sábado, 18 de abril de 2020

Brincante - O Filme | Papo com Antonio Nóbrega

Lúdico Necessário 



CINEMA EM CASA Liberado gratuitamente no YouTube, Brincante, filme de 2014 dirigido por Walter Carvalho e com o multiartista Antonio Nóbrega, ganha ressiginificação e traz luz a tempos tão sombrios 

Por João Paulo Barreto

A necessidade do lúdico nunca foi tão essencial. Não como uma simples fuga de uma realidade que parece querer nos estilhaçar psicologicamente dentro dessa apreensão em torno do nosso futuro, afinal, nenhuma fuga é capaz de nos fazer esquecer o que atualmente nos assombra. Mas, sim, como uma espécie de paliativo. Algo que sirva como um breve momento de alivio diante de tantas más notícias e presságios sombrios a nos ameaçar. Foi com essa sensação de leveza momentânea que revisitei, após seis anos, Brincante – o Filme,obra de Walter Carvalho acerca do projeto cultural liderado pelo multiartista Antonio Nóbrega.

E a impressão de adentrar em uma realidade de leveza que nos tira dessa gravidade da atualidade se confirmou em cada um dos breves 90 minutos do filme, que foi disponibilizado gratuitamente no YouTube, no canal do Instituto Brincante, essa semana. Para acesso direto, basta buscar por Brincante – O Filme íntegra.

Antonio Nóbrega em cena de Brincante

OUTROS CONTORNOS

A ressignificação que a obra nos traz seis anos depois de seu lançamento comprova a importância da arte popular em tempos nos quais ela é abertamente negada por aqueles que detêm os mecanismos políticos de propagação cultural. O desânimo nesse sentido e a vontade de mergulhar nesse lúdico vêm forte quando lembramos disso. Quando lembramos que, há poucos anos, havia um Brasil que tinha uma valorização maior destinada ao cinema, à dança, às artes plásticas, ao circo, à música popular, à arte mambembe, ao cordel, à poesia, onde projetos de difusão de tais expressões possuíam um espaço em planejamentos, ao invés de serem esculachados por interesses mesquinhos de projetos pessoais de política. É quando, mesmo sem querer, voltamos ao real.

Tal real, repleto de tempos acelerados, regidos por uma necessidade estranha de constantes conexões virtuais, nos afasta da introspecção necessária à reflexão. “Escutai com silêncio e atenção o momento imortal da criação. É o mundo que recomeça agora”, afirma Tonheta, personagem de Antonio Nóbrega logo nos minutos iniciais de Brincante. É quando saímos da constante pressa desse mundo, no qual telas de celular e metas de “likes” se tornam obsessões. Em Brincante somos levados a um mundo de desaceleração e apreciação. A dança, a música e os sorrisos adentram a grande metrópole, que rima com a simplicidade das pequenas cidades. “As redes sociais tomam um tempo bastante grande nosso. Às vezes desmensurado. E nós ficamos até um pouco atônitos, sem saber como responder a elas. Há momentos em que pensamos em negá-las completamente. Isso ocorre muitas vezes quando estamos sendo excessivamente requisitados,” opina Antonio Nóbrega.

Tal busca por uma menor velocidade no absorver de informações precisa chegar a adultos e crianças. Estas, sim, ainda sem a consciência do que é um tempo menos frenético, capaz de ser encontrado em expressões artísticas, requerem um atenção maior. “A gente quer restituir à criança uma cultura que seja mais compatível com a sua idade física e com a sua idade mental. É provável que o uso do celular traga ganhos em algum sentido. Mas é também muito provável que ele traga perdas. E essa equalização é que consiste na luta que todos nós temos de tentar empreender para ver como colocamos tudo isso nas nossas vidas de uma forma menos agressiva e menos dominadora”, explica Antonio Nóbrega.

A arte como fuga lúdica dentro de uma realidade

PROJETOS BRINCANTES

Além do filme já disponibilizado no canal do Brincante no YouTube, a partir de amanhã, dia 20, e seguindo até o dia 29, sempre às 19h, um total de 40 aulas de música, dança e poesia serão disponibilizadas no mesmo canal. No site do instituto (institutobrincante.org.br), contribuições voluntárias podem ser feitas para ajudar na manutenção do local atualmente fechado por conta da pandemia.

“Nós nos dedicamos principalmente ao ensino da percussão, da música e da dança brasileira. Sobretudo aquelas ligadas ao universo chamado de cultura popular, que é muito rico em representações simbólicas. Matrizes culturais, sejam em relação à música, à dança e à poesia. Vamos aproveitar esse período para mostrar como é que a gente trabalha esse universo. Como é que a gente dinamiza, recria e potencializa. Temos um elenco bastante grande, heterogêneo de professores. E cada um deles vai mostrar um pouco do que faz em sala de aula, as suas atividades com os alunos dentro do Instituto Brincante. Essa é a filosofia desse evento”, pontua Antonio Nóbrega

Em uma atualidade na qual pretensamente poderosos e com exércitos de ignorantes ao seu redor se declaram abertamente contra a cultura e a arte, esse tipo de iniciativa representa um alento para a angústia que se faz presente em uma realidade de incertezas. Principalmente para a identidade cultural do Brasil. “Esses cantos, esses toques e essas danças são as pedras do meu céu e as estrelas do meu chão. Com eles, soletro, penso e esperanço meu sonho humano. Com eles aprendi a amar o meu país e o seu povo”, ouvimos Antonio Nóbrega dizer ao final de Brincante – O Filme. E a vontade de esquecer a realidade que nos cerca só cresce. Mas esquecer não significa abandoná-la. Sigamos resistindo.

*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 19/04/2020


terça-feira, 14 de abril de 2020

Mídia física vs. streaming

DVDs e blu-rays vivem!

Lançamentos do selo Obras Primas do Cinema


COLECIONISMO Com oficial queda na qualidade de sinal das plataformas de streaming, acesso a filmes através de mídia física, apesar do mercado combalido, ainda é um caminho para alimentar a cinefilia

Por João Paulo Barreto

Dentro das mudanças nos meios de acesso ao cinema em casa, definitivamente a mais impactante negativamente em termos de qualidade de imagem e som se deu com a ascensão do streaming a partir da segunda metade dos anos 2010. Enquanto que nos anos 1990, a migração do VHS para o DVD gerou um aumento impressionante nessa mesma qualidade no consumo de filmes, hoje, com as plataformas digitais, o que temos é uma disparidade. Há, sim, uma oferta imensa de entretenimento entre série e filmes. Mas é tão fácil assim ter acesso a exatamente o que a pessoa deseja assistir? Ou acabamos por nos tornar reféns de algoritmos que constroem um menu de opções ao “nosso gosto”? E na questão do aproveitamento em termos de imagem e som? Com conexões ruins de internet, lentidão no acesso e filmes que simplesmente desaparecem ao capricho das gigantes de streaming, o benefício é tão vantajoso assim em relação aos discos digitais de DVD e blu-ray?

Em tempos urgentes de quarentena por conta da pandemia do COVID-19, plataformas como a Netflix e a Globo Play anunciaram a necessidade de diminuir a sua taxa de bits devido a alta quantidade de pessoas conectadas.  Do mesmo modo, muitos provedores de internet têm sinalizado aos clientes intermitências no sinal. No acesso aos filmes, outro contra: o processo de escolha das obras segue uma demanda imposta pelos próprios canais, que mantêm em seus catálogos apenas filmes com muitos espectadores, podendo torná-los indisponíveis no momento em que decidirem que eles têm poucas visualizações ou apelo. Indo na contramão desse modo de alimentar a cinefilia, o mercado voltado para colecionadores de DVDs e blu-rays no Brasil ainda respira. Selos como Versátil Home Vídeo e Obras Primas do Cinema possuem lançamentos mensais em uma regularidade constante e, o mais importante, clientes fieis que têm na compra e no colecionismo de filmes seu modo de acesso à sétima arte em casa.

Lançamentos do selo Versátil Home Vídeo 

CURADORIA E CUIDADOS

Para Rodrigo Veninno, um dos curadores do selo Obras Primas do Cinema, empresa que mantém uma média de três a cinco lançamentos mensais em boxes de filmes, a escolha do catálogo de obras se baseia em ajudar o espectador a sanar a dificuldade de encontrá-las. Principalmente em tempos de downloads via torrents. “Geralmente, quando eu planejo um lançamento em qualquer linha, seja de um tema ou de um diretor, ator ou atriz, eu me baseio em duas dificuldades do espectador: a de encontrar aquele filme para assistir e a de encontrar uma legenda”, afirma Rodrigo. E complementa com o fato de que o idioma pode ir muito além do inglês. “Claro que não é todo mundo entende o idioma inglês. Mas, é preciso lembrar que há um público que gosta, também, de cinema tcheco, de cinema japonês, por exemplo. A dificuldade nesses casos é ainda pior”, explica.

Diretor da Versátil Home Vídeo, outro selo a se dedicar a lançamentos de filmes voltados para o colecionismo no Brasil, André Melo destaca que a relação do cliente com o produto é algo que traz uma afetividade que nenhum streaming pode suprir. “Quando adquire um box, esse cliente pega a capa, vê em verniz ali aquela imagem selecionada. Lá está escrito o nome do diretor, autor, atriz, ator que ele admira. Ele tem um relacionamento com aquele produto. É uma coisa muito mais afetiva, de se abrir o filme, ter um encarte, ter uma luva toda delicada em volta. E há os cards com imagens de quando aquelas obras foram lançadas no cinema. E isso é uma coisa que você não acha no Google. Você não acha isso facilmente no mercado”, explica.

Celso Menezes, do Blog do JC, e sua coleção

E ainda é importante pontuar que, para além dos longas em imagem e som ideais, na mídia física há um diferencial que nenhum streaming traz. André explica: “Nesse produto, o público encontra making of dos filmes, comentários do diretor, entrevistas do elenco. Isso é uma coisa que a Versátil coloca nos seus lançamentos e tenta cada vez mais manter. Buscamos sempre não fazer um lançamento cru, só com o filme” pontua o diretor da Versátil.

LOJAS VIRTUAIS

Com as até então gigantes do varejo como Livraria Cultura e Saraiva entrando em recuperação judicial, ou outra tradicional revendedora de mídia física como a Lojas Americanas queimando (sem renovar) seus estoques, as lojas on line dos próprios selos têm entrado no jogo da venda direta para o consumidor, sem a necessidade de passar pelos revendedores. “Até 2016, a gente trabalhava com 70% a 80% do foco de nossa receita voltado para as duas livrarias. Após essa crise que começou a afetar ambas, mudamos nosso foco. Fizemos uma aproximação com nosso cliente via redes sociais. E muitos começaram a nos procurar perguntando como adquirir nossos produtos. Hoje, posso dizer que 70% a 80% de nosso faturamento vem de nossa própria loja”, salienta André Melo.

Além de colecionador e dono de um acervo de quase cinco mil filmes, Celso Menezes, é roteirista e colaborador do Blog do JC, um dos maiores sites voltados para informações de blu-rays e DVDs lançados no Brasil e no exterior. Para ele, uma das muitas vantagens da mídia física é o acesso rápido às obras. “O acervo disponível no streaming é limitado. A busca pelos filmes não é tão fácil. Hoje, se você falar que vai assistir a, por exemplo, a filmografia do Hitchcock, vai ser como? Não tem locadoras, você não vai ver na TV aberta ou fechada. Na Netflix, se tiver, vai ser um ou outro. Existe uma demanda. Citei o Hitchcock por ser um grande cineasta, mas existem mais cineastas, existem outros movimentos cinematográficos, e tudo isso não está no streaming. E alguns títulos mais clássicos que havia lá, foram retirados pela Netflix”, ratifica Celso. 

Itamar Castelo e sua coleção
Outro cinéfilo inveterado, Itamar Castelo tem uma coleção com mais de 1500 unidades entre blu-rays e DVDs. Coleciona filmes desde os anos 1990. Hoje, adquire muitos de seus itens via internet. Para ele, “empresas como Versátil e Obra Primas do Cinema têm uma preocupação com a apresentação, a qualidade do produto. Tanto fisicamente como em suas embalagens e cards. Como filmes clássicos, catálogos inéditos, versões remasterizadas e restauradas. Além disso, blu-rays com maior capacidade e qualidade de imagem”, pontua em relação a importância dos selos nacionais para os cinéfilos.


Ainda sobre o streaming, André Melo, do selo Versátil, é enfático. “No Netflix e outras plataformas, é um algoritmo que identifica que você gosta de um tipo de tema e você vai parar com um robô que define o que pode ser que você goste, a questão do conteúdo e onde o mesmo é armazenado. E ali você não vai encontrar nem 1% do que foi feito de audiovisual na História. Acho que nenhuma plataforma tem essa capacidade. Com o DVD, blu-ray e os extras que vêm nas mídias, a experiência se torna muito mais do que apenas consumir um filme”, finaliza.



*Matéria publicada originalmente no Jornal A Tarde, dia 14/04/2020



sexta-feira, 3 de abril de 2020

Isolados, mas com Cultura


Quarentena
com Cinema Baiano

Astrogildo e a Astronave, de Edson Bastos,
é um dos destaques disponíveis 

Com as imprescindíveis medidas de confinamento para evitar uma ainda maior epidemia do COVID 19, uma opção de acesso à cultura vem da recente filmografia baiana disponível on line

Por João Paulo Barreto

Com o necessário fechamento de salas de cinema, teatros, suspensão de shows musicais e outros eventos de entretenimento, o confinamento em lares até que haja um controle mínimo da pandemia do COVID - 19 tem feito as pessoas se voltarem aos filmes disponibilizados em plataformas digitais, bem como, os que ainda mantêm o hábito de consumir filmes em mídia física (o caso deste que vos escreve), os bons e velhos disquinhos de DVD e blu-ray. E, em decorrência da imprescindível necessidade de se ficar em casa, cineastas da Bahia têm liberado seus conteúdos em plataformas digitais, como YouTube, Vimeo, além de canais de streaming, que já exibem as produções feitas aqui no estado.

CURTAS METRAGENS

A produtora Olho de Vidro, por exemplo, liberou on line no Vimeo curtas recentes, como Estela (vimeo.com/238511289), curta de 2017 estrelado por Paula Lice, que, no Panorama Internacional Coisa de Cinema, recebeu menção honrosa por sua atuação. O curta é dirigido por Hilda Lopes Pontes e também teve exibição no II Festival Poe de Cinema Fantástico. Ainda no âmbito do cinema de gênero, A Triste Figura (vimeo.com/255212158), filme de 2018, dirigido por Calebe Lopes, também teve seu link aberto para apreciação on line. Na obra, Carlos Betão vive um pastor evangélico de comportamento nefasto e abusivo. Confrontado por sua filha, vivida por Dora Goritzki, o homem tem um surpreendente encontro com um destino fatídico. Com uma ambientação precisa na criação de uma proposta sobrenatural, o curta é mais um exemplo da evolução do diretor como contador de histórias no cinema fantástico. Por último, O Sorriso de Felícia (vimeo.com/265312447), psicodélico curta dirigido por Klaus Hastenreiter, também teve seu link liberado no Vimeo. Para o cineasta e fundador da Olho de Vidro, “Esse é um momento muito delicado que estamos vivendo e esta é a nossa singela maneira de procurar contribuir com a rotina enclausurada de quem está neste isolamento”

Paula Lice em Estela, de Hilda Lopes Pontes

A Triste Figura, de Calebe Lopes, e O Sorriso de Felícia, de Klaus Hastenreiter

Outra produtora baiana a liberar alguns dos seus trabalhos on line é a Gran Maître Filmes. Os filmes Ele Foge, de Dino Galeazzi e O Vizinho de Frau Kutner, do diretor Marcos Alexandre, ficam disponíveis no canal YouTube da produtora a partir de 08 e 09 de abril, respectivamente. Na obra dirigida por Marcos Alexandre, uma representação da arte da atuação através das lembranças de um ator e seu último papel. Indiretamente, uma coincidente rima com a necessidade atual da clausura se faz valer. Já em Ele foge, Dino Galeazzi, outro representante do cinema de gênero na Bahia, traz um vislumbre de um apocalipse zumbi. Para o fundador da Gran Maître, Marcos Alexandre, a disponibilidade dos filmes possibilitará com que novos públicos possam conhecer mais sobre as nossas histórias e realizações. “É um momento em que grande parte das pessoas estão em sua casa, em quarentena, usufruindo e a procura de conteúdo audiovisual, seja pela internet e/ou streaming. Portanto, vejo que entraremos junto com outros coletivos, produtoras e realizadores para distribuição online de filmes independentes”, afirma. 

Ele Foge, de Dino Lucas Galleazzi

O Vizinho de Frau Kutner, de Marcos Alexandre

A Voo Audiovisual, dos cineastas Edson Bastos e Henrique Filho, também liberou diversas produções no canal YouTube da produtora. Dentre elas, O Filme de Carlinhos, lúdica homenagem ao cinema pelos olhos infantis, e Astrogildo e a Astronave, outro curta a abordar, através da beleza da fantasia, um notório personagem de Ipiaú, terra natal de Edson. Para o diretor e fundador da Voo Audiovisual, a situação, mesmo apresentando aparência de uma ficção científica, tem resultados brutais na realidade. “Nunca imaginamos que isso um dia aconteceria na vida real. Sets de filmagens adiados, telenovelas adiadas, cinemas fechados, projetos parados, eventos adiados, mas tudo isso porque confiamos nas orientações das organizações de saúde como a OMS, estamos vendo o que outros países estão passando e acreditamos que o isolamento é fundamental”, afirma Edson Bastos e salienta: “Já estamos vivendo desemprego no Audiovisual desde que Bolsonaro foi eleito. São muitos projetos parados, sem liberação de recursos, por questões ideológicas do presidente, que não entende nada sobre cultura e audiovisual, e emperra a nossa economia de gerar emprego e renda.”

O  Filme de Carlinhos, de Edson Bastos e Henrique Filho

LONGAS

No âmbito dos longas baianos, um dos destaques são os da produtora Hamaca Filmes, do cineasta Henrique Dantas, que também disponibilizou alguns dos seus trabalhos, como os documentários Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade (vimeo.com/133508577) e A Noite Escura da Alma (vimeo.com/134948902). Dentre os curtas, o infantil A Bicicleta do Vovô (vimeo.com/298676827) e o documentário Ser Tão Cinzento (vimeo.com/401492387). 

“Estamos ouvindo nestes tempos recentes essa ladainha deque artistas não servem para nada, que artistas são um câncer para a sociedade. Agora, nesse momento de quarentena, se não existisse arte, estariam todos pirados. Então, a Hamaca Filmes, em tempos de pandemia, onde a Arte ganha novos significados numa sociedade que tentava desmerecê-la, vem a público disponibilizar parte dos seus filmes”, pontua Henrique Dantas e salienta que está fazendo os esforços necessários para disponibilizar o restante das obras. 
                     

Cartazes de dois dos filmes de Henrique Dantas disponibilizados on line na plataforma Vimeo




Outros dois longas baianos disponibilizados on line são Depois da Chuva (vimeo.com/112407880), filme de Cláudio Marques e Marília Hughes, bem como Trampolim do Forte, longa metragem de João Rodrigo Mattos, disponibilizado no YouTube, na página da produtora DocDorma. Em tempos de clausura para nossa própria segurança, esse mergulho na filmografia recente do cinema baiano traz um respiro necessário para a arte. 

Cena de Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes 
Cena de Trampolim do Forte, de João Rodrigo Mattos 

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 04/04/2020






quinta-feira, 2 de abril de 2020

Pearl Jam - Gigaton


Pearl Jam e o rock como luto político



Com Gigaton, décimo primeiro álbum de estúdio, banda de Eddie Vedder leva aos fãs uma precisa reflexão da dor do luto e da necessidade de agir em tempos politicamente sombrios

Por João Paulo Barreto

Quando, há quase três anos, Chris Cornell cometeu suicídio, enforcando-se em um quarto de hotel após ceder sua mente torturada a essa maldita doença chamada depressão, não somente um pai, esposo, lenda do rock e dono de uma das vozes mais possantes do grunge nos deixou. Para Eddie Vedder, também um fiel amigo, irmão e companheiro se despedia desse mundo amargurado e sofrível. Tal perda afetou profundamente o vocalista do Pearl Jam. Juntos, no começo dos anos 1990, momento chave tanto para o Pearl Jam quanto para o Soundgarden, os dois criaram o breve, porém pulsante, projeto paralelo Temple of the Dog, algo que os uniria afetivamente para sempre.

Introspectivo, Vedder calou-se diante da tragédia da perda de Cornell e seguiu para sua turnê solo por países europeus. Stone Gossard, Mike McCready, Jeff Ament e Matt Cameron, seus companheiros de palco, de estúdio e de vida, entenderam e respeitaram seu silêncio. Mas, para os fãs, o medo de um fim da banda devido a esse golpe era palpável. O último disco datava de quatro anos antes, e levaria mais três para que um novo trabalho surgisse, cravando o maior hiato sem qualquer lançamento do Pearl Jam desde seu debut: o petardo Ten, há quase trinta anos, em 1991.    

Mike, Matt, Eddie, Jeff e Stone: quase 30 anos de banda

CONTRA TRUMP

Sempre ativistas politicamente, os integrantes da banda começaram a se concentrar no novo trabalho em tempos ainda mais tristes do que os do começo do século XXI, quando Riot Act, disco de 2002, fora lançado como um míssil direcionado à gestão de George W. Bush. Aqui, tal míssil é substituído pelo resultado de um Gigaton, explosivo nome que batiza o álbum recém lançado. E tal explosão, claro, é direcionada para a estupidez representada pelo atual presidente estadunidense. Em Quick Escape, por exemplo, a tal fuga repentina do título narra a busca por algum lugar que “Trump não tenha fodido ainda”. Em um crescente inicial que remete a Kashmir, clássico do Led Zeppelin, Vedder, em parceria com o baixista Jeff Ament, em uma linha exata do instrumento, canta sobre um mundo cujas fronteiras ficam além da prepotência e egoísmo do atual cheetos lua que ocupa a Casa Branca.

Antes disso, em sua evolutiva faixa de abertura na constante batida das baquetas de Matt Cameron, Vedder traz a denúncia de um ensurdecedor silêncio que a inércia dos que aceitaram o fúnebre futuro do mundo pontua de maneira torturante. “Enquanto o silêncio se torna mais e mais alto, meu coração passa a martelar/E os ventrículos bombeiam em horas extras/Nossas liberdades cheias com o risco de serem circunscritas/Uma vida interrompida e circuncidada ”. O homem por trás de clássicos como Do the Evolution e Given to Fly traz a necessidade de acordar para essa reflexão.

Mas este silêncio ensurdecedor que advém da inércia logo cai por terra quando, em Seven O’Clock, Vedder canta sobre a urgência que nos persegue. “Não há tempo para depressão ou auto-indulgente hesitação/Essa situação fodida requer todas as mãos à obra”. E nessa avalanche, logo a tal bomba é jogada novamente no salão oval, onde “a merda presidindo na figura de nosso presidente/falando com o próprio espelho, o que ele fala, o que ouve em retorno?” E como amordaçar esse cão sarnento e raivoso é mais do que necessário, Eddie Vedder sentencia e pergunta: “Em uma tragédia de erros, quem será o último a dar risada?” E tudo isso através de uma melodia que embala os ouvidos em uma balada a contar a pesarosa história de nossa tragédia contemporânea.

Chris Cornell e Eddie Vedder no começo dos anos 1990

CORNELL

Ainda sobre o amigo Chris Cornell, pode soar como uma livre interpretação de um ouvinte de longa data da banda, mas, pensar em Cornell e no luto de Vedder ao escutar uma balada bluesy como Comes Then Goes, é inevitável. Aqui, Eddie pergunta: “Onde você esteve? Posso encontrar um vislumbre do meu amigo? Não saberia dizer onde ou quando um de nós deixou o outro para trás”. E, nessa mesma leva reflexiva de perguntas e modos de encontrar um conforto mental para a dor do luto e da comichão advindo do “eu poderia ter feito mais”, ele volta a arguir aquele que parece não estar mais ali: “É você? Aqui eu estou. Intensa lembrança de dor, autonegligenciada de novo./Igual a você, eu a mantenho aqui dentro.” E parece encerrar a conversa com um lamento e uma constatação da dor física e aparentemente irremediável que advém da depressão: “Pensei que você havia encontrado um jogo no qual você pudesse vencer. Ao final, tudo é uma vivissecção”.

AINDA OTIMISTA

Mesmo com sombrias e densas reflexões, Gigaton, dentre as suas doze faixas, é capaz de trazer certo otimismo. E isso distante de qualquer falso discurso de coach. No seu quase fechamento, Retrograde, como uma mescla de desesperança e um aviso para que o futuro não seja perdido por conta da mediocridade, egoísmo e oportunismo dos que atualmente detêm o poder, quase encerra o disco de modo totalmente preciso, porém pessimista como penúltima faixa. “Sete mares se elevam/Futuros para sempre desvanecidos/Sinta o atraso em nosso entorno” canta Vedder em longos vocais que remetem ao seu disco solo, Into the Wild, trilha sonora para o filme homônimo dirigido por Sean Penn há 12 anos.

Tal sensação de que vamos terminar aquela viagem de maneira a perceber que tal atraso oriundo de forças retrogradas são inevitáveis, acaba por ficar para trás no momento em que a proposta de encarar nossos dias como uma fase ruim que superaremos nos atinge positivamente. Esse sentimento nos pega na última faixa, River Cross,mas não sem antes, em sua exata metáfora de passagem de tempo, nos alertar do quão urgente é a necessidade de mudança. “Através de nuvens de tempestades, eles tomaram o palco” lembra Vedder como tal situação tomou conta de nosso presente. E sobre essa desesperança, um otimismo disfarçado diante de tamanhas e densas sombras que se avizinham: “Deixe que seja uma mentira que todos os futuros morrem”.

Esperamos que sim.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 03/04/2020





quinta-feira, 26 de março de 2020

Entrevista: Paulo Sérgio Almeida, diretor do Portal Filme B


“Para a indústria do cinema,
o que está acontecendo é uma devastação.”

Paulo Sérgio Almeida, diretor do Filme B
Nada é mais importante do que a preservação das vidas humanas nessa pandemia do coronavírus. As medidas de não aglomeração de pessoas diante da proliferação do COVID-19 fizeram muitos filmes cuja demanda de público lotariam salas de cinemas em situações normais serem adiados para o final do ano, diminuído, assim, um imenso e já certo prejuízo financeiro. São obras como Um Lugar Silencioso Parte II, continuação do esmero de 2018 dirigido por John Krasinski; o novo filme da Marvel Studios, Viúva Negra, além dos novos 007 e o mais novo longa da lucrativa franquia Velozes e Furiosos.


Sobre o assunto, o A Tarde conversou com Paulo Sergio Almeida, fundador da Filme B, empresa brasileira especializada em análise e números do mercado cinematográfico no Brasil. Mais completo site no acesso a informações relacionadas ao aspecto de negócios oriundos da produção de cinema e distribuição de filmes em território nacional, o Filme B é peça fundamental na pesquisa para quem se interessa ou tem o cinema como meio de subsistência direta ou indireta. Confira a entrevista.

Por João Paulo Barreto

Com o adiamento e suspensão dos lançamentos, como você prevê os próximos meses no mercado das salas de cinema no Brasil?
Em 2020, você pode contabilizar um janeiro e fevereiro muito bons. Março com sinais de crise. Havia algumas salas abertas no começo do mês, mas, a partir de agora aí, temos zero de cinemas funcionando no Brasil. Abril, maio, junho e julho, zero de salas. Nós nunca vivemos uma situação como essa. É o colapso! O cinema, como o resto da economia, vai entrar em colapso. A previsão é de no mínimo três meses sem possibilidade de reabertura de salas. 
A mesma previsão vale para outros países. China, Itália, França, Inglaterra, Coréia do Sul, Japão, Espanha, Portugal e EUA. Todas as salas fechadas. Quer mais do que isso? É uma devastação. Para a indústria do cinema, o que está acontecendo é uma devastação. Quando acabar a crise, a gente vai ver quem sobrou.

Com os adiamentos das estreias internacionais, como o streaming entra nisso?  
O cinema hoje está globalizado. Eu não posso lançar um filme no Brasil ou em qualquer outro lugar de maneira separada. Ou o filme vai para o mundo todo ou não vai. Isso em relação ao filme estrangeiro. Todos os lançamentos de blockbusters estão sendo adiados, um depois do outro. Acabou de ser adiado o Minions, grande blockbuster infantil para as férias de julho. Já foi adiado 007, Trolls e o novo Velozes e Furiosos. Não é caso destes citados, mas há uma série de filmes que deverão ser lançados diretamente no streaming. Essa é a grande revolução. Os filmes estão, na sua maioria, prontos. Exceto Minions 2, que foi cancelado e o Ilumination, o estúdio de animação sediado em Paris, foi fechado. Mas todos os outros estão prontos e com a campanha na rua. Os investimentos estão feitos, e não podem parar de repente para ser lançados apenas no ano que vem. Aí você tem que investir de novo no marketing, fazer tudo de novo, para recuperar as campanhas. O que está acontecendo é que os filmes estão indo direto para streaming. Vai ser um ano perdido para o cinema. Praticamente perdido. Se voltar à atividade no Brasil, deverá voltar por volta de agosto, setembro. Mas aí com títulos debilitados, com a frequência ao cinema debilitada. Não podemos esperar grande coisa. 

Um Lugar Silencioso - Parte II é dum dos filmes adiados

E para o cinema nacional?
Em relação ao cinema nacional, o panorama é mais dramático. Porque toda a operação de cinema nacional no Brasil, a Ancine, Secretaria Especial de Cultura, está tudo paralisado desde que o governo Bolsonaro entrou.  Todos os lançamentos já vinham sendo adiados por falta não de recurso da Ancine, pois eles existem, mas por falta de uma diretoria, por falta de comando e de gestão. São atos que esse governo vem fazendo com a cultura propositadamente. O que os filmes nacionais estão tentando fazer, também, é ir direto para o streaming. Mas a Ancine proíbe esse lançamento direto nas plataformas. Em relação ao filme americano, não tem lei que proíba. É um acordo entre o exibidor e o distribuidor de se manter uma janela. Mas em um momento como esse, de força maior, os exibidores estão compreendendo que eles não podem fazer nada, já que as salas estão fechadas e o distribuidor não pode ficar com o filme parado sem faturamento. Ele tem que pagar seus empregados. Tem que fazer a máquina girar. Aqui no Brasil, os principais filmes são financiados com dinheiro do fundo setorial, via Ancine, via BNDES, e tem uma regulação que obriga os filmes a estrearem antes nos cinemas e depois no streaming. Os produtores estão tentando, junto à agência, que essa proibição seja cancelada. Pelo menos momentaneamente, para que os filmes possam entrar direto no streaming, também. Porque, senão, vão ficar dois anos parados. 

Filmes de alto orçamento como 007, Um Lugar Silencioso Parte 2 e Velozes e Furiosos, apesar de já adiados, podem ser lançados no streaming?
Não. Hoje, os filmes de orçamento muito alto precisam da bilheteria do cinema. Mesmo a Disney, que já tem o seu próprio canal. Ela até poderia lançar os filmes no seu próprio streaming, mas não teria um bom retorno. Só poderia ser feito com filmes médios e pequenos. Filmes de grandes orçamentos, não. Isso poderia até quebrar a MGM, que é a detentora dos direitos dos filmes da franquia 007. Não pode abrir mão da bilheteria. Principalmente da China. Hoje, o mercado dos grandes filmes é guiado pela China. Então, esses filmes não podem ir para o streaming diretamente. Um Lugar Silencioso Parte II não vai direto para o streaming nunca. O retorno é muito baixo. Minions 2 seria um desperdício lançar direto no streaming. O que está sendo lançado no streaming são filmes como Bloodshot, da Sony, que teve a bilheteria interrompida e tem que ser lançado no streaming, ou Trolls, que é um desenho da Universal que já está com a sua campanha no ar e tem uma bilheteria média. Agora, é importante ressaltar o seguinte: não é só ver isso na área da produção dos filmes, a gente tem que ver isso na área do mercado. Poucos exibidores vão resistir a ficar quatro meses fechados. Só os grandes. E, assim mesmo, com medidas drásticas de demissão de funcionários, de corte de custos violentos. Enfim, vai ser uma loucura. Realmente, a indústria nunca mais será a mesma. 

Nova aventura do 007, principal investimento da MGM, pode dar prejuízo

Podemos prever como será a relação entre shoppings e salas de cinema quanto a taxas de aluguel?
Isso vai ser uma longa negociação. Depende, primeiro, de determinações oficiais. Se o governo do estado determinou que os shoppings e cinemas têm que fechar,  ou que existe um estado de calamidade pública, isso abre um espaço enorme para os exibidores negociarem com os shoppings. De pagar o mínimo, que eles chamam de mínimo garantido. Fora isso, tem a negociação com os empregados. O governo autorizou a você fazer o pagamento de férias de um mês. Após isso, ou a pessoa trabalha em casa com 50% de redução de salário, ou partem para demissão voluntária. A exibição no Brasil é muito diferenciada. Existem desde de empresas internacionais, multinacionais, como Cinemark e UCI, como empresas nacionais familiares, como a Orient, aí em Salvador. Todos os outros, tirando a Cinemark, a Cinepólis e a UCI, são empresas nacionais familiares que não têm acesso a crédito como as multinacionais têm. Cada uma precisará de uma solução. Já lá fora, a situação é preocupante no seguinte sentido: os estúdios de hoje estão ligados a conglomerados de mídia. Estúdios como Universal Pictures  e a Paramount, por exemplo, estão alavancados em Wall Street. E a bolsa de valores está virando pó. Eles estão pedindo ajuda ao Trump. E eu tenho certeza que Trump vai dar. Tanto os exibidores como os estúdios vão ter um apoio. Para eles, o cinema é uma questão de Estado. Enquanto aqui no Brasil, o Estado é contra o cinema.

*Entrevista originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 26/03/2020



quarta-feira, 18 de março de 2020

CORONAVÍRUS - Fechamento dos Cinemas

Cultura e Salas Fechadas 


Com o necessário fechamento dos cinemas como forma de impedir aglomerações e a proliferação do coronavírus, a economia do setor do audiovisual sofre mais um baque 

Por João Paulo Barreto

O trágico impacto da pandemia do coronavírus, também conhecido como COVID-19, começou a ser sentido no Brasil no final de fevereiro. Após surgir na China, local onde o número de mortos já passa de 3500 e ter, fora do oriente, seu maior número de contágios e de vitimas fatais (o número de mortos já passa de 2000) na Itália, país com a população majoritariamente idosa, a doença atravessou o oceano Atlântico e já possui milhares de casos confirmados nas Américas. A primeira morte no Brasil foi confirmada na terça-feira, dia 17, em São Paulo, cidade com maior número de infectados no Brasil (mais de 150) e local onde vivia o homem de 62 anos que estava internado em um hospital particular.

Com mais de 230 casos confirmados em território nacional, as orientações para que aglomerações de pessoas sejam evitadas e os cuidados básicos com higiene (lavar as mãos com frequência, evitar o toque no rosto, usar álcool em gel para esterilização) se tornaram prioritárias. Isso, claro, mesmo que o homem com o maior cargo político do Brasil e símbolo de maior incompetência, com uma missão de desmonte da cultura e da pesquisa científica, queira minimizar a situação e incentive seu gado, digo, seguidores a ir às ruas em manifestações públicas de apoio ao seu desgoverno. 

“Com a chegada do coronavírus ao Brasil, começamos a sentir os efeitos na bilheteria e já sabíamos que, mesmo se o governo não tomasse alguma providencia, teríamos, realmente, que fechar as salas."
Suzana Argollo 


CINEMAS DE SALVADOR

No quesito relacionado ao evitar aglomerações de pessoas, as salas de cinemas de Salvador também já começam a sentir o impacto da suspensão das atividades e da ausência de programação. Fechadas desde a ontem por um período de 15 dias, através de um necessário decreto do prefeito da cidade, e por 30 dias a partir do decreto do governo da Bahia, pela primeira vez na história não haverá estreias de filmes nas telonas da cidade. O negativo impacto econômico para os estabelecimentos é palpável. Cláudio Marques, sócio proprietário e gestor do Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha, na Praça Castro Alves, lembra que, em outros locais do mundo, como França, o governo local propôs subsídios como isenções de contas de energia, água e gás para toda a população. “Na Alemanha, o governo local vai subsidiar os cinemas de rua. É um momento dessa economia da maneira com ela vinha sendo tocada em muitos países, ser revista. Esse chamado neoliberalismo, todo poder ao mercado, é o momento em que talvez ele seja revisto. E talvez isso seja alguma coisa positiva, vinda dessa crise. Mas, eu, sinceramente, não sei ainda o que vai acontecer. Estamos em um momento de recessão e, mais grave, de depressão econômica. Vamos ter que esperar um pouco para saber como vamos ressurgir depois de duas, três semanas de quarentena”, afirma Cláudio.

No Circuito Saladearte, que possui cinco salas em Salvador, sendo três delas cinemas de rua, a sócia proprietária, gestora e programadora, Suzana Argollo, salientou uma queda de público de quase 70% no último final semana em comparação ao da semana anterior. “Já esperávamos, mesmo sem a pandemia, uma queda de público em março, uma vez que os filmes do Oscar tiveram seu maior público nos meses anteriores”, explica Suzana. “Com a chegada do coronavírus ao Brasil, começamos a sentir os efeitos na bilheteria e já sabíamos que, mesmo se o governo não tomasse alguma providencia, teríamos, realmente, que fechar as salas. Primeiro por um compromisso social e coletivo. Para que isso não atingisse os mesmo níveis que acontecem na Itália. Segundo porque nosso público é, em sua maioria, formado por idosos”, complementa a gestora. 

“Precisamos pensar em como manter as atividades culturais, como manter os pequenos dentro do comércio, da atividade econômica de uma maneira geral."
Cláudio Marques

FECHAMENTO TEMPORÁRIO

Tanto Suzana Argollo quanto Cláudio Marques pontuam que, diferente da rede Cinemark, que propôs um plano de demissão voluntária, o quadro de seus funcionários é uma prioridade. “A questão dos funcionários é uma preocupação nossa. De que, em um primeiro momento, não existam demissões. É uma situação difícil para todo mundo. Como manter sem ter receita? Lembrando que as duas últimas semanas já foram de diminuição radical da receita e do público aqui nas salas de cinema. Mas é um momento de ter calma para tentar pensar da melhor maneira possível”, pontua Cláudio.

No Circuito Saladearte, Suzana esclarece que a empresa está trabalhando no sentido de minimizar o impacto. “As salas terão que ficar fechadas por 30 dias, segundo decreto do governo do estado”, explica Suzana. “O que a gente pode fazer agora? Dar férias coletivas para os funcionários? Sabemos que vamos tirar os direitos dos funcionários de gozar livremente essas férias, porque, com a quarentena, ele está cerceado até mesmo no direito dele de ir e vir. Mas se nós não fizermos isso, não sabemos se depois a gente sobrevive. Queremos minimizar impactos, reduzir os danos na empresa, mas também não querermos fazer suspensão de contratos de trabalho de ninguém. Não queremos que coisas desse tipo aconteçam, como reduzir salários. Queremos fazer o máximo que puder para minimizar os riscos e os danos sem prejudicar os funcionários. Queremos ter a garantia de que eles terão emprego quando isso tudo acabar”, finaliza.

Sobre os exemplos oriundos de outros locais no aspecto de subsidio governamental voltado para a Cultura, Cláudio Marques é incisivo: “Precisamos pensar em como manter as atividades culturais, como manter os pequenos dentro do comércio, da atividade econômica de uma maneira geral. Caso contrário, vamos ter uma economia totalmente dominada pelos de fora. A estética de fora, o olhar de fora, o dinheiro de fora. E o dinheiro que vai pra fora. Isso em todos os setores”.

CINEMARK E UCI

Seguindo por uma via diferente, a rede Cinemark anunciou um plano de demissão voluntária de seus funcionários ou a opção de um programa de qualificação, no qual o empregado ficaria sem trabalhar, mas teria que realizar cursos on line, e o pagamento do salário ficaria na faixa de até 80%. Tanto a Cinemark quanto a rede UCI, em contato com A Tarde, divulgaram a carta aberta da Feneec (Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas), na qual é feito um pedido aos gestores públicos para que os importantes decretos de fechamento das salas sejam feitos de forma emergencial, por conta da pandemia do coronavírus.

Sobre o imbróglio envolvendo a possível demissão de seu quadro de funcionários sem pagamento de multa rescisória, a Cinemark divulgou a seguinte nota: "Em cumprimento às determinações de fechamento das salas pelas autoridades estaduais e municipais, a Rede Cinemark suspendeu o funcionamento dos cinemas. Diante disso, a Rede iniciou diálogo com seus colaboradores em parceria com o sindicato dos funcionários para encontrar de forma conjunta as melhores alternativas para a administração da crise sanitária e econômica.”

*Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde, dua 19/03/2020


sábado, 14 de março de 2020

Better Call Saul


“Doutor” em Pilantragem



Tendo o respeito pela inteligência do público como prioridade de seu roteiro, Better Call Saul chega à quinta temporada na Netflix fazendo jus à sua genial origem: o marco Breaking Bad

Por João Paulo Barreto

Breaking Bad, pilar da TV no século XXI e série definitiva em termos de construção de roteiro no que tange aos arcos dramáticos de seus protagonistas, trazia Walter White, personagem magistralmente interpretado por Bryan Cranston, em uma perfeita curva dramática de 180 graus a representar todas as violentas mudanças que a sua vida teve em dois anos de trajetória errática.  Refletindo de modo exato o “ficando mau” do seu título original na figura de Walter a se transformar gradativamente no “cozinheiro” de metanfetamina e assassino Heisenberg e, claro, tendo que lidar com as brutais consequências de seus atos, BrBa trazia um brilhantismo na escrita de seu criador, o roteirista e diretor Vince Gilligan. Nesta escrita, era perceptível um respeito pela sua audiência fiel, colocando de maneira crível as situações daquele mundo do crime em paridade às frustrações profissionais de um inteligentíssimo, mas fracassado, White, que se vê, aos 50 anos, com uma esposa grávida, um filho com paralisia cerebral e com a data de sua morte agendada por um câncer devastador.Torcíamos por aquele homem que, devagar, vai ganhando nosso asco e rejeição por seus atos. Assistindo Breaking Bad, o público sentia a segurança de estar diante de um seriado dramático que privilegiava tanto a humanidade de suas figuras centrais (o Jesse Pinkman de Aaron Paul e sua devastação psicológica, por exemplo), quanto a noção de realidade que os profundos temas da série traziam consigo.

Dentro desse variado grupo de personagens inesquecíveis estava Saul Goodman, o competente advogado com um, digamos, flexível código moral. Vivido pelo notório comediante do programa de auditório Saturday Night Live, Bob Odenkirk, Goodman, a partir de sua aparição original na segunda temporada de Breaking Bad, passou a roubar (sem trocadilhos) todas as cenas nas quais participava. Sua sagacidade como advogado só se equiparava com o poder que ele tinha em observar as brechas legais do Direito e como isso o ajudaria a lidar com seus clientes traficantes, assaltantes, espancadores e trambiqueiros em geral, para usar apenas quatro adjetivos. Todos eles culpados, friso. Odenkirk, na pele do asqueroso Goodman, tinha uma personalidade magnética, que levava os olhos dos fãs de Breaking Bad diretamente a ele. Ao acabar a série, no distante setembro de 2013, mais do que um encerramento do perfeito arco dramático de Walter White e da curiosidade pelo que aconteceu a um liberto Jesse (algo que só descobrimos ano passado, no não menos brilhante El Camino), ansiávamos por saber mais da trajetória de Saul Goodman (ou it´s all good, man!, em sua referência à malandragem inerente ao dono daquele pseudônimo).

Jimmy em seu momento de virada para Saul

PARCIMÔNIA E SAGACIDADE

Corta para fevereiro de 2015, e o primeiro episódio de Better Call Saul vai ao ar pela Netflix. Nele, não é o repugnante Saul Goodman que aparece, mas, sim, um adorável Jimmy McGill, o carismático e boa praça advogado que se esforça para ganhar (pouco) dinheiro como defensor público em causas onde os réus são pessoas sem condições financeiras para arcar com os custos processuais gerados pelos seus crimes. Passando-se cinco anos antes dos eventos iniciados em Breaking Bad, Better Call Saul trabalha o desenvolvimento e mutação de seu protagonista de modo parcimonioso. E esse é o ponto mais notável no crescer dessa, digamos, gênese de vários elementos que vimos na outra série criada por Vince Gilligan, que, aqui, tem como co-criador o roteirista e diretor Peter Gould. Não há pressa em criar rimas temáticas forçadas entre as duas séries visando qualquer catarse dos fãs. Um dos méritos é uma independência temática e de ritmo entre os programas. Claro que, logo de cara, estão dois queridos e conhecidos personagens: o próprio Goodman (ou Jimmy) e o competente “consultor de segurança” da rede de restaurantes Los Pollos Hermanos, Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks). Mas Gilligan e Gould, juntamente a um azeitado grupo de roteiristas (muitos deles oriundos de Breaking Bad), sabem de modo preciso como construir aquelas pontes entre os seriados.

Vivendo à sombra do peso do nome McGill, que tem na figura do seu irmão mais velho, o renomado e bem sucedido advogado Charles “Chuck” McGill (Michael McKean, o eterno David St. Hubbins, de This is Spinal Tap), a imponência e o respeito social advindo da nata da profissão do Direito, Jimmy é apresentado pela série que leva seu futuro bordão como nome, em uma rotina de trabalhos estafantes e de cuidados pelo irmão doente e semi-aposentado. No carisma e personalidade magnética do homem, além do seu histórico de trambiques e problemas com a lei, um disfarçado atrito com o irmão idoso, que suporta Jimmy por precisar dele, mas não nutre a mínima confiança no caçula. Nessa construção de amor e desprezo, a necessidade da presença de Jimmy em sua vida gera a Chuck uma amarga sensação de manter por perto alguém que precisa estar em constante vigilância devido ao seu histórico de desonestidade. Tendo, hoje, um diploma de advogado, as tendências perigosas de seu irmão mais novo se multiplicam. E essa relação é um dos pontos para entendermos como Jimmy caminhou para se tornar Saul, alguém cuja necessidade de andar na linha já ficou para trás há tempos.

Velhos rostos: Mike e Tio Salamanca

DRAMA PROFUNDO

Nas citadas pontes entre as duas séries, vemos ressurgir pouco a pouco personagens marcantes como Hector “Tio” Salamanca e Gustavo Fring, figuras cujas origens já conhecemos, mas que têm, aqui, seus desenvolvimentos a pavimentar suas personalidades insanas, assassinas e calculistas. Mas é na figura de Mike, o articulador de olhos mortos, mas um adorável vovô preocupado com o futuro da neta, o outro lado de uma balança dramática precisa. Tendo seu passado violento e traumático como o ex-policial que perdeu um filho para colegas corruptos na força, destrinchado de maneira densa pela série, o Mike Ehrmantraut de Better Call Saul dá a Jonathan Banks uma oportunidade de (des)construir aquela figura anti-heróica que aprendemos a amar em Breaking Bad. Em tal desconstrução, a dor do pai que perdeu o filho, mas soube vingá-lo de maneira catártica, é o que é salientado de maneira pontual na melhor origem que a série trouxe logo em sua temporada inicial.

Caminhando para o seu sexto e derradeiro ano em 2021, Better Call Saul se consolida, junto ao recente El Camino, como o terceiro pilar desse universo ficcional indefectível criado por Vince Gillingan há 13 anos. A inteligência do seu público cativo agradece.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 15/03/2020


sábado, 7 de março de 2020

Dois Irmãos



Magia Fraternal



Novo filme da Pixar, Dois Irmãos, ou apenas Seguindo em Frente, em seu motriz título original, traz análise do luto e a superação da perda paterna como sua maior força

Por João Paulo Barreto

Há um aspecto pessoal na labuta da escrita crítica cinematográfica que eu, desde meus primeiros e, convenhamos, constrangedores textos (todos têm um começo, oras...), deixo que se expanda livremente através das palavras colocadas na tela do computador: o modo idiossincrático como um filme me toca. Hoje em dia, porém, nem tanto. As reservas particulares e a antissocial característica de um pessimismo e amargor oriundos da idade chegaram. Mas, no geral, para mim, nestes doze anos de trabalho dentro de uma tentativa de se expressar analiticamente nos aspectos oferecidos por filmes, a ideia de que o modo como uma película lhe toca pessoal, afetiva ou ideologicamente pode, sim, servir como um norte na escrita e na construção de uma análise para o leitor. Isso, claro, unindo tais impressões afetivas a um destrinchar dos aspectos técnicos da obra em questão.

Dois Irmãos, novo filme dos Estúdios Pixar, me remeteu àquele período inicial dentro dessa tentativa de labuta na área da crítica de cinema. Na ocasião, havia perdido meu pai, vitima de um câncer fulminante que lhe tirou a dignidade e a vida no decorrer de extenuantes 14 meses. Vê-lo deixar de ser ele mesmo (frase citada em momento pungente de Dois Irmãos, friso) foi uma das coisas que mais me tornaram introspectivo naqueles meses, há dez anos. Tais sentimentos se expressaram em textos que eu fiz, por exemplo, acerca de Transeunte, obra de Eryk Rocha, e Hugo, de Martin Scorsese. E essa lembrança do modo como o velho Barreto se extinguiu gradativamente surgiu como uma pancada durante a sessão de Onward (em tradução literal, “superando e seguindo em frente”), animação na qual a Pixar, mais uma vez, estilhaça sentimentos e renova corações. Cafona, admito, mas a pura verdade.

Ian em sua introspecção e saudade do pai

HUMOR EMOCIONAL

Aqui, os dois irmãos do título nacional são Ian e Barley Lightfoot, elfos adolescentes em um mundo onde a magia de seres como centuriões, dragões, fadas e unicórnios se extinguiu diante da tecnologia que os tornou obsoletos, e do capitalismo que os tornou opacos em seu brilho. E tudo é apresentado dentro de elipses temporais em um resumo cômico e prático típico do Monty Python. Ian e Barley (dublados por Tom Holland e Chris Pratt), após descobrirem que, utilizando um cajado mágico, podem trazer o falecido pai de volta à vida durante o período de 24h, acabam alcançando tal intento pela metade, ficando com apenas as pernas e cintura do patriarca. As gags visuais na presença dos membros inferiores do pai cumprem a boa parte da “comédia física” do filme, mas é nos detalhes pequenos a representar aquela figura e sua relação nostálgica com os dois garotos que dão mais significado à animação da Pixar.

Nas fotos do pai, Wilden Lightfoot, estão presentes as roupas que rimam precisamente com as que o pequeno Ian tenta emular em um vestígio de lembranças daquele homem que não conheceu. São peças que também aparecem como uma marca do que se vê naquele atrapalhado par de pernas, com suas meias características e seus sapatos a refletir a lembrança que os dois garotos têm do seu velho. A fita K-7, na qual o único registro da voz extrovertida do homem a sorrir serve como consolo momentâneo, se torna um porto seguro para a insegurança do caçula que só ouviu falar daquela figura. Quem nunca se pegou pensando em ou tocando algum objeto pessoal que pertenceu a um ente querido? A Pixar insere isso de modo pungente.

Ian, Barley e seu meio pai em momento de diversão

PESSOAL E CRIATIVO

Independente de todas as suas sequências de risos causadas pelas brincadeiras que o roteiro co-escrito pelo diretor Dan Scanlon (que já havia feito o ótimo Universidade Monstro) cria nas disparidades entre o nosso mundo real, físico e capitalista, e seu encontro com o mágico universo em decadência que o filme traz, Dois Irmãos tem seu pilar exatamente nas reminiscências que a perda de alguém tão querido quanto um bom pai traz ao amadurecimento. Seja no constante esconder de suas dores e frustrações atrás de um senso de humor e carisma gritantes, como aquele que o mais velho Barley tem, ou na introspecção e timidez que o caçula Ian mantém como um escudo

“O que é mais pessoal é sempre o mais criativo”. Essa frase de Scorsese foi citada por Bong Joon-Ho no seu discurso de agradecimento pelo prêmio de Melhor Diretor na cerimônia do Oscar desse ano, momento no qual saudou o mestre quase octogenário. Saber que o diretor Dan Scanlon trouxe para sua escrita exatamente essa falta pessoal que a perda precoce de seu próprio pai lhe causou, torna essa máxima do velho Scorsese tão precisa e emocional quanto Dois Irmãos o é em seu dilacerante (sem exageros) resultado final.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 08/03/2020