A indiferença diante do caos
Vermelho Sol denuncia uma sociedade
inerte e mesquinha perante
o terror ditatorial militar na Argentina dos anos
1970
Por João Paulo Barreto
Na imagem de uma casa tendo seus objetos de
decoração, moveis e eletrodomésticos surrupiados por diversas pessoas em um
silêncio sepulcral, é feito um desenho preciso da Argentina durante a segunda
metade da década de 1970, período quando o golpe militar perpetrado pelo
general Jorge Rafael Videla aconteceu. Naquele momento, o número de famílias
que abandonavam suas casas devido a perseguições sofridas, bem como o número de
desaparecidos e sequestrados crescia gradualmente.
É neste âmbito que, em Vermelho Sol, o diretor e roteirista Benjamin Naishtat constrói uma
atmosfera de situações que parecem não se conectar. Tal aparente desconexão, na
verdade, emula justamente a sensação de um país entregue a uma realidade
mórbida, na qual o absurdo passa a ser encarado como algo comum. Assim, Vermelho, em seu singular título
original, reflete tentativas de viver uma realidade baseada em indiferentes
rotinas que não mais se sustentam, mas que se levam à frente por uma hipocrisia
maquiada como insistência, com oportunismos desonestos e com uma maneira de seguir seus dias olhando para o outro lado,
para o próprio umbigo, se autodeclarando isento, ao invés de encarar o que se
descortina no seu próprio entorno de terror e angústia diante da ausência daqueles
que foram vitimados.
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Soberba sequência de abertura com diálogo afiado e denunciador |
REALIDADE PLÁSTICA
É neste mundinho que vive o bem sucedido advogado
Claudio (Darío Grandinetti, de Julieta e
Fale com Ela). Após o público conhecê-lo
durante uma impressionante sequência de abertura quando, diante de uma
discussão em um restaurante, o homem enquadra um jovem que o tratara com
arrogância, a impressão que se tem é a de alguém centrado e consciente do seu
entorno. Porém, após um novo embate no estacionamento do lugar, situação com
consequências trágicas e imediatas, o espectador percebe a real natureza de
Claudio, quando este prefere omitir um socorro diante de uma fatalidade,
mascarando o que aconteceu com uma furtiva ida ao deserto.
Na atitude do advogado, que logo lhe trará sérias
consequências, o modo como os desaparecimentos de pessoas na Argentina do
período passou a ser algo banalizado pela sua classe dominante, sendo essa
justamente a crítica inserida no roteiro de Naishtat. Assim, em histórias
secundárias que parecem não se conectar, como o arco envolvendo o interesse
amoroso da filha do advogado, as performances dançantes da moça em uma
pertinente alusão à violência masculina ou um crime passional cometido pelo seu
namorado, Vermelho encontra sua
principal reflexão na análise daquela realidade compostas por pessoas inertes
diante do cerceamento de liberdades com consequentes fugas e o sequestro de
indivíduos como fio condutor.
Utilizando a cor vermelha como uma clara alusão à
paranóia manipuladora utilizada pelas ditaduras para alcançar apoio em sua
escalada ao poder, Naishtat e o diretor de fotografia Pedro Sotero (conhecido
pelos trabalhos com Kleber Mendonça Filho) inserem, inicialmente, uma paleta de
cores em tons pastéis, algo que desenha de modo claro a monotonia disfarçada e
a indiferença daqueles personagens. Assim, o choque ao vermos o rojo (vermelho)
de seu título original dominar a tela de uma só vez quando da ocasião de um
eclipse solar, a mensagem do choque necessário para fazer aquelas pessoas
conscientes de seu entorno é pungente. Tão pungente e vermelho é o sangue nas
mãos daqueles que seguem em suas vidas de não questionamento, de autodeclaradas
omissões oportunistas diante de um futuro sombrio que se descortina.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 25/08/2019
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