Eastwood demonstra sua maturidade como mestre
Aos 88 anos, veterano cineasta traz vigor para A Mula,
no qual atua e dirige
Por João Paulo Barreto
O estilo de direção que Clint
Eastwood traz para seus filmes é notório. Mesmo, claro, tendo conseguido
alcançar marcos dramáticos como em Menina
de Ouro, de romantismo com As Pontes
de Madison e de delicadeza tenra com Um
Mundo Perfeito, sua trajetória como cineasta é refletida por muito do que
vemos de áspero nas histórias que ele dirige. Neste modo de fazer cinema,
famoso por trazer o hábito de não iniciar uma tomada com vozes altas proferindo
“ação!” ou finalizá-la com “corta!” (costume que trouxe dos faroestes, quando
tais gritos podiam assustar os cavalos), o veterano ator e diretor consegue
construir em A Mula uma trama direta,
sem floreios, e que, por isso, chama atenção pela honestidade com que o trabalho
é apresentado ao espectador.
Voltando a atuar sob a própria
batuta após um hiato de dez anos, Clint dá vida a Earl Stone, um bem sucedido e
simpático floricultor com um carisma que mantém todos ao seu redor, mas cujas
brincadeiras e sorrisos constantes escondem um pai ausente e um marido cuja negligência
arruinara seu casamento. Corta para uma década depois e seus negócios com
flores vêm a falir, sua filha o ignora e sua ex-mulher joga em sua cara todos
os erros que ele cometeu na vida a dois. Apenas sua neta mantém-se próxima a
ele. Quebrado emocional e financeiramente, acaba por aceitar a proposta de
servir como transportador de drogas (a mula do título) para o cartel mexicano.
A história é direta e nos coloca em um movimento fluído que remete ao mesmo
modo errático com que Earl conduz aqueles últimos momentos de sua vida. E é no
equilíbrio entre a aspereza citada e a delicadeza de um homem diante de um
reencontro tardio com sua família que reside a beleza do longa.
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Earl e seu momento de encontro com o fim da jornada |
ADAPTAÇÃO E MOVIMENTO
Neste processo, o filme rege
outro encontro: o da geração de Earl com os tempos atuais. E isso de modo a
fazer o público refletir acerca das razões pelas quais aquele homem optou pelo
o que fez. Earl passa por diversos momentos nos quais sua vida é colocada à
prova no quesito experimentações. O sucesso financeiro que reflete na compra de
uma caminhonete de luxo; a opção de ajudar o dono de um restaurante em
decadência; o contato com garotas de programa; a possibilidade de poder ajudar
a neta em seus estudos. Todos estes pontos levam o homem a perceber-se diante
de uma encruzilhada, algo que o faz transformar em rotina um trabalho que seria
apenas uma ocasião única, tudo por conta da percepção de que, agora, aquilo é o
que o move. E nada mais apropriado do que usar como metáfora a premissa do
movimento constante à frente em sua pick up recheada de drogas até o momento em
que a estrada não permite mais que ele siga adiante.
O roteiro de Sam Dolnick,
inspirado em um artigo publicado no NY Times acerca de um idoso real que, aos
90 anos, se tornara uma mula do cartel mexicano, constrói de modo pertinente o
choque entre os Estados Unidos da geração de Earl e os tempos atuais. Aqui, o
idoso se surpreende ao ver os mais jovens sempre com os olhos voltados para
telas de celular. Em outro momento, age com naturalidade e sem qualquer malicia
ao tratar um casal afro-americano por um termo pejorativo, do mesmo modo que
brinca com o fato de que dois mexicanos causam estranheza aos clientes
caucasianos de um restaurante no Texas. Sendo Clint um notório republicano, não
deixa de ser curioso observar um filme dirigido por ele desenhar um retrato tão
preciso da preconceituosa América de Trump, como quando a tal cena do
restaurante acontece ou quando um policial para os dois mexicanos apenas por
conta da etnia dos homens.
O reencontro de Earl com seus equívocos
do passado acontece justamente no momento em que ele passa a cometer o maior
erro de todos. Mas, ao perceber-se em débito com sua família, negligenciada por
anos a fio, Earl toma uma decisão arriscada que lhe acarretará consequências graves,
mas que lhe permitirá olhar para trás sem arrependimentos. Na justificativa do
homem ao explicar seus ferimentos (“Eu
tive o que merecia”), a precisa
noção de que o fim da linha chegara lhe é apresentada. Em seu final, A Mula desenha um floricultor cuja
trajetória ascende de forma surpreendentemente perigosa, mas que retorna ao seu
ponto de partida original, dedicando-se àquilo no qual realmente percebe-se
seguro e sereno.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 21/02/2019
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