Por João Paulo Barreto
Oscar Isaac traz potente atuação para A Vida em Si
Apesar de primeiro ato avassalador, filme se perde ao tentar unir tramas
Tragicidade e otimismo guiam A Vida em Si, novo filme do diretor Dan Fogelman, responsável pelo
roteiro do ótimo Amor a Toda Prova. Aqui,
no entanto, uma evidente mão pesada tendendo ao melodrama incomoda,
principalmente por conta da arriscada estrutura narrativa que busca cruzar
histórias com fatos aleatórios. Porém, a partir de um primeiro ato que prende o
espectador através da atuação poderosa de Oscar Isaac, e uma solução corajosa
do roteiro de Fogelman para definir o destino do personagem, o longa encontra
um desenvolvimento inicial satisfatório. Uma pena que tal introdução se demonstre
tão breve e venha a fazer falta diante das fragilidades da história seguinte.
Dinâmico em seu inicio, ao brincar com a (já comum) quebra
da quarta parede inserindo conversas com o público em piadas envolvendo a
narração de Samuel L. Jackson (além da presença física do mesmo), e utilizando a
estrutura da escrita do roteiro como elemento de análise do próprio enredo do
filme, A Vida em Si engata uma trama
cativante. Ao falar acerca do narrador confiável, o longa gera uma curiosidade no
público, que imediatamente busca naquela estrutura pelos elementos apresentados
nas descrições dos tipos de narradores e heróis que o enredo possa trazer, em
um exercício curioso de metalinguagem. Algo que só reforça a força deste
primeiro ato e contrasta fortemente com o estado frágil da história que vemos
na segunda parte do filme.
![]() |
Will e Abby: felicidade antes da tormenta |
POTÊNCIA DRAMÁTICA
Sentimos curiosidade em conhecer mais o casal formado por
Will (Isaac) e Abby (Olivia Wilde), e o que aconteceu para que o estado físico
e de espírito do rapaz chegasse àquele desespero. Oscar Isaac entrega uma
atuação potente ao denotar toda a dor que o fim de sua relação lhe causou. Em
flashbacks que se equilibram bem com a narrativa em seu tempo atual, e ao misturar
elementos de duas épocas distintas em um mesmo quadro a ilustrar, pelo olhar de
Will, sua própria trajetória até aquele ponto, o filme capta o seu público pelo
desenhar preciso daquela estrutura. Sem contar o peso melancólico que tais
momentos trazem para a trama, com o protagonista vivido por Oscar Isaac refletindo
acerca de suas escolhas e o modo como as mesmas reverberam futuro adentro.
Ao encerrar de modo trágico aquele ponto de seu roteiro, Dan
Fogelman consegue entregar um drama preciso e corajoso. Uma pena que ao
investir em um segundo ato que peca pela fragilidade de sua história, ao
inserir uma trama familiar envolvendo Antonio Banderas no papel de um
benevolente fazendeiro que ajuda Javier, um dos seus funcionários, mas acaba se
apaixonando pela esposa do mesmo, o filme acaba por se perder em suas pretensões.
Criando um elo forçado entre as duas tramas, todo impacto dramático existente
em sua primeira parte se perde para um drama frágil, de soluções fáceis e
descabidas, como a que ilustra o abandonar da família(?!) por parte de Javier
ao se sentir incapaz de dar à esposa e ao filho o mesmo conforto que
supostamente seu chefe daria.
Valendo-se de um artifício que requer certa precisão na
estrutura da escrita, quando se utiliza de encontros e/ou elementos que
conectam tramas paralelas, algo que já vimos em obras como Corações Apaixonados e, em uma maior escala, em filmes como Babel e o superestimado Crash, o roteiro de Fogelman liga as
três histórias (sim, ainda há uma breve envolvendo a filha de Will) de modo um
tanto capenga, valendo-se da premissa da coincidência para justificar seu
desenvolvimento. Claro, a suspensão da descrença é um dos fatores para se levar
em consideração na imersão fílmica, mas diante de um drama tão profundo, envolvente
e calcado no real com o qual o filme se apresenta, é uma pena que a história se
perca em uma estrutura rasa e de dramaticidade superficial de sua metade para o
final.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 02/12/2018
Nenhum comentário:
Postar um comentário