42ª MOSTRA SP – Sem pieguice ou maniqueísmo, Limonada traz um potente retrato
da
condição do imigrante nos EUA de Trump
João Paulo Barreto
Um dos grandes filmes da Mostra, distante de todo hype que
as obras vencedoras em grandes festivais trazem, o romeno Limonada é daqueles pequenos diamantes a serem garimpados entre as
badaladas sessões, mas que, uma vez descoberto, seu brilho tarda a abandonar o
espectador.
Exato ao abordar a condição do imigrante em terras ianques
durante o governo Trump, o filme cria um ritmo fascinante de tensão e afeto do
espectador pela condição de sua protagonista, a romena Mara (vivida com uma
mescla de aspereza e doçura por Mãlina Manovici). Mara casou-se com um
americano e, agora, aguarda pela resolução do seu Green Card. No entanto, ao
ser assediada e abusada sexualmente por um agente do setor de imigração, sua
apreensão aumenta por conta da chantagem
que passa a sofrer.
Com um ritmo preciso em diálogos cuja exatidão hipnotiza o
espectador diante daquele drama, a diretora e co-roteirista Ioana Uricaru
cativa pela simplicidade e pela força do seu texto. O embate entre a
protagonista e o predador sexual dentro de um carro é sublime, criando no
público um fascínio por aquele drama, mas que não deixa de causar asco diante da
postura doentia e miserável do perpetrador.
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Mara e Drago: insegurança em uma constante busca por uma vida melhor |
REFLEXOS DA ERA TRUMP
Sem saídas convenientes para as resoluções do drama pessoal
de Mara, Limonada, em seu título a
fazer uma referência a um dos símbolos culturais do bem-estar estadunidense,
mas que também esbarrando na acidez e amargor que ela atravessa, torna-se um
brilhante relato da experiência do estrangeiro na terra do tio Sam, que, mesmo
seguindo trâmites legais, é humilhado e menosprezado.
“Mesmo quem odeia
esse país quer morar aqui”, explica um personagem. É justamente disso que Limonada trata. Uma condição doentia
imposta por uma nação cujo chefe de estado é declaradamente xenofóbico e
racista, e que seu modo de agir influencia negativamente diversas partes dessa
pirâmide social. Observe, por exemplo, o personagem de Moji, o assediador que
trabalha no departamento de imigração. Seu nome entrega uma origem estrangeira,
sua história de vida entrega uma origem pobre. No entanto, o poder concedido
por sua ascensão social denota sua verdadeira natureza.
Potente em sua mensagem de luta da sua protagonista feminina
ao não colocá-la em momento algum como alguém que se vitimiza, mas que prefere
lutar contra aqueles abusos, Limonada se
torna um símbolo não somente de uma batalha feminina contra a submissão, mas a
de pessoas em busca de dignidade.
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