sexta-feira, 4 de março de 2016

A Paixão de JL

(Brasil, 2015) Direção: Carlos Nader.


Por João Paulo Barreto

O diretor Carlos Nader conseguiu criar em A Paixão de JL uma obra densa, capaz de tornar sua sessão pesada, realmente difícil de se assistir. No entanto, todos esses adjetivos não classificam seu trabalho como negativo. Pelo contrário.

Dentro de toda aquela construção na qual a vida de seu protagonista, o artista plástico José Leonilson, nos é apresentada a partir do áudio de fitas K7 gravadas como um registro diário feito pelo próprio rapaz, nós passamos a conhecê-lo dentro de todas as suas minúcias, desejos e idiossincrasias. E justamente pelo fato dos registros terem sido feitos de modo tão particular, lá se encontra um retrato único de um homem entregando suas dúvidas e sentimentos a quem interessar possa.

Através de uma opção minimalista de montagem, na qual os desenhos e obras artísticas de JL são exibidas em paralelo à sua fala, vamos conhecendo sua trajetória de vida no final dos anos 1980 até sua morte, vitima do HIV, em 1993, aos 36 anos de idade. Com poucas inserções visuais além de imagens de filmes assistidos por JL, como Meu Pé Esquerdo, Paris Texas e Asas do Desejo, trechos de jornais, como a ascensão e queda de Collor, a derrubada do Muro de Berlim e o bombardeio a Bagdá por George W.H. Bush, Nader demonstra uma noção exata do material que tem em mãos juntamente com o modo como quer apresentá-lo, bem como um domínio do objeto de estudo do seu filme.

Imagem de uma das fitas de JL

Sem optar por cabeças falantes em saídas fáceis e comuns a diversos documentários, nos quais pessoas que conheceram o personagem central trazem suas opiniões, A Paixão de JL nos apresenta o personagem central através de suas próprias palavras. E, o mais importante, nós o conhecemos a partir de suas próprias dúvidas e dramas internos.

Desde suas inseguranças no que tange à sua opção sexual (“ser gay hoje em dia é como ser judeu na Segunda Guerra”); passando pelas tocantes declarações de amor para seus pais ao encontrar uma foto dos dois; até os momentos de pura ingenuidade quando o vemos falar sobre um choro durante a novela ou a carência latente quando ele diz que queria apenas ter alguém para ficar abraçado, a narração nos aproxima de José Leonilson de modo tocante. O modo como o vemos gravar um depoimento em meio às lágrimas por conta do bombardeio citado acima denota bem tal sensibilidade.

Minimalista: Carlos Nader se espelha nas obras de JL para construir seu filme
Passamos a torcer por um final feliz, mesmo já sabendo que, desde o momento em que ele anuncia sua condição como portador do HIV, seu desfecho não será assim. É uma obra sensorial, na qual apenas a voz de seu protagonista é suficiente para nos tornar próximos a ele. Nós o conhecemos somente pela sua sensibilidade narrativa e pelas imagens de suas obras. Em nenhum momento tentamos imaginar como seria o rosto daquela voz. 

Sim, uma obra pesada, capaz de derrubar o espectador. Mas, no entanto, quando voltamos a ela nas horas ou dias após a sessão, a sensação de leveza se sobressai. O sentimento de José Leonilson da mesma forma.

terça-feira, 1 de março de 2016

Cine Avuadora em Alagoinhas - BA

Sessão especial organizada pelo CUAL - Coletivo Urgente de Audiovisual levou a Alagoinhas seis curtas que representam bem a recente produção baiana 



Longe do preciosismo e de qualquer tentativa de romantizar a ideia do cinema como agente mobilizador, eu o vejo como uma ponte para o diálogo. Uma conexão entre as pessoas que, como presenciei no último final de semana, se disponibilizam a sair de suas casas em um dia de sol escaldante para conhecer uma amostra do que se tem feito aqui, no estado onde elas vivem.

Como já disseram, é a discussão e a observação que constroem o cinema. E posso afirmar com absoluta segurança que a edição do Cine Avuadora, projeto de exibição de curtas baianos organizado pelo Cual – Coletivo Urgente de Audiovisual, dessa vez em Alagoinhas, conseguiu seu intento na criação de uma ponte verbal entre os espectadores, os realizadores e os críticos presentes na tarde do sábado, dia 27/02.

Ramon Coutinho, um dos realizadores do CUAL apresenta a sessão
Com a projeção de seis curtas metragens, exemplos da recente safra de trabalhos oriundos de diversas partes da Bahia, a sessão trouxe variados temas que puderam ser explorados no papo com o público.

Desde as questões atreladas a incapacidade (que beira à psicopatia) do homem em viver em grupo, ao descaso e ao compromisso de profissionais da pedagogia com o ensino a alunos portadores de necessidades especiais; passando pela invisibilidade das vitimas do abandono social, até as questões atreladas ao egoísmo e a generosidade entre crianças afastadas pelas oportunidades de vida ou unidas por um único contexto e realidade: a seleção de obras exibidas no cineclube permitiu uma ampla reflexão entre os presentes.

Pesquisador Francisco Gabriel comenta os filmes
Iniciado com Arremate, curta dirigido por Rodrigo Luna e baseado em uma obra de Neil Gaiman, o cineclube criou de imediato uma tensão entre os presentes, na história da passagem de um homem do âmbito meramente vingativo, mas não menos aterrorizante, para o genocida em questão de minutos. A comprovação da máxima “dê poder a um homem e o conheça de verdade”.

Em seguida, com O Cadeado, de Leon Sampaio, uma fagulha na discussão acerca do compromisso pedagógico foi lançada, o que permitiu que diversos dos presentes, ligados diretamente com a área em questão, pudessem explanar acerca do rico tema em exemplos de suas próprias experiências profissionais.

O crítico João Paulo Barreto comenta alguns dos curtas exibidos
Com uma temática forte, que retrata o esforço de jovens no intuito da busca pela educação, O Cadeado encontrou na platéia um diálogo expansivo, que encontrou ecos em O Menino Invisível, de Murilo Deolino, Danilo Umbelino e Uiran Paranhos, no qual seu personagem título não faz parte daquele âmbito de tentativas e se vê em um mundo no qual o escapismo imaginário o salva de uma realidade excludente que, além de ignorar sua existência, ignora seu próprio penar e morte. Talvez o mais impactante dos trabalhos exibidos.

Com Carreto, de Cláudio Marques e Marília Hughes, o encantamento do lúdico apresentado pelo filme na forma do reencontro de uma criança com o que significa sua infância e o denotar generoso de suas atitudes, pôde trazer um gancho na comparação com Menino do Cinco, de Marcelo Matos e Wallace Nogueira, no qual as diferenças de classe e a criação familiar ressaltaram um chocante egoísmo infantil.

Parte do público presente na sessão
Esse mesmo escapismo lúdico foi visto em A Descoberta, de Ernesto Molinero, que fechou a sessão trazendo para o espectador local a experiência de se conhecer um cinema que, do mesmo modo que Arremate, prima pela utilização do som na sua criação. Extremamente sensorial, o curta, que encontra ecos em Alice, de Lewis Carroll, traz a história de um garoto que passa a ter uma nova visão de seu mundo através da perda e da percepção ampla do ambiente que o cerca.

Destacando-se por uma seleção de curtas que foge do clichê e do já comum hábito de criar estereótipos a representar a famigerada “baianidade”, a curadoria do Cine Avuadora permitiu um excelente diálogo, que contou com a presença do pesquisador Francisco Gabriel Rego e deste que vos escreve como mediadores no papo que perdurou por mais de uma hora.

Uma tarde a ser memorada, de fato.

"Os meliantes no parquinho": pós sessão =P

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Boa Noite, Mamãe

(Ich Seh Ich Seh, Áustria, 2014) Direção: Severin Fiala e Veronika Franz. Com Lukas Schwarz, Elias Schwarz. Susanne Wuest.



Por João Paulo Barreto

Boa Noite, Mamâe, longa metragem austríaco de 2014 que chega agora aos cinemas brasileiros, até consegue criar um incômodo clima de tensão na história dos gêmeos Lukas e Elias, que, após receberem a mãe em casa depois da mesma sofrer um acidente de carro que a deixou com sequelas e bandagens no rosto, passam a desconfiar se aquela é mesmo a progenitora deles.

O longa, escrito e dirigido pela dupla austríaca Severin Fiala e Veronika Franz, desenvolve de modo intenso uma atmosfera de suspense, levando o espectador para nuances entre o sobrenatural e o terror meramente psicológico. Contribui bastante o uso de um cenário extremamente hermético (no caso, a casa onde os dois garotos vivem e mãe convalesce), com tons pastel e pouco acolhedor para um lar no qual duas crianças moram. Além disso, colabora para tal desconforto sensorial inserções de passeios feitos pela suposta mãe do garoto, que entra em algo semelhante a um transe durante a caminhada.

Bandagens e ferimentos dão o tom misterioso da personagem

Tal opção no desenvolver do longa acerta pelo envolvimento desconfortável no qual o espectador se vê, uma vez que boa parte da trama é desenhada pela dúvida acerca de quem seria, realmente, a pessoa por trás daquelas bandagens a cobrir o rosto da mulher. E o filme consegue criar momentos de real pavor em torno deste tema, como quando a vemos remover parte dos curativos em frente ao espelho (momento testemunhado pelo menino Elias) ou quando suas caminhadas parecem, de fato, levar a um transe sobrenatural.

No entanto, tal expectativa se perde no momento em que a mamãe retira as bandagens e notamos um rosto sem marcas ou qualquer ferimento, o que contribui, além do comportamento agressivo da mulher, para a desconfiança das crianças sobre a real identidade da pessoa com quem eles dividem a casa.

Momento de tensão: bandagem sendo retirada e presenciada por Elias
Com ecos que remetem a Children of Corn, conto assombroso escrito por Stephen King, e levado ao cinema de forma não muito feliz, Boa Noite, Mamãe até poderia ser mais uma obra a se valer da aura misteriosa que crianças em filmes de terror parecem possuir, mas, ao descambar para um espetáculo de sadismo e tortura, o filme perde o controle de uma sutiliza que se apresentava como seu principal trunfo, caso sua história permanecesse ainda dentro daquela proposta.

Com atuações convincentes dos dois jovens atores, é uma pena que a reviravolta no roteiro já não tenha tanto impacto junto ao público. Caso não descambasse para algo cuja necessidade de chocar acaba, contraditoriamente, resvalando no trivial, poderia ser um grande thriller. Uma pena. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O Quarto de Jack

(Room) Direção: Lenny Abrahamson. Com Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Macy, Sean Bridges.



Por João Paulo Barreto

De dentro do quarto, o garotinho olha pela claraboia sem ter nenhuma ideia do que aquilo representa. É apenas a luz do sol a iluminar o seu mundo. Sim, todo o seu mundo representado por aquele cubículo que é tudo o que ele conhece em seus cinco anos de vida.

Analisar O Quarto de Jack como uma experiência cinematográfica a partir de suas técnicas de representação daquele ambiente, no qual a direção de arte e a montagem conseguem a proeza de transformar o minúsculo lugar em todo o universo de uma criança, é um modo pertinente de penetrar naquela história.

Mas, diferente do pequeno Jack, sua mãe, Joy, colocada ali à força e obrigada a criar aquela fantasia para o bem de seu filho, a claustrofobia é inevitável. E, paradoxalmente, o espectador consegue perceber e discernir as duas “visões de mundo” que aquele ambiente apresenta. Conseguimos nos sentir claustrofóbicos pela óptica materna e esperançosos pela infantil.

O mundo de Jack e cativeiro de Joy
No território técnico, esse é o primeiro grande acerto de Room, novo filme de Lenny Abrahamson (do enigmático Frank), algo que torna a inicial apresentação do longa menos desconfortável para o espectador que é colocado, também, dentro daquele cubículo e é levado a experimentar, mesmo que em pequena escala, a mesma sensação dos seus personagens.  

Não há muito para se conhecer naquele ambiente, de fato. No entanto, somos surpreendidos a cada nova camada que o lugar parece apresentar. Isso, claro, quando o estamos vendo a partir da experiência de Jack, que costuma dar bom dia às poucas peças de mobília como se fossem seus amigos e brinca com um cachorro que só existe em sua mente.

Com seus cabelos longos, olhos curiosos e voz sempre inquiridora, o pequenino descobre a cada dia algo novo, dentro da fantasia que sua mãe precisou criar para que a vida do garotinho não se tornasse tão insuportável quanto a sua. E descobrindo cada nuance do seu planeta, Jack (uma atuação surpreendente de Jacob Tremblay) completa cinco anos de idade achando se tratar aquela sua realidade. 

Joy tornando aquele mundo mais palatável para Jack
Ao gritar para pedir ajuda, Joy diz ao garoto estar chamando por alienígenas. Ao se referir a TV, diz se tratar de mágica, do mesmo modo a origem da comida que o seu captor costuma trazer, momentos estes em que Jack precisa ser colocado dentro do armário para não ter contato com o psicopata.

De inicio, Room trata-se justamente do modo como somos levados àquele ambiente. É somente em seu segundo ato que percebemos o quão ainda mais profundo é o roteiro de Emma Donoghue, baseado no seu próprio livro. Não é segredo que ambos conseguem escapar de seu cativeiro. Mas é no retorno ao mundo real que está a verdadeira força da obra. No quão frágil aparenta ser a criança em relação a sua mãe, mas é justamente nele que estará a readaptação à nova realidade de ambos.

Seja no reencontro familiar, com um inesperado confronto por parte do avô (William H. Macy em um papel pequeno, mas tocante) e no modo como vemos Jack entrar gradativamente em contato com todas aquelas descobertas, o segundo ato e conclusão de Room traz uma análise do fato de que sair do cubículo parece ter sido somente uma ação física por parte de Joy (Brie Larson), mas que ela ainda se vê presa àquele quarto. Como em Alice no País das Maravilhas, livro que a garota lia para seu filho, as fronteiras que ambos precisam atravessar mesclam-se bastante às da sanidade. Afinal, para estar dentro daquele mundo (o real e o do quarto) é preciso ser um pouco louco.

Rotina criada em torno de Jack
Na tentativa de Joy pela sua volta, percebemos seu esforço quase vão neste intento. Após nos habituarmos com sua aparência pálida, o choque de a vermos maquiada e em roupas elegantes na cruel entrevista concedida a um canal de TV, demonstra bem o contraste e a longa caminhada que ela terá que seguir naquele retorno. O poder para voltar estará, curiosamente, naquele que ela protegeu.

No corte das longas madeixas de Jack, algo que oportunamente Joy usava para representar a força da criança em sua imprescindível fantasia, denota-se que ela pertencia de forma integral a ele. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Deadpool

(EUA, 2016) Direção:Tim Miller. Com Ryan Reynolds, Morena Baccarin, T.J.Miller, Ed Skrein.


Por João Paulo Barreto

Desde seus créditos iniciais, percebe-se uma proposta diferenciada para Deadpool, adaptação dos quadrinhos do personagem mais anárquico da Marvel Comics. Ao invés dos nomes dos produtores, atores, roteiristas e diretor, uma descrição nonsense e chula de cada indivíduo é feita. “Uma garota gostosa”, “um vilão com sotaque britânico”, “roteiristas: estes, sim, os verdadeiros heróis aqui” e “um diretor que se acha”. Sim, desde o começo, sabemos que não vamos presenciar um filme comum, mas um exemplo louvável de como adaptar para o cinema toda a comédia encontrada nas páginas de seu material original.

Na história, o “fazedor de serviços sujos” Wade Wilson descobre que tem câncer terminal e recebe uma proposta de um grupo de cientistas para se submeter a um doloroso experimento que, supostamente, vai ativar a mutação em suas células. A cura virá, mas uma deformação como efeito colateral, juntamente a um fator de cura e superforça, também. Na busca pelo indivíduo que o curou, mas não sem antes de fazê-lo sofrer e lhe dar a esperança de que poderia lhe devolver sua aparência anterior, Deadpool tem a desculpa certa para destilar sua ironia e humor doentio em cada frame. E, claro, há a busca pelo salvamento da não tão ingênua mocinha.

Wade Wilson e sua desfiguração após cura 

Levando ao extremo a metalinguagem e a quebra da quarta parede, o roteiro de Paul Wernick e Rhett Reese, ambos com experiência nestes conceitos após o hilário Zumbilândia, é uma licença para que diversas piadas sejam feitas com o universo dos quadrinhos no cinema, desde citações de heróis que a produtora não tinha licença para usar (“rima com Pouverine”) a geniais perguntas do personagem principal, como quando é cogitada pelo x-man Colossus sua visita ao professor Xavier (“Stewart ou McAvoy? Essas novas linhas temporais me confundem”). É um filme cujo grande acerto é o de não se levar a sério. Mesmo que em certo momento essas piadas cansem um pouco (como quando o protagonista empurra a câmera), o resultado final da obra não chega a ser comprometido.


Cenas bem dirigidas de ação são o grande destaque do filme
Após a tentativa frustrada de inserir Deadpool, com o mesmo Ryan Reynolds que, aqui, se encaixa como uma luva à acidez do projeto, no primeiro filme solo do Wolverine (algo que nos é lembrado de forma hilária), a revitalização do personagem nessa nova franquia se apresenta como um acerto louvável. Principalmente pelas boas cenas de ação, sequências de luta e o modo como a montagem foi sagaz ao contar toda a origem do personagem em inserções pontuais durante os explosivos acontecimentos da abertura.

E se em sua cena pós créditos souberam referenciar perfeitamente um dos primeiros filmes a utilizar a quebra da quarta parede, não será nenhuma surpresa se acertarem novamente na inevitável continuação.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O Regresso

(The Revenant, EUA, 2015) Direção: Alejandro Iñárritu. Com Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck. 


Por João Paulo Barreto

Muito mais do que julgar a obra pelos notórios aspectos de sua criação, no qual um intenso processo de captação foi posto em prática em uma terra selvagem com temperaturas excruciantemente baixas e condições de luz quase nulas (aqui, belamente captadas pelo diretor de fotografia, Emmanuel Lubezki), O Regresso, novo trabalho de Alejandro Iñárritu, apresenta em seu resultado justamente a provação que aqueles homens tiveram que passar na construção sua fílmica. Ao final, percebe-se que, muito mais do que um esquema de publicidade na divulgação do longa, sua execução encontra todo respaldo de qualidade no resultado entregue.

Na história dos homens contratados para retirar peles de animais selvagens para confecção de casacos ao exército no norte dos Estados Unidos do começo do século XIX, encontra-se justamente um retrato não somente daquela época no que tange à exploração de terras indígenas, mas de algo cuja reparação se estende obrigatoriamente até os dias de hoje. E Iñárritu insere essa discussão em seu roteiro, escrito em parceria com Mark L. Smith e baseado em parte no livro de Michael Punke, de modo a tornar a necessidade de diálogo acerca do assunto ainda mais relevante.


Fitzgerald e Glass: antes da vingança
Hugh Glass (DiCaprio) é um dos caçadores do grupo e líder guia nas terras inóspitas onde índios selvagens fazem valer o controle do seu território matando todo e qualquer homem que não faça parte do seu grupo. Em seu histórico, Glass, que já foi casado com uma índia e com quem teve um filho que hoje o acompanha, possui problemas relacionados a preconceito e racismo sofrido por ele e por seu rebento, a quem salvou no passado ao defender sua família de um ataque militar à tribo com quem vivia. 

No seu atual grupo, John Fitzgerald (Hardy), cujo nome carrega uma ironia fina no que se refere à exploração estadunidense dos territórios indígenas, é o único a não esconder seu racismo perante o jovem filho de Glass. A relação dos dois homens é o que pautará toda a história do filme, colocando-os em extremos opostos onde a vingança norteará a trajetória de ambos. Gravemente ferido após sobreviver ao ataque de um urso, Glass é deixado sob os cuidados de seu filho e de Bridger, outro rapaz fiel ao homem, bem como de Fitzgerald, cuja vontade declarada seria terminar o sofrimento do colega desde o inicio. 

Glass e sua frágil relação pai e filho com um rebento de origem indígena 
Ao agir por conta própria e enganando o jovem Bridger no processo, Fitzgerald deixa Glass em uma cova rasa e segue seu caminho no intuito de recolher a recompensa por ter ficado como responsável pelo moribundo. Neste ponto é quando percebemos a real força motriz do filme. Claro, a vingança já havia sido descrita como sendo sua linha de narrativa desde a primeira descrição do projeto. Mas vê-la representada na força de vontade de um homem que consegue deixar a própria cova para se vingar daquele que destruiu sua família torna a experiência de O Regresso válida como meio de reflexão relacionado à resiliência do individuo.

E é justamente disso que o longa trata. Desde a sequência impressionante da luta do protagonista contra o urso (mesmo que em seu último segundo, deixe escapar seu CGI), ao momento no qual Glass precisa se aquecer utilizando do modo menos convencional encontrado: é a força de vontade regida pelo desejo de vingança que o norteia.

Em seu belo simbolismo final, no qual a fala de um personagem crucial para a sobrevivência de Glass em seu infernal retorno é proferida novamente, entendemos de quem é a vingança mais necessária e urgente no tema central de O Regresso. Mais propriamente, a qual povo ela pertence.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Brooklyn

(EUA, 2015) Direção: John Crowley. Com Saoirse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson, Jim Broadbent.


Por João Paulo Barreto

Escrito por Nick Hornby (autor de livros como Alta Fidelidade, Um Grande Garoto e Febre de Bola) e baseado na obra de Colm Tóibin, Brooklyn apresenta uma história simples, mas que consegue construir uma relação direta com o espectador através de sua capacidade de criar situações que muitos se identificariam. Dentre elas, a saudade de casa, ou, no bom inglês, homesickness. Em determinado momento, um personagem define bem o sentimento: “Assim como qualquer doença (sickness), ela passa com o tempo”. E é disso que a obra trata. Mas, claro, nada tão simplório. O que o roteiro de Hornby aborda com maior fluidez é o processo de readaptação das pessoas perante a mudança de horizontes.

Aqui, a jovem Eilis (Ronan) deixa a Irlanda no começo dos anos 1950 para tentar a vida em Nova York, mais precisamente no popular bairro do Brooklin, onde uma grande comunidade de imigrantes, sobretudo irlandeses, vive. Deixando uma irmã e sua mãe no velho continente, ela parte em uma extenuante viagem a navio para a América, durante a qual as primeiras provações daquela mudança de ares se apresentam.

Eilis segue viagem para a América a bordo da sua primeira provação 
É uma obra estritamente feminina, que consegue abordar bem não somente as dificuldades de um imigrante em um país estrangeiro que, apesar de compartilhar a mesma língua, tem em seus hábitos e costumes toda uma diferença cultural. O roteiro de Hornby apresenta bem essas dificuldades de gênero encontradas pela personagem. Seja na adaptação a um mercado de trabalho restrito (a cena em que vemos Eilis como a única mulher em um curso para escriturários, por exemplo) ou no ambiente de sua pensão voltada para garotas, o longa se coloca de modo pertinente em tais questões, apesar de simplificar algumas das ambições das personagens secundárias ao colocá-las apenas como mulheres em busca de um marido, tornando-as, assim, bidimensionais de uma maneira gritante.

Outro ponto, inclusive, está no fato do roteiro preferir se ater a uma idealização de mundo no qual o mal parece não fazer parte. As boas intenções de todos ao redor da protagonista incomoda um pouco, diferente de Educação, filme de 2009 também escrito por Hornby e que aborda o universo feminino de modo mais realista, amargo e menos poético.

Eilis: processo de transição ao deixar o mundo que conhece em prol de uma nova vida
Mas há outros fatores que validam essa visão preferida em Brooklyn. Dentre elas, o fato de que a história se passa em uma época de grande prosperidade para os Estados Unidos. Na década em questão, após o fim da Segunda Guerra, um boom econômico e industrial se deu no país americano, tornando aquele período extremamente prolífico. Uma era de ouro, por assim dizer. Algo que é muito bem inserido através dos tons na fotografia de Yves Bélanger, que salientam a ambientação nostálgica pretendida pelo longa.

Saoirse Ronan, com seus olhos de safira, cativa o espectador com uma tristeza que gradativamente vai se transformando em segurança, mostrando justamente a premissa do filme como um conto sobre adaptação e fuga da inércia.


Tirando a ingenuidade idealizada, está tudo em seu lugar.

A Garota Dinamarquesa

(The Danish Girl, UK, EUA, 2015) Direção: Tom Hooper. Com Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts.



Por João Paulo Barreto

Há uma importância maior do que a contida na avaliação de uma obra como A Garota Dinamarquesa apenas em seu valor estético ou como forma de entretenimento cinematográfico. Em seu momento de lançamento, período no qual o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado nos Estados Unidos, um dos países mais influentes na cultura mundial, bem como a mais do que urgente permissão do uso do nome de identificação escolhida pela pessoa em provas e concursos no Brasil, um filme como do diretor Tom Hooper (Discurso do Rei e Os Miseráveis) ganha um impacto ainda maior por conta da conscientização incluída no seu tema.

Sim, nos últimos anos, diversas obras abordaram questões como homofobia e inadequação de homossexuais perante a sociedade. Filmes como Milk e Brokeback Mountain, apenas para citar dois recentes, trouxeram louváveis discussões sobre o assunto. No entanto, uma abordagem acerca dos indivíduos transgêneros focando no drama particular de suas vidas e na mudança drástica de suas identidades físicas ainda estava a ser apresentado. Longas como Tudo sobre minha Mãe e A Má Educação, ambos de Almodóvar, trabalharam tais tópicos, do mesmo modo como Albert Nobbs e Meninos não Choram, mas o trabalho de Hooper acerta ao ampliá-la na discussão psicológica e no drama interno de seu protagonista.

Einar em seu ambiente de trabalho
No caso, trata-se de Einar Wegener, jovem pintor dinamarquês do começo do século XX, que se descobre identificado com o gênero feminino após começar a posar com roupas de mulher para uma série de quadros pintados pela sua esposa, a artista plástica Gerda Wegener. O que inicialmente era tido como uma brincadeira saudável entre um casal viril e sexualmente ativo, começa a resvalar em um conflito psicológico para Einar, que tem em seu alter-ego, Lili, um encontro que no começo o choca em sua auto-avaliação, mas que começa a fazer sentido de forma gradativa, quando sua personalidade passa a ser dominada pela de Lili.

Frequentando festas vestido como Lili, a suposta prima do interior de Elnar, o rapaz se vê penetrando em sua própria psique, algo que inicialmente lhe causa regozijo, mas que logo em seguida passa a criar um desconforto mental que resvala para um abalo corpóreo. Em um campo que a psicologia da época ainda engatinhava, Elnar é levado a médicos que sugerem os mais absurdos tratamentos, até que um deles, em Paris, lhe informa acerca da precursora possibilidade de mudança de sexo, algo a que Elnar, cada vez mais Lili, se agarra.

O filme acerta em abordar o drama vivido não somente pelo rapaz, mas por sua esposa, Gerda, que por amá-lo de forma incondicional, lhe dá todo suporte nessa decisão. A abordagem do longa neste aspecto até a pinta inicialmente como uma oportunista, que incentiva o marido a continuar travestindo-se apenas para que possa continuar a criar telas com sua imagem, quadros que vêm fazendo sucesso na França. No entanto, tal julgamento acaba sendo descartado pelo roteiro, uma vez que o suporte da garota, mesmo que levando seu casamento a um final inevitável, revela-se, de fato, indubitável.

Gerda e suas criações inspiradas em Lili
Mas é na maneira como Eddie Redmayne constrói as nuances femininas de suas duas personagens, tanto Elnar quanto Lili, que está a grande força de A Garota Dinamarquesa. O modo como seu olhar resvala entre momentos de dúvidas e decisão, demonstrando uma insegurança natural, além de seu sorriso largo que surge como que para esconder aquelas mesmas dúvidas, juntamente como seu toque e o modo como suas mãos se movem tanto no contato com o próprio rosto quanto no acariciar das pessoas que o cercam: são estes os elementos que demonstram uma construção impecável de outro ser humano.

Tom Hooper parece contido em suas utilizações de lentes deslocadas e ângulos de câmera exagerados e sem relação com resultado final, hábito comum em longas anteriores. Aqui, há um acerto no tom de seus enquadramentos juntamente com o ritmo das atuações de seus dois protagonistas, como no momento em que vemos Lili fugir da casa de um dos personagens e a rua é exibida como um corredor infindável de casas idênticas, demonstrando justamente a dificuldade da garota ao ser confrontada em sua identidade civil e a sua busca pela saída daquele mundo estático. 

Einar em seu momento de descoberta
Em sua busca por uma adaptação, a agora definitiva Lili renega tudo que antes pertencia a Elnar, inclusive seu incrível dom para a pintura. Em suas perguntas ingênuas ao médico que decidirá seu futuro, há justamente a esperança de alguém que até bem pouco tempo antes não existia. E como as de uma criança, alguém que “nasceu ontem”, tais dúvidas são presenciadas pelo espectador com uma compreensão tenra, de alguém que, apesar de decidida em sua mudança, sabemos que ainda se vê perdida em todo aquele turbilhão.

No toque das roupas femininas à presença em frente ao espelho de um corpo nu que parece ter acabado de descobrir, Elnar se encontra na busca da forma que o define, na forma que o faz se sentir bem, que o faz se sentir Lili. E não é isso que todos nós buscamos? Conforto e paz interna? Sim.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Spotlight

(EUA, 2015) Direção: Tom McCarthy. Com Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Stanley Tucci, Liev Schreiber. 


Por João Paulo Barreto

A partir de um extenuante trabalho de apuração, um grupo de jornalistas do caderno Spotlight, encartado ao jornal Boston Globe, decide investigar as denúncias de pedofilia contra padres da igreja católica sediada na cidade. O que poderia cair em um entediante documentário disfarçado de filme de ficção que só teria vazão para desesperados estudantes do primeiro semestre de Jornalismo, acaba por se tornar uma brilhante peça cinematográfica a registrar um não menos brilhante foco de apuro e excelência da imprensa (aquela que vale a pena se levar a sério, friso).

Spotlight, novo trabalho do diretor Tom McCarthy (que entregou em 2007 o delicado O Visitante, e se recupera com êxito de Trocando os Pés, com Adam Sandler), consegue captar toda a tensão inserida em uma investigação cuidadosa, realizada por repórteres dedicados e comprometidos com aquilo que os colocou naquela profissão: a verdade. Pode parecer dramático e ostentoso, mas como parte deste grupo de profissionais, eu posso afirmar que o que se aprende na faculdade no quesito ética e compromisso com a veracidade nem sempre é o que vemos no meio. A investigação realizada contra padres pedófilos na Boston do começo do século é algo que se coloca em um patamar superior da labuta jornalística.


Robby e Mike: dedicação e compromisso
Inseridos meio que de forma marginal na redação do jornal, a equipe liderada Walter “Robby” Robinson (Keaton) parece um grupo de excluídos da rotina do veículo. Desde a sua posição geográfica na sede do periódico, algo brilhantemente ilustrado por McCarthy ao utilizar a câmera a seguir os personagens pelos corredores e escadas do local (sempre os direcionando para níveis inferiores), passando pelo modo como o grupo parece se abster de uma vida social em prol do trabalho, todos as características daquelas pessoas representam seu compromisso irremediável com a profissão.

Quando vemos o personagem de Mark Ruffalo, Mike Rezendes (em uma atuação incrível, com as mãos nos bolsos, sempre curvado como a tentar levantar o peso de uma timidez disfarçada), fazer seu jogging dominical, mas correndo em direção ao prédio do Globe, percebe-se que é justamente dessa dedicação que beira ao infame que o filme trata, também. Não que para eles isso seja um problema. Talvez caiba ao público (ou a jornalistas não atuantes como repórteres, como meu caso) observar esse comportamento com uma curiosidade mórbida. O rapaz parece não ter uma vida social; sua namorada é citada como alguém com quem tem problemas; ele mora em um apartamento quase sem móveis e se alimenta de salsichas. É uma opção de comprometimento louvável, mas que poucos nessa área têm a vocação para seguir.

Uma das vitimas compartilha seu drama com a equipe de repórteres 
Na investigação, são os depoimentos das vitimas que mais chamam a atenção. O momento em que uma delas descreve-se como um garoto de 12 anos que tem na presença física de um padre a autoridade do próprio Deus católico, é um dos mais reflexivos de toda obra. “Quando ele lhe pede um favor, é como se Deus estivesse pedindo. Para um garoto que não tem nada, isso é muito”, diz ele perante a equipe. A quebra da confiança que aqueles agora adultos atormentados pelo passado sofreram é o que causa mais asco. Completo e total asco ao imaginarmos que um grupo de homens que supostamente deveria lhes trazer conforto social e moral só lhes trouxe sofrimento e tragédia psicológica.

O filme acaba por registrar a luta não somente do grupo de repórteres, mas de outros profissionais que ousam desafiar um gigante como a igreja, uma entidade que, comprovadamente, acobertou seus criminosos representantes transferindo-os para outras paróquias a cada abuso cometido e descoberto.

Profissionais como o advogado Mitchell Garabedin (Tucci), que traz no mar de processos no qual se vê afundado em seu escritório (em um incrível trabalho da direção de arte, curiosamente não reconhecido com uma indicação ao Oscar) o comprometimento com uma causa na qual acredita, que não cansa de lutar.

Trata-se de um filme sobre o drama de vida tanto das vitimas dos crimes horrendos cometidos pelos supostos homens santos, quanto das pessoas que decidiram ajudá-las a agir contra a podre instituição religiosa que os acobertou. No entanto, claro, o drama deste primeiro grupo nunca terá fim. Eles não têm esta opção, infelizmente.



O Filho de Saul

(Saul Fia, Hungria, 2015) Direção: László Nemes. Com Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn. 



Por João Paulo Barreto


Um dos pontos que chamam a atenção no favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro desse ano, O Filho de Saul, além, claro, de seus diversos planos sequência e câmera quase que exclusivamente em primeira pessoa, é o modo como o longa consegue tornar o espectador ciente do modo desesperador como um homem que já perdeu tudo se apega a um último desejo, tornando aquilo sua ambição nas horas que se apresentam, provavelmente, como suas últimas.

Os horrores de Auschwitz na Segunda Guerra ilustram como pano de fundo a resiliência do húngaro Saul, prisioneiro judeu que trabalha na função de descartar os cadáveres das pessoas assassinadas no local. Utilizando grandes fornos ou poços para eliminar os corpos, o exército alemão a coordenar o lugar mantém uma rotina de trabalho que demonstra a maneira como o nazismo se instaurou como uma organização lucrativa, algo ilustrado no modo como todas as roupas dos recém-chegados são reviradas na busca por objetos e seus dentes de ouro são retirados dos corpos sem vida.


Saul em momento crucial de sua busca
A busca desenfreada pela eliminação dos corpos, que têm suas cinzas jogadas em um rio a cortar a região, denota bem a preocupação do regime em não deixar rastros para seus atos. Neste contexto, Saul se depara com o momento em que um garoto que supostamente estaria morto acorda agonizante na maca de um médico alemão a fazer experimentos nos cadáveres, algo que não deixará de acontecer, uma vez que a equipe médica teve certeza de encerrar o destino do menino. 

O simbolismo da busca de Saul por um rabino e de um meio para dar ao garoto um enterro judaico cria uma dolorosa representatividade do desespero daquele homem, que precisa se apegar a uma missão suicida como aquela no intuito de conseguir manter sua sanidade. Em sua entrega total àquele gesto dedicado a um estranho, o homem busca manter uma diferenciação que o afaste daquele ambiente. 

O desespero na tentativa de manter algum traço de humanidade
Ao optar por uma razão de aspecto que mantém a visão do espectador direcionada a elementos centrais e a pouca profundidade de campo a fazer justamente uma alusão ao foco do protagonista em sua missão, o diretor László Nemes (em uma surpreendente estreia em longas metragens) consegue exatamente seu intento: colocar o espectador em uma posição de desconforto físico ainda maior, já que a aspereza de sua direção acaba por criar um impacto ainda mais doloroso em seu público.

É uma obra que incomoda, que tem em muitos dos seus méritos a não romantização do ato de falar da guerra, preferindo manter-se em um estado quase documental de exibição, no qual quem a assiste é colocado em meio àqueles horrores e não em uma situação de voyerismo.

Quando percebemos que, em sua fugacidade, as ambições de Saul se assemelham muito às cinzas oriundas de corpos que o vemos jogar em um rio, seu destino final nos parece inevitável.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Boi Neon

(Brasil, 2015) Direção: Gabriel Mascaro. Com Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Alyne Santana, Vinicius de Oliveira


Por João Paulo Barreto

Em Boi Neon, o universo bruto dos vaqueiros traz uma diferente aura.

Vaqueiro com aparência bruta, suja, quase violenta, mas que esconde uma sensibilidade disfarçada. Nem mesmo ele sabe que a possui. Apesar de não parecer pertencer àquele lugar, soa como algo natural, nada que seja alheio àquele seu universo.

No sonho de ser estilista, Iremar cata em meio à lama de um depósito de materiais descartados de uma fabrica de tecidos, partes de um manequim que o ajudam, mesmo que de forma pequena, a tornar aquela ambição mais palpável.

O diretor Gabriel Mascaro traz no construir daquele ambiente toda uma reestruturação de seus personagens, retirando-os da obviedade e da previsibilidade que suas aparências supostamente trariam como bagagem. Aqui, a mulher, Galega, é a caminhoneira a levar o pesado veículo repleto de bois de vaquejada em vaquejada. Na boleia do veículo é onde encontra sua privacidade feminina. Onde serve de modelo para que Iremar retire suas medidas para as roupas e onde ela se depila para transar com Júnior, o vaqueiro de chapinha no cabelo e que usa aparelho nos dentes não porque precisa, mas “porque acha massa, mesmo”.

Cacá e Iremar se adaptam a hostilidade do ambiente que têm em comum
Nesse ínterim, Galega cria sua filha sem um pai por perto. A menina, Cacá, sonha em possuir um cavalo e os desenha nas páginas ejaculadas de uma revista pornô que Zé, um dos vaqueiros, carrega consigo. Naquele ambiente, é o único lugar onde ela consegue desenhar para ilustrar seus pequeninos sonhos. Na mesma revista, Iremar rabisca suas peças de roupas por cima das mulheres nuas, gerando uma raiva quase cômica em Zé, que “paga dez reais pra ver buceta”, mas encontra as páginas riscadas. São personagens presos àquele mundo hostil que, apesar de não maltratá-los, os restringe, castrando-os de suas ambições. 

Em pequenas ações inseridas naquela rotina restrita, encontram suas formas de extravasar. Iremar costura suas próprias peças de roupas, enquanto Cacá sonha com cavalos e brinca com um deles nos lombos dos bois do curral. O banho é coletivo, com todos os homens compartilhando um único chuveiro e poucos baldes de água. Mãe e filha tomam banho atrás do caminhão, com um lençol a dar pouca privacidade. 

Cacá tenta ser criança em meio aos bois de sua rotina
Em uma rotina onde a sensualidade se faz presente de forma inerente, aquelas pessoas acabam por encarar seus instintos humanos de modo a adaptá-los ao ambiente que restringe suas vidas. Ao comprar calcinhas sexy de um ambulante, Galega tem um pouco de seu perfil feminino aflorado, o que é logo recriminado pela filha insolente. “Calcinha de puta”, tacha a pequenina. A bela cena serve como desabafo para a mãe chorar ao recriminar a garotinha ao dizer que não aguenta mais. É um dos poucos momentos em que percebemos como aquela rotina a incomoda, mas não há meios de sair.

Nesse incontido aflorar de sua sensualidade, Galega transa com o novo vaqueiro, Júnior, alguém que ainda lhe é desconhecido e que, talvez por isso, facilite sua aproximação, uma vez que não vemos a mesma energia entre ela e Iremar. O sexo é feito em pé, dentro de um curral, em meio aos bois. Nada mais apropriado para quem vive naquele mundo. Já Iremar é seduzido pelo presente de uma vendedora de perfumes grávida e a liberação de todo aquele desejo se representa em uma das cenas de sexo mais belamente filmadas no cinema nacional.

Mascaro convida o espectador a visitar aquele mundo, a perceber como aqueles indivíduos se adaptam às suas ambições em seus sonhos impossíveis e os modos como a vida os castra. Uma obra fascinante.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Sicario

(EUA, 2015) Direção: Denis Villeneuve. Com Emily Blunt, Josh Broli, Benicio Del Toro, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya. 



Por João Paulo Barreto

É fácil acusar Sicario, novo trabalho do diretor Denis Villeneuve, como uma obra fascista e criada com o único intuito de se chocar o espectador. Recordo-me de ter visto comentários semelhantes na ocasião do lançamento de Tropa de Elite, no qual diversas matérias taxavam a obra de José Padilha dessa forma. No entanto, mais importante do que um rótulo, Sicario tem em sua proposta uma relevante discussão acerca da inércia das autoridades no que tange tratar bandidos monstruosos como eles realmente são.

Reconheço ser arriscado assumir lados nesse trava. Afinal, o limite entre se tornar você mesmo um fascista ao defender os pontos de vista que a obra traz sobre o modo como se deve resolver a violência do tráfico de drogas no México (ou em qualquer grande capital brasileira, diga-se) é tênue. No entanto, é imprescindível traçar uma análise acerca das ações policiais cujos atos são tão monstruosos quanto os cometidos pelos “bad guys” dessa história. Ao final, fica a pergunta: quem é o verdadeiro vilão da obra que acabamos de presenciar? Talvez, o mais relevante não seja essa pergunta, mas, sim, sabermos quem são os sobreviventes cujo futuro sombrio ainda pode ser salvo.


Macer: Guerra contra o tráfico em solo americano 
Juárez, no México, é o retrato de um território sem lei, no qual policiais corruptos lidam com o tráfico de forma conivente e os traficantes, a fim de demonstrar poder, penduram seus desafetos esquartejados nos viadutos que cortam a caótica cidade. É nesse ambiente que a agente estadunidense Kate Macer (Blunt) é inserida juntamente com uma equipe de superiores liderada por Matt Graver (Brolin) e por Alejandro (Del Toro), um ex-promotor colombiano que colabora nas investigações que podem levar a prisão do chefão Fausto Alarcon. 

Inicialmente focado na inserção de Macer naquele novo universo que lhe é desconhecido no que se refere ao México, o longa vai, gradualmente, ampliando seu leque de abordagem, trazendo à tona vez por vez as motivações de cada personagem, para, ao final, revelar a surpreendente razão para um deles agir do modo como age e o quão chocantes podem ser seus atos. Macer, apesar de experiente na atividade policial (a cena inicial do filme, mostrando sua equipe tática invadindo uma casa repleta de traficantes impressiona), é inserida naquele ambiente de modo que sua postura passa a se moldar diante daquelas circunstâncias. Sempre irredutível quanto ao que acredita, não seria difícil imaginá-la cedendo ou desistindo à medida que a percepção que aquele universo a moldará se concretiza.

Del Toro no papel do atormentado e misterioso Alejandro
É uma obra que incomoda. Que nos faz assumir lados perigosos de se assumir. Que nos faz torcer pelas pessoas erradas, mas, no entanto, nos deixa com a certeza de se entender suas razões, apesar de não concordarmos com seus atos. Monstruosidades devem ser respondidas apenas com monstruosidades? O olho por olho não acabará por nos deixar todos cegos? Quando nos deparamos com um final como o apresentado em Sicario, temos a certeza de que, de fato, o homem é produto do seu meio. Ao final, a agente Macer escuta alguém lhe dizer que aquela é uma terra de lobos e que ela não faz parte daquele lugar. Muitos são os que fazem parte, no entanto. Poucos, para o bem o para o mal, estão ali por que escolheram ficar. 

A cena do jantar ao final do filme denota bem o tipo de homem que foi arrastado para aquela terra, mas acabou por se sentir à vontade naquele ambiente hostil, reconhecendo-se como parte inseparável daquele lugar.

É um filme amargo, cujo final até tenta nos colocar um viés de esperança, mas, qualquer eco nessa tentativa é abafado pelas rajadas de metralhadora que sobrepõem os sons de um jogo de futebol entre crianças.







sábado, 24 de outubro de 2015

Ponte dos Espiões

(Bridge of Spies, EUA, 2015) Direção: Steven Spielberg. Com Tom Hanks, Mark Rylance, Alan Alda, Amy Ryan, Austin Stowell, Jesse Plemons, Sebastian Koch.




Por João Paulo Barreto

Uma das características mais aprazíveis de Ponte dos Espiões, novo acerto de Steven Spielberg após os medianos Cavalo de Guerra e Lincoln, é o modo como o diretor dá preferência em desenvolver as características intimas de seus protagonistas sem necessariamente usar esse artifício como uma muleta emocional para levar adiante o filme.

Como o título já entrega, é um filme sobre espionagem. Não necessariamente um filme sobre gadjets ou rotina de espiões. Claro, vemos algo disso dos dois lados do tabuleiro EUA vs URSS, mas o ponto principal de observação aqui são as circunstâncias cruciais de vida ou morte em que aqueles homens de ambas nações são colocados sem a real vontade de estar ali, “morrendo” por seus respectivos países.

Não me entenda mal. Patriotas eles, de fato, são. Não estão dispostos a ceder perante tortura, ameaças de execução ou penas perpétuas de encarceramento. Mas é notável um peso em seus olhares cansados e desejo por outra vida que o roteiro dos irmãos Coen e do quase desconhecido Matt Charman salienta com um cuidado impressionante em não resvalar para o melodramático cuja armadilha diversas obras de guerra já caíram.
Tempo de paranoia: Jim é perseguido por figura suspeita
Aqui, o conflito apresentado é a Guerra Fria, quando em meados da década de cinquenta, Estados Unidos e União Soviética mediam suas forças estando ambos amarrados pela coleira que a possibilidade de um novo conflito mundial poderia trazer de consequências para ambos. A ameaça de uma nova bomba atômica assombra todo o planeta. Ambos possuem espiões infiltrados em suas redes de informações.

Em Nova York, Rudolf Abel, suposto russo cuja nacionalidade nunca é confirmada, é preso sob suspeita de passar segredos militares para os comunistas soviéticos. Sobrevoando o país comunista a 70 mil pés de altura e tirando fotos com supercâmeras, o piloto Francis Powers é abatido (em uma sequência espetacular) e preso. Na Alemanha, o estudante americano de Economia, Frederic Pryor, trabalha em sua tese sobre comunismo quando é preso diante do muro de Berlim em construção sob a acusação de espionagem.

Na difícil missão de defender Abel, o advogando da área de seguros (!?), James Donovan (Hanks), vê o caso ganhar dimensões nacionais e uma fama de vilão é aplicada a sua pessoa. Trabalhando sob o velho argumento de que todos merecem uma defesa, Jim sabe que não tem chances de ver seu cliente inocentado das acusações. Quando a pena de morte lhe é destinada, resta ao competente bacharel a ideia de convencer o juiz a manter Abel vivo como possibilidade de barganha em caso de um soldado americano ser capturado pelos soviéticos. E, obviamente, é justamente o que acontece.

Não confie em ninguém: Jim em solo alemão busca formas de negociação

No entanto, como disse, o roteiro dos Coen (baseado em fatos reais) escapa das armadilhas de um dramalhão focado nas condições adversas nas quais os espiões e o estudante que estava na hora e local errado se encontram. E creio ter sido um desafio para Spielberg não se render a esse tipo de caminho fácil, uma vez que, em muitos dos seus filmes, o drama humano e as lágrimas acabam por afogar qualquer outra tentativa de construção fílmica. Outra razão para esse resultado positivo está na escolha de Thomas Newman na criação de uma trilha sonora que, apesar de tons melancólicos em certos momentos, mantém-se compenetrada e destinada a salientar as tensões que aqueles homens estão passando.

Ainda graças aos Coen, que mantêm um humor afiado em seu texto, principalmente embalado pelos diálogos rápidos de Tom Hanks nas situações familiares e de trabalho, Ponte dos Espiões se sobressai não somente como uma eficiente reconstrução de época (a direção de arte é sublime), mas como uma obra focada nas relações humanas. E isso sem a necessidade de seguir os já citados fáceis e clichezados caminhos narrativos que essa escolha pode possuir.

"Todos merecem uma defesa": Jim e seu cliente espião, Abel
É uma obra elegante, repleta de subcamadas que apresentam críticas a uma época de vigilância, perseguições e paranoia, que, apesar de se passar nos anos 1950, podem muito bem ser aplicadas aos dias de hoje. Spielberg, claro, faz questão de pintar os Estados Unidos como uma terra de sonhos, comparado ao inferno que devia ser viver na União Soviética ou Alemanha daquele período. A óbvia (e até um pouco banal) rima visual que ele fez ao comparar uma viagem em um trem germânico com a de um trem novaiorquino beira um tanto no artificialismo, apesar de trazer importante reflexão.

Porém, ao olharmos para os dias de hoje, quando a abordagem a cidadãos negros por policiais brancos se difere grotescamente do modo como aconteceria se os suspeitos fossem caucasianos; quando estudantes estadunidenses matam professores e colegas de classe com rifles; ou quando adolescentes com distúrbios adentram igrejas de comunidades afrodescendentes de arma em punho, notamos que a paranoia daquela década do século passado não se compara a dos dias de hoje. E justamente no país que Ponte dos Espiões vende como sendo o mais seguro de todos.  



terça-feira, 13 de outubro de 2015

Respire

(França, 2014) Direção: Mélanie Laurente. Com Joséphine Japy, Lou de Laâge, Isabelle Carré


Por João Paulo Barreto

Apesar de seu título simbólico e ligado mais a um significado subliminar da trama do que propriamente ao desenvolvimento gradativo de seus personagens e desfecho pretensamente chocante, Respire, obra francesa exibida na Semana da Crítica de Cannes em 2015, traz uma discussão mais importante para os dias atuais que é a questão do bullying entre adolescentes e o modo como tais perseguições podem abalar alguns deles tanto de forma psicológica quanto física.

Na trama, a adolescente francesa Charlene, ou Charlie, como é chamada por todos, é uma estudante secundarista com problemas de asma e jovens pais em constante conflito. Charlie percebe em uma aluna novata, a confiante e quase rebelde Sarah, uma reconfortante e calorosa amizade que se desenvolve desde seu primeiro encontro no colégio, passando a crescer ainda mais nos momentos em que estão juntas durante estudos em casa e férias passadas com a família da primeira

Cumplicidade: Charlie e Sarah se envolvem cada vez mais
Com claros desejos sexuais reprimidos pela amiga e uma fragilidade afetiva gritante, Charlie se vê refém das nuances da personalidade de Sarah, que, inicialmente companheira e presente, passa a criar joguinhos psicológicos com a amiga, como quando passa a ignorá-la durante o tempo que passam juntas nas férias familiares de Charlie apenas porque esta a apresentou como colega de colégio ao invés de amiga.

Sarah, no entanto, esconde segredos relacionados a sua mãe, que ela vende aos amigos como sendo uma ativista de uma ONG da África, mas, na verdade, é uma alcoólatra desequilibrada que vive em seu minúsculo apartamento sob os cuidados da filha. Notável o modo como a diretora Mélanie Laurent (a Shosanna, de Bastardos Inglórios) traz ao espectador esse segredo da vida da espevitada Sarah. Mantendo um eixo horizontal de câmera, ela exibe pelo lado de fora o sujo apartamento onde a adolescente vive, mostrando através das janelas o drama da vida doméstica da jovem e, finalmente, alcançando a revelação de uma terceira pessoa a presenciar aquilo, o que trará consequências drásticas na vida das protagonistas.

Evitando focar na evidente sensualidade das duas meninas, Laurent acerta em manter a relação afetiva com o mínimo de apelo sexual, algo que seria uma armadilha fácil para o roteiro seguir, principalmente após o sucesso de Azul é a cor mais Quente.

Sempre juntas, a amizade deixa o colégio para fazer parte da vida de ambas
Ao invés de escancarar qualquer desejo reprimido que ambas possam possuir, o roteiro, baseado na obra de Anne-Sophie Brasme e escrito pela diretora em parceria com Julien Lambroschini, mantém tal possibilidade no campo da sugestão, colocando-o apenas nos olhares de Charlie para a amiga, na observação desta enquanto Sarah está na aula de ginástica e alcançando o “máximo” ao colocá-las em um beijo bêbado durante uma brincadeira.

Outro ponto curioso é o modo como a beleza de Charlie é apresentada ao espectador em sua primeira aparição em tela, quando, após um breve momento com o rosto encoberto por uma xícara no café da manhã, exibe sua jovialidade e exuberância, características essas que a garota não parece perceber possuir e, quando tenta salientá-las com um simples batom, o resultado acaba sendo o menos esperado e a constrangendo em sua.frágil solidão.

É uma obra que consegue dosar bem a tensão de uma relação cujo desequilíbrio trágico e emocional é iminente, o que não deixa de refletir de forma positivamente incômoda no espectador. Mesmo com um final um tanto forçado e criado com uma certa intenção de choque que beira o artificial, Respire se apresenta muito bem em sua proposta de discussão no modo como a adolescência pode ser uma fase extenuante, principalmente para jovens em situações de bullying.