Desbravando a Imaginação Infantil
Ao dar vida aos bonequinhos que ilustraram brincadeiras de várias gerações, Playmobil – O Filme diverte com bom
timing cômico e reverência aos musicais Disney
Por João Paulo Barreto
Desde que o primeiro filme para cinema tendo os brinquedos Lego
como tema surgiu em 2014 (para TV, as produções são anteriores), foi
perceptível o filão que a Warner Bros. tinha em mãos. Ao utilizar uma marca de
bonequinhos de montar conhecida mundialmente, metade do caminho em relação a
apresentar uma nova franquia de sucesso para crianças e adolescentes (adultos,
também, convenhamos) do século XXI, abastecidas desde sempre com tais
brinquedos, já estava andado. Faltava apenas conceder personalidades cômicas
aos seus personagens, utilizar vozes hilárias, uma história que explorasse seus
diversos mundos e pronto. Lá estava um sucesso que gerou grana, continuações e
outros filmes temáticos a explorar seus personagens (como o próprio Batman,
cuja licença já é da Warner).
Assim, não tardaria muito para que outro brinquedo clássico
que estimula imaginações de crianças há décadas seguisse ideia semelhante e
chegasse às telas de cinema com uma história que visita seus diversos mundos,
traz várias referências à cinefilia e à cultura pop como um todo e, reconheço,
se sai bem na função de divertir adultos e, possivelmente, crianças. A criança
que ainda mora em mim (piegas, eu sei) se divertiu, ao menos. Playmobil – O Filme segue exatamente
essa cartilha de preencher 100 minutos com as várias possibilidades de
imaginação que muitos pequeninos tiveram ao crescer em contato com os pouco
articulados bonequinhos e seus vários cenários criados para catapultar vendas.
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Personagens em busca |
O diretor estadunidense, Lino DiSalvo, experiente animador
oriundo do Walt Disney Studios, em entrevista para A Tarde, afirma que, ter um tema que reside
na imaginação de diversas crianças e adultos há tanto tempo, foi algo que o
desafiou na possibilidade de dar vida a um brinquedo notório por uma expressão
única e uma limitação em seus movimentos. No entanto, encontrou um bom
artifício.
“Playmobil é um tipo de brinquedo que você tem originalmente
na vida real. Conhecemos sua expressão única. Por isso, foi uma decisão
na animação fazer os olhos dos Playmobils de uma maneira mais expressiva.
Assim, eu poderia conseguir "atuações" maiores e expressar emoções de
maneira mais ampla. No filme, muitas das expressões que você vê foram criadas
em desenhos à mão. A minha parte preferida da animação é a atuação”, explica
DiSalvo.
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Diretor Lino DiSalvo |
DIVERSOS MUNDOS
Com esse detalhe das expressões dos bonequinhos resolvido,
mas ainda mantendo a marca das carinhas sorridentes como algo contínuo, caberia
ao diretor e seus roteiristas utilizarem a proposta de visitar os muitos mundos
que os cenários de Playmobil oferecem para criar uma narrativa fluída e que se
aproveitasse bem dessa já estabelecida premissa de vários ambientes.
Na história, Charlie e Marla, dois órfãos vividos por
Gabriel Bateman e Anya Taylor-Joy (que precisa criar o irmão caçula rebelde)
são transportados para o mundo dos Playmobils, onde encontram diversos
personagens, em especial um grupo de selvagens que acaba sequestrando Gabriel
(agora transformado em um Viking). Na busca pelo irmão, os tais mundos são
visitados por Marla, o que acaba servindo para DiSalvo inserir vários temas, o
que vai desde as batalhas campais que remetem a Coração Valente a lutas em arenas lembrando obras como Gladiador.
Entre todos estes, porém, o que mais diverte é um breve
mundo do velho oeste onde inicialmente vai parar Marla. Com inserções a
referenciar o faroeste espaguete de Sergio Leone (lembrando das raízes
italianas de Lino DiSalvo), essa passagem tem nos close-ups clássicos e em sua
reverencial trilha uma momento de regozijo para os adultos fãs do Western na
sessão a acompanhar os filhos.
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Homage a Sergio Leone |
MÚSICAS E ATORES REAIS
Lino DiSalvo traz para seu primeiro longa metragem como
diretor uma vasta experiência na animação. Porém, para ele, a direção de atores
de verdade, em cenas que não fossem animadas (popularmente conhecidas como live-action), foi uma experiência que
lhe deu um pouco de medo.
“Para mim, dirigir pessoas de verdade, sendo que eu venho de
uma carreira ligada unicamente à animação, foi algo muito assustador (risos).
Quando você desenha algo e faz a animação, você tem o controle sobre aquelas
expressões. Você pode, por exemplo, apagar uma sobrancelha e a ajustar melhor.
Mas, claro, quando há uma pessoa atuando e você dirige, quem detém esse poder é
ela,“ explica o diretor entre sorrisos. O diretor resume sua atividade como
diretor de atores reais: “Meu trabalho no set era que, emocionalmente os atores
estivessem no lugar preciso ,” explica DiSalvo.
Playmobil utiliza,
ainda, uma ferramenta narrativa em seu desenvolvimento que remete aos clássicos
Disney (mesmo que tenha sido deixada acertadamente de lado em filmes como os da
Pixar e Dreamworks). Trata-se dos números musicais no desenvolvimento de seus
personagens. Um tanto cansativo em alguns momentos, mesmo tendo essa ideia de
homenagem pregada pelo cineasta.
“Eu
amo a ideia vinda do cinema clássico em que um personagem consegue se expressar
através de uma música. Eu me lembro de, quando criança, ver estas animações
musicadas e cada parte delas era algo muito especial. Honrar esse tipo de cinema
representa muito para mim”, finaliza Lino.
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