domingo, 27 de maio de 2018

Han Solo: Uma História Star Wars

(Solo: A Star Wars Story) Direção: Ron Howard. Com Alden Ehrenreich, Donald Glover, Woody Harrelson, Emilia Clarke.


Por João Paulo Barreto

Mais do que um reencontro com os símbolos marcantes de toda uma geração, como por exemplo, a nave Millennium Falcon e a figura de Chewbacca, ou ainda o reconhecer dos temas clássicos inseridos de maneira a salientar alguns enquadramentos clássicos, sensações estas que já havíamos experimentado com regozijo nos novos episódios da cronologia oficial de Star Wars, a aventura solo (com o perdão do trocadilho infame) envolvendo o contrabandista Han denota uma muito bem vinda apropriação dos diversos elementos e personagens deste mesmo universo junto a uma sagaz reinvenção dos mesmos.

Sim, reinvenção. De fato, lá estão as versões mais jovens de Han Solo e do capitão Lando Carlissian em 
situações inéditas das que vimos na trilogia original da saga criada por George Lucas. Mas, o que o roteiro escrito por Lawrence e Jonathan Kasdan alcança de modo primoroso ao reinserir tais figuras em uma nova roupagem não somente física, mas, também, de situações dramáticas, cativa o espectador por nos fazer perceber como é possível adaptar aqueles pilares da cultura pop para contextos cinematográficos diversos.

WESTERN ESPACIAL

A começar com a trama que acerta ao adaptar diversos elementos do faroeste clássico a uma história de ficção científica. Observar, por exemplo, um roubo de trem acontecer em um planeta de uma galáxia distante, ou o enquadramento estilo Sergio Leone na arma do anti-herói durante um duelo anunciado em um campo árido; ou, ainda, o salvamento de diversos prisioneiros de um local que remete a uma mina, torna o reconhecimento de tais pontos tão comuns nos westerns algo ainda mais notável naquela reimaginação.

(Re)Encontro icônico
Assim, Han Solo: Uma História Star Wars acaba sendo para o cinema uma prova de como essa arte pode ser cíclica. Há quarenta anos, quando Lucas criou os cavaleiros Jedi e toda sua trama envolvendo conflitos familiares que remetiam a Shakespeare, muito da fonte de originalidade que o cineasta usou residia no trabalho de Akira Kurosawa. Principalmente em Yojimbo e Os Sete Samurais, no que se refere principalmente às roupas usadas pelos personagens espaciais e nas suas motivações de ir de encontro a uma ordem tirânica representada por opressores. Inclusive, as duas obras japonesas citadas serviram, também, de inspiração para dois clássicos do faroeste, um feito nos Estados Unidos e o outro na Itália e Espanha. Logo, ao inserir elementos do genuíno gênero cinematográfico americano em seu trabalho, Ron Howard honra a proposta de legado trazida por George Lucas na trilogia original, além de conseguir dar ao seu próprio filme e protagonista uma roupagem western única em toda saga espacial, no momento composta por 10 longas.

Consolidada essa opção de estilo, fica para o espectador reconhecer a construção gradativa do caráter duvidoso do protagonista vivido por Alden Ehrenreich, que, apesar de se esforçar, não alcança o mesmo carisma de Harrison Ford, um ator também limitado, mas que conseguia se sobressair por basear sua atuação em um cinismo palpável. O roteiro dos Kasdan, entretanto, aposta na gradativa perda de ingenuidade do jovem Solo. Vamos conhecendo suas frustrações, o aprendizado do mesmo com os próprios erros e a consequente sagacidade nas decisões tomadas a partir dos próximos passos.

L3 e seu alívio cômico, mas reflexivo, no filme

Por outro lado, com o outro personagem já conhecido daquele universo, Donald Glover se destaca por inserir um humor contido nas falas do vaidoso Lando Carlrissian, algo que remete a uma insegurança que amadureceria até alcançar o status da persona de Billy Dee Williams na trilogia clássica. E com ele temos a oportunidade conhecer a figura robótica de L3, uma andróide falastrona que acompanha o capitão original da Falcon e que luta pelos direitos iguais entre homens e máquinas. Com seus rompantes de raiva e ironia, a robô traz alguns dos melhores alívios cômicos. Aliás, sendo este um filme que aborda muito da perseguição opressora do Império e a escravização de povos, é muito reflexivo e apropriado que a busca pela liberdade e um pensamento contestador quanto à exploração de classes surja prioritariamente de um ser artificial.

HAN ATIROU PRIMEIRO

Ainda em relação à construção do caráter de Han e seu senso de sobrevivência, o filme nos coloca como espectadores daquela gradativa perda de sua inocência. Claro que há a tão clichê frase “não confie em ninguém”, que desde sempre entrega quem a profere como um futuro traidor, mas no embate final entre Beckett (o sempre eficiente Woody Harrelson) e Han, o desfecho traz justamente a ideia de que o jovem contrabandista aprendeu bem a sua lição. E por mais que o velho George Lucas queira mudar o que sua versão jovem fez nos desafiadores anos 1970, Han sempre atirou primeiro para perguntar depois. Faz parte de sua natureza. E, aqui, tal natureza começa a se expandir muito bem. 

*Crítica publicada originalmente no Jornal A Tarde, dia 27/05/2018




segunda-feira, 21 de maio de 2018

A TARDE: Entrevista - Jonas Carpignano

O diretor Jonas Carpignano no set de Ciganos de Ciambra


Em Ciganos de Ciambra, o diretor ítalo-americano Jonas Carpignano nos apresenta à família Amato, um grupo de ciganos cujo principal objetivo é sobreviver a mais um dia. Dentre eles, está Pio, pré-adolescente a descobrir que sua realidade não é atrativa e seu futuro não será muito promissor. Pio não possui exemplos louváveis. Seu irmão mais velho, basicamente um ídolo a quem ele segue de forma cega, acaba de ser preso. Fica sob a batuta da criança ajudar no sustento da família repleta de irmãos e sobrinhos mais jovens. Quase como um Pixote, Pio não tem opções a não ser o delito. Rouba carros e fios de cobre para levantar qualquer dinheiro. Na figura paterna do amigo Ayiva (vivido por Koudous Seihon, parceiro habitual do diretor em vários filmes), um imigrante africano na Itália, o garoto encontra um norte. Mas nem mesmo aquela amizade o ajudará a escapar de seu destino que flerta com o trágico. Produzido por Martin Scorsese, Ciganos de Ciambra é um filme pungente e desanimador. Justamente por isso, tão fascinante. Candidato da Itália a uma vaga no Oscar desse ano, a obra traz ecos da filmografia do lendário cineasta. “Para mim, Caminhos Perigosos possui uma rima com Ciambra. As pessoas como produtos do seu ambiente em um aspecto trazido por Scorsese é o que me chama atenção. E foi muito bom ouvir isso dele mesmo”, afirma Jonas Carpignano em entrevista ao A Tarde. O filme está em cartaz no Circuito Sala de Arte. Confira o papo completo!

Por João Paulo Barreto


Seu filme traz uma atmosfera realista que encontra ecos justamente em um cinema clássico italiano. Em um perfil quase documental, você optou por trabalhar com não atores, pessoas que estão representando a si mesmas. Como se deu essa construção?

 
Sim, é como você disse. Isso vem de uma tradição do Realismo onde eu tentei criar uma verossimilhança. Tentei encontrar em cada pessoa a melhor representação deles como atores. A proposta era criar de forma acurada uma reimaginação daquele lugar no mais próximo possível da realidade daqueles indivíduos. A ideia era sempre usar o máximo de elementos possível do próprio universo deles para tentar representá-los no mais próximo de como eles vivenciaram aquelas experiências de vida no passado e que, agora, eu trouxe para o cinema. Mostrar a maneira como eles vivem em Ciambra. Não apenas com os atores representando a si mesmos, mas, também, com outros elementos. Nós os filmamos em sua própria casa, com eles usando as próprias roupas, os próprios veículos. Tudo vem daquele mesmo lugar. Até a música no filme. É a música que você escuta de verdade quando você está em Ciambra. A ideia era criar, era colocar o espectador em um lugar que realmente existe. E nós fizemos isso usando o máximo possível de elementos próprios daquele lugar. 

Pio e sua mãe: sobrevivência diária e conflitos

Nessa opção de usar uma família real, você  adentra na rotina dela, se vê dentro da sala de sua casa, registrando uma hora em que todos jantam, trazendo à tona brigas ou momentos de ternura. Foi difícil esse processo?

Para mim, como diretor, eu diria que aquela era a maneira como eu queria fazer as coisas. Eu não diria que foi fácil, mas fez com que eu me sentisse mais confortável , porque eu senti que seria mais fácil captar alguma coisa do modo como realmente aconteceu naquele lugar. Você exemplificou com uma cena ideal. Quando filmamos a cena do jantar, nós esperamos até a real hora do jantar e filmamos quando eles estavam comendo de verdade. Do mesmo modo, quando eles acordavam de manhã. Nós chegávamos lá bem cedo de manhã, e nos preparávamos para filmar enquanto eles estavam acordando. Para mim, não era fácil, mas era a maneira que eu queria trabalhar. Mas, obviamente, o processo não era apenas dirigindo os atores. Eu também dirigia a equipe técnica do filme. E isso era um desafio a mais. Porque, naquele ponto, eu precisava fazer a equipe se acostumar com o ideia de que aquele não era um set comum. Nossa rotina era mostrá-los acordando de manhã, tínhamos um intervalo depois de seis horas de trabalho, e continuávamos o trabalho por mais algumas horas. Por isso, a equipe tinha que ser pouco ortodoxa. Nós tínhamos uma rotina um tanto incomum. E isso dificultou um pouco às vezes porque algumas pessoas não sabiam necessariamente quando o dia de trabalho começava ou terminava. Nós tínhamos que convencer o grupo a se adaptar a esse outro ritmo, que não era a maneira com a qual eles estavam acostumados a trabalhar.

Seu protagonista, Pio Amato, possui uma química palpável com seu colega de cena, vivido por Koudous Seihon, que participou de todos os seus filmes. Como vocês planejaram essa abordagem a Pio, sendo ele uma criança e, também, um ator não profissional?

Eu e Koudous somos colegas de quarto já há sete anos. Nós moramos juntos. E Pio se tornou um amigo muito próximo à gente desde a primeira vez que eu estive na Ciambra. Então, acabou sendo uma evolução muito orgânica. Nós passamos muito tempo juntos. Nós gostamos de trabalhar juntos. A ideia de mostrar essa próxima evolução da amizade deles foi uma coisa que levou à outra. Eu nunca tive que escrever nada pensando nisso, pois foi algo que aconteceu naturalmente, uma vez que todos nós convivemos juntos. Eu apenas tive que transcrever o que estava, na realidade, acontecendo em nossas vidas. Acho que por isso essa naturalidade. Nunca foi algo que a gente realmente discutiu ou planejou inserir no filme. Mas nossas vidas têm essa proximidade. Logo, inevitavelmente, o que se vê representado no filme em relação àquela espontaneidade é o que na verdade acontece em nossas vidas. 

Koudous e Pio: química palpável entre atores

Martin Scorsese é produtor executivo do seu filme. Como foi a experiência de trabalhar com ele?

Obviamente (risos), como todo mundo, eu sou um fã do trabalho dele. O primeiro impacto que tive foi ouvi-lo falar sobre o meu filme. Ele fez com que eu me sentisse como um estudante aprendendo sobre meu próprio longa metragem (risos). Ele começou a explicá-lo para mim, como se estivesse me ensinando o filme. E, obviamente, quando ele fala, você escuta. Scorsese foi ótimo. Ele estava bastante interessando em falar não somente como um cineasta, como um editor ou diretor, mas ele queria falar, também, como um espectador. Ele comentou sobre o impacto emocional que o filme teve nele e que ele queria nos ajudar, ajudar o filme, levando os pontos emocionais em uma direção em que eles fossem mais eficientes. Por exemplo, a cena do jantar em família. Ele disse para mim: "Jonas, essa é a cena em que eu me sinto vivendo com aquela família. Eu não estou apenas observando-os. Eu estou vivendo com eles." Então, ele me aconselhou a dar àquele momento todo o espaço que eu conseguisse dar para que o espectador pudesse esquecer do fato de que eles estão assistindo a um filme. Esquecer do fato de que há atores na tela. Ele disse: "Faça-nos viver com eles para que possamos nos sentir lá, com eles, naquele jantar. E isso fará o final do filme muito mais emocional, muito mais impactante". Vindo de Scorsese, esse foi o melhor conselho que eu poderia receber, pois nos ajudou a maximizar a resposta emocional da audiência para com o filme. 

Falando em Martin Scorsese, é curioso observar alguns ecos de sua filmografia em Ciganos de Ciambra. Creio que o mais marcante é o de Caminhos Perigosos.

Sim, é verdade. Caminhos Perigosos possui diversas semelhanças com Ciganos de Ciambra. É um tipo de filme que traz aquele grupo de pessoas preso ao mundo que os rodeia, à vizinhança onde eles vivem. Todas as decisões que eles tomam são relacionadas ao meio. Observe Johnny Boy, personagem de Robert De Niro. Ele é muito mais um produto da Little Italy (bairro popular de imigrantes italianos em Nova York). E ele não consegue escapar. E se não quer escapar, é porque aquilo é tudo que ele conhece. E eu acho que aquela é a maior similaridade com a história de Pio. Mesmo que ele seja bem mais jovem que Johnny Boy, é inegável que ele é um produto do ambiente onde vive. Quando eu conversei pela primeira vez com Scorsese sobre Ciganos de Ciambra, a conversa logo seguiu para algo acerca dessa relação. 

É verdade que sua primeira aproximação com o lugar se deu por conta do seu carro ter sido roubado e você ter ido até lá para buscá-lo?

(Risos) Sim. Eu não quero comprometê-la com problemas, mas uma pessoa da família de Pio roubou meu carro. Encontrar um filme naquela circunstância é a prova de que, se você tem uma mente aberta, não existe esse negócio de uma experiência ser 100% ruim. Obviamente, foi estressante ter que fazer aquilo. Mas, por outro lado, uma ótima amizade surgiu de um dos momentos mais assustadores de minha vida, entende? Então, o que eu posso dizer é: mantenha seus olhos abertos, veja o que acontece e boas coisas podem vir.

*Entrevista originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 21/05/2018




sábado, 19 de maio de 2018

Deadpool 2

(EUA, 2018) Direção: David Leitch. Com Ryan Reynolds, Josh Brolin, Morena Baccarin, Zazzie Beetz.


Por João Paulo Barreto


Há uma sensação de déjà vu nesta sequência de Deadpool, sucesso absoluto de 2016 por conseguir unir em um mesmo blockbuster tudo aquilo que os fãs adolescentes mais deliram ao observar em uma produção que, de cara, já não se leva a sério: explosões, piadas de cunho metalinguístico, cenas de sexo e, no caso da Marvel, as extensões para a tela das brincadeiras entre a rivalidade do mercenário com Wolverine e aquelas que acabam com a concorrente DC Comics.

Tal déjà vu, infelizmente, fica mais direcionado para uma sensação de já termos ouvido aquela piada antes e, apesar de sorrir, a impressão de anedota velha acaba incomodando um pouco. No entanto, a continuação do longa anterior diverte, não me entenda mal. Mas o incômodo por notar uma franquia que se baseia em um único artifício temático não deixa de causar certa estranheza. Desde a primeira cena, quando vemos o anti-herói exibir uma estatueta que remete ao final de Logan, filme que encerrou a fase Hugh Jackman como o mutante de garras, percebemos que as próximas duas horas vão tentar ao máximo ordenhar aquela originalidade de dois anos atrás visando conseguir algum conteúdo que ultrapasse os tiros e mortes bem engendradas. Por enquanto, tudo bem. Mas um certo desgaste já começa, sem dúvidas, a se fazer notar. Dito isso, vamos lá.

GALHOFA HABITUAL

Livre das amarras de um filme que precisa contar ao espectador a origem de seu protagonista, Deadpool 2 se concentra na galhofa habitual do mascarado vivido por um cada vez mais à vontade Ryan Reynolds. Começando com uma trama até instigante, quando vemos o atirador em trabalhos acontecendo em diversos países, logo se apresenta a real ideia por trás daquele prólogo. Não somente uma piada hilária com o roteiro de Batman v. Superman, mas toda uma nova motivação para personagem se tornar ainda mais suicida. O que, diga-se de passagem, não é pouco.

Blind Al e as hilárias reconstruções físicas de Wade
Após isso, o filme se torna a desculpa habitual para as diversas referências ao universo Marvel no cinema que já vimos na primeira aventura. Aqui, porém, tais inserções conseguem se superar em alguns aspectos, como quando a ausência de outros membros dos X-Men é explicada de modo surpreendentemente criativo e engraçado, ou a capacidade de regeneração do mutante deformado é trazida ao foco de forma ainda mais hilária do que com o crescimento de sua mão decepada no longa anterior. Vamos apenas dizer que, aqui, são outros os membros a renascer e a referência à cruzada de pernas de Sharon Stone não deixa de acontecer. Ainda no campo das referências, o filme vai além ao trazer uma das melhores ao cult Digam o Que Quiserem, clássico da sessão da tarde com John Cusack. Levantar um rádio sobre a cabeça para pedir desculpas ganha outro conceito com Deadpool...

NOVOS PERSONAGENS  

No aspecto novos personagens, a equipe dos quadrinhos X-Force surge de modo espalhafatoso e tragicamente cômico, com uma presença piscou-perdeu de Brad Pitt, além das entradas breves de Terry Crews e Bill Skarsgård. Mas é na presença feminina de Zazie Beetz, da série Atlanta, na pele da mutante com o poder de ter sorte (?!), Domino, que está a melhor inserção do roteiro. Sem contar que ter uma mulher na equipe, atuando diretamente ao lado do anti-herói Deadpool, é a melhor desculpa para as diversas falas (bem situadas, friso) acerca de igualdade de gênero, a começar pela escolha do nome da equipe, que surge quando ele diz que X-Men é um nome muito machista.
Terry Crews e uma participação relâmpago de Brad Pitt surpreendem
No final, a percepção de um roteiro inferior ao do primeiro filme fica um tanto evidente. Por exemplo, faz falta um melhor desenvolvimento para o antagonista Cable (Josh Brolin, em mais um papel Marvel), além de apenas inseri-lo como um viajante no tempo em busca de evitar o assassinato de sua família pelo atual garoto protegido por Deadpool (em uma premissa sem muito conteúdo, vamos ser francos). Mas, já é esperado um filme solo para explicar o personagem, do mesmo modo um outro com a equipe X-Force.

Como bem disse o próprio mascarado tagarela em certo momento ao pensar na reunião de forças, “precisamos fazer essa franquia valer pelos próximos dez anos”. Bem, dando resultado, está. Resta saber até quando o mesmo truque irá funcionar.

*Crítica originalmente publicada no Jornal A Tarde, edição de 20/05/2018


domingo, 13 de maio de 2018

A Noite do Jogo

(Game Night, EUA, 2018) Direção: John Francis Daley e Jonathan Goldstein. Com Jason Bateman, Rachel McAdams, Jesse Plemons.



Por João Paulo Barreto

Original ao menos em sua premissa ao abordar uma diversão incomum entre adultos de meia idade que preferem passar suas noites envoltos a jogos de tabuleiro, trivia, adivinhações e desenhos, ao invés de entretenimentos mais de acordo com sua faixa etária e imposições do meio social (leia-se: a busca por álcool e sexo), A Noite do Jogo remete muito ao jovem clássico Vidas em Jogo, comandado há vinte anos por David Fincher e protagonizado por Michael Douglas, mas sem, aqui, o fator surpresa e tensão que embalava o filme de 1998.

A diferença no recente trabalho dirigido por John Francis Daley e Jonathan Goldstein (dois dos escritores por trás do novo Homem Aranha) reside no tom de comédia calcada em diálogos rápidos, além de pistas e recompensas que divertem o espectador ao perceber as piadas visuais que o roteiro apresenta (as gags envolvendo indestrutíveis mesas de centro funcionam bem, por exemplo). Ainda na relação com a obra de Fincher citada anteriormente, é a suspeita do publico em tentar descobrir se aquelas situações são reais ou parte de um jogo arquitetado que, até certo ponto, leva a trama para frente. No entanto, após um período, percebemos que A Noite do Jogo não necessariamente se aterá a essa premissa para contar sua história, que envolve o grupo de pessoas citado acima em busca de desvendar as pistas deixadas por Brooks (Kyle Chandler, dando uma pausa nos papéis densos) para seu irmão Max (Jason Bateman, exagerando nas caras e bocas) em um suposto jogo que envolve sequestro, tiros e perseguições.

O começo da percepção: algo não está certo nessa brincadeira

ESTRUTURA DE ESQUETES

Após apresentada essa narrativa, a comédia se torna justamente o que ela se propõe: uma série de quadros quase de esquetes nos quais cada dupla possui seu tempo individual em cena para fazer o espectador rir. Às vezes até conseguindo, como nas discussões entre Kevin e Michelle, casal junto desde a adolescência, mas que descobrem certa infidelidade em sua trajetória. A tentativa de Kevin em desvendar com qual celebridade sua esposa dormiu durante um tempo brigados causa risos, principalmente quando a possibilidade de ter sido Denzel Washington é levantada. Em outras vezes, tal química não funciona tanto, como na insistência em colocar o personagem de Billy Magnussen, Ryan, em uma constante demonstração de estupidez na suposta inteligência superior dos britânicos.

Somado a isso, o filme erra na longa duração de algumas de suas sequências, como quando é inserida uma cena totalmente inútil na qual Annie (Rachel McAdams, voltando ao timing cômico de meados dos anos 2000) tenta retirar uma bala alojada no braço de Max, ou em todo o desfecho da trama em um aeroporto.  McAdams, entretanto, é responsável por um dos melhores momentos do trabalho, quando, em um bar, repete a fala inicial de Pulp Fiction, deixando o espectador perceber a sagaz referência. Ledo engano, infelizmente, uma vez que logo em seguida o personagem de Bateman precisa gritar para o público de onde vem aquela fala, em clara insegurança do roteiro quanto à sua capacidade de se fazer entender. Em um filme com adivinhações como um dos temas, precisar explicar uma citação de forma tão óbvia é subestimar demais a inteligência de quem assiste. Curiosamente, o mesmo se deu no filme do Homem Aranha escrito pelos diretores, quando uma referência a Curtindo a Vida Adoidado é feita (e explicada com imagens).

Jesse Plemons, o ladrão de cenas

CASTING ACERTADO

A Noite do Jogo tem, porém, cartas na manga (sem trocadilhos) que surpreendem. Uma delas é a opção dos diretores em utilizar maquetes que, inicialmente, remetem aos jogos de tabuleiro para, só então, situá-las como cenários reais. Visualmente, uma excelente opção temática para o longa.

Outro acerto é a atuação de Jesse Plemons como um policial solitário e de comportamento passivo-agressivo. Os momentos em que ele aparece em cena se destacam. Com sua voz calma e cãozinho poodle à tira colo, a construção de seu Gary é o que de mais hilário a comédia tem a oferecer. Inclusive, observar a evolução desse jovem ator em momentos tão marcantes como as séries Breaking Bad e Fargo, ou o violento Aliança do Crime, além dos recentes trabalhos com Spielberg e o próximo filme de Martin Scorsese denotam uma cuidadosa escolha de carreira, aqui, salientada por um timing cômico que salva A Noite do Jogo.  



*Crítica originalmente publicada em A Tarde, dia 13/05/2018


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Baseado em Fatos Reais

(D'après une histoire vraie, França, 2018) Direção: Roman Polanski. Com Emmanuelle Seigner, Eva Green.


Por João Paulo Barreto

É no montar das peças a definir a personalidade doentia da escritora best-seller Delphine Dayrieux (vivida por Emmanuelle Seigner) que reside a captação total da atenção do espectador que assiste Baseado em Fatos Reais, novo trabalho de Roman Polanski, cujo roteiro foi escrito em parceria com o diretor Olivier Assayas. Muito além da simplória e clara percepção de um final um tanto previsível (algo que não chega a diminuir o filme, friso), o longa traz na análise das amostras dos elementos psicológicos que torturam física e psicologicamente sua protagonista seu maior trunfo. Passo a passo, o espectador atento vai observando as rimas temáticas e visuais daquele universo de introspecção ganhar reflexos reais na vida da própria escritora. E é justamente neste ponto que a obra de Polanski encontra sua força.

Vitima de um bloqueio criativo e torturada pelo trauma do suicídio cometido por sua mãe, cujo relacionamento acabou por se tornar tema do seu mais recente livro, a autora sofre um esgotamento psicológico que reverbera em sua própria sua própria rotina de trabalho. Incapaz de lutar contra a tela branca do computador, Delphine cede à curiosidade e decide se encontrar com uma fã que a abordara durante uma sessão de autógrafos. Misteriosa e invasiva, Elle (Eva Green, que usa bem a magreza e os olhares na sua construção) a atrai não somente por representar a figura enigmática que transparece, mas por ser uma crítica sincera de seu próximo livro, ainda em planejamento. Alguém capaz de agir além da condescendência e da admiração, apontando defeitos e pontos de melhoria. Rapidamente, a amizade entre ambas cresce e passa a ganhar contornos de uma dependência afetiva um tanto doentia, ao ponto de Elle se mudar para o apartamento e se auto-intitular sua secretária e a organizadora de tudo relacionado ao trabalho de Delphine.

A invasiva aproximação de Elle na vida de Delphine

BOWIE E O JOGO PSICOLÓGICO 

A partir deste ponto, passamos a observar um jogo psicológico que, apesar de por breves momentos se insinuar com tendências sexuais, logo percebemos se tratar de algo bem mais complexo. Em seu roteiro, Polanski e Assayas, a partir da obra escrita por Delphine de Vigan, constroem um mosaico de pistas que, como já dito, mesmo caminhando para um desfecho previsível, traz para o espectador uma série de ricos elementos que tornam o analisar daquela relação parasitaria entre Elle e seu ídolo um exercício brilhante. A começar pelo modo como, gradativamente, Elle se torna Delphine. A escritora, tomada por tamanha fragilidade física e emocional, permite que a jovem se apodere de tudo que lhe pertence. Desde a senha de seu computador (em uma clara alusão à capacidade intelectual da autora), passando por objetos pessoais, como uma caneca de café, até chegar a um dos elementos mais simbólicos daquele contato: uma camisa com a estampa de Blackstar, último disco que David Bowie lançou em vida.

Ao colocar a garota trajando aquela especifica peça do vestuário de Delphine, algo que representa não somente uma roupa que a autora usa em sua intimidade, mas um símbolo de sua personalidade e de alguém que tem como ídolo, Elle se apossa, também, dos gostos pessoais da mulher. E sendo tal elemento uma imagem que remete a um disco cuja canção título aborda justamente a possessão de uma pessoa quando esta vem a deixar o próprio corpo, bom, não há fragilidade em qualquer desfecho de história que consiga tirar o mérito de tal construção do roteiro de Polanski e Assayas.



RATOS NA CABEÇA

A luta psicológica entre as duas mulheres caminha, assim, para um choque doloroso, com a violência dos atos de Elle contra a escritora extrapolando qualquer suposto cuidado que a mesma venha a possuir no socorrer da convalescente mulher. Porém, neste embate, Polanski e Assayas ainda encontram espaço para mais uma eficiente metáfora retratando o modo aquele relacionamento representa, na verdade, uma autossuperação para Delphine. O momento em questão refere-se à fobia com os ratos existentes em um porão, contra os quais Elle demonstra pânico e total incapacidade de lidar. Tal comportamento leva a própria escritora, doente e incapaz de se mover normalmente, a descer ao local para depositar veneno e armadilhas, em uma clara alusão ao mergulho que a mesma tem de fazer em sua própria psique para resolver aquele conflito.

Mesmo reconhecendo a fragilidade de uma já esperada surpresa final em sua história, observar essas nuances no roteiro de Assayas e Polanski, juntamente com o significado masoquista dos atos da protagonista e o modo como ela mesma consegue superar aqueles conflitos internos, tornam Baseado em Fatos Reais uma experiência das mais satisfatórias.


*Crítica originalmente publicada em A Tarde, dia 11/04/2018







quinta-feira, 5 de abril de 2018

Um Lugar Silencioso


(A Quiet Place, EUA, 2018) Direção: John Krasinski. Com Emily Blunt, John Krasinski, Noah Jupe e Millicent Simmonds.



Por João Paulo Barreto

Há na direção de John Krasinski para Um Lugar Silencioso algo perceptível desde os primeiros momentos do filme até o seu clímax eletrizante. O que percebemos no olhar do diretor é uma leveza na construção de sua trama. Mesmo produzida por Michael Bay, a obra não possui sequer um traço da mão pesada e da megalomania do diretor de Transformers na intenção de impressionar o espectador no que tange aos aspectos visuais e/ou sonoros. Não há uma montagem com cortes rápidos ou sustos fáceis, tão comum na leva recente de filmes de suspense e terror, por exemplo. Aqui, apesar de ter o som como principal instrumento narrativo, o que Krasinski busca não é manipular o espectador com barulho repentino no intuito de ampliar impacto, para usar uma expressão mais de acordo com o que Michael Bay faria.

O que o diretor de Um Lugar Silencioso encontra em seu filme é um modo de nos convidar para aquele universo de dor, conhecendo a fundo aquela família despedaçada pela perda e pela necessidade de seguir adiante. E ao conseguir tal proeza em exatos 90 minutos, ok, isso denota uma muito bem vinda ausência de ego inflado, comum em diretores habituados a inchar seus filmes quando os mesmos não possuem muito a dizer e quando qualquer mensagem poderia ser transmitida em uma hora e meia, no máximo. A moldura do terror, aqui, serve justamente como isso. Algo que circunda uma família cujo trauma e dor da perda ainda tão recente parece significar apenas um prelúdio para o que ainda de pior está por vir. 

Lee diante de uma tragédia anunciada

Seguindo uma narrativa enxuta, mas repleta de simples elementos ilustrativos que remetem a um futuro pós-apocalíptico, reconhecemos na tela diversos artifícios criados pelos habitantes daquele mundo silencioso para se esconder das cegas, porém aguçadas, criaturas assassinas que os perseguem. Desde as trilhas de areia ou o fato de todos os personagens estarem sempre de pés descalços, passando pelas marcas artificiais pintadas no chão da casa sinalizando os locais seguros onde o piso não range, e até mesmo as luzes que iluminam a noite do rancho onde vivem Lee (vivido pelo próprio diretor), Evelyn (Blunt), e as crianças Marcus e a deficiente auditiva Regan (a pequena atriz, e surda na vida real, Millicent Simmonds). Estes dois últimos, inclusive, desenham uma sagaz homenagem do diretor à obra do escritor Stephen King, As Crianças do Milharal.  Todos esses elementos visuais demonstram um esmero brilhante que a produção possui nestas inserções sem a necessidade de explicá-los ao espectador. Um palpável respeito à inteligência do público. 

SOM COM SOBRIEDADE

Em um filme cuja trama gira em torno do som, Um Lugar Silencioso, claro, valoriza ao máximo a sua diegese, sons que naturalmente são oriundos dos ambientes onde se passa a sua história. Mesmo não sendo novidade para o cinema o uso sóbrio dessa valorização dos efeitos sonoros (ou da ausência deles) no intuito de amplificar a tensão para o espectador, aqui, tal artifício se torna crucial para estabelecer o ambiente sufocante que a construção do roteiro elabora de modo gradativo. 

Logo, se temos no uso dos sussurros um modo de perceber a cumplicidade daquela família, é no grito libertador que uma personagem solta durante um momento de dor que a permite salvar a sua vida e a de seu bebê que encontramos um extravasar não somente da tensão diante da sua fuga, mas, também, da nossa perante aquele presenciar terrível. E quando encontramos uma rima temática entre o mesmo ato de gritar visando uma entrega egoísta e suicida, e a ação idêntica sendo cometida por razões bem mais nobres, bom, resta a percepção de que estamos diante de uma obra singular.

O brilhante uso da cor vermelha nas luzes a denotar o perigo iminente

O resultado é um filme enxuto, redondo, com um final ao mesmo tempo perturbador, angustiante e redentor, que consegue captar a atenção do seu público de forma honesta e direta. Que mais trabalhos possam surgir nesse mesmo nível. O cinema de gênero agradece.



*Crítica originalmente publicada em A Tarde, dia 08/04/2018



quarta-feira, 4 de abril de 2018

Jogador Nº 1

(Ready Player One. EUA, 2018) Direção: Steven Spielberg. Com Tye Sheridan, Olivia Cooke, Mark Rylance, Ben Mendelsohn.


Por João Paulo Barreto

Sendo um dos principais representantes da geração dos Baby Boomers, movimento involuntário liderado por diretores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, George Lucas e William Friedkin, dentre outros jovens que, na década de 1970, com pouco mais de 30 anos de idade, viriam a mudar todo o modelo de produção do cinema estadunidense, é curioso observar o modo como Steven Spielberg, hoje um titã dessa mesma indústria, revisita em Jogador Nº1 diversos símbolos culturais daquela década, das posteriores e da Sétima Arte como um todo, alguns destes, inclusive, sendo ele mesmo o criador. O que temos em seu novo trabalho é a prova de que Hollywood admitiu não possuir mais histórias originais. E, à frente disso, um dos mais originais criadores de sua história. A prova disso é o mergulho em elementos anteriores e o reinventar destes mesmos símbolos que testemunhamos aqui. Não me entenda mal. Isto é, sim, um elogio.

Baseado no livro de Ernest Cline, também co-roteirista, o longa é uma ode a paixão pela cultura pop que alimenta milhões de pessoas. Sejam estes elementos oriundos dos vídeo games, dos quadrinhos, da música ou dos filmes, não importa. É sublime vê-los surgir na tela do cinema na história de Wade, o jogador do título, que, sob a alcunha de Parzival (em uma ótima referência ao cavaleiro do Rei Arthur que segue em busca do Santo Graal), vive em um jogo virtual na corrida para decifrar os desafios propostos pelo criador daquele universo, o misterioso Anorak, um já falecido mestre da programação e aficionado por cultura pop interpretado com carisma pelo novo parceiro de Spielberg, o ator inglês Mark Rylance.

Tye Sheridan vive Parzival, o jovem em busca do Graal do mundo virtual
Listar as referências que a obra faz a diversos marcos surgidos a partir dos anos 1970 e 1980, como os jogos do Atari, filmes definitivos como O Iluminado (em um dos momentos mais sublimes da produção), a trilogia De Volta para o Futuro (com direito ao uso do Delorean e da música em um timing preciso), o pilar da animação japonesa, Akira, ou, ainda, nos mais recentes anos 1990, com o trabalho do próprio diretor, Jurassic Park, talvez seja um exercício desnecessário aqui. No entanto, para alguém que viveu boa parte daqueles surgimentos e olha para trás com certa nostalgia, o mais apropriado é entrar na sala preparado para aquele mergulho na memória. Para os mais jovens, a imersão ainda pode ser plena, apesar de requerer certo afinco no reconhecimento de vários pontos. Ao usar elementos que ele mesmo criou, o que Steven Spielberg propõe aqui é mais do que autofagia, friso. Ao se autoparodiar com uma cena de um dos seus blockbusters, por exemplo, o cineasta se reconhece como parte essencial daquela mesma cultura que, junto com seus parceiros da revolução em Hollywood de quase cinquenta anos atrás, consolidou um novo caminho criativo e, por consequência, uma nova indústria que foi diretamente responsável por boa parte do que vemos aqui.

Trata-se de uma ficção científica a abordar um futuro bem próximo. Ao criar a realidade de Columbus, a megalópole décadas à frente do nosso tempo, mas que, ao invés de trazer casas high techs, mostra aglomerações de pessoas morando em containeres suspensos, quase que em versões futurísticas de favelas, o visual do longa denota justamente a reflexão de que o futuro proposto por diversos filmes (muitos deles homenageados durante a projeção) deixou de ser plausível.  Aqui, as massas populosas e os problemas atuais de moradia se tornam evidentes.

Assim,em sua essência, Jogador Nº 1 traz não somente um resgate nostálgico de elementos que marcaram uma época. Nostalgia pode ser um best seller nos dias atuais, mas seria manipulador usar tal fator apenas para entreter audiências e fisgar bilheterias. Mais do que isso, o que o longa propõe de modo preciso é uma reflexão acerca dos dias atuais, da solidão entre pessoas reféns de redes sociais, de focos mais dedicados a telas de celular e computadores, e menos ao rosto de quem está do seu lado. A imersão virtual acaba por se tornar nociva. O que o roteiro filmado por Spielberg discute pode parecer simplório, mas observando o principal público que seu longa atingirá, a mensagem se faz mais do que necessária.  E se com ela o que temos de brinde é uma homenagem aos melhores símbolos daqueles dias mais simples e sem realidade virtual, que assim seja. Saudade do meu Atari...

O futuro caótico em que a aglomeração urbana se torna evidente: tempo presente
Crítica originalmente publicada em A Tarde, dia 04 de abril de 2018



terça-feira, 3 de abril de 2018

O Filho Uruguaio - Crítica e entrevista com diretor e elenco


Os atores Ramzy Bedia, Maria Dupláa e o diretor Olivier Peyon em visita ao Brasil

Há em O Filho Uruguaio, filme do francês Olivier Peyon, diversos momentos que se sobrepõem à, digamos, “simples proposta” de reencontro entre mãe e filho após anos desde o último contato, tema já bastante abordado no cinema. A criança, levada pelo pai uruguaio para o país da América do Sul, nasceu na França, onde viveu seus primeiros anos com ele e com a mãe, Sylvie (vivida de modo estóico por Isabelle Carré). Após o divórcio, o homem traz o garotinho para o Uruguai, onde cresce acreditando que sua progenitora está morta.

Renegando a língua francesa para se comunicar apenas em espanhol, como em uma tentativa de se desconectar de qualquer laço que possua com a mãe, Felipe visita seu túmulo, onde costuma conversar em francês com a lapide, em uma das belas rimas temáticas que o longa possui. Na fuga de sua introversão quando se refere à falta que a mãe faz, o pequenino se reserva àqueles momentos de intimidade para se aproximar de Sylvie da maneira como ela poderia entender em sua língua mãe.

Ao voltar para o Uruguai em busca de Felipe, no entanto, Sylvie o descobre órfão de pai. Retirá-lo do convívio de sua avó e tia, vivida por Maria Dupláa, seria ainda mais traumático, principalmente pelo modo como ela planeja fazê-lo, o sequestrando com a ajuda do amigo Mehdi (o comediante francês Ramzy Bedia, aqui em um belo papel dramático).

O Filho Uruguaio acaba por trazer mais do que um reencontro e um choque de reconhecimentos. Em sua singeleza, a obra de Olivier Peyon se torna um exercício de rimas tanto temáticas, como visuais, como aquela que vemos Sylvie sozinha em um parquinho infantil ouvir a voz do seu filho ao telefone, enquanto este joga futebol em um campo distante de onde ela se encontra. Ou ainda quando a vemos escalar um brinquedo neste mesmo parque em uma clara tentativa de alcançar fisicamente aquele menino triste e confuso que se encontra no alto, mas, também, uma tentativa de alcançá-lo como filho.



Na entrevista abaixo, conversei com o diretor Olivier Peyon e com os atores Ramzy Bedia e Maria Dupláa acerca do projeto. Confira o papo!

Olivier, há no seu filme um encontro de línguas distintas, com atores e atrizes de países variados. Como diretor, como foi lidar com essa variedade em sua seleção de elenco?

OLIVIER - Para mim, a questão principal não era a nacionalidade deles. Era sobre todos os atores, sejam franceses, argentinos ou uruguaios. Eles eram bem diferentes, calro, mas não por causa de suas nacionalidades, mas, sim, porque eles tinha experiências anteriores bem diferentes. Era um grupo de atores e atrizes de diversas partes do mundo, Ramzy (Bedia) vem da França, do mesmo modo que a Isabelle (Carré) e Maria Dupláa vem da Argentina. Era um choque de personalidades e era com isso que eu tinha que lidar. Eu não me lembro ter qualquer tipo de choque cultural com o filme, exceto a equipe técnica do Uruguai, que tinha um ritmo mais particular e eu era mais... (faz uma expressão de durão). E com eles eu tinha que correr mais, sabe? Mas não eram tão diferentes. De fato eu acho que nós estávamos fazendo o mesmo filme. Foi por isso que eu decidi ir para o Uruguai, pois eu queria trabalhar com Fernando Epstein (produtor executivo do filme), porque, quando eu o conheci um ano antes das filmagens, eu percebi que era a melhor decisão para fazer o filme, pois nós tínhamos as mesmas ideias relacionadas a cinema, nós estávamos fazendo o mesmo trabalho. O primeiro rascunho do roteiro foi escrito junto a um diretor argentino. Eu escrevi algumas versões em Buenos Aires. Mas, finalmente, quando fomos fazer o filme, o orçamento ficou muito caro na Argentina. Então, quando eu conheci o Fernando, nós acabamos por ter as mesmas ideias em relação a uma produção independente e em como lidar com essa realidade de um orçamento baixo. Essa foi uma das razões para eu decidir filmar no Uruguai.

Houve mudanças no roteiro por conta disso?

OLIVIER - Inicialmente, no primeiro rascunho, a história ainda era na Argentina. Passava-se em uma pequena cidade de lá e a fronteira era com Iguaçu, entre Argentina e o Brasil. E eles teriam que vir para o Brasil. Então, quando decidimos filmar no Uruguai, eu não queria ter que precisar desse deslocamento por conta dos custos.  Mas eu precisava de dois países na história. Inicialmente, era Argentina e Brasil, depois, por conta do orçamento, o roteiro mudou para Uruguai e Argentina.

Maria, como foi a experiência de trabalhar com Ramzy e Olivier?

MARIA - Foi a pior experiência da minha vida (risos). Não, não, não. Não é verdade. Ramzy foi um grande parceiro. Ele me fazia rir muito. Eu não sabia falar francês. Eu aprendi apenas as minhas falas para o filme. Então, se eu queria improvisar alguma coisa, era muito difícil porque eu não sabia francês. E por isso acabou sendo difícil.

OLIVIER – Ramzy, na França, costuma improvisar bastante. Ele atua em shows de stand up comedy e costuma improvisar muito.

RAMZY – Em todos os meus filmes, eu costumo ser muito expansivo. Mas não dessa vez. Como comediante, após fazer uma cena, eu tenho uma ideia se ela foi boa ou não. Após ele dizer “corta!”, eu sei se a cena foi boa ou não.  Com Olivier, eu não tinha como saber, uma vez que não era uma comédia que fazíamos. Ninguém estava rindo (risos). Eu não tinha como saber. Então, era algo que eu tinha que experimentar.

OLIVIER – Ele tinha que confiar em mim. Mas antes das gravações, nós não nos conhecíamos. Então, foi uma evolução passo a passo. Mas agora... (neste momento, diretor e ator se abraçam entre risos).

Vocês não se conheciam antes? Como foi a escolha de Ramzy para o papel?

OLIVIER - Foi por conta de Isabelle Carré, que interpreta Sylvie no filme. Ela nos apresentou. Na França, Ramzy é bem famoso como comediante.

RAMZY – Ah, sim, bem famoso. Um astro, mesmo.  (risos)

OLIVIER – Sim, um astro da comédia. Claro que sim! Eu havia visto um trabalho dele em um filme independente francês. Um drama. Então, ali soube que ele estava pronto para meu filme.

Ele não era sua primeira escolha?

OLIVIER - Não. Os produtores queriam Ramzy, pois na França ele era famoso, mas, ao mesmo tempo, eles estavam inseguros, uma vez que ele era um comediante. Sempre perguntando se eu estava seguro da escolha. Mas eu não tinha dúvidas.

A camaradagem entre colegas que se reflete no resultado final do filme

O filme traz uma sensação de vida simples, principalmente com o personagem do garoto. Algo mais bucólico, mais simples. Há muitos filmes no Brasil, Argentina, Uruguai, mas o ponto de vista nunca é tão otimista como o seu mostra. Então, foi uma surpresa para nós que uma pequena cidade como Florida tivesse uma visão tão idílica. E isso é algo que o roteiro valoriza. Isso estava na sua construção desde o começo?

OLIVIER – Você tem razão. Nós estávamos buscando por uma cidade bem pacífica, então quando chegamos ao Uruguai, buscamos um lugar bem idílico. Mas eu não queria que fosse algo folclórico ou clichê. Então, em Florida, fomos a vários locais reais que serviram como set. A delegacia, por exemplo. Algumas personagens são pessoas reais da cidade, como o padre, por exemplo. Um dos policiais, também. Nós selecionamos um elenco real com as pessoas de lá. Quando encontramos a cidade de Florida, acabamos por reescrever o roteiro para a cidade. Por exemplo, as cenas no rio. Nós as inserimos no roteiro por conta da cidade. Para criar essa impressão idílica e refletindo na felicidade do garoto naquele lugar. Algo que, aos poucos, Ramzy vai percebendo.

O desenvolvimento da personagem de Ramzy no roteiro é perceptível, uma vez que suas intenções mudam no decorrer da história. Ele chega a Florida concordando com os princípios de Sylvie, cuja agressividade destoa da calma de Ramzy. O roteiro sempre teve o ponto de vista de Mehdi 
(Ramzi) como inicial?

OLIVIER – A personagem da mãe, realmente, não era muito simpática (risos). De fato, o filme é feito pelo ponto de vista do personagem de Ramzy. No inicio, quando ele chega à cidade, ele conhece o garoto e vai percebendo como a criança é feliz naquele lugar. É quando ele começa a se perguntar se deve realmente tirá-lo dali.  E o mesmo acontece com o espectador. Sobre a agressividade de Sylvie,  essa característica da personagem foi uma das razões para que Isabelle aceitasse interpretar o papel. Pois não era um personagem clichê. Sylvie, sua personagem, não é uma pessoa simpática. Ela é um pouco louca. Eu disse a ela: você não tem tempo de ser educada. De ser gentil. Você precisa ser dura.


Eu gostaria de perguntar sobre uma cena especifica em seu filme que é quando Mehdi (Ramzy) liga para Sylvie (Isabelle) e ela pede para que ele coloque o telefone de forma que ela escute a voz do filho que brinca no campo de futebol. Para mim é uma bela rima visual, uma vez que coloca a personagem dela sozinha a ouvir a voz do seu, filho enquanto ela mesma está em um playground.  E a mesma rima volta a acontecer quando, no final, ela escala o brinquedo onde o filho está.

OLIVIER - Claro. Há ali uma intenção. No entanto, quando você escreve o roteiro, as ideias surgem e elas nem sempre têm essa correspondência. Quando você vai em busca de locações, isso acontece. É quando essas ideias surgem. Mas, claro, eu buscava esse tipo de correspondência. Esse eco. Quando nós estávamos em Montevidéu, nós vimos esse parquinho para crianças. E estava vazio. Era um parque para crianças, mas não havia nenhuma brincando lá. Eu observei aquilo e percebi uma beleza no contraste de Isabelle (Carré) sozinha, ali, ouvindo e imaginando-o a brincar com os amigos do outro lado da linha.

Para mim é a mais bela cena do filme, pois ela se vê tão próxima do filho, mas, ao mesmo tempo ela está tão distante dele.

OLIVIER – Eu espero que o espectador tenha essa mesma impressão,

RAMZY – É a primeira vez que eu entendo essa cena. Do que você realmente estava falando com essa cena, Olivier. Você é um gênio. (gargalhadas)

OLIVIER – Ao seu dispor, Ramzy (risos). Bom, sobre isso, às vezes, quando você está escrevendo, você pensa que aquilo pode ser exagerado. Você não sabe se algo pode ser exagerado, essa metáfora. Então você precisa achar uma maneira de filmar isso de um modo que não seja clichê. Quando você escreve uma cena como essa, com ela no meio de um parquinho para crianças, sozinha, alguém pode ler e achar aquilo muito óbvio. Então, você precisa achar uma maneira de filmar aquilo de forma tenra. Nessa cena, o espectador vai descobrindo aos poucos que ela está em um parquinho. Essa era a ideia. Tentar usar de modo tenro a relação daquele lugar com ela.

Sylvie (Carré) sozinha após ouvir a voz do filho depois de anos

Como foi o trabalho de dirigir crianças?

OLIVIER - O garoto, Dylan Cortes, é de Montevidéu. Ele era muito profissional, com experiência no palco e com comerciais. Ele chegava a ser profissional até demais em alguns momentos (risos). Nós tínhamos que buscar uma inocência nele, tinha que buscar por sua ingenuidade. Isso porque ele era um ator que sabia exatamente o que fazer. Eu acredito que um ator infantil consegue se sair melhor em uma performance quando você não o trata como criança. Então, com ele acabou sendo fácil

E teve o uso do futebol que tornou as coisas mais fáceis, por ser uma linguagem universal.

OLIVIER – Sim. E nas cenas na caminhonete, todos eles pareciam muito naturais. Não era improvisação, pois sabíamos o modo como queríamos filmá-los. Mas a forma como Ramzy se aproximou deles, brincando sobre ser melhor jogador que todos eles, foi algo natural, que os deixou bem à vontade.

RAMZY – Sim.  Mas, também, foi muito estranho para mim me colocar naquela posição de ficar seguindo as crianças de carro, como um predador. Durante as filmagens, quando tinha pausas, eu sempre dizia isso ao Olivier. “É muito estranho essa situação. As crianças não me vêem. Eu fico as seguindo, me escondendo.” E ele dizia: “Confie em mim.” E ele estava certo.

Mas o seu personagem não estava confortável com aquela situação.

RAMZY – Exatamente. Não estava. Também não era muito natural para mim atuar daquela maneira. Porque eu estava muito desconfortável com aquilo.

Maria, fazer um filme como este, que tipo de portas você espera que abram para sua carreira?

MARIA – Espero que todas. (risos). Na verdade, não é a primeira vez que faço um filme voltado para o público estrangeiro. Mas é a primeira vez que atuo em um filme falado em parte em outro idioma. E esse foi um grande desafio. E a verdade é que eu não falava francês antes do filme. Eu aprendi especialmente para esse papel. Então, posso esperar por algumas criticas em relação ao idioma. Em algum ponto, isso me mostra que posso me preparar para um personagem, mas também que quando um autor quer que eu fale em outro idioma, eu vou ter que falar. Eu tenho que aprender e fazer. E nesse sentido isso me abriu outras portas para poder encarar esses desafios. Eu me sinto mais confiante.

Maria, seu personagem começa o filme como uma pessoa carinhosa com o sobrinho, amável. De um momento para o outro, você precisa mudar totalmente para uma pessoa egoísta e um tanto agressiva. E isso acontece tão rápido. Como foi essa mudança?

MARIA - Foi difícil. Por um lado, a construção do personagem foi muito discutida com Olivier, pois na criação do casting, ela era diferente do que acabou sendo. Ela seria alguém tinha mais ou menos quarenta anos, e falava muito bem francês. Que teria uma aproximação maior para uma atriz francesa. Quando ele decidiu que eu iria interpretá-la, não somente mudou a idade da personagem, como também mudou muito o idioma. E ela acabou sendo originária de outro lugar. Por um lado é isso. Por outro é que o personagem de Maria, para mim, é o mais fascinante no filme. Pois ele é o único que muda realmente durante todo o roteiro. É o único de todos os personagens que não tem todas as informações. É o único que não sabe toda a verdade.  Por isso que ela tem essa reação. Pois ela percebe que todos mentiram, todos sabiam de algo, menos ela. E isso acaba por mudar sua vida. E ela fica sem ação, sem saber o que fazer. Acaba  sendo algo bonito no personagem. Porque a torna humana. Essa mudança repentina, quando ela não sabe o que fazer, mas que, finalmente se dá conta que não era esse o caminho correto a se tomar. Ela percebe que seu sobrinho merece conhecer a mãe. E foi isso o que mais me pareceu fascinante no personagem. Essa mudança.