Tim Burton insere as inconfundíveis marcas de seu
universo
na adaptação live action do
elefantinho voador
A
fábula clássica de Dumbo
Por João Paulo Barreto
Na filmografia de Tim Burton, conflitos envolvendo
personagens atormentados pela não adaptação ao meio onde vivem, oriundos de
famílias partidas ou ausentes, ocasionalmente órfãos ao menos de um dos pais, é
algo com que o espectador se habituou a encontrar nas visitas ao cinema cada
vez que o nome do cineasta, famoso por um estilo gótico em suas obras, surge estampando
pôsteres soturnos. Há trinta anos, em Batman,
ele deu a Bruce Wayne (um órfão
atormentado que busca se adaptar ao seu mundo) a verdadeira face que o seriado
com Adam West transformara em pastiche; depois, no começo dos anos 1990, iniciando
uma prolífica parceria com Johnny Depp, criou uma ácida e melancólica crítica à
hipocrisia humana em Edward Mãos de
Tesoura, outro ser que tenta (e falha miseravelmente) se inserir na
sociedade. A dupla voltaria a se encontrar em um tema semelhante quando o ator
encarnou, em A Fantástica Fábrica de
Chocolate, de 2005, Willy Wonka, outro atormentado personagem cuja fachada
cínica esconde um conflito com o pai, mesmo tema visto no fantástico Peixe Grande, de 2003.
Fantástico, aliás, é um adjetivo que define bem trabalho
do diretor. Contando com aceitáveis altos e baixos (sendo que os altos
prevalecem, friso!), Burton trouxe para si um estilo de cinema que, muitas
vezes, remete às imagens expressionistas do movimento cinematográfico alemão,
unindo suas influências do cinema de terror clássico em um visual que se tornou
sua marca. Com todas essas características tanto estéticas quanto de construção
dramática, olhar para a história do elefantinho voador Dumbo e imaginá-la
dentro deste universo, digamos, burtoniano
é algo que nos faz pensar em como tal recriação em live action não aconteceu antes. Todos os elementos estão lá. A
criatura julgada como grotesca, mas que possui um bom coração; a adaptação a um
ambiente hostil que, com poucas exceções, o explora; a dolorosa ausência da
família e a busca por ela. Enfim, Dumbo, com suas orelhas gigantescas, acaba
sendo um ser que pertence a Tim Burton, sendo ele o único capaz de dar ao
adorável filhote circense sua face real.
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Dumbo em sua tecnicamente perfeita versão em CGI |
O FANTÁSTICO CRÍVEL
Na adaptação para a versão em carne, CGI e osso de Dumbo, o diretor enfrentara um desafio inicial
que era o de tornar o irreal ao menos crível. E, nesse desafio, os aspectos
técnicos ajudam a dar verossimilhança a um personagem cujo absurdo acaba se
tornando aceitável dentro daquela premissa, para usar mais uma vez a palavra,
fantástica. Assim, é admirável observar como até mesmo o som das orelhas/asas
do elefantinho e o modo como o vento surge de seu balançar dá àquela ideia uma
sensação de naturalidade dentro do inacreditável. Ponto para o design de som do
filme, que se supera ao trabalhar a ideia do voo de um elefante (!!) em um modo
que faz o espectador brincar com o impossível.
Nesta passagem do desenho animado para o live action, Dumbo, acertadamente, optou
por deixar para trás algumas dos aspectos fabulescos, como o fato dos animais
falarem, mas manteve do modo eficiente algumas das marcas que tornaram tão
adorável a sua versão de 1941. É o caso da expressão de doçura do elefantinho,
que, dentro do aspecto real que a obra de 2019 possui, torna o sorriso contido
da criatura uma característica que faz o espectador, tanto infantil quanto
adulto, se afeiçoar ainda mais ao bicho, cuja criação perfeita tecnicamente
merece um reconhecimento por parte da audiência. Da mesma maneira acertada, o
filme marca pontos ao não apelar para o emocional de forma exagerada, tornando
a presença de Dumbo em sua tristeza e saudade da mãe algo que não manipula o
publico de forma barata, mas torna aquela empatia natural. E convenhamos que é
difícil não se apaixonar por aqueles tristes olhinhos azuis embalados pela
sempre marcante trilha sonora do parceiro habitual de Burton, Danny Elfman,
que, em seus corais infantis, emula a sensação do fantástico de modo preciso.
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Reencontro de parceiros clássicos: Keaton dá vida ao antagonista V. A. Vandervere |
UNIVERSO BURTONIANO
Dando a Tim Burton um prato cheio para suas criações
visuais excêntricas, o circo de Dumbo, comandado
por Danny DeVito, outro ator não estranho ao universo burtoniano, permite o desenvolver de criaturas que, apesar de menos
excêntricas que as de Peixe Grande, outro
filme que tinha DeVito como dono de um circo, representam bem as
características dos serem que habitam o mundo do diretor. Mundo esse que, como
dito antes, traz constantes aspectos dramáticos que o cineasta insere em seus
trabalhos, como a ausência familiar paterna, aqui salientada por uma fala do
megalomaníaco representado por Michael Keaton, que aborda essa construção e o
trauma em torno do fato de ter crescido sem um pai.
Keaton, inclusive, em sua participação histriônica,
acaba por ser responsável pela fala que define a ideia de trazer uma obra como Dumbo de volta ao destaque. “Você me
levou de volta à minha infância”, profere o milionário V. A. Vandervere, vivido
pelo Batman de Burton. Com essa nova leva de adaptações reais para desenhos
animados que, ainda esse ano, terá O Rei
Leão e Aladdin na esteira de
lançamentos, é esse o intento que a Disney está alcançando. Além, claro, para
não ser ingênuo, de muito dinheiro.
Mas é bom se permitir um pouco de ingenuidade no
revisitar fabulesco de um adorável elefantinho voador.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 01/04/2019
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