brigas entre os irmãos mutantes e no personagem de Donatelo, com sua paixonite pela repórter April O’Neal (Megan Fox, cuja beleza na tela parece nos fazer esquecer de sua total limitação como atriz).

Como um filme oriundo das histórias em quadrinhos, os enquadramentos utilizados por Liebesman funcionam bem, como na cena que abre o filme ao vermos um breve resumo da trajetória prévia e evolução das tartarugas e de seu mestre, o rato de laboratório Splinter. Do mesmo modo, a transição dessa narrativa estilizada para a imagem da Nova York real, e as sequências de ação com os protagonistas em fuga pelos esgotos enquanto escorregam por túneis usando seus cascos como pranchas ou skates, referenciam de forma empolgante o universo das HQs nas quais se baseiam.

Fox: Tino jornalístico e beleza estonteante  

Com fotografia do brasileiro Lula Carvalho, o filme se equilibra muito bem entre o clima soturno dos esgotos e da noite de Nova York, fazendo jus ao seu material original, bem diferente das primeiras inserções dos personagens no cinema, no começo dos anos 1990. Personagens estes que, dessa vez, assustam em seu realismo e brutalidade física, algo que denota uma fidelidade impar ao material dos quadrinhos, excetuando-se, claro, o aspecto violento excessivo que a versão impressa continha.

Num filme que termina com a música Happy Together, do The Turtles, cantada por uma, hummm, tartaruga, talvez isso nem faça tanta falta, de fato. 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O Homem das Multidões

(Brasil, 2012) Direção: Marcelo Gomes e Cao Guimarães. Com Paulo André e Silvia Lourenço.



Por João Paulo Barreto

A solidão é o que move os personagens de O Homem das Multidões. De forma paradoxal ao seu título, Juvenal, seu protagonista, não faz parte de nenhum vasto universo de pessoas. Vive solitário em sua rotina de operador de trem, observando estações passarem estagnadas adiante do mesmo modo que sua vida segue, paradoxalmente, inerte e em frente.

Introspectivo e sem traquejo social, não tem muita naturalidade para conversar com colegas de trabalho, mantendo-se em silêncio durante horários de almoço e sem conseguir dizer não a um interesseiro que insiste em pedir-lhe uma constante troca de turno. Pragueja sobre isso, em casa, ao tentar realizar uma faxina que parece nunca tornar aquele ambiente menos sujo. Mas nunca cria a coragem para dizer o não necessário para se afirmar.

Sua visão de mundo se altera um pouco ao conhecer Margô, a coordenadora de trafego que controla sua linha. No entanto, qualquer esperança que nutra no sentido de tê-la torna-se apenas um devaneio diário. Noiva e sem o mesmo traquejo social que falta a ele, ela derruba qualquer pretensão romântica sua ao convidá-lo para ser seu padrinho de casamento sob o pretexto de não conhecer ninguém a quem fazer o mesmo pedido. Claro, Juvenal ensaia sozinho uma negação ao pedido, mas, pouco tempo depois, lá está ele, alugando um terno para a ocasião e trocando o par de sapatos sociais pelos calçados do dia-a-dia de trabalho, numa brilhante alusão a sua condição dependente ao seu meio de vida. 

Juvenal em seu apartamento: solidão e desajuste
O Homem das Multidões é um filme que trata de desajustados. Pessoas que passam pelo mundo sem qualquer intenção de desafiá-lo, seguindo apenas as horas do dia ou sendo empurradas por elas. Juvenal ainda tenta ter uma vida, pelo menos algo que, em sua visão, o distraia com algum norte. Mesmo que isso signifique visitas a prostíbulos, exercícios físicos por conta de um possível interesse de Margô, e caminhadas a esmo por shoppings, subindo escadas rolantes para, logo em seguida, descê-las.   

Margô, ao passar seus dias a observar apenas os monitores de segurança, encontra em Juvenal alguém com quem compartilha seu silêncio e introspecção, apesar dos breves desabafos relacionados ao trabalho. E é tocante como ela se identifica com o desajuste deste, presenteando-o com copos novos quando este não podia lhe servir água por  possuir somente um em casa, ocasião em que aceita de bom grado beber direto da garrafa.  

Margô e Juvenal: silêncio confortável
Contemplativa e pausada, é uma obra que desafia o espectador e, ao mesmo tempo, o prende, cativando-o com uma história simples, mas que, apresentando personagens tão extraordinariamente comuns, acaba por se tornar de uma profundidade impar.

Em uma atualidade tão repleta de meios urgentes e fugazes de comunicação, o silêncio atencioso entre duas pessoas em um ambiente tende a se tornar, de fato, deslocado. Aqui, a naturalidade como isso se apresenta é que o classifica como imprescindível para duas pessoas que só encontram algum conforto quando estão na presença silenciosa e mútua.