segunda-feira, 18 de julho de 2016

Entrevista: Patrick Lapp (La Vanité)

O ator Patrick Lapp na pele do arquiteto David Miller
No papel do arquiteto amargurado e decidido a morrer, David Miller, o veterano ator Patrick Lapp repete em La Vanité a parceria com o diretor Lionel Baier, com quem trabalhou em Longwave – Nas ondas da revolução, filme de 2013. Dessa vez, uma performance mais carregada em um filme que flerta sutilmente com a tragicidade cômica. Decidido a morrer no quarto barato do hotel que projetou, David acaba por encontrar na curiosidade de se conhecer melhor certos indivíduos, uma razão para ficar por aqui um pouco mais e adiar seus planos de eutanásia. Sobre essa opção básica do ser humano e na ideia de que consegue atuar do mesmo modo que uma criança faria, Patrick Lapp, um homem de poucas palavras, mas de opiniões firmes, conversou com o blog Película Virtual no breve papo que você confere abaixo.

Por João Paulo Barreto

Havia alguma preocupação ou dúvida na abordagem de um tema tão complexo quanto a eutanásia na construção do seu personagem para o filme?

Sabe, na Suíça, a eutanásia assistida é aceita de forma legal já há três ou quatro anos. O nome da associação responsável pelo serviço é EXIT. Pessoalmente, eu estive presente quando minha tia morreu com a presença e assistência da EXIT. Foi algo simples e rápido. Após isso, era algo bem simples para David Miller fazer.

Há uma questão curiosa sobre a morte eo fato de que ela deveria se uma escolha pessoal e individual. “Eu escolho quando eu quero partir”. Qual sua opinião sobre isso?

É possível demonstrar escolhas para muitas coisas. Mas, com a morte, você precisa ser muito cuidadoso. Ela gosta de fazer piadas e de brincar com suas escolhas e sonhos. A morte é a melhor amante dominadora.

Ao lado de Valérie Donzelli, em cena de Longwave - Nas ondas da revolução


Esta é a sua segunda colaboração com Lionel Baier. Há uma boa conexão entre você e ele no set e podemos perceber uma boa química desde Longwave – Nas ondas da revolução. Podemos esperar por outros projetos com vocês trabalhando juntos novamente?

Eu gostaria muito de trabalhar de novo com Lionel. Espero que não tarde muito, porque eu estou muito velho...

David Miller e o senhor compartilham quase a mesma idade. Havia outras similaridades entre ele e o senhor?


Eu atuo como uma criança. Por exemplo, uma criança pode brincar fingindo se um rei. Quando chega a hora de ir para cama, ela coloca o rei em uma gaveta e volta a ser ela mesma novamente. Para mim, é a mesma coisa com o David Miller.

David, em seu último momento, encontra dois bons amigos que valem a pena seu esforço para ficar mais um pouco no mundo. Em tempos em que a xenofobia é mostrado tão evidente na Europa, há uma questão muito importante: o fato de que os estrangeiros estão ajudando uns aos outros . O que você acha sobre este boa abordagem do filme?

Eu não acredito na fraternidade humana… mas, com a proximidade da morte, talvez.


Entrevista: Lionel Baier (diretor de La Vanité)

O diretor suíço Lionel Baier
Lionel Baier traz em seu novo filme uma brilhante análise acerca da morte e da decisão pessoal de cada um quanto ao momento de partir. Eutanásia parece não ser um tema muito fácil de se lidar. No entanto, em La Vanité, filme exibido em Cannes no ano passado e no Festival Varilux desse ano, o jovem diretor consegue criar, a partir de um trio de personagens, uma obra rica em significado, repleta de camadas em sua proposta e que, apesar de flertar com o humor, não se entrega de modo gratuito às piadas como meio de fuga para a abordagem pesada de seu drama. É uma obra que mescla bem esse equilíbrio, trazendo para o espectador uma reflexão genuína acerca de um tema tão complexo. Sobre as escolhas de nuances de comédia, xenofobia na Europa e o a escolha exata dos seus protagonistas, Patrick Lapp (que tem seu segundo trabalho com o diretor) e Carmen Maura (musa de Almodóvar em diversos filmes), o Película Virtual conversou o com diretor. O papo você confere abaixo.

Por João Paulo Barreto

Em seu filme, há uma questão curiosa sobre a morte e o fato de que o momento de partir deve ser uma escolha individual e pessoal : "Eu escolho o momento em que quero partir ". No entanto, aqui, apesar de a questão complexa, há um humor sutil, uma leveza na sua abordagem. Poderia explicar um pouco sobre essa opção ?

Ernst Lubitsch disse algo assim: “quando a época é muito difícil, é o momento perfeito para dirigir uma comédia”. O humor é a forma mais poderosa de inteligência. É a maneira perfeita para expressar sentimentos e emoções complexas. Eu não queria adicionar o drama ao drama.

Em tempos em que a xenofobia é vista de modo tão evidente na Europa, há uma questão que seu filme aborda de forma bem sutil: a relação entre os estrangeiros que estão ajudando uns aos outros. Quando vemos uma mulher espanhola, um rapaz eslavo e um idoso France sem uma cooperação mútua, é inevitável não pensar sobre a situação real que atualmente passa o continente. Foi intencional inserir esta abordagem no roteiro?

Sim, porque é uma realidade em Lausanne, cidade onde o filme foi rodado. Eu cresci entre os estrangeiros e isso me ajudou a construir minha identidade. Na minha cidade natal, mais de 50 % da população vem do exterior, como a minha família também. Eu tenho algumas raízes polonesas, inclusive. É importante dizer que esta sociedade mista é uma oportunidade de crescimento para a Europa, não é um perigo.


E a pintura de Holbein na parede do quarto, com elementos que falam acerca da divisão da Europa, corrobora essa ideia de unidade tão necessária ao período atual.

Com certeza!

Há, também , a questão sobre a depressão e tristeza do protagonista, que desiste da luta 
pela vida e acaba preso às suas lembranças do passado . No entanto, apesar da gravidade do tema, o seu filme tende a nos faz sentir muito otimistas sobre David Miller e sua vida. No final, tudo o que ele realmente queria era morrer em paz, sem sentir qualquer dor. Isso nos traz um sentimento muito confortável sobre sua última trajetória.

Isso é devido ao talento dos atores. Eles dão o tom exato para o filme. Patrick Lapp e Carmem Maura sabem como lidar com o humor e com a tristeza em uma mesma cena.

Nós podemos dizer que se trata da história de um homem em busca de redenção que coloca nisso um disfarce para sua própria morte?

Redenção não é a palavra certa. Quando David Miller chegou ao hotel, ele só esperava poder morrer do jeito que ele queria. Mas os acontecimentos da noite ganharam vida dentro daquele quarto sombrio. É como se a vida estivesse lutando contra ele. Em seguida, Miller descobriu que ainda possuia curiosidade para com os outros presentes. Isso é não estar completamente morto.

La Vanité

(Suiça, França, 2015) Direção: Lionel Baier. Com Patrick Lapp, Carmen Maura, Ivan Georgiev.


Por João Paulo Barreto

Em La Vanité, o diretor Lionel Baier propõe uma sutil, porém não menos tocante, reflexão acerca da efemeridade da morte e do modo como a escolha do momento dessa passagem deve recair unicamente no próprio individuo diretamente afetado por aquele fato. É um filme que, apesar de abordar um tema de tamanho peso como a eutanásia, consegue fazê-lo de forma muito delicada e dotado de um humor que se faz presente sem a necessidade de apelar para histrionismo ou piadas fora de timing. E na escolha teatral de situar seus personagens em cena, somando a isso os enquadramentos exatos dos cenários e elementos em quadro, a obra prima por uma elegância notável.

Na história, David Miller (Lapp), um senhor de 70 anos com câncer, decide procurar uma agência que oferece serviços de eutanásia. Ao se hospedar no hotel projetado por ele e pela esposa décadas antes, aguarda pela mulher que fará o serviço (Carmem Maura no papel de Esperanza, um nome muito pertinente) e pelo filho para servir de testemunha. Quando este decide não participar, cabe a Treplev (Georgiev), um garoto de programa eslavo que trabalha no quarto ao lado servir neste papel.

Esperanza, Treplev e David: cooperação mútua na morte
Em sua aproximação acerca da morte, La Vanité acaba por apresentar camadas curiosas. Ao abordar um tema tão pesado quanto a eutanásia, o modo sutil como o diretor Lionel Baier mescla elementos cômicos à sua proposta, sem necessariamente levar o espectador às gargalhadas abertas ou mesmo aos sorrisos nervosos, cria um equilíbrio no contar de sua história. Isso acaba por aprofundar o espectador em uma reflexão sobre o assunto sem que qualquer tentativa de manipulação através do drama o leve a conclusões direcionadas.

No seu roteiro, Baier cria perguntas pertinentes sobre o direito de cada uma possuir autonomia sobre sua própria vida. Em suas respostas, o filme apresenta uma conclusão simples e sem se basear em clichês do tipo “enquanto houver vida, há esperança”. Não. Aqui, a liberdade de David é, na melhor forma sartreana, o que o condena nas suas escolhas. A sua decisão não se apóia em razões centradas na desesperança ou em qualquer caminho melancólico. Ao se basear no pragmatismo, o protagonista segue a opção que lhe parece mais lógica diante de uma vida sem perspectivas. O único porém está no modo como  ele se torna dependente das pessoas ao seu redor e na forma como estas lhe despertam a curiosidade, tornando, assim, a morte menos atrativa.

David e os percalços para conseguir morrer em paz
Do mesmo modo, em outra curiosa camada de seu filme, Baier é bem oportuno ao abordar um tema infelizmente atual na Europa: a xenofobia. Não que seus personagens apresentem esse perfil ou que o filme busque se basear no maniqueísmo para tratar tal assunto. Aqui, o roteiro segue em uma linha de denúncia bem de acordo com a sutileza de sua mensagem. Ao inserir três personagens europeus em cooperação mutua, mesmo que em nome da morte de um deles, a obra faz uma eficiente abordagem da questão que atormenta a Europa no que se refere ao preconceito xenofóbico. No quadro Holbein, Os Embaixadores, exposto no quarto, a rima visual perfeita para comprovar essa intenção do longa. Com seu crânio (ou em francês, Vanité) escondido de forma evidente na tela, o filme entrega uma de suas melhores tiradas envolvendo o modo como Treplev o enxergou da primeira vez.

David Miller acaba sendo um personagem deslocado do seu próprio tempo. Ao revisitar a época de ouro da construção de seu hotel, percebemos seu principal incômodo ao notar-se  fora de sua época. Viúvo, cabe-lhe apenas reminiscências. Sem uma boa relação com o filho adulto, lembranças do modo como a repugnância regia seus dias como pai de um bebê, anos atrás. Pronto para abraçar a morte, acaba por encontrá-la de um modo que não esperava.

No cinema, diversos simbolismos podem representá-la. Aqui, o ato de colocar um gorro na cabeça de um boneco de neve encerra de forma brilhante aquela percepção.

A obra de Holbein, Os Embaixadores, e sua misteriosa figura central


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Abrigo Nuclear

(Brasil, 1981) Direção: Roberto Pires. Com Roberto Pires, Conceição Senna, Norma Bengell, Ronny Pires, Antonio Fontana dentre outros.


Por João Paulo Barreto

Primeira ficção científica da história do cinema brasileiro, Abrigo Nuclear, longa metragem lançado pelo baiano Roberto Pires em 1981, permanece, 35 anos depois, como uma obra insuperável no aspecto da inventividade e originalidade do fazer cinematográfico. Desbravador do cinema da Bahia, Pires é o responsável, também, por Redenção, de 1955, primeiro filme realizado no estado. Filmado com a lente Ingluscope, criada pelo próprio cineasta, o longa demonstra o pioneirismo e o perfil inventivo do realizador.

Realizado com poucos recursos, Abrigo Nuclear levou vários anos para ser finalizado por conta dos problemas financeiros enfrentados por seu diretor. Longe de qualquer preciosismo, não é um exagero afirmar que se trata de um filme símbolo do cinema baiano. Não somente pela luta do cineasta para vê-lo concluído, mas, também, pelo aspecto criativo e pelo esmero de sua produção na criação de cenários futuristas, controle espacial de seu cenário e da utilização de figurantes.

Na história, a população da terra, por conta da radiatividade contida na atmosfera, precisa ser mantida em imensos abrigos. Governados com punho de ferro pela autoritária Avo (Conceição Senna), que esconde o fato de que os humanos um dia habitaram a superfície, a comandante não concorda com a ideia de que se faz necessário uma nova fonte de energia, no caso, a solar, em lugar da atômica. Ao se perceber que os depósitos de lixo atômico estão saturados e a ponto de explodir, o rebelde Lat (vivido pelo próprio diretor) decide por em prática seu plano junto a população local e com o suporte de Lix, a líder do grupo rebelde, também conhecida como “Professor” (Norma Bengell, nome de peso no elenco), parte em busca de provas de que a população humana já habitou o solo acima deles.

Atmosfera radiativa: perfeito uso de locações e de figurinos
Com um roteiro bem amarrado, Pires, em parceria com diversos familiares que atuam no filme, conseguiu construir uma história eficiente, repleta de boas ambientações e atuações convincentes. No seu texto, uma clara inserção do aspecto socialista, ao utilizar nos seus personagens tratamentos como “companheiro”. Claro reflexo da época, na qual a ascensão política da classe operária começava a surgir e o período militar do Brasil iniciava seu declínio. Em certo momento do longa, ouvimos: “Todos precisam saber o que está acontecendo e tentar anular o domínio cibernético nuclear que envolve a todos”. Pois é, Figueiredo. Sua hora estava chegando.

Em seus figurinos brancos, uma unicidade da população futurista denota justamente a visão exata de Pires quanto ao simbolismo daquela ideia. Tornando todos iguais em aparência, um disfarçado, porém eficiente controle do pensamento se faz presente em uma das sutis mensagens do filme no seu aspecto pós-apocalíptico. No entanto, um claro sinal do período em que a obra foi executada se faz presente nos cabelos grandes e desgrenhados dos homens, muito comum no final dos anos 1970, bem como as camisas de peito aberto que vemos em alguns personagens, algo que destoa um pouco do aspecto clean que a obra propôs, mas, claro, sem prejudicá-la.

Trama bem construída: clima de conspiração dentro do abrigo nuclear
Na utilização das areias da praia de Jauá como locação externa, nada fica a dever a, por exemplo, o uso do deserto da Tunísia por George Lucas quatro anos antes, no primeiro Guerra nas Estrelas. E o que dizer do carro futurista que é utilizado como veículo do personagem de Pires em suas saídas na superfície? Do mesmo modo, o uso dos cenários feitos de modo artesanal, mas não menos eficientes, criam uma ambientação perfeitamente adequada a sua proposta.

Em 2015, o documentário Bahia Sci Fi, dirigido pelo filho de Roberto, Petrus Pires, trouxe diversas curiosidades acerca da produção lançada 35 anos atrás, como, por exemplo, as técnicas de filmagem no galpão que servia como abrigo e que o fazia parecer bem maior.

Um verdadeiro tesouro do cinema baiano.


A Bruxa

(The VVitch, A New-England Folktale EUA, 2015) Direção: Robert Eggers. Com Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw.



Por João Paulo Barreto

“Há um mal na floresta.” Com essa frase, William, o pai da família de imigrantes europeus que vive na Nova Inglaterra do ano de 1630, define de modo simples toda a premissa de A Bruxa. E do mesmo modo simples, o filme consegue construir uma atmosfera de puro pavor, sem qualquer necessidade de sustos fáceis ou manipulação do público através de artifícios já clichês e comuns ao gênero do terror.

Expulsos do vilarejo onde vivem após serem julgados em um tribunal puritano e religioso (por razões que a obra não evidencia), o patriarca e sua família passam a viver às margens de uma floresta onde tentam levar uma vida comum de fazendeiros e criadores de cabras. Até que o bebê Samuel desaparece nas mesmas margens, o que leva o grupo de pessoas ao colapso emocional na busca pela criança, que todos acreditam ter sido raptada por uma bruxa que vive na mata.

O patriarca William: vítima da própria fé cega
Trata-se de uma obra de sugestão, cujo principal mérito está no poder de causar o medo no espectador a partir unicamente do modo como cria sua atmosfera na utilização de lendas do folclore local da Nova Inglaterra de quatrocentos anos atrás. Tecnicamente perfeito em sua recriação de época, desde o seu figurino camponês até a utilização de um idioma inglês arcaico na composição das falas, o longa coloca a audiência dentro daquele universo, compartilhando conosco a dor daquela família vitima de dogmas religiosos infundados e que vê a sua fé cega como único caminho a seguir.

Fé que se torna, de modo irracional, o último bastião a que pode se prender os membros daquele clã diante de elementos que eles não conseguem entender. Entre rezas proferidas de modo incessante e desesperado, e a dolorosa dor da perda a sufocar pais desolados, a loucura acaba sendo o único meio de se encontrar conforto. Quando se abraça a insanidade, ao menos uma parte do mal que aquelas pessoas se vêem diante passa a fazer sentido. Em seu final brutal, é justamente a essa conclusão que a brilhante obra escrita e dirigida por Robert Eggers nos leva.

O pequeno Caleb e sua redenção diante da própria dor física
E quando vemos certo elemento do filme proferir suas palavras de mau agouro, já é tarde demais para qualquer tipo de fuga. E nós acabamos por nos sentir do mesmo modo desolado tais quais os personagens daquela insana história.

É desse tipo de intervenção junto ao espectador que o verdadeiro cinema trata. A sessão de A Bruxa naquela sala escura denota muito bem isso.


terça-feira, 12 de julho de 2016

Caça-Fantasmas

(Ghostbusters, EUA, 2016) Direção: Paul Feig. Com Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKInnon, Leslie Jones, Chris Hemsworth.


Por João Paulo Barreto

Sentir-se nostálgico em certos momentos de Caça-Fantamas, versão século XXI das aventuras estreladas por Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson nos anos 1980, foi inevitável. As aparições surpresa dos quatro integrantes da equipe original, de fato, causou certos risos de saudade (sim, conseguiram arrumar uma sutil maneira de colocar o falecido Ramis entre as aparições do filme – e não como um fantasma, friso).

No entanto, deve-se tomar cuidado para não confundir tal sentimento com um atestado de qualidade do filme dirigido por Paul Feig. Aqui, muito do carisma de Peter Venkman, Raymond Stantz, Egon Spengler e Winston Zeddmore, os caçadores originais, não se encontra nas suas versões femininas.


As novas versões: pouco carisma
Claro, seria pedir demais que a ironia do Venkman de Bill Murray pudesse ser trazida à tona em alguma das fracas comediantes que compõem a nova equipe. Porém, apesar de errar ao tentar inserir uma versão “cientista tresloucada” na postura às vezes irritante de Kate McKinnon, que não funciona com seu mode “tô nem aí” e nos seus trejeitos oriundos do Saturday Night Live, ou na atrapalhada Erin Gilbert de Kristen Wiig, podemos encontrar pelo menos uma personagem realmente engraçada na presença de Leslie Jones que, oriunda do mesmo SNL, consegue se sair melhor com sua Patty Tolan.

Melissa McCarthy, parceira habitual dos projetos de Paul Feig, também traz bons momentos com sua Abby Yates, uma vez que, ao menos dessa vez, o diretor foge do esperado clichê e inova ao não usar sua presença física da atriz como meio de piada, como o fez em Missão Madrinha de Casamento e em A Espiã que Sabia de Menos, seus trabalhos anteriores com ela.


Chris Hemsworth claramente se divertindo no papel do bobão Kevin
Repleto de aparições e referências aos originais, como as falas do recepcionista bobalhão Kevin, vivido por um Chris Hemsworth claramente se divertindo muito no papel, lembrando a fala clássica de Dan Aykroyd ao perguntar “Escute, você ta sentindo esse cheiro?” ou quando Annie Potts, que viveu a recepcionista sem paciência do grupo, reaparece com a mesma intolerância e fala padrão (“O que você quer??”),  a nova versão ganha pontos ao investir justamente nesse saudosismo, mas se vê enfraquecida por não caminhar com as próprias pernas e não conseguir construir o mesmo carisma que a história original possuía.

Assim, resta a essa nova versão se basear no espetáculo visual para conseguir captar a atenção do espectador. E, neste aspecto, o filme se sai muito bem. Principalmente, claro, nas aparições fantasmagóricas, como a de um pássaro jurássico durante um show de metal (com uma hilária presença do Ozzy) ou em seu desfecho, quando Nova York, obviamente, é invadida por diversos fantasmas arruaceiros. 

Versão real do fantasma do logo: Efeitos visuais impressionam
Na presença de uma nova versão do monstro de marshmallow, dessa vez na forma de um balão inflável, mais uma eficiente referência às obras anteriores. Outro ponto é o ótimo trabalho na criação do fantasma do logotipo em sua incrivelmente real aparição. A sua “textura” de pano realmente impressiona o espectador.

Tais atributos visuais, uma pena, apenas ratificam a fragilidade do roteiro e a falta de carisma dos personagens desse novo Caça-Fantasmas, uma vez que, ao precisar nos lembrar tanto que houve dois filmes anteriores e que ambos foram bem eficientes no humor ácido de seus protagonistas, o novo longa acaba servindo apenas como, apesar dos ocasionais risos aqui e ali, uma fraca homenagem.

Mais sorte no próximo exemplar. 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Janis: Little Girl Blue

(EUA, 2015) Direção: Amy Berg.


Por João Paulo Barreto

Mais do que uma colagem de vídeos de época, com imagens icônicas e trechos das marcantes performances de Janis Joplin, Janis – Little Girl Blue desenha um mapa através da fragilidade emocional, inseguranças e genialidade absurda da jovem cantora texana morta em outubro de 1970.

O filme da experiente documentarista Amy Berg opta por uma desconstrução do mito para, assim, demonstrar ao espectador o quão gigante era a chamada rainha do blues americano. Seguindo uma convencional, mas mão menos eficiente, estrutura cronológica, o longa opta por apresentar a infância e adolescência da artista, na pequena cidade de Port Arthur, Texas. Já neste ponto, o documentário acerta por abordar o impacto psicológico que o bullyng teve na vida da jovem.

Se desde criança ela demonstrava uma rebeldia natural ao ser expulsa de corais de igreja e aulas de canto por não querer se adequar ao modelo de boas maneiras imposto, toda essa inicial segurança e atitude desmoronam em situações traumáticas por conta de sua disfarçada necessidade de inclusão em um perfil social que, na raiz, ela nunca precisou. Cresce nesse modelo, mas, pouco a pouco, se vê influenciada pela cultura beatnik e pelo blues, percebendo, assim, que Port Arthur é muito pequena para seu pensamento de vanguarda.

Sorriso cativante: Janis nas ruas do Rio durante o carnaval de 1970
Então, ao ser humilhada na capa de um jornaleco estudantil na eleição do “homem mais feio da turma” (em um dos momentos mais tocantes do longa), Janis, apesar de destruída psicologicamente por tal crueldade, encontra nesse fato a fagulha que lhe tiraria da inércia de cidadezinha do interior, levando-a, no começo dos anos 1960, a São Francisco, cidade símbolo do pensamento livre nos Estados Unidos da época. E é neste ponto que sua ascensão e, contraditoriamente, ruína começam.

Na narração de cartas escritas para sua família (cartas que ganham na voz da cantora Cat Power uma poderosa interpretação), o filme exibe uma face ingênua, repleta de dúvida, algo que denota justamente o fato de que, apesar da impactante voz e comportamento à frente do seu tempo, Janis era apenas uma menina com vinte e poucos anos, longe de casa e cheia de insegurança, algo comum em qualquer pessoa que se vê em sua situação.

Ao exibir esse processo de amadurecimento e percepção de que o mundo pertencia a ela, o filme cria uma eficiente rima narrativa, uma vez que, apesar do alcance fugaz do sucesso e postura dominante no palco, a menina Janis Joplin ainda precisava da aprovação de sua família ao falar do quanto estava feliz por ter conhecido alguém em São Francisco e por finalmente se ver pertencendo a algum lugar.

Janis e o empresário Albert Grossman
Nesta construção da personalidade da cantora, Amy Berg opta por uma linha narrativa que equilibra o crescimento da artista como interprete com suas nuances de fragilidade. E essa abordagem acaba por, de modo genuíno e sem manipulações, partir o coração de quem testemunha aquela história, como quando vemos Janis lamentar-se pelo fato de que, após uma festa ou uma apresentação em um bar, ela era a única a ir para casa sozinha ou quando em uma de suas cartas ela admite que quer desesperadamente ser feliz.

Em outro ponto, percebemos ainda mais sua fragilidade quando é abordado o momento em que Janis, ainda na sua primeira tentativa de São Francisco, volta ao Texas (após vaquinha de amigos na passagem) para fugir do vicio em metanfetamina. No retorno, desenha em sua vida uma esperança de ter encontrado o amor e deposita nessa possibilidade todos os seus anseios. Rejeitada, decide voltar à Califórnia a convite do amigo Chet Helms, que viria a se tornar seu agente e responsável pela união à banda Big Brother and The Holding Company. O sucesso começava a surgir em sua vida e suas ansiedades se faziam mais presentes.

Na sua relação com as drogas, Janis era uma vitima de seus próprios impulsos. Sofria com a pressão de um mundo áspero e influências ao seu redor, o que tornava apenas temporária sua distância da heroína. Após alcançar fama no festival de Monterey, sua carreira realmente decola e o convite para seguir solo não tarda a aparecer. Sozinha, sem o suporte dos antigos parceiros de banda e percebendo-se inapta a liderar um grupo musical, se vê cada vez mais dependente química. A pressão da mídia não ajuda e as críticas negativas a derrubam ainda mais.

Janis de topless em Ipanema: bem à frente do seu tempo
Em sua estrutura temporal, a abordar os poucos anos de fama que a cantora teve, a montagem do documentário passa pelas breves fases da vida de Janis focando em suas turbulências, mas mesclando-as com as fases de calmaria. Uma delas surge a partir de uma pergunta do apresentador Dick Cavett, em seu talk show, quando o filme adentra no período que a cantora passou no Brasil, durante o carnaval do Rio em 1970, período em que seguiu de carona pela região norte e nordeste do país. Nas palavras de um namorado que conheceu em Ipanema, o sentimento mais pleno de que, com uma boa companhia constante, ela poderia não ter sucumbido.

Já sabemos o final daquela história e caminhar para ele após sermos apresentados àquela face tão delicada e díspar da sua postura decidida e auto-afirmativa no palco, torna a experiência de testemunhá-la ainda mais dolorosa. Sim, dolorosa, mas de forma crucial, obrigatória. 

sábado, 9 de julho de 2016

Paulina

(La Patota, 2015, Argentina) Direção: Santiago Mitre. Com Dolores Fonzi, Oscar Martínez, Cristian Salgueiro.


Por João Paulo Barreto

Paulina tem como seu principal equívoco o fato de abordar um tema polêmico como o estupro sob uma possível postura de proteção do agressor em detrimento da vitima. No entanto, na história da advogada bem sucedida que decide largar o futuro promissor como juíza para dar aulas a adolescentes pobres em um vilarejo argentino, uma discussão não muito comum no cinema é proposta pelos realizadores.

A personagem título possui um pensamento social atuante, que a faz seguir suas escolhas visando uma fuga da postura elitista que a classe na qual foi criada impõe como sendo o modo  de se viver. É uma cidadã preocupada com as pessoas que a cercam e que, por isso, tem na ideia de compartilhar seu conhecimento um modo de tentar mudar a realidade dos menos privilegiados que a elite argentina tenta não enxergar.

Tecnicamente, Paulina é uma obra que caminha muito bem em sua adaptação. Com uma montagem eficiente, que trabalha bem as elipses e os flashbacks, a narrativa flui de modo não linear, conseguindo, porém, manter sua trama e captando a atenção do espectador sem maiores problemas. Da mesma forma, acerta no tom de atuação de seus protagonistas, a começar por Dolores Fonzi, com seu olhar sempre determinado, levando-nos a questionar o óbvio, mesmo que os argumentos de sua personagem não se sustentem. Conta também com Oscar Martínez, que, na postura de um pai inicialmente pragmático, não tarda a ceder ao emocional diante da postura irrestrita da filha.

Postura social atuante: Paulina leciona na escola do vilarejo
Em uma intensa discussão inicial, Paulina conversa com Fernando, seu pai, acerca dos seus planos e ali, com poucos minutos de filme, numa cena realizada sem cortes e que, por isso, tem seu impacto ainda mais valorizado, passamos a conhecer bem sua determinação e ideais focados em objetivos já traçados e planejados. A seu pai, resta apenas a percepção de que não há qualquer argumento ou influência que sua posição possa exercer na mentalidade da filha.  

Após se familiarizar com o desleixo e irresponsabilidade típica da juventude de seus alunos , a agora professora Paulina mantém sua rotina nas tentativas de captar a atenção e lecionar algo para os jovens. Passando a fazer parte da rotina do vilarejo, cria laços de amizade e começa a levar no lugar uma vida de acordo com suas expectativas. Até que, voltando da casa de uma amiga, é atacada por um grupo de homens e estuprada por Ciro, morador local que trabalha em uma madeireira. 

Neste momento, o filme começa a abordar o viés incomum citado no inicio deste texto. Violentada e grávida, Paulina decide prosseguir com a gestação, preferindo não denunciar seus agressores, mesmo sabendo quem são. Em seus argumentos, nem sempre compreensíveis levando em consideração a gravidade do crime sofrido por ela, interromper tal gestação ou denunciar os agressores iria de encontro aos ideais que a levaram, inicialmente, a optar por aquele emprego e missão social no local.

Ciro e o grupo de criminosos
Após saber que seu pai, um juiz influente na região, solicitou a prisão dos envolvidos, Paulina mente ao dizer não reconhecê-los como agressores. Em seu argumento, por conta do estado físico dos presos, a confissão foi arrancada sob tortura, o que torna invalido qualquer argumento. Em um comportamento estóico e que gera incômodo no público, a personagem parece agir cegamente, de acordo com seus princípios que, ao que leva a crer, fazem sentido somente para ela, em uma atitude que beira a teimosia infantil, principalmente quando em uma discussão com Fernando, admite que cogitaria abortar se tivesse sido estuprada pelo próprio namorado.

Há um fator que gera certo desconforto na produção que é o fato de que a obra é toda ela realizada por homens e isso acaba colaborando na impressão de equivoco e inutilidade na proposta lançada em debate. Será que sob um olhar feminino por trás das câmeras, tal ideia de discussão seguiria em frente? E o que é mais importante de se perguntar: não seria um desserviço do cinema lançar uma proposta como essa em pauta?

Fernando e sua tentativa de dissuadir sua filha
Na alteração do título para sua versão brasileira, inclusive, subliminarmente um juízo de valor é retirado dos agressores, uma vez que, de La Patota (bando de vadios, em tradução livre) para Paulina, indiretamente o nome exime um julgamento dos atos do grupo de criminosos colocando-o sobre o comportamento da vitima.

Quando a sociedade cada vez mais necessita de incentivos para denunciar crimes contra a mulher, talvez a obra produzida por Walter Salles soe como uma discussão que, apesar de ousar e fugir do esperado clichê catártico de filmes de vingança, não contribui em nada para melhorar o cenário atual de violência sexual em que vivemos e que precisamos mudar.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Julieta

(Espanha, 2016) Direção: Pedro Almodóvar. Com Emma Suárez, Adriana Ugarte, Michelle Jenner, Rosy de Palma, Daniel Grao, Dario Grandinetti.


Por João Paulo Barreto

Em Julieta, Pedro Almodóvar retorna ao tema da perda dentro do universo feminino cujo conhecimento profundo o consagrou. Aqui, o cineasta destrincha a dor da personagem título, uma mãe cuja falta de informações acerca do desaparecimento voluntário de Antia, sua filha de dezoito anos, a atormenta.

É um filme que destrincha todo o impacto destrutivo, físico e emocional, que a ausência de um filho pode causar. Em seu roteiro, baseado no conto escrito por Alice Munro, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2013, o diretor espanhol traz para o espectador justamente isso, uma análise da perda e a forma impossível como uma pessoa consegue se recompor e seguir adiante de modo a deixar aquela ferida, apesar de aberta, incomodando o mínimo possível.

A Julieta do título é uma professora aposentada que, na inércia, parecia ao menos tocar a rotina doze anos após o desaparecimento da única filha. Ao reencontrar Beatriz, uma jovem que costumava ser amiga de Antia, saber que a mesma reencontrou a garota e que esta já tem três filhos e segue a vida distante e bem, os poucos vestígios de equilíbrio emocional que Julieta parecia ter caem por terra. O acontecimento traz todo um turbilhão de lembranças à tona, lhe obrigando a revisitar o passado, levando a mulher a enfrentar seus demônios escrevendo sua história em forma de carta à filha.

Na angústia da perda, Julieta busca alento na escrita 
Na construção de sua protagonista, Almodóvar opta por uma desconstrução física da mesma. Em sua juventude, vivida por Adriana Ugarte, com os cabelos loiros chamativos, típicos dos anos 1980, seguida de uma beleza mais sóbria e cativante em sua maternidade, um brilho no olhar e um resplandecer de sua aparência são notáveis. Após acontecimentos trágicos e marcantes, a figura de Julieta parece se despedaçar aos poucos. Na presença de Emma Suárez, que a vive em sua fase mais madura, uma melancolia no olhar, rosto sempre abatido, a insegurança nos planos e uma constante pressa no gestual, denotam seu estado de espírito por um fio. E a queda torna-se inevitável.

É justamente essa queda que o filme se propõe a analisar. Mas, claro, trata-se de Pedro Almodóvar. Não somente a atuação de seus personagens constrói seus arcos. Os elementos em seus cenários, suas cores, suas referências culturais ajudam nesta construção, criando para o espectador uma trilha para as personalidades dos habitantes daquele mundo. Lá estão as pistas de um universo típico. Um quadro do pintor Lucien Freud na parede, como um espelho a revelar a face pesada da solidão de Julieta; a leitura de um livro sobre a tragédia grega a entregar pistas do que virá a seguir, elementos que delineiam todas as nuances de um drama áspero.

O calor da juventude e a entrega sem medos ao amor 
As tão famosas cores de Almodóvar, claro, se fazem presentes. Cores inicialmente vibrantes que vão representando a perda de calor na vida de Julieta. De modo sóbrio, o diretor acerta ao não ceder ao melodrama escancarado, deixando a tristeza se fazer presente de forma genuína. E essa tristeza vai sendo representada de maneira sutil em seus cenários, com as cores quentes das paredes que, gradativamente, viram tons pastel, como a exibir a ausência de energia na vida de Julieta.  Isso é visto, também, nos bolos que ano a ano a mulher compra para celebrar o aniversário da filha. Bolos que vão se tornando mais discretos com o passar do tempo e que, de modo brilhantemente sagaz, Almodóvar registra no lixo em cada ocasião.

Trata-se de uma película feminina em sua essência, que observa as dores daquelas mulheres em suas mais variadas nuances. Na presença da mãe senil de Julieta, um contraste impressionante com a jovialidade e felicidade no rosto da nova namorada do seu pai, também feliz por poder recomeçar a vida, mas sem agir com egoísmo ao permitir-se cuidar da esposa doente com a ajuda de seu novo amor. No mundo de Almodóvar, conceitos de certo ou errado ganham variados significados. E os homens acabam por ser representados de modo alegórico, como vemos nas esculturas com genitais expostos (uma delas, inclusive, abrindo o filme), que uma das personagens define como “pesadas para que vento não possa derrubar, como as pessoas de lá”, referenciando o lugar onde vive às margens do oceano.

Elementos inconfundíveis no universo de Almodóvar
É uma obra repleta de rimas visuais. Em uma delas, vemos um mar calmo inicialmente convidar a protagonista, lhe dando boas vindas à casa do amor de sua vida. No dia que sua vida sofre o primeiro golpe, o oceano revolto parece querer expulsá-la, cumprindo sua função de tirar-lhe parte de sua existência. 

Na ausência de trilha sonora, inclusive, o diretor entrega um filme cujo silêncio colabora para o espectador compartilhar o vazio na vida de sua protagonista.

Nos créditos finais, com a pesada “Si no te vas” na interpretação de Chavela Vargas, um resumo daquela dolorosa angústia sentida por Julieta e uma mão que, carinhosamente, traz o espectador de volta ao mundo, conduzindo-o para fora do cinema.

Mas a vontade de ficar ali naquele universo parece maior. Poucos autores conseguem tal intento. Pedro Almodóvar é um deles.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Truque de Mestre: O 2º Ato

(Now You See Me 2, EUA, 2016) Direção: John M. Chu. Com Jesse Eisenberg, Mark Ruffalo, Woody Harrelson, Daniel Radcliffe, Michael Caine, Morgan Freeman.


Por João Paulo Barreto

Óbvia continuação do relativo sucesso de 2013, Truque de Mestre: O Segundo Ato, com o perdão do trocadilho infame, não repete com a mesma eficiência a mágica pretendida em seu original, que, apesar de pecar pelas sequências demasiadamente longas nas explicações, divertia apesar de, justamente, se tratar do típico filme de um truque só (outro trocadilho).

Aqui, com menos apuro criativo nas ideias seus passes mágicos, o filme se torna um tanto enfadonho e sem surpreender o espectador do mesmo modo eficiente visto no seu original. A começar por não contar com um plot twist à altura daquele do personagem Dylan Rhodes (Ruffalo), que até conseguiu tirar do espectador a típica surpresa da sua revelação por trás de todos os golpes, apesar de não tornar o longa menos esquecível por isso, friso.

Desta vez, temos o retorno de Arthur Tressler (Caine) em busca de vingança por seu dinheiro perdido e uma constrangedora atuação de Daniel Radcliffe como um suposto mágico rival do grupo dos quatro cavaleiros vividos por Jesse Eisenberg, Woody Harrelson, Dave Franco e Lizzy Caplan, que substitui Isla Fisher como representante feminina da equipe.

O bando reunido para mais um golpe
Quando aponto como constrangedora a atuação de Radcliffe, não me refiro tanto a sua competência como ator. Aqui, nitidamente se percebe que muitos dos problemas relacionados à sua participação têm origem na criação do roteiro, que, apesar de iniciá-lo supostamente como alguém que se equipara em competência aos quatro mágicos citados, acaba se tornando um caricato vilão em busca de vingança e do amor paterno. Fora isso, a inevitável lembrança que o filme nos traz do personagem mágico que lançou o ator cria uma graça momentânea, mas logo deixada de lado.

Um acerto do filme está em manter a sua verve tecnológica, cuja montagem rápida e câmera em constante traveling nas cenas em que vemos o grupo em ação, ajudam a criar um ritmo eficiente para o longa. A sequência em que o grupo rouba uma espécie de chip, condicionando-o a uma carta de baralho passada de um para o outro enquanto uma equipe de guardas os revista, apesar de um tanto forçada, diverte na criação de tensão e comédia.  

Britânicos presentes: Daniel Radcliffe e Michael Caine
Ainda no âmbito do espetáculo visual, que é a grande marca do grupo em suas apresentações em público, O Segundo Ato exagera um tanto na grandiloquência de seu desfecho, quando a Tower Bridge, famoso cartão postal de Londres, é utilizada como telão para fechamento do ato final do grupo.   

É o tipo de filme que exige ao máximo de seu público no quesito da suspensão da descrença, algo que era levado, em seu original, com mais sutileza (dadas as devidas proporções, claro). Aqui, o que se tem é justamente a repetição, só que exagerada, de um mesmo truque de mágica.

Pode até ter dado certo uma vez, mas na segunda já se torna previsível.   

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Roteiro de Casamento

(Me Case com um Boludo, ARG, 2016) Direção: Juan Taratuto. Com Adrián Suar, Valeria Bertuccelli.


Por João Paulo Barreto

Em Roteiro de Casamento, há uma tentativa pífia de se construir uma crítica à hiper-exposição de celebridades na mídia do mesmo modo como tenta criar uma análise do quão nocivo é a idealização do romance em um relacionamento.

Propondo-se funcionar como uma comédia romântica, o filme consegue até criar bons momentos na interação entre os dois protagonistas, Fabián Brando, o ator de sucesso vivido por Adrián Suar, e a novata no oficio Florencia Córmik (Valéria Bertuccelli), principalmente nas cenas em que Fabián conta vantagem em suas experiências no cinema.

Fabian e Florencia: romance precipitado e idealizado
No entanto, ao insistir por muito tempo nas mesmas situações, o que parece sempre focar no choro descontrolado por parte de Florencia e na postura egocêntrica de Fabian (cuja mudança, sabe-se desde o começo, será a razão para sua redenção), o filme cansa em sua proposta de fazer rir.

Curiosamente, a história da atriz que se apaixona pelo personagem vivido por seu parceiro em cena e começa um relacionamento com o ator que o interpreta, até engata certo interesse quando aborda o modo como o ceder, a adaptação e o reconhecimento dos erros podem influenciar de modo construtivo a vida a dois. Mas, quando essa proposta é colocada em prática, o filme já esgotou a paciência do espectador em uma repetição de piadas baseadas nas mesmas muletas de atuação que os atores usam à exaustão nos 100 minutos de projeção.

Piadas carente de timing cômico
Para sermos justos, o longa até funciona em algumas de suas gags visuais, como o momento em que o galã vivido por Adrián Suar sai de seu trailer na chuva e segue sem se molhar em direção ao carro. Do mesmo modo, ainda em sua abordagem romântica, a ideia de usar o roteirista de cinema como conselheiro de Fabián quando este precisa de ajuda para se tornar o tal personagem pelo qual a esposa se apaixonou, acerta por levar um aspecto metalinguístico a um filme cuja banalidade de sua história o torna quase descartável.

Mas diante de tantas cenas forçadamente engraçadas e sem um necessário timing cômico para se sustentar, como na irritante cena da cegueira ao final, a paciência se esgota logo.

  

Jogo do Dinheiro

(Money Monster , EUA, 2016) Direção: Jodie Foster. Com George Clooney, Julia Roberts, 
Jack O´Connell, Giancarlo Esposito, Dominic West.


Por João Paulo Barreto

Em Jogo do Dinheiro, a diretora Jodie Foster consegue trazer de modo pertinente relevantes discussões acerca da selvageria desenfreada do mundo capitalista no mercado financeiro, além de focar incisivamente o universo midiático da televisão e sua não menos selvagem ação em busca de audiência.

Ao optar por um cenário no qual aparentemente não veremos redenção alguma para nenhum dos personagens envolvidos, a história surpreendentemente escrita pelos mesmos roteiristas por trás de banalidades como A Hora do Rush, A Lenda do Tesouro Perdido e Taxi (sim, aquele com a Gisele Bündchen), cria uma reflexão acerca da natureza pela busca sem limites por lucro, independente de quantos serão prejudicados em detrimento do saldo positivo de apenas um pequeno grupo de pessoas.

Aqui, temos uma pane sistêmica causando a perda de todo o capital investido em um fundo de ações da bolsa. Resultado: economias de milhares são perdidas da noite para o dia, num montante de 800 milhões de dólares. Nesse ínterim, Lee Gates (Clooney), o âncora extrovertido e falastrão de um programa que dá dicas financeiras (recomendando tal investimento, inclusive) tem seu show invadido por Kyle Budwell (O’Connell) que, armado e portando um colete de bombas, exige explicações para a perda de todo seu dinheiro aplicado em tal fundo.

Gates é confrontado por Budwell em busca de respostas
A partir dessa premissa, o filme busca criar um ambiente de tensão em torno de toda a situação, conseguindo esse intento inicialmente, mas falhando de forma pontual em determinados momentos na criação dessa atmosfera nervosa na interação entre os dois personagens, como quando a arma é deixada de modo artificial ao alcance do apresentador ou quando o estúdio começa a ser evacuado sem que o Budwell perceba.

Há, entretanto, um acerto na presença de Julia Roberts como a diretora do programa que continua sendo transmitido ao vivo por exigência do invasor. Com seu tom de voz calmo, refletindo sua longa experiência à frente da equipe, sua Patty Fenn acaba por ser um ponto de equilíbrio diante do histrionismo de O´Connell.  

Histrionismo este que até se justifica por conta do arco relacionado ao personagem, o que é muito bem demonstrado pela impactante cena em que ele se vê diante da namorada grávida, em um momento cujo constrangimento do homem desesperado perante as duras palavras da garota atinge, também, o espectador.

Julia Roberts no papel da diretora do programa Money Monster
A despeito da complexidade relativa às questões técnica do mundo financeiro, um dos trunfos na execução da trama está em conseguir exprimir para o espectador essa tecnicidade dos aspectos econômicos por trás dos fatos. Não é somente uma questão de “o dinheiro que estava aqui sumiu por conta de uma pane”, mas toda uma análise relacionada a algoritmos e impossibilidades matemáticas que o filme traduz de modo eficiente, tornando, apesar de certos diálogos expositivos, crível e compreensível ao público.

Trata-se de um filme que busca trazer uma reflexão acerca das vitimas deste sistema. Do modo como a busca insana por dividendos sobrepõe qualquer tipo de ética.  E é somente em uma situação de caos, somente quando a sensação de perda é levada, também, para o topo da pirâmide, que se torna perceptível o quão animalesco é o supostamente civilizado mundo corporativo.

Não é surpresa que, ao final, o único realmente prejudicado em toda a história seja justamente o que já a começou sem esperanças. Ao vermos diretora e âncora planejarem o próximo programa antes mesmo de a poeira baixar, percebemos como as vitimas deste universo serão sempre as mesmas. 

Corrigindo uma observação feita no começo desse texto, a redenção pode até chegar, mas os que a receberão serão os mesmos a sempre lucrar com a desgraça alheia.

A corda só se parte para o lado mais fraco, de fato.




segunda-feira, 23 de maio de 2016

A Garota do Livro

(The Girl in the Book, EUA, 2016) Direção: Marya Cohn. Com Emily VanCamp, Michael Nyqvist, Ana Mulvoy-Ten. 


Por João Paulo Barreto

Existe uma análise bem relevante proposta por A Garota do Livro. Tal ideia está na premissa que filme tenta levar à frente ao iniciar uma discussão acerca dos traumas psicológicos que a pedofilia, o abuso de vulneráveis e, tão grave quanto, a ausência familiar em tais situações podem causar.

No entanto, talvez por preguiça da roteirista e diretora Marya Cohn, tal tentativa de apresentar em seu filme algo que fugisse do banal e raso ciclo do “1) apaixonar-se; 2) pisar na bola; 3) perder a pessoa amada; 4) consequente fossa; 5) luta pela reconquista; 6) previsível final feliz” acaba ficando em segundo plano justamente por essa proposta simplista com a qual o público se depara no desenvolvimento da trama.

Curiosamente, é justamente por perceber sua possível profundidade que a história da agente literária Alice Harvey (VanCamp) capta um pouco da atenção do espectador. Filha de um editor de livros de sucesso, a jovem é estimulada desde cedo a dar vazão à sua veia de escritora. Quando Milan Daneker (Nyqvist), um dos autores agenciados por seu pai passa a servir como tutor intelectual no desenvolvimento de sua escrita, fica óbvio que o interesse do escritor naquela relação passará a ser um pouco mais do que avaliar os textos da bela adolescente de dezesseis anos.

Predador e caça: Daneker manipula os sentimentos de Alice para ter material
E o filme até ameaça construir de modo pertinente a situação, colocando ambos em um visível desconforto diante dos sentimentos que começam a aflorar, em uma clara tentativa de não rotular vilão e vitima naquele enlace. Claro que, pela própria natureza do fato e pela repulsiva manipulação que se descobre existir por trás das ações de Daneker, qualquer empatia nesse desenvolvimento se torna impossível, principalmente ao conhecermos as consequências psicológicas que aquela relação trouxe para a vida da jovem.

Já adulta, inclusive, Alice acaba por se ver agindo na mesma posição de seu agressor, quando seduz um adolescente. Tal fato, de certo modo, corrobora a ideia de que, em algum ponto, o roteiro de A Garota do Livro tentou elaborar uma discussão mais contundente a respeito dos traumas relacionados à sua premissa, mas a preferência por tornar o longa maleável e adocicado para a audiência tornou mais atrativa para a diretora toda a fraca trama secundária abordando a reconquista do namorado traído no gesto impulsivo de Alice.

Alice e o começo da superação de seu trauma

Mas até que valeu a pena por podermos confirmar que crescer é, de fato, um termo bem subjetivo, ainda mais quando vemos a protagonista criar um blog do tipo “100 razões para você me perdoar” e colocar como uma dessas razões a ideia de que ela, agora, “está pronta para crescer”.

Tal ação confirma bem esse fato. E qualquer percepção de profundidade naquela história caiu por terra em algum momento dos incrivelmente longos 86 minutos de projeção.


sexta-feira, 20 de maio de 2016

X-Men: Apocalipse

(X-Men: Apocalypse, EUA, 2016) Direção: Bryan Singer. Com James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac. 


Por João Paulo Barreto

Existe um fator emocional que sempre funciona bem nos filmes dos X-Men. Independente dos cineastas, seja Bryan Singer, Brett Ratner ou Matthew Vaughn que ocupem a função de diretor dos exemplares da franquia, dentre acertos e erros cometidos na criação dos longas, há algo sempre acima da média: o modo como os personagens conseguem se interligar emocionalmente e a forma eficiente como os realizadores constroem isso para o público.

Mesmo com um resultado final abaixo dos dois filmes anteriores, First Class e Dias de um Futuro Esquecido, X-Men: Apocalipse erra pouco. E, o mais importante, seus acertos acabam por suplantar possíveis equívocos que encontramos aqui e ali durante os 144 minutos de projeção. Dentre os acertos, justamente a citada força de sua história ao trabalhar bem a ligação emocional de seus personagens.

Aqui, vemos novamente a tragicidade da vida Eric Lehnsherr, o Magneto, cumprir boa parte da carga dramática que sustenta o roteiro do longa. Na perda dos seus entes mais queridos, algo que já vimos de modo semelhante no primeiro exemplar da nova trilogia, e na descoberta desse fato pelo seu amigo Charles Xavier, é onde está, em Apocalipse, a principal relevância do filme. E nas boas atuações de James McAvoy e Michael Fassbender, seu maior trunfo.

Eric Lehnsherr revive a dor da perda que definirá suas escolhas
Da mesma forma como vimos os dois personagens encontrarem um elo em uma bela cena de First Class, quando um compartilhamento de lembranças é genuinamente agradecido entre lágrimas pelo professor X, aqui, ao adentrar na mente do amigo e perceber que uma nova tragédia se fez em sua vida, uma sincera demonstração de pesar é trazida à tona pelo mutante telepata. Assim, o diretor Bryan Singer acerta no tom dramático de sua história, algo que vemos novamente em outros momentos chave da trama. 

Na história, o Apocalipse do título, no caso o primeiro mutante a surgir na terra, no antigo Egito, acorda de seu sono após ter sofrido a interrupção do processo que o transformaria no regente do planeta. Milênios se passam e seu ressurgimento coincide com o momento em que os mutantes possuem uma boa relação com os humanos, uma vez que foram os mesmos que impediram o assassinato do presidente Nixon.

Com uma voz impactante e presença soturna e misteriosa, Oscar Isaac até consegue realizar um bom trabalho na criação de seu vilão. No entanto, toda sua participação soa um tanto deslocada, quase carnavalesca, diante da proposta de ambientação séria e (até certo ponto) calcada na realidade que os dois longas anteriores optaram por inserir.

Apocalipse e sua presença carnavalesca
Esse ponto é perceptível, por exemplo, quando vemos o personagem em locais como Auschwitz ou mesmo na metalúrgica onde o Eric tenta se esconder: a presença burlesca daqueles mutantes específicos se desloca um pouco da trama. Não à toa, o filme funciona bem melhor quando não está trabalhando na criação de seu arco, o que nota-se quando o roteiro opta por desenvolver a história da motivação do luto de Magneto, a captura dos mutantes pelo coronel Stryker e, claro, a impressionante e sangrenta participação de Wolverine, algo que, por si só, já vale filme inteiro. 

Trazendo de volta ideias que funcionaram bem no longa anterior, como a ação do veloz Mercúrio exibida em câmera lenta, aqui, essa utilização, apesar de divertida, soa deslocada não somente pelo uso de uma trilha sonora divergente do momento dramático que a perda de um personagem central pediria, mas, também, por soar como uma muleta para o roteiro. Não à toa, a descoberta de tal perda perde seu impacto emocional quando trazida à tona logo em seguida ao termino da sequência do mutante velocista.

Ao final, a sensação é justamente a de um filme que funciona bem no já citado elo emocional que liga seus personagens, apesar de ter dado um passo atrás ao optar por um vilão simplório e convencional (e vê-lo como designer de uniformes, de fato, não ajuda muito na sua credibilidade) ao invés de se aprofundar em outras questões que o drama mutante pode oferecer.

Mas nada que uma nova trilogia não possa resolver.