domingo, 12 de março de 2017

Silêncio

(Silence, EUA, 2016) Direção: Martin Scorsese. Com Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Yôsuke Kubozuka.


Por João Paulo Barreto

Martin Scorsese traz para Silêncio uma análise de um elemento comum à sua filmografia. Porém, aqui, o aprofundamento de tal questão avança em um patamar ainda maior do que o visto em outros dos seus filmes. Trata-se da culpa católica que vimos, por exemplo, no tormento do Charlie de Harvey Keitel, em Mean Streets, ao brincar com as velas de um altar prevendo como seria quente o suposto fogo do inferno, ou até mesmo a crença cambaleante de um não menos atormentado Jesus ao contestar sua própria fé em A Última Tentação de Cristo.

O tormento dos jovens padres portugueses Rodrigues e Garupe em relação à própria fé, no entanto, reside não somente no receio de que a força na qual eles acreditam possa vir a falhar e que ambos sejam condenados. Aqui, esse medo não é individualista. Pelo contrário. A morte ou a vida de inocentes dependerá da força que ambos possuem em suas crenças. Em Silêncio, a tal culpa extrapola qualquer terreno imaginário dentro da religião e passa a figurar dentro do perigo real e imediato que o ceifar de vidas de pessoas que apenas buscam uma representação e uma fuga para o sofrimento que o seu meio as infringe.

Garupe e Rodrigues em perigoso solo japonês 
Longe de ser um trabalho catequizador, o longa de Scorsese oferece uma reflexão acerca do diálogo entre dois tipos distintos de fé. Não seria correto, entretanto, inserir o budismo, religião pregada no Japão do século XVII e período abordado pelo filme, como sendo a origem de um desses tipos de fé que a obra busca colocar em análise. A filosofia budista em Silêncio não é demonstrada em seus costumes ou hábitos. Apenas o uso dela por tiranos de uma forma a dominar e manter um controle intelectual, físico e financeiro de um povo. Ao colocar o catolicismo como uma saída para aquelas pessoas, o roteiro de Scorsese e Jay Cocks, por sua vez baseado no livro de Shûsaku Endô, não o privilegia como sendo o caminho da salvação para elas. Ele o coloca, sim, como um modo de mudança de horizontes para os camponeses explorados e como um risco de ruína a um amplo e eficiente modus operandi de um sistema de governo.

Contidos com fúria e violência, jesuítas portugueses são torturados e mortos pelo inquisidor japonês na tentativa de expurgar qualquer conceito ou fé católica das pessoas com as quais eles tiveram contato. No entanto, padre Ferreira, vivido por Liam Neeson, é levado de forma a servir como um exemplo mais eficiente da brutalidade com a qual serão contidos os levantes religiosos que contrariem a ordem local. É na busca pelo seu mentor que os jovens Rodrigues e Garupe seguem para o Japão na tentativa de rastreá-lo.

Padre Ferreira têm sua crença sufocada de modo a salvar inocentes

Em uma de suas cenas, vemos o personagem de Andrew Garfield, padre Rodrigues, dialogar acerca da inserção de sua religião em solo japonês. As palavras do inquisidor com quem ele conversa compara países como Inglaterra, Holanda, Espanha e Portugal, falando acerca da pretensa verdade oferecida por cada um deles e do modo como todos possuem interesse em espalhar suas crenças pelo Japão. Em uma eficiente metáfora, o fato de que nada cresceria em um solo pantanoso como o daquele país é posto em evidência. “O que faz da sua verdade algo mais válido do que as dos outros países?”, pergunta o japonês a Rodrigues. Ele apenas sorri respondendo ser aquela a sua única verdade. É uma cena cujo simbolismo prima no demonstrar a insensatez em ambos os lados. O do catequizador, que aqui visa espalhar a palavra bíblica como sendo a verdade, mas sem perceber os reais interesses econômicos por trás de tal invasão religiosa (ou fingindo não perceber), e o do inquisidor, que já conhece o poder de dominação de sua crença e sabe que não pode ousar perdê-lo para nenhum outro tipo de fé, principalmente a oriunda do ocidente. 

Observando o modo como as grandes navegações inseriram a igreja católica como uma instituição multibilionária em todo o mundo até os dias de hoje, não é de causar surpresa o interesse japonês em refutar qualquer tipo de crença oriunda da bíblia em seu solo.

Fé expurgada a qualquer modo
Entretanto, a intenção de Silêncio é outra. O que Scorsese propõe aqui é uma discussão acerca do valor da vida humana acima de qualquer fé. Seja ela ocidental ou oriental. Em cenas cujo primor entrega a longa experiência do cineasta (observe a sequência envolvendo o subir da maré), a elegância estética de Silêncio se equipara com o peso de sua narrativa. É filme denso, no qual o teor de sua reflexão permanece com o espectador durante muito tempo após o subir dos créditos. Ateus ou religiosos encontraram um modo de análise muito pertinente na obra.

Em um impactante momento do filme, vemos o padre Ferreira conversar com Rodrigues enquanto este se lamenta pelo sofrimento de fieis japoneses que seguem torturados e dependentes de uma renúncia do padre. “Não os compare a Jesus. Eles sofrem como ele, mas não têm o seu orgulho. Você não tem o direito de fazê-los sofrer. Eu escutei os seus lamentos de sofrimento desta mesma cela onde você está preso agora. Eu escolhi agir.” Ao final, é justamente esse tipo de reflexão que Silêncio nos faz exercer. A vida está acima de qualquer crença. De qualquer fé.

Rodrigues pergunta ao seu deus se está rezando para o silêncio. A resposta lhe ocorre de modo, ao mesmo tempo, tenro e brutal. Ações e razão se sobrepõem à qualquer supostamente inabalável fé.


quarta-feira, 8 de março de 2017

Kong - A Ilha da Caveira

(Kong: Skull Island, EUA, 2017) Direção: Jordan Vogt-Roberts. Com Tom Hiddleston, Brie Larson, Samuel L. Jackson, John C. Reilly, Toby Kebbell.


Por João Paulo Barreto

Diferente das abordagens anteriores acerca do macaco gigante a viver na ilha perdida, onde um variado número de criaturas (horripilantes ou não) também sobrevive, Kong – A Ilha da Caveira se destaca por equilibrar de modo exemplar dois tipos distintos de filmes em seu desenvolvimento.

Além de ser uma ótima aventura, que consegue explorar os diversos elementos fantásticos que o seu cenário pode oferecer, traz acertadamente um plot relacionado com filmes de guerra (mais precisamente a do Vietnam), algo que por si só já consegue criar uma eficiente atmosfera para seu enredo, unindo, assim, um visual que remete a clássicos como Apocalipse Now, além de partilhar uma trilha sonora soberba no que tange aos pilares do rock setentista.

No citado enredo, cientistas liderados por um quase magro John Goodman descobrem via fotos de satélite (algo totalmente inventivo para a época) a tal ilha. Na corrida contra os russos durante a Guerra Fria, conseguem, através de Washington, destacar um grupo de soldados do Vietnam para acompanhá-los (com um fanático Samuel L. Jackson à frente), juntamente com um experiente rastreador (Hiddleston, na figura alfa de sempre em produções do tipo) e uma fotografa talentosa (Larson) que, de modo convenientemente menos exagerado que nas versões anteriores, representará o objeto de afeição do gorilão.

Hiddleston e Larson - nomes de peso a representar os públicos masculino e feminino
Com impactantes cenas de guerra, como aquela que traz o protagonista título contra um grupo de helicópteros que bombardeia a ilha, o longa diz a que veio logo em seus primeiros momentos de exploração da ilha, deixando de lado a extensa apresentação e contextualização dos seus personagens para, de fato, mandar ver no caos em absortas sequências de destruição nas quais árvores são usadas como mísseis contra as aeronaves e as sucatas logo viram pedaços de papel sendo rasgados pelo macaco.

Diferente da decepcionante versão dirigida por Peter Jackson em 2005, na qual os defeitos em CGI pareciam ganhar mais destaque aos olhos do espectador do que a própria história em si (lembram da famigerada corrida com dinossauros?), Kong – A Ilha da Caveira soube apresentar um competente trabalho de composição das cenas de luta envolvendo o gigante primata e as tais criaturas. Momentos como o que ele briga com um polvo (para em seguida devorá-lo) ou quando enfrenta espécies de lagartos gigantes (ou lagartos de caveira, como explica a válvula de escape vivida por John C. Reilly em momento hilário) denotam justamente o esmero da produção na criação digital dos elementos.

Efeitos visuais eficientes impressionam
Explorando de modo eficiente, também, as diversas possibilidades que a ilha em si pode oferecer em termos de outras aparições horripilantes, incluindo aranhas gigantes e pássaros jurássicos, o desenho de produção do filme se destaca por conseguir construir uma ambientação a causar o obrigatório desconforto no espectador, como quando um dos tais lagartos vomita um crânio parcialmente digerido ou quando uma pata pontiaguda serve como instrumento para empalar um soldado.  

Apesar da insistência em fixar a imagem de Hiddleston com o herói destemido da trama (o momento em que ele derruba diversos pássaros com uma espada constrange por sua falta de sintonia), Kong possui bons personagens e a presença feminina de Brie Larson a coloca em cena de modo a não forçar uma falsa fragilidade, algo que, a propósito, a sua Mason Weaver não carece demonstrar.

Com uma cena pós crédito reveladora, Kong- A Ilha da Caveira parece querer iniciar uma promissora franquia para o cinema de monstros. Lembrando a mediana tentativa de trazer de volta Godzila em 2014, ver uma conhecida silhueta na fotografia exibida por um personagem, de fato, empolga.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Manchester à Beira-Mar

(Manchester by the Sea, EUA, 2016) Direção: Kenneth Lonergan. Com Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams.


Por João Paulo Barreto  

Em certo momento da trajetória de Lee Chandler (Casey Affleck em papel definidor) durante o percalço de cuidar do funeral de um ente recém falecido, a constatação de que o enterro do irmão só poderá ser feito depois de meses o faz perceber que o prolongamento amargo daquele período de sua vida lhe é inevitável.

“O solo está muito duro. Não é possível cavar nada agora por causa do inverno”, explica ao sobrinho Patrick, cuja fachada dura e insensível diante da morte do próprio pai desmorona em choro desesperado quando a ideia de imaginá-lo dentro de um freezer durante meses encontra paralelo em uma simples olhadela na própria geladeira.

A mesma dureza do solo onde deverá ser colocado o irmão está no coração de Lee, alguém cujo retorno à cidade onde nasceu e cresceu trará ainda mais dor do que a já oriunda da morte de Joe. Reencontrar com seu passado brutal na pequena Manchester, pequena cidade praiana próxima à Boston, nos Estados Unidos, trará mais consequências do que a esperada pelo simples zelador que tenta reconstruir sua vida na metrópole vizinha.

Lee e Patrick em meio ao turbilhão
Capaz de lidar de forma não romantizada ou idealizada com um tema de tamanho impacto emocional quanto o apresentado em Manchester à Beira-Mar, o diretor e roteirista Kenneth Lonergan tem neste primeiro aspecto de análise do longa um ponto de grande acerto. O filme não se entrega ao dramalhão redentor, no qual meter o dedo nas próprias feridas se torna uma forma de buscar a cura das mesmas. Aqui, não existe a ilusão de uma redenção para os erros do passado.

O perdão pode até existir, mas isso não significa que a paz de espírito passará a reinar entre aquelas pessoas. A dor dos erros do passado prevalecerá diante de todas as nuances e a razão acabará por sobrepor qualquer fator emocional na decisão de Lee em seguir ou não o testamento de Joe, que deixou instruções para que a custódia do filho ainda menor de idade fosse transferida para o irmão. Ao não abusar do sentimental na construção de uma relação afetiva entre tio e sobrinho, Lonergan cria uma ambientação calcada em aspectos concretos da realidade, o que pesa substancialmente para o impacto de sua história.

Randi e Lee: Cicatrizes do passado que ainda não se fecharam
Órfão, Patrick esconde sua frustração através de uma rotina adolescente comum, no qual estudo, banda e namorada(s) fazem parte de seu contexto. Em certos momentos, o filme se torna um tanto repetitivo ao insistir nessa abordagem para firmar no espectador o sentimento de fuga do garoto (como, por exemplo, quando vemos uma mesma cena envolvendo um ensaio de banda surgir de modo idêntico duas vezes). No entanto, ao exibir a inaptidão social de Lee dentro desse mesmo ambiente, principalmente ao se notar que a única forma que ele encontra de sentir algo é através da dor alcançada em brigas de bar, torna-se compreensível a razão para tal abordagem.

Quando o solo finalmente se torna um pouco menos rígido para permitir que o cadáver de Joe seja sepultado, o congelamento e a impossibilidade de aproximação que parecia permanente diante de Lee não deixa de existir, mas a percepção de que o homem ainda pode seguir em frente se faz presente.


Áspero, mas preciso. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

La La Land

(EUA, 2016) Direção: Damien Chazelle. Com Ryan Goling, Emma Stone, JK Simmons.


Por João Paulo Barreto

Existe em La La Land um direcionamento diferente da energia vista no longa anterior do diretor Damien Chazelle. Não que isso seja um problema, de fato. Afinal, os cortes rápidos da montagem de Tom Cross, agraciado merecidamente com o Oscar pelo trabalho em Whiplash, demonstram-se mais contidos nesse revisitar dos grandes clássicos musicais de Hollywood.

Essa mudança de tom se faz presente no modo mais fluído e menos seco (estilo imprescindível para o impacto do longa de 2014) com que a narrativa de La La Land nos é apresentada. Um sinal curioso de que Chazelle, que tem apenas 32 anos, começa a amadurecer de modo louvável em seu modo de direção.

Na história simples, dois aspirantes ao sucesso se apaixonam durante os percalços para provar seus talentos e se estabelecerem naquilo que realmente amam. Ela, uma atriz que ganha a vida como balconista e que tenta encaixar na sua rotina diversos testes para papéis (o fato de trabalhar no Café dentro dos estúdios da Warner ajuda na logística). Ele, um pianista de talento e jazzista de alma e que toca em bares durante o período de Natal, mas vê sua genialidade castrada pela necessidade de tocar exclusivamente músicas comerciais. Ambiciona abrir o próprio bar voltado para o jazz, mas precisará revisitar outros estilos para pagar as contas.

Sebastian: talento desperdiçado, mas ambição posta como meta
Trata-se de uma obra ingênua, mas cativante. Ryan Gosling cantando e sapateando, claro, não se aproxima de Fred Astaire ou a Gene Kelly, mas, enfim, seria pedir demais para inexpressivo ator alcançar tal patamar. No entanto, essa já notável inexpressividade não se torna um demérito. Em sua tristeza comedida diante de tantas frustrações, Gosling traz para seu Sebastian o tom certo para representar as tentativas e erros que os percalços lhe apresentam. Já bastante conhecido pelo apurado timing cômico (vide Dois Caras Legais), aqui, algumas tiradas remetem bem ao modo de atuação do filme de Shane Black.

Em Mia, Emma Stone, com seus (lindos) olhos gigantescos a dominar toda a tela do cinema, representa bem essa ilusória ambição do estrelato que invade diversas jovens a tentar uma carreira em Los Angeles. Ainda bem que o filme não aborda o mal que a cidade e seus predadores podem fazer a esse tipo de ingenuidade. Entre testes e mais testes nos quais nada progride em sua carreira, uma introspecção a faz caminhar pela cidade até se deparar com o clube onde Sebastian arrisca uma última cartada na intenção de quebrar o protocolo imposto pelo dono do lugar que insiste que ele toque apenas medalhões de natal (J.K. Simmons honrando o presente que foi Whiplash para sua carreira).

Los Angeles clássica com toques modernos
No encontro dos dois, a primeira brincadeira do roteiro de Chazelle, no qual o tal idealizado romance é frustrado logo de cara. Talvez um pressagio para o final adequadamente real que o filme apresenta para aquele relacionamento, que utiliza uma Hollywood atual, mas que, sem os telefones modernos e os carros contemporâneos , poderia muito bem ser a mesma  da era de ouro, onde os mesmos musicais repletos de sapateados, cores (algo que as paletas das roupas representam muito bem), falas cantadas e ilusões de amores idealizados perpetravam diversas obras.

Essa modernidade é representada de modo curioso pelo jazz que perpassa pela fantástica trilha sonora. 
Encarado de modo nostálgico pelo personagem de Gosling, alguém que guarda como um troféu um banco onde teria sentado seu herói Hoagy Carmichael. Alguém para quem o estilo é tratado com total preciosismo, mas cujo choque da realidade financeira e do argumento do band leader a lhe oferecer um emprego (o músico John Legend, em eficiente e irônica participação) lhe faz ter segundas opiniões. “Como você vai ser um revolucionário comportando-se como um tradicionalista? Você está tão ligado ao passado que se esquece que o jazz representa o futuro.” Doloroso, mas preciso.

Exibindo ao público duas opções de final em seu desfecho, Chazelle mantém o sabor agridoce de sua história, mas garante a seu público um pouco da ingenuidade mágica que os clássicos que ele soube homenagear tão bem trazem em sua essência.

Escolha o seu, mas saiba que o amargo é mais real. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Doutor Estranho

(Doctor Strange, EUA, 2016) Direção: Scott Derrickson. Com Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton.


Por João Paulo Barreto

Os estúdios Marvel entram, com Doutor Estranho, em uma previamente anunciada nova fase de suas adaptações cinematográficas oriundas do fértil terreno de histórias de quadrinhos pavimentado por Stan Lee, Steve Ditko e outras mentes geniais que criaram um palpável universo de personagens e arcos dramáticos fascinantes.

Aliás, muito da marca vista em todos os longas anteriores do estúdio são reforçadas neste novo exemplar da sua filmografia. O que, claro, não representa propriamente um problema. No entanto, após tanto aprendizado, já teria sido a hora de demonstrarem conhecimento com os próprios erros anteriores no quesito da entrega de personagens de acordo com a antecipação criada.

Não que haja algum problema com a encarnação de Stephen Strange, o brilhante cirurgião na pele de Benedict Cumberbatch, que parece ter nascido para o papel. O problema está na criação de um antagonista à altura de seu herói. Não se trata de Mads Mikkelsen, aqui bastante eficiente no papel de Kaecilius, um dos mestres que previamente foi discípulo da Grande Anciã vivida, também de modo bem convincente, por Tilda Swinton, mas que aderiu ao poder da Dimensão Sombria (erroneamente traduzida no Brasil como Dimensão Negra). Kaecilius deseja invocar o poderoso Dormammu, entidade que domina a tal dimensão, na qual o tempo não existe. E é aqui que o filme decepciona um pouco.

Mads Mikkelsen como o soturno Kaecilius: boa presença
Nesse ínterim, o arrogante, porém indefectível cirurgião Doutor Strange, sofre um grave acidente de carro que o deixa impedido de usar as próprias mãos. Na busca por uma cura, acaba chegando ao templo de Kamar-Tal, em Katmandu, no Nepal, onde, após uma traumática e violenta iniciação forçada pela sua prepotência, convence a Grande Anciã a treiná-lo nas forças ocultas da magia.

Repleto de efeitos especiais que remetem ao longa de Christopher Nolan,  A Origem, (do mesmo modo como suas cenas de luta em cenários giratórios), Doutor Estranho consegue não depender tanto de suas intervenções visuais em CGI e cria um bom desenvolvimento dos laços entre seus personagens, como ao inserir uma relação romântica entre Strange e a sua colega Christine Palmer (McAdams), ou quando utiliza um belo momento de reflexão acerca da relatividade do tempo na cena em que um dos personagens tem uma  morte traumática.

A Grande Anciã mostra onde a arrogância de Strange deve permanecer
Além disso, na inserção do humor, seu roteiro mantém um bom ritmo em piadas que não chegam a se tornar uma marca irônica constante do protagonista, como no Tony Stark de Downey Jr., mas que cria uma boa química entre os personagens (vide o momento em que o nome de Adele e de outros famosos sem sobrenome são citados).

Ao utilizar as supostas dimensões terrenas como gags visuais eficientes, o filme acerta bastante no seu tom entre a ação, o drama e a comédia, usando um mesmo artifício em três saídas diferentes: na já citada postura de um dos personagens diante da morte; nas cenas e luta entre o Strange e um dos aliados de Kaecilius e, no melhor uso do artifício, quando o protagonista conversa com a Dra. Palmer enquanto esta tenta salvar sua vida diante do seu corpo desacordado.

Dra. Palmer (McAdams) conforta Strange após acidente
Em seu final, a percepção de um saldo positivo do filme é inconteste, muito devido ao carisma de Cumberbatch, que, como a comparação anterior já disse, traz um contra peso eficiente ao que já nos habituamos a ver na presença irônica de Robert Downey Jr.

Uma pena que a entrega do tal vilão que ouvimos falar durante todo o filme seja tão decepcionante tanto em sua presença física, quanto no modo pretensamente criativo de se criar um final pegadinha para o espectador e para o próprio vilão, que parece tão surpreso (no lado negativo da palavra) com aquela proposta quanto nós sentados na poltrona do cinema. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A Luz Entre Oceanos

(The Light Between Ocenans, UK-EUA, 2016) Direção: Derek Cianfrance. Michael Fassbender, Alicia Vinkander, Rachel Weisz.


Por João Paulo Barreto

Com A Luz Entre Oceanos, o diretor Derek Cianfrance fecha uma espécie de trilogia acerca do definhar e da adaptação que relacionamentos, sejam familiares ou amorosos, criam em seus desenlaces.

Em My Blue Valentine, esse definhar era particular, intimo a duas pessoas, exibindo uma ferida cuja dor de uma relação desgastada insistia em continuar inflamada e as forças para manter qualquer cura ainda possível era apenas unilateral; em  O Lugar Onde Tudo Termina, o cineasta ampliou essa análise comportamental, trazendo a um leque maior de personagens o preço das consequências de ações perpetradas tanto por eles quanto por outros pertencentes aos mesmos laços.

Aqui, em A Luz Entre Oceanos, ao adaptar um bestseller, Cianfrance opta por uma história já previamente escrita, mas que tem em seus desenlaces e consequências uma mescla do que já foi previamente experimentado pelo roteirista e diretor, que, a exemplo do longa anterior, insere a condição da paz de consciência como algo intrínseco e obrigatório para alguns de seus personagens-chave.

Na história, o veterano da Primeira Guerra, Tom Sherbourne (Fassbender), assume o trabalho de faroleiro na costa australiana. Ideal para curar seus traumas de guerra e alimentar sua postura introvertida, a solitária função de manter o distante farol em funcionamento é cumprida com esmero. Tom, no entanto, se apaixona pela filha de um dos moradores da região, e esse sentimento por Isabel (Vincander) o leva a ceder aos impulsos de iniciar um relacionamento que terminará no casamento de ambos e na mudança de Isabel para a ilhota onde fica o farol sob a responsabilidade de Tom.

Tom e Isabel: o equilíbrio alcançado através de uma paixão
Neste ponto, percebemos o modo como Cianfrance retorna ao tema relacionado com o amor encarado como um meio de cura para traumas e a forma como uma vida pode ser colocada novamente nos eixos e no equilíbrio através do companheirismo enxergado naquela paixão. Isabel, porém, sofre dois abortos espontâneos e o choque da perda transforma a esperança daquela relação em dor e desilusão, modificada apenas com a chegada de um bebê naufrago cujo bote salva vidas, no qual um cadáver acompanha a criança, é levado à ilha pela maré.

Irredutível na ideia de fazer o que julga correto, Tom opta por avisar as autoridades acerca do fato, mas é convencido pela esposa a manter o fato em segredo e comunicar aos familiares que aquela criança é, na verdade, a filha que ambos tiveram na ilha. Trata-se da opção mais correta diante da possibilidade de ver o bebê entregue à aspereza de orfanatos. Ao descobrir, quatro anos depois, que a criança é, na verdade, filha de uma viúva (Weisz) cujo marido alemão, hostilizado por locais devido a sua nacionalidade, fugiu com o bebê para o oceano em um ato irresponsável de impulsividade, Tom se vê atormentado pela culpa por fazer a mulher sofrer pela falta que a filha e o esposo fazem. Do mesmo modo, a decisão a qual se vê diante da necessidade de tomar também tornará aquela mesma dor presente em sua própria esposa.

Rachel Weisz e o luto doloroso da perda de sua família
É quando o filme realmente diz a que veio, trazendo uma análise elaborada da culpa e da busca pela paz de espírito que o Tom anseia possuir novamente. Diante de tamanho horror presenciado pelo homem durante o conflito na França anos antes; diante da culpa que sente por se perceber como o único sobrevivente de todo um pelotão, a paz ansiada por ele no isolamento de seu trabalho e na nova e esperançosa vida que construiu ao lado de Isabel, se perde. Pelo fato de se considerar culpado por conta da perpetuação do sofrimento de mais uma pessoa, dessa vez não um inimigo de guerra, Tom tem em seu conflito interno e na sua relação idiossincrática com a ética uma batalha perdida.

Na opção escolhida pelo homem, as consequências de seus atos não serão deixadas incólumes e o preço a pagar não será taxado apenas a ele. A recompensa, no entanto, como prova o passar dos anos e a forma como o tempo termina por agraciá-lo, o faz perceber ter optado pela escolha certa.

Felicidade familiar balançada pela dor na consciência
Trata-se de uma obra que, ao se basear em uma estrutura romântica, usa (beirando a demasia) de artifícios de narração em off através de cartas, e que possui na atuação de seu trio de protagonistas uma carga dramática pesada, porém necessária, para o teor doloroso de seu desenvolvimento.

No entanto, consegue êxito nesse desenvolvimento, criando com o espectador uma ligação de estima perante seus personagens, cuja busca por felicidade cativa justamente pelo fato de que a mesma não ultrapassa limites que podem ferir ao outro.  


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O Mestre dos Gênios

(Genius, EUA, 2016) Direção: Michael Grandage. Com Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Laura Linney, Dominic West.


Por João Paulo Barreto

Dentro de uma reconstrução histórica impecável, Mestre dos Gênios, filme de estreia do diretor Michael Grandage surpreende pelo modo intimista como o cineasta conseguiu, já em seu primeiro trabalho atrás das câmeras, uma ótima unicidade entre os seus protagonistas.

Na história, baseada em fatos reais, o jovem e promissor romancista Thomas Wolfe busca, durante a depressão americana na Nova York de 1929, a publicação de seu primeiro livro, então conhecido como O Lost, mas que, após a influência do editor Max Perkins, se tornaria o sucesso Look Homeward, Angel.

Vivido com paixão por um inspirado Jude Law, Wolfe exala uma determinação que se mescla bastante com uma sutil insegurança por conta da dúvida de seu trabalho ser realmente bom. Após recusas em diversas editoras, tem a proposta de publicação feita pela editora Charles Scibner´s Sons, na qual o lendário Max Perkins trabalha como principal editor. Aqui, temos um Colin Firth, sempre contido e oposto ao espalhafatoso (no bom sentido) Law, a entregar uma atuação que inicialmente reflete sua postura pragmática em relação aos cortes que sugere em romances em estado bruto, mas que, gradativamente, revela suas fraquezas e inseguranças comuns a qualquer ser humano.

Wolfe e Perkins: amizade que supera o estritamente profissional
O filme acerta ao apresentar Perkins em seu ambiente natural, seu escritório na editora, no qual vemos as obras de Hemingway, F. Scott Fitzgerald, dentre outras que ele editou. Ao receber os originais de Wolfe, um calhamaço gigante de páginas, faz uma pergunta: “diga-me que isso é por conta do espaçamento entre as linhas”. No entanto, o desanimo se transforma em intensa curiosidade, quando começa a ler já no trem para casa os originais, só parando de fato ao chegar à última linha.

De modo eficiente e econômico, Grandage opta por descrever a condição familiar de Perkins em uma única sequência, quando o vemos chegar em casa e ser recebido por suas quatro filhas e esposa. Não encontrando um cômodo sequer que esteja desocupado para focar na leitura dos originais, ele precisa se refugiar dentro de um closet a fim de conseguir se concentrar. Nisso, percebe-se um interesse de todas por arte, literatura e teatro, sem a necessidade prolixa de apresentar cada personagem individualmente e, o mais importante, sem tirar o espectador do foco para com seu protagonista e a forma como a dedicação irrestrita ao trabalho nem mesmo o lembra de tirar o chapéu ao chegar.  

Wolfe e Aline Bernstein: relação conturbada
O roteiro de John Logan, experiente nome por trás de diversos sucessos, constrói a relação entre Max e Thomas de forma a exibir um sentimento paternal do primeiro, algo intrínseco, uma vez que vemos o editor como pai de quatro filhas e seu desejo por um filho ser expressado pela esposa vivida por Laura Linney. Não à toa, vemos Max arrumar um sofá cama para Thomas ao recebê-lo em sua casa ou tranquilizá-lo acerca de qualquer má impressão que tenha passado durante o jantar. Max quer que Thomas se sinta como parte daquela família, ao menos na relação paternal que nutre pelo jovem gênio.

No desenvolvimento daquela amizade, o sucesso recompensa o esforço de escrita de Thomas, que, após o êxito de 1929 com Look Homeward, Angel passa os próximos anos contendo sua verborragia na escrita ao conseguir condensar, com a ajuda de Max, Of Time and The River, seu segundo best seller, lançado em 1935, e From Death to Morning, do mesmo ano.

Pearce no papel de F. Scott Fitzgerald ilustra os problemas com a esposa Zelda
Em uma inundação criativa, Thomas chega a escrever cinco mil palavras por dia, algo contrastado pelo bloqueio criativo de Fitzgerald, também agenciado por Max, mas que, desde o icônico O Grande Gatsby, não consegue escrever mais do que quinhentas palavras em um bom dia de trabalho. Vivido por Guy Pearce, o autor de Este lado do Paraíso é trazido à trama de modo a contrastar a facilidade com que Wolfe parece canalizar sua criatividade para o lápis e o papel, algo muito bem ilustrado pela direção de arte, que opta por exibir o minúsculo apartamento de Wolfe tomado por folhas e mais folhas de papel contendo seus escritos.

Em outro ponto, vemos Ernest Hemingway, vivido com um carisma caricato por Dominic West, em uma cena na qual todas as marcas ligadas a pessoa do escritor são apresentadas em tela, algo que não deixa de gerar certa graça, divertindo o espectador. Falhando apenas no desenvolvimento da personagem de Nicole Kidman, que vive a amante de Wolfe, Aline Bernstein, cuja dependência afetiva para com o escritor parece não encontrar muita lógica, uma vez que seu ciúme da relação dele com o editor contrasta diretamente com os planos que o casal fez para que Thomas alcançasse o sucesso literário (algo que, claro, não carece de muita lógica em um relacionamento amoroso como aquele), o roteirista John Logan consegue, no entanto, fechar bem o caráter histórico de seu roteiro.


Dominic West em breve participação como Ernest Hemingway
Em um final arrebatador e, mais uma vez, econômico em seu modo definitivo e sem apelações dramáticas excessivas, Grandage encerra a biografia de forma eficiente, não deixando de inserir um símbolo de desconstrução física do personagem de Max que, finalmente, cedeu ao seu emocional, deixando de lado qualquer vestígio do pragmatismo que guiou sua carreira, algo que mantinha seu trabalho sempre presente em sua vida.  

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Revista Muito - Eryk Rocha - Cinema Novo

Na edição de 25 de setembro da Revista Muito, encartada semanalmente no Jornal A Tarde, tive a honra de ver publicada a entrevista que fiz com o cineasta Eryk Rocha.

Na conversa, o diretor do premiado documentário Cinema Novo, filme vencedor na categoria em Cannes esse ano, e longa de abertura do Festival de Brasília 2016, falou sobre a experiência de trazer à tona obra tão impactante.

Clique no link para ler a entrevista e a crítica do filme e, abaixo, você confere a versão impressa da revista.

http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1804341-eryk-rocha-quero-pensar-o-cinema-como-traducao-poetica







sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Meu Rei

(Mon Roi, França, 2015) Direção: Maïwenn. Com Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot, Louis Garrel.


Por João Paulo Barreto

Marie-Antoniette, ou simplesmente Tony, se entrega à descida de uma montanha sobre os velozes esquis para neve. Parece um gesto suicida de sua parte. Mas, até o momento final, quando se machuca seriamente, sente o vento gelado no rosto, sente seus cabelos esvoaçarem de modo refrescante e, o mais importante, sente uma emoção que, apesar de saber se tratar puramente da adrenalina, ela não se importa com sua origem artificial e previsível: quer vivê-la com a maior intensidade possível.

A descrição acima se adéqua, também, a um momento anterior da vida de Tony. Ao conhecer Giorgio em uma boate, relembra-o do fato de que já o havia encontrado anteriormente. Quase como em um prólogo de sua vida que está para começar no final daquela madrugada, tomando café da manhã com aquele homem, o tempo em que foi garçonete e que o serviu vem à tona como uma lembrança antiga. É a partir deste reencontro que os dois se envolvem e a descida intensa na vida de Tony começa a se assemelhar bastante com a mesma que abre o filme, quando seu inicio promissor, excitante e emocionante ainda não pareceria terminar do modo traumático e amargo como acabou.

Os sorrisos iniciais que não tardarão a se perder.
“Não se deve ter mais nada a perder para se amar de verdade. Deve-se superar as maiores alturas para desafiar esse abismo”, afirma Tony durante uma de suas audiências como advogada. E sua vida no momento em que se envolve com o bom vivant Giorgio se assemelha muito àqueles fatos. São dias exuberantes, de alegria contagiante, de sexo intenso, de emoções que não lhe cabem. Os sorrisos são constantes e os planos para o futuro não poderiam ser melhores. A gravidez não tarda a chegar e os planos felizes parecem se multiplicar dia após dia.

Neste ponto, ainda durante a gestação, aquele relacionamento sofre seu primeiro revés, com a necessidade de Giorgio em cuidar de uma ex-namorada suicida começando a influenciar negativamente a sua relação com Tony. As crises se iniciam, as brigas também, e a violência e  gritos entre os dois só é apaziguado com a chegada de Simbad, o bebê que nasce com um olhar sério e beleza impar. Os dias parecem novamente esperançosos, mas, claro, sabemos se tratar apenas de uma trégua. Na distância física de Giorgio, que viaja a trabalho, ou em sua necessidade de manter-se sempre em festas, como se ainda tivesse vinte e poucos anos, outros reveses daquela relação.

A chegada de Simbad e a esperança fugaz de uma relação
Meu Rei, em certos aspectos, lembra Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e seu modo de exibir os vestígios e desgastes de uma relação, quando o desrespeito mutuo suplanta sorrisos e carícias. No entanto, aqui, não há nenhuma outra opção além de encarar aquelas dores. Na pele de Giorgio, Vicent Cassel traz uma jovialidade comum aos seus personagens. Um carisma que se perde ao passar do tempo. Já em Emmanuelle Bercot, vemos na sua Tony um olhar de curiosidade e insegurança, algo que, gradativamente, se transforma em decepção e tristeza. É um filme que demonstra de modo áspero como um relacionamento pode se tornar tão pernicioso, ao ponto de até mesmo a coisa mais bela oriunda dele, uma criança, não ser mais capaz de torná-lo válido de qualquer esforço em mantê-lo.

Enquanto vemos Tony se recuperar de sua grave lesão no joelho em uma clínica especializada e suas memórias nos levar às lembranças daquela irrecuperável relação, notamos como aquelas duas fases de sua vida se complementam, sendo que apenas uma é passível de se obter algum êxito. Entre ela e Giorgio pouco se salva. E a aspereza que fica para trás reverbera naquele relacionamento que sempre estará ligada por conta da vida que os dois criaram e compartilham.

O silêncio passivo agressivo de Giorgio em seu momento final junto a Tony deixa claro, no entanto, que aquelas lesões nunca irão se curar.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Sete Homens e um Destino

(The Magnificent Seven, EUA, 2016) Direção: Antoine Fuqua. Com Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vicent D’Onofrio, Byung-hun Lee, Martin Sensmeier, Haley Bennett.


Por João Paulo Barreto

Alguns filmes são como pilares. Instituições. Não se deve ousar sequer pensar na possibilidade de refilmagens, adaptações para séries de TV ou reimaginações. É o caso de obras como O Poderoso Chefão, Taxi Driver ou Rastros de Ódio. Claro, hoje há uma tendência, modinha mesmo, de se adaptar para TV ou refilmar sucessos. Típico caso de ausência de novas ideias. caso. Algumas podem dar certo, outras passam longe (vide a bem sucedida série Fargo ou o horror chamado Ben Hur). Então, foi com certa desconfiança, mas uma pitada de boa fé, que vi há alguns meses o primeiro trailer do novo Sete Homens e um Destino.

E acabou se revelando uma grata surpresa em termos de qualidade a adaptação do clássico de John Sturges, que contava com Yul Brynner e Steve McQueen encabeçando um elenco, junto a James Coburn, Charles Bronson e Robert Vaughn. Aqui, Denzel Washington e Chris Pratt repetem a química conseguida entre os protagonistas do filme de 1960 que, desta vez, tem na presença de Antoine Fuqua uma direção firme para as cenas de ação nas quais não comete o erro de modernizá-las ou de trazer uma montagem com cortes acelerados, algo bem comum nas propostas de atualização de clássicos.

Washington e Pratt: à altura de Brynner e McQueen
Em um plot bem semelhante ao que vimos na versão original (que já se tratava de uma reimaginação para a obra de Kurosawa, Os Sete Samurais), o latifundiário e assassino Bartholomew Bogue (Sarsgaard) decide tomar à força uma cidade por conta de suas terras. No processo, mata diversos membros da comunidade, o que leva um grupo deles a procurar vingança e justiça contratando o caçador de recompensas Chisolm (Washington) que recruta mais seis matadores para fazer o serviço.

Com uma estrutura inicial de apresentação dos personagens que remete em modo de tributo ao clássico de 1960, como quando vemos um duelo semelhante ao que vimos com James Coburn a usar uma faca contra um revolver (aqui, um grampo de cabelo resolve), a escolha dos novos integrantes do bando demonstra-se bem eficiente. A começar por um inseguro Ethan Hawke a viver Goodnight Robicheaux, pistoleiro cuja lenda é alimentada por uma precisão no tiro, mas que esconde os traumas da guerra a torná-lo incapaz de matar novamente. Outro que surpreende é Vincent D’Onofrio, ator cujo controle vocal já é notório (veja-o em Demolidor e compare com seu personagem aqui) e que usa sua corpulência de modo impressionante na pele do brutamontes Jack Horne, ou o “urso em roupas humanas” como define Josh Faraday, vivido com o carisma habitual de Chris Pratt.

Emma Cullen em busca de justiça e/ou vingança
Além disso, na presença da viúva Emma Cullen (Bennet), uma personagem feminina forte e determinada, sem a comum fragilidade vista em alguns filmes, o longa de Fuqua acerta ao torná-la uma das figuras chaves da trama, cujo desfecho forte e que exibe um passado em comum entre dois outros antagonistas (algo que remete claramente ao final de Era uma vez no Oeste) colabora para enriquecer ainda mais a história.

Pecando apenas por não tornar muito factível o interesse do índio Red Harvest (Sensmeier) na empreitada, algo que é observado pela forma incomum como ele se aproxima do bando, ou no modo como a desistência de um dos integrantes é previsivelmente contornada pelo seu retorno em um momento crucial do embate contra os homens de Bogue,  o roteiro de Nic Pizzolato e Richard Wenk cumpre bem sua intenção de homenagear o longa de 56 anos atrás, imprimindo uma roupagem sem firulas, que faz jus a estrutura dos westerns clássicos.


Ao pontuar apenas o seu final com o famoso tema original composto por Elmer Bernstein, o filme de Antoine Fuqua acerta ao optar por uma identidade própria, algo alcançado com eficiência pela trilha composta pelo saudoso James Horner, aqui em seu último trabalho.

Os Sete Magníficos em sua nova versão

domingo, 18 de setembro de 2016

Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva IX


Orquestra Invisível Let´s Dance (São Paulo, 2016, 20min) Direção: Alice Riff.

Com uma estrutura já convencional de apresentação de personagem, o documentário Orquestra Invisível Let´s Dance tem justamente nessa escolha de desenvolvimento sua principal falha. Ao optar pela captação de depoimentos de maneira um tanto repetitiva, sem inovar nos discursos um após o outro, o filme acaba precisando da redundância de uma narração em voz over para levar pela mão o espectador em sua história.

História essa que, ao menos, cativa o público por conta do imenso carisma de seu protagonista. No caso, trata-se de Osvaldo Pereira, o primeiro DJ do Brasil e precursor das vitrolas e das trocas de discos de vinil nos bailes dos anos 1950 e 1960. Substituindo as grandes orquestras que, até então, eram contratadas para animar os bailes e, por consequência, carecendo de um grande investimento por parte dos organizadores, 

Seu Osvaldo, como era conhecido, revolucionou o negócio dos bailes. Sendo apenas ele à frente do som e um grupo pequeno de pessoas na organização das festas, o ramo se tornou rentável, uma vez que o retorno financeiro era bem maior sem a necessidade de se bancar grandes grupos de músicos profissionais. Daí a ideia de chamar o que Seu Osvaldo oferecia de “Orquestra Invisível”, uma vez que, ele sozinho, junto a uma vasta coleção de vinis, era responsável pela animação de diversas festas.

Seu Osvaldo, o primeiro DJ do Brasil
É neste ponto que o documentário dirigido por Alice Riff acerta, quando a influência musical é colocada em evidência ao se abordar o tipo de som que Seu Osvaldo tocava à época. Exibindo uma invejável coleção de vinis, que vão desde um Ray Conniff ainda sem a característica principal dos cabelos grisalhos à marca registrada dos bailes do período com Glenn Miller inserindo o clima, o curta utiliza bem a fala de Seu Osvaldo para relembrar o período da forma como deve ser feito: com as influências musicais que o definiram como um precursor dos bailes blacks e do funk que, para usar uma gíria do período, se tornariam uma “coqueluche” cultural.

Tributo a uma figura que merece o registro para a posteridade não somente pela sua importância histórica, mas pelo carisma tão contagiante quanto seu som.

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Antonieta (Santa Catarina, 2015, 15min) Direção: Flávia Person.

Antonieta é um filme de ritmo eficiente que, mesmo centrado em uma constante narração em off, consegue, com o importante suporte imagens de arquivo, captar muito bem a atenção do espectador.  Através de breves e concisos quinze minutos, o curta narra a intensa vida de Antonieta de Barros, a primeira mulher negra a se tornar parlamentar no Brasil.

Filha de uma ex-escrava, Antonieta tem em sua trajetória no estado de Santa Catarina do começo do século passado, um exemplo de resistência e do necessário pensamento à frente do seu próprio tempo. Em sua história, a paixão pelo magistério a leva a adotar a vocação de modo exclusivo, não sobrando espaço em sua vida para casamento ou filhos. Um sacerdócio, como insere a narração.

Antonieta de Barros
Trata-se de um curta que prima por uma precisa pesquisa do seu tema de estudo. Que delineia, sem a necessidade floreios, a vida de sua personagem de modo conciso, trazendo para o espectador o peso exato da importância de Antonieta de Barros para o tempo em que viveu, no qual despertou o respeito disfarçado oriundo das influentes famílias brancas e racistas (suas classes eram disputadas por todos os representantes da elite catarinense que queriam os filhos como alunos de Antonieta) e se firmou na luta pelos direitos das professoras quando fundou a Liga dos Magistérios. No absurdo pensamento da época, as professoras não podiam se casar ou ter filhos, pelo fato de que essa condição poderia levar as crianças a indagá-las sobre sua sexualidade e vida afetiva.

Ao utilizar imagens oriundas das primeiras décadas do século XX para ilustrar a narração explicativa da vida de sua personagem, a montagem do curta demonstra sagacidade, como, por exemplo, no momento em que traz a opinião de Antonieta acerca da necessidade obrigatória do saber como sendo uma arma. “Só vive no sentido humano da palavra o que pensa. Os outros se movem, tão somente”, insere a voz over. E a exatidão do momento coincide com imagens de bovinos sendo levados à frente pela violência de boiadeiros. Uma clara alusão à vida de gado que apenas o conhecimento poderia evitar.

Antonieta em meio aos colegas de parlamento no começo do século XX
Personagem de tema riquíssimo, traz para a obra a importância de se enxergar a nossa identidade de Brasil. Alguém que lutou desde o começo para se destacar e fugir das amarras que a manteriam confinada ao detalhe da cor de sua pele ou ao seu gênero. Luta pela emancipação feminina no intuito de escapar das amarras do pensamento retrógrado. Nesse ínterim, se torna cronista de jornal, assinando a coluna “Farrapos de Ideias” sob o pseudônimo de Maria da Ilha e batendo de frente com declarações pejorativas e racistas acerca de seus escritos. “Intriga barata de senzala”, carimba um historiador da época.

Na réplica, já se encontrando exonerada da escola onde lecionava pelas forças sombrias e racistas do período do Estado Novo, Antonieta demonstra sua elegância e orgulho pela sua luta ao afirmar que “não houve intriga barata, nem cara. As considerações foram ditadas pelo coração de uma negra brasileira que se orgulha de sê-lo e que nunca se pintou de outra cor.” Na força de seu discurso, a sensatez que apenas os detentores da razão possuem.

Uma pena que a diabetes a tenha levado com apenas 51 anos. Imaginar o que Antonieta teria feito em mais trinta anos é algo por demais desafiador e reconfortante.

Ao conhecer sua vida, fica a certeza de que, contra os hipócritas e racistas, a pena é mais forte que a espada.

Mas a arma afiada não pode ser descartada, friso.

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Abigail (Rio de Janeiro, 2016, 17min) Direção: Valentina Homem e Isabel Penoni


Existe uma ambientação quase de cinema de gênero no inicio do curta dirigido por Valentina Homem e Isabel Penoni. Trata-se de um filme extremamente sensorial.

Desde seu convidativo plano sequência de abertura, quando somos levados a conhecer os cômodos da casa da personagem-título, com as camadas dos seus objetos pessoais expostos a desenhar sua personalidade para o espectador que não a conhece, até o momento chave daquela introdução, quando o filme interrompe o silêncio gritante (e, até então, imperceptível) para inserir um intenso som metálico, um assustado latido e a aparição de uma representação do candomblé a tomar toda a nossa atenção e nos tirar daquele quase transe de imersão onde nos encontrávamos. A energia da cena é palpável.

Abigail traz uma forma de apresentação de sua personagem que foge de clichês descritivos convencionais. Mesmo em sua narração em off, não se percebe uma necessidade explicita de descrever a vida de Abigail Lopes, indianista e esposa de Francisco Meireles, um sertanista que, ao lado dela, lutou pelos direitos dos nativos. A voz, entretanto, nos convida a adentrar naquele contexto. E, somado ao modo aconchegante como passeamos por aqueles recintos, acabamos por nos sentir à vontade ali e ainda mais curiosos por conhecer a trajetória daquela senhora que, já na fase final de sua vida, em uma fala marcante captada pelas diretoras, se considera teimosa como justificativa ao fato de possuir suas coisas.

Momento de entrega e de união de suas duas missões
De fato, é algo não tão simplório quanto teimosia o que explica tudo que o que ela conquistou, não somente em relação às posses materiais, obviamente, mas em termos sociais na aproximação com os indos e na defesa pela sua causa. É resignação. Neste processo, foi responsável pela pacificação dos Xavantes, algo que o filme levanta como um fato do qual ela se arrepende por considerar que eles tiveram acesso ao que não presta ao lado dos brancos.

Ao abraçar o candomblé e uni-lo à cultura indígena que já havia absorvido, Abigail encontra um equilíbrio denotado no momento em que comenta acerca do Obaluaê, um dos símbolos dessa cultura, que pertencia ao seu filho, Apoena Meireles, assassinado em 2004. “A gente não pode ter medo de nada”, diz a senhora enquanto parece confortar uma das diretoras presentes. Um pedido de benção demonstra a admiração pela mulher em estudo.

Na mescla de cumplicidade com sua protagonista, o filme cumpre um papel ainda mais importante que o de registrar a vida e luta de Abigail Lopes. O de cultivar o respeito por aquela cuja trajetória fez a diferença para todo um povo e que, no final de seus dias, encontra o conforto no exílio particular de seu próprio mundo, representado pela presença física que aquele lar, o segundo personagem do filme, denota.

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Retrato de Carmem D. (Rio de Janeiro, 2015, 21min) Direção: Isabel Joffilly.



Em outra obra da nona Mostra Competitiva em que se observa uma relação intima do espaço físico com o estudo de seus personagens, Retrato de Carmem D. possui uma carga dramática mais pesada e, por conta da interação entre suas duas figuras centrais, o resultado acaba sendo de uma intensidade palpável.
Carmem Dametto, conhecida psiquiatra residente do Rio de Janeiro, atende seus pacientes em casa, um imóvel situado em local de perceptível silencio e de calma bucólica. No entanto, o lugar esconde certo desequilíbrio emocional. E o filme de Isabel Joffily ressalta justamente esse fato ao confrontar as diferenças entre a profissional e sua filha, Marcela, jovem cujos traumas de ter vivido sob a criação pragmática da mãe afloram de forma marcante em seus depoimentos.

Entre lágrimas, a vemos falar acerca do modo como Carmem não demonstrava uma cumplicidade de mãe quando as dúvidas comuns à infância surgiam, afirmando-se não como uma amiga ou como uma psiquiatra para a filha, mas apenas como mãe, posição que, para ela, não apresentava os atributos ou obrigações que a filha afirmava.

As dores de uma trajetória vindo à tona e sendo confrontadas
É um filme que se equilibra muito bem sob as a discussões das duas mulheres. Discussões essas que podem surgir de pontos tanto graves, quanto ínfimos, como vemos todo um enérgico argumento que revisita declarações duras do passado, como quando a jovem afirma ter sido chamada de filha da puta pela própria mãe quando ainda era criança. E isso acontece a partir de uma simples conversa acerca da opção de dar ou não leite para os gatos da casa.

Em tons de voz sempre altos, ambas parecem estar a todo momento sob o fio da navalha para iniciar uma briga. Porém, há uma cumplicidade notável entre as duas. Chamados de “mãe” ou de “Marcela” demonstram isso. As rememorações do passado, sobre festas infantis feitas com pacientes presentes que hoje causam risos ou o suporte demonstrado pela jovem ao falar do caso onde a mãe foi acusada de assassinato quando um paciente morreu em sua clinica no final dos anos 1980 (caso já encerrado e Carmem sendo inocentada), também exibem tais laços entre as duas.

A piscina a representar de modo perfeito o cuidado que aquela relação pede
E a casa, em toda sua grandeza, com os objetos da rotina a compor o ambiente doméstico, sem nenhum tipo de “bagunça cênica” inserida pelo filme, serve como um local perfeito para demonstrar o equilíbrio entre ambas. Em um momento simbólico, vemos Marcela dentro da agora abandonada e vazia piscina que, repleta de lodo, carece de uma reforma para voltar a aparentar o que é. Lá de dentro, a vemos acariciar os cachorros na borda e comentar sobre se lembrar da mãe bronzeada e defini-la como “briguentinha”, por conta de sua impaciência em responder as perguntas de criança. É um take que mostra a beleza de um lugar que carece apenas de atenção.

Rima muito bem com a necessidade da relação entre mãe e filha.