Cinema fantástico presente!
Abrangendo o cinema de gênero e o fantástico,
Mostra CINE HORROR chega à sua quarta
edição na tradicional Sala Walter
Por João Paulo Barreto
Fãs do cinema de gênero de horror, sejam os clássicos ou contemporâneos,
das obras de ficção científica e dos filmes que se aventuram pelo desafiar do
espectador dentro de um conceito fantástico no contar de histórias, têm, a
partir de hoje, na Sala Walter da Silveira, um leque variado de opções para alimentar
essa cinefília. E o melhor: com entrada franca! A quarta edição da Mostra de
Cinema CINE HORROR apresentará para o público frequentador da tradicional sala
localizada no complexo cultural dos Barris, no Centro de Salvador, mais de 70
filmes, entre longas e curtas metragens, além de debates com pesquisadores e
realizadores do cinema de gênero.
A Mostra CINE HORROR acontece essa semana, entre os dias 17
e 20 (de hoje a domingo), e volta na próxima, nas datas de 25, 26 e 27 de
outubro (sexta, sábado e domingo). As sessões acontecem sempre a partir das
14h, e a programação completa pode ser conferida no site www.cinehorror.com.br
e nas redes sociais da Mostra. Na abertura, amanhã, o evento contará com a
apresentação da Camerata Opus Lúmen, parte integrante da OSBA (Orquestra
Sinfônica da Bahia).
![]() |
Cena de Dona Oldina vai às Compras, de Felipe Guerra |
O idealizador da Mostra de Cinema CINE HORROR, o professor e
artista gráfico, Valmar Oliveira, comenta as dificuldades e a perseverança de, no
quarto ano do evento, conseguir realizá-lo sem qualquer suporte financeiro oficial.
“Aos poucos, vamos nos firmando no calendário, não só baiano, mas nacional,
chamando atenção de produtores e diretores estrangeiros. É uma luta diária para
que o evento aconteça, sempre procurando apoios, parcerias, já que a Mostra é
completamente independente”, pontua Valmar, que também realiza sessões mensais
na mesma Sala Walter.
DESTAQUES BAIANOS
Dentre os filmes selecionados, várias produções baianas
mostram que o estado é um dos representantes de maior impacto na filmografia de
horror fantástico e suspense no Brasil. Filmes como Onze Minutos, de Hilda Lopes Ponte; Necropolis,de Ítalo da Silva Oliveira; Tropykaos, de Daniel Lisboa ; Baby
Trap e M for Mess, ambos de
Carlos Faria; A Face do Sonho, de
Alana Pinheiro e O Sorriso de Felícia, de
Klaus Hastenheiter, desenham um bom panorama do estilo fantástico de cinema que é feito na Bahia.
Para além da catarse que o cinema de gênero concede aos seus
admiradores, o CINE HORROR visa um diálogo dentro dessa linguagem repleta de
metáforas. Uma das curadoras do evento, a professora Ana Lima, salienta que “o
cinema de gênero conduz o público por caminhos logicamente irretocáveis, que
oferecem novas perspectivas, como lentes que vestimos sobre os olhos por um
momento, e que, com frequência, deixam resíduos sobre a retina que ali
permanece mesmo depois de removidas as lentes”. Além disso, Ana Lima destaca a
importância desse tipo de obra como enriquecedor da cultura do cinema.
“Incorporar o cinema de gênero como uma experiência de metáforas, como forma de
viver novos modelos de descrição, diferentes formas de ver o mundo, produz
grandes benefícios à cultura cinematográfica em geral”, finaliza.
![]() |
Cena Você, Morto, de Raphel Araújo |
CLÁSSICOS E ATUAIS ESTRANGEIROS
Em memória do escritor estadunidense Edgard Allan Poe, morto
há 170 anos, e a publicação de “A Queda da Casa de Usher”, uma de suas
obras-primas, o CINE HORROR apresentará O
Solar Maldito, adaptação dirigida pelo lendário Roger Corman em 1960, e
protagonizada por Vincent Price. Outro escritor homenageado é HP Lovecraft, que
publicou há cem anos seu clássico conto Dagon.
A mostra trará a adaptação espanhola homônima, levada aos cinemas em 2001.
Ambos serão exibidos no dia 20 de outubro.
A curadoria do CINE HORROR, além de mapear o cenário local e
brasileiro do gênero, também focou em obras de diversos outros países como
Espanha, Portugal, Israel, Noruega, Irlanda e França. Uma prova de que, mesmo
distante de uma divulgação popular massiva do cinema comercial (ou mainstream, comumente chamado), o gênero
caminha forte em várias partes do planeta e a Mostra baiana está ciente disso. Saul
Mendes Filho, um dos curadores, confirma isso. “A
consolidação do CINE HORROR se dá por abraçar essa proposta intermediária, esse
espaço de interseção onde perambulam os filmes que não se enquadram no circuito
mainstream, apesar de ser substancialmente entretenimento, e que não se
enquadram exatamente no cinema de arte, apesar de carregar muitas vezes uma
personalidade autoral ou uma estética diferenciada”, afirma Saul.
![]() |
Parte da equipe do Cine Horror na Sala Walter. |
Sala Walter. Ocupar é preciso!
Negligenciada pelo governo do estado, a Sala Walter da
Silveira, bem como a Sala Alexandre Robatto, ambas localizadas no complexo
cultural dos Barris, no subsolo da Biblioteca Central, possuem na Mostra de
Cinema CINE HORROR um dos bastiões na sobrevivência de um espaço crucial para a
cultura cinematográfica em Salvador. É lá que acontecem diversos eventos como
este, como a Mostra Lugar de Mulher é no Cinema, o Panorama Internacional Coisa
de Cinema e a Mostra de Cinemas Negros – Mohamed Bamba. Além disso, uma constante
programação de clássicos semanais é exibida.
Local de confluência e de encontros, a Sala Walter passa por
dificuldades há anos, como poltronas quebradas, manutenção de banheiros,
problemas no ar condicionado e qualidade de projetores. Ao menos agora,
coincidindo com o começo da Mostra de Cinema CINE HORROR, a Walter teve uma
melhoria nestes dois últimos itens, com a reinstalação do ar condicionado
central e a compra de um novo projetor. Rafael Saraiva, um dos curadores da
Mostra, comenta a importância do lugar para o projeto, mas lamenta esse
descaso.
“A Sala Walter da Silveira
acolheu o Cine Horror de forma bem aberta desde 2017, tanto para o evento anual
quanto para as sessões mensais. Infelizmente, ao longo desse tempo, também
fomos acompanhando o sucateamento do espaço, o que se reflete obviamente no
público que frequenta o local (não apenas nas sessões do Cine Horror, mas da
programação da sala em geral)”, explica Rafael.
Há um potencial imenso em uma revitalização da Sala Walter,
mas as incertezas angustiam os apreciadores do lugar, que temem seu fechamento.
Rafael comenta que a mudança de endereço da Diretoria de Audiovisual da FUNCEB
não colabora muito com a valorização da sala. “A mudança da DIMAS para longe da
biblioteca central, onde fica a Walter da Silveira, gerou uma instabilidade
sobre a continuidade daquele equipamento. Esperamos que a reforma em curso, com
reinstalação de aparelhos de ar condicionado e novo projetor traga novamente as
pessoas para ocuparem a sala. E que desfrutem de sua programação gratuita e
sempre bem escolhida”, conclui Rafael Saraiva.
*Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 17/10/2019
Nenhum comentário:
Postar um comentário