sábado, 5 de outubro de 2019

Cinema Baiano no Panorama 2019


Tradicional festival local debuta e apresenta 
a Competitiva da Baiana edição 2019 


Por João Paulo Barreto

Obras que flertam com a ficção científica e que desenham o futuro apocalíptico a se anunciar no atual e triste Brasil. Em forma de musical, a solidão da vida plástica da internet. Animações e cinema de gênero de horror. A esperança residente no ato de amor atrelado à labuta do fazer Cinema mesmo em tempos sombrios. Documentários a relembrar a nostálgica locomoção na linha férrea de Salvador ou a denunciar o descaso com a educação pública perante a especulação imobiliária no Corredor da Vitória, local onde fica o histórico Colégio Estadual  Odorico Tavares. Estes são apenas alguns dos diversos temas presentes dentre os 25 filmes que a décima quinta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema levará às telas Competitiva Baiana do festival que começa no dia 30 de outubro.

Acontecendo simultaneamente em Salvador, no Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha, e no Cine Theatro Cachoeirano, na cidade de Cachoeira, no recôncavo baiano, o Panorama completa em 2019 quinze edições dando visibilidade às produções de realizadores e realizadoras daqui. Assim, busca gerar um diálogo constante com as diversas vertentes do cinema feito em um estado como a nossa Bahia, notória por gerar obras pilares da filmografia brasileira.

Cena de Em Cima do Muro, de Hilda Lopes Pontes

VARIEDADE TEMÁTICA

Na categoria de longas metragens, o diretor do festival e curador dos longas, o cineasta Cláudio Marques aponta que, na escolha do filmes este ano, resolveu optar por uma competição mais enxuta. “Escolhi, realmente, os mais significativos tanto em termos de conteúdo quanto na forma. Há uma diversidade interessante: uma animação com seu universo próprio; um belo e honesto filme caseiro, além de dois filmes de cunho ativista. Interessante que esses dois últimos filmes, os que eu denomino “ativistas”, possuem estética e aproximação totalmente distintas. Creio que em termos de qualidade nós ganhamos bastante na competição baiana de 2019”, pontua Cláudio.

Na seleção de curtas metragens, um foco em variados temas e urgências foi colocado em evidência na escolha dos filmes. O professor, pesquisador e crítico de cinema, Rafael Carvalho, que integra a equipe de curadoria responsável pela seleção dos curtas, salienta a dificuldade na escolha dos trabalhos a serem exibidos. "Mais uma vez tivemos um ano muito bom de inscrição de curtas baianos e certa dificuldade em escolher os selecionados, principalmente pela diferenças de abordagem, formato, gêneros e temáticas que os filmes espelham. Mais que tudo, escolhemos filmes que gostaríamos que o público visse para conhecer o que temos produzido em termos de cinema hoje aqui no Estado", conclui Rafael.

Cena de Fundo do Céu, de Matheus Vianna

O Panorama Internacional Coisa de Cinema possui o apoio do Governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura, fazendo, desde 2012, parte do edital “Projetos Culturais Calendarizados”. Trata-se de um edital responsável por formar plateias para as artes, além de valorizar a cultura local, bem como trazer benefícios na geração de emprego e renda. A Bahia é um dos poucos estados do Brasil a possuir esse tipo de incentivo. Que possa permanecer e se expandir para que novos trabalhos continuem a ter uma janela de exibição tão ampla quanto o Panorama.

*Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 06/10/2019



CONFIRA OS SELECIONADOS PARA A COMPETITIVA BAIANA DO
XV PANORAMA INTERNACIONAL COISA DE CINEMA


LONGAS
Cinema de Amor, de Edson Bastos e Henrique Filho.

Jaçanã, de Laryssa Valim Machada.

Miúda e o Guarda-Chuva, de Amadeu Alban.

Uma Mulher, Uma Aldeia, de Daniel Dourado e Marcelo Abreu Góis.

CURTAS
A Mulher no Fim do Mundo, de Ana do Carmo.

A Sete Tragos Do Chão, de Ariel L. Dibernaci e Cláudia Sater.

Ada, de Rafaela Uchoa.

Arco do Tempo, de Juan Rodrigues.

Cabelos Brancos, de Lina Cirino e Elza Cirino.

Cartas para Ana, de Carla Caroline.

Chica, de Andrea Guanais.

Corações Encouraçados, de Jamile Coelho e Cintia Maria.

Em Cima do Muro, de Hilda Lopes Pontes.

Enjoy Your Sunday, de Victor Marinho.

Enquanto Eu For Lembrado, de Állan Maia.

Entre o Céu e o Subsolo, de Felipe da Silva Borges.

Fundo do Céu, de Matheus Vianna.

Japanese Nano Food, de Liz Riscado.

Joderismo, de Marcus Curvelo.

Necropolis, de Italo Oliveira.

O Garoto no Fim do Mundo, de Antônio Victor e Lailson Brito.

Pelano!, de Christina Christina Mariani e Calebe Lopes.

Tem um Monte de Oxum no SUS, de Aline Brune.

Vapor SubUrbano, de Dodias An.

Vigia - Um Olhar para a Morte, de Victor Marinho.















Coringa


Os Degraus da Insanidade


Com um inspirado Joaquin Phoenix, Coringa traz origem de lendário 

vilão em humano, violento e reflexivo espiral psicológico

Por João Paulo Barreto

Em um dos recorrentes enquadramentos utilizados pelo diretor Todd Phillips na sua vertiginosa viagem dentro do labirinto mental de Arthur Fleck (um Joaquin Phoenix em estado de graça), o comediante fracassado que se torna o assassino serial autointitulado Coringa, vemos o homem de aparência frágil subir algumas vezes vários lances de escada em uma conexão entre as imundas ruas da fictícia Gotham City, ou, a Nova York setentista que o filme soube emular tão bem de obras como Perdidos na Noite, Serpico e Taxi Driver.

Aqui, percebemos em suas costas curvadas o peso de sua existência naquelas constantes escaladas de degraus em diários retornos para o apartamento decrépito onde vive com sua mãe doente, após mais uma jornada de derrotas na carreira como palhaço de rua a anunciar promoções de lojas decadentes, animar crianças doentes em hospitais, ou no alimentar do sonho inútil de fazer sucesso na comédia de stand-up.

Da mesma maneira, esse retorno também acontece após mais um dia de violências sofridas e de escape do sufocamento urbano, e, também, após mais uma tentativa fracassada de se adaptar, através de visitas ao Serviço Social, a um mundo que o renega rotineiramente. A repetição é a vida de Arthur. Bem como é uma das precisas definições do inferno

Arthur e sua condição: risos incontroláveis 
.
Não com surpresa o espectador atento percebe naquela escada constante a bela rima visual ao ver o protagonista iniciar sua pessoal, e, por isso, aliviante espiral descendente em direção à loucura com um atravessar daqueles mesmos degraus, só que no sentido contrário, seguindo para a entrega total à violência catártica e deixando para trás qualquer chance de redenção. Ao subir aqueles degraus em sua postura de desistência e desânimo, mas, ainda assim, lutando para de algum modo conseguir escapar, seja com a ajuda de remédios ou cogitando um interesse amoroso, ainda tem-se ali a presença de alguém que quer se ver curado e “feliz” como, ironicamente, o chama sua mãe, Penny (Frances Conroy). Na postura confiante e reversa da descida daqueles mesmos degraus, com suas roupas berrantes, com uma maquiagem a mostrar seu verdadeiro rosto e em uma incisiva dança, o que vemos é justamente essa citada entrega à catarse.

ÁSPERA SOCIEDADE

É disso que trata Coringa, incursão dentro da trajetória do mais conhecido vilão dos quadrinhos do Batman que, aqui, é desenhado em uma humana e, calcada no real, gênese. É sobre a perda das amarras na entrega a uma insanidade nociva, brutal e assassina causada pela crueldade familiar e pela omissão áspera de uma sociedade amarga. Demonstrando esse peso a martirizá-lo, está a presença física de Joaquin Phoenix.

Com sua impressionante magreza, suas costas arqueadas, omoplatas protuberantes, uma postura que, de maneira contrastante, desenha fragilidade e, simultaneamente, força bruta em sua personagem, o ator dá a Arthur um paralelo de empatia e de medo junto ao público. E essa força bruta é denotada logo em seu começo, quando, sem camisa e exibindo hematomas da recente surra sofrida, tenta rasgar o couro de suas botas de palhaço como maneira de descarregar algo. Aqui, o desenho de som preciso cria justamente essa sensação de brutalidade escondida sob aquele corpo esquelético. E nas gargalhadas incontroláveis acompanhadas por um cartão explicativo daquela condição, ou naqueles risos agudos que ele manipula muito bem, o seu autocontrole é evidenciado e nós o entendemos com os dentes trincados.

De Niro na pele de Murray Franklin: nocivo e humilhante oportunismo

MÍDIA NOCIVA

Em uma Gotham City que representa tudo de ruim que a desigualdade social pode criar, na qual a ingerência irresponsável de políticos incompetentes e corruptos desenha o presente, o futuro e o desespero de cidadãos sem amparo social e vitimas de um capitalismo nocivo, a imagem de um povo se levantar sob o símbolo de um palhaço assassino dá à experiência Coringa um peso ainda mais relevante. Distante de qualquer denúncia rasa e insustentável de um suposto teor irresponsável em suas ideias niilistas, a obra de Todd Phillips concede ao seu público uma possibilidade imensa de reflexão. “É a vida”, como bem pontua Robert De Niro na pele de um oportunista apresentador de TV. E observe que isso vem de um filme que possui um selo de origem nos quadrinhos. Não é pouca coisa.

Inclusive, a presença de De Niro como o anfitrião do programa de entrevistas e comediante Murray Franklin, uma evidente relação à subestimada obra O Rei da Comédia, dirigida por Martin Scorsese em 1982. Aqui, porém, Rupert Pupkin troca de lugar com Arthur Fleck, mas a mesma carência afetiva está lá presente. O que muda é somente a intensidade e velocidade de seu caos interno. Como catalisador para toda fúria do protagonista, Murray Franklin vem como um símbolo de todas auguras que atormentam Fleck.

No ato extremo a fechar o filme, uma imagem simbólica de diversos monitores de TV exprime o caos causado pelo já batizado Coringa. Alguns dos canais continuam a exibir sua programação normal, com publicidades e episódios semanais “a colocar um sorriso no rosto” do espectador. A vida segue. Mas o caos permanece. Às vezes disfarçado, às vezes evidente. Mas sempre nocivo.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 05/10/2019


domingo, 29 de setembro de 2019

Sócrates


Existência como martírio e resistência


Com Sócrates, jovem Christian Malheiros estreia com atuação

densa para drama de um Brasil amargo e real

Por João Paulo Barreto

A jornada de dor do garoto Sócrates começa sem nenhum tipo de prólogo. É como a sua própria existência e realidade se apresentam para ele. Logo no primeiro frame do homônimo filme dirigido por Alexandre Moratto, a aspereza da vida daquele menino é lançada na tela de maneira violenta. Não há uma comparação entre o antes e o depois. A vida dele é aquilo que vemos se desenhar. Deparar-se com o corpo da mãe, que parece ter falecido durante o sono, é o inicio de uma fase ainda pior na trajetória do adolescente de 15 anos.  A partida dela é como um chute do destino em suas costas, que o empurra de maneira agressiva em direção a uma rotina em que cada esquina lhe chega como um soco na cara. Tendo na mãe seu único porto seguro, Sócrates se vê na vida sem qualquer norte, e é nesse mergulho sem direção que a câmera de Moratto nos leva.

Na presença de Christian Malheiros (da série Sintonia) como protagonista daquela jornada, a construção de um jovem que tem o peso do mundo sobre si, mas segue em um insistente duelo contra este esmagamento. Malheiros constrói seu Sócrates de forma gradativa. Aos poucos vemos aquele mundo quebrar o menino. E é doloroso ver isso. Aqui, não há deus ex machina ou a estrutura de conto de fadas. A vida de Sócrates não é uma fábula onde sua rotina é desenhada como uma série de percalços, lutas, e reviravoltas para, finalmente, surgir um final feliz. Não. Sua realidade é uma constante batalha pelo próximo dia, pois é nele que a fome vai chegar; é nele que a grana vai faltar; é nele que o aluguel vai vencer e que a solidão vai bater dolorosamente. E ele não vai ter opção alguma a não ser a de levantar e seguir.

Tales Ordakji no papel de Maicon e Christian Malheiros

LUTO E AMOR NEGADOS


Com uma entonação otimista de sua voz, Malheiros dá a Sócrates uma forma de esconder, mesmo que brevemente, seu cansaço. Ele quer continuar lutando, mas o que vem do lado de lá insiste em jogá-lo no chão. Porém, lá está ele, naquele tom empolgado, dizendo que pode fazer aquele trabalho, que está aí caso precisem de alguém para cobrir aquele turno ou que está disposto a aprender o que a função exige que ele aprenda. Porém, nem mesmo o luto lhe é permitido. Precisa esconder a morte da mãe para que não perca o emprego nos serviços de limpeza, vaga que pertence a ela, mas que conseguiu substituir para que, enquanto convalescia, não perdesse o trabalho.  

Nos poucos momentos que se permite escapar daquele peso, Sócrates dança embriagado por água ardente ou pela breve paixão por Maicon (Tales Ordakji), que tem um segredo em sua vida que impedirá de seguir com ele. Até mesmo essa paixão por Maicon surge em sua vida de maneira violenta, quando os olhares entre si terminam em socos de auto-recriminação e medo de demonstrar fraqueza por se sentir atraído. Na despedida, quando o segredo de Maicon lhe é apresentado em uma cena que se equilibra entre algo tão bonito, porém doloroso, mas que significa a percepção do fim por Sócrates, Maicon coloca um dinheiro em seu bolso, dizendo para ele ir embora. Ao menos ali estava alguém que se importava, mesmo que a sua própria realidade o impedisse de seguir em sua felicidade.

Sócrates e um reencontro amargo

SEM VOYEURISMO

No reencontro com pai, que apenas conhecíamos pela resistência de Sócrates em não querer tê-lo de volta em sua vida, percebemos a razão para aquele trauma exigindo a distância. Não há afeto, mas, sim, uma autoridade doente, baseada em hipócritas preceitos religiosos e em um sádico comportamento homofóbico. Ao atingir um nível alarmante de necessidade, recorrendo ao lixo para não morrer de fome, é quando sua fúria contra aquele que deveria lhe dar afeto ao invés de sadismo se manifesta. Apesar da catarse ao ver Sócrates se vingar de toda aquela animosidade, não a sentimos como sendo algo a nos dar regozijo. Ali, Sócrates encontra, ao menos, algo que traga uma mera lembrança de sua mãe, mesmo que seja um símbolo de sua partida. Símbolo este que se tornará um rito de passagem para aquele garoto.

Moratto coloca o público dentro da realidade de Sócrates não como um voyeur. Não há estilização do sofrimento para a plateia retirar 70 minutos do seu tempo como modo de experimentar e avaliar aquele percalço alheio de maneira oportunista. A reflexão que Sócrates, o filme, concede ao espectador atento é a de uma realidade que está ali, densa, pesada, sem floreios, frases de efeito ou epifanias. E ela permanece até o fim. Nem mesmo o purificador mergulho no mar de Santos a representar o citado rito faz o público deixar de carregar consigo o peso daquela história para fora da sala de exibição. E que este peso sirva como uma reflexão e busca de solução para uma realidade que assombra a muitos.

 *Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 29/09/2019


domingo, 22 de setembro de 2019

Os Jovens Baumann


O desaparecimento dos dias da juventude


Com suspense como falsa ambientação, Os Jovens Baumann cria reflexão s
obre a nostalgia de uma fase deixada para trás

Por João Paulo Barreto

Dentre os filmes definidos como found footage, termo em inglês que indica obras de ficção a emular uma quase documental realidade, trágica ou não, acontecida no passado através de registros caseiros ou não profissionais, uma gama diversa de possibilidades narrativas pode ser concebida. Habitualmente relacionado ao terror sobrenatural ou ao gore (estilo mais sanguinolento e gráfico de violência no cinema), os found footage (em tradução literal, “gravações encontradas”) têm um dos seus primeiros registros no cinema com Holocausto Canibal, obra de 1980 que trazia a trágica incursão de um grupo de aventureiros/cientistas em visita às matas da América do Sul em uma viagem que custaria suas vidas e, antes disso, sanidades. De lá pra cá, o mais famoso dos exemplares é A Bruxa de Blair, que também trazia as fitas com registros encontrados de um grupo de pessoas a desvendar uma floresta com um folclore sobrenatural em suas raízes. 

Mas, diante dessa citada gama de possibilidades narrativas, o que a diretora Bruna Carvalho Almeida alcança em Os Jovens Baumann, exemplar brasileiro do gênero, é justamente o subverter dessa expectativa pesarosa para seu público. Aqui, ela cria uma narrativa baseada em imagens encontradas em um local onde supostamente algo trágico ocorreu. No entanto, essa expectativa é mantida sempre em um limiar de entrega de algo catártico, mas que nunca se concretiza. E é justamente neste aspecto que seu filme se consolida como ótimo exemplar desse gênero. Pelo suspense não manipulador, mas que, ao mesmo tempo, se faz sempre presente de maneira a causar aquele bem-vindo comichão incômodo.

Um dos Baumann brinca como se desse adeus 

OLHAR RETRÔ

A rotina dos primos da Família Baumann, herdeiros de uma longa tradição no cultivo de café, em visita a uma fazenda parte dessa herança, é o mote para a criação dessa expectativa na audiência que convive por pouco mais de uma hora com as brincadeiras daquele grupo simpático de jovens. Na captação através de uma câmera VHS e com breves interlúdios narrativos explicando as circunstâncias do desaparecimento do grupo e o subsequente encontrar das fitas, o longa cria uma ambientação na qual sabemos que algo trágico se avizinha. Gradativamente, penetramos nas conversas e brincadeiras daqueles garotos e garotas de classe média alta a contar suas aventuras prévias e a definir ao público suas personalidades.

Localizado em 1992, o contexto social no qual está inserido o grupo é pincelado ao espectador de maneira sutil. Algumas pistas são colocadas ali para entendermos o quão abastada é aquela família, como quando um deles brinca em um interrogatório para saber quem planejava roubar a fortuna dos Baumann. Até mesmo a postura elitista daquela classe é desenhada no momento em que a reforma agrária entra como tema de uma conversa e uma das jovens destila certo preconceito ao falar que mendigos iriam invadir o lugar. Tais inserções, para além de qualquer intenção de se lançar em um terreno que se baseie em uma crítica social daquelas pessoas, servem mais como uma ilustração de suas maturidades, colocando-os, quando vistos pela cortina do tempo e pelo olhar da câmera retrô, como uma maneira dos jovens se perceberem ingênuos na passagem de1/4 de século. Algo que, claro, não se concretiza pela tragicidade dos fatos.

Brincadeiras como prelúdio de uma despedida

ALEGORIA DA JUVENTUDE

Com suas liberdades expostas e comportamentos o tempo inteiro festivos, os integrantes daquele grupo de primos são desenhados como símbolos de uma época nostálgica, algo denotado ainda mais pela utilização das imagens de uma captação em VHS. A fuga de um cavalo, o desaparecimento de uma cidade nas águas de uma represa, são elementos a representar esse escape e perda.

Disfarçado como um filme de suspense, Os Jovens Baumann se torna uma alegoria eficiente para a juventude descompromissada, a mesma que desaparece com o passar dos anos no encontro com outros focos e pesos na vida. No final, esse é o suspense que se consolida.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 22/09/2019





domingo, 15 de setembro de 2019

Legalidade


Quando Brizola peitou os golpistas


Com Legalidade, um vislumbre de um Brasil que poderia ter escapado da tragédia da ditadura

Por João Paulo Barreto

Impressionante como o timing do lançamento de um filme se torna preciso de acordo com a época e a conjuntura social e política em que ele é lançado. Se tivesse estreado há 10 ou 15 anos, Legalidade, novo trabalho dirigido por Zeca Brito (do excelente A Vida Extraordinária de Tarso de Castro) geraria, sim, reflexão e impacto semelhante ao que vemos hoje, em um desolador 2019, ano vitima que resultou de manipulações jurídicas e fake news em um processo de eleitoral vicioso.

Porém, adentrar atualmente no processo de luta liderado pelo então governador do Rio Grande do Sul em 1961, Leonel Brizola, por ocasião da renúncia desastrosa do presidente Jânio Quadros, torna inevitável a reflexão, comparação e consequente desânimo diante de nossos dias.  Jânio, em livro organizado pelo seu neto, admitiu no leito de morte que usou o ato da renúncia como uma tentativa de recuperar popularidade voltando “nos braços do povo ao poder”. Para que este não assumisse, enviou seu vice, João Goulart, em visita diplomática à China e acabou dando um tiro no pé (e no país) uma vez que, de fato, deixou a presidência e abriu as portas para a sombra das Forças Armadas.

A partir disso, a manipulação militar para impedir que Goulart assumisse, ou que assumisse através de um acordo com os milicos (como aconteceu), a influência estadunidense nestes conchavos e o folclore propagado em torno do “terror vermelho” (sensação de déjà vu com a campanha de 2018), levou o Brasil a apenas três anos de governo de Jango e uma caminhada à beira de um precipício uma vez que, em abril de 1964, este foi deposto e país caiu nas trevas da ditadura.

Brizola (Leonardo Machado) convoca população à luta

MOVIMENTO PELA LEGALIDADE

O foco, porém, está nas ações perpetradas por Leonel Brizola (Leonardo Machado) e o movimento iniciado a partir do Palácio Piratini, sede do governo gaucho. Legalidade recria os momentos de tensão com o comunicado da renúncia de JQ e ausência de Jango no país. Brizola, percebendo os interesses militares em não deixar que o vice-presidente assumisse, inicia uma série de comunicados ao povo do RS informando-os acerca da real possibilidade de um golpe militar. Assim, diante de ameaças de bombardeios no palácio, fechamento de rádios e transmissão de pronunciamentos a partir dos porões da sede do governo, Brizola passou a comandar a frente democrática para que Goulart, ao retornar ao Brasil, assumisse a presidência.

O falecido ator Leonardo Machado (a quem o filme é dedicado) constrói a presença de Brizola em todos os trejeitos exatos que o PDTista possuía. Desde sua entonação pausada, com palavras pronunciadas em cada silaba, até seu olhar compenetrado, de baixo pra cima, que prenunciava um sorriso aberto, Machado recriou a presença do jovem Brizola de maneira precisa.

Como contra ponto para o foco biográfico da obra, o roteiro de Legalidade insere a presença fictícia da jornalista correspondente do Washington Post, Cecília (Cleo Pires, que, na verdade, interpreta uma agente infiltrada do governo dos EUA) em um triângulo amoroso com os irmãos Luis Carlos (um antropólogo revolucionário vivido por Fernando Alves Pinto) e Tonho (José Ligabue, que interpreta um fotojornalista em um escape para o humor no longa).

Nesta abordagem, o filme perde força por conta da fragilidade deste arco narrativo, bem como o tom um tanto de novela com que o diretor Zeca Brito optou por trazer aquele romance. Assim, It´s Now or Never, na voz de Elvis, e outras músicas incidentais não ajudam muito na dramaticidade do filme, trazendo uma proposta que incomoda por conta dessa opção pelo tom folhetim. Para perceber isso, basta observar como o impacto do diálogo entre Cecília e Luiz em frente a um desfiladeiro com o mar ao fundo gera muito mais apelo dramático com o som ambiente do que com qualquer música a embalar o momento.

Luz pela legalidade: Brizola nos porões da democracia
FUTURO REPETE PASSADO

Ligando os acontecimentos da juventude de Brizola aos seus dias na velhice (com Sapiran Brito no papel), temos a filha de Cecília (vivida por Letícia Sabatella) em busca de respostas acerca da trajetória da mãe, morta em 1968. Em visitas a arquivos públicos durante o ano de 2004, mesmo do falecimento de Brizola, a personagem consegue criar um elo representativo da memória do brasileiro com seu passado, algo que parece não ser muito possível quinze anos depois. Uma metáfora eficiente, mesmo que, em uma dessas visitas, o filme falhe ao mostrar a personagem rabiscando um jornal do acervo.

Apesar de uma construção clichê da relação de Cecília com o governo estadunidense (as cenas em que ela conversa com um agente da CIA entregam essa fragilidade do roteiro), a inserção da personagem na trama denota bem a manipulação do governo de Kennedy e seu interesse em manter a influência dos Estados Unidos entre os líderes da América Latina. A ideia de uma sombra vermelha, propagandeada pelos ianques e abraçada pelos militares daqui como meio de manipular a opinião pública é bem desenhada pelo texto de Leo Garcia e do próprio diretor Zeca Brito.  A comparação citada no começo em relação aos diferentes meios de manipulação de um mesmo rumor para criar uma massa de manobra entre eleitores é algo que se repetiu de forma muito mais sórdida em tempos recentes.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 15/09/2019


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

It - Capítulo 2


A relevância do Terror


Apesar do tom episódico com sequências de terror, 
conclusão de It – A Coisa faz jus à grandeza do clássico de Stephen King

Por João Paulo Barreto

Quando se inicia o capítulo dois e final de It – A Coisa, adaptação da obra literária homônima de Stephen King, uma atmosfera específica inserida pelo cineasta argentino Andy Muschietti desde sua primeira parte, de 2017, surge. Trata-se da eficiente ideia de nostalgia misturada ao terror dos medos infantis. O já comum uso de risadas de crianças para criar essa tensão colabora, claro, mas é por conhecer a proposta de seu autor, tanto o literário King quanto a do roteirista Gary Dauberman (que já havia explorado esses medos no ótimo Annabelle 2), que percebemos o quão aterrorizante  é esse retorno à infância, podendo ser representado apenas por uma saudade, mas que, aqui, se relaciona com um genuíno pavor.
Derry, a cidade imaginada por Stephen King para ilustrar A Coisa e diversos de seus outros livros reaparece em It – Capítulo 2 como um presságio. Inicialmente, como uma lembrança doce. Os sons de um parque de diversões, o cheiro da pipoca, o sorriso das crianças e os casais de mãos dadas nos trazem isso. 

Ao utilizar a nostalgia de um parque que, mesmo funcionando em 2019, remete o espectador (e o leitor) a uma visita em sua infância de muitos anos antes, Muschietti, junto ao seu diretor de fotografia, o peruano Checco Varese, recriam exatamente a palpável tensão marcante de sua fonte original. Mesmo diante do medo, lá estão o ar de cidade de interior, os aromas, as cores douradas a nos levar a períodos equivalentes de encanto.  Mas, conhecendo a literatura de King, percebe-se que o mal está incrustado em tudo, apenas esperando o momento mais oportuno para se manifestar. Logo, essa crueldade se torna um anúncio para a tragédia quando aquele ambiente declina para uma violência homofóbica que serve como prelúdio para o ressurgimento do personagem central e símbolo daquele horror.

Perdedores em suas versões adultas

PERDEDORES DE VOLTA

Nas versões adultas, os losers do primeiro filme seguem em suas vidas. Alguns com sucesso, outros nem tanto. No mais simbólico dos casos, Beverly Marsh (agora vivida por Jessica Chastain), vive em um casamento abusivo e escapa dessa violência a partir do chamado de Mike Hanlon (Isaiah Mustafa), o único dos “perdedores” do grupo a ter ficado em sua cidade natal. Mike, ao perceber o retorno do símbolo daquele horror citado, convoca os amigos a cumprirem o juramento de voltar à Derry para enfrentar o mal representado pelo palhaço Pennywise, interpretado magnificamente por Bill Skarsgård. Assim, lá estão de volta Bill Denbrough (James McAvoy), Richie Tozier (Bill Hader, hilário), Ben Hanscom (Jay Ryan) e Eddie Kaspbrak (James Ransone, em uma impressionante semelhança física com o ator Jack Dylan Grazer, sua versão criança).

Neste reencontro, porém, é onde o filme, com seus quase 170 minutos, demonstra sua falha, algo perceptível principalmente em comparação à sua primeira parte. Com a necessidade de abarcar os dramas de todos os personagens junto ao terror oriundo do contato com Pennywise, o roteiro de It – Capítulo 2 acaba, em alguns momentos, por perder seu ritmo, tornando-se episódico e expositivo na ideia de criar sequências de terror. Assim, cada um dos adultos passa a ter uma experiência singular com a criatura, algo que espelha um trauma vindo da infância. Diante de tantos momentos nos quais o palhaço surge como um elemento fantasioso a explorar o medo de cada um dos perdedores (ou otários, em sua adaptação), o longa perde um pouco do seu impacto como filme de terror, como, por exemplo,  a sequência envolvendo uma estátua gigante de lenhador a ganhar vida.

Porém, é válido salientar que, em algumas dessas sequências, como a que aborda o encontro de Bill e seu irmão caçula junto a um bueiro conhecido ou o momento em que Beverly se vê de volta à casa onde morou com seu pai molestador e alcoólatra, assustam justamente por abordar dramas onde o terror fantasioso de Pennywise se torna uma alegoria para o real trauma psicológico de seus protagonistas, algo muito bem explorado nessa conclusão com outros personagens, também. Dentre eles, Stanley Uris (Andy Bean), que, em breve participação, insere um denso tom dramático em um arco envolvendo suicídio.

Pennywise e sua verdadeira face

REENCONTRO COM PASSADO

Excetuando o caráter episódico existente na ideia abordar diversas passagens de terror em seus muitos personagens, essa conclusão de It figura como um ótimo exemplar do gênero, e isso se deve principalmente à participação de Bill Skarsgård como Pennywise. Aqui, inclusive, é possível um vislumbre do ator sem a pesada maquiagem de palhaço, em uma pertinente homenagem que Muschietti faz ao seu protagonista. E ele consegue transferir em sua versão humana horror tão sufocante quanto o de sua persona circense e doentia.

Demonstrando uma montagem precisa em relação a mesclar flashbacks com a trama que acontece na atualidade, trazer a continuidade da história dos losers ainda adolescentes e criar diversas rimas visuais de suas vidas com suas atormentadas versões adultas, a conclusão da adaptação da obra de Stephen King (que faz uma participação hilária em cena) coloca It – O Filme, considerando ambos como uma obra única, como aquele tipo de transposição para os cinemas a ocupar o mesmo lugar afetivo do seu original literário.

E ver em It e em suas homenagens (as que abordam Carrie e O Iluminado, ambas obras de King, saltam aos olhos) o Terror como gênero alcançar tamanha relevância dentro de uma onda de filmes que se repetem e se banalizam em suas propostas de causar medo, não é algo a se menosprezar.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 06/09/2019






domingo, 1 de setembro de 2019

Yesterday


E se os Beatles...


Em Yesterday, Danny Boyle adapta para o artificial século XXI
a espontaneidade da criação de um fenômeno cultural

Por João Paulo Barreto

Imaginar os Beatles surgindo em pleno século XXI, distante das limitações publicitárias dos anos 1960 em termos de divulgação e alcance, em um modo totalmente distinto do atual no que tange a investir em um lançamento musical, é um exercício curioso de se fazer. Quando os rapazes despontaram para o sucesso, em 1962, com os shows realizados no Jacaranda e no Cavern, pubs britânicos, o alcance que tiveram se restringiu inicialmente à Inglaterra em meio à influência do Mersey Beat, tablóide de Liverpool que divulgava as bandas da cidade, e o boca a boca entre o já fervoroso grupo de fãs que surgia.

Após a ida para Hamburgo, cidade alemã onde tocaram em inferninhos e puderam aprimorar sua experiência em palcos; após o aparecimento de Brian Epstein, empresário local de Liverpool que se propôs a representar aqueles garotos na busca por um contrato de gravadora; e, claro, a entrada em cena do produtor musical George Martin, responsável pela lapidação de suas composições, a ascensão de John, Paul, George e Ringo (no lugar de Pete) à fama com seu primeiro disco, Please Please Me, junto à inevitável ida aos Estados Unidos após o lançamento do single I Wanna Hold Your Hand, resumem bem o início meteórico dos garotos em sua dominação mundial.

EPISÓDIO DE TWILIGHT ZONE

Mas todas essas informações não são novidade se você viveu parte da vida no caldeirão de cultura pop ou se interessa minimamente por boa música. A utilização delas, aqui, serve apenas para uma ilustração desse exercício citado acima. Mas é em Yesterday, divertidíssima comédia romântica dirigida por Danny Boyle (Trainspotting), que imagina um mundo no qual os Beatles e outra série de elementos físicos e culturais do mundo deixam de existir da noite para o dia, que concretizamos tal brincadeira e analisamos essa ideia da grandeza mercadológica da banda, bem como o modo como isso seria explorado atualmente, tempos em que curtidas definem carreiras.

Jack chega à encruzilhada de sua vida

Na figura do único que parece inicialmente lembrar, o talentoso e sem sucesso músico Jack Malik (Himesh Patel) é quem, após um atropelamento, acorda nessa realidade paralela na qual os FabFour não mais existem e somente ele conhece suas canções.  Logo, mesmo ainda confuso, o rapaz passa a cantá-las comercialmente e é abordado por um grande selo para gravação das pérolas.

Neste ponto, a ideia de comparar o modo como os Beatles ascenderam e a preparação minuciosa de um “produto musical”, como define a arrogante e gananciosa empresária Debra Hammer (Kate McKinnon), espécie de Allen Klein, empresário vigarista dos Beatles, ou com um símbolo dessa nova forma de criar tais produtos na presença hilária de Ed Sheeran, dá ao público uma maneira ainda mais recompensadora de absorver Yesterday – O Filme, esse quase episodio de Além da Imaginação.

Diferente de Across the Universe, musical de 2007 que utilizava as canções da banda como meios de diálogo e contar de uma trama (algo que às vezes soava um tanto forçado), Yesterday, apesar de referenciar a trajetória dos quatro Beatles diretamente (o momento em que é emulada uma cena de A Hard Day´s Night, longa de Richard Lester, é de puro encantamento), consegue mesclar uma proposta de ficção romântica sem a necessidade prolixa de recontar ou readaptar a história do fenômeno cultural.

Help! e o seu real pedido de socorro
Assim, é no drama pessoal vivido por Malik, que sente a consciência pesada por, na verdade, se tratar de um plagiador, que está a essência do longa. O momento em que Help! é cantada a plenos pulmões e o pedido de ajuda é escutado por apenas duas pessoas na platéia traz essa profundidade necessária para seu personagem. E conhecendo a circunstância da composição de John Lennon como um real grito de socorro, tal cena ganha ainda maior simbolismo.

Ainda em relação a Lennon, um momento ímpar do filme faz uma alusão direta à luta do músico em manter-se junto à mulher que amava. Um paralelo íntimo, apesar de em menor circunstância, é oportunamente feito pelo roteiro de Richard Curtis, que já havia escrito o tocante Questão de Tempo. Aqui, a questão vinculada ao par romântico de Malik, Ellie (Lily James), a então amiga e empresária dos tempos de insucessos, sugere, a partir de um belo encontro entre Jack e um personagem histórico, essa motivação para conseguir escapar daquela armadilha oportunista que a fama lhe colocou.

Yesterday não é obrigatoriamente um filme que divertirá apenas os fãs dos Beatles. Aqueles que se encantam diariamente com suas canções e sempre se surpreendem com a influência cultural que suas composições, atitudes e ações causaram no século XX. Ele também é sobre a não obrigatoriedade de se considerar uma estrela. É sobre lidar com a fama de maneira a não se tornar escravo dela. Ao final, é sobre a ideia de conseguir enxergar o sucesso também em pequenas ações, de enxergar o amor ao seu redor. É sobre também multiplicar esse amor. Algo que John, Paul, George e Ringo fizeram tão bem.

Em tempo: há um curta metragem mineiro, de 2008, chamado Os Filmes que não Fiz. Dirigido por Gilberto Scarpa, o filme é uma série de episódios abordando roteiros nunca concretizados por Gilberto. Em um deles, Zelvis, um mundo no qual o rei do rock não existe, é ilustrado com o personagem assumindo o manto de Elvis Presley, cujos discos ainda existem. Algumas pessoas cogitaram a ideia de plágio, uma vez que o filme foi exibido na Europa e está disponível on line. Observando uma essência real de fato presente ali, fica a julgamento do público essa questão.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 01/09/2019


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Bacurau


Somos todos Bacurau!


Com faroeste moderno, cineastas Juliano Dornelles e Kleber Mendonça desenham o triste Brasil do apagamento histórico, humano e cultural que segue em curso

Por João Paulo Barreto

Ao chegar à cidade de Bacurau, no interior do Nordeste, e escutar a explicação acerca do fato de que o nome do local é o mesmo de um pássaro da região, a forasteira vivida por Karine Teles replica dizendo que o animal se encontra extinto. A tréplica da dona da mercearia é exata: “Aqui, não. Mas é que ele só sai de noite. Ele é brabo!” Uma brabeza pela sobrevivência tão necessária quanto a que existe na obra Bacurau, resposta fílmica de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles ao ímpeto de extinguir povos e culturas que atualmente segue em voga por pretensas lideranças no poder.

A resistência contra essa tal morte certa que ameaça seus moradores está logo em sua simbólica imagem inicial, quando, na rodovia que leva a Bacurau (“17km. Se for, vá na paz”, adverte a placa), um caminhão pipa destroça caixões vazios que tomam conta da estrada após um acidente envolvendo o carregamento de uma funerária. De cara, o tom de sua obra é dado.

Em uma densa atmosfera de faroeste moderno, Juliano e Kleber desenham a ambientação de seu longa, quando vemos o futuro distópico brasileiro se confirmar no apagamento proposital de quem ainda ousa resistir. E tal resistência é total no que se refere ao domínio tanto físico quanto ideológico do local onde vivem seus habitantes. Essa é a mesma resistência que vira as costas e fecha as portas para político que, em busca de voto, traz livros velhos, comida, remédios de tarja preta, caixão e vela para angariar apoio, mas que, ao partir, leva uma prostituta local consigo. A cidade de Bacurau é a representação da inteligência crítica que precisa existir e resistir.

A despedida que simbolizará a resistência 

A citada resistência dos seus habitantes está não somente nas armas expostas no museu da cidade, em uma precisa metáfora da História e do conhecimento como poder. Ela já surge nos versos repentistas cantados por Carranca (Rodger Rogério). No repente, poderosa manifestação, mais um símbolo do poder cultural como arma contra o apagamento. Em sua letra, o repentista  enquadra os dois forasteiros que chegam ao lugar com ares de superioridade. “Não quero seu dinheiro”, avisa Carranca. Tal sentimento de superioridade e arrogância é o mesmo do qual os dois forasteiros se tornarão vitimas quando se julgarem membros igualitários do grupo de mercenários contratado para aniquilar toda a população local.

É neste momento que, em seu roteiro, Kleber Mendonça e Juliano Dornelles inserem sua principal noção do que é o Brasil e, mais propriamente, o Nordeste para estrangeiros em situação dominante e o modo como alguns ainda insistem em lamber suas botas. “Você parece branca, mas seu nariz e lábios a entregam,” provoca um dos gringos mercenários quando, entre advertências para não falarem “brasileiro” ali naquele ambiente, sela o fatal destino dos dois.

TRISTE FUTURO

A legenda que abre Bacurau indica aquela realidade ser a de um Brasil em futuro não muito distante. Tragicamente, soa muito bem como o nosso atual presente. No caminhão a desbravar aquela estrada precária repleta de caixões como sinais, segue Teresa (Bárbara Colen), que volta a Bacurau para o enterro de sua avó, dona Carmelita (Lia de Itamaracá, símbolo da música brasileira). Seu reencontro com sua terra é feito de olhares de reconhecimento desânimo por cansaço, como bem demonstra a figura de Domingas (Sonia Braga, de maneira precisa). O pai de Teresa explica para a população que sua mãe gerou muitos filhos, pessoas donas das mais variadas profissões e moradoras de muitas partes do mundo. “A única coisa que ela não gerou foi ladrão,” salienta.

A chegada anunciada à Bacurau da paz

Os quadros nas paredes da casa, em uma precisa direção de arte, desenham a rica trajetória de vida daquela anciã. O símbolo de sua partida é o mesmo que simboliza a morte de toda uma cultura. Não é por menos que é a sua imagem, sorridente e plena, a surgir no clímax do filme, quando todo o plano de aniquilação de um povo e de sua História encontra uma resposta à altura oriunda dos habitantes de Bacurau.

Já a pergunta repetida algumas vezes para os dois forasteiros sobre a possibilidade deles terem ido ao lugar para visitar o museu encontra resposta justamente nisso. É naquele museu que se preservam, ao mesmo tempo, a História e a salvação de Bacurau. A mesma cidade que, em sua independência ideológica e social, se tornou uma ameaça para a dominação constante que se avoluma por todos os lados. Na sua História, a experiência que se ensina ao seu atual povo a maneira precisa de se enfrentar o mesmo mal que se apresentou ali por séculos.

Nesse futuro distópico onde mortes também são oferecidas como opção para fuga, como bem mostra a notícia vista em uma televisão ligada, encontrar a força da resistência sanguinolenta em um símbolo histórico como um museu é por demais recompensador.

A História nos ensina muito. Porém, olhar ao nosso entorno e percebê-la como algo que parece inútil para 57 milhões de eleitores é por demais desanimador.

Mas, sigamos. Continuaremos a ser Bacurau.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 29/08/2019




domingo, 25 de agosto de 2019

Vermelho Sol


A indiferença diante do caos 


Vermelho Sol denuncia uma sociedade inerte e mesquinha perante 
terror ditatorial militar na Argentina dos anos 1970

Por João Paulo Barreto

Na imagem de uma casa tendo seus objetos de decoração, moveis e eletrodomésticos surrupiados por diversas pessoas em um silêncio sepulcral, é feito um desenho preciso da Argentina durante a segunda metade da década de 1970, período quando o golpe militar perpetrado pelo general Jorge Rafael Videla aconteceu. Naquele momento, o número de famílias que abandonavam suas casas devido a perseguições sofridas, bem como o número de desaparecidos e sequestrados crescia gradualmente.

É neste âmbito que, em Vermelho Sol, o diretor e roteirista Benjamin Naishtat constrói uma atmosfera de situações que parecem não se conectar. Tal aparente desconexão, na verdade, emula justamente a sensação de um país entregue a uma realidade mórbida, na qual o absurdo passa a ser encarado como algo comum. Assim, Vermelho, em seu singular título original, reflete tentativas de viver uma realidade baseada em indiferentes rotinas que não mais se sustentam, mas que se levam à frente por uma hipocrisia maquiada como insistência, com oportunismos desonestos e com uma maneira de  seguir seus dias olhando para o outro lado, para o próprio umbigo, se autodeclarando isento, ao invés de encarar o que se descortina no seu próprio entorno de terror e angústia diante da ausência daqueles que foram vitimados.

Soberba sequência de abertura com diálogo afiado e denunciador 

REALIDADE PLÁSTICA

É neste mundinho que vive o bem sucedido advogado Claudio (Darío Grandinetti, de Julieta e Fale com Ela). Após o público conhecê-lo durante uma impressionante sequência de abertura quando, diante de uma discussão em um restaurante, o homem enquadra um jovem que o tratara com arrogância, a impressão que se tem é a de alguém centrado e consciente do seu entorno. Porém, após um novo embate no estacionamento do lugar, situação com consequências trágicas e imediatas, o espectador percebe a real natureza de Claudio, quando este prefere omitir um socorro diante de uma fatalidade, mascarando o que aconteceu com uma furtiva ida ao deserto.

Na atitude do advogado, que logo lhe trará sérias consequências, o modo como os desaparecimentos de pessoas na Argentina do período passou a ser algo banalizado pela sua classe dominante, sendo essa justamente a crítica inserida no roteiro de Naishtat. Assim, em histórias secundárias que parecem não se conectar, como o arco envolvendo o interesse amoroso da filha do advogado, as performances dançantes da moça em uma pertinente alusão à violência masculina ou um crime passional cometido pelo seu namorado, Vermelho encontra sua principal reflexão na análise daquela realidade compostas por pessoas inertes diante do cerceamento de liberdades com consequentes fugas e o sequestro de indivíduos como fio condutor.

Utilizando a cor vermelha como uma clara alusão à paranóia manipuladora utilizada pelas ditaduras para alcançar apoio em sua escalada ao poder, Naishtat e o diretor de fotografia Pedro Sotero (conhecido pelos trabalhos com Kleber Mendonça Filho) inserem, inicialmente, uma paleta de cores em tons pastéis, algo que desenha de modo claro a monotonia disfarçada e a indiferença daqueles personagens. Assim, o choque ao vermos o rojo (vermelho) de seu título original dominar a tela de uma só vez quando da ocasião de um eclipse solar, a mensagem do choque necessário para fazer aquelas pessoas conscientes de seu entorno é pungente. Tão pungente e vermelho é o sangue nas mãos daqueles que seguem em suas vidas de não questionamento, de autodeclaradas omissões oportunistas diante de um futuro sombrio que se descortina.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 25/08/2019



sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Era uma vez... em Hollywood


Cinéfila e Histórica reimaginação


Com Era uma vez... em Hollywood, 
Tarantino faz justiça poética em tributo a Sharon Tate e ao cinema

Por João Paulo Barreto

Em determinada passagem de Easy Riders, Raging Bulls, definitivo relato da Hollywood no período que se estende entre 1969 e 1980, o autor Peter Biskind aborda o final dos anos 1960, após o assassinato de Sharon Tate, grávida de oito meses, e de mais três de seus amigos, em uma casa em Beverly Hills, em agosto de 1969. Seu resumo, apesar de macabro, define bem a atmosfera de realidade amarga deixada pela Família Mason e seus crimes. Lá, Biskind escreveu: “Havia uma sensação de final, de que uma Era estava terminada. De que as pessoas haviam se dado bem por um tempo e que, para quem tinha inclinações apocalípticas, o Anjo da Morte não tardaria a colocar tudo em seus devidos lugares”.

Apesar do peso profundo em sua base histórica, sabendo que os crimes cometidos pela gangue de Mason são o pano de fundo de Era uma vez... em Hollywood, o diretor e roteirista  Quentin Tarantino não deixou que tal atmosfera perpetrasse seu novo trabalho de maneira a torná-lo fúnebre ou desrespeitoso com a memória das vitimas. Pelo contrário. Ao final, a beleza triste e pesarosa deste seu nono longa é o que faz o seu público respirar profundamente após a catártica vingança que ele insere em sua reimaginação da História.

Não é novidade o fato de que a cinefilia de Tarantino é o que o estimula na criação de seus roteiros. Seja na oportunidade de escalar heróis de sua juventude como Pam Grier, Sonny Chiba e David Carradine, ou, ainda, na ousadia precisa de reescrever a história de maneira mais justa e catártica como fez em Bastardos Inglórios e em Django Livre. Dessa vez, porém, o destaque que essa cinefilia possui na criação de seu novo roteiro torna a imersão, aqui, um exercício de conhecimento do cinema e da cultura pop como um todo nos anos 1950 até a década de 1960, que terminara como o agourento período citado por Biskind em seu documental livro.

Dalton e Booth conferem os populares seriados de TV

Porém, mesmo com esse peso histórico e brutal em suas linhas, Tarantino conseguiu dar ao seu público uma maneira recompensadora e mais justa de revisitar aqueles fatos. E é de modo não somente mais justo, mas tocante e emotivo que, a partir da tragicidade na vida da atriz Sharon Tate, que o diretor de Pulp Fiction volta a reescrever fatos reais neste novo trabalho. E, tendo a cinefilia e a cultura pop como norte, é neste caminho que a sua visita à cidade do cinema estadunidense em 1969 é construída.


CINEMA DENTRO DO CINENA

O foco dessa recriação está na trajetória de Rick Dalton (DiCaprio), ator de uma série televisiva de faroeste que tenta adentrar em Hollywood como astro de cinema. Inseguro em relação ao seu próprio talento, Rick tem nas sequências onde o vemos atuar uma gradativa evolução dessa autoestima e confiança.

Em seu roteiro, Tarantino insere as participações de Rick em vários trabalhos de atuação de modo paralelo às suas constantes lutas intimas contra a insegurança e ansiedade. Além disso, na figura de seu amigo, assistente e dublê de cenas, Cliff Booth (Pitt), uma sólida presença no sentido de lhe fazer sentir-se mais seguro de sua capacidade como ator. “Você é o grande Rick Dalton! Não se esqueça disso,” afirma Booth.

No entanto, para o espectador, perceber o personagem chorando após um diálogo com uma atriz mirim durante um intervalo de gravação, ou voltar a se emocionar ao ser elogiado por entregar “a melhor atuação que ela já presenciou na vida” (uma atriz de oito anos, friso), a ideia de quão patética e de fácil influência é sua condição se torna óbvia e hilária, impressão propositalmente inserida por Tarantino. E ao brincar com tais frustrações, como quando vemos os papeis perdidos por Dalton, como o de Hilts, pilar de Steve McQueen em Fugindo do Inferno, o cineasta confirma essa frágil autoestima de seu protagonista. Mas vê-lo ressurgir para o sucesso comercial a partir de renegados faroestes italianos que consagraram nomes como o de Clint Eastwood é de uma sutil ironia que o roteirista não deixa passar.

Rick Dalton (DiCaprio) vive vilão em mais um faroeste da TV

Aliás, a parceria entre Booth e Rick ilustra, a partir da lente de Tarantino, uma precisa reconstrução daqueles dias no final dos anos 1960. São diversas as maneiras em que aquela recriação é feita, e percebê-las se torna um atrativo à parte para quem investe nas quase três horas de projeção. Desde as várias marcas de produtos enlatados a lotar os armários da cozinha de Booth aos momentos nos quais ambos se vêem diante da TV assistindo seriados como FBI, até às placas publicitárias nas ruas por onde Booth dirige após deixar seu amigo e chefe em casa. Todos os elementos em cena desenham de maneira exata o período.

Este último exemplo, inclusive, serve de apoio para uma percepção do modo de direção que Tarantino trouxe aqui. A calma como ele constrói sua narrativa, ao exibir longas sequências nas quais apenas vemos personagens dirigindo do ponto A ao B, entrega exatamente essa ideia de construção parcimoniosa diante da catarse explosiva de seu final, uma vez que é justamente em um desses trajetos que Booth encontra uma das integrantes da Família Mason, momento em que Tarantino brinca com a expectativa do espectador na preparação do terreno para seu sanguinolento desfecho.

Booth confere os integrantes da Família Mason

HOMENAGEM A TATE

Dentro do citado aspecto emocional que o filme traz a personagem de Sharon Tate,
é precisa a opção de Tarantino em homenagear a atriz assassinada pelo grupo liderado por Charles Manson em 1969. Grávida de seu marido, o diretor Roman Polanski, Tate tinha apenas 26 anos quando foi esfaqueada e morta na invasão de sua casa pelos seguidores de Mason. Tarantino cria um emotivo tributo à jovem em alguns belos momentos, como quando, ao inseri-la visitando o cinema local para ver uma sessão de Arma Secreta contra Matt Helm, filme estrelado por Dean Martin que contava com a presença de Sharon Tate, destaca o encantamento da jovem, vivida aqui por Margot Robbie, por aquele universo glamouroso que se tornara fatal para ela.

Margot Robbie e a exuberância de sua Sharon Tate

Naquela imaginada visita ao cinema, as palmas que ela escuta durante as suas breves cenas de luta (coreografadas por Bruce Lee) ou os risos diante de sua atrapalhada personagem nas interações com Martin, dão àquela Tate ficcional uma tenra maneira de saudar a alegria real que a jovem teve ao fazer parte daquele ambiente.

Na gráfica e brutalmente chocante sequência que Tarantino cria como vingança contra os assassinos da atriz, uma espécie de catarse, de entranha sensação de regozijo ao ver o que lhes acontece surge. É a mesma sensação que temos como quando Hitler foi fuzilado em Bastardos Inglórios. Uma maneira de criar uma realidade alternativa que possa nos colocar em pausa, de algum modo distantes dos fatos covardes que aconteceram, nem que seja por breves momentos dentro da sala de cinema. O abraço de Sharon em Rick concede um pouco desse conforto. Ao menos aqui, o tal Anjo da Morte chamado Mason se reduziu à sua insignificância devida.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 16/08/2019