domingo, 1 de setembro de 2019

Yesterday


E se os Beatles...


Em Yesterday, Danny Boyle adapta para o artificial século XXI
a espontaneidade da criação de um fenômeno cultural

Por João Paulo Barreto

Imaginar os Beatles surgindo em pleno século XXI, distante das limitações publicitárias dos anos 1960 em termos de divulgação e alcance, em um modo totalmente distinto do atual no que tange a investir em um lançamento musical, é um exercício curioso de se fazer. Quando os rapazes despontaram para o sucesso, em 1962, com os shows realizados no Jacaranda e no Cavern, pubs britânicos, o alcance que tiveram se restringiu inicialmente à Inglaterra em meio à influência do Mersey Beat, tablóide de Liverpool que divulgava as bandas da cidade, e o boca a boca entre o já fervoroso grupo de fãs que surgia.

Após a ida para Hamburgo, cidade alemã onde tocaram em inferninhos e puderam aprimorar sua experiência em palcos; após o aparecimento de Brian Epstein, empresário local de Liverpool que se propôs a representar aqueles garotos na busca por um contrato de gravadora; e, claro, a entrada em cena do produtor musical George Martin, responsável pela lapidação de suas composições, a ascensão de John, Paul, George e Ringo (no lugar de Pete) à fama com seu primeiro disco, Please Please Me, junto à inevitável ida aos Estados Unidos após o lançamento do single I Wanna Hold Your Hand, resumem bem o início meteórico dos garotos em sua dominação mundial.

EPISÓDIO DE TWILIGHT ZONE

Mas todas essas informações não são novidade se você viveu parte da vida no caldeirão de cultura pop ou se interessa minimamente por boa música. A utilização delas, aqui, serve apenas para uma ilustração desse exercício citado acima. Mas é em Yesterday, divertidíssima comédia romântica dirigida por Danny Boyle (Trainspotting), que imagina um mundo no qual os Beatles e outra série de elementos físicos e culturais do mundo deixam de existir da noite para o dia, que concretizamos tal brincadeira e analisamos essa ideia da grandeza mercadológica da banda, bem como o modo como isso seria explorado atualmente, tempos em que curtidas definem carreiras.

Jack chega à encruzilhada de sua vida

Na figura do único que parece inicialmente lembrar, o talentoso e sem sucesso músico Jack Malik (Himesh Patel) é quem, após um atropelamento, acorda nessa realidade paralela na qual os FabFour não mais existem e somente ele conhece suas canções.  Logo, mesmo ainda confuso, o rapaz passa a cantá-las comercialmente e é abordado por um grande selo para gravação das pérolas.

Neste ponto, a ideia de comparar o modo como os Beatles ascenderam e a preparação minuciosa de um “produto musical”, como define a arrogante e gananciosa empresária Debra Hammer (Kate McKinnon), espécie de Allen Klein, empresário vigarista dos Beatles, ou com um símbolo dessa nova forma de criar tais produtos na presença hilária de Ed Sheeran, dá ao público uma maneira ainda mais recompensadora de absorver Yesterday – O Filme, esse quase episodio de Além da Imaginação.

Diferente de Across the Universe, musical de 2007 que utilizava as canções da banda como meios de diálogo e contar de uma trama (algo que às vezes soava um tanto forçado), Yesterday, apesar de referenciar a trajetória dos quatro Beatles diretamente (o momento em que é emulada uma cena de A Hard Day´s Night, longa de Richard Lester, é de puro encantamento), consegue mesclar uma proposta de ficção romântica sem a necessidade prolixa de recontar ou readaptar a história do fenômeno cultural.

Help! e o seu real pedido de socorro
Assim, é no drama pessoal vivido por Malik, que sente a consciência pesada por, na verdade, se tratar de um plagiador, que está a essência do longa. O momento em que Help! é cantada a plenos pulmões e o pedido de ajuda é escutado por apenas duas pessoas na platéia traz essa profundidade necessária para seu personagem. E conhecendo a circunstância da composição de John Lennon como um real grito de socorro, tal cena ganha ainda maior simbolismo.

Ainda em relação a Lennon, um momento ímpar do filme faz uma alusão direta à luta do músico em manter-se junto à mulher que amava. Um paralelo íntimo, apesar de em menor circunstância, é oportunamente feito pelo roteiro de Richard Curtis, que já havia escrito o tocante Questão de Tempo. Aqui, a questão vinculada ao par romântico de Malik, Ellie (Lily James), a então amiga e empresária dos tempos de insucessos, sugere, a partir de um belo encontro entre Jack e um personagem histórico, essa motivação para conseguir escapar daquela armadilha oportunista que a fama lhe colocou.

Yesterday não é obrigatoriamente um filme que divertirá apenas os fãs dos Beatles. Aqueles que se encantam diariamente com suas canções e sempre se surpreendem com a influência cultural que suas composições, atitudes e ações causaram no século XX. Ele também é sobre a não obrigatoriedade de se considerar uma estrela. É sobre lidar com a fama de maneira a não se tornar escravo dela. Ao final, é sobre a ideia de conseguir enxergar o sucesso também em pequenas ações, de enxergar o amor ao seu redor. É sobre também multiplicar esse amor. Algo que John, Paul, George e Ringo fizeram tão bem.

Em tempo: há um curta metragem mineiro, de 2008, chamado Os Filmes que não Fiz. Dirigido por Gilberto Scarpa, o filme é uma série de episódios abordando roteiros nunca concretizados por Gilberto. Em um deles, Zelvis, um mundo no qual o rei do rock não existe, é ilustrado com o personagem assumindo o manto de Elvis Presley, cujos discos ainda existem. Algumas pessoas cogitaram a ideia de plágio, uma vez que o filme foi exibido na Europa e está disponível on line. Observando uma essência real de fato presente ali, fica a julgamento do público essa questão.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 01/09/2019


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