DVDs e blu-rays vivem!
![]() |
Lançamentos do selo Obras Primas do Cinema |
COLECIONISMO Com
oficial queda na qualidade de sinal das plataformas de streaming, acesso a filmes através de mídia física, apesar do
mercado combalido, ainda é um caminho para alimentar a cinefilia
Por João Paulo Barreto
Dentro das mudanças nos meios de acesso ao cinema em casa,
definitivamente a mais impactante negativamente em termos de qualidade de imagem
e som se deu com a ascensão do streaming
a partir da segunda metade dos anos 2010. Enquanto que nos anos 1990, a migração
do VHS para o DVD gerou um aumento impressionante nessa mesma qualidade no
consumo de filmes, hoje, com as plataformas digitais, o que temos é uma
disparidade. Há, sim, uma oferta imensa de entretenimento entre série e filmes.
Mas é tão fácil assim ter acesso a exatamente o que a pessoa deseja assistir?
Ou acabamos por nos tornar reféns de algoritmos que constroem um menu de opções
ao “nosso gosto”? E na questão do aproveitamento em termos de imagem e som? Com
conexões ruins de internet, lentidão no acesso e filmes que simplesmente
desaparecem ao capricho das gigantes de streaming,
o benefício é tão vantajoso assim em relação aos discos digitais de DVD e blu-ray?
Em tempos urgentes de quarentena por conta da pandemia do
COVID-19, plataformas como a Netflix e a Globo Play anunciaram a necessidade de
diminuir a sua taxa de bits devido a alta quantidade de pessoas conectadas. Do mesmo modo, muitos provedores de internet
têm sinalizado aos clientes intermitências no sinal. No acesso aos filmes,
outro contra: o processo de escolha das obras segue uma demanda imposta pelos
próprios canais, que mantêm em seus catálogos apenas filmes com muitos
espectadores, podendo torná-los indisponíveis no momento em que decidirem que
eles têm poucas visualizações ou apelo. Indo na contramão desse modo de
alimentar a cinefilia, o mercado voltado para colecionadores de DVDs e blu-rays
no Brasil ainda respira. Selos como Versátil Home Vídeo e Obras Primas do
Cinema possuem lançamentos mensais em uma regularidade constante e, o mais
importante, clientes fieis que têm na compra e no colecionismo de filmes seu
modo de acesso à sétima arte em casa.
![]() |
Lançamentos do selo Versátil Home Vídeo |
CURADORIA E CUIDADOS
Para Rodrigo Veninno, um dos curadores do selo Obras
Primas do Cinema, empresa que mantém uma média de três a cinco lançamentos
mensais em boxes de filmes, a escolha do catálogo de obras se baseia em ajudar
o espectador a sanar a dificuldade de encontrá-las. Principalmente em tempos de
downloads via torrents. “Geralmente,
quando eu planejo um lançamento em qualquer linha, seja de um tema ou de um
diretor, ator ou atriz, eu me baseio em duas dificuldades do espectador: a de
encontrar aquele filme para assistir e a de encontrar uma legenda”, afirma
Rodrigo. E complementa com o fato de que o idioma pode ir muito além do inglês.
“Claro que não é todo mundo entende o idioma inglês. Mas, é preciso lembrar que
há um público que gosta, também, de cinema tcheco, de cinema japonês, por
exemplo. A dificuldade nesses casos é ainda pior”, explica.
Diretor da Versátil Home Vídeo, outro selo a se dedicar a
lançamentos de filmes voltados para o colecionismo no Brasil, André Melo
destaca que a relação do cliente com o produto é algo que traz uma afetividade
que nenhum streaming pode suprir.
“Quando adquire um box, esse cliente pega a capa, vê em verniz ali aquela
imagem selecionada. Lá está escrito o nome do diretor, autor, atriz, ator que
ele admira. Ele tem um relacionamento com aquele produto. É uma coisa muito
mais afetiva, de se abrir o filme, ter um encarte, ter uma luva toda delicada
em volta. E há os cards com imagens de quando aquelas obras foram lançadas no
cinema. E isso é uma coisa que você não acha no Google. Você não acha isso
facilmente no mercado”, explica.
Celso Menezes, do Blog do JC, e sua coleção |
E ainda é importante pontuar que, para além dos longas em
imagem e som ideais, na mídia física há um diferencial que nenhum streaming traz. André explica: “Nesse
produto, o público encontra making of
dos filmes, comentários do diretor, entrevistas do elenco. Isso é uma coisa que
a Versátil coloca nos seus lançamentos e tenta cada vez mais manter. Buscamos
sempre não fazer um lançamento cru, só com o filme” pontua o diretor da
Versátil.
LOJAS VIRTUAIS
Com as até então gigantes do varejo como Livraria Cultura
e Saraiva entrando em recuperação judicial, ou outra tradicional revendedora de
mídia física como a Lojas Americanas queimando (sem renovar) seus estoques, as
lojas on line dos próprios selos têm entrado no jogo da venda direta para o
consumidor, sem a necessidade de passar pelos revendedores. “Até 2016, a gente
trabalhava com 70% a 80% do foco de nossa receita voltado para as duas
livrarias. Após essa crise que começou a afetar ambas, mudamos nosso foco.
Fizemos uma aproximação com nosso cliente via redes sociais. E muitos começaram
a nos procurar perguntando como adquirir nossos produtos. Hoje, posso dizer que
70% a 80% de nosso faturamento vem de nossa própria loja”, salienta André Melo.
Além de colecionador e dono de um acervo de quase cinco
mil filmes, Celso Menezes, é roteirista e colaborador do Blog do JC, um dos
maiores sites voltados para informações de blu-rays e DVDs lançados no Brasil e
no exterior. Para ele, uma das muitas vantagens da mídia física é o acesso rápido
às obras. “O acervo disponível no streaming
é limitado. A busca pelos filmes não é tão fácil. Hoje, se você falar que vai
assistir a, por exemplo, a filmografia do Hitchcock, vai ser como? Não tem
locadoras, você não vai ver na TV aberta ou fechada. Na Netflix, se tiver, vai
ser um ou outro. Existe uma demanda. Citei o Hitchcock por ser um grande
cineasta, mas existem mais cineastas, existem outros movimentos
cinematográficos, e tudo isso não está no streaming.
E alguns títulos mais clássicos que havia lá, foram retirados pela Netflix”,
ratifica Celso.
Outro cinéfilo inveterado, Itamar Castelo tem uma coleção com mais
de 1500 unidades entre blu-rays e DVDs. Coleciona filmes desde os anos 1990.
Hoje, adquire muitos de seus itens via internet. Para ele, “empresas
como Versátil e Obra Primas do Cinema têm uma preocupação com a apresentação, a
qualidade do produto. Tanto fisicamente como em suas embalagens e cards. Como
filmes clássicos, catálogos inéditos, versões remasterizadas e restauradas.
Além disso, blu-rays com maior capacidade e qualidade de imagem”, pontua em
relação a importância dos selos nacionais para os cinéfilos.
Ainda sobre o streaming, André Melo, do selo Versátil, é enfático. “No Netflix e outras plataformas, é um algoritmo que identifica que você gosta de um tipo de tema e você vai parar com um robô que define o que pode ser que você goste, a questão do conteúdo e onde o mesmo é armazenado. E ali você não vai encontrar nem 1% do que foi feito de audiovisual na História. Acho que nenhuma plataforma tem essa capacidade. Com o DVD, blu-ray e os extras que vêm nas mídias, a experiência se torna muito mais do que apenas consumir um filme”, finaliza.
*Matéria publicada originalmente no Jornal A Tarde, dia 14/04/2020
Muito bom saber que ainda existem cinéfilos colecionadores que concordam que a mídia física é importante e que não pode ser suprimida em vista das plataformas digitais e downloads. Fiquei muito perplexo quando soube que as Lojas Americanas iriam acabar com o setor, assim como a Saraiva e a Cultura.
ResponderExcluir