sexta-feira, 8 de junho de 2018

Oito Mulheres e um Segredo

(Ocean´s Eight) Direção: Gary Ross. Com Sandra Bullock, Cate Blanchet, Mindy Kalling, Rihanna, James Corden.


Por João Paulo Barreto

Oito Mulheres, um segredo e um roteiro preguiçoso 

Mesmo com elenco estelar e afiadíssimo, a versão feminina dos filmes de roubo deixa a desejar

Filmes de roubo possuem uma estrutura já conhecida que inclui aquela lista de personagens de aparência moderninha, diálogos rápidos, olhares marotos e perguntas tentadoramente capciosas. São aqueles tipos extremamente inteligentes, de tiradas certeiras e presença exuberante. Cumprem sempre uma pegada marcante neste tipo de gênero. Este é um filão já bastante explorado em clássicos como Golpe de Mestre e Como Roubar um Milhão de Dólares, ou, mais recentemente já na década passada com Vida Bandida, A Cartada Final, O Plano Perfeito, e, claro, impossível não citar Onze Homens e Um Segredo, justamente o trabalho que deu origem ao lançamento Oito Mulheres e Um Segredo.

O que diferencia todos os trabalhos listados anteriormente do longa estrelado por Sandra Bullock, além do fato de o (ótimo) grupo de protagonistas ser composto exclusivamente por mulheres, é a ausência da resolução catártica que, em obras anteriores, recompensava muito bem o espectador que investira duas horas do seu tempo na familiarização com aquelas pessoas e solidarização com sua causa e interesses. O que faltou aqui foi justamente isso. Claro, temos a preparação para o roubo, bem como a já esperada apresentação da expertise de cada uma das cúmplices, que cumprem cada uma delas um papel que o tom de comédia exige, como o da que se faz de boba, mas possui as mãos rápidas; a inicialmente mal humorada hacker; a incapacitada e insegura emocionalmente, mas que consegue se superar ao pensar na recompensa; a arrependida da vida pregressa, mas que decide retornar para um último golpe; e, claro, as líderes, sempre seguras e magnânimas, vividas aqui por Bullock e Cate Blanchet. O elenco, como já dito, está muito bem. Mas carecia de um roteiro melhor. Explico.


Equipe reunida em direção ao golpe 

EPÍLOGO DESNECESSÁRIO

Na história do furto de um colar de diamantes avaliado em centenas de milhões de dólares, as resoluções apresentadas acabam por frustrar o espectador que acompanhou a construção daquele plano passo a passo. A pergunta que fica é: era só isso? O roteiro escrito por Olivia Milch e pelo próprio diretor, Gary Ross, até consegue criar a estrutura exata para captar a atenção, utilizando o mundo da moda como pano de fundo e o glamour de celebridades como distração tanto para o público quanto para a ação dos 
personagens.

Ao final, claro que o roubo funciona. Mas a necessidade de se explicar o que vem depois do sucesso alcançado é que incomoda pela sensação anticlímax que todo aquele epílogo traz para a história, com a investigação da seguradora, a necessidade de inserir novas personagens na venda dos diamantes em leilões e, também, o momento “onde estão todas agora que são ricas e livres” que o longa traz para cada uma das oito. Toda essa estrutura pós resolução acaba por enfraquecer o resultado de um final que carece da mesma catarse tipicamente vista em obras do gênero.  E era justamente isso que não acontecia em todos os filmes citados ao início desse texto e que faziam deles tramas tão bem amarradas.

Planejamento antecipado

COMPARAÇÃO INEVITÁVEL

Neste ponto, entramos na questão se é mesmo válida uma comparação entre as duas obras, a versão masculina de 2001 e a feminina de 2018. Longe de qualquer discussão de gênero, o que é válido analisar aqui é a ideia de que, de certo modo, por possuírem protagonistas com o mesmo sobrenome e por até mesmo inserirem personagens em comum, tal avaliação é justa. Faltou a Oito Mulheres e um Segredo um roteiro à altura da presença de tantas atrizes sensacionais e de uma resolução que se equiparasse a tamanha arquitetura engendrada pelo plano.

Do mesmo modo, a obra falha ao não se fazer valer da premissa de um antagonista que se equiparasse à motivação da protagonista. Enquanto nos filmes do começo da década passada chegamos a ter Andy Garcia e Al Pacino cumprindo tais papéis na figura mau-caráter e gananciosa dos donos do patrimônio a ser roubado, aqui, o script prefere se ater a uma simples motivação de vingança contra um ex-namorado, algo que, convenhamos, não colabora muito com a ideia de empoderamento feminino que a obra traz em sua gênese.

Na última cena, quando a personagem de Bullock, Debbie Ocean, afirma em frente à lápide do irmão que ele teria adorado, bom, o mesmo não se pode dizer do público presente.

 *Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 08/06/2018








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