E se os Beatles...
Em Yesterday, Danny
Boyle adapta para o artificial século XXI
a espontaneidade da criação de um
fenômeno cultural
Por João Paulo Barreto
Imaginar os Beatles surgindo em pleno século XXI, distante
das limitações publicitárias dos anos 1960 em termos de divulgação e alcance,
em um modo totalmente distinto do atual no que tange a investir em um
lançamento musical, é um exercício curioso de se fazer. Quando os rapazes
despontaram para o sucesso, em 1962, com
os shows realizados no Jacaranda e no Cavern, pubs britânicos, o alcance que tiveram se restringiu
inicialmente à Inglaterra em meio à influência do Mersey Beat, tablóide de
Liverpool que divulgava as bandas da cidade, e o boca a boca entre o já
fervoroso grupo de fãs que surgia.
Após a ida para Hamburgo, cidade alemã onde tocaram em
inferninhos e puderam aprimorar sua experiência em palcos; após o aparecimento
de Brian Epstein, empresário local de Liverpool que se propôs a representar
aqueles garotos na busca por um contrato de gravadora; e, claro, a entrada em
cena do produtor musical George Martin, responsável pela lapidação de suas
composições, a ascensão de John, Paul, George e Ringo (no lugar de Pete) à fama
com seu primeiro disco, Please Please Me,
junto à inevitável ida aos Estados Unidos após o lançamento do single I Wanna Hold Your Hand, resumem bem o
início meteórico dos garotos em sua dominação mundial.
EPISÓDIO DE TWILIGHT ZONE
Mas todas essas informações não são novidade se você viveu parte
da vida no caldeirão de cultura pop ou se interessa minimamente por boa música.
A utilização delas, aqui, serve apenas para uma ilustração desse exercício
citado acima. Mas é em Yesterday, divertidíssima
comédia romântica dirigida por Danny Boyle (Trainspotting),
que imagina um mundo no qual os Beatles e outra série de elementos físicos e
culturais do mundo deixam de existir da noite para o dia, que concretizamos tal
brincadeira e analisamos essa ideia da grandeza mercadológica da banda, bem
como o modo como isso seria explorado atualmente, tempos em que curtidas
definem carreiras.
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Jack chega à encruzilhada de sua vida |
Na figura do único que parece inicialmente lembrar, o
talentoso e sem sucesso músico Jack Malik (Himesh Patel) é quem, após um
atropelamento, acorda nessa realidade paralela na qual os FabFour não mais existem e somente ele conhece suas canções. Logo, mesmo ainda confuso, o rapaz passa a
cantá-las comercialmente e é abordado por um grande selo para gravação das
pérolas.
Neste ponto, a ideia de comparar o modo como os Beatles
ascenderam e a preparação minuciosa de um “produto musical”, como define a
arrogante e gananciosa empresária Debra Hammer (Kate McKinnon), espécie de
Allen Klein, empresário vigarista dos Beatles, ou com um símbolo dessa nova
forma de criar tais produtos na presença hilária de Ed Sheeran, dá ao público
uma maneira ainda mais recompensadora de absorver Yesterday – O Filme, esse quase episodio de Além da Imaginação.
Diferente de Across the Universe, musical de 2007 que utilizava as canções da banda como meios de diálogo e contar de uma trama (algo que às vezes soava um tanto forçado), Yesterday, apesar de referenciar a trajetória dos quatro Beatles diretamente (o momento em que é emulada uma cena de A Hard Day´s Night, longa de Richard Lester, é de puro encantamento), consegue mesclar uma proposta de ficção romântica sem a necessidade prolixa de recontar ou readaptar a história do fenômeno cultural.
Diferente de Across the Universe, musical de 2007 que utilizava as canções da banda como meios de diálogo e contar de uma trama (algo que às vezes soava um tanto forçado), Yesterday, apesar de referenciar a trajetória dos quatro Beatles diretamente (o momento em que é emulada uma cena de A Hard Day´s Night, longa de Richard Lester, é de puro encantamento), consegue mesclar uma proposta de ficção romântica sem a necessidade prolixa de recontar ou readaptar a história do fenômeno cultural.
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Help! e o seu real pedido de socorro |
Ainda em relação a Lennon, um momento ímpar do filme faz uma alusão direta à luta do músico em manter-se junto à mulher que amava. Um paralelo íntimo, apesar de em menor circunstância, é oportunamente feito pelo roteiro de Richard Curtis, que já havia escrito o tocante Questão de Tempo. Aqui, a questão vinculada ao par romântico de Malik, Ellie (Lily James), a então amiga e empresária dos tempos de insucessos, sugere, a partir de um belo encontro entre Jack e um personagem histórico, essa motivação para conseguir escapar daquela armadilha oportunista que a fama lhe colocou.
Yesterday não é
obrigatoriamente um filme que divertirá apenas os fãs dos Beatles. Aqueles que
se encantam diariamente com suas canções e sempre se surpreendem com a
influência cultural que suas composições, atitudes e ações causaram no século
XX. Ele também é sobre a não obrigatoriedade de se considerar uma estrela. É
sobre lidar com a fama de maneira a não se tornar escravo dela. Ao final, é
sobre a ideia de conseguir enxergar o sucesso também em pequenas ações, de
enxergar o amor ao seu redor. É sobre também multiplicar esse amor. Algo que
John, Paul, George e Ringo fizeram tão bem.
Em tempo: há um curta metragem mineiro, de 2008, chamado Os Filmes que não Fiz. Dirigido por Gilberto Scarpa, o filme é uma série de episódios abordando roteiros nunca concretizados por Gilberto. Em um deles, Zelvis, um mundo no qual o rei do rock não existe, é ilustrado com o personagem assumindo o manto de Elvis Presley, cujos discos ainda existem. Algumas pessoas cogitaram a ideia de plágio, uma vez que o filme foi exibido na Europa e está disponível on line. Observando uma essência real de fato presente ali, fica a julgamento do público essa questão.
Em tempo: há um curta metragem mineiro, de 2008, chamado Os Filmes que não Fiz. Dirigido por Gilberto Scarpa, o filme é uma série de episódios abordando roteiros nunca concretizados por Gilberto. Em um deles, Zelvis, um mundo no qual o rei do rock não existe, é ilustrado com o personagem assumindo o manto de Elvis Presley, cujos discos ainda existem. Algumas pessoas cogitaram a ideia de plágio, uma vez que o filme foi exibido na Europa e está disponível on line. Observando uma essência real de fato presente ali, fica a julgamento do público essa questão.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 01/09/2019
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