segunda-feira, 22 de abril de 2019

Marcia Haydée - Uma Vida pela Dança


Genialidade de uma vida dedicada ao Balé


Documentário esmiúça trajetória de Márcia Haydée, 
brasileira que marcou a história do balé clássico


Por João Paulo Barreto

A trajetória de Márcia Haydée, primeira bailarina do Balé de Stuttgart, na Alemanha, durante os anos 1960, impressiona. A importância de sua figura para a dança mundial é colocada em merecido destaque no documentário Marcia Haydée – Uma Vida Pela Dança. Idealizado por sua irmã Mônica Athayde e dirigido por Daniela Kallman, o documentário resgata a história da única bailarina brasileira a ser reverenciada nos mais importantes teatros do mundo. Entre eles, estão o Bolshoi (Moscou); Opera (Paris); Covent Garden (Londres); Staatsoper (Berlin); Bunka Kaikan (Tóquio); além do Metropolitan Opera House (Nova Iorque); Lincoln Center (Washington); Colon Buenos Aires) e Teatro Municipal de Santiago, no Chile. No Brasil, Theatro Municipal do Rio de Janeiro e Teatro Municipal de São Paulo. Foi aclamada por sua grandeza nas interpretações em cada papel que lhe era oferecido.

O filme opta de maneira acertada em equilibrar a apresentação da vida da bailarina através do olhar e palavras dela mesma com o das pessoas que conviveram com ela em sua trajetória. Tal opção, mesmo sem fugir da estrutura convencional de entrevistas, concede ritmo ao documentário devido à opção de intercalar as imagens da rotina de Haydée e das suas marcantes apresentações com a sua preparação durante os ensaios, bem como as leituras das cartas que a jovem enviava para sua mãe. Permite ao espectador observar, assim, o esforço contínuo da bailarina no galgar da perfeição que se vê nos palcos, mas sem deixar de trazer um perfil sensível e deslumbrado de uma jovem que alcançava precocemente essa mesma perfeição citada.

Nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, Marcia Haydée começou as aulas de balé aos 3 anos. Aos 12 já falava em ser a melhor bailarina do mundo. Aos 16 se mudou para Londres para estudar na Royal Ballet School. Lá conheceu o coreógrafo John Cranko, diretor do Stuttgart Ballet, na Alemanha, e se tornou sua discípula.

Através de um perspicaz encadeamento de imagens de arquivo que a montagem de Maria Altberg traz, o público é apresentado ao desenvolver técnico de Haydée de forma a penetrar em sua labuta e a conhecer o modo como ela e o seu parceiro coreógrafo, John Cranko, transformaram preparação e experimentação em movimentos definitivos na dança.

Márcia em cena com Richard Cragun (Coreografia de John Cranko)

ANJO PROTETOR

“É o chão, os sapatos ou você? É você”, responde a si mesmo John Cranko em sua descontração ao avaliar o poder dos passos de Márcia, no balé Giselle, lhe dando a autoconfiança necessária. E, no citado artifício de sua montagem, o filme acerta ao criar para o espectador o ritmo perfeito da narrativa no encadear imediato das cenas de ensaios com a apresentação que aconteceu em 1966, algo que descreve bem o esforço desprendido pela jovem.

 “A simplicidade da técnica junto com a liberdade artística, junto com a alma imoral. Ela é a pura transgressão. Como pode uma pessoa do mundo clássico ser tão transgressora?”, pergunta a coreógrafa Deborah Colker ao se referir a Márcia. Sua pergunta também reverbera no espectador. Sua transgressão ao colocar-se em tamanho destaque dentro da companhia de Stuttgart, quando apenas Cranko, outro que não temia experimentações, a queria como sendo a primeira bailarina, encanta. E, mesmo aqueles não familiarizados com a sua trajetória ou que mesmo não detêm conhecimentos específicos do balé clássico, se impressionam com o domínio de sua técnica. Sem contar o carisma da mulher. Sua leveza de ação, beleza e, ao mesmo tempo, olhar concentrado nos movimentos cujas orientações recebe de Cranko, encantam através das imagens de arquivo que o filme traz. Imagens estas que denotam um extenuante trabalho de pesquisa e planejamento da produção no ilustrar daquela trajetória.

A primeira bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Ana Botafogo, é precisa ao definir a relação entre Márcia e Cranko, quando coloca aquele encontro como algo divino. Com pouco mais de vinte anos de idade, Márcia se tornara a primeira bailarina do balé de Stuttgart, algo que representava a sintonia precisa entre ela e o criador das coreografias.  “Ela encontrou um anjo, uma luz perto dela que soube tirar toda arte e toda essa luz que estava dentro da Márcia. Foi algo que o Cranko soube tirar, soube fazê-la desabrochar. Um encontro dos Deuses. Cranko e Márcia Haydée transformaram a história da dança no mundo”, pontua Ana Botafogo.

Em sua postura austera e, ao mesmo tempo, repleta de doçura, Haydée nos fala de seus relacionamentos e coloca a amizade com Cranko e o casamento e longa parceria com o dançarino estadunidense, Richard Cragun, como destaque. A perda dos dois, sendo o primeiro em sua morte precoce nos anos 1970, e o segundo em um divórcio doloroso para a bailarina, a colocara em um novo norte. Primeiro, pois, foi após a partida de Cranko que ela assumiu a direção do balé de Stuttgart, algo que impressiona uma vez que não a impediu de continuar dançando e mantivesse os dois trabalhos em paralelo. E, após a separação de Cragun, alguns anos depois, em 1995, ela voltaria a se casar com aquele que até hoje é seu marido, o professor de ioga Günther Schöberl, alguém cuja profissão ajudara Haydée a recuperar seu equilíbrio e serenidade.

Marcia no terraço do Theatro Municipal do Rio - segunda casa

LEGADO RECONHECIDO

Para o produtor do projeto, Marco Altberg, a importância do filme se salienta ainda mais pelo legado de Márcia. “Como passou quase toda a vida fora do país, ela acaba sendo pouco conhecida aqui, ainda mais pelas novas gerações. Torna-se importante trazer esse resgate para os brasileiros”, afirma Altberg.

Legado, prioritariamente, é a palavra chave para definir o projeto. Ao vermos a ex-bailarina aos 80 anos de idade, lúcida e saudável a caminhar pela neve das redondezas de sua casa em Stuttgart, local que abre o documentário como a nos convidar a sentir o calor das imagens do balé que vemos em seguida, notamos naquela senhora uma plenitude que a maturidade e o contemplar de um legado e de uma vida repleta de desafios lhe traz. E ela consegue dividir isso com o público, essa intimidade plena, algo que reflete através daquela longa trajetória. Em certo momento, por exemplo, Márcia fala da opção em não querer ter filhos. E é doloroso perceber certo arrependimento e peso em sua voz quando busca explicar as razões em relação ao trabalho e a distância de familiares. Em um autoconsolar, Haydée brinca ao dizer que na próxima vida terá muitos filhos. Logo em seguida, o foco obstinado em sua tão importante arte a faz corrigir-se. “Não, eu falo, falo, mas na próxima vida eu vou ser bailarina outra vez. Já está em minha áurea. Já está em minha energia”, afirma entre sorrisos.

Ela encerra dizendo que segue uma força maior, algum deus, que possa decidir isso por ela. Ouvir uma deusa da dança falar desse modo nos faz questionar a existência dessa força. Mas, do mesmo modo, nos faz ter certeza de que foram seus esforços, foco, obstinação e genialidade, de fato, os elementos responsáveis por sua brilhante trajetória. Um filme essencial para torná-la ainda mais inesquecível.


*Matéria originalmente publicada no jornal A Tarde, dia 22/04/2019

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Shazam!



Investindo em uma ambientação menos soturna e mais calcada na comédia, a DC acerta ao mudar o foco de seu universo

Shazam!, a  palavra mágica do humor

Por João Paulo Barreto

O humor nas adaptações cinematográficas dos heróis das histórias em quadrinhos, apesar de que não era um elemento a nortear roteiros, sempre esteve presente. Talvez não do modo pastelão como os coadjuvantes de Lex Luthor nos clássicos Superman dirigidos por Richard Donner e Richard Lester, mas utilizar textos engraçados como forma de tornar palatáveis as cenas de ação e criar uma empatia maior com o protagonista e seus dramas, era uma forma de aproximar o espectador da obra, convidando-o a se inserir durante aqueles pouco mais de 120 minutos de aventuras. A Marvel Studios, ao se lançar no mercado em 2008 com Homem de Ferro, percebeu essa fórmula de imediato, investindo em um protagonista tão perfeito em suas tiradas de comédia que acabara por tornar Robert Downey Jr. o rosto símbolo daquela nova onda de filmes de super-heróis. A mesma Marvel Studios, em 2017, chegou a dar um passo além, colocando um dos seus personagens símbolo, o Thor, como centro de uma galhofa (excelente, por sinal) chamada Ragnarok. Não sendo do estúdio responsável por Vingadores, mas oriundo da mesma Marvel Comics que o saudoso Stan Lee ajudara a criar, Deadpool , filme de 2016, foi ainda mais além por permitir aos roteiristas uma quebra  da quarta parede (quando o personagem conversa com o público) e colocar seu protagonista como um, digamos, desconstrutor daquela gênese. Bastam dez minutos de Deadpool para perceber do que se trata.

Do outro lado, a DC Comics, que não possui um estúdio próprio, mas desde sempre dá vida aos seus personagens através da Warner Brothers, seguiu por um caminho inverso em suas adaptações. Sem contar a já clássica trilogia Cavaleiro das Trevas, redefinição do que pode ser considerado um filme de super-herói que o britânico Christopher Nolan trouxe às telas a partir de 2005, os filmes do chamado DCU (DC Universe), Homem de Aço, de 2013, Batman v. Superman, de 2016 e Liga da Justiça, de 2017, seguiram por um lado oposto, trazendo tramas mais densas e pesadas, personagens centrais atormentados por questões existenciais que beiram ao depressivo, além de um visual excessivamente sombrio que distanciam a experiência de imersão fílmica do equilíbrio entre diversão e reflexão. Porém, friso que não há nenhum problema em propostas mais densas e dramáticas para super-heróis (o excelente Watchmen é uma prova disso), mas tornar essa uma marca dos seus filmes acaba por gerar certo desgaste após várias adaptações. E mesmo o uso da comédia deve ser colocado como algo a ser dosado, sob o risco de tornar a mesma piada sem graça quando contada várias vezes, como foi o caso da continuação de Deadpool. O equilíbrio, digamos, Vingadores de se mesclar comédia com ação e drama é algo a ser colocado como meta.

Grazer e Levi: química perfeita

CARISMA PALPÁVEL

Shazam!, a resposta da DC/Warner à mescla comédia galhofa e ação de Deadpool e Thor: Ragnarok, uma sessão da tarde no melhor sentido da expressão, alcança resultado positivo por conta do carisma da dupla de protagonistas Zachary Levi, que vive a versão adulta do herói, e do jovem Jack Dylan Grazer, seu tagarela irmão adotivo. A ideia prioritária, aqui, é a de focar na leveza da comédia para contar a história traumática de um órfão em busca de seus pais. Nas mãos de Zach Snyder, diretor de dois dos filmes da DC citados anteriormente, a melancolia dessa saga seria evidente. Mas, o que o diretor David F. Sandberg, surpreendentemente oriundo do universo dos filmes de terror, propõe ao dar vida ao roteiro de Henry Garden, um estreante no campo dos super-heróis, é algo que diverte por se fazer valer de alguns dos elementos que o citado antiherói tagarela da Marvel inseriu, que são as brincadeiras com o próprio DCU. Assim, quando vemos as brincadeiras com o nome do herói (que nos quadrinhos é conhecido como Capitão Marvel, um impeditivo óbvio para o cinema), sua capa que parece algo oriundo de vestido de noiva, como alguém pontua no filme, além das referências aos dois heróis pilares da DC, entendemos qual a proposta aqui.

Em certo momento, por exemplo, os garotos começam a testar os poderes do herói, listando as diversas possibilidades que seu background de cultura pop lhes permite observar. Neste aspecto, Grazer acaba por roubar a cena com seu perfil falastrão e de ironia acentuada. Sandberg sabe a ferramenta que tem em mãos, no entanto. Busca não abusar das piadas de metalinguagem, como acontece em Deadpool, sendo que, aqui, só o fato de não haver a quebra da quarta parede já é algo louvável. Assim, a inserção de Shazam! como parte do DCU acontece de modo orgânico, sem a necessidade de diálogos expositivos que servem de muleta para o espectador.

Humor como modo de brincar com o universo dos heróis

DRAMA ORGÂNICO

Fazendo-se valer de uma história de superação de um órfão em busca de seu lugar, o filme acerta na criação de uma empatia do público com o personagem, que no olhar perdido de Asher Angel, que vive o garoto Billy Batson, consegue denotar todo o drama do menino que esconde no humor e no sarcasmo uma personalidade atormentada. A libertação ao dizer a palavra mágica que o transforma no super-herói encontra em Zachary Levi uma presença que reflete justamente essa liberdade. Na figura escandalosa e hilária do menino em um corpo de adulto, Billy acaba encontrar seus meios de extravasar suas frustrações. E o filme constrói aquele amadurecimento de modo bastante eficiente ao colocar tanto o herói hilário de Levi quanto o sofrido deficiente Freddy, de Grazer, em conflitos pessoais e com seus familiares que, aos poucos, os levam a perceber o nível dos seus próprios poderes de transformação.

Fiel ao seu material original nos quadrinhos, algo que justifica a inserção dos descartáveis monstros digitais a representar os sete pecados capitais (mesmo que se trate de personagens que não colaborem muito para o desenvolvimento de uma história que busca fugir do simples maniqueísmo de bem vs mal), Shazam! se sai bem em sua premissa de humor que brinca com os elementos do universo que o criou. É uma nova proposta de equilíbrio entre o soturno costumaz das adaptações anteriores com a já dita leveza do humor que a possibilidade de fazer piada consigo mesmo e com a cultura pop permite. Ver as referências a Quero ser Grande, Rocky – Um Lutador e até mesmo à voz de Christian Bale como Batman são passos significativos para um novo caminho das versões cinematográficas dos seus personagens. E não precisava de mágica para perceber isso, cara DC Comics.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 08/04/2019


segunda-feira, 1 de abril de 2019

Dumbo


Tim Burton insere as inconfundíveis marcas de seu universo
 na adaptação live action do elefantinho voador



A fábula clássica de Dumbo

Por João Paulo Barreto

Na filmografia de Tim Burton, conflitos envolvendo personagens atormentados pela não adaptação ao meio onde vivem, oriundos de famílias partidas ou ausentes, ocasionalmente órfãos ao menos de um dos pais, é algo com que o espectador se habituou a encontrar nas visitas ao cinema cada vez que o nome do cineasta, famoso por um estilo gótico em suas obras, surge estampando pôsteres soturnos. Há trinta anos, em Batman, ele deu a Bruce Wayne (um órfão atormentado que busca se adaptar ao seu mundo) a verdadeira face que o seriado com Adam West transformara em pastiche; depois, no começo dos anos 1990, iniciando uma prolífica parceria com Johnny Depp, criou uma ácida e melancólica crítica à hipocrisia humana em Edward Mãos de Tesoura, outro ser que tenta (e falha miseravelmente) se inserir na sociedade. A dupla voltaria a se encontrar em um tema semelhante quando o ator encarnou, em A Fantástica Fábrica de Chocolate, de 2005, Willy Wonka, outro atormentado personagem cuja fachada cínica esconde um conflito com o pai, mesmo tema visto no fantástico Peixe Grande, de 2003. 

Fantástico, aliás, é um adjetivo que define bem trabalho do diretor. Contando com aceitáveis altos e baixos (sendo que os altos prevalecem, friso!), Burton trouxe para si um estilo de cinema que, muitas vezes, remete às imagens expressionistas do movimento cinematográfico alemão, unindo suas influências do cinema de terror clássico em um visual que se tornou sua marca. Com todas essas características tanto estéticas quanto de construção dramática, olhar para a história do elefantinho voador Dumbo e imaginá-la dentro deste universo, digamos, burtoniano é algo que nos faz pensar em como tal recriação em live action não aconteceu antes. Todos os elementos estão lá. A criatura julgada como grotesca, mas que possui um bom coração; a adaptação a um ambiente hostil que, com poucas exceções, o explora; a dolorosa ausência da família e a busca por ela. Enfim, Dumbo, com suas orelhas gigantescas, acaba sendo um ser que pertence a Tim Burton, sendo ele o único capaz de dar ao adorável filhote circense sua face real.

Dumbo em sua tecnicamente perfeita versão em CGI

O FANTÁSTICO CRÍVEL

Na adaptação para a versão em carne, CGI e osso de Dumbo, o diretor enfrentara um desafio inicial que era o de tornar o irreal ao menos crível. E, nesse desafio, os aspectos técnicos ajudam a dar verossimilhança a um personagem cujo absurdo acaba se tornando aceitável dentro daquela premissa, para usar mais uma vez a palavra, fantástica. Assim, é admirável observar como até mesmo o som das orelhas/asas do elefantinho e o modo como o vento surge de seu balançar dá àquela ideia uma sensação de naturalidade dentro do inacreditável. Ponto para o design de som do filme, que se supera ao trabalhar a ideia do voo de um elefante (!!) em um modo que faz o espectador brincar com o impossível.

Nesta passagem do desenho animado para o live action, Dumbo, acertadamente, optou por deixar para trás algumas dos aspectos fabulescos, como o fato dos animais falarem, mas manteve do modo eficiente algumas das marcas que tornaram tão adorável a sua versão de 1941. É o caso da expressão de doçura do elefantinho, que, dentro do aspecto real que a obra de 2019 possui, torna o sorriso contido da criatura uma característica que faz o espectador, tanto infantil quanto adulto, se afeiçoar ainda mais ao bicho, cuja criação perfeita tecnicamente merece um reconhecimento por parte da audiência. Da mesma maneira acertada, o filme marca pontos ao não apelar para o emocional de forma exagerada, tornando a presença de Dumbo em sua tristeza e saudade da mãe algo que não manipula o publico de forma barata, mas torna aquela empatia natural. E convenhamos que é difícil não se apaixonar por aqueles tristes olhinhos azuis embalados pela sempre marcante trilha sonora do parceiro habitual de Burton, Danny Elfman, que, em seus corais infantis, emula a sensação do fantástico de modo preciso.

Reencontro de parceiros clássicos: Keaton dá vida ao antagonista V. A. Vandervere

UNIVERSO BURTONIANO

Dando a Tim Burton um prato cheio para suas criações visuais excêntricas, o circo de Dumbo, comandado por Danny DeVito, outro ator não estranho ao universo burtoniano, permite o desenvolver de criaturas que, apesar de menos excêntricas que as de Peixe Grande, outro filme que tinha DeVito como dono de um circo, representam bem as características dos serem que habitam o mundo do diretor. Mundo esse que, como dito antes, traz constantes aspectos dramáticos que o cineasta insere em seus trabalhos, como a ausência familiar paterna, aqui salientada por uma fala do megalomaníaco representado por Michael Keaton, que aborda essa construção e o trauma em torno do fato de ter crescido sem um pai.

Keaton, inclusive, em sua participação histriônica, acaba por ser responsável pela fala que define a ideia de trazer uma obra como Dumbo de volta ao destaque. “Você me levou de volta à minha infância”, profere o milionário V. A. Vandervere, vivido pelo Batman de Burton. Com essa nova leva de adaptações reais para desenhos animados que, ainda esse ano, terá O Rei Leão e Aladdin na esteira de lançamentos, é esse o intento que a Disney está alcançando. Além, claro, para não ser ingênuo, de muito dinheiro.

Mas é bom se permitir um pouco de ingenuidade no revisitar fabulesco de um adorável elefantinho voador.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 01/04/2019

segunda-feira, 25 de março de 2019

Um Ato de Esperança



Emma Thompson entrega atuação primorosa ao viver juíza que luta contra o próprio pragmatismo

Embate ente razão e sensibilidade em Um Ato de Esperança


Por João Paulo Barreto


O pragmatismo versus o emocional é o que move Um Ato de Esperança, novo filme de Richard Eyre (diretor do marcante Iris, com Judi Dench). Emma Thompson vive Fiona Maye, uma personagem extremamente racional, de pensamento prático e atitudes calculadas como sua profissão de juíza exige. Observá-la em suas análises jurídicas, focada na leitura de autos enquanto advogados lhe conferem informações que ela escuta e analisa simultaneamente, e,  de imediato, muitas vezes censurando colegas pelos seus erros que ela corrige, é perceber como o domínio de seu campo de trabalho lhe é total e prioritário. De fala rápida, expressa apenas o necessário para se fazer compreendida, como quando dá instruções ao seu assistente ao telefone e desliga no meio da ligação quando já lhe passou suas ordens.

Essa concentração e foco, entretanto, não se evidenciam em sua vida conjugal. Casada há vinte anos, recebe queixas de seu marido (Stanley Tucci) por não ter a mesma dedicação com a vida a dois. Nesse momento, Eyre cria uma comparação precisa ao mostrá-la não escutando o marido falar, pois está a escrever sobre um julgamento no qual trabalha, quando o mesmo foco dividido, porém total, pode ser constatado quando quem fala com ela refere-se a assuntos de trabalho. O roteiro de Ian McEwan, também autor do livro que deu origem ao filme, cria pontes eficientes de comparação destes aspectos da vida de sua protagonista, que evita criar intimidades maiores até mesmo em conversas informais, como quando interrompe seu assistente quando este falava acerca de seu final de semana.

Ambos pragmáticos em suas crenças

PRAGMATISMO DESCONSTRUÍDO

Aos poucos, McEwan desconstrói sua protagonista ao inserir sinais de uma personalidade que, sim, é capaz de se deixar levar pelo emocional, como quando a vemos tocar o piano que a faz relembrar o momento em que este lhe foi presenteado, ou quando resolve conhecer um jovem paciente que sofre de leucemia e cujo dogma religioso como testemunha de Jeová o impede de receber transfusões de sangue se tornou um debate judicial que caberá à juíza decidir. Após diversos casos de vida ou morte que ela teve sob sua responsabilidade, este lhe dá o ímpeto de conversar com aquele rapaz obstinado que acredita no ensinamento religioso mesmo que sua vida se torne algo em jogo dentro daquele impasse. Neste ponto, o filme acerta ao não partir para uma abordagem denunciatória dentro de um contexto de fé versus razão, preferindo focar na personalidade obstinada, mas contraditoriamente frágil e repleta de dúvidas de Adam (FionnWhitehead), que passa a enxergar na figura da juíza uma influência que o tirou da inércia religiosa de seus pais.

Nesta escolha, uma suposta fragilidade do roteiro ao inserir um tema tão profundo que se desvencilha tão facilmente (sim, o garoto acaba por receber a transfusão) se justifica por percebermos como a ingenuidade do adolescente é evidente. E Fionn Whitehead, que dá a Adam um olhar perdido, fala insegura e carência à flor da pele, acerta ao construir seu personagem em uma mescla de rebeldia e total deslumbre por aquela figura que chama de “my lady”, que, mesmo sendo um tratamento formal jurídico, quando dito pelo rapaz, fica evidente tal deslumbramento romântico. E esse desvencilhar dos dogmas perante o racional concede a Adam algo que Fiona acaba trazendo para si. Ao tocar o violão no leito do hospital, a juíza acompanha os versos do poeta Yeats que o rapaz dedilha e aquele desvencilhar acaba sendo algo que embala ambos.

Sem idealizações românticas semelhantes às de Adam, o roteiro de Ian McEwan acerta ao dar ao espectador uma análise de como duas mentes fieis a comportamentos pragmáticos e, em relação ao adolescente, idiossincrático em uma linha que beira o absurdo, podem aprender uma com a outra. No caso de Fiona, dentro desse seu pragmatismo, permitindo que a magistrada pudesse se envolver emocionalmente trazendo para si uma reflexão acerca da própria vida sem emoções. No caso do jovem rapaz, por permitir, ainda que brevemente, pudesse experimentar em vida um horizonte mais amplo que o da Bíblia que o aprisionou.     

Em seu título original, aliás, The Children Act (algo como “o ato infantil”), o filme de Richard Eyre denota exatamente a proposta de seu roteiro, algo que, no título nacional, acaba por levar o espectador para uma premissa de dramalhão choroso que não faz jus ao eficiente resultado que a obra traz. Principalmente no que tange ao seu final repleto de reflexão e desesperança.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 25/03/2019


Nós





Os espelhos da natureza humana segundo Jordan Peele


Autor do cultuado Corra!, diretor foca nas várias faces e 

origens da violência com o horripilante Nós


Por João Paulo Barreto


Jordan Peele apresenta em seu novo filme, Nós, uma pungente análise da crueldade que fica à espreita. A crueldade que dobra indivíduos e os fazem ceder perante aquele sentimento impetuoso vinculado ao sadismo e que pode vir à tona a qualquer momento. Aqui, a teoria do doppelgänger, originária da cultura alemã, que traz a ideia de que cada pessoa possui sua cópia oposta em algum lugar, é a proposta que guia o roteiro de Peele. Nessa proposta, a ideia de que as faces da maldade se fazem presentes em todos se sobressai. Mas esta é apenas uma das várias que o cineasta traz em seu rico estudo do comportamento humano e o limite (ultrapassável ou não) definido para este pela violência. Na história da família Wilson, cuja mãe de dois filhos, Adelaide (Lupita Nyong’o), carrega um trauma vinculado à infância, o reencontro da personagem com esse trauma e as consequências desse mergulhar é o que move aquela trama que, por debaixo de uma camada de horror slasher, uma reflexão precisa acerca do limiar da natureza violenta que cada um pode possuir se faz presente.

Enquanto em Corra!, Jordan Peele criou um acido e genial texto acerca do racismo e de suas formas de manifestação, mantendo a discussão em seu filme de estreia em torno da ideia da diferença racial ser encarada absurdamente por alguns como uma questão de exotismo e/ou fetichismo, em Nós, apesar de trazer uma família de protagonistas negros, essa proposta não segue para uma discussão esperada por muitos espectadores acerca desse fato. Aqui, a violência atinge todos, não somente a família afro-americana formada por Adelaide, Gabe e filhos, mas, também, a de seus amigos caucasianos, cujo encontro com seus duplos se dá na mesma forma sanguinolenta e vingativa. Em Nós, essa violência atinge e se origina em todos, independente de sua etnia, gênero ou classe social. Essa natureza violenta está na superfície de todos e é justamente essa a ideia que Peele quer trazer em seu filme. O mal está na violência e na cultura da mesma.

Doppelgänger

ALEGORIA CATÁRTICA

Há diversos túneis não utilizados no subterrâneo de cidades estadunidenses, diz uma das linhas do texto que abre Nós. Descobriremos a razão para aquela inserção textual de modo gradativo, quando a explicação para os duplos que invadem a casa da família Wilson se apresenta. Até lá, a percepção desses túneis como labirintos internos da mente de cada personagem daquela história é plena. São nestes labirintos que a dicotomia entre bem e mal reside. E nada mais sugestivo que os coelhos a habitar um deles, quando a ideia de seguir o coelho branco nos remete a Alice caindo pelo fosso de sua mente. A diferença é que a loucura necessária ali surge de modo mais violento para os que habitam aquele universo sádico de Nós.

Na alegoria dos duplos (ou doppelgänger), Peele concede uma catarse cinematográfica àquela reflexão vinculada ao ultrapassar da linha entre o humano e a barbárie. Porém, do mesmo modo que o diretor brinda os fãs do cinema de gênero com um espetáculo visual que beira ao gore, ele nos permite observar algo além daquele frenesi sanguinolento. Por trás daquela adrenalina, está a percepção de como a compreensão, o diálogo e, com o perdão do clichê idealizado, o amor podem delinear e construir um destino harmonioso para cada pessoa. O olhar de Adelaide para o seu filho e o desvendar de seu passado que lhe chega ao encerrar aquele trauma dá ao espectador essa mesma conclusão. O meio constrói o individuo. As relações humanas os definem.

Red, a dupla maligna de Adelaide

“NÓS SOMOS AMERICANOS”

Todos possuem suas causas. Todos acreditam estar certos naquilo que defendem. E Jordan Peele está ciente disso ao inserir em seus duplos uma causa, uma luta por uma sobrevivência que eles exigem possuir e que estão dispostos a cometer atrocidades no intuito de alcançar. E isso independe do fato deles desconhecerem noções de comunidade e respeito àquilo que é diferente. E, aqui, a importância de salientar que as figuras em questão são espelhos de nós mesmos como seres humanos. Nada nos difere deles fisicamente. E quando se chega ao ponto de sobrevivência, nem mesmo o comportamento explosivo e violento se faz díspar. No entanto, a corrente demonstrada pelas mãos dadas por todos aqueles seres, a percepção de que a maioria que está ascendendo é a aquela do outro lado do espelho, nos aterroriza tanto quanto a ideia de um duplo maligno a nos espreitar no quintal de casa.

Trata-se de uma obra que coloca principalmente os Estados Unidos em uma análise da violência que parece guiar o país. Mas tal análise não se enquadra aqui apenas ao lugar de origem do roteirista Jordan Peele, podendo ser aplicado a atos de crueldade que nascem do ímpeto de indivíduos oriundos de qualquer parte do mundo. E, da mesma forma como os habitantes do submundo a trajar vermelho no universo de Nós, tais indivíduos estão dispostos a machucar inocentes e morrer defendendo as insanidades nas quais acreditam. 

E, claro, o foco aqui é, obviamente, a trumplândia. Afinal, apenas para ficarmos em fatos recentes, foi lá que um homem abriu fogo contra fieis de uma igreja do Texas e onde carros foram jogados contra multidões durante uma manifestação em Charlottesville, no estado da Virginia.

Quando os duplos da família Wilson surgem pela primeira vez, sua apresentação vem acompanhada pela resposta de Red, oposta de Adelaide, para a pergunta “quem são vocês?”. A réplica? “Somos americanos”.

Nada mais direto e preciso, Jordan.

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*Texto originalmente publicado na versão on line da Revista Continente


terça-feira, 19 de março de 2019

O Retorno de Ben


Em O Retorno de Ben, a aceitação familiar 
perante um ex-viciado é colocada à prova



Quando o passado tarda a cicatrizar

Por João Paulo Barreto

A desconstrução gradativa das trajetórias pregressas de seus personagens é o ponto de maior atração entre o espectador atento e o roteiro de O Retorno de Ben, escrito pelo também diretor Peter Hedges. Na trajetória de um viciado em recuperação que volta para casa no dia de Natal para reencontrar sua mãe, irmãos e padrasto, o público conhece as feridas que aquele garoto causou aos seus familiares de modo a juntar os fragmentos de lembranças ruins e perceber como aquele retorno pode significar sentimentos bem mais díspares do que simples sorrisos de boas vindas.

Peter Hedges desenvolve seu texto de modo linear, sem a necessidade de utilizar flashbacks que ilustrem a dor daqueles personagens. Os fatos ocorridos são trazidos à tona de forma paulatina, fazendo-nos entender passo a passo quais são as farpas que aquele grupo de pessoas tem em torno do rapaz que voltou para casa.  As feridas citadas acima são evidentes em cada olhar de quem se dirige a Ben (Lucas Hedges), quando seu passado de traumas se evidencia no semblante de cada individuo que o reencontra. Trata-se de pessoas que tentam se reerguer após diversas batalhas perdidas. E o causador daquelas perdas insistentes está ali novamente.

Aceitação familiar colocada à prova

DESCONFIANÇA CONSTANTE

Essa opção acertada de contar sua história da ao diretor Peter Hedges uma aproximação orgânica com seu público. Permite ao espectador construir a compreensão daquela mágoa. No ato da mãe (Julia Roberts) ao esconder remédios que estavam à mostra no armário do banheiro passando pela desconfiança do padrasto ao prever os problemas que podem se repetir com aquela presença junto aos seus filhos pequenos. Todas as evidências que o filme traz nos levam a perceber como o vício em drogas, iniciado por conta de analgésicos receitados de forma irresponsável, maculou aquelas pessoas de modo a fazer com que a confiança delas no rapaz seja uma tarefa árdua. 

Até mesmo o modo como é apresentado o fato de que foram analgésicos a porta de entrada para o vício de Ben é trazida à tona de forma a tornar palpável a engenhosidade do roteiro de Hedges. Sem a necessidade de ilustrar esse acontecimento, o diretor prefere inserir um diálogo pesado entre a mãe de Ben e o médico atualmente senil que parece não se recordar do que aconteceu. Em apenas uma frase, todo ódio da mulher é derramado sobre aquele homem. Julia Roberts, inclusive, consegue um equilíbrio notável entre essa mágoa e momentos tenros, como quando encontra a mãe de uma namorada de Ben, que morrera em decorrência do vício e cuja responsabilidade cai sobre as costas do rapaz. São diálogos que se sobrepõem de modo contrastante e que demonstram como a doçura ainda pode ser capaz de vencer o amargor daquela vida.

O passado volta doloroso na lembrança de Ben

Quando aquele retorno de Ben passa a significar não somente a volta do garoto que busca pelo afeto de sua família no Natal, mas, sim, o deflagrar de novos problemas que as consequências de seu passado naquela cidade fria trazem à tona, é quando o desespero se evidencia. O Retorno de Ben, com seu final de quase desesperança, ilustra que a volta de alguém com tantas tormentas não será fácil. Em sua última cena, o título do filme é descrito de modo visceral. E a percepção do espectador é de que a estrada a ser percorrida será ainda mais longa para as pessoas daquele circulo familiar.


* Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 17/03/2019

segunda-feira, 11 de março de 2019

Capitã Marvel



Capitã Marvel vai além da ação ao destacar 
força de personagem feminina

Em tempos de xenofobia e racismo tão evidentes, 
Marvel Studios acerta ao levantar crucial discussão


Por João Paulo Barreto

O que poderia se render a um roteiro simplório e maniqueísta de bem vs mal (ou, pior, humanóides bonitos vs aliens lagartos feios), o texto por trás de Capitã Marvel, novo filme da Marvel Studios, acaba por gerar uma reflexão importante em tempos nos quais a política se tornou um instrumento abertamente utilizado para justificar atitudes racistas e xenofóbicas. Nesse estruturar de sua trama, o diálogo se torna o principal instrumento dentro do entendimento entre dois povos diferentes cuja sobrevivência de seu legado como seres vivos é meta para ambos. E é justamente neste pilar que o longa acertadamente se sustenta.  

Apresentando Carol Danvers (Brie Larson), ou apenas Vers, sua identidade alienígena, a militar Kree que luta para manter as fronteiras do planeta Hala livres dos Skrulls, uma raça de transmorfos, Capitã Marvel se ambienta em 1995, ano no qual, após uma luta contra os Skrulls, a capitã cai na Terra e segue em busca dos seres que também vieram parar no planeta. Como motivo para diversas piadas, a começar pelo local onde a jovem despenca (uma loja da Blockbuster, popular locadora de filmes em VHS), o ano no qual se passa a trama do filme rende muitas brincadeiras com o uso lento da internet naqueles primórdios da tecnologia, período no qual pagers anunciavam futuras mensagens instantâneas e leitores de CD player levavam alguns minutos carregando dados para leitura.

Força da personagem em um passado obscuro

Com essa ambientação, a obra dirigida pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck, aproveita diversas oportunidades para estabelecer um início para o já consolidado universo cinematográfico Marvel, apresentando elementos símbolos como o Tesseract que contém a uma das Jóias do Infinito, bem como figuras que se tornariam a cara daquele mesmo universo. Nesse viés, os conhecidos (e impressionantes) rejuvenescimentos que a Marvel já trouxe em outros filmes, aqui, traz versões de atores como Samuel L. Jackson e Clark Gregg, apresentados mais jovens de forma a criar para a trama diversas possibilidades de desenvolvimento com as origens de seus personagens, todas elas muito bem aproveitadas por Boden e Fleck, também creditados como roteiristas.

XENOFOBIA EM XEQUE

É pertinente observar como o filme, aproveitando o pilar inicialmente citado de basear-se na paranóia da desconfiança perante aquele que está próximo a você para criar uma reflexão acerca do preconceito, consegue gerar no espectador atento justamente essa análise de como esse medo do desconhecido, apesar de justificável em alguns aspectos, pode ser nocivo. E ainda no aspecto de criar reflexão, o longa traz a presença de duas personagens femininas cuja força e capacidade de sobressair-se em um ambiente comumente observado como masculino as tornam ainda mais fortes, principalmente ao colocá-las como modelo a ser seguido pela filha de uma delas.


Paranoia como ponto de desconfiança

Criando cenas de ação envolvendo aeronaves em cânions, algo que remete de modo satisfatório a perseguições em estrelas da morte, além de colocar a protagonista em voos solos que ilustram todo o poder e capacidade da protagonista, o aspecto visual de Capitã Marvel é de encher os olhos, tornando possível um entretenimento que ultrapassa os aspectos plásticos por conseguir unir efeitos especiais e argumentos de reflexão de forma orgânica, sem forçar lições ao espectador, mas permitindo-o pensar acerca do que lhe está sendo apresentado como algo além de um simples filme pipoca.

E, claro, iniciar seus créditos com uma bela homenagem a Stan Lee, recentemente falecido, com suas participações nas produções do estúdio ilustrando a sua logomarca é um bônus que fará muito fã das histórias em quadrinhos se emocionar. Como ele mesmo gostava de dizer, Excelsior!

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 11/03/2019

quarta-feira, 6 de março de 2019

Albatroz


Albatroz propõe um cinema que tira o espectador da inércia



Com roteiro de Bráulio Mantovani, filme de Daniel Augusto 

cria intricada e recompensadora trama para o público atento


Por João Paulo Barreto

No cinema nacional mainstream (com distribuição garantida e grandes selos de produção ilustrando os créditos iniciais na tela), são um tanto raras as obras que te desafiam além do clichê da comédia de costumes ou do pastelão global. Por isso, é com bastante atenção que a estrutura incomum de narrativa de Albatroz, filme dirigido por Daniel Augusto (Não Pare na Pista) e roteirizado por Bráulio Mantovani (Cidade de Deus e Tropa de Elite 1 e 2), deve ser observada pelo espectador que se aventure na sessão deste breve (90 minutos) e ótimo exemplar da  produção brasileira que entra em cartaz esta semana.

Com uma intricada trama que brinca com o senso de realidade do seu protagonista e, por consequência, com o do próprio espectador, Albatroz traz uma mistura de elementos narrativos num modo de construção que, gradativamente, derruba um a um os meios de decodificação que o público venha a aplicar na compreensão dos seus atos. Mas, não se assuste. O filme, ao final, se torna uma experiência recompensadora para os que se arriscam neste decodificar. Sem seguir a estrutura clássica de começo, meio e fim, e preferindo levar a audiência a visitar os acontecimentos de sua trama de modo a ela mesma construir aquele quebra-cabeça, a obra de Daniel Augusto acaba sendo um exercício que, em certo momento, beira o metalinguístico.

Simão e Catarina - Casal em conflito

FOTOGRAFAR SONHOS

Ao misturar realidade e sonho em seu roteiro, o escritor Bráulio Mantovani alcança um intento palpável na sua narrativa: o de manter o espectador diante de uma escolha idiossincrática do que ele está vendo diante de si. Não dando todas as respostas, Mantovani cede à audiência a opção de acreditar ou não naquilo que está vendo. Na trama, o fotógrafo Simão (Alexandre Nero), após ganhar fama mundial por registrar um ataque terrorista com suas lentes (e ser acusado de oportunismo pelo ato), decide largar o ofício e afirma estar interessado em “fotografar sonhos”. Neste novo rumo de Simão, o reencontro com Alicia (Andrea Beltrão), uma antiga namorada, acaba por causar um maior desequilíbrio na vida do homem. Alicia, que se tornou escritora e, agora, se propõe a registrar em livro a trajetória de seu relacionamento com o fotografo, decide ajudá-lo no intento de registrar sonhos.

É justamente neste ponto que passamos a entender a proposta de Albatroz como uma obra de sci-fi que não dá pistas fáceis ao seu público, inserindo conspirações dentro de pesquisas científicas de neurociência, figuras que remetem ao noir clássico (com a presença femme fatale de Alicia), e à proposta mais difícil: a de representar em imagens os delírios e sonhos de seu protagonista.  Para o diretor Daniel Augusto, a maior dificuldade residiu nesta representação dentro da linguagem do cinema entre o que era sonho e sua diferenciação da realidade. “O cinema já nasceu dividido. Há um aspecto que tem os Irmãos Lumiérè, que é um cinema mais documentário, mais ligado ao real, e tem um aspecto (Georges) Mélìès, que vai para o sonho, etc. Essa ideia do cinema que vai para o sonho atravessa a sua história”, explica.

Em seu aspecto visual, Albatroz acaba por ser muito bem sucedido no aspecto do delírio de seus personagens e o modo como este delírio se manifesta imageticamente para o público. Dentre diversas obras que vêm à mente do espectador, a de Michel Gondri, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, é a que se destaca. Mas Daniel faz questão de frisar outras. “Eu gosto muito do Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. É um filme de referência pra mim. Na vida, na verdade.  Mas, na história do cinema, outras obras buscaram essa representação. Você tem Cão Andaluz, você tem o Expressionismo Alemão, você vai ter de certa maneira o próprio filme noir impregnado pela fantasia, mas de uma outra maneira. Ou seja, isso atravessa a história do cinema.  É uma conversa com essa tradição, na verdade. De como fazer do cinema um sonho”, complementa.

Simão: tormenta após reconhecimento mundial

PAPEL VS. TELA

O diretor propôs o desafio dessa escrita ao roteirista Bráulio Mantovani. “Antes da ideia de Albatroz surgir, eu falei pra o Bráulio que gostaria muito de fazer um filme que pudesse ser interpretado de mais de uma maneira. Não só duas maneiras, mas de pelo menos três ou mais formas pelo espectador. Mas que fosse um filme que ao mesmo tempo o público não perdesse a atenção. Ou seja, que ele ficasse o tempo todo ligado no que estava vendo. Então, seria uma espécie de quebra cabeça. Como fazer um quebra cabeça, mas que o espectador no final chegasse a alguma conclusão? Mesmo que cada espectador monte essas peças de uma maneira diferente, já que as peças se encaixam em mais de um lugar”, explica Daniel.

Se para o diretor, a proposta de representação visual das linhas escritas por Mantovani era algo a instigar, para as atrizes Andrea Beltrão e Maria Flor era palpável a impressão de estar diante de uma matéria prima que renderia resultados surpreendentes tanto para a audiência quanto para elas mesmas durante o processo de dar corpo àquelas palavras. Andrea, que tem em Alicia uma presença de narradora daquela história e peça crucial nas respostas ao espectador, explica que não teve essa noção durante a criação de sua personagem. “O roteiro era não linear. Era todo desconstruído com uma narrativa dentro dele bem diferente. As cenas não se seguiam umas às outras em uma lógica, em uma coerência. Apesar, claro, de haver uma lógica própria do filme, o que é muito interessante. Mas, eu só fui perceber que a história passava pela narrativa dessa personagem, que é a escritora Alicia, quando o vi pronto. Antes, eu fiquei muito mergulhada em cada cena e não achava que o filme tivesse nessa personagem um peso como narradora. Achei que muito bom”, relembra Andrea.

Maria Flor, que interpreta Catarina, compositora de jingles e atual esposa de Simão, explica que o processo de mergulhar no roteiro de Bráulio foi algo singular diante de outras experiências. “Eu acho que o Daniel e o Bráulio conseguiram criar essa atmosfera para a gente, onde cada cena é como se ela se encerrasse nela mesma. Então, a gente não ficou criando personagens com uma psicologia complexa. Tentamos realmente entender e falar: ‘essa cena é isso aqui que a gente está contando’. E isso foi um exercício diferente, para mim pelo menos”, afirma.

Ao final, Albatroz acaba sendo uma oportunidade do espectador se desafiar naquele decifrar das pistas apresentadas pela obra. Um aventurar recompensador, friso.


*Matéria publicada originalmente no Jornal A Tarde, dia 06/03/2019