domingo, 15 de setembro de 2019

Legalidade


Quando Brizola peitou os golpistas


Com Legalidade, um vislumbre de um Brasil que poderia ter escapado da tragédia da ditadura

Por João Paulo Barreto

Impressionante como o timing do lançamento de um filme se torna preciso de acordo com a época e a conjuntura social e política em que ele é lançado. Se tivesse estreado há 10 ou 15 anos, Legalidade, novo trabalho dirigido por Zeca Brito (do excelente A Vida Extraordinária de Tarso de Castro) geraria, sim, reflexão e impacto semelhante ao que vemos hoje, em um desolador 2019, ano vitima que resultou de manipulações jurídicas e fake news em um processo de eleitoral vicioso.

Porém, adentrar atualmente no processo de luta liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul em 1961, Leonel Brizola, por ocasião da renúncia desastrosa do presidente Jânio Quadros, torna inevitável a reflexão, comparação e consequente desânimo diante de nossos dias.  Jânio, em livro organizado pelo seu neto, admitiu no leito de morte que usou o ato da renúncia como uma tentativa de recuperar popularidade voltando “nos braços do povo ao poder”. Para que este não assumisse, enviou seu vice, João Goulart, em visita diplomática à China e acabou dando um tiro no pé (e no país) uma vez que, de fato, deixou a presidência e abriu as portas para a sombra das Forças Armadas.

A partir disso, a manipulação militar para impedir que Goulart assumisse, ou que assumisse através de um acordo com os milicos (como aconteceu), a influência estadunidense nestes conchavos e o folclore propagado em torno do “terror vermelho” (sensação de déjà vu com a campanha de 2018), levou o Brasil a apenas três anos de governo de Jango e uma caminhada à beira de um precipício uma vez que, em abril de 1964, este foi deposto e país caiu nas trevas da ditadura.

Brizola (Leonardo Machado) convoca população à luta

MOVIMENTO PELA LEGALIDADE

O foco, porém, está nas ações perpetradas por Leonel Brizola (Leonardo Machado) e o movimento iniciado a partir do Palácio Piratini, sede do governo gaucho. Legalidade recria os momentos de tensão com o comunicado da renúncia de JQ e ausência de Jango no país. Brizola, percebendo os interesses militares em não deixar que o vice-presidente assumisse, inicia uma série de comunicados ao povo do RS informando-os acerca da real possibilidade de um golpe militar. Assim, diante de ameaças de bombardeios no palácio, fechamento de rádios e transmissão de pronunciamentos a partir dos porões da sede do governo, Brizola passou a comandar a frente democrática para que Goulart, ao retornar ao Brasil, assumisse a presidência.

O falecido ator Leonardo Machado (a quem o filme é dedicado) constrói a presença de Brizola em todos os trejeitos exatos que o PDTista possuía. Desde sua entonação pausada, com palavras pronunciadas em cada silaba, até seu olhar compenetrado, de baixo pra cima, que prenunciava um sorriso aberto, Machado recriou a presença do jovem Brizola de maneira precisa.

Como contra ponto para o foco biográfico da obra, o roteiro de Legalidade insere a presença fictícia da jornalista correspondente do Washington Post, Cecília (Cleo Pires, que, na verdade, interpreta uma agente infiltrada do governo dos EUA) em um triângulo amoroso com os irmãos Luis Carlos (um antropólogo revolucionário vivido por Fernando Alves Pinto) e Tonho (José Ligabue, que interpreta um fotojornalista em um escape para o humor no longa).

Nesta abordagem, o filme perde força por conta da fragilidade deste arco narrativo, bem como o tom um tanto de novela com que o diretor Zeca Brito optou por trazer aquele romance. Assim, It´s Now or Never, na voz de Elvis, e outras músicas incidentais não ajudam muito na dramaticidade do filme, trazendo uma proposta que incomoda por conta dessa opção pelo tom folhetim. Para perceber isso, basta observar como o impacto do diálogo entre Cecília e Luiz em frente a um desfiladeiro com o mar ao fundo gera muito mais apelo dramático com o som ambiente do que com qualquer música a embalar o momento.

Luz pela legalidade: Brizola nos porões da democracia
FUTURO REPETE PASSADO

Ligando os acontecimentos da juventude de Brizola aos seus dias na velhice (com Sapiran Brito no papel), temos a filha de Cecília (vivida por Letícia Sabatella) em busca de respostas acerca da trajetória da mãe, morta em 1968. Em visitas a arquivos públicos durante o ano de 2004, mesmo do falecimento de Brizola, a personagem consegue criar um elo representativo da memória do brasileiro com seu passado, algo que parece não ser muito possível quinze anos depois. Uma metáfora eficiente, mesmo que, em uma dessas visitas, o filme falhe ao mostrar a personagem rabiscando um jornal do acervo.

Apesar de uma construção clichê da relação de Cecília com o governo estadunidense (as cenas em que ela conversa com um agente da CIA entregam essa fragilidade do roteiro), a inserção da personagem na trama denota bem a manipulação do governo de Kennedy e seu interesse em manter a influência dos Estados Unidos entre os líderes da América Latina. A ideia de uma sombra vermelha, propagandeada pelos ianques e abraçada pelos militares daqui como meio de manipular a opinião pública é bem desenhada pelo texto de Leo Garcia e do próprio diretor Zeca Brito.  A comparação citada no começo em relação aos diferentes meios de manipulação de um mesmo rumor para criar uma massa de manobra entre eleitores é algo que se repetiu de forma muito mais sórdida em tempos recentes.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 15/09/2019


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

It - Capítulo 2


A relevância do Terror


Apesar do tom episódico com sequências de terror, 
conclusão de It – A Coisa faz jus à grandeza do clássico de Stephen King

Por João Paulo Barreto

Quando se inicia o capítulo dois e final de It – A Coisa, adaptação da obra literária homônima de Stephen King, uma atmosfera específica inserida pelo cineasta argentino Andy Muschietti desde sua primeira parte, de 2017, surge. Trata-se da eficiente ideia de nostalgia misturada ao terror dos medos infantis. O já comum uso de risadas de crianças para criar essa tensão colabora, claro, mas é por conhecer a proposta de seu autor, tanto o literário King quanto a do roteirista Gary Dauberman (que já havia explorado esses medos no ótimo Annabelle 2), que percebemos o quão aterrorizante  é esse retorno à infância, podendo ser representado apenas por uma saudade, mas que, aqui, se relaciona com um genuíno pavor.
Derry, a cidade imaginada por Stephen King para ilustrar A Coisa e diversos de seus outros livros reaparece em It – Capítulo 2 como um presságio. Inicialmente, como uma lembrança doce. Os sons de um parque de diversões, o cheiro da pipoca, o sorriso das crianças e os casais de mãos dadas nos trazem isso. 

Ao utilizar a nostalgia de um parque que, mesmo funcionando em 2019, remete o espectador (e o leitor) a uma visita em sua infância de muitos anos antes, Muschietti, junto ao seu diretor de fotografia, o peruano Checco Varese, recriam exatamente a palpável tensão marcante de sua fonte original. Mesmo diante do medo, lá estão o ar de cidade de interior, os aromas, as cores douradas a nos levar a períodos equivalentes de encanto.  Mas, conhecendo a literatura de King, percebe-se que o mal está incrustado em tudo, apenas esperando o momento mais oportuno para se manifestar. Logo, essa crueldade se torna um anúncio para a tragédia quando aquele ambiente declina para uma violência homofóbica que serve como prelúdio para o ressurgimento do personagem central e símbolo daquele horror.

Perdedores em suas versões adultas

PERDEDORES DE VOLTA

Nas versões adultas, os losers do primeiro filme seguem em suas vidas. Alguns com sucesso, outros nem tanto. No mais simbólico dos casos, Beverly Marsh (agora vivida por Jessica Chastain), vive em um casamento abusivo e escapa dessa violência a partir do chamado de Mike Hanlon (Isaiah Mustafa), o único dos “perdedores” do grupo a ter ficado em sua cidade natal. Mike, ao perceber o retorno do símbolo daquele horror citado, convoca os amigos a cumprirem o juramento de voltar à Derry para enfrentar o mal representado pelo palhaço Pennywise, interpretado magnificamente por Bill Skarsgård. Assim, lá estão de volta Bill Denbrough (James McAvoy), Richie Tozier (Bill Hader, hilário), Ben Hanscom (Jay Ryan) e Eddie Kaspbrak (James Ransone, em uma impressionante semelhança física com o ator Jack Dylan Grazer, sua versão criança).

Neste reencontro, porém, é onde o filme, com seus quase 170 minutos, demonstra sua falha, algo perceptível principalmente em comparação à sua primeira parte. Com a necessidade de abarcar os dramas de todos os personagens junto ao terror oriundo do contato com Pennywise, o roteiro de It – Capítulo 2 acaba, em alguns momentos, por perder seu ritmo, tornando-se episódico e expositivo na ideia de criar sequências de terror. Assim, cada um dos adultos passa a ter uma experiência singular com a criatura, algo que espelha um trauma vindo da infância. Diante de tantos momentos nos quais o palhaço surge como um elemento fantasioso a explorar o medo de cada um dos perdedores (ou otários, em sua adaptação), o longa perde um pouco do seu impacto como filme de terror, como, por exemplo,  a sequência envolvendo uma estátua gigante de lenhador a ganhar vida.

Porém, é válido salientar que, em algumas dessas sequências, como a que aborda o encontro de Bill e seu irmão caçula junto a um bueiro conhecido ou o momento em que Beverly se vê de volta à casa onde morou com seu pai molestador e alcoólatra, assustam justamente por abordar dramas onde o terror fantasioso de Pennywise se torna uma alegoria para o real trauma psicológico de seus protagonistas, algo muito bem explorado nessa conclusão com outros personagens, também. Dentre eles, Stanley Uris (Andy Bean), que, em breve participação, insere um denso tom dramático em um arco envolvendo suicídio.

Pennywise e sua verdadeira face

REENCONTRO COM PASSADO

Excetuando o caráter episódico existente na ideia abordar diversas passagens de terror em seus muitos personagens, essa conclusão de It figura como um ótimo exemplar do gênero, e isso se deve principalmente à participação de Bill Skarsgård como Pennywise. Aqui, inclusive, é possível um vislumbre do ator sem a pesada maquiagem de palhaço, em uma pertinente homenagem que Muschietti faz ao seu protagonista. E ele consegue transferir em sua versão humana horror tão sufocante quanto o de sua persona circense e doentia.

Demonstrando uma montagem precisa em relação a mesclar flashbacks com a trama que acontece na atualidade, trazer a continuidade da história dos losers ainda adolescentes e criar diversas rimas visuais de suas vidas com suas atormentadas versões adultas, a conclusão da adaptação da obra de Stephen King (que faz uma participação hilária em cena) coloca It – O Filme, considerando ambos como uma obra única, como aquele tipo de transposição para os cinemas a ocupar o mesmo lugar afetivo do seu original literário.

E ver em It e em suas homenagens (as que abordam Carrie e O Iluminado, ambas obras de King, saltam aos olhos) o Terror como gênero alcançar tamanha relevância dentro de uma onda de filmes que se repetem e se banalizam em suas propostas de causar medo, não é algo a se menosprezar.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 06/09/2019






domingo, 1 de setembro de 2019

Yesterday


E se os Beatles...


Em Yesterday, Danny Boyle adapta para o artificial século XXI
a espontaneidade da criação de um fenômeno cultural

Por João Paulo Barreto

Imaginar os Beatles surgindo em pleno século XXI, distante das limitações publicitárias dos anos 1960 em termos de divulgação e alcance, em um modo totalmente distinto do atual no que tange a investir em um lançamento musical, é um exercício curioso de se fazer. Quando os rapazes despontaram para o sucesso, em 1962, com os shows realizados no Jacaranda e no Cavern, pubs britânicos, o alcance que tiveram se restringiu inicialmente à Inglaterra em meio à influência do Mersey Beat, tablóide de Liverpool que divulgava as bandas da cidade, e o boca a boca entre o já fervoroso grupo de fãs que surgia.

Após a ida para Hamburgo, cidade alemã onde tocaram em inferninhos e puderam aprimorar sua experiência em palcos; após o aparecimento de Brian Epstein, empresário local de Liverpool que se propôs a representar aqueles garotos na busca por um contrato de gravadora; e, claro, a entrada em cena do produtor musical George Martin, responsável pela lapidação de suas composições, a ascensão de John, Paul, George e Ringo (no lugar de Pete) à fama com seu primeiro disco, Please Please Me, junto à inevitável ida aos Estados Unidos após o lançamento do single I Wanna Hold Your Hand, resumem bem o início meteórico dos garotos em sua dominação mundial.

EPISÓDIO DE TWILIGHT ZONE

Mas todas essas informações não são novidade se você viveu parte da vida no caldeirão de cultura pop ou se interessa minimamente por boa música. A utilização delas, aqui, serve apenas para uma ilustração desse exercício citado acima. Mas é em Yesterday, divertidíssima comédia romântica dirigida por Danny Boyle (Trainspotting), que imagina um mundo no qual os Beatles e outra série de elementos físicos e culturais do mundo deixam de existir da noite para o dia, que concretizamos tal brincadeira e analisamos essa ideia da grandeza mercadológica da banda, bem como o modo como isso seria explorado atualmente, tempos em que curtidas definem carreiras.

Jack chega à encruzilhada de sua vida

Na figura do único que parece inicialmente lembrar, o talentoso e sem sucesso músico Jack Malik (Himesh Patel) é quem, após um atropelamento, acorda nessa realidade paralela na qual os FabFour não mais existem e somente ele conhece suas canções.  Logo, mesmo ainda confuso, o rapaz passa a cantá-las comercialmente e é abordado por um grande selo para gravação das pérolas.

Neste ponto, a ideia de comparar o modo como os Beatles ascenderam e a preparação minuciosa de um “produto musical”, como define a arrogante e gananciosa empresária Debra Hammer (Kate McKinnon), espécie de Allen Klein, empresário vigarista dos Beatles, ou com um símbolo dessa nova forma de criar tais produtos na presença hilária de Ed Sheeran, dá ao público uma maneira ainda mais recompensadora de absorver Yesterday – O Filme, esse quase episodio de Além da Imaginação.

Diferente de Across the Universe, musical de 2007 que utilizava as canções da banda como meios de diálogo e contar de uma trama (algo que às vezes soava um tanto forçado), Yesterday, apesar de referenciar a trajetória dos quatro Beatles diretamente (o momento em que é emulada uma cena de A Hard Day´s Night, longa de Richard Lester, é de puro encantamento), consegue mesclar uma proposta de ficção romântica sem a necessidade prolixa de recontar ou readaptar a história do fenômeno cultural.

Help! e o seu real pedido de socorro
Assim, é no drama pessoal vivido por Malik, que sente a consciência pesada por, na verdade, se tratar de um plagiador, que está a essência do longa. O momento em que Help! é cantada a plenos pulmões e o pedido de ajuda é escutado por apenas duas pessoas na platéia traz essa profundidade necessária para seu personagem. E conhecendo a circunstância da composição de John Lennon como um real grito de socorro, tal cena ganha ainda maior simbolismo.

Ainda em relação a Lennon, um momento ímpar do filme faz uma alusão direta à luta do músico em manter-se junto à mulher que amava. Um paralelo íntimo, apesar de em menor circunstância, é oportunamente feito pelo roteiro de Richard Curtis, que já havia escrito o tocante Questão de Tempo. Aqui, a questão vinculada ao par romântico de Malik, Ellie (Lily James), a então amiga e empresária dos tempos de insucessos, sugere, a partir de um belo encontro entre Jack e um personagem histórico, essa motivação para conseguir escapar daquela armadilha oportunista que a fama lhe colocou.

Yesterday não é obrigatoriamente um filme que divertirá apenas os fãs dos Beatles. Aqueles que se encantam diariamente com suas canções e sempre se surpreendem com a influência cultural que suas composições, atitudes e ações causaram no século XX. Ele também é sobre a não obrigatoriedade de se considerar uma estrela. É sobre lidar com a fama de maneira a não se tornar escravo dela. Ao final, é sobre a ideia de conseguir enxergar o sucesso também em pequenas ações, de enxergar o amor ao seu redor. É sobre também multiplicar esse amor. Algo que John, Paul, George e Ringo fizeram tão bem.

Em tempo: há um curta metragem mineiro, de 2008, chamado Os Filmes que não Fiz. Dirigido por Gilberto Scarpa, o filme é uma série de episódios abordando roteiros nunca concretizados por Gilberto. Em um deles, Zelvis, um mundo no qual o rei do rock não existe, é ilustrado com o personagem assumindo o manto de Elvis Presley, cujos discos ainda existem. Algumas pessoas cogitaram a ideia de plágio, uma vez que o filme foi exibido na Europa e está disponível on line. Observando uma essência real de fato presente ali, fica a julgamento do público essa questão.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 01/09/2019


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Bacurau


Somos todos Bacurau!


Com faroeste moderno, cineastas Juliano Dornelles e Kleber Mendonça desenham o triste Brasil do apagamento histórico, humano e cultural que segue em curso

Por João Paulo Barreto

Ao chegar à cidade de Bacurau, no interior do Nordeste, e escutar a explicação acerca do fato de que o nome do local é o mesmo de um pássaro da região, a forasteira vivida por Karine Teles replica dizendo que o animal se encontra extinto. A tréplica da dona da mercearia é exata: “Aqui, não. Mas é que ele só sai de noite. Ele é brabo!” Uma brabeza pela sobrevivência tão necessária quanto a que existe na obra Bacurau, resposta fílmica de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles ao ímpeto de extinguir povos e culturas que atualmente segue em voga por pretensas lideranças no poder.

A resistência contra essa tal morte certa que ameaça seus moradores está logo em sua simbólica imagem inicial, quando, na rodovia que leva a Bacurau (“17km. Se for, vá na paz”, adverte a placa), um caminhão pipa destroça caixões vazios que tomam conta da estrada após um acidente envolvendo o carregamento de uma funerária. De cara, o tom de sua obra é dado.

Em uma densa atmosfera de faroeste moderno, Juliano e Kleber desenham a ambientação de seu longa, quando vemos o futuro distópico brasileiro se confirmar no apagamento proposital de quem ainda ousa resistir. E tal resistência é total no que se refere ao domínio tanto físico quanto ideológico do local onde vivem seus habitantes. Essa é a mesma resistência que vira as costas e fecha as portas para político que, em busca de voto, traz livros velhos, comida, remédios de tarja preta, caixão e vela para angariar apoio, mas que, ao partir, leva uma prostituta local consigo. A cidade de Bacurau é a representação da inteligência crítica que precisa existir e resistir.

A despedida que simbolizará a resistência 

A citada resistência dos seus habitantes está não somente nas armas expostas no museu da cidade, em uma precisa metáfora da História e do conhecimento como poder. Ela já surge nos versos repentistas cantados por Carranca (Rodger Rogério). No repente, poderosa manifestação, mais um símbolo do poder cultural como arma contra o apagamento. Em sua letra, o repentista  enquadra os dois forasteiros que chegam ao lugar com ares de superioridade. “Não quero seu dinheiro”, avisa Carranca. Tal sentimento de superioridade e arrogância é o mesmo do qual os dois forasteiros se tornarão vitimas quando se julgarem membros igualitários do grupo de mercenários contratado para aniquilar toda a população local.

É neste momento que, em seu roteiro, Kleber Mendonça e Juliano Dornelles inserem sua principal noção do que é o Brasil e, mais propriamente, o Nordeste para estrangeiros em situação dominante e o modo como alguns ainda insistem em lamber suas botas. “Você parece branca, mas seu nariz e lábios a entregam,” provoca um dos gringos mercenários quando, entre advertências para não falarem “brasileiro” ali naquele ambiente, sela o fatal destino dos dois.

TRISTE FUTURO

A legenda que abre Bacurau indica aquela realidade ser a de um Brasil em futuro não muito distante. Tragicamente, soa muito bem como o nosso atual presente. No caminhão a desbravar aquela estrada precária repleta de caixões como sinais, segue Teresa (Bárbara Colen), que volta a Bacurau para o enterro de sua avó, dona Carmelita (Lia de Itamaracá, símbolo da música brasileira). Seu reencontro com sua terra é feito de olhares de reconhecimento desânimo por cansaço, como bem demonstra a figura de Domingas (Sonia Braga, de maneira precisa). O pai de Teresa explica para a população que sua mãe gerou muitos filhos, pessoas donas das mais variadas profissões e moradoras de muitas partes do mundo. “A única coisa que ela não gerou foi ladrão,” salienta.

A chegada anunciada à Bacurau da paz

Os quadros nas paredes da casa, em uma precisa direção de arte, desenham a rica trajetória de vida daquela anciã. O símbolo de sua partida é o mesmo que simboliza a morte de toda uma cultura. Não é por menos que é a sua imagem, sorridente e plena, a surgir no clímax do filme, quando todo o plano de aniquilação de um povo e de sua História encontra uma resposta à altura oriunda dos habitantes de Bacurau.

Já a pergunta repetida algumas vezes para os dois forasteiros sobre a possibilidade deles terem ido ao lugar para visitar o museu encontra resposta justamente nisso. É naquele museu que se preservam, ao mesmo tempo, a História e a salvação de Bacurau. A mesma cidade que, em sua independência ideológica e social, se tornou uma ameaça para a dominação constante que se avoluma por todos os lados. Na sua História, a experiência que se ensina ao seu atual povo a maneira precisa de se enfrentar o mesmo mal que se apresentou ali por séculos.

Nesse futuro distópico onde mortes também são oferecidas como opção para fuga, como bem mostra a notícia vista em uma televisão ligada, encontrar a força da resistência sanguinolenta em um símbolo histórico como um museu é por demais recompensador.

A História nos ensina muito. Porém, olhar ao nosso entorno e percebê-la como algo que parece inútil para 57 milhões de eleitores é por demais desanimador.

Mas, sigamos. Continuaremos a ser Bacurau.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 29/08/2019




domingo, 25 de agosto de 2019

Vermelho Sol


A indiferença diante do caos 


Vermelho Sol denuncia uma sociedade inerte e mesquinha perante 
terror ditatorial militar na Argentina dos anos 1970

Por João Paulo Barreto

Na imagem de uma casa tendo seus objetos de decoração, moveis e eletrodomésticos surrupiados por diversas pessoas em um silêncio sepulcral, é feito um desenho preciso da Argentina durante a segunda metade da década de 1970, período quando o golpe militar perpetrado pelo general Jorge Rafael Videla aconteceu. Naquele momento, o número de famílias que abandonavam suas casas devido a perseguições sofridas, bem como o número de desaparecidos e sequestrados crescia gradualmente.

É neste âmbito que, em Vermelho Sol, o diretor e roteirista Benjamin Naishtat constrói uma atmosfera de situações que parecem não se conectar. Tal aparente desconexão, na verdade, emula justamente a sensação de um país entregue a uma realidade mórbida, na qual o absurdo passa a ser encarado como algo comum. Assim, Vermelho, em seu singular título original, reflete tentativas de viver uma realidade baseada em indiferentes rotinas que não mais se sustentam, mas que se levam à frente por uma hipocrisia maquiada como insistência, com oportunismos desonestos e com uma maneira de  seguir seus dias olhando para o outro lado, para o próprio umbigo, se autodeclarando isento, ao invés de encarar o que se descortina no seu próprio entorno de terror e angústia diante da ausência daqueles que foram vitimados.

Soberba sequência de abertura com diálogo afiado e denunciador 

REALIDADE PLÁSTICA

É neste mundinho que vive o bem sucedido advogado Claudio (Darío Grandinetti, de Julieta e Fale com Ela). Após o público conhecê-lo durante uma impressionante sequência de abertura quando, diante de uma discussão em um restaurante, o homem enquadra um jovem que o tratara com arrogância, a impressão que se tem é a de alguém centrado e consciente do seu entorno. Porém, após um novo embate no estacionamento do lugar, situação com consequências trágicas e imediatas, o espectador percebe a real natureza de Claudio, quando este prefere omitir um socorro diante de uma fatalidade, mascarando o que aconteceu com uma furtiva ida ao deserto.

Na atitude do advogado, que logo lhe trará sérias consequências, o modo como os desaparecimentos de pessoas na Argentina do período passou a ser algo banalizado pela sua classe dominante, sendo essa justamente a crítica inserida no roteiro de Naishtat. Assim, em histórias secundárias que parecem não se conectar, como o arco envolvendo o interesse amoroso da filha do advogado, as performances dançantes da moça em uma pertinente alusão à violência masculina ou um crime passional cometido pelo seu namorado, Vermelho encontra sua principal reflexão na análise daquela realidade compostas por pessoas inertes diante do cerceamento de liberdades com consequentes fugas e o sequestro de indivíduos como fio condutor.

Utilizando a cor vermelha como uma clara alusão à paranóia manipuladora utilizada pelas ditaduras para alcançar apoio em sua escalada ao poder, Naishtat e o diretor de fotografia Pedro Sotero (conhecido pelos trabalhos com Kleber Mendonça Filho) inserem, inicialmente, uma paleta de cores em tons pastéis, algo que desenha de modo claro a monotonia disfarçada e a indiferença daqueles personagens. Assim, o choque ao vermos o rojo (vermelho) de seu título original dominar a tela de uma só vez quando da ocasião de um eclipse solar, a mensagem do choque necessário para fazer aquelas pessoas conscientes de seu entorno é pungente. Tão pungente e vermelho é o sangue nas mãos daqueles que seguem em suas vidas de não questionamento, de autodeclaradas omissões oportunistas diante de um futuro sombrio que se descortina.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 25/08/2019



sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Era uma vez... em Hollywood


Cinéfila e Histórica reimaginação


Com Era uma vez... em Hollywood, 
Tarantino faz justiça poética em tributo a Sharon Tate e ao cinema

Por João Paulo Barreto

Em determinada passagem de Easy Riders, Raging Bulls, definitivo relato da Hollywood no período que se estende entre 1969 e 1980, o autor Peter Biskind aborda o final dos anos 1960, após o assassinato de Sharon Tate, grávida de oito meses, e de mais três de seus amigos, em uma casa em Beverly Hills, em agosto de 1969. Seu resumo, apesar de macabro, define bem a atmosfera de realidade amarga deixada pela Família Mason e seus crimes. Lá, Biskind escreveu: “Havia uma sensação de final, de que uma Era estava terminada. De que as pessoas haviam se dado bem por um tempo e que, para quem tinha inclinações apocalípticas, o Anjo da Morte não tardaria a colocar tudo em seus devidos lugares”.

Apesar do peso profundo em sua base histórica, sabendo que os crimes cometidos pela gangue de Mason são o pano de fundo de Era uma vez... em Hollywood, o diretor e roteirista  Quentin Tarantino não deixou que tal atmosfera perpetrasse seu novo trabalho de maneira a torná-lo fúnebre ou desrespeitoso com a memória das vitimas. Pelo contrário. Ao final, a beleza triste e pesarosa deste seu nono longa é o que faz o seu público respirar profundamente após a catártica vingança que ele insere em sua reimaginação da História.

Não é novidade o fato de que a cinefilia de Tarantino é o que o estimula na criação de seus roteiros. Seja na oportunidade de escalar heróis de sua juventude como Pam Grier, Sonny Chiba e David Carradine, ou, ainda, na ousadia precisa de reescrever a história de maneira mais justa e catártica como fez em Bastardos Inglórios e em Django Livre. Dessa vez, porém, o destaque que essa cinefilia possui na criação de seu novo roteiro torna a imersão, aqui, um exercício de conhecimento do cinema e da cultura pop como um todo nos anos 1950 até a década de 1960, que terminara como o agourento período citado por Biskind em seu documental livro.

Dalton e Booth conferem os populares seriados de TV

Porém, mesmo com esse peso histórico e brutal em suas linhas, Tarantino conseguiu dar ao seu público uma maneira recompensadora e mais justa de revisitar aqueles fatos. E é de modo não somente mais justo, mas tocante e emotivo que, a partir da tragicidade na vida da atriz Sharon Tate, que o diretor de Pulp Fiction volta a reescrever fatos reais neste novo trabalho. E, tendo a cinefilia e a cultura pop como norte, é neste caminho que a sua visita à cidade do cinema estadunidense em 1969 é construída.


CINEMA DENTRO DO CINENA

O foco dessa recriação está na trajetória de Rick Dalton (DiCaprio), ator de uma série televisiva de faroeste que tenta adentrar em Hollywood como astro de cinema. Inseguro em relação ao seu próprio talento, Rick tem nas sequências onde o vemos atuar uma gradativa evolução dessa autoestima e confiança.

Em seu roteiro, Tarantino insere as participações de Rick em vários trabalhos de atuação de modo paralelo às suas constantes lutas intimas contra a insegurança e ansiedade. Além disso, na figura de seu amigo, assistente e dublê de cenas, Cliff Booth (Pitt), uma sólida presença no sentido de lhe fazer sentir-se mais seguro de sua capacidade como ator. “Você é o grande Rick Dalton! Não se esqueça disso,” afirma Booth.

No entanto, para o espectador, perceber o personagem chorando após um diálogo com uma atriz mirim durante um intervalo de gravação, ou voltar a se emocionar ao ser elogiado por entregar “a melhor atuação que ela já presenciou na vida” (uma atriz de oito anos, friso), a ideia de quão patética e de fácil influência é sua condição se torna óbvia e hilária, impressão propositalmente inserida por Tarantino. E ao brincar com tais frustrações, como quando vemos os papeis perdidos por Dalton, como o de Hilts, pilar de Steve McQueen em Fugindo do Inferno, o cineasta confirma essa frágil autoestima de seu protagonista. Mas vê-lo ressurgir para o sucesso comercial a partir de renegados faroestes italianos que consagraram nomes como o de Clint Eastwood é de uma sutil ironia que o roteirista não deixa passar.

Rick Dalton (DiCaprio) vive vilão em mais um faroeste da TV

Aliás, a parceria entre Booth e Rick ilustra, a partir da lente de Tarantino, uma precisa reconstrução daqueles dias no final dos anos 1960. São diversas as maneiras em que aquela recriação é feita, e percebê-las se torna um atrativo à parte para quem investe nas quase três horas de projeção. Desde as várias marcas de produtos enlatados a lotar os armários da cozinha de Booth aos momentos nos quais ambos se vêem diante da TV assistindo seriados como FBI, até às placas publicitárias nas ruas por onde Booth dirige após deixar seu amigo e chefe em casa. Todos os elementos em cena desenham de maneira exata o período.

Este último exemplo, inclusive, serve de apoio para uma percepção do modo de direção que Tarantino trouxe aqui. A calma como ele constrói sua narrativa, ao exibir longas sequências nas quais apenas vemos personagens dirigindo do ponto A ao B, entrega exatamente essa ideia de construção parcimoniosa diante da catarse explosiva de seu final, uma vez que é justamente em um desses trajetos que Booth encontra uma das integrantes da Família Mason, momento em que Tarantino brinca com a expectativa do espectador na preparação do terreno para seu sanguinolento desfecho.

Booth confere os integrantes da Família Mason

HOMENAGEM A TATE

Dentro do citado aspecto emocional que o filme traz a personagem de Sharon Tate,
é precisa a opção de Tarantino em homenagear a atriz assassinada pelo grupo liderado por Charles Manson em 1969. Grávida de seu marido, o diretor Roman Polanski, Tate tinha apenas 26 anos quando foi esfaqueada e morta na invasão de sua casa pelos seguidores de Mason. Tarantino cria um emotivo tributo à jovem em alguns belos momentos, como quando, ao inseri-la visitando o cinema local para ver uma sessão de Arma Secreta contra Matt Helm, filme estrelado por Dean Martin que contava com a presença de Sharon Tate, destaca o encantamento da jovem, vivida aqui por Margot Robbie, por aquele universo glamouroso que se tornara fatal para ela.

Margot Robbie e a exuberância de sua Sharon Tate

Naquela imaginada visita ao cinema, as palmas que ela escuta durante as suas breves cenas de luta (coreografadas por Bruce Lee) ou os risos diante de sua atrapalhada personagem nas interações com Martin, dão àquela Tate ficcional uma tenra maneira de saudar a alegria real que a jovem teve ao fazer parte daquele ambiente.

Na gráfica e brutalmente chocante sequência que Tarantino cria como vingança contra os assassinos da atriz, uma espécie de catarse, de entranha sensação de regozijo ao ver o que lhes acontece surge. É a mesma sensação que temos como quando Hitler foi fuzilado em Bastardos Inglórios. Uma maneira de criar uma realidade alternativa que possa nos colocar em pausa, de algum modo distantes dos fatos covardes que aconteceram, nem que seja por breves momentos dentro da sala de cinema. O abraço de Sharon em Rick concede um pouco desse conforto. Ao menos aqui, o tal Anjo da Morte chamado Mason se reduziu à sua insignificância devida.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 16/08/2019

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

MIMB – Mostra Itinerante de Cinemas Negros – Mahomed Bamba


Imprescindíveis Cinemas Negros


Com ampla programação, a cinematográfica Mostra Itinerante Mahomed Bamba
se potencializa em sua segunda edição 

Por João Paulo Barreto

Começa na próxima quarta feira, dia 14, e segue até o domingo, dia 18, a segunda edição da MIMB – Mostra Itinerante de Cinemas Negros – Mahomed Bamba. Com um imprescindível foco voltado para as produções de cineastas afrodescendentes do Brasil e de outras partes do mundo, a mostra passará por sete bairros de Salvador, trazendo sessões simultâneas que acontecerão em oito espaços culturais.

Durante os cinco dias da mostra, serão exibidos mais de 70 filmes entre curtas e longas metragens distribuídos por 18 sessões a serem realizadas em Ilha de Maré (Comunidade Quilombola de Bananeiras); no Calabar (Quadra Esportiva); Periperi (Praça da Revolução); Corredor da Vitória (Goethe-Institut); no Sesc Pelourinho; na Sala Walter das Silveira, localizada nos Barris, além do Centro Cultural da Barroquinha e na Casa de Angola, também na Barroquinha. Nos espaços também acontecem oficinas, exposições fotográficas e atividades voltadas para crianças. A programação completa está nas redes sociais da Mostra.


OFICINAS DIVERSAS

A Mostra Itinerante trará para Salvador uma série de atividades voltadas para o pensar e fazer cinema. Já na quinta e sexta-feira, dias 16 e 17, no Teatro Gregório de Matos, das 14h às 17h, o crítico de cinema, curador e pesquisador, Heitor Augusto, ministra a oficina “Um Olhar Sobre os Corpos Negros LGBT no Cinema”. Pela manhã, também nos dia 16 e 17, das 9h às 13h, no Ponto Cultural Boiada Multicor – UNIRAMM, Pelourinho, o professor, escritor e pesquisador Alex França traz a Master Class “Por uma Crítica de Cinema Afrocentrada”.

Já nos dias 17 e 18, no Goethe-Institut, a partir das 9h, a especialista em Direção de Documentários pela EICTV de Cuba, Everlane Moraes, traz a Master Class “O Espelho e o Cinema – Evolução Técnica da Linguagem Cinematográfica ”, encontro que propõe “passear pela história da evolução técnica e de linguagem cinematográfica, mais especificamente o gênero documental”.

As atividades possuem o investimento de R$60,00 e os ingressos podem ser adquiridos pelo site de vendas Sympla até o dia 14. Lembrando que serão oferecidas sete bolsas integrais e oito de 50% de desconto. Os parâmetros para as bolsas e descontos são estudantes, inclusão social e diversidade de raça e gênero. Outras oficinas e atividades podem ser conferidas na grade de programação da Mostra, divulgada nas redes sociais.



SHOWS

A abertura da MIMB 2019 será celebrada no dia 14 de agosto, quarta-feira, a partir das 18h30, no Sesc Pelourinho com a exibição cinco curtas metragens, dentre eles Aurora, de Everlane Moraes, e Merê, de Urânia Munzazu. Além das sessões, a noite especial contara com apresentações musicais da cantora Nêssa, do cantor Yan Cloud, bem como da banda Afrocidade com a participação especial do ícone da música baiana, Margareth Menezes. Os ingressos para os shows na abertura custam R$20,00 e R$10,00 meia.

Já a cerimônia de encerramento será no dia 18, às 18h, no Goethe-Institut, e contará com show de Dão e a participação especial de Lazzo Matumbi.

TRIBUTO AO MESTRE

A Mostra Itinerante de Cinemas Negros traz o nome do professor Mahomed Bamba, que dedicou sua vida acadêmica à pesquisa na área cinematográfica, com especial foco voltado para os cinemas africanos e da diáspora. Bamba foi professor adjunto da Faculdade de Comunicação da UFBA entre 2009 e 2015, tendo orientado diversas pesquisas. A equipe que organiza a Mostra que homenageia o professor Mahomed Bamba é composta por mulheres negras que tiveram seu primeiro contato com esse cinema através de suas aulas.

A idealizadora e coordenadora da MIMB 2019, Daiane Rosário, afirma que a presença e influência de Bamba como professor foi essencial. “Pensar em minha construção profissional e na de muitas outras alunas dele, é pensar o quanto foi importante a gente ter a presença de Bamba nos dando toda essa instrumentalização, pensando nesse cinema negro, nesse cinema africano”, afirma Daiane.

Idealizadora e coordenadora geral, Daiane Rosário


Falecido precocemente aos 48 anos, em 2015, vitima de uma infecção generalizada, o professor Mahomed Bamba era natural da Costa do Marfim, mas viveu no Brasil por mais de vinte anos, atuando como professor e orientador na pesquisa de cinema junto a estudantes da UFBA. Daiane Rosário, junto às parceiras na coordenação da Mostra que leva o nome dele, se emociona ao salientar essa grandeza de Bamba em sua influência e despertar para o cinema negro e de diáspora na vida dela e de suas companheiras à frente da MIMB.

“A importância do professor Bamba na minha vida, na de Taís Amordivino, Julia Morais e Kinda Rodrigues, que são coordenadoras de curadoria; na de Loiá Fernandes, coordenadora de produção e de Naymare Azevedo, coordenadora executiva da Mostra, é imensa. Não tinha como haver essa Mostra se não fosse por ele. Essa homenagem, em uma mostra que conta com a participação voluntária de mais de quarenta pessoas, é mais do que merecida”, complementa Daiane Rosário.

“Entendemos o quão é importante celebrar Os Cinema (s) Negro(s), e que esta pluralidade faz parte da navegação diaspórica que nos conecta em todas pontas do mundo. Em reverência aos estudos do saudoso professor Bamba, a MIMB 2019 integra “S” como multiplicidade de construção, soma e pertencimento. Trazer as ópticas construídas mundialmente para a Bahia. Deste modo, ampliamos as inscrições para produções negras de cada canto do mundo. Nossas conexões são de navegação, identidade e caminhos” finaliza.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 12/08/2019

domingo, 11 de agosto de 2019

Seculares


Bibliotecas humanas


Com Seculares, série em atual produção, cineasta Henrique Dantas aborda 
a oralidade de pessoas com mais de 100 anos

Por João Paulo Barreto

Em um país cuja memória se esvai de modo proposital e a tentativa de manipulação visando o esquecimento seletivo de fatos tornou-se uma estratégia explicita para aqueles que dominam o poder de maneira cínica e vergonhosa, colocar em foco a oralidade dos idosos que realmente estiveram presentes na construção da História do Brasil nos últimos cem anos se torna uma maneira de compartilhamento da verdade.

Com a série documental  Seculares – O mundo a mais de cem, contemplada no edital de 2017 do IRDEB, Bahia na Tela, e atualmente em fase de produção e filmagem, o cineasta Henrique Dantas traz entrevistas com pessoas que alcançaram a expressiva marca dos cem anos de vida. Trata-se de um trabalho que encontra relação com uma função importante desse tipo de cinema que é o resgate de memórias, além de uma necessária valorização e respeito pela terceira idade.

Henrique Dantas, responsável por trabalhos como Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano, documentário sobre os Novos Baianos; Sinais de Cinza, que abordou a história do cineasta Olney São Paulo, vitima das torturas da ditadura militar, e o recente A Noite Escura da Alma, que lançou foco no período ditatorial em solo baiano, dessa vez leva sua lente para uma abordagem intimista da vida de diversos personagens desconhecidos, mas com marcantes histórias de vida e uma oralidade singular no contar dessas trajetórias.

“Trata-se de um mistério esse negócio da memória. Por mais que a gente fale dela, não sabemos como ela se processa. Eu lembro de Luis Buñuel, no seu livro Meu Último Suspiro, que afirmou que você lembra apenas o que quer, tanto as memórias boas quanto as ruins”, explica Henrique ao falar do conceito da série.” A fronteira entre a memória e o esquecimento é um mistério”, complementa.  Na criação dessa proposta original de pesquisa, o diretor salienta a dificuldade de ter acesso à leitura especializada no assunto. “Conversei com um geriatra e uma pesquisadora da UFBA, e ambos trouxeram esse detalhe que não há muitos estudos voltados para pessoas com mais de 80 anos de idade. É como se buscassem apagar da humanidade a velhice”, afirma.

Essa ausência de estudos acabou levando o modo de criação da série Seculares para um caminho de desenvolvimento diferente. Henrique explica: “É o primeiro trabalho que eu faço onde eu não tive leitura uma leitura preparatória. O processo tem sido muito de ‘feeling’, de sentir nas entrevistas qual abordagem deverei seguir com cada pessoa”. Acaba que a percepção do diretor segue um norte no qual cada tema é descoberto no momento em que as conversas são iniciadas. “Já entrevistamos quatorze seculares. Depois do encontro, você tem certeza que encontrou algo muito valioso, um irôko (orixá que representa o tempo na forma de uma árvore), uma árvore do tempo. Essas pessoas são o próprio tempo”, pontua Henrique.

Henrique Dantas: busca por registros centenários de vida   FOTO: Fabricio Ramos
PERSONAGENS MARCANTES 

A série contará com 13 episódios de 26 minutos cada. O planejamento de Henrique Dantas é criar uma rima temática nas entrevistas que vão compor cada episódio. “Há vários temas que insiro nas conversas. Varias personagens são pessoas do interior. Os temas nessas abordagens variam muito. Folclores, como encontros com lobisomens; primeiros contatos com a televisão, com a eletricidade”, explica Dantas. O realizador salienta que muitas entrevistas tiveram esse desenvolvimento acerca do contato com invenções do ser humano. “Com algumas delas, eu perguntei sobre a primeira vez que viram uma aeronave. Eu achava que seria um avião, mas muitas lembraram de quando viram não um avião, mas, sim, um zepelim. E disseram que, à época, as pessoas saíam correndo por achar que era algo alienígena”, afirma entre sorrisos.

Outro detalhe importante está no aspecto da solidão dos idosos. “Uma coisa curiosa nas entrevistas que já fiz foi perceber que, quanto mais humilde é a família da pessoa centenária, maior é o acolhimento dela. Quanto mais rica, de classe média alta, maior é a queixa de solidão na qual é deixado o idoso,” explica Henrique.

BUSCA POR CENTENÁRIOS

Nessa construção, a voz principal que Henrique buscou trazer à tona são as de memórias que foram silenciadas. “Além da memória dos idosos, ainda tem a questão social. Ou seja, a História é sempre contada do ponto de vista de quem ganha. E nessa guerra que a gente viveu, foram os homens brancos europeus saíram vencedores. Chegaram aqui em minoria e conseguiram destruir os índios, destruir os negros, que já trouxeram como escravos e com suas dignidades aniquiladas. Buscaremos usar as memórias dos pretos, dos índios , das mulheres, dos ciganos. As memórias silenciadas. A intenção é que 80% dos entrevistados sejam de pessoas nessas condições,” salienta Henrique Dantas.

O diretor pontua que o projeto ainda está em busca de novas fontes para participar. “Quem conhecer pessoas com mais de 99 anos e dispostas a dar entrevistas, pode entrar em contato pelo número 071 98697 2715. Trata-se de um projeto muito importante nesse resgate. Quando morre um centenário, morre com ele uma biblioteca viva”, finaliza.

*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 11/08/2019


sábado, 3 de agosto de 2019

No Coração do Mundo


Insustentável inércia  


Com o brilhante No Coração do Mundo,
mineiros Gabriel e Maurílio Martins abordam o violento inconformismo social


Por João Paulo Barreto

É sobre a inércia que os cineastas Gabriel e Maurílio Martins tratam em seu pungente roteiro de No Coração do Mundo. Mas não somente a inércia no sentido mais comum de citação. Aquela que utilizamos para retratar o incômodo de nos vermos presos a uma rotina de desconforto, de perrengues, de correria nas oito, às vezes doze horas de batente e amassar do barro. No (in)conformismo de que aquela será a sua realidade para sempre. “Apenas aceite. Dói menos”, como diz a frase nas redes.  Ainda mais pesada, na cidade mineira de Contagem, o “motherfucker Texas” como define a letra do Mc Papo a abrir o filme, a inércia é aquela cuja definição científica se aplica de maneira exata. Mas o movimento, o comichão, apesar de poder não aparentar, é constante e frenético. São pessoas que vivem dentro deste movimento e que, ao mesmo tempo, almejam sair dele de maneira urgente. Nesse conjunto de personagens, os diretores constroem uma dura realidade, mas impossível de não identificar com aqueles realmente cientes do que é o Brasil.

Voltando ao ambiente de Contagem, que já haviam destacado no homônimo curta de 2010, também dirigido em parceria, Gabriel e Maurílio utilizam a cidade como a sua personagem central. Salientando um arco de pessoas também presente no curta, é ótimo perceber como aquelas trajetórias voltam a ser exploradas aqui. Neste território, o desenrolar de diversas perspectivas de vida se faz presente. Algumas delas, diante da já citada inércia, acabam por se manter em movimento autodestrutivo. Outras, conseguem manejar suas existências de maneira a apenas levá-las à frente.  “Pelo menos eu durmo com os dois olhos fechados. Um dia, sua casa cai”, pontua Miro (Robert Frank) ao replicar uma provocação diante de um momento de pesar. E tal resposta coloca-se exatamente como ponto de equilíbrio entre aqueles que aceitam para, assim, doer menos, e aqueles que resolvem pagar para ver e recebem a dor em sua mais intensa forma.

Selma (Grace Passô) e os corres para levantar grana: em busca do seu coração no mundo

NARRATIVAS DIVERSAS

Um dos pontos precisos do texto dos Martins está justamente nessa capacidade de entrecruzar diversas histórias sem sobrecarregar a estrutura de seu filme. Além de Contagem, não há um(a) protagonista aqui. 
Naquele ambiente, entre suas várias narrativas, cada personagem se destaca de maneira singular. Uma delas é a de Selma. No simbolismo preciso do título do longa, Grace Passô traz para sua Selma um equilíbrio entre a serenidade no explicar do que seria o seu coração no mundo para uma explosão súbita de frustração quando percebe seus planos de estabilidade e alcance desse tal “coração”começarem a declinar. A atriz, que se destacou no singelo Temporada, dirigido por André Novais, coloca em No Coração do Mundo um extremo oposto do seu protagonismo anterior. E que extremo! Em seu desfecho, diante da violência que se descortina como resposta aos seus atos, sua percepção é de que a aposta foi grande, mas a recompensa pode não ter sido tão alta assim.

Nesta mesma via segue a cobradora de ônibus Ana (Kelly Crifer). De viagem em viagem, saindo em sua primeira rota e retornando para a próxima em uma falsa sensação de movimento.  “Vai, volta. Vai, volta, e a vida só passando pela janela. Fim de linha”, define bem a jovem em seu sentimento de vazio. Trocando fraldas de um pai doente ou tentando se agarrar ao seu relacionamento amoroso, Ana sonha em mudar de Laguna, localidade onde vive. Sonha em recomeçar junto a Marcos (Leo Pyrata), o namorado que até ganha algum na honestidade, auxiliando Selma com fotos escolares, mas vive enrolado nos “esquemas” fáceis. Na breve homenagem que Ana lhe faz, com a ingenuidade de um carro de som em um feliz aniversário interrompido por som de tiros, a volta súbita àquela realidade não permite à garota sequer a pausa para celebrar. E mal sabe que o tiro disparado se relaciona diretamente a um dos rolos do seu namorado. Precisa percepção de uma das razões para sua estagnação.   

Marcos e Ana: vontade de mudança 

PESO DO TEMPO

Marcos, que se vê envelhecendo e acomodando-se na citada inércia, busca uma forma para conseguir sair daquela realidade. Aqui, Gabriel e Maurílio destacam a ideia de nostalgia diante da percepção da idade como modo tão comum de escape fugaz. Em um diálogo impagável entre Marcos e Brenda Lee (MC Carol de Niterói, em participação primorosa), a amiga o repreende de maneira hilária por pedir-lhe dinheiro emprestado para bancar a festa de aniversário de sua mãe, e ambos mergulham em lembranças de um período mais feliz de suas vidas. A mãe em questão, dona Fia (Glaucia Vandeveld) segue em sua peregrinação diária a vender desinfetantes caseiros. Volta sempre com o carrinho cheio com as mercadorias que não vende. Marcos apenas observa e lamenta junto à irmã, algo que provoca ainda mais a comichão que sente. E na mesma vizinhança, uma personagem já conhecida de outro curta de Gabriel Martins, a idosa dona Sônia (Rute Jeremias) segue na ideia de vingar a morte do filho usando uma arma que o vizinho Alcides lhe concedeu. Sim, pode demorar, mas, diante do inconformismo, essa mesma comichão chega a qualquer idade.

A maneira como a ilustração de todo o circulo de pessoas ali é colocada em tela desenha com precisão a teia de acontecimentos de vidas que se equilibram entre o conformismo, a ação enérgica de mudança (seja ela qual for) e a tragicidade. Pensar em Miro com suas prestações da moto para quitar, o aluguel do barraco para pagar e sua rotina de bater cartão às oito da manhã não alivia essa mesma comichão que ataca a todos nós. Com o peso do trágico que a inércia como necessidade de sem manter em movimento trouxe a todos os outros personagens de No Coração do Mundo, a tendência à mesma aceitação de Miro é plena. 

Mas, até quando?

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 04/08/2019

domingo, 28 de julho de 2019

Eu Não Sou Uma Bruxa


O absurdo como reflexão de uma realidade



Eu Não Sou uma Bruxa traz análise da manipulação 
cultural como meio de manter duras existências estagnadas 


Por João Paulo Barreto

Entre a sagacidade de uma voraz crítica à exploração política, financeira e midiática de uma crença folclórica e quase religiosa atrelada à ignorância alheia e à utilização de um realismo fantástico que caminha de mãos dadas com a brutalidade de um mundo misógino, Eu Não Sou uma Bruxa apresenta sua protagonista, uma garota de nove anos inicialmente sem nome que, acusada de ser uma bruxa, tem à sua frente a imposição da escolha de aceitar tal rótulo ou ser transformada em uma cabra.

Esse é o começo do primeiro longa dirigido pela experiente cineasta Rungano Nyoni. Nascida em Zâmbia, Nyoni tem em seu currículo uma série de curtas metragens, incluindo a co-autoria do soberbo roteiro de The Mass of Men (O Peso dos Homens), filme vencedor do Panorama Internacional Coisa de Cinema em 2013. Trazendo sua lente para reais relatos de acusações de bruxarias ocorridas na mesma Zâmbia, África, a cineasta criou uma potente análise da citada utilização da fé como modo de dominação física e intelectual. Na presença da criança acusada de bruxaria, a noção precisa do início de uma doutrinação baseada na exploração perene de seres humanos.

Shula e sua prisão física e mental dentro de um esquema de manipulação

Levada para viver em uma espécie de campo para bruxas junto a outras mulheres, sendo a maioria composta por idosas (algo que denota tal perenidade) também acusadas, puramente na base do “achismo”, de bruxaria pelas autoridades e cidadãos locais, a pequenina recebe o nome de Shula (algo como “desenraizada”), refletindo, assim, o tratamento hostil que concedem à criança. No local, são obrigadas a trabalhar em lavouras e, exibidas como atração turística, são vitimas do olhar estrangeiro em uma clara alusão à omissão e ao secular estripar da África pela presença do branco. Da mesma maneira, não somente uma observação pontual ao olhar externo, mas, também, uma forma de trazer a denúncia para a exploração desse folclore utilizado como justificativa a condenar tais mulheres a trabalhos braçais em plantações e sem qualquer remuneração. A presença de um oficial do governo conhecido como Sr. Banda (Henry BJ Phiri) que se mantém como guardião de Shula  demonstra bem esse oportunismo atrelado a uma dominação política através da ignorância.

SURREALISMO E TRAGICIDADE

Nyoni, em seu roteiro, insere toques de surrealismo fantástico, quando vemos todas as supostas bruxas presas a carretéis. Com cordas de pano atreladas às suas costas, limitam seus movimentos, mantendo-as presas não somente de maneira física àquela realidade, mas, também, mental.  Na presença da estreante Maggie Mulubwa, com sua expressão observadora e, ao mesmo tempo, desafiante e triste, que se transforma em sorrisos momentâneos e tão carregados de tristeza quanto, a cineasta Rungano Nyoni tem um tesouro que traduz exatamente o peso de seu filme.

O podres poderes e a opressão intelectual em prol do econômico e político

Como Shula, a pequena Maggie traduz sua tragicidade de forma dolorosa, como quando afirma se arrepender de ter escolhido ser uma bruxa ao invés de cabra, ou quando escuta através de um chifre o som de crianças em uma escola. A fotografia, aqui, é de David Gallego, notório diretor de fotografia responsável pelos tons de O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra. Uma das cenas que fazem essa presença de Gallego notável é quando Shula se vê dentro de um crânio de um animal, sendo mirada no contemplar de sua realidade trágica por olhares estrangeiros, em um enquadramento preciso de Nyoni a salientar a prisão tanto corpórea quanto intelectual de Shula.

Durante a sessão, alguns risos nervosos surgiam entre os presentes na sala de cinema. Perceber a maneira como tais risadas eram abafadas rapidamente faz o espectador atento refletir sobre a proposta de Nyoni em trazer um tema tão violento, mas sem perder seus toques de reflexão diante do citado surrealismo que remete a contos infantis (o caminhão com os carretéis é um exemplo) ou a proposta de abordar o absurdo daquela situação inserindo momentos diretos de crítica àquele ambiente, como quando Shula é levada a um programa de entrevistas e o apresentador questiona a possibilidade dela não ser uma bruxa, mas, sim, apenas uma criança. A resposta acaba não vindo de ninguém. É o silêncio omisso que refletirá exatamente o trágico da vida de Shula.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 28/07/2019