A adolescência como experimentação e expurgo
Em Anos 90, ator
Jonah Hill estreia na direção com eficiente
relato da fase de transformação
adolescente
Por João Paulo Barreto
Ao imaginar uma estreia do ator Jonah Hill como
diretor de longas metragens, a primeira ideia comum que viria à mente seria em
algo ligado às comédias que o lançaram, como o adorável Superbad, a mescla de ação com comédia do remake de Anjos da Lei ou uma abordagem doentia
de um personagem no limiar da violência psicótica de algo como o seu Donnie, de
Lobo de Wall Street, ou o Efrain, de Cães de Guerra. No entanto, com Anos 90, o roteirista e diretor que
assume é um Jonah Hill capaz de trazer uma história cuja delicadeza e a doçura
infantis rima com a brutalidade da descoberta de uma áspera adolescência.
Ambientado nos anos 1990, como entrega seu título, a
obra insere os elementos comuns ao período, quando adolescentes colecionavam
CDs e não tinham suas caras enfiadas em telas de smartphones durante todo o
período desperto do dia. Mas o filme foge da armadilha artificial de criar para
o espectador que viveu aquele período uma proposital série de comparações ou um
mergulhar nostálgico na década de 25 anos atrás. Claro, aqui e acolá aparecem imagens
de Beavis and Butt-Head ou a trilha sonora do Seal cantando Kiss from a Rose que lhe farão perceber
que 1995 foi há muito tempo. Mas tudo isso é dosado de forma eficiente para que
permita ao público um desbravar daquele período de amadurecimento não como um
voyer, mas, sim, pelos olhos do seu protagonista, o pequeno Stevie (Sunny
Suljic), que tem em sua visão infantil do mundo que lhe cerca algo que vai
contrastando com as experiências que suas novas amizades vão lhe oferecer.
ESPIRAL DESCENDENTE
Saliento que o filme não se propõe a ser um novo Kids em sua abordagem de adolescentes em
contato com drogas, sexo e traumas. O que Hill sugere aqui é analisarmos como o
crescimento de Stevie vai empurrando-o em uma espiral descendente, mas que não
tira do garoto toda sua inocência e beleza atrelada ela. Assim, quando o vemos
apanhar violentamente do irmão mais velho, Ian (Lucas Hedges, se confirmando
como um dos melhores atores de sua geração) para, logo depois, desobedecer a
sua ordem direta de não adentrar em seu quarto, notamos que o amor infantil e
admiração contida que tem por ele só não são demonstradas por conta da
animosidade típica do adolescente mais velho. E Hill ilustra isso de forma tocante
quando coloca o jovem anotando os nomes dos artistas da coleção de CDs de Ian
ou buscando as referências dos pôsteres nas paredes e das revistas dentro do
quarto. E lá está o momento em que aquela doçura que logo se perderá se torna
evidente quando o caçula entrega ao irmão, que até admira em certo nível, um CD
de presente de aniversário.
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Irmãos: Ausência de empatia transformada em violência |
Colocando tais situações como ponto de atração pelo
seu protagonista, o filme se constrói ao redor daquela gradativa perda da
pureza e ganho de uma malícia nociva que parecem não características a Stevie.
E são os momentos em que aquela sua doçura prevalece que nota-se a intenção da
construção temática do roteiro de Hill. Como quando o garoto agradece uma
gentileza e é recriminado por considerarem o ato de agradecer como “coisa de
gay”. Ou quando sua felicidade extravasa ao ser requisitado pelos seus novos
amigos skatistas a encher uma garrafa com água. Ou, ainda, quando é seduzido
por uma adolescente um pouco mais velha que ele e se torna o ídolo dos companheiros
também mais velhos. “Você está na fase de que ainda não é um completo idiota”,
diz a jovem antes de arrastá-lo para o quarto. Definição precisa.
Nas figuras perdidas dos skatistas que Stevie passa
a idolatrar, a imagem de adolescentes com traumas familiares ainda mais graves.
E o contraste de suas histórias de vida com as experiências que Stevie ainda
pode enfrentar são momentos tocantes. Assim, é com tristeza que vemos um deles
fingir que vai para casa, mas disfarça ao não entrar para que só possa chegar quando
a mãe violenta já estiver dormindo. Do mesmo modo, a figura de “Quarta-série”,
que tem esse apelido por ser considerado burro pelos amigos, ao perceber-se
como alguém cuja personalidade introvertida lhe é algo a ser superado, mas que
acaba sendo um traço inevitável. E vê-lo demonstrar seus sonhos de se tornar
cineasta ao filmar os amigos em suas manobras é um modo de tornar ainda mais
profunda a reflexão acerca daquele grupo de garotos sem um rumo, mas com um
futuro que pode ser brilhante.
No caos emocional de sua fase de puberdade, Stevie
se transforma em alguém que beira ao trágico diante do turbilhão emocional que
crescer passa a representar para si mesmo. Na imagem desesperada de uma
descabida e desajeitada tentativa de suicídio ou quando o, até então, tenro
contato com sua mãe se torna algo explosivo, a percepção de que aquele período
pode se transformar em algo deveras perturbador só cai por terra quando os
laços de uma amizade positiva entre aqueles que lhe trouxeram tantas novas
experiências se confirmam. Momento cujo trágico se avizinha, mas, mesmo com cicatrizes
profundas, acaba superado. Exatamente como a adolescência.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 02/06/2019
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