Amargo Amadurecer
Com tocante abordagem, diretor de Thor: Ragnarok constrói em Jojo
Rabbit um brilhante estudo da perversa influência nazista em mentes
facilmente manipuláveis
Por João Paulo Barreto
Em um equilíbrio preciso entre comédia satírica, drama e
reflexão social, o roteirista (indicado ao Oscar por esse trabalho) e diretor
Taika Waititi coloca sua adaptação do livro de Christine Leunens, Caging Skies (ainda sem tradução no
Brasil), como um pontual alerta para a (des)construção manipuladora de caráter e
a alienação de mentes em formação através da propaganda ideológica fascista visando
a construção de um pretenso herói.
Tal “herói” é o ídolo do pequeno Johannes Betzler, o Jojo Rabbit do título. Na imaginação
fértil do pequeno Jojo (o estreante Roman Griffin Davis), o dito herói se torna
seu melhor amigo, alguém que reflete seus medos e conforta suas inseguranças. Na
imagem do garoto que levanta todos os dias diante de um pôster de Adolf Hitler
na parede, quem surge como esse amigo imaginário é o próprio tirano nazista, a
quem Jojo chama pelo primeiro nome, Adolf. Nesse olhar infantil perante o chefe
do terceiro reich, um reflexo exato da maneira como muitos supostos ídolos são
enxergados por aqueles que lhes seguem cegamente. E o que o filme de Waititi
faz de maneira notável com esse uso do olhar infantil em tal construção da
figura de um pretenso ídolo é refletir neste mesmo olhar toda a manipulação
ideológica de um povo.
![]() |
Sam Rockwell, Scarlett Johansson e Roman Griffin Davis: perdidos na Alemanha nazista |
DILEMA
Jojo Rabbit inicia
com imagens da euforia do povo alemão nos anos 1930 diante da figura de Hitler.
Ao irônico som de Komm Gib Mir Deine
Hand, versão alemã que os Beatles gravaram para seu hit I Wanna Hold Your Hand, uma amostra de
como tal propaganda política criava essa tal euforia diante um patriotismo nocivo
e um ufanismo manipulador. A mídia constrói ídolos para o bem e para o mal, é o
que se conclui ao escutar a canção da banda inglesa enquanto o pequeno Jojo, na
corrida pelas ruas da pequena cidade alemã, se convence de seu potencial a
caminho do acampamento para jovens nazistas.
Aqui,há um claro dilema que o filme oferece à sua audiência.
Tal dilema, inicialmente contraditório, logo se esvai diante da compreensão que
temos da mensagem que o cineasta e ator Taika Waititi almeja trazer. É
possível, uma obra de cinema, cujo alcance é tão massivo e popular, suavizar a
imagem de um genocida como Adolf Hitler? (E observar o próprio diretor assumir
o personagem denota bem sua coragem de encarar a discussão plantada).
![]() |
O diretor Taika Waititi encarna o amigo imaginário de Jojo na figura de Hitler |
Convém analisar, nesse processo, que aquela figura é fruto
da imaginação de uma criança dentro da sua já manipulada mente. Alguém cujos
ídolos lhe foram plantados por uma maquina ideológica e midiática. E isso em um
período no qual o alcance de tal máquina se restringia a poucas vias de divulgação,
mas cuja força era tão impressionantemente massiva quanto a das fake news digitais dos anos 2010,
capazes de vencer eleições e arrasar vidas. Assim, tal “suavização”
restringe-se à mente de uma criança que, aos poucos, começa a perceber que as
ideias oriundas de tal influência não condizem com a sua real natureza humana.
Tal reflexão acerca do modo como um garoto imagina Hitler,
inclusive, nos permite um vislumbre de como adultos, em suas mentes não tão
ingênuas, mas, ainda assim, tão ignorantes quanto, enxergam aquele e,
atualmente, outros ditadores.
RIMAS DOLOROSAS
Na figura da mãe de Jojo, Scarlett Johansson (indicada ao
Oscar pelo papel) interpreta Rosie, uma rebelde contra a guerra que se disfarça
de simples dona de casa cujo marido luta no front italiano. Os conflitos entre
ela e seu filho, cuja doutrinação nazista escapou de seu controle (“Ele demorou
três semanas para superar o fato do avô não ser loiro”, afirma ela em ótimo
timing cômico) demonstram o poder de uma propaganda que supera até mesmo a
influência familiar. No entanto, em um regime assassino, que elimina qualquer
voz dissonante, resta a ela, em um ato de proteção, apenas aceitar o
comportamento do filho e torcer para que a maturidade o encontre.
![]() |
A dolorosa pista dos sapatos de Rosie a surgir como uma dilacerante recompensa |
A relação entre ambos, entretanto, é um dos pontos altos da
obra, como o diretor Waititi desenhando belas rimas visuais, como, por exemplo,
os pijamas idênticos, algo que reflete, ainda, um pouco da ligação tenra entre
os dois, sentimento que resiste ao ódio plantado pela influência nazista. Ainda
nesse aspecto das rimas, há, claro, os sapatos de Rosie. Constantemente
destacados em alguns momentos do filme, tais enquadramentos servem como uma
pista cuja recompensa ao final servirá para um doloroso ponto de fissura na tal
maturidade amarga e forçada para a vida do pequeno Jojo.
“Não é um bom momento para ser um nazista”, afirma o carente
melhor amigo de Jojo, o fofucho Yorki. Essa frase, mesmo que proferida por um
personagem tão adorável, é um pontuar do roteiro de Waititi para uma,
infelizmente, ainda necessária afirmação. É preciso não esquecer jamais o que
foi o movimento nazista alemão durante a Segunda Guerra, pois, só assim, ele
não poderá se repetir. Mesmo que nazistas e pretensos “secretários da Cultura”
utilizem discursos parafraseados da propaganda fascista alemã como meio de divulgação
de sua deturpada ideologia.
Citando o cineasta mineiro Affonso Uchoa no caso acima: “Quem
nasceu para camundongo, nunca chega a ratazana”. A ratazana manipuladora e de
ideais fascistas ainda governará por mais três anos, infelizmente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário