domingo, 8 de dezembro de 2019

Western Stars


A Plenitude de um Mestre 


Mescla de documentário e performance ao vivo, Western Stars nos presenteia com um Bruce Springsteen, aos 70 anos, completo em sua sabedoria e talento


Por João Paulo Barreto

Há uma introspecção oferecida por Western Stars, mescla de documentário intimista e performance ao vivo de Bruce Springsteen, que alcança indivíduos além dos seus ávidos fãs que devem comparecer ao cinema para conferir tal experiência. O que Western Stars oferece ao espectador atento para essa pérola em cartaz no Circuito Sala de Arte é uma reflexão acerca da vida em sua completude. Acerca de erros cometidos em uma trajetória e acerca da necessidade de se perdoar no que tange a tais erros. Mas, sobretudo, Western Stars é sobre envelhecer com uma consciência tranquila e uma serenidade que possa lhe dar paz. Independente dos percalços que aquela sua trajetória lhe trouxe, o que esta obra pode lhe oferecer como ser humano, e isso não necessariamente exige uma familiaridade sua com a biografia do boss, é uma redenção intima e uma reflexão sobre o seu próprio envelhecer.

Ler isso pode soar romantizado e idiossincrático, mas a obra de Bruce Springsteen, que completou 70 anos de idade esse ano, dialoga com as pessoas de maneira singular, trazendo reflexos da experiência de uma trajetória com a qual muitos podem se identificar. Lutar contra os próprios demônios, angústias e apreensões é algo que aflige a muitos. É o meu caso. É o caso de muitas pessoas que seguem em frente em tempos tão estranhos e sombrios. Ter a capacidade para reconhecer e valorizar a arte e o poder de um compositor como ele, a força de sua escrita para alcançar um conforto pessoal mínimo, é algo deveras importante para quem se interessa por música como uma força de reflexão.

Bruce aos 70: a serenidade que a longa e sinuosa estrada trouxe

CARISMA E DIÁLOGO

Com um artista notório por seu carisma e criações capazes de dialogar com um público de diversas classes sociais e etnias, podemos encontrar um conforto em letras que abordam desde paixões amorosas (correspondidas ou não, como é o caso de Bobby Jean); dificuldades de uma vida de sufocos financeiros e sonhos despedaçados (The River); superação dessas mesmas dificuldades (Better Days); nostalgia de um tempo bem vivido, mas só reconhecido tardiamente (Glory Days); peso de uma pátria exploradora e corruptamente bélica (Born in the USA); denúncia contra a fascista brutalidade da polícia (American Skin – 41 Shots), além de um (entre vários) hinos do azarado em busca da própria estrela, como é o caso de Born to Run. Bruce Springsteen é aquele tipo de ídolo que, independente do mesmo trazer um som que lhe agrade, suas letras, em algum momento, vão falar diretamente aos seus ouvidos. Basta ficar atento(a).

ENTREGA PESSOAL

Em Western Stars, o boss revisita lembranças de sua vida, aborda seu envelhecimento, sua relação com a esposa Patti Scialfa, e concede ao público um presente especial: um show com o novo álbum homônimo tocado na integra direto de seu secular celeiro, em uma atmosfera brilhante, e acompanhado por uma orquestra com trinta integrantes. Nas faixas do disco, mais um documento da sinceridade e honestidade de um artista pleno, que não esconde os próprios tormentos, preferindo compartilhá-los, distante de qualquer auto-piedade, na busca do evoluir além deles. “É fácil se perder de si ou nunca encontrar a si mesmo. Quanto mais velho você fica, mais pesado aquela bagagem que você carrega e que não superou fica. É quando você foge. E eu cometi muito desse tipo de fuga ”, afirma Bruce, em sua inconfundível voz rouca, entregando um dos muitos diálogos redentores do filme. Em outro momento, ele fala da sua constante luta contra aquele sentimento que o atormenta, referindo-se à luta contra a depressão que quase o 
combaliu. 

Bruce e sua esposa, Patti Scialfa

Passei 35 anos tentando aprender a deixar para trás as partes destrutivas de minha persona. E ainda há dias em que eu preciso lutar conta isso”, salienta o chefe antes de introduzir uma das novas faixas, em um dos momentos mais marcantes da obra.

“Todos nós temos nossas partes despedaçadas. Emocionalmente, espiritualmente, nessa vida, ninguém consegue escapar sem se machucar. Nós estamos sempre tentando achar alguém cujas partes despedaçadas se encaixam com as nossas próprias e, assim, algo inteiro possa emergir”, reconhece Bruce, ao abordar seu casamento de quase trinta anos após vermos imagens de arquivo dos dois bem mais jovens em uma rima exata com a sintonia no palco.

De certa maneira, é bom ver o Boss sorrir, feliz. Se alguém que nos ajudou e fez refletir diante de tantos percalços consegue alcançar essa plenitude após caminhos tortuosos de uma vida, a esperança te aquece o peito de forma especial ao assistir a Western Stars.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 08/12/2019


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O Juízo


SOBRENATURAL VINGANÇA

Em O Juízo, o crescente destroçar psicológico e físico de um pai e sua racionalidade encontra paralelos na reparação histórica da escravidão no Brasil


Por João Paulo Barreto

A gradativa perda de uma sanidade ameaçada por vícios e fraquezas, juntamente a um estado de ganância cega e inescrupulosa, são o mote principal de O Juízo, novo filme de Andrucha Waddington. Com um título a abordar a proposta dessa perda de uma consciência mental (um juízo de comportamento intimo) diante do não compreensível sobrenatural, a obra de Waddington, escrita por Fernanda Torres, traz essa desconstrução de seu protagonista diante daquilo que ele não entende e que advém do intangível.  Junto a isso, também está aquilo que já o corrói há tempos dentro de um mundo e de uma vida material constituídos por um vício no alcoolismo e as consequentes derrotas atreladas ao mesmo.    

Na figura de um destroçado pai que tenta salvar um casamento fracassado, o drama de O Juízo, além do apropriar de uma alegoria do sobrenatural para contar uma história de vingança, tem nessa desconstrução de seu personagem central sua mais notável característica. Porém, para além dessa proposta direta de análise da quebra psíquica de um homem, Torres traz em sua escrita e título do filme uma questão de juízo e justiça que resvala em uma questão histórica. Na opressão de senhores do garimpo contra escravizados em busca de diamantes da salvação, o longa de Waddington concede ao seu público uma reflexão pertinente do real em uma rima precisa com o gênero do terror e suspense.

“A escravidão que aconteceu no Brasil é algo irreparável, mas que deve ser encarada. É algo que está dentro da sociedade brasileira de uma maneira muito violenta. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Então, é uma questão muito séria. A presença forte de Criolo no papel do Couraça colocou toda essa personificação neste personagem. A encarnação desse Couraça trouxe essa questão ao filme”, explica o diretor Andrucha Waddington.


Criolo e Felipe Camargo: peso em interpretações 

DESMONTAR FÍSICO

Em Augusto, o pai em questão, centra-se a tal desconstrução de um homem a ceder aos próprios fantasmas e àqueles que o cercam de maneira sobrenatural. No papel, Felipe Camargo, em sua postura combalida e expressão de constante pesar, coloca sua presença física de maneira a salientar exatamente essa ideia da loucura que gradativamente engole sua psique.  E Waddington salienta esse crescente de loucura de maneira surpreendente dentro de uma proposta de terror.

Essa abordagem reside no construir de uma ambientação dentro do cinema de gênero que não necessariamente precisa apelar para os sustos fáceis, os conhecidos jump scares, para causar em seu público uma reação artificial diante dos elementos que o filme traz. Assim, naquela casa no interior de Minas Gerais, cercada por montanhas, matas e silêncio, Waddington alcança uma densa atmosfera de tensão que se vale bem mais da sugestão de um terror à espreita do que de algo palpável a gerar em sua audiência qualquer falsa catarse dentro do horror. “Lembro de um filme chamado Os Inocentes, dirigido por Jack Clayton. Um suspense com um toque de loucura, do sobrenatural. Uma obra absolutamente clássica. Foi uma grande inspiração para mim”, afirma Waddington acerca das influências na construção de O Juízo.

Fernanda Montenegro no papel da médium espírita Marta Amarantes

ARQUÉTIPOS E RELIGIOSIDADE

Na história, aqui, o espírito de um ex-escravo e garimpeiro volta em busca de vingança contra a família cujo ancestral o traiu, causando sua morte e a de sua filha. No papel do atormentado Couraça, Criolo cria um personagem cuja dor e um planejamento calculista contra o homem que o traiu anos antes guia sua jornada no pós-morte. Esse pós-morte é um dos pontos louváveis da obra, que, em um ambiente que remete à desolação de um Hotel Overlook, cria para o público uma sensação de sufocamento que, mesmo em um cenário de tamanha amplitude, consegue tornar palpável o desconforto do espectador diante do destroçar físico e psicológico daquele pai atormentado, vitima da vingança e da própria ganância.

“Como referência, de uma maneira geral, eu tenho todos os grandes filmes que vi em minha vida. É algo que fica dentro de você. Vendo essa ideia de um cara que vai com a família para uma casa e lá fica preso, com a loucura a dominá-lo, não tem como não pensar em O Iluminado. São arquétipos do gênero que se você não esbarrar em um, esbarrará em outro. Cabe a você se apropriar da história que está contando e fazê-la da maneira mais autoral e fidedigna para a dramaturgia que está levando para a tela,” salienta o cineasta.

É comum em diversas produções brasileiras vermos a religião espírita ser abordada de uma maneira que se mantém, na maioria das vezes, entre o romantismo e um tom pretensamente científico. Assim, ao inserir a personagem de Marta Amarantes, uma médium espírita em uma proposta que, apesar de se ater ao cinema de gênero, traz um conceito respeitoso e fiel ao espiritismo (e digo isso como alguém que, mesmo ateu, foi criado na doutrina kardecista). Uma abordagem bem vinda para uma obra que, apesar de calcada no fantástico, tem um consciente viés dentro da religião espírita. E com a presença de Fernanda Montenegro a viver a personagem de Marta, é alcançado um peso para um papel que poderia facilmente derrapar em um clichê místico, mas que tem em sua naturalidade outro ponto alto.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 06/12/2019

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Dorivando Saravá - O Preto que Virou Mar


O Dorivar de uma Vida



Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar, doc de Henrique Dantas, 
mergulha na trajetória e na religiosidade Caymmi

Por João Paulo Barreto 


O poeta, cantor e compositor Tiganá Santana, em seu depoimento no documentário Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar, traz uma exata definição para Dorival Caymmi e sua relação musical entre o real e a beleza de composições que parecem vindas de um outro lado dessa realidade. Tiganá afirma: “Caymmi é um lapidador do criar. Um homem que desvela descrições profundas do real. O belo dele parece vindo de outro lugar. Parece surreal.  Se a gente vai por tradições negras, a partir de uma leitura de religiões de matrizes africanas, não há efetivamente uma divisão entre dois mundos. Um mundo invisível, espiritual, o é a partir de um mundo tangível”, explica. Na sua exata análise acerca de Caymmi, Tiganá vai mais além: “Há, portanto, o outro lado. Não um outro mundo. Eu acho que Caymmi é um mediador a partir do criativo, das artes. Um mediador entre estes lados“, finaliza o músico.
É com essa apresentação que o norte do filme dirigido por Henrique Dantas, que tem sua estreia nessa sexta, dia 29, na 52ª edição do Festival de Brasília, é definido. Cadenciado em suas imagens poéticas de elementos a representar o lendário Dorival Caymmi e sua relação com o mar e com o Candomblé como um ato de resistência, o documentário se equilibra de maneira precisa entre um desenhar imagético e uma estrutura de depoimentos que guia a plateia pela trajetória do artista. Assim, a convidando a adentrar na profundidade daqueles objetos simbólicos de uma vida repleta de calma e parcimônia como foi a de Dorival. Da mesma maneira que se mergulha em um mar profundo e prístino.
Tiganá Santana fala sobre a poética de Caymmi
Henrique Dantas explica que os objetos simbólicos que trouxe em seu longa vêm de um planejamento minucioso. “Quando começo um filme, uma obra de arte (sou artista visual de formação, mestre e professor em artes visuais), eu entro em um estado de atenção focada naquele universo que quero apresentar”, explica. “Ao me deparar com a história de Caymmi, percebi que os filmes que foram realizados sobre ele eram obras biográficas feitas por pessoas que vivem no sudeste do país e que desconheciam a história preta de Caymmi na Bahia”, salienta o diretor. Um mergulho nessa história é o que é proposto aqui.
MERGULHO LITERAL
O mar se faz presente em sons, imagens e camadas sob as quais se desenrolam causos inesquecíveis do que significa “dorivar” a vida durante aquele mergulho de pouco mais de 85min representado pelo filme de Henrique Dantas. E esse ritmo conduz a audiência do começo ao final de sua trajetória, tanto da vida do Homem que tanto cantou Janaina quanto da série de estórias que degustamos sob o olhar de pessoas que vivenciaram aquele mundo Caymmiano.
Desta maneira, em Dorivando Saravá, desde o começo, é perceptível essa ideia de trazer para a obra mais do que um simples contar de uma trajetória tão rica quanto a do músico através do olhar daqueles que a viveram junto com ele ou que admiram tal existência plena. Ao inserir os citados símbolos da religiosidade de Matriz Africana tão cantada por Dorival em suas canções, a obra coloca em discussão uma necessidade urgente de trazer a música do compositor baiano como um instrumento, também, de resistência contra a violência sofrida por essas religiões em um Brasil neo-pentecostal, onde a política se misturou de maneira pútrida com as igrejas.
Gil aborda a influência de Caymmi em sua geração

Deste modo, a obra dirigida por Dantas traça uma forma de perceber como o abismo de intolerância religiosa que o Brasil adentrou é perigoso.  O movimento neopentecostal no mundo é algo assustador. Existem muitas igrejas no Brasil que falam mais do diabo do que de Deus e nessas técnicas de convencimento e persuasão vão levando as pessoas como gado para onde elas quiserem. Estudei em colégio de freiras em Ilhéus, e, com isso, li muito a Bíblia e posso garantir que nesse livro não existe o ódio plantado por esses falsos profetas,” explica Henrique.
Oriundo de uma época em que as religiões de Matriz Africana eram consideradas criminosas pela lei de então, Dorival Caymmi trouxe seu respeito por esse pilar representativo de boa parte do povo que vive aqui. Em tempos atuais, nos quais “cantoras” se recusam a falar o nome de Iemanjá em canções, olhar para o século XX e ver pessoas como Caymmi valorizando esse rico manancial de cultura e afeto dentro do Candomblé nos faz perceber como estar do lado certo da História é algo que devemos sentir orgulho por tal pertencimento.

O cineasta Henrique Dantas: reconhecer da própria negritude. 

AUTO-RECONHECIMENTO
O processo de pesquisa acerca desse Caymmi negro, não embranquecido por uma sociedade racista e hipócrita, deu ao cineasta Henrique Dantas uma oportunidade de mergulho em sua própria vida e em um salientar do seu auto-reconhecimento como homem negro.
“Meus filmes refletem muito meus mergulhos pessoais e, nesse caso específico, passei por um processo de transformação muito pessoal onde percebi e reconheci a minha própria negritude. Não movido apenas por filosofias ou desejos, mas, sim, por ter passado por experiências modificadoras”, afirma Henrique Dantas. O cineasta, durante o processo de filmagem de Dorivando Saravá, integrou, ainda, uma equipe de curadoria que o ajudou nesse processo pessoal de reflexão. “Sim. Algo muito importante foi o convite para integrar a comissão de seleção da Mostra de Cinema Negro Mahomed Bamba, quando me deparei com 130 filmes pretos que me mostraram muitas das situações que sofri minha vida inteira e não entendia que eram situações de racismo”, finaliza.
Temos na obra de Dorival Caymmi uma forma de nos reconhecermos como brasileiros, como oriundos de uma cultura rica, repleta de respeito e tolerância, que não cedeu nem cederá lugar para truculências oportunistas. Caymmi, que tanto trouxe a calma, o bom humor e a reflexão  como modo de vida, é alguém de imprescindível reencontro na sempre conectada, desatenta e fugaz rotina do século XXI. Permitir-se dorivar é algo que, curiosamente, se tornou urgente hoje em dia. Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar nos dá uma oportunidade única para tal intento.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 28/11/2019



sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O Irlandês

A Outra História Americana



Com O Irlandês, Scorsese encontra Pacino e reúne-se com De Niro, Pesci e Keitel 
para o contar de um épico da máfia estadunidense


Por João Paulo Barreto

Quando John Kennedy, o então presidente dos Estados Unidos, foi assassinado em 1963 durante uma carreata em um convencível ao lado da sua bela esposa Jackie, a comoção para o povo estadunidense foi gigantesca. Essa parte da História do país, hoje governado por um moleque mimado, sempre foi retratada no cinema como um momento de imenso pesar. Mas esse pesar não era unânime.

Em O Irlandês, duas faces desse momento são desenhadas por Martin Scorsese em um mesmo quadro. Ao fundo, mulheres choram ao ouvir no jornal as notícias acerca do que acabara de acontecer em Dallas. À frente, em primeiro plano, o sindicalista Jimmy Hoffa (Pacino) e o assassino da máfia Frank Sheeran (De Niro), o irlandês do título, apenas observam com olhos atentos o quão conveniente aquele assassinato lhes parece para os seus negócios escusos. Com um simples enquadramento e um contraste preciso entre lágrimas inocentes, consternação e senso de oportunidade, Scorsese define o peso do seu filme como um registro da verdadeira História Americana.

Assim, é como uma visita à real História do país ianque que se apresenta o novo trabalho do diretor de Caminhos Perigosos, Os Bons Companheiros e Cassino. Desta vez, aprofundando de maneira grandiloquente o ambiente da máfia que já havia desenhado com maestria nas três obras citadas. Em O Irlandês, Scorsese se permite ir além. Com 3h e 30min de duração, a obra é um passeio pela história contemporânea da terra do tio Sam, mas pela óptica daqueles que realmente fizeram a roda girar. Daqueles que colocaram escroques como Nixon para governar e alcançaram semelhante intento no atual momento do país.

Frank Sheeran, Hoffa e Bill Bufalino observam a bandeira a meio mastro

“VOCÊ PINTA CASAS?”

Quando ouvimos Hoffa perguntar a Frank se ele gostaria de fazer parte daquela História, é exatamente a versão com H maiúsculo da palavra que é proferida. Foram aqueles homens que fizeram as engrenagens da política suja, movida a dinheiro banhado em sangue, girar naquele país que tanto se orgulha de ser a pretensa terra da liberdade e da oportunidade. A terra do “sonho americano”, onde todos podem ser vencedores, é colocada mais uma vez pelo cineasta como um desenho preciso da ascensão de homens através da violência. Como disse Balzac, por trás de toda grande fortuna há um crime. E Hoffa, cujo desaparecimento notório marcou a História do país, mal sabia que com aquele convite a Sheeran, desenhava um ponto de ruptura em sua vida conturbada por um comportamento errático no que tange ao orgulho e à vaidade.

E como centro dessa trajetória está Frank Sheeran, que começa sua ascensão através de pequenos delitos ainda jovem (os efeitos digitais a rejuvenescer De Niro impressionam), desviando para os líderes da máfia local carregamentos de carne que transporta em seu caminhão refrigerado. Não tarda a ser descoberto em suas pequenas artimanhas, mas é neste momento que se aproxima ainda mais dos contatos dentro daquele ambiente escuso do estado da Pensilvânia. Ao ser apresentado a Russell Bufalino (Joe Pesci), chefe da máfia local, uma amizade imediata tem inicio, e Sheeran acaba por se tornar um assassino a mando de Russell e de outros chefes locais.

O choque da morte de Kennedy: oportunidade

Nessa estrutura, Scorsese divide sua narrativa ao contar a saga de décadas dentro das vidas sombrias daquelas pessoas. Diferente de Goodfellas, quando o tempo era demarcado de maneira precisa cronologicamente, com cartelas a indicar em qual momento do século XX a trajetória de Henry Hill se localizava, The Irishman insere esse violento crescimento de Frank Sheeran durante o pós-guerra de maneira mais sutil. Ao optar pela quebra da quarta parede, inserindo um já idoso Sheeran a conversar com o espectador (algo característico dos seus filmes), o diretor ítalo-americano propõe viagens no tempo em flashbacks que trabalham a linha narrativa como um mosaico a desenhar os anos de máfia daqueles homens. 

E tudo acontecendo através do tempo de uma viagem de carro entre a Pensilvânia e Detroit, caminho desenhado por Sheeran num mapa a servir como eficiente metáfora para a sinuosa vida daqueles homens.  E nesta construção gradativa, quando acompanhamos toda aquela trajetória do irlandês vivido por De Niro, entendemos de maneira dolorosa toda a culpa e consciência pesada que seus atos lhe trouxeram como fardo para uma velhice solitária e amarga.

MARCAS REGISTRADAS

Sem preciosismo ou olhar superestimado, é inegável que estamos diante de um momento precioso da cinefilia quando entramos em uma sala de cinema para assistir a uma nova obra dirigida por Martin Scorsese. Em uma carreira de mais de 50 anos, o cineasta, que também é preservacionista, construiu uma reputação de respeito dentro da indústria do entretenimento que poucos profissionais gozam hoje em dia. Oriundo da geração baby boomers da década de 1970, quando nomes de então garotos como Coppola, Friedkin, Spielberg, De Palma, entre outros, surgiram para desafiar os mandachuvas dos grandes estúdios, Scorsese passou toda sua carreira dedicando-se à criação de um cinema próprio, no qual elementos de seu entorno pessoal de vida eram inseridos, reconstruídos e ressignificados.

Sheeran (De Niro) e seu momento chave 

Os conflitos interiores dentro da fé católica; a cor vermelha em elementos cênicos a representar esse afundar dentro da criminalidade (aqui, uma cerimônia em homenagem a Sheeran traz em seus abajures vermelhos essa exata representação); a câmera fluída a desenhar panorâmicas e a levar a audiência na apresentação daqueles personagens soturnos; a trilha sonora inspirada, que tem na presença de Robbie Robertson, da The Band, a consultoria exata na seleção de um soundtrack preciso. Um exemplo deste aspecto está no equivalente para Layla, de Clapton, em um momento icônico de Goodfellas, que encontra, aqui, uma sequência à altura na utilização de Sleep Walk, da dupla Santo & Johnny.

Reencontrar todos estes elementos reunidos em um novo trabalho do homem por trás de Os Bons Companheiros é algo deveras significativo. E ver, ainda, nomes como Robert De Niro, Joe Pesci e Harvey Keitel creditados em uma obra dirigida por ele em 2019, quase meio século após Taxi Driver, Touro Indomável e Mean Streets, e ainda contar com a primeira parceria de Scorsese com Al Pacino, coroa de maneira precisa esse momento.

Sim, nós também estamos testemunhando parte da História.  


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Ford vs. Ferrari


Vidas Fugazes e Velozes



Com Ford vs Ferrari, Christian Bale e Matt Damon vão além de um simples
contar da rivalidade de duas gigantes automobilísticas

Por João Paulo Barreto

Há um claro desafio no roteiro de Ford vs Ferrari: criar um clímax cinematográfico para uma obra que tem como pano de fundo uma prova automobilística que dura 24h. O lendário Le Mans, circuito localizado na França, era notório diante da adversidade proposta aos seus pilotos, que tinham que atravessá-lo durante um dia inteiro, revezando-se em horas ao volante, para testar os limites de engenharia das máquinas poderosas que guiavam. Além disso, obviamente, as próprias condições físicas daqueles homens eram colocadas em constante risco perante os perigos relacionados à alta velocidade em uma época que, comparada à atual Fórmula 1, avançadíssima tecnologicamente e com alta prioridade na segurança de seus profissionais, trazia, naquele tempo, vários riscos às vidas daqueles loucos por adrenalina.

Assim, para adaptar o roteiro escrito a seis mãos, o cineasta James Mangold (do excelente Logan) precisava se ater a algo mais eficiente que uma simples estrutura de apresentação de personagens e seus respectivos conflitos; à simplória criação de um antagonista; aos percalços criados por este embate, para, finalmente, trazer a glória emblemática e derradeira que um filme acerca de provas de velocidade possui como lugar comum. Deste modo, restou a Ford vs. Ferrari, além de uma utilização contida dos tais momentos de clímax dentro da proposta relacionada à alta velocidade, investir com maior cuidado em um desenvolvimento humano de seus personagens.

Na recente filmografia, a obra que mais se destaca nesse viés é Rush, longa de Ron Howard que aborda a rivalidade entre James Hunt e Niki Lauda. E foi justamente por se propor a trazer algo mais impactante dramaticamente do que um espetáculo visual para fãs do automobilismo, o trabalho de Howard chamou a atenção de maneira tão precisa. Aqui, porém, apesar de seu título, não é a tal rixa entre as duas famílias de construtores, a estadunidense e a italiana, que leva Ford vs Ferrari à frente.

Miles após vitória em Daytona

AMIZADE EXPLOSIVA

A proposta de Mangold reside na ideia de aprofundar a amizade entre o ex-piloto e designer automotivo Carroll Shelby (Matt Damon) e o piloto e engenheiro Ken Miles (Christian Bale), ao mesmo tempo que desenha para o seu público, leigo ou conhecedor no que tange ao automobilismo (eu me incluo no primeiro grupo), toda técnica necessária para a construção de carros de corrida.

Assim, mesmo que diversos momentos da obra tragam sequências eficientes de provas de velocidade (incluindo a citada corrida francesa, bem como a estadunidense Daytona, também com 24h de duração), é na relação entre seus dois protagonistas que o filme encontra sua verdadeira essência, ilustrando nesta cumplicidade uma demonstração crescente da mecânica por trás da construção dos veículos de alta performance.

Com um Matt Damon carregando pesado o forte sotaque texano para desenhar um frustrado Shelby, que teve que interromper sua carreira de piloto por conta de uma condição cardíaca, Mangold insere um personagem pragmático que, apesar de se render a momentos de fúria em sua frustração, consegue balancear bem a relação com o explosivo Ken Miles vivido por Bale. O britânico, aliás, surpreende mais uma vez na constituição física de seu personagem. Com uma magreza já característica em diversos de seus papeis, Christian Bale dá a Ken Miles algo além da aparência suja e de pele avermelhada pelo calor dos motores com os quais mantém contato durante quase todo o dia na profissão de mecânico.

Miles testa a potência de um novo motor

RIMA COMPORTAMENTAL

Explosivo em sua relação pessoal com aqueles que o cercam, temos no seu trato profissional uma variação exata para como é desenhado o Ken Miles de Christian Bale. É perceptível como seu personagem se deixa levar pela fúria somente quando o que está em jogo é o seu desempenho nas provas de alta velocidade. Um exemplo disso é quando, logo em sua introdução, o vemos lidar com ironia e calma diante de um cliente violento, mas, quando é sua participação em uma corrida que é colocada em jogo, golpes de martelo em uma lataria de carro, além de uma pesada ferramenta sendo atirada contra Shelby, tornam-se variações esperadas de seu comportamento que beira o psicótico.

Do mesmo modo, em seu trato familiar, a figura de um homem atento e cuidadoso com o filho, bem como paciente diante das justas cobranças de sua esposa diante da delicada situação financeira do seu lar, ajudam o público a notar como a construção de sua figura explosiva se restringe aos momentos por trás do volante. 
E essa comparação comportamental de sua figura diante das explosões causadas pela aceleração de possantes motores, criam uma eficiente rima em seu desenvolvimento, tornando Ken e o Ford que ele pilota quase que o mesmo elemento fílmico em cena.

Fugindo dos clichês comuns ao optar por não utilizar partes internas de motores para ilustrar a potência de duas cenas envolvendo carros, mas evidenciando o clássico design de suas máquinas de corrida, Ford vs. Ferrari acaba sendo uma precisa reconstrução histórica. Reconstrução de um período em que a ousadia de engenheiros e de pilotos insanos até encontrava freios em leis da física e da aerodinâmica, mas nessa citada loucura de seus personagens, a estrada à frente cedia espaço para algo tão fugaz e breve quanto aqueles momentos velozes: vidas humanas.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 15/11/2019



terça-feira, 29 de outubro de 2019

XV Panorama Internacional Coisa de Cinema


O Cinema no Centro!


Chegando à sua décima quinta edição, o Panorama Internacional Coisa de Cinema 

começa nessa quarta e apresenta mais de 120 filmes

Por João Paulo Barreto

Mais do que um simples slogan, a frase que estampa essa matéria, O Cinema no Centro!, denota precisamente a importância do festival Panorama Internacional Coisa de Cinema na missão de trazer vida ao Centro de Salvador e a salientar a sétima arte, censurada pelo atual (des)governo, como algo central na movimentação cultual e econômica do país. Quinze primaveras cinematográficas rimam com quinze edições do festival. Debutando em 2019, a mais importante janela de exibição fílmica em Salvador começa nessa quarta-feira, dia 30, e segue até o dia 06 de novembro. Nestes oito dias, a maratona cinéfila contará com mais de 120 filmes entre curtas e longas metragens que vão ocupar três espaços, sendo dois em Salvador (o Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha e a Sala Walter da Silveira) e o Cine Theatro Cachoeirano, localizado na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano.

Dentre os destaques, temos logo na abertura, no Espaço Itaú- Glauber, às 20h, o escolhido para representar o Brasil na corrida do Oscar, A Vida Invisível, filme de Karim Aïnouz (de Madame Satá). O filme venceu a Mostra Um Certo Olhar, da edição 2019 do festival de Cannes, e tem recebido boas críticas por onde passa. O longa conta a história das irmãs Eurídice e Guida Gusmão (Carol Duarte e Julia Stockler), duas jovens idealistas que se tornam vitimas de uma sociedade machista e paternalista,  sendo separadas durante os anos 1950 e vivendo um envelhecimento amargo e repleto de desencontros. Aos 80 anos de idade, Eurídice (vivida quando idosa por Fernanda Montenegro), encontra cartas escritas pela irmã desaparecida na juventude. A sessão de A Vida Invisível terá a presença de Carol Duarte, além do diretor Karim Aïnouz.

Outro destaque a lotar as salas do Espaço Itaú – Glauber na abertura do Panorama é o documentário Meu Amigo Fela. Dirigido por Joelzito Araújo, o filme traça um vivo retrato do multi-intrumentista nigeriano Fela Kuti. Falecido em 1997, Fela teve grande destaque como líder político, influenciando toda uma geração africana. Após o filme, um papo com o diretor Joelzito Araújo e o público presente acontece. As duas sessões terão entrada franca com ingressos sendo retirados duas horas antes dos filmes. A noite de abertura se encerra com a apresentação musical de Okwei  + Banda Awetto. Com o setlist baseado no repertório de Fela Kuti, o show acontece no saguão do Espaço Itaú – Glauber. A entrada tem preço simbólico de R$2 (inteira).

A Vida Invisível, filme de Karim Aïnouz

DIFICULDADES E SUPERAÇÕES

Para o diretor geral e um dos curadores do festival, o cineasta Cláudio Marques, a atual conjuntura política e a guerra contra a cultura promovida pela situação governamental, tem dificultado qualquer meio de produção cultural. “Psicologicamente, foi o pior ano para se produzir qualquer coisa desde o início dos anos 2000. Estamos sendo atacados frontalmente, mas também por trás, através de uma crescente burocracia que está asfixiando a produção de eventos, festivais e filmes no país. Está cada vez mais complicado! Eles querem que a gente desista. É uma asfixia”, afirma Cláudio.

Mas a superação do Panorama como essa citada janela de importância vital para a cultura cinematográfica na Bahia, juntamente com a experiência de já ter produzido quatorze edições anteriores, tornam possível o processo de alcançar mais um ano com as já esperadas, mas não menos complicadas, dificuldades. “Nós Já sabemos como fazer o Panorama. Vamos aprimorando aqui e ali, experimentando algumas coisas. Mas, trata-se de um formato consolidado. O Panorama é vital para Salvador, em termos de abertura para o mundo. Um dos festivais mais importantes e reconhecidos do país”, finaliza o cineasta..

Clássico soteropólitano de Edgard Navarro, Superoutro terá exibição de 30 anos

COMPETITIVAS E CLÁSSICOS

Como já é tradicional, o Panorama trará mostras competitivas de curtas e longas metragens baianos, estrangeiros e de outros estados do Brasil. Dentre os destaques estão Pacarrete, filme do Ceará que conta a história da protagonista título, uma já aposentada professora de dança que sonha em organizar um grande balé para a população local. O longa foi o vencedor do Festival de Gramado desse ano. Além deste, Uma Breve Miragem de Sol, filme com Fabrício Boliveira e dirigido por Eryk Rocha, que, para o curador Cláudio Marques, trata-se de uma obra necessária para a reflexão acerca dos tempos atuais. “É um filme pessimista, triste como os nossos tempos. A vontade de cessar a experiência humana. Não é isso que queremos, mas é muito disso que vivemos.”, complementa Cláudio.

Dentre os clássicos exibidos, o Panorama fará apresentações especiais em comemoração a diversos aniversários de lançamentos. 2019 marca os 30 anos de Superoutro , clássico baiano dirigido por Edgard Navarro e estrelado por Bertrand Duarte (a arte dessa edição do festival homenageia o filme, inclusive). Além disso, Meteorango Kid- O Herói Intergalático, outro clássico baiano, dirigido por André Luiz Oliveira, chega aos 50 anos ainda mais atual. Ambos serão exibidos em 35mm. Outro destaque é  Redenção, de Roberto Pires, primeiro longa produzido na Bahia, completa 60 anos, que também contará com sessão especial, juntamente a uma mostra especial em homenagem a Glauber Rocha, que completaria 80 anos de idade em 2019. O Panorama celebra a cultura em um ano cuja lembrança de uma história cinematográfica é perseguida na tentativa de apagá-la. Mas, resistiremos.

“Rever Redenção, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, Meteorango Kid e Superoutro, filmes seminais da nossa cinematografia, em sequência, é uma oportunidade rara! É entender de onde viemos e uma chance para estabelecermos de uma maneira mais adequada o sentido dos nossos caminhos daqui para frente!”, finaliza Cláudio Marques.

A maratona cinéfila começa nesta quarta!

Pacarrete, vencedor em Gramado, terá sessão no Panorama



domingo, 27 de outubro de 2019

Fight Club

A Primeira Regra do Clube da Luta 


Há 20 anos, a cultuada obra dirigida por David Fincher estreava e elevava 
o patamar do Cinema como reflexão filosófica 

Por João Paulo Barreto

Em determinada cena de Clube da Luta, o anônimo personagem interpretado por Edward Norton, vê imagens publicitárias de modelos masculinos vestindo apenas roupas de baixo e indaga o “amigo” Tyler Durden, vivido por Brad Pitt, se é aquela a representação do “ser um homem”. A réplica: “Auto-desenvolvimento é masturbação. Agora, a auto-destruição...” e a resposta é deixada no vazio, acompanhada por um riso irônico de Durden e por um olhar de percepção (quase um insight) por parte do anônimo Norton. O riso irônico de Tyler Durden é a autoconsciência de que a sua sapiência é mais importante que qualquer estética. Sapiência essa que, 20 anos depois, em um 2019 dominado pelos símbolos alvos do Project Mayhem idealizado por Tyler dominando políticas públicas e pessoas através da desinformação das fakenews, torna-se imensurável. “As redes sociais deram voz aos imbecis”, disse Umberto Eco. Imbecis e, também, oportunistas. Valorizar a própria inteligência, hoje, é um desafio.

Essa semana, a obra dirigida por David Fincher em 1999 completa 20 anos desde sua estreia nos cinemas brasileiros. Voltar os olhos para a capacidade de uma análise filosófica em Clube da Luta é um modo precioso de entendermos melhor o poço onde estamos afundando. Por exemplo, em outro momento do longa, Tyler Durden diz que “apenas após perder tudo, é que você estará livre para fazer o que quiser. Nada é estático. Tudo está desmoronando. Esta é a sua vida. E ela está terminando um minuto por vez”. Com tal frase, ele confirma a certeza de que sabe o caminho que a sociedade está seguindo. Seja na necessidade simplista de se existir e “lacrar” em redes sociais, ou na dedicação do preenchimento do vazio da vida com objetos comprados no shopping, ele sabe para qual buraco fétido caminhamos. Mas, o mais importante, é que ele está fazendo o que pode (e ele pode muito!) para resolver tal situação. “Apenas após estar em equilíbrio consigo, é que você estará livre para fazer o que quiser” complementa Tyler enquanto exibe a mão queimada e cicatrizada por lixívia. 

"Autodesenolvimento é masturbação..."

ESTOICISMO LIBERTADOR

O narrador Norton é a representação do modo de agir e pensar da atual sociedade capitalista. Fechada num mundo de consumismo, egoísmo e falsa segurança, ela é habitada em cada um de seus integrantes por Tylers escondidos e loucos para sair. Aproxima-se do conceito platônico de conhecimento intimo: o conhecimento habita cada um, basta percebê-lo. Remete ao filósofo grego Zenão de Cítio, que trouxe em sua doutrina o equilíbrio humano separando o corpo da razão. É como se Tyler representasse a figura de Zenão hoje: alguém ciente da necessidade de perder as amarras que o prendem ao mundo para alcançar o foco de sua própria sapiência (olha ela de novo). Assim, os homens do Clube (e, por que não, nós mesmos) perdem(os) as amarras. Alcançam o ideal de perceber o quanto suas mentes merecem ser valorizadas. “Vejo aqui reunidos os mais bravos e inteligentes homens do mundo. Uma lástima o fato uma geração inteira estar servindo mesas, enchendo tanques, entregando pizzas”, lamenta-se Tyler em um monólogo que colocaria qualquer “coach” oportunista no chinelo.

O estoicismo pregado por Zenão de Citio trazia em sua essência o desprendimento de tudo o que é inútil (incluindo nisso a importância de seu próprio corpo) para alcançar o equilíbrio do espírito. Nesse desprezo ao material, mesclou-se (ou confundiu-se) o conceito pregado por Cristo, onde o martírio pode levar ao equilíbrio do conhecimento. Negado pelos cristãos como uma influência para sua religião, o estoicismo é encarado pelos seguidores de Jesus como um desprezo do homem por si mesmo. Nada mais do que um desespero do ser humano ao constatar, no mundo e na sua própria existência, a ausência de um Deus por ele rejeitado. Ver esse mesmo Deus estampando slogans políticos não ajuda. 

O narrador anônimo "como ele mesmo"

Impossível não relacionar esse fato a outra declaração de Tyler Durden: “Deus foi incluído em nossas vidas como um modelo de nossos pais. Se eles (os pais) nos abandonaram, Deus fez a mesma coisa. Somos os filhos indesejados de Deus. Provavelmente, ele nos odeia”. E é neste momento que pensamos em outro grego, Epícuro, e sua declaração de que o homem foi feito para a felicidade. O conceito do epicurismo traz limites para os exageros da vida. Para Epícuro, a doença que acomete uma pessoa é um aviso do corpo. Um aviso de um exagero cometido. A análise do epicurismo, relacionada à sociedade atual do século XXI, possui uma libertação interna do homem capitalista preso ao modo de vida imposto pelo trabalho. “Só trabalho, sem diversão, fazem de Jack um bobão”, profetizou Kubrick em O Iluminado.

E, por fim, lembramos de João Cabral de Melo Neto e pensamos na morte diária “de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia”. Sendo essa fome também intelectual ao vermos tantos imbecis ascendendo ao poder por estarmos distraídos sendo manipulados diante de tantas timelines, stories e a necessidade de aparecer e “lacrar”. “A mídia nos faz correr atrás de empregos inúteis para comprar coisas que não precisamos. A televisão nos fez acreditar que um dia seríamos astros do rock ou milionários. Mas não seremos. E estamos, aos poucos, percebendo isso e ficando muito, muito zangados”, profetiza Tyler. 

Acordar é preciso!

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 27/10/2019

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

IV Mostra de Cinema - CINE HORROR


Cinema fantástico presente!


Abrangendo o cinema de gênero e o fantástico, 
Mostra CINE HORROR chega à sua quarta edição na tradicional Sala Walter

Por João Paulo Barreto

Fãs do cinema de gênero de horror, sejam os clássicos ou contemporâneos, das obras de ficção científica e dos filmes que se aventuram pelo desafiar do espectador dentro de um conceito fantástico no contar de histórias, têm, a partir de hoje, na Sala Walter da Silveira, um leque variado de opções para alimentar essa cinefília. E o melhor: com entrada franca! A quarta edição da Mostra de Cinema CINE HORROR apresentará para o público frequentador da tradicional sala localizada no complexo cultural dos Barris, no Centro de Salvador, mais de 70 filmes, entre longas e curtas metragens, além de debates com pesquisadores e realizadores do cinema de gênero.

A Mostra CINE HORROR acontece essa semana, entre os dias 17 e 20 (de hoje a domingo), e volta na próxima, nas datas de 25, 26 e 27 de outubro (sexta, sábado e domingo). As sessões acontecem sempre a partir das 14h, e a programação completa pode ser conferida no site www.cinehorror.com.br e nas redes sociais da Mostra. Na abertura, amanhã, o evento contará com a apresentação da Camerata Opus Lúmen, parte integrante da OSBA (Orquestra Sinfônica da Bahia).

Cena de Dona Oldina vai às Compras, de Felipe Guerra

O idealizador da Mostra de Cinema CINE HORROR, o professor e artista gráfico, Valmar Oliveira, comenta as dificuldades e a perseverança de, no quarto ano do evento, conseguir realizá-lo sem qualquer suporte financeiro oficial. “Aos poucos, vamos nos firmando no calendário, não só baiano, mas nacional, chamando atenção de produtores e diretores estrangeiros. É uma luta diária para que o evento aconteça, sempre procurando apoios, parcerias, já que a Mostra é completamente independente”, pontua Valmar, que também realiza sessões mensais na mesma Sala Walter.

DESTAQUES BAIANOS

Dentre os filmes selecionados, várias produções baianas mostram que o estado é um dos representantes de maior impacto na filmografia de horror fantástico e suspense no Brasil. Filmes como Onze Minutos, de Hilda Lopes Ponte; Necropolis,de Ítalo da Silva Oliveira; Tropykaos, de Daniel Lisboa ; Baby Trap e M for Mess, ambos de Carlos Faria; A Face do Sonho, de Alana Pinheiro e O Sorriso de Felícia, de Klaus Hastenheiter, desenham um bom panorama do estilo fantástico de cinema que é feito na Bahia.

Para além da catarse que o cinema de gênero concede aos seus admiradores, o CINE HORROR visa um diálogo dentro dessa linguagem repleta de metáforas. Uma das curadoras do evento, a professora Ana Lima, salienta que “o cinema de gênero conduz o público por caminhos logicamente irretocáveis, que oferecem novas perspectivas, como lentes que vestimos sobre os olhos por um momento, e que, com frequência, deixam resíduos sobre a retina que ali permanece mesmo depois de removidas as lentes”. Além disso, Ana Lima destaca a importância desse tipo de obra como enriquecedor da cultura do cinema. “Incorporar o cinema de gênero como uma experiência de metáforas, como forma de viver novos modelos de descrição, diferentes formas de ver o mundo, produz grandes benefícios à cultura cinematográfica em geral”, finaliza.  

Cena Você, Morto, de Raphel Araújo

CLÁSSICOS E ATUAIS ESTRANGEIROS

Em memória do escritor estadunidense Edgard Allan Poe, morto há 170 anos, e a publicação de “A Queda da Casa de Usher”, uma de suas obras-primas, o CINE HORROR apresentará O Solar Maldito, adaptação dirigida pelo lendário Roger Corman em 1960, e protagonizada por Vincent Price. Outro escritor homenageado é HP Lovecraft, que publicou há cem anos seu clássico conto Dagon. A mostra trará a adaptação espanhola homônima, levada aos cinemas em 2001. Ambos serão exibidos no dia 20 de outubro.

A curadoria do CINE HORROR, além de mapear o cenário local e brasileiro do gênero, também focou em obras de diversos outros países como Espanha, Portugal, Israel, Noruega, Irlanda e França. Uma prova de que, mesmo distante de uma divulgação popular massiva do cinema comercial (ou mainstream, comumente chamado), o gênero caminha forte em várias partes do planeta e a Mostra baiana está ciente disso. Saul Mendes Filho, um dos curadores, confirma isso. “A consolidação do CINE HORROR se dá por abraçar essa proposta intermediária, esse espaço de interseção onde perambulam os filmes que não se enquadram no circuito mainstream, apesar de ser substancialmente entretenimento, e que não se enquadram exatamente no cinema de arte, apesar de carregar muitas vezes uma personalidade autoral ou uma estética diferenciada”, afirma Saul.


Parte da equipe do Cine Horror na Sala Walter.

Sala Walter. Ocupar é preciso!

Negligenciada pelo governo do estado, a Sala Walter da Silveira, bem como a Sala Alexandre Robatto, ambas localizadas no complexo cultural dos Barris, no subsolo da Biblioteca Central, possuem na Mostra de Cinema CINE HORROR um dos bastiões na sobrevivência de um espaço crucial para a cultura cinematográfica em Salvador. É lá que acontecem diversos eventos como este, como a Mostra Lugar de Mulher é no Cinema, o Panorama Internacional Coisa de Cinema e a Mostra de Cinemas Negros – Mohamed Bamba. Além disso, uma constante programação de clássicos semanais é exibida.

Local de confluência e de encontros, a Sala Walter passa por dificuldades há anos, como poltronas quebradas, manutenção de banheiros, problemas no ar condicionado e qualidade de projetores. Ao menos agora, coincidindo com o começo da Mostra de Cinema CINE HORROR, a Walter teve uma melhoria nestes dois últimos itens, com a reinstalação do ar condicionado central e a compra de um novo projetor. Rafael Saraiva, um dos curadores da Mostra, comenta a importância do lugar para o projeto, mas lamenta esse descaso.

 “A Sala Walter da Silveira acolheu o Cine Horror de forma bem aberta desde 2017, tanto para o evento anual quanto para as sessões mensais. Infelizmente, ao longo desse tempo, também fomos acompanhando o sucateamento do espaço, o que se reflete obviamente no público que frequenta o local (não apenas nas sessões do Cine Horror, mas da programação da sala em geral)”, explica Rafael.

Há um potencial imenso em uma revitalização da Sala Walter, mas as incertezas angustiam os apreciadores do lugar, que temem seu fechamento. Rafael comenta que a mudança de endereço da Diretoria de Audiovisual da FUNCEB não colabora muito com a valorização da sala. “A mudança da DIMAS para longe da biblioteca central, onde fica a Walter da Silveira, gerou uma instabilidade sobre a continuidade daquele equipamento. Esperamos que a reforma em curso, com reinstalação de aparelhos de ar condicionado e novo projetor traga novamente as pessoas para ocuparem a sala. E que desfrutem de sua programação gratuita e sempre bem escolhida”, conclui Rafael Saraiva.

*Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 17/10/2019




sábado, 5 de outubro de 2019

Cinema Baiano no Panorama 2019


Tradicional festival local debuta e apresenta 
a Competitiva da Baiana edição 2019 


Por João Paulo Barreto

Obras que flertam com a ficção científica e que desenham o futuro apocalíptico a se anunciar no atual e triste Brasil. Em forma de musical, a solidão da vida plástica da internet. Animações e cinema de gênero de horror. A esperança residente no ato de amor atrelado à labuta do fazer Cinema mesmo em tempos sombrios. Documentários a relembrar a nostálgica locomoção na linha férrea de Salvador ou a denunciar o descaso com a educação pública perante a especulação imobiliária no Corredor da Vitória, local onde fica o histórico Colégio Estadual  Odorico Tavares. Estes são apenas alguns dos diversos temas presentes dentre os 25 filmes que a décima quinta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema levará às telas Competitiva Baiana do festival que começa no dia 30 de outubro.

Acontecendo simultaneamente em Salvador, no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, e no Cine Theatro Cachoeirano, na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano, o Panorama completa em 2019 quinze edições dando visibilidade às produções de realizadores e realizadoras daqui. Assim, busca gerar um diálogo constante com as diversas vertentes do cinema feito em um estado como a nossa Bahia, notória por gerar obras pilares da filmografia brasileira.

Cena de Em Cima do Muro, de Hilda Lopes Pontes

VARIEDADE TEMÁTICA

Na categoria de longas metragens, o diretor do festival e curador dos longas, o cineasta Cláudio Marques aponta que, na escolha do filmes este ano, resolveu optar por uma competição mais enxuta. “Escolhi, realmente, os mais significativos tanto em termos de conteúdo quanto na forma. Há uma diversidade interessante: uma animação com seu universo próprio; um belo e honesto filme caseiro, além de dois filmes de cunho ativista. Interessante que esses dois últimos filmes, os que eu denomino “ativistas”, possuem estética e aproximação totalmente distintas. Creio que em termos de qualidade nós ganhamos bastante na competição baiana de 2019”, pontua Cláudio.

Na seleção de curtas metragens, um foco em variados temas e urgências foi colocado em evidência na escolha dos filmes. O professor, pesquisador e crítico de cinema, Rafael Carvalho, que integra a equipe de curadoria responsável pela seleção dos curtas, salienta a dificuldade na escolha dos trabalhos a serem exibidos. "Mais uma vez tivemos um ano muito bom de inscrição de curtas baianos e certa dificuldade em escolher os selecionados, principalmente pela diferenças de abordagem, formato, gêneros e temáticas que os filmes espelham. Mais que tudo, escolhemos filmes que gostaríamos que o público visse para conhecer o que temos produzido em termos de cinema hoje aqui no Estado", conclui Rafael.

Cena de Fundo do Céu, de Matheus Vianna

O Panorama Internacional Coisa de Cinema possui o apoio do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura, fazendo, desde 2012, parte do edital “Projetos Culturais Calendarizados”. Trata-se de um edital responsável por formar plateias para as artes, além de valorizar a cultura local, bem como trazer benefícios na geração de emprego e renda. A Bahia é um dos poucos estados do Brasil a possuir esse tipo de incentivo. Que possa permanecer e se expandir para que novos trabalhos continuem a ter uma janela de exibição tão ampla quanto o Panorama.

*Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 06/10/2019



CONFIRA OS SELECIONADOS PARA A COMPETITIVA BAIANA DO
XV PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA


LONGAS
Cinema de Amor, de Edson Bastos e Henrique Filho.

Jaçanã, de Laryssa Valim Machada.

Miúda e o Guarda-Chuva, de Amadeu Alban.

Uma Mulher, Uma Aldeia, de Daniel Dourado e Marcelo Abreu Góis.

CURTAS
A Mulher no Fim do Mundo, de Ana do Carmo.

A Sete Tragos Do Chão, de Ariel L. Dibernaci e Cláudia Sater.

Ada, de Rafaela Uchoa.

Arco do Tempo, de Juan Rodrigues.

Cabelos Brancos, de Lina Cirino e Elza Cirino.

Cartas para Ana, de Carla Caroline.

Chica, de Andrea Guanais.

Corações Encouraçados, de Jamile Coelho e Cintia Maria.

Em Cima do Muro, de Hilda Lopes Pontes.

Enjoy Your Sunday, de Victor Marinho.

Enquanto Eu For Lembrado, de Állan Maia.

Entre o Céu e o Subsolo, de Felipe da Silva Borges.

Fundo do Céu, de Matheus Vianna.

Japanese Nano Food, de Liz Riscado.

Joderismo, de Marcus Curvelo.

Necropolis, de Italo Oliveira.

O Garoto no Fim do Mundo, de Antônio Victor e Lailson Brito.

Pelano!, de Christina Christina Mariani e Calebe Lopes.

Tem um Monte de Oxum no SUS, de Aline Brune.

Vapor SubUrbano, de Dodias An.

Vigia - Um Olhar para a Morte, de Victor Marinho.