segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Deadpool

(EUA, 2016) Direção:Tim Miller. Com Ryan Reynolds, Morena Baccarin, T.J.Miller, Ed Skrein.


Por João Paulo Barreto

Desde seus créditos iniciais, percebe-se uma proposta diferenciada para Deadpool, adaptação dos quadrinhos do personagem mais anárquico da Marvel Comics. Ao invés dos nomes dos produtores, atores, roteiristas e diretor, uma descrição nonsense e chula de cada indivíduo é feita. “Uma garota gostosa”, “um vilão com sotaque britânico”, “roteiristas: estes, sim, os verdadeiros heróis aqui” e “um diretor que se acha”. Sim, desde o começo, sabemos que não vamos presenciar um filme comum, mas um exemplo louvável de como adaptar para o cinema toda a comédia encontrada nas páginas de seu material original.

Na história, o “fazedor de serviços sujos” Wade Wilson descobre que tem câncer terminal e recebe uma proposta de um grupo de cientistas para se submeter a um doloroso experimento que, supostamente, vai ativar a mutação em suas células. A cura virá, mas uma deformação como efeito colateral, juntamente a um fator de cura e superforça, também. Na busca pelo indivíduo que o curou, mas não sem antes de fazê-lo sofrer e lhe dar a esperança de que poderia lhe devolver sua aparência anterior, Deadpool tem a desculpa certa para destilar sua ironia e humor doentio em cada frame. E, claro, há a busca pelo salvamento da não tão ingênua mocinha.

Wade Wilson e sua desfiguração após cura 

Levando ao extremo a metalinguagem e a quebra da quarta parede, o roteiro de Paul Wernick e Rhett Reese, ambos com experiência nestes conceitos após o hilário Zumbilândia, é uma licença para que diversas piadas sejam feitas com o universo dos quadrinhos no cinema, desde citações de heróis que a produtora não tinha licença para usar (“rima com Pouverine”) a geniais perguntas do personagem principal, como quando é cogitada pelo x-man Colossus sua visita ao professor Xavier (“Stewart ou McAvoy? Essas novas linhas temporais me confundem”). É um filme cujo grande acerto é o de não se levar a sério. Mesmo que em certo momento essas piadas cansem um pouco (como quando o protagonista empurra a câmera), o resultado final da obra não chega a ser comprometido.


Cenas bem dirigidas de ação são o grande destaque do filme
Após a tentativa frustrada de inserir Deadpool, com o mesmo Ryan Reynolds que, aqui, se encaixa como uma luva à acidez do projeto, no primeiro filme solo do Wolverine (algo que nos é lembrado de forma hilária), a revitalização do personagem nessa nova franquia se apresenta como um acerto louvável. Principalmente pelas boas cenas de ação, sequências de luta e o modo como a montagem foi sagaz ao contar toda a origem do personagem em inserções pontuais durante os explosivos acontecimentos da abertura.

E se em sua cena pós créditos souberam referenciar perfeitamente um dos primeiros filmes a utilizar a quebra da quarta parede, não será nenhuma surpresa se acertarem novamente na inevitável continuação.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O Regresso

(The Revenant, EUA, 2015) Direção: Alejandro Iñárritu. Com Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck. 


Por João Paulo Barreto

Muito mais do que julgar a obra pelos notórios aspectos de sua criação, no qual um intenso processo de captação foi posto em prática em uma terra selvagem com temperaturas excruciantemente baixas e condições de luz quase nulas (aqui, belamente captadas pelo diretor de fotografia, Emmanuel Lubezki), O Regresso, novo trabalho de Alejandro Iñárritu, apresenta em seu resultado justamente a provação que aqueles homens tiveram que passar na construção sua fílmica. Ao final, percebe-se que, muito mais do que um esquema de publicidade na divulgação do longa, sua execução encontra todo respaldo de qualidade no resultado entregue.

Na história dos homens contratados para retirar peles de animais selvagens para confecção de casacos ao exército no norte dos Estados Unidos do começo do século XIX, encontra-se justamente um retrato não somente daquela época no que tange à exploração de terras indígenas, mas de algo cuja reparação se estende obrigatoriamente até os dias de hoje. E Iñárritu insere essa discussão em seu roteiro, escrito em parceria com Mark L. Smith e baseado em parte no livro de Michael Punke, de modo a tornar a necessidade de diálogo acerca do assunto ainda mais relevante.


Fitzgerald e Glass: antes da vingança
Hugh Glass (DiCaprio) é um dos caçadores do grupo e líder guia nas terras inóspitas onde índios selvagens fazem valer o controle do seu território matando todo e qualquer homem que não faça parte do seu grupo. Em seu histórico, Glass, que já foi casado com uma índia e com quem teve um filho que hoje o acompanha, possui problemas relacionados a preconceito e racismo sofrido por ele e por seu rebento, a quem salvou no passado ao defender sua família de um ataque militar à tribo com quem vivia. 

No seu atual grupo, John Fitzgerald (Hardy), cujo nome carrega uma ironia fina no que se refere à exploração estadunidense dos territórios indígenas, é o único a não esconder seu racismo perante o jovem filho de Glass. A relação dos dois homens é o que pautará toda a história do filme, colocando-os em extremos opostos onde a vingança norteará a trajetória de ambos. Gravemente ferido após sobreviver ao ataque de um urso, Glass é deixado sob os cuidados de seu filho e de Bridger, outro rapaz fiel ao homem, bem como de Fitzgerald, cuja vontade declarada seria terminar o sofrimento do colega desde o inicio. 

Glass e sua frágil relação pai e filho com um rebento de origem indígena 
Ao agir por conta própria e enganando o jovem Bridger no processo, Fitzgerald deixa Glass em uma cova rasa e segue seu caminho no intuito de recolher a recompensa por ter ficado como responsável pelo moribundo. Neste ponto é quando percebemos a real força motriz do filme. Claro, a vingança já havia sido descrita como sendo sua linha de narrativa desde a primeira descrição do projeto. Mas vê-la representada na força de vontade de um homem que consegue deixar a própria cova para se vingar daquele que destruiu sua família torna a experiência de O Regresso válida como meio de reflexão relacionado à resiliência do individuo.

E é justamente disso que o longa trata. Desde a sequência impressionante da luta do protagonista contra o urso (mesmo que em seu último segundo, deixe escapar seu CGI), ao momento no qual Glass precisa se aquecer utilizando do modo menos convencional encontrado: é a força de vontade regida pelo desejo de vingança que o norteia.

Em seu belo simbolismo final, no qual a fala de um personagem crucial para a sobrevivência de Glass em seu infernal retorno é proferida novamente, entendemos de quem é a vingança mais necessária e urgente no tema central de O Regresso. Mais propriamente, a qual povo ela pertence.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Brooklyn

(EUA, 2015) Direção: John Crowley. Com Saoirse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson, Jim Broadbent.


Por João Paulo Barreto

Escrito por Nick Hornby (autor de livros como Alta Fidelidade, Um Grande Garoto e Febre de Bola) e baseado na obra de Colm Tóibin, Brooklyn apresenta uma história simples, mas que consegue construir uma relação direta com o espectador através de sua capacidade de criar situações que muitos se identificariam. Dentre elas, a saudade de casa, ou, no bom inglês, homesickness. Em determinado momento, um personagem define bem o sentimento: “Assim como qualquer doença (sickness), ela passa com o tempo”. E é disso que a obra trata. Mas, claro, nada tão simplório. O que o roteiro de Hornby aborda com maior fluidez é o processo de readaptação das pessoas perante a mudança de horizontes.

Aqui, a jovem Eilis (Ronan) deixa a Irlanda no começo dos anos 1950 para tentar a vida em Nova York, mais precisamente no popular bairro do Brooklin, onde uma grande comunidade de imigrantes, sobretudo irlandeses, vive. Deixando uma irmã e sua mãe no velho continente, ela parte em uma extenuante viagem a navio para a América, durante a qual as primeiras provações daquela mudança de ares se apresentam.

Eilis segue viagem para a América a bordo da sua primeira provação 
É uma obra estritamente feminina, que consegue abordar bem não somente as dificuldades de um imigrante em um país estrangeiro que, apesar de compartilhar a mesma língua, tem em seus hábitos e costumes toda uma diferença cultural. O roteiro de Hornby apresenta bem essas dificuldades de gênero encontradas pela personagem. Seja na adaptação a um mercado de trabalho restrito (a cena em que vemos Eilis como a única mulher em um curso para escriturários, por exemplo) ou no ambiente de sua pensão voltada para garotas, o longa se coloca de modo pertinente em tais questões, apesar de simplificar algumas das ambições das personagens secundárias ao colocá-las apenas como mulheres em busca de um marido, tornando-as, assim, bidimensionais de uma maneira gritante.

Outro ponto, inclusive, está no fato do roteiro preferir se ater a uma idealização de mundo no qual o mal parece não fazer parte. As boas intenções de todos ao redor da protagonista incomoda um pouco, diferente de Educação, filme de 2009 também escrito por Hornby e que aborda o universo feminino de modo mais realista, amargo e menos poético.

Eilis: processo de transição ao deixar o mundo que conhece em prol de uma nova vida
Mas há outros fatores que validam essa visão preferida em Brooklyn. Dentre elas, o fato de que a história se passa em uma época de grande prosperidade para os Estados Unidos. Na década em questão, após o fim da Segunda Guerra, um boom econômico e industrial se deu no país americano, tornando aquele período extremamente prolífico. Uma era de ouro, por assim dizer. Algo que é muito bem inserido através dos tons na fotografia de Yves Bélanger, que salientam a ambientação nostálgica pretendida pelo longa.

Saoirse Ronan, com seus olhos de safira, cativa o espectador com uma tristeza que gradativamente vai se transformando em segurança, mostrando justamente a premissa do filme como um conto sobre adaptação e fuga da inércia.


Tirando a ingenuidade idealizada, está tudo em seu lugar.

A Garota Dinamarquesa

(The Danish Girl, UK, EUA, 2015) Direção: Tom Hooper. Com Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts.



Por João Paulo Barreto

Há uma importância maior do que a contida na avaliação de uma obra como A Garota Dinamarquesa apenas em seu valor estético ou como forma de entretenimento cinematográfico. Em seu momento de lançamento, período no qual o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado nos Estados Unidos, um dos países mais influentes na cultura mundial, bem como a mais do que urgente permissão do uso do nome de identificação escolhida pela pessoa em provas e concursos no Brasil, um filme como do diretor Tom Hooper (Discurso do Rei e Os Miseráveis) ganha um impacto ainda maior por conta da conscientização incluída no seu tema.

Sim, nos últimos anos, diversas obras abordaram questões como homofobia e inadequação de homossexuais perante a sociedade. Filmes como Milk e Brokeback Mountain, apenas para citar dois recentes, trouxeram louváveis discussões sobre o assunto. No entanto, uma abordagem acerca dos indivíduos transgêneros focando no drama particular de suas vidas e na mudança drástica de suas identidades físicas ainda estava a ser apresentado. Longas como Tudo sobre minha Mãe e A Má Educação, ambos de Almodóvar, trabalharam tais tópicos, do mesmo modo como Albert Nobbs e Meninos não Choram, mas o trabalho de Hooper acerta ao ampliá-la na discussão psicológica e no drama interno de seu protagonista.

Einar em seu ambiente de trabalho
No caso, trata-se de Einar Wegener, jovem pintor dinamarquês do começo do século XX, que se descobre identificado com o gênero feminino após começar a posar com roupas de mulher para uma série de quadros pintados pela sua esposa, a artista plástica Gerda Wegener. O que inicialmente era tido como uma brincadeira saudável entre um casal viril e sexualmente ativo, começa a resvalar em um conflito psicológico para Einar, que tem em seu alter-ego, Lili, um encontro que no começo o choca em sua auto-avaliação, mas que começa a fazer sentido de forma gradativa, quando sua personalidade passa a ser dominada pela de Lili.

Frequentando festas vestido como Lili, a suposta prima do interior de Elnar, o rapaz se vê penetrando em sua própria psique, algo que inicialmente lhe causa regozijo, mas que logo em seguida passa a criar um desconforto mental que resvala para um abalo corpóreo. Em um campo que a psicologia da época ainda engatinhava, Elnar é levado a médicos que sugerem os mais absurdos tratamentos, até que um deles, em Paris, lhe informa acerca da precursora possibilidade de mudança de sexo, algo a que Elnar, cada vez mais Lili, se agarra.

O filme acerta em abordar o drama vivido não somente pelo rapaz, mas por sua esposa, Gerda, que por amá-lo de forma incondicional, lhe dá todo suporte nessa decisão. A abordagem do longa neste aspecto até a pinta inicialmente como uma oportunista, que incentiva o marido a continuar travestindo-se apenas para que possa continuar a criar telas com sua imagem, quadros que vêm fazendo sucesso na França. No entanto, tal julgamento acaba sendo descartado pelo roteiro, uma vez que o suporte da garota, mesmo que levando seu casamento a um final inevitável, revela-se, de fato, indubitável.

Gerda e suas criações inspiradas em Lili
Mas é na maneira como Eddie Redmayne constrói as nuances femininas de suas duas personagens, tanto Elnar quanto Lili, que está a grande força de A Garota Dinamarquesa. O modo como seu olhar resvala entre momentos de dúvidas e decisão, demonstrando uma insegurança natural, além de seu sorriso largo que surge como que para esconder aquelas mesmas dúvidas, juntamente como seu toque e o modo como suas mãos se movem tanto no contato com o próprio rosto quanto no acariciar das pessoas que o cercam: são estes os elementos que demonstram uma construção impecável de outro ser humano.

Tom Hooper parece contido em suas utilizações de lentes deslocadas e ângulos de câmera exagerados e sem relação com resultado final, hábito comum em longas anteriores. Aqui, há um acerto no tom de seus enquadramentos juntamente com o ritmo das atuações de seus dois protagonistas, como no momento em que vemos Lili fugir da casa de um dos personagens e a rua é exibida como um corredor infindável de casas idênticas, demonstrando justamente a dificuldade da garota ao ser confrontada em sua identidade civil e a sua busca pela saída daquele mundo estático. 

Einar em seu momento de descoberta
Em sua busca por uma adaptação, a agora definitiva Lili renega tudo que antes pertencia a Elnar, inclusive seu incrível dom para a pintura. Em suas perguntas ingênuas ao médico que decidirá seu futuro, há justamente a esperança de alguém que até bem pouco tempo antes não existia. E como as de uma criança, alguém que “nasceu ontem”, tais dúvidas são presenciadas pelo espectador com uma compreensão tenra, de alguém que, apesar de decidida em sua mudança, sabemos que ainda se vê perdida em todo aquele turbilhão.

No toque das roupas femininas à presença em frente ao espelho de um corpo nu que parece ter acabado de descobrir, Elnar se encontra na busca da forma que o define, na forma que o faz se sentir bem, que o faz se sentir Lili. E não é isso que todos nós buscamos? Conforto e paz interna? Sim.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Spotlight

(EUA, 2015) Direção: Tom McCarthy. Com Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Stanley Tucci, Liev Schreiber. 


Por João Paulo Barreto

A partir de um extenuante trabalho de apuração, um grupo de jornalistas da revista Spotlight, encartada ao jornal Boston Globe, decide investigar as denúncias de pedofilia contra padres da igreja católica sediada na cidade. O que poderia cair em um entediante documentário disfarçado de filme de ficção que só teria vazão para desesperados estudantes do primeiro semestre de Jornalismo, acaba por se tornar uma brilhante peça cinematográfica a registrar um não menos brilhante foco de apuro e excelência da imprensa (aquela que vale a pena se levar a sério, friso).

Spotlight, novo trabalho do diretor Tom McCarthy (que entregou em 2007 o delicado O Visitante, e se recupera com êxito de Trocando os Pés, com Adam Sandler), consegue captar toda a tensão inserida em uma investigação cuidadosa, realizada por repórteres dedicados e comprometidos com aquilo que os colocou naquela profissão: a verdade. Pode parecer dramático e ostentoso, mas como parte deste grupo de profissionais, eu posso afirmar que o que se aprende na faculdade no quesito ética e compromisso com a veracidade nem sempre é o que vemos no meio. A investigação realizada contra padres pedófilos na Boston do começo do século é algo que se coloca em um patamar superior da labuta jornalística.


Robby e Mike: dedicação e compromisso
Inseridos meio que de forma marginal na redação do jornal, a equipe liderada Walter “Robby” Robinson (Keaton) parece um grupo de excluídos da rotina do veículo. Desde a sua posição geográfica na sede do periódico, algo brilhantemente ilustrado por McCarthy ao utilizar a câmera a seguir os personagens pelos corredores e escadas do local (sempre os direcionando para níveis inferiores), passando pelo modo como o grupo parece se abster de uma vida social em prol do trabalho, todos as características daquelas pessoas representam seu compromisso irremediável com a profissão.

Quando vemos o personagem de Mark Ruffalo, Mike Rezendes (em uma atuação incrível, com as mãos nos bolsos, sempre curvado como a tentar levantar o peso de uma timidez disfarçada), fazer seu jogging dominical, mas correndo em direção ao prédio do Globe, percebe-se que é justamente dessa dedicação que beira ao infame que o filme trata, também. Não que para eles isso seja um problema. Talvez caiba ao público (ou a jornalistas não atuantes como repórteres, como meu caso) observar esse comportamento com uma curiosidade mórbida. O rapaz parece não ter uma vida social; sua namorada é citada como alguém com quem tem problemas; ele mora em um apartamento quase sem móveis e se alimenta de salsichas. É uma opção de comprometimento louvável, mas que poucos nessa área têm a vocação para seguir.

Uma das vitimas compartilha seu drama com a equipe de repórteres 
Na investigação, são os depoimentos das vitimas que mais chamam a atenção. O momento em que uma delas descreve-se como um garoto de 12 anos que tem na presença física de um padre a autoridade do próprio Deus católico, é um dos mais reflexivos de toda obra. “Quando ele lhe pede um favor, é como se Deus estivesse pedindo. Para um garoto que não tem nada, isso é muito”, diz ele perante a equipe. A quebra da confiança que aqueles agora adultos atormentados pelo passado sofreram é o que causa mais asco. Completo e total asco ao imaginarmos que um grupo de homens que supostamente deveria lhes trazer conforto social e moral só lhes trouxe sofrimento e tragédia psicológica.

O filme acaba por registrar a luta não somente do grupo de repórteres, mas de outros profissionais que ousam desafiar um gigante como a igreja, uma entidade que, comprovadamente, acobertou seus criminosos representantes transferindo-os para outras paróquias a cada abuso cometido e descoberto.

Profissionais como o advogado Mitchell Garabedin (Tucci), que traz no mar de processos no qual se vê afundado em seu escritório (em um incrível trabalho da direção de arte, curiosamente não reconhecido com uma indicação ao Oscar) o comprometimento com uma causa na qual acredita, que não cansa de lutar.

Trata-se de um filme sobre o drama de vida tanto das vitimas dos crimes horrendos cometidos pelos supostos homens santos, quanto das pessoas que decidiram ajudá-las a agir contra a podre instituição religiosa que os acobertou. No entanto, claro, o drama deste primeiro grupo nunca terá fim. Eles não têm esta opção, infelizmente.



O Filho de Saul

(Saul Fia, Hungria, 2015) Direção: László Nemes. Com Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn. 



Por João Paulo Barreto


Um dos pontos que chamam a atenção no favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro desse ano, O Filho de Saul, além, claro, de seus diversos planos sequência e câmera quase que exclusivamente em primeira pessoa, é o modo como o longa consegue tornar o espectador ciente do modo desesperador como um homem que já perdeu tudo se apega a um último desejo, tornando aquilo sua ambição nas horas que se apresentam, provavelmente, como suas últimas.

Os horrores de Auschwitz na Segunda Guerra ilustram como pano de fundo a resiliência do húngaro Saul, prisioneiro judeu que trabalha na função de descartar os cadáveres das pessoas assassinadas no local. Utilizando grandes fornos ou poços para eliminar os corpos, o exército alemão a coordenar o lugar mantém uma rotina de trabalho que demonstra a maneira como o nazismo se instaurou como uma organização lucrativa, algo ilustrado no modo como todas as roupas dos recém-chegados são reviradas na busca por objetos e seus dentes de ouro são retirados dos corpos sem vida.


Saul em momento crucial de sua busca
A busca desenfreada pela eliminação dos corpos, que têm suas cinzas jogadas em um rio a cortar a região, denota bem a preocupação do regime em não deixar rastros para seus atos. Neste contexto, Saul se depara com o momento em que um garoto que supostamente estaria morto acorda agonizante na maca de um médico alemão a fazer experimentos nos cadáveres, algo que não deixará de acontecer, uma vez que a equipe médica teve certeza de encerrar o destino do menino. 

O simbolismo da busca de Saul por um rabino e de um meio para dar ao garoto um enterro judaico cria uma dolorosa representatividade do desespero daquele homem, que precisa se apegar a uma missão suicida como aquela no intuito de conseguir manter sua sanidade. Em sua entrega total àquele gesto dedicado a um estranho, o homem busca manter uma diferenciação que o afaste daquele ambiente. 

O desespero na tentativa de manter algum traço de humanidade
Ao optar por uma razão de aspecto que mantém a visão do espectador direcionada a elementos centrais e a pouca profundidade de campo a fazer justamente uma alusão ao foco do protagonista em sua missão, o diretor László Nemes (em uma surpreendente estreia em longas metragens) consegue exatamente seu intento: colocar o espectador em uma posição de desconforto físico ainda maior, já que a aspereza de sua direção acaba por criar um impacto ainda mais doloroso em seu público.

É uma obra que incomoda, que tem em muitos dos seus méritos a não romantização do ato de falar da guerra, preferindo manter-se em um estado quase documental de exibição, no qual quem a assiste é colocado em meio àqueles horrores e não em uma situação de voyerismo.

Quando percebemos que, em sua fugacidade, as ambições de Saul se assemelham muito às cinzas oriundas de corpos que o vemos jogar em um rio, seu destino final nos parece inevitável.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Boi Neon

(Brasil, 2015) Direção: Gabriel Mascaro. Com Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Alyne Santana, Vinicius de Oliveira


Por João Paulo Barreto

Em Boi Neon, o universo bruto dos vaqueiros traz uma diferente aura.

Vaqueiro com aparência bruta, suja, quase violenta, mas que esconde uma sensibilidade disfarçada. Nem mesmo ele sabe que a possui. Apesar de não parecer pertencer àquele lugar, soa como algo natural, nada que seja alheio àquele seu universo.

No sonho de ser estilista, Iremar cata em meio à lama de um depósito de materiais descartados de uma fabrica de tecidos, partes de um manequim que o ajudam, mesmo que de forma pequena, a tornar aquela ambição mais palpável.

O diretor Gabriel Mascaro traz no construir daquele ambiente toda uma reestruturação de seus personagens, retirando-os da obviedade e da previsibilidade que suas aparências supostamente trariam como bagagem. Aqui, a mulher, Galega, é a caminhoneira a levar o pesado veículo repleto de bois de vaquejada em vaquejada. Na boleia do veículo é onde encontra sua privacidade feminina. Onde serve de modelo para que Iremar retire suas medidas para as roupas e onde ela se depila para transar com Júnior, o vaqueiro de chapinha no cabelo e que usa aparelho nos dentes não porque precisa, mas “porque acha massa, mesmo”.

Cacá e Iremar se adaptam a hostilidade do ambiente que têm em comum
Nesse ínterim, Galega cria sua filha sem um pai por perto. A menina, Cacá, sonha em possuir um cavalo e os desenha nas páginas ejaculadas de uma revista pornô que Zé, um dos vaqueiros, carrega consigo. Naquele ambiente, é o único lugar onde ela consegue desenhar para ilustrar seus pequeninos sonhos. Na mesma revista, Iremar rabisca suas peças de roupas por cima das mulheres nuas, gerando uma raiva quase cômica em Zé, que “paga dez reais pra ver buceta”, mas encontra as páginas riscadas. São personagens presos àquele mundo hostil que, apesar de não maltratá-los, os restringe, castrando-os de suas ambições. 

Em pequenas ações inseridas naquela rotina restrita, encontram suas formas de extravasar. Iremar costura suas próprias peças de roupas, enquanto Cacá sonha com cavalos e brinca com um deles nos lombos dos bois do curral. O banho é coletivo, com todos os homens compartilhando um único chuveiro e poucos baldes de água. Mãe e filha tomam banho atrás do caminhão, com um lençol a dar pouca privacidade. 

Cacá tenta ser criança em meio aos bois de sua rotina
Em uma rotina onde a sensualidade se faz presente de forma inerente, aquelas pessoas acabam por encarar seus instintos humanos de modo a adaptá-los ao ambiente que restringe suas vidas. Ao comprar calcinhas sexy de um ambulante, Galega tem um pouco de seu perfil feminino aflorado, o que é logo recriminado pela filha insolente. “Calcinha de puta”, tacha a pequenina. A bela cena serve como desabafo para a mãe chorar ao recriminar a garotinha ao dizer que não aguenta mais. É um dos poucos momentos em que percebemos como aquela rotina a incomoda, mas não há meios de sair.

Nesse incontido aflorar de sua sensualidade, Galega transa com o novo vaqueiro, Júnior, alguém que ainda lhe é desconhecido e que, talvez por isso, facilite sua aproximação, uma vez que não vemos a mesma energia entre ela e Iremar. O sexo é feito em pé, dentro de um curral, em meio aos bois. Nada mais apropriado para quem vive naquele mundo. Já Iremar é seduzido pelo presente de uma vendedora de perfumes grávida e a liberação de todo aquele desejo se representa em uma das cenas de sexo mais belamente filmadas no cinema nacional.

Mascaro convida o espectador a visitar aquele mundo, a perceber como aqueles indivíduos se adaptam às suas ambições em seus sonhos impossíveis e os modos como a vida os castra. Uma obra fascinante.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Sicario

(EUA, 2015) Direção: Denis Villeneuve. Com Emily Blunt, Josh Broli, Benicio Del Toro, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya. 



Por João Paulo Barreto

É fácil acusar Sicario, novo trabalho do diretor Denis Villeneuve, como uma obra fascista e criada com o único intuito de se chocar o espectador. Recordo-me de ter visto comentários semelhantes na ocasião do lançamento de Tropa de Elite, no qual diversas matérias taxavam a obra de José Padilha dessa forma. No entanto, mais importante do que um rótulo, Sicario tem em sua proposta uma relevante discussão acerca da inércia das autoridades no que tange tratar bandidos monstruosos como eles realmente são.

Reconheço ser arriscado assumir lados nesse trava. Afinal, o limite entre se tornar você mesmo um fascista ao defender os pontos de vista que a obra traz sobre o modo como se deve resolver a violência do tráfico de drogas no México (ou em qualquer grande capital brasileira, diga-se) é tênue. No entanto, é imprescindível traçar uma análise acerca das ações policiais cujos atos são tão monstruosos quanto os cometidos pelos “bad guys” dessa história. Ao final, fica a pergunta: quem é o verdadeiro vilão da obra que acabamos de presenciar? Talvez, o mais relevante não seja essa pergunta, mas, sim, sabermos quem são os sobreviventes cujo futuro sombrio ainda pode ser salvo.


Macer: Guerra contra o tráfico em solo americano 
Juárez, no México, é o retrato de um território sem lei, no qual policiais corruptos lidam com o tráfico de forma conivente e os traficantes, a fim de demonstrar poder, penduram seus desafetos esquartejados nos viadutos que cortam a caótica cidade. É nesse ambiente que a agente estadunidense Kate Macer (Blunt) é inserida juntamente com uma equipe de superiores liderada por Matt Graver (Brolin) e por Alejandro (Del Toro), um ex-promotor colombiano que colabora nas investigações que podem levar a prisão do chefão Fausto Alarcon. 

Inicialmente focado na inserção de Macer naquele novo universo que lhe é desconhecido no que se refere ao México, o longa vai, gradualmente, ampliando seu leque de abordagem, trazendo à tona vez por vez as motivações de cada personagem, para, ao final, revelar a surpreendente razão para um deles agir do modo como age e o quão chocantes podem ser seus atos. Macer, apesar de experiente na atividade policial (a cena inicial do filme, mostrando sua equipe tática invadindo uma casa repleta de traficantes impressiona), é inserida naquele ambiente de modo que sua postura passa a se moldar diante daquelas circunstâncias. Sempre irredutível quanto ao que acredita, não seria difícil imaginá-la cedendo ou desistindo à medida que a percepção que aquele universo a moldará se concretiza.

Del Toro no papel do atormentado e misterioso Alejandro
É uma obra que incomoda. Que nos faz assumir lados perigosos de se assumir. Que nos faz torcer pelas pessoas erradas, mas, no entanto, nos deixa com a certeza de se entender suas razões, apesar de não concordarmos com seus atos. Monstruosidades devem ser respondidas apenas com monstruosidades? O olho por olho não acabará por nos deixar todos cegos? Quando nos deparamos com um final como o apresentado em Sicario, temos a certeza de que, de fato, o homem é produto do seu meio. Ao final, a agente Macer escuta alguém lhe dizer que aquela é uma terra de lobos e que ela não faz parte daquele lugar. Muitos são os que fazem parte, no entanto. Poucos, para o bem o para o mal, estão ali por que escolheram ficar. 

A cena do jantar ao final do filme denota bem o tipo de homem que foi arrastado para aquela terra, mas acabou por se sentir à vontade naquele ambiente hostil, reconhecendo-se como parte inseparável daquele lugar.

É um filme amargo, cujo final até tenta nos colocar um viés de esperança, mas, qualquer eco nessa tentativa é abafado pelas rajadas de metralhadora que sobrepõem os sons de um jogo de futebol entre crianças.







sábado, 24 de outubro de 2015

Ponte dos Espiões

(Bridge of Spies, EUA, 2015) Direção: Steven Spielberg. Com Tom Hanks, Mark Rylance, Alan Alda, Amy Ryan, Austin Stowell, Jesse Plemons, Sebastian Koch.




Por João Paulo Barreto

Uma das características mais aprazíveis de Ponte dos Espiões, novo acerto de Steven Spielberg após os medianos Cavalo de Guerra e Lincoln, é o modo como o diretor dá preferência em desenvolver as características intimas de seus protagonistas sem necessariamente usar esse artifício como uma muleta emocional para levar adiante o filme.

Como o título já entrega, é um filme sobre espionagem. Não necessariamente um filme sobre gadjets ou rotina de espiões. Claro, vemos algo disso dos dois lados do tabuleiro EUA vs URSS, mas o ponto principal de observação aqui são as circunstâncias cruciais de vida ou morte em que aqueles homens de ambas nações são colocados sem a real vontade de estar ali, “morrendo” por seus respectivos países.

Não me entenda mal. Patriotas eles, de fato, são. Não estão dispostos a ceder perante tortura, ameaças de execução ou penas perpétuas de encarceramento. Mas é notável um peso em seus olhares cansados e desejo por outra vida que o roteiro dos irmãos Coen e do quase desconhecido Matt Charman salienta com um cuidado impressionante em não resvalar para o melodramático cuja armadilha diversas obras de guerra já caíram.
Tempo de paranoia: Jim é perseguido por figura suspeita
Aqui, o conflito apresentado é a Guerra Fria, quando em meados da década de cinquenta, Estados Unidos e União Soviética mediam suas forças estando ambos amarrados pela coleira que a possibilidade de um novo conflito mundial poderia trazer de consequências para ambos. A ameaça de uma nova bomba atômica assombra todo o planeta. Ambos possuem espiões infiltrados em suas redes de informações.

Em Nova York, Rudolf Abel, suposto russo cuja nacionalidade nunca é confirmada, é preso sob suspeita de passar segredos militares para os comunistas soviéticos. Sobrevoando o país comunista a 70 mil pés de altura e tirando fotos com supercâmeras, o piloto Francis Powers é abatido (em uma sequência espetacular) e preso. Na Alemanha, o estudante americano de Economia, Frederic Pryor, trabalha em sua tese sobre comunismo quando é preso diante do muro de Berlim em construção sob a acusação de espionagem.

Na difícil missão de defender Abel, o advogando da área de seguros (!?), James Donovan (Hanks), vê o caso ganhar dimensões nacionais e uma fama de vilão é aplicada a sua pessoa. Trabalhando sob o velho argumento de que todos merecem uma defesa, Jim sabe que não tem chances de ver seu cliente inocentado das acusações. Quando a pena de morte lhe é destinada, resta ao competente bacharel a ideia de convencer o juiz a manter Abel vivo como possibilidade de barganha em caso de um soldado americano ser capturado pelos soviéticos. E, obviamente, é justamente o que acontece.

Não confie em ninguém: Jim em solo alemão busca formas de negociação

No entanto, como disse, o roteiro dos Coen (baseado em fatos reais) escapa das armadilhas de um dramalhão focado nas condições adversas nas quais os espiões e o estudante que estava na hora e local errado se encontram. E creio ter sido um desafio para Spielberg não se render a esse tipo de caminho fácil, uma vez que, em muitos dos seus filmes, o drama humano e as lágrimas acabam por afogar qualquer outra tentativa de construção fílmica. Outra razão para esse resultado positivo está na escolha de Thomas Newman na criação de uma trilha sonora que, apesar de tons melancólicos em certos momentos, mantém-se compenetrada e destinada a salientar as tensões que aqueles homens estão passando.

Ainda graças aos Coen, que mantêm um humor afiado em seu texto, principalmente embalado pelos diálogos rápidos de Tom Hanks nas situações familiares e de trabalho, Ponte dos Espiões se sobressai não somente como uma eficiente reconstrução de época (a direção de arte é sublime), mas como uma obra focada nas relações humanas. E isso sem a necessidade de seguir os já citados fáceis e clichezados caminhos narrativos que essa escolha pode possuir.

"Todos merecem uma defesa": Jim e seu cliente espião, Abel
É uma obra elegante, repleta de subcamadas que apresentam críticas a uma época de vigilância, perseguições e paranoia, que, apesar de se passar nos anos 1950, podem muito bem ser aplicadas aos dias de hoje. Spielberg, claro, faz questão de pintar os Estados Unidos como uma terra de sonhos, comparado ao inferno que devia ser viver na União Soviética ou Alemanha daquele período. A óbvia (e até um pouco banal) rima visual que ele fez ao comparar uma viagem em um trem germânico com a de um trem novaiorquino beira um tanto no artificialismo, apesar de trazer importante reflexão.

Porém, ao olharmos para os dias de hoje, quando a abordagem a cidadãos negros por policiais brancos se difere grotescamente do modo como aconteceria se os suspeitos fossem caucasianos; quando estudantes estadunidenses matam professores e colegas de classe com rifles; ou quando adolescentes com distúrbios adentram igrejas de comunidades afrodescendentes de arma em punho, notamos que a paranoia daquela década do século passado não se compara a dos dias de hoje. E justamente no país que Ponte dos Espiões vende como sendo o mais seguro de todos.  



terça-feira, 13 de outubro de 2015

Respire

(França, 2014) Direção: Mélanie Laurente. Com Joséphine Japy, Lou de Laâge, Isabelle Carré


Por João Paulo Barreto

Apesar de seu título simbólico e ligado mais a um significado subliminar da trama do que propriamente ao desenvolvimento gradativo de seus personagens e desfecho pretensamente chocante, Respire, obra francesa exibida na Semana da Crítica de Cannes em 2015, traz uma discussão mais importante para os dias atuais que é a questão do bullying entre adolescentes e o modo como tais perseguições podem abalar alguns deles tanto de forma psicológica quanto física.

Na trama, a adolescente francesa Charlene, ou Charlie, como é chamada por todos, é uma estudante secundarista com problemas de asma e jovens pais em constante conflito. Charlie percebe em uma aluna novata, a confiante e quase rebelde Sarah, uma reconfortante e calorosa amizade que se desenvolve desde seu primeiro encontro no colégio, passando a crescer ainda mais nos momentos em que estão juntas durante estudos em casa e férias passadas com a família da primeira

Cumplicidade: Charlie e Sarah se envolvem cada vez mais
Com claros desejos sexuais reprimidos pela amiga e uma fragilidade afetiva gritante, Charlie se vê refém das nuances da personalidade de Sarah, que, inicialmente companheira e presente, passa a criar joguinhos psicológicos com a amiga, como quando passa a ignorá-la durante o tempo que passam juntas nas férias familiares de Charlie apenas porque esta a apresentou como colega de colégio ao invés de amiga.

Sarah, no entanto, esconde segredos relacionados a sua mãe, que ela vende aos amigos como sendo uma ativista de uma ONG da África, mas, na verdade, é uma alcoólatra desequilibrada que vive em seu minúsculo apartamento sob os cuidados da filha. Notável o modo como a diretora Mélanie Laurent (a Shosanna, de Bastardos Inglórios) traz ao espectador esse segredo da vida da espevitada Sarah. Mantendo um eixo horizontal de câmera, ela exibe pelo lado de fora o sujo apartamento onde a adolescente vive, mostrando através das janelas o drama da vida doméstica da jovem e, finalmente, alcançando a revelação de uma terceira pessoa a presenciar aquilo, o que trará consequências drásticas na vida das protagonistas.

Evitando focar na evidente sensualidade das duas meninas, Laurent acerta em manter a relação afetiva com o mínimo de apelo sexual, algo que seria uma armadilha fácil para o roteiro seguir, principalmente após o sucesso de Azul é a cor mais Quente.

Sempre juntas, a amizade deixa o colégio para fazer parte da vida de ambas
Ao invés de escancarar qualquer desejo reprimido que ambas possam possuir, o roteiro, baseado na obra de Anne-Sophie Brasme e escrito pela diretora em parceria com Julien Lambroschini, mantém tal possibilidade no campo da sugestão, colocando-o apenas nos olhares de Charlie para a amiga, na observação desta enquanto Sarah está na aula de ginástica e alcançando o “máximo” ao colocá-las em um beijo bêbado durante uma brincadeira.

Outro ponto curioso é o modo como a beleza de Charlie é apresentada ao espectador em sua primeira aparição em tela, quando, após um breve momento com o rosto encoberto por uma xícara no café da manhã, exibe sua jovialidade e exuberância, características essas que a garota não parece perceber possuir e, quando tenta salientá-las com um simples batom, o resultado acaba sendo o menos esperado e a constrangendo em sua.frágil solidão.

É uma obra que consegue dosar bem a tensão de uma relação cujo desequilíbrio trágico e emocional é iminente, o que não deixa de refletir de forma positivamente incômoda no espectador. Mesmo com um final um tanto forçado e criado com uma certa intenção de choque que beira o artificial, Respire se apresenta muito bem em sua proposta de discussão no modo como a adolescência pode ser uma fase extenuante, principalmente para jovens em situações de bullying.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Panorama 2015: Divulgada a lista de selecionados para a Competitiva Nacional de Curtas

Produções da Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal, São Paulo e uma coprodução Brasil/Alemanha integram a lista dos 16 filmes selecionados para a Competitiva Nacional de Curtas do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema. Documentários, ficções e filmes experimentais compõem a mostra que será exibida no Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha e no Cine Theatro Cachoeirano (Cachoeira) entre os dias 28 de outubro e 04 de novembro.

Os curtas serão exibidos em dupla, sempre acompanhados de um longa nacional em competição e seguidos de debate com os diretores e outros integrantes da equipe. Em Salvador, os ingressos serão vendidos a preços populares, enquanto em Cachoeira as sessões serão gratuitas. Realização da produtora Coisa de Cinema em parceria com o Cineclube Mário Gusmão, projeto de pesquisa e extensão da UFRB, o Panorama conta com o patrocínio da Petrobras e do Governo do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura.

(Informações divulgadas através de release)


Confira filmes selecionados:

A Festa e os Cães (CE), de Leonardo Mouramateus


Sinopse: À noite eles se juntam em bando, como se fossem um pelotão que tivesse desertado de uma mesma parte, para este pedaço de bairro no subúrbio

À Parte do Inferno (SP), de Raul Lemos Arthuso



Sinopse: O céu é só um disfarce azul do inferno.


Em Paz (RJ), de Clara Linhart


Sinopse: Em 1916, uma associação de prostitutas judias vindas da Europa do Leste funda seu próprio cemitério no Rio de Janeiro. Hoje, ele está desativado.



Feio, Velho e Ruim (BA), de Marcus Curvelo


Sinopse: Joder tenta fazer um selfie.


Fuja dos Meus Olhos (Escape from my Eyes, Brasil/Alemanha), de Felipe Bragança


Sinopse: Fuja dos Meus Olhos (Escape from my Eyes) narra três fábulas sobre os refugiados Mayga, do Mali, Elias, de Gana, e Abidal, de Burkina Faso, através de imagens documentais e de ficção imaginária.

No filme , os homens reencenam suas próprias histórias de fuga e luta, transpostas para Berlim no inverno.


                               História de uma Pena (CE), de Leonardo Mouramateus



Sinopse: Um professor espera a chegada dos alunos atrasados. Longe dali, um jovem casal acorda entre as árvores. São dez e quinze da manhã. Eu sei com que fúria bate o teu coração.


Ifá (BA), de Leonardo França


Sinopse: Um filme feito a partir de um jogo de búzios. Um filme como jogo, um jogo como filme.


Mar de Fogo (RJ), de Joel Pizzini


Sinopse: Mar de Fogo é um filme-ensaio experimental sobre as pulsões inventivas de Mário Peixoto, autor de Limite (1930), um clássico do cinema mudo. O filme recria livremente a visão do cineasta, ao conceber sua obra prima, evocando ainda uma sequencia delirante de seu futuro filme.


Meio Fio (DF), de Denise Vieira



Sinopse: Um recorte do cotidiano de Karine Ban, locutora de um programa romântico de rádio, que acaba de se mudar para um condomínio recém-construído no entorno do Distrito Federal. O ambiente é de puro concreto, casas iguais e reduzida vizinhança. A paisagem é seca – sem árvore, sem flor, sem bicho.
E nessa conjuntura – árida, pulsam: confissões, ressentimentos e lembranças de amor. (CA)


Muros (BA), de Fabricio Ramos e Camele Queiroz


Sinopse: A precariedade urbana e arquitetônica de favelas brasileiras é colocada em questão por um fotógrafo baiano (Rogério Ferrari) que conviveu e fotografou o povo palestino em Gaza, na Cisjordânia e em campos de refugiados.


O Homem que Virou Armário (CE), de Marcelo Ikeda


Sinopse: O Homem que Virou Armário conta a história de um funcionário que, tão obcecado pelas tarefas rotineiras e mecânicas de seu ambiente de trabalho, um dia acaba se transformando num dos armários da repartição. Uma colega de trabalho, que sempre foi apaixonada por ele, tenta bolar uma estratégia para trazê-lo de volta à vida. Em tom de comédia, o curta apresenta uma crítica bem-humorada às relações de trabalho da sociedade contemporânea e à coisificação do homem de hoje.


Outubro Acabou (RJ), de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes


Sinopse: Além do indômito desejo de realizar as enormidades que o tentavam, nada mais dentro dele era sagrado.

Quintal (MG), de André Novais Oliveira



Sinopse: Mais um dia na vida de um casal de idosos da periferia


Rapsódia para o Homem Negro (MG), de Gabriel Martins


Sinopse: Odé é um homem negro. Seu irmão, Luiz, foi espancado até a morte durante um conflito em uma ocupação de Belo Horizonte. O filme utiliza alegorias e simbolismos para contextualizar as relações políticas, raciais, de ancestralidade e urbanização no mais recente cenário político brasileiro.


Tarântula (PR), de Aly Muritiba e Marja Calafange 


Sinopse: No casarão mora uma família religiosa e aparentemente incompleta: uma mãe e suas duas filhas. Até que uma aparição perturbadora vem colocar as coisas em seu devido lugar.

Virgindade (PE), de Chico Lacerda 



Sinopse: Se pudesse, eu voltaria a ser uma criança, só pra poder fazer mais do que eu já fiz quando era pequena!

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Panorama 2015: 14 filmes baianos compõem a competitiva do estado

Quatorze filmes produzidos em Salvador e interior da Bahia integram a seleção para a Competitiva Baiana do XI Panorama Internacional Coisa de Cinema, que acontece de 28 de outubro a 04 de novembro, em Salvador e Cachoeira. São três longas e onze curtas-metragens, com diferentes linguagens e estilos, oferecendo um cenário diversificado do cinema feito no estado entre 2014 e 2015. Os filmes serão exibidos em sessões seguidas de debate entre os realizadores e o público.

As mostras competitivas acontecem no Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, de acordo com programação a ser definida. Os filmes também serão exibidos em Cachoeira, onde pela primeira vez o festival acontece no Cine Theatro Cachoeirano, espaço cultural de importância histórica na cidade. Realização da produtora Coisa de Cinema em parceria com o Cineclube Mário Gusmão (projeto de pesquisa e extensão da UFRB), o Panorama conta com o patrocínio da Petrobras e do Governo do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura.

(Informações divulgadas através de release)

LONGAS

A Loucura Entre Nós, de Fernanda Fontes Vareille



Sinopse: Quais os limites da nossa sanidade? O que nos define como normais? “A loucura entre nós” lança um olhar sobre os corredores e grades de um hospital psiquiátrico, buscando personagens e histórias que revelem as fronteiras do que é considerado loucura. Através, principalmente, de personagens femininas, o documentário exala as contradições da razão, nos fazendo refletir nossos próprios conflitos, desejos e erros.


Faz-se Filmes, de Violeta Martinez


Sinopse: \"Faz-se Filmes\" é um projeto itinerante que propôs percorrer onze cidades do interior da Bahia, oferecendo o serviço de produção de filmes em curta-metragem à população de pouco acesso a produção de cinema e cultura digital. O projeto buscou incentivar e possibilitar todo e qualquer cidadão a criar e ampliar a sua produção econômica e/ou artística, a partir das propostas de filmes que foram apresentados em cada localidade pelas pessoas que solicitaram o \"Faz-se Filmes\" mobilizando comunidade e equipe em prol do incentivo à cultura e preservação da identidade local.


O Amor dos Outros, de Deo


Sinopse: \"O amor dura o tempo que precisar [...] o amor dos outros nunca vai ser menor que o nosso\". Junior, um jovem de 30 anos, estagnado e sem perspectiva na vida, vai sendo conduzido por amores flagelados.


CURTAS


Alegoria da Dor, de Matheus Vianna. 


Sinopse: Um ensaio sobre a dor movido pela memória.


Ana, de Camila Camila


Sinopse: Indícios, fragmentos de vida que me compõem. Histórias familiares, especialmente as que identifico-me enquanto mulher. A memória é um instrumento de ficção.


Argentina, Me Desculpe, de Leandro Afonso



Sinopse: Após várias decepções em Copas do Mundo, uma tragédia maior que todas elas. Enquanto relembra os últimos quatro anos, Pilar, argentina, tenta reencontrar Sofia, brasileira. 


Eu, Travesti?, de Leandro Rodrigues


Sinopse: Um corpo e uma voz nus diante do mundo.


Fardo, de Rafael Jardim



Sinopse: Garota precisa abdicar de sua vida para cuidar da avó debilitada. Duas mulheres amarguradas vivendo uma relação de amor e ódio.


Haram, de Max Gaggino



Sinopse: Salwa é uma imigrante muçulmana que fugiu da guerra na Palestina e se refugiou na Bahia junto ao marido, Farid. Recém-chegada em Salvador e ainda se sentindo fora de lugar, Salwa conhece sua vizinha, Felícia, uma menina de dez anos que mora a poucos metros da muçulmana. As duas logo se envolvem em um intercâmbio cultural. Através de conversas desinibidas, a inocente Felícia faz perguntas que qualquer adulto teria receio de fazer.


Retomada, de Leon Sampaio


Sinopse: Primeiro povo a fazer contato com os portugueses no Brasil, os Tupinambá lutam atualmente pelas terras que os fazendeiros tomaram no início do século passado. O filme investiga o processo de resistência dos índios da Serra do Padeiro, território liderado pelo Cacique Babau. Desde que Babau virou cacique, os índios retomaram mais de cinquenta fazendas e lutam dia a dia pela sobrevivência.


Ritual Pam Pam Pam, de Ramon Coutinho



Sinopse: No território Caiataia, tribos sociais se organizam regularmente em rituais sonoros que reproduzem o “Pam-pam-pam” ou “Canto dos deuses furiosos”. Através de enormes caixas de som em veículos automotores milhares de pessoas participam com danças e bebidas, buscando elevar os prazeres carnais e espirituais.


Sandrine, de Elen Linth e Leandro Rodrigues




Sinopse: Entre as aulas de matemática e a relação conturbada com a mãe, Sandrine espera na fila de um hospital.


Santo de Casa, de Lorena Sales e Murilo Deolino


Sinopse: Durante o dia dois jovens participam das ocupações religiosas da paróquia de Assunção. À noite vasculham os arredores sombrios da pequena cidade, contudo, a luz do lampião que carregam em suas saídas noturnas, não é suficiente para desobscurecer suas intenções.


Sujeito Oculto, de Amanda Gracioli



Sinopse: Alfred carrega durante o fim da sua vida apenas o automático tráfego da rotina onde o tempo lhe escapa o controle e só lhe resta a vida dos outros e um punhado memórias.