quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Fome

(Brasil, 2015) Direção: Cristiano Burlan. Com Jean-Claude Bernardet, Ana Carolina Marinho, Francis Vogner.


Por João Paulo Barreto

Em Fome, o diretor Cristiano Burlan nos convida a adentrar na vida de um morador de rua, a caminhar junto a seus passos desvairados, a seguir pelos mesmos caminhos sem direcionamento das ruas de São Paulo, percorrendo a esmo aquelas esquinas como se a tentar encontrar seu próprio caminho. Inicialmente, pensamos se tratar de alguém, de fato, em busca de um norte, principalmente pelo modo eficiente como os travelings e os planos sequência são utilizados. Não obstante, tal personagem busca justamente o contrário: ele busca se perder cada vez mais.

Interpretado com intensidade pelo professor, escritor, teórico, crítico e ator, Jean-Claude Bernardet, uma das instituições do estudo do cinema no Brasil, o morador de rua de sotaque estrangeiro é apresentado inicialmente apenas como mais um a viver sem um teto fixo, sem uma rotina especifica, sem um lugar que ele possa, realmente, chamar de seu. É um personagem que nos causa reflexão. Que leva o espectador a refletir acerca da invisibilidade do ser humano nas grandes metrópoles, acerca da necessidade que as classes em situações mais confortáveis possuem de se verem obrigadas a se importar com tais indivíduos na esperança não de demonstrarem-se generosas, mas apenas na intenção de cumprir um protocolo de benevolência falso e hipócrita. Em certo momento, uma discussão do personagem com um casal de bons samaritanos que lhe oferece restos de um jantar denota muito bem isso.

Sem destino: buscando a redenção através do vagar pelo nada
E o sem teto vivido por Bernardet refuta justamente essa condição. Ele não almeja ser “vitima” da caridade alheia. Ele não precisa viver na auto piedade de quem está em situação mais confortável que ele. Seu desejo é encontrar um sentido para sua vida justamente no mergulho na sarjeta, no alcance da plenitude que somente a sujeira e a completa ausência de posses parece lhe conceder. Amigável em determinado momento, resolve ajudar uma estudante em sua pesquisa social, respondendo-lhe questões planejadas e de cunho acadêmico. Ao quebrar aquele ritual trazendo o domínio para si e cantando uma canção em francês que rememora de sua infância, o homem entrega um vestígio do que ele já foi. Algo que, pelo visto, lhe faz sentir certa falta. Um breve sinal de algo que o atormenta, mas que ele evita deixar transparecer.

A estrutura inicial escolhida por Burlan ao apresentar seu filme como uma mescla documental e de ficção traz força para o resultado final. Nos depoimentos dos moradores de rua, ouvidos pela estudante para sua pesquisa, falas sinceras são captadas, problemas alheios são compartilhados e uma pertinente face do filme começa a se desenhar. Tal face está na ideia de que, da mesma forma que a ajuda dispensada de modo supostamente caridoso serve como meio protocolar e egoísta de se cumprir um ritual perante a sociedade, a pesquisa acadêmica executada pela estudante serve apenas como um modo de se usar e descartar aquelas pessoas. Algo que é corroborado, apesar da maneira frágil de se levar o espectador pela mão, em um belo discurso ao final do filme.

Conflito de acadêmicos: aluno e professor se reencontram 
Curiosamente, Fome utiliza a construção do personagem de Bernardet de modo a brincar com a empatia do espectador. Tal elemento é colocado à prova em um diálogo intenso entre um ex-aluno que reconhece o sem-teto como seu professor do tempo da faculdade. Destilando violência e sarcasmo em cada palavra proferida, os dois discutem a ideia adotada pelo professor de se alcançar o verdadeiro conhecimento ao se permitir perder tudo. Vivido pelo crítico e pesquisador Francis Vogner, o ex-aluno nos entrega uma face até então desconhecida de arrogância que o atual sem-teto possuía quando ainda se considerava parte da sociedade. A amargura se torna palpável.

Na representativa cena em que vemos o sem-teto se banquetear na comida que encontra no lixo e que lhe aplaca a fome, um sincero oferecimento de ajuda lhe é oferecido e, surpreendentemente, aceito. Talvez a mais eficiente corroboração de Fome esteja na ideia de que, de fato, nenhum homem é uma ilha.  




Um Espião e Meio

(Central Intelligence, EUA, 2016) Direção: Rawson Marshall Thurber. Com Dwayne Johnson, Kevin Hart, Amy Ryan, Aaron Paul, Danielle Nicolet.


Por João Paulo Barreto

Do mesmo modo que Arnold Schwarzenegger redesenhou sua carreira no final da década de 1980 e começo dos anos 1990 ao se aproximar de uma comédia que brincasse com seu tamanho e o colocasse em situações deslocadas do seu universo comum de filmes de ação, Dwayne Johnson, ex-atleta de luta livre, parece ter descoberto a comédia como um dos modos de explorar sua veia cômica. E, acredite, o brucutu funciona na missão de fazer rir.

Parte dessa desenvoltura se deve ao carisma de Johnson, que consegue convencer tanto na pele de um agente barra pesada como visto nos filmes da franquia Velozes e Furiosos, como na função do mesmo agente barra pesada, mas com passado escolar traumático e repleto de bullying, que vemos nesse novo Um Espião e Meio. Claro que a fórmula de juntar dois personagens díspares, um atrapalhado e o outro focado na exatidão de seus movimentos, não é novidade. Chris Tucker e Jackie Chan, Nick Frost e Simon Pegg, dentre outros, são bons exemplos de como a ideia funciona bem.

A versão gordinho de Dwayne Johnson
Aqui, acompanhando Johnson, que tem 1,93m de altura, está o comediante Kevin Hart que, com 1,63m, cria um ótimo paralelo com o gigante na necessária comédia visual que o filme pede. No papel de Bob Stone, um ex-gordinho que decidiu entrar em forma após ser humilhado no fim do colegial (o efeito que transforma The Rock em um gordinho impressiona), Johnson vive um agente da CIA que procura Calvin Joyner (Hart), um ex-colega de colégio, no intuito de usar seus conhecimentos como contador para haquear um sistema contábil que permitirá a Stone descobrir quem matou seu parceiro (Aaron Paul, que profere um “bitch” no melhor estilo Pinkman).

Claro, tudo desculpa para trabalhar as cenas de contraste com os dois personagens e fazer valer as piadas entre eles ao brincar com essa diferença gritante tanto em tamanho, quanto em tom de comédia. Neste tom, inclusive, o agudo e nervoso modo de falar de Hart, sempre amedrontado, estabanado e inseguro, vai de encontro ao calmo, sorridente e infalível modo de agir de Johnson. Aqui, ele aparece usando uma camisa com um unicórnio cor de rosa ou um pijama bem menor que o seu número de roupa, em mais uma forma do roteiro brincar com sua aparência. Além, claro, do modo como ele é desenhado como um cara sensível (as referências a Gatinhas e Gatões, de John Hughes, principalmente em sua cena final, são um bônus à parte) contribui para essas piadas.

Contraste no tamanho: a velha fórmula ainda funcionando
Com boas sequências de ação, como a que vemos os dois fugirem do prédio onde trabalha o contador para encontrar um veículo do Uber que Stone havia solicitado, o filme equilibra bem esse uso da comédia com cenas mais enérgicas, fazendo valer, claro, a presença física de Johnson.

De fato, o novo astro tem seu carisma.


quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Entrevista: Philippe Le Guay


Diretor de obras singulares que abordam de modo reflexivo relações humanas, Philippe Le Guay lança em 2016 seu novo trabalho, Floride (batizado no Brasil como A Viagem de Meu Pai). Trata-se de um filme singelo, que aborda de modo contundente a falsa ideia de melhor idade em uma história que aborda a cumplicidade entre um pai idoso e sua filha, cujas responsabilidades perante seu progenitor acabam por abalar sua vida pessoal. Nessa entrevista, o diretor parisiense aborda a experiência de trabalhar com o veterano Jean Rochefort e o modo como seu filme consegue equilibrar tão bem drama e comicidade.

Confira o papo abaixo!

Há muitas queixas da ausência de filmes que dêem destaque a atores e atrizes idosos e o seu filme tem esse destaque. Como se deu a escolha de Jean Rochefort para o papel?

Eu acho que quando a gente quer fazer um filme, a vontade que temos é a de contar a historia de uma personagem. Aqui, nesse caso, eu tive essa necessidade de contar a historia de um idoso. E isso não necessariamente para ter que dar um papel a um ator mais velho, mas simplesmente porque eu tinha realmente a vontade de contar essa história. Em A Viagem de Meu Pai, o protagonista é o Jean Rochefort, alguém que há cinco anos havia dito que ia parar de atuar no cinema. Então, quando eu escrevi esse roteiro, não havia pensando nele. Mas chegou um momento em que eu tinha que perguntar se ele queria atuar. Lembro-me dele dizendo que não ia fazer o filme, “mas, se você quiser, venha segunda feira tomar um chá comigo e conversamos sobre (risos)”.  Acabou que, durante seis meses, todas as semanas eu ia passar uma tarde conversando e tomando chá com ele. Aos pouquinhos, o roteiro foi evoluindo, e ele dizia: “olha, eu não quero fazer seu filme, mas, se por acaso eu fizer, eu gostaria que fosse mais ou menos assim...(risos)” e ia sugerindo mudanças.

Como foi a experiência de dirigir um ator veterano como ele?

No set de filmagens, a gente não dirige um ator. A gente pode, claro, dar algumas orientações de posicionamento, de fluidez no diálogo, mas, no caso de Claude, o verdadeiro trabalho de direção foi feito quando o personagem foi concebido ao longo desses seis meses em que eu e Jean conversávamos uma vez por semana. Assim, eu aprendi a conhecê-lo e vice versa. Foi desse modo que se criou uma relação de confiança e eu acabei mudando algumas coisas. O que é formidável no caso de Jean é que, bom, normalmente um ator quer ser amado pela personagem, eles querem interpretar papéis de pessoas simpáticas, amáveis, gentis. Com Jean não é o caso de jeito nenhum (risos). Muitas vezes ele sugeriu que eu explorasse a violência de algumas cenas.  Um exemplo está no momento em que em que a Sandrine (Kiberlain, que interpreta a filha de Jean) contava ao seu filho o fato do avô ter feito xixi no carro enquanto ela estava parada em um posto de gasolina. Era um relato, apenas. Não havia a cena em si. Jean falou que eu tinha que mostrar essa cena. E eu disse: “não, não vou filmar você urinando em um carro!” Aí ele disse que bastava eu não dar nenhum close em seus órgãos genitais (risos).  A cena está diferente no filme, mas acabou que ele tinha razão.  Tornou-se um gesto de raiva, de ódio do personagem. Uma misantropia, mesmo. Então, essa violência do Claude é uma violência que o próprio Jean Rochefort possui. Isso é um bom exemplo dessa troca que nós tivemos. No entanto, eu dou aqui esse exemplo que é mais violento, mas houve vários outros que foram momentos de fantasia. Porque ele tem muito humor e eu também queria essa face do Jean no filme. Eu não creio que, que pelo fato de a gente estar filmando um tema dramático, o tratamento desse tema precise ser totalmente dramático. Ao contrario.

Le Guay dirige Jean Rochefort em A Viagem de Meu Pai
Percebe-se, então, uma parceria entre você e o Jean Rochefort. Como foi trazer a Sandrine Kiberlain para essa parceria?

Eu já havia trabalhado com a Sandrine anteriormente em As Mulheres do Sexto Andar. E ela tinha muita vontade de fazer um filme com o Jean. Eles já se conhecem há quinze anos e se admiram muito. Jean é uma espécie de substituto de pai para ela. Essa cumplicidade entre os dois já existia na vida real. É interessante observar que a personagem dela esta sempre reagindo ao que o pai faz. Ele é a força motriz, mas é ela quem recebe a emoção dos seus atos. O que nós tínhamos que decidir com a Sandrine era qual seria o grau de masoquismo dela (risos). Decidir qual seria o momento em que ela iria se revoltar contra o pai. Foi importante também mostrar que a Carole era uma mulher que tinha uma vida própria. Alguém com um filho já adulto, que tinha uma vida amorosa equilibrada com o namorado e que se percebe estar indo muito bem profissionalmente, trabalhando como diretora de uma fábrica. Não é uma mulher que fracassou na vida. É uma pessoa bem sucedida. Seu único problema é o pai. É preciso demonstrar essa força que tem a personagem e a fraqueza que ela possui em relação ao seu pai. É esse o equilíbrio. A Sandrine tem essa força e pôde trazê-la para a Carole, que é uma mulher independente, corajosa, mas que, ao mesmo tempo, tem algo de vulnerável, frágil. E é justamente essa mistura de elementos que me agrada. Sem contar o fato de que ela é extraordinária.

É uma obra que consegue mesclar muito bem a questão da melancolia da velhice com o humor. Na criação do seu roteiro, você já tinha essa intenção de mirar esse equilíbrio? Aliás, o final do filme é algo um tanto chocante, na questão da ilusão e da realidade na cabeça do personagem de Jean. Como se deu essa construção de equilíbrio?

Eu adoro quando os sentimentos são contraditórios e, ao mesmo tempo, estão em equilíbrio. A ideia de encontrar esse equilíbrio entre os diferentes tons do filme, entre o drama e a comédia, é aquilo que mais me interessa no fazer cinema. Porque eu acho que é exatamente isso que acontece o tempo todo na vida. Para as coisas que acontecem na minha vida, por exemplo, eu sempre tento ver esses dois aspectos. O filme pra mim, nesse ponto de vista, é um prolongamento do que eu sinto. O final, apesar de doloroso, é algo em aberto. A gente sabe que o personagem da Sandrine vai poder continuar a viver. Ela tem um olhar muito belo, um olhar em aberto para alguma coisa, e a vida dela não vai acabar com essa relação com o pai.


A Viagem de Meu Pai

(Floride, FRA, 2016) Direção: Philippe Le Guay. Com Jean Rochefort, Sandrine Kiberlain, Laurent Lucas, Clément Métayer.


Por João Paulo Barreto

Há uma melancolia disfarçada em A Viagem de meu pai, novo trabalho do diretor Philippe Le Guay (A mulheres do sexto andar e Pedalando com Molière). Tal melancolia representa de modo doloroso as dificuldades que a suposta “melhor idade” traz para a vida do idoso Claude, vivido com graça e carisma pelo veterano Jean Rocherfort, em uma mescla de tristeza e simpatia.

No entanto, apesar de um filme genuinamente triste e que foca nos percalços de um senhor com demência, acaba conseguindo representar bem o modo como os períodos transitórios e repletos de dificuldade de uma vida em sua fase final alteram não somente a sua existência, como, também, a das pessoas que o cercam. É o caso da relação de Claude com sua filha, Carole (Sandrine Kiberlain), que tem na obrigação de cuidar do pai seu mais instável problema.

Nessa relação, uma mescla de amor, paciência e condescendência por parte de Carole encontra certa infantilidade e teimosia oriundas de Claude. Em seu roteiro, Le Guay insere diversas situações que servem para denotar esse contraste na relação de ambos, levando a percepção de que os esforços fieis e constantes da filha perante as dificuldades naquela relação a mantém em um limite emocional constante.

Carole e Claude: cumplicidade entre filha e pai idoso
Gradativamente, a história exibe a espiral descendente de Claude, à medida que sua demência avança e as suas confusões mentais passam a afetar não somente a ele, mas aos indivíduos que o cercam. Apesar disso, o idoso ainda possui certo controle de suas faculdades mentais e é nestes momentos que conhecemos suas angustias reais em paralelo às que não passam de pura teimosia.

Nas reais, a saudade da filha que mora na Flórida, Estados Unidos, o mantém em constante planejamento para uma visita surpresa da sua caçula. O doloroso nesta expectativa está no fato de que a menina morreu nove anos antes, em um acidente de carro, e Claude, por conta de sua debilidade, esqueceu-se do ocorrido. No resumo de Carole ao revelar tal situação, uma definição perfeita: talvez ele tenha escolhido esquecer para não sofre mais.

Nos momentos resumidos por uma teimosia estão aqueles que demonstram um palpável carisma de Jean Rochefort, como quando o vemos fingir uma queda matinal diária para, assim, causar preocupação na sua cuidadora, bem como na insistência de esconder seu relógio para poder acusá-la de roubo. Sem contar, claro, as suas idiossincrasias relacionadas à preferência de uma marca de suco que o remete à cidade americana onde mora sua filha e o atrito que ele gera ao insistir que o corpo de um antigo amigo com quem se desentendeu anos antes não seja enterrado no mesmo cemitério onde ele será um dia.

Palmeiras: Claude e sua esperança de rever a filha que vive na Flórida
Mas é na relação entre Claude e Carole que está a verdadeira força do filme. Em sua história, Le Guay leva o espectador a presenciar uma experiência de constante desgaste emocional de alguém fiel ao pai, de alguém cuja vida caminha em trilhos confortáveis, mas cujo desastre que sempre parece iminente a faz perder de forma gradativa qualquer esperança. Tal fidelidade a impede de interná-lo em um asilo, mas o modo como essa opção passa a se apresentar como única saída tanto para seu conforto como para o de seu progenitor, acaba por aumentar ainda mais sua instabilidade.

Nessa relação, o público testemunha um teste de paciência e compreensão, mas cujo afeto da jovem pelo idoso contorna as dificuldades atreladas a todo aquele processo. É uma obra cuja reflexão mais importante reside justamente no fato de que a cumplicidade familiar suplanta qualquer período. Cumplicidade essa que é percebida no modo como Carole troca as roupas urinadas de seu pai e em como ela, apesar de todos os percalços, não revela o verdadeiro motivo de Claude não conseguir falar com Alice, sua outra filha, ao telefone. Cumplicidade resumida em um breve abraço, mas que suplanta qualquer diferença entre os dois.

Lembranças: Carole e Claude revisitam um dos símbolos do passado em família
Claude, enfim, caminha para sua percepção definitiva. Ao finalmente confrontar a si mesmo com a dolorosa verdade que optou por esconder em algum lugar de sua lembrança, o senhor conclui sua fase e conforma-se com seu destino. Nesse confronto mental, um sentimento, apesar de doloroso, redentor.  

Em seu olhar repleto de peso, mas, ao mesmo tempo, esperançoso, Carole percebe ter cumprido sua obrigação. Nas palavras carinhosas de Jean após tantas asperezas proferidas, um alívio mais do que merecedor.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Esquadrão Suicida

(Suicide Squad, EUA, 2016) Direção: David Ayer. Com Will Smith, Jared Leto, Margot Robbie, Viola Davies, Joel Kinnaman.


Por João Paulo Barreto

Existe um problema com a expectativa. Uma das regras em qualquer aspecto da cinefilia reside no fato de que não se deve criar expectativas acerca de nenhum projeto. Aí vem os filmes baseados em quadrinhos, que dominam o mercado atualmente. Bombardear a mídia com imagens, trailers, dentre outros aperitivos destinados aos fãs é via de regra para qualquer estúdio. E a DC/Warner parece ser bem eficiente nesse sentido. Desde muito tempo, friso. Basta dar um google e checar todas as estratégias utilizadas quase trinta anos atrás para promoção do Batman, de Tim Burton.

Em se tratando do seu novo projeto, Esquadrão Suicida, a comparação com a obra de Burton fica somente na estratégia e no fato de que ambas possuem dois personagens em comum. O morcego de Ben Affleck em breve participação e o Coringa, que dessa vez ganha a face e o talento subaproveitado de Jared Leto. Claro, após a encarnação perfeita de Heath Ledger na obra máxima de Christopher Nolan, ficava difícil alguém se arriscar no papel. Sem ser saudosista e evitando comparações, Leto até se esforçou para entregar um vilão à altura do seu talento, mas teve sua participação diluída ao aspecto de um simples coadjuvante de luxo, sem trazer o real impacto que um personagem como aquele poderia causar na história. Não por culpa sua, mas, sim, de um roteiro mal amarrado, que se baseia em vilões sem substância e em anti-heróis sem muito carisma.

Leto como o Coringa: talento mal aproveitado

Na junção da equipe de vilões retirados de uma prisão de segurança máxima com o intuito de colocá-los contra uma entidade demoníaca, agora que o Superman está morto e não há metahumanos com poderes suficientes para enfrentar tal situação, o filme coloca o grupo em literal rota de colisão com diversos obstáculos, até o momento em que chegam ao local onde deverão enfrentar a tal criatura Enchantress, um demônio milenar que foi despertado após uma arqueóloga localizar a caverna onde ele vivia e passar a dividir com ela o mesmo corpo.

Trata-se de um filme de apresentação. Passamos boa parte do longa sendo inseridos no universo de cada um dos personagens, conhecendo suas falhas e motivações, e descobrindo como cada um foi parar naquele contexto, o que não significa que haja um desenvolvimento dos seus elementos, que parecem apenas ser jogados na tela com a função de matar alguma coisa. Ao final de tantas fichas corridas, difícil é o espectador não familiarizado com o universo dos quadrinhos lembrar-se do primeiro apresentado. No mais, nota-se uma necessidade gritante de se inserir Will Smith como protagonista, mesmo que seu Pistoleiro não tenha um peso maior do que o de qualquer outro membro da equipe. Em um filme no qual temos o Coringa como um dos coadjuvantes subaproveitados, quem é que quer ver um personagem cujo talento é conseguir acertar um alvo? Vocês possuem ouro nas mãos. Façam uso dele!  

Smith: protagonista forçado. Robbie: divertindo-se

Além disso, em um período no qual discussões acerca do feminismo estão merecidamente em evidência, Margot Robbie até consegue trazer peso para sua personagem, que diverte em sua postura sociopata, mas que, no final, parece apenas querer ser mãe e dona de casa.  E, claro, o filme precisa apelar para poses pin ups em algumas de suas cenas. No entanto, vale citar o momento desnecessário em que um dos membros do esquadrão acerta um soco no rosto de uma policial feminina sob a justificativa de que “ela tinha a boca suja”. Creio que esse tipo de cena em um filme cujo publico alvo é basicamente adolescente (o que justifica as poses sensuais de Quinn) não contribui em muita coisa, mesmo que certa catarse seja inserida para o personagem agressor.  

A sensação é justamente a de um roteiro frouxo que insiste em inserir reviravoltas frágeis que impedem qualquer fluidez de sua trama.  Com um final em aberto e convenientemente pedindo por uma continuação, espera-se que, ao menos, possamos ver o que Jared Leto ainda poderá fazer pelo seu icônico papel. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Entrevista: Virginie Efira

Fotos: Divulgação
Em Um Amor à Altura, Virginie Efira vive Diane, alguém cuja revisão dos próprios conceitos a faz perceber-se apaixonada por um homem cuja estatura é quase a metade da sua (exagero um pouquinho). Trata-se de uma comédia de apelo popular que conta com o carisma de Jean Dujardin como grande diferencial. Além, claro, da química entre os dois protagonistas, cujos diálogos representam a melhor coisa de um roteiro um tanto bobo, mas que gera boas risadas no público.

Em visita ao Brasil para divulgar o longa, a bela atriz belga conversou com o Película Virtual acerca desse projeto, além da experiência de trabalhar com Paul Verhoeven e do seu começo de carreira como apresentadora de programa de auditório.

Confira o papo!

Um Homem à Altura é um filme que traz no seu tema muito sobre essa suposta importância da aparência física e aceitação social. Qual o peso da aparência na sua visão?

É algo visto como muito importante, sobretudo na sociedade de hoje. Mas se liberar de todas essas imposições é uma responsabilidade pessoal de cada um. E o filme também fala disso. Como se libertar desse olhar de terceiros. O personagem do Jean fez todo um trabalho pessoal para aceitar aquilo que ele é e como ele é. Minha personagem ainda está dentro  de uma série de convenções, de estereótipos.  

Trata-se de um longa que utiliza muito do aspecto visual para fazer rir. Como foram feitos os efeitos digitais?

Houve uma série de efeitos especiais. Na maioria das vezes, Laurent (Tirard, o diretor) buscou recorrer a meios mais artesanais, para que nós pudéssemos atuar naturalmente. Às vezes, Jean ficava de joelhos. Ou ele tinha uma espécie de banquinho com rodinhas para se deslocar. Às vezes, eu subia em um estrado e ele tinha dublê também. Mas quando foi feita essa redução digital e estávamos contracenando, eu tinha que olhar para baixo e ele para cima.

Lembrou- me um pouco os efeitos que o Michel Gondry usou em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. No entanto, lá ele usou o cenário para compor os elementos em cena.

Não chegamos a usar o cenário nessa construção, mas houve algumas escolhas propositais, como a do cachorro gigantesco (risos).

A atriz em cena de Um Amor à Altura
E como foi o clima de gravações com Jean Dujardin? Ele é bem conhecido por sua personalidade brincalhona e extrovertida?

Sim, o ambiente foi realmente muito bom. Tivemos um ótimo entendimento. Mas o que acontece é que os efeitos especiais tiravam um pouco do nosso contato. Por exemplo, em uma cena de dança, o que acaba cortando um pouco. Ficamos restritos em nossas atuações. Em outros momentos, como na cena do restaurante, podíamos improvisar e tentar outros meios de atuação.

Você poderia falar um pouco sobre seu trabalho em Elle, novo filme do Paul Verhoeven?

Foi um papel pequeno, mas acho que cada papel conta uma coisa forte e especial. No seu conjunto, o filme consegue encontrar um elo entre a farsa e a sátira social. Conta uma coisa meio louca: como é que em uma situação que se é uma vitima e se consegue recuperar o controle.  

E o trabalho com o diretor?

Paul é um exemplo de que as pessoas muito curiosas não envelhecem (risos). Eu acompanho o trabalho dele faz muito tempo. Eu acho muito legal que ele faça coisas que não se podem ser feitas no cinema americano. Inicialmente, ele queria filmar nos Estados Unidos, mas ao decidir filmar na França, isso deu muito mais liberdade na criação do trabalho. As atrizes, inclusive, começaram a dizer que não entendiam porque que uma personagem que havia sido violentada não tentava se vingar. Como se não fosse mais possível trilhar caminhos diferentes. Essa liberdade da história foi possível por isso.

Em relação a Um Amor à Altura, os personagens se conhecem de modo virtual, através de um telefone celular perdido. Como atriz, como você enxerga essa exposição tão corriqueira na internet atualmente?  Você costuma se expor muito?

Em relação as redes sociais, eu posso dizer que tenho 140 anos de idade (risos). Não tenho Facebook, nem Twitter. As pessoas dizem que eu deveria ter, mas eu tenho dificuldades com isso. É preciso tempo para refletir e esse imediatismo de reação no mundo virtual, essa necessidade de se fotografar uma coisa para que ela possa existir, é algo que me incomoda. Sair da vida real para a virtual é algo que eu não entendo muito bem.

Qual sua opinião em relação à representatividade feminina na indústria do cinema?

Na França, uma coisa boa é que existe um sistema econômico que permite que filmes com narrativas mais tradicionais, como Um Amor à Altura, mas que também possibilita filmes diferentes, que questionam a sociedade. Por exemplo, passando desse principio de que a mulher pode ter uma representatividade no cinema apenas se ela for jovem, se ela for sexy, na França, as mulheres não estão encerradas dentro desse sistema.  Há outras possibilidades, sabe?  Mesmo os filmes que não possuem esse apelo, que não possuem uma divulgação grandiosa ou que possivelmente não vão ter um retorno exorbitante nas bilheterias, esses trabalhos também são financiados. Ainda existe, claro, diferenças em termos de salário, mas não como nos Estados Unidos.

A atriz em cena de Victoria, filme exibido em Cannes ano passado
O que atraiu ao ler o roteiro para aceitar o papel.

(pensativa) O fato de que a personagem feminina não fosse exclusivamente uma acompanhante do protagonista, que ela também tivesse um destaque na trama. Ela tinha realmente algo para interpretar. E, claro, a vontade de trabalhar com Dujardin. E o Laurent é um dos poucos diretores franceses que são mais cuidadosos com a imagem, com a elaboração dos seus filmes.

Você citou esse processo de produção na França, onde, assim como no Brasil, tem nas comédias populares um grande filão para atrair o publico. As pessoas parecem só ir ao cinema para ver comédias populares. Na França, é um pouco assim, uma vez que os números confirmam um pouco disso. O que você acha dessa predominância?

O cinema, claro, é também uma experiência. O fato de irmos ao cinema, de estarmos em uma sala escura, de compartilhar com os outros, sendo algo que reúne as pessoas. E eu penso que a comédia é um gênero importante, mas que é preciso que exista certa exigência intelectual, filosófica e estética na comédia. O filme Victoria (outro trabalho da atriz lançado em 2016) , que foi apresentado em Cannes, eu acho que corresponde um pouco a esse parâmetro. É uma obra com orçamento menor, o que mais dá liberdade. É uma comedia que faz pensar um pouco em Blake Edwards. Há grandes comedias nesse sentido, como as de Billy Wilder, por exemplo.

Você sente que há um preconceito entre os realizadores para com comedias populares?

São coisas diferentes no cinema e na criação dos filmes. Há aqueles que fazem os filmes pelo dinheiro, e outros que dizem: “vou fazer alguma coisa minha e veremos onde isso vai me levar”. Seja uma comedia ou drama, é o fato de se acreditar naquilo que faz.

Você citou sua escolha em trabalhar com Paul Verhoeven e a oportunidade de atuar ao lado de Jean Dujardin. Como foi se deu sua entrada no cinema? Como você planejou sua trajetória como atriz?

(risos) Eu sou muito lenta. Sou belga, fiz o conservatório na Bélgica e eu tinha um problema de autoconfiança. Não me achava boa o suficiente e por isso eu não tinha trabalho. Foi quando comecei a trabalhar na televisão (Virginie Efira trabalhou como host em um programa de auditório belga). Trabalhei com isso um tempo,  mas eu não queria ser uma atriz frustrada que trabalha como apresentadora de televisão, afinal eu tinha que gostar do que estava fazendo. Depois, eu envelheci um pouco (risos) e comecei a compreender que a vida passava muito rápido e eu tinha que tentar aquilo que eu gostava de fazer. Acabaram me propondo comédias populares e eu tive sorte que funcionou nas bilheterias. Com isso, passei a ter mais escolhas. Tendo escolhas, passei a ter mais responsabilidades. Mas não faz tanto tempo assim que eu estou fazendo filmes dos quais eu gosto mesmo.

Próximos projetos?

Há o lançamento de Victoria que acontece em setembro. Depois eu fiz um filme pequeno de uma diretora (Emmanuelle Cuau) que fez três filmes no últimos 20 anos. É um drama. Conta a história de um filho que acaba virando deliquente. Chama-se Pris de Court, de Emanuel Cuau. E, agora, eu não sei (risos). Estou sem planos, o que não é desagradável. Eu fiz oito filmes em dois anos, então, férias bem vindas.

Um Amor à Altura

(Um homme à la hauteur, França, 2016) Direção: Laurent Tirard. Com Jean Dujardin, Virginie Efira, Cédric Kahn.


Por João Paulo Barreto

Curioso caso de história refilmada três vezes (?!) em um período de três anos, sendo a primeira e a segunda sob o nome de Coração de Leão, ambas produções lançadas na Argentina e Colômbia entre 2013 e 2015. A mais recente versão, dessa vez produzida na França, Um amor à altura tem em seu diferencial a presença carismática de Jean Dujardin, que vive Alexandre, um arquiteto bem sucedido no âmbito profissional, mas que encontra problemas na vida amorosa pelo fato de medir menos de um metro e meio de altura.

Ao encontrar o celular esquecido de Diane (Virginie Efira), resolve ligar para a bela mulher na tentativa de se aproximar, uma vez que já a havia avistado no restaurante onde ela deixou o aparelho após discutir com seu acompanhante. O filme começa já denotando justamente essa presença de Dujardin. Em sua conversa por telefone, uma dinâmica na voz, além de um bom humor palpável, cativa não somente Diane, mas, também, o espectador. Trata-se do tipo de personagem cujo carisma torna sua participação deveras impactante, fazendo de um roteiro frouxo, algo divertido de se presenciar.

Boa química:parte do mérito da comédia estão nestes diálogos
Na química entre o casal de protagonistas reside, entretanto, outro aspecto funcional do longa. Nisso e nas gags visuais proporcionadas pelo efeito de diminuição de Dujardin, que mede quase 1,90m, mas que aparenta uma criança em sua estatura. Nesse ponto de comédia, a obra traz bons momentos, como nas piadas com o cachorro do filho de Alexandre, um animal cujo tamanho chega a ser maior que o do arquiteto.

Em relação à presença de Efira e Dujardin em cena, o roteiro adaptado pelo próprio diretor Laurent Tirard consegue aproveitar bem os diálogos e as situações centradas no inicial desconforto de Diane, seguido de um (previsível) gradual encantamento e superação de qualquer impeditivo para aquela relação amorosa.

Momento de entrega entre Alexandre e Diane: bons efeitos visuais
No entanto, há determinados momentos em que a tentativa de se criar risos na platéia acaba por extrapolar qualquer conceito de bom senso ou conveniências forçadas na ideia de se gerar situações que explorem a altura de Alexandre.. Para tanto, cito o momento em que a mãe de Diane fica sabendo do namoro da filha e sua reação é a de, literalmente, atropelar ciclistas em uma ciclofaixa após invadir o trânsito na contramão. Ou quando uma pilha de guardanapos é colocada no alto de uma estante sem nenhuma explicação apenas para se explorar a dificuldade do protagonista em alcançá-los.

Com um final absurdamente forçado no modo escolhido para um desfecho romântico, na mente do espectador ficam apenas os risos gerados pelos diálogos rápidos entre Jean Dujardin e Virginie Efira.

Inofensivo.

CLIQUE AQUI PARA LER A ENTREVISTA QUE O BLOG FEZ COM VIRGINIE EFIRA

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Jason Bourne

(EUA, 2016) Direção Paul Greegrass. Com Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Vicent Cassel, Julia Stiles.


Por João Paulo Barreto

Após a sequência filmada na estação de trem Waterloo, em Londres, a qual rendeu o Oscar de melhor montagem para Christopher Rouse por seu trabalho em O Ultimato Bourne, imaginar que a parceria do montador com o cineasta Paul Greengrass poderia superar tamanho esplendor técnico era algo desafiador. Em Jason Bourne,novo capitulo da saga do herói em busca do seu passado,  essa possibilidade foi alcançada.

Ao preferir batizar o longa apenas com o nome do seu protagonista, os realizadores dão o tom desta última parte, colocando-o como uma força motriz em busca de retaliação contra as pessoas que lhe retiraram tudo. Sem Identidade, sem supremacia e seu nenhum ultimato. Nesse mais recente episódio (o que não deve ser encarado como último), o personagem de Jason Bourne age de modo instintivo, buscando apenas causar dor e morte àqueles que o construíram do modo como ele é.

Rosto sem passado: Jason Bourne confronta a si mesmo
Aqui, temos o homem novamente às voltas com suas memórias perdidas e em busca de respostas para seu passado como o agente assassino a serviço do governo estadunidense. Ao nos colocar diante de peças familiares de Bourne (ou David Webb), o filme acerta por mostrar ao espectador uma face mais intima daquele personagem. Então, quando seu pai é trazido à tona como um dos pontos catalisadores para explicar o que ele é hoje, o roteiro escrito pelo próprio montador em parceria com Greengrass acerta ao denotar o quão frágil emocionalmente se tornará o personagem, uma vez que até mesmo sua base familiar lhe foi retirada, deixando-o apenas com a sua vida de agente militar como algo a que se apegar.  

E tudo lhe é retirado, mesmo. Aliás, é válido observar a quadrilogia Bourne justamente como um estudo do modo como as perdas físicas e psicológicas deste personagem o afetam. O vemos perder sua amada Marie na segunda parte, algo que contribuiu não somente para sua ira calculada, mas para torná-lo ainda mais pragmático em seus atos. Aqui, outra perda lhe é desferida de modo doloroso, e quando a descoberta de que até mesmo sua família pode fazer parte do espiral autodestrutivo que sua vida representa, não lhe resta muito pelo que lutar, a não ser puramente por vingança. Calculada e pragmática, mas, ao final, apenas a pura e simples vingança. E é ainda mais interessante perceber como a tal fragilidade emocional não o afeta em seu pragmatismo.

Bourne e Nicky Parsons: reencontro trágico
Como antagonista direto, Vincent Cassel interpreta o agente de mesmo nível de Bourne. Com a única diferença de que, ao contrário dos rivais anteriores, uma questão pessoal o motiva a querer matá-lo. Nessa busca, o primeiro local onde os dois se encontram é na Atenas atormentada por conflitos civis. E é neste ponto que retorno ao começo dessa crítica ao abordar como a excelência da montagem de Rouse e o domínio técnico da direção de Greengrass se fazem perceptíveis. Com a diferença de usar um espaço aberto e isso poder lhe propiciar (ou não) mais liberdade na construção do ritmo do longa, montador e diretor criam uma narrativa rápida e eficiente, sem confundir o espectador, guiando-o através de uma linha temporal que culmina em um final emocionalmente impactante. Uma notável superação da citada cena de Waterloo vista no terceiro exemplar da franquia.

Além disso, é curioso observar como em Jason Bourne Greengrass se permitiu ousar mais (leia-se: chutar o balde, mesmo). O ponto de maior percepção neste sentido está em seu desfecho nas ruas de Las Vegas, quando uma fuga e perseguição pelas ruas repletas de veículos servem de cenário para uma catártica destruição. E o filme se mostra atualizado com o contexto paranóico do mundo moderno, ao citar os vazamentos orquestrados por Edward Snowden em comparação com certas descobertas que um hacker faz das novas operações orquestradas pela CIA, como a Treadstone e a Blackbriar, vistas nos longas anteriores.

Cassel: o matador sem nome que se equipara a Bourne
Na presença de Alicia Vikander no papel de uma suposta aliada de Bourne dentro da CIA, um tom de arrogância e mais pragmatismo é inserido pela personagem. Além dela, o burocrata a liderar todo o plot da vez encontra na face de Tommy Lee Jones a presença ideal de desconfiança. Após Chris Cooper, Brian Cox e David Strathairn vestirem personagens semelhantes, é interessante notar como o rosto marcado de Jones se adequa bem ao papel de conspirador.

Ao final, com um gancho ambíguo para uma possível reviravolta em uma futura quinta parte (sim, desconsidere O Legado Bourne), espera-se apenas que a repetição constante destes elementos não torne Jason Bourne um personagem tão previsível quanto James Bond.

Mas, se observamos o que foi apresentado aqui e nos outros dois filmes dirigidos por Greengrass, as chances disso acontecer são nulas.

Vikander e Jones: a face da CIA corrupta dentro do universo Bourne



A Incrível Jornada de Jacqueline

(La Vache, França, 2016) Direção: Mohamed Hamidi. Com Fatsah Bouyahmed, Lambert Wilson, Jamel Debbouze.


Por João Paulo Barreto

É curiosa a atração que o cinema tem pelos underdogs. Diversos filmes já abordaram uma história que traz alguém cujas chances de conseguir êxito em uma missão auto-imposta são mínimas, mas que, nesse intento, acaba por cativar personagens descrentes e, claro, o espectador. Vide Forrest Gump ou, mais recentemente, Eddie theEagle. Curiosamente, é uma fórmula que raramente erra no sentido de causar empatia entre o público e o protagonista.

O mais novo exemplar desse tipo de filmografia é o francês A Vaca (tradução literal do La Vache, que no Brasil ganha um título fácil para o público: A Incrível Jornada de Jacqueline.) Aqui, Fahad, um agricultor da Argélia, tem no amor e cuidado com a sua vaca (a Jacqueline do título) sua motivação para o trabalho com o animal leiteiro. Após anos de tentativas de inscrições frustradas, Fahad recebe um convite dos organizadores da feira agropecuária de Paris para exibir seu bicho de estimação no evento. O único detalhe é que a feira não banca os custos da viagem, e Fahad decide ir a pé da Argélia à Paris.

Fahad e Jacqueline: ongo trajeto da Argélia à Paris
No trajeto, o homem passa por diversos percalços. E é justamente no apelo cômico das situações nonsenses em que ele se envolve que se resume os pontos positivos desta obra sem grandes ambições. Além disso, o filme traz curiosas observações acerca dos costumes argelinos em relação a aspectos banais, como o tratamento carinhoso de um marido para com sua mulher (o momento em que Fahad decide escrever uma carta de desculpas à sua esposa define bem) ou a relação que possuem tais pessoas com a atual situação da França no que se refere ao terrorismo (a frase “Je suis Charlie” é ouvida em alguns dos momentos cômicos do longa.)

Focando não somente na situação delicada dos imigrantes em relação à permanência na França, os quais o filme parece colocar em situações semelhantes vendendo artigos telefônicos para ligar para seus países no oriente ou trabalhando com quinquilharias da China, o longa também aborda o problema econômico que também afeta os próprios franceses. Vivendo atrás de um título de conde, o personagem de Lambert Wilson é um exemplo. Sendo um dos que ajudam Fahad em seu intento, o nobre sem dinheiro claramente tem em sua origem familiar apenas um disfarce para a verdadeira situação de quebra financeira que vive, mas que evita deixar transparecer.

Fahad ao lado do Conde falido Philippe e de seu cunhado, Hassan
Trata-se de uma obra que tem no carisma e inocência de seu protagonista seu grande trunfo. Um meio eficiente de conquistar o público por conta de seu modo sincero de agir, tornando seu plano, apesar de descabido para muitos, sua verdadeira razão para se manter fiel a ele. Descoberto por uma repórter, se torna um fenômeno de mídia, virando notícia em toda a França, em mais um eficiente estudo que o filme se propõe a fazer no sentido de analisar o modo como a sociedade parece necessitar de ídolos e de pessoas que a inspirem.

Mesmo não sendo totalmente integro em seus atos (o suborno pago a um funcionário público mostra bem isso), Fahad se transforma justamente em um ídolo. Do mesmo modo inspirador como Forrest Gump parecia atrair a todos em sua corrida sem motivo pelos Estados Unidos, Fahad parece fazer o mesmo. A diferença está apenas em seu intento final, que, ao subir dos créditos, percebe-se ser bem mais do que apenas uma feira agropecuária.

Um filme inofensivo, mas bastante enriquecedor. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A Lenda de Tarzan

(The Legend of Tarzan, EUA, 2016) Direção: David Yates. Com Alexander Skarsgard, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Margot Robbie, Djimoun Hounson.


Por João Paulo Barreto

É inegável que tenha havido certo preconceito com a proposta de se atualizar o herói Tarzan para o século XXI. Até mesmo este escriba aqui ficou com um pé atrás quando soube que a produção havia recebido o sinal verde e que seria ambientada não como uma introdução, mas como um retorno do personagem às suas origens africanas. No entanto, o que parecia uma ideia um tanto descabida, começou a fazer sentido no momento em que as primeiras imagens de Alexander Skarsgard no papel do herói surgiram e, claro, quando o primeiro trailer foi divulgado. E todo preconceito acabou caindo por terra na sessão onde a nova aventura não só convenceu, como até empolgou.

A ambientação escolhida pelo diretor dos quatro últimos filmes do Harry Potter, David Yates, demonstrou-se acertada ao centrar o primeiro ato da trama na Londres do começo do século XX, denotando, assim, uma eficiente recriação de época ao exibir a capital inglesa na sua transição entre rural e urbana. No período em questão, o império belga começa a levantar suspeitas de escravidão no Congo africano e um emissário dos Estados Unidos (Samuel L. Jackson) decide persuadir o já aclimatado e urbano John Clayton, vulgo Tarzan, a retornar à selva no intuito de ajudá-lo na investigação sob a autoridade de emissário do Parlamento Britânico.

Jane e John Clayton, vulgo Tarzan: o lar os chama de volta
No papel de vilão está o já acostumado à função (e precisando se reinventar) Christoph Waltz, que interpreta Leon Rom, militar belga que caça diamantes e faz um acordo com Mbonga, o chefe de uma tribo local (Djimon Hounson) no sentido de lhe entregar as pedras em troca de Tarzan, com quem o líder possui uma dívida de sangue a coletar. A trama, apesar de girar em torno do resgate de Jane (Margot Robbie), que acaba por acompanhar Clayton em seu retorno ao continente africano, tem no reencontro de Tarzan com suas origens e no modo como isso é apresentado ao espectador através de eficientes flashbacks, bem como em atuais momentos emocionais e tensos, seus pontos altos.

A começar pela cena em que Clayton reencontra uma família de tigres com quem cresceu. O que pareceria um momento que beiraria ao ridículo, acaba sendo exibido com uma ternura que mostra, já em seu primeiro contato com a África onde cresceu, a importância do local para ele. No decorrer dos acontecimentos, o filme opta por inserções ocasionais (e bem localizadas) da origem de Tarzan, que teve seus pais mortos por gorilas e acabou sendo adotado ainda bebê por uma das fêmeas do bando. Nesse retorno, o filme acerta ao exibir o conflito entre o homem e seu irmão gorila, em uma tensa cena de luta, na qual os ferimentos de Tarzan recebem uma curiosa forma de se aplicar pontos usando formigas.

Sam L. Jackson funcionando bem como escape às vezes cômico do filme
Visualmente eficiente, com sequências de voo entre os cipós realmente impressionantes (e que lembram a animação Tarzan que a Disney lançou em 1999), o longa, apesar de inegavelmente parecer artificial em uma das passagens envolvendo uma debandada de animais, tem um saldo final positivo no que se refere aos seus efeitos especiais. Além disso, Skarsgard se firma como uma ótima opção para encarnar heróis de filmes de ação, acertando, aqui, ao manter seu personagem dentro de uma atuação contida, de poucas palavras, o que condiz com a sua origem.

Apesar de se manter como uma história realizada a partir da visão do colonizador europeu e sua ingerência na vida das tribos que deseja dominar, sendo necessário um herói branco para que a vida daquelas pessoas não corra riscos (vide o momento em que Tarzan liberta escravos de um vagão de um trem), A Lenda de Tarzan acaba por entregar o que promete. Uma aventura que não ofende a inteligência do espectador, um protagonista convincente em suas ações e motivações, um acompanhante que apresenta seus momentos cômicos em ótimas sacadas de escape do filme, além de um final catártico no qual espectador é bem recompensado.

O que há para se odiar tanto em um longa assim?
  

O também herói Chefe Mbonga (Houson): motivação justa para vingança

Life - Um Retrato de James Dean

(Life, USA, UK, 2015) Direção: Anton Corbijn. Com Robert Pattinson, Dane DeHann, Peter Lucas, Joel Edgerton, Ben Kingsley.



Por João Paulo Barreto

O mais significativo acerto de Life – Um Retrato de James Dean está na escolha do diretor Anton Corbijn e do roteirista Luke Davies em apresentar a lenda do jovem ator morto aos 24 anos de um modo que, apesar de descortinar suas falhas e inseguranças, mantém a sua personalidade intrigante para, aos poucos, inserir o espectador na vida pessoal e repleta de fragilidades emocionais de um mito.

Trata-se de uma construção lenta do personagem, que vai tendo suas camadas desvendadas ao espectador pouco a pouco para, em uma declamação poética final, ser desnudado por completo.

Aqui, conhecemos Dean no período logo após o lançamento do clássico de Elian Kazan, Vidas Amargas, de 1954, meses antes do inicio das gravações de Juventude Transviada, o filme que o transformaria em um ídolo mundial. Na esteira do sucesso da obra de Kazan, Dean começa a ser visado pela Warner Bros. (Ben Kingsley roubando a cena no papel do chefão Jack Warner) e é quando o fotógrafo Dennis Stock (Robert Pattinson) se aproxima do astro ao perceber estar diante de ícone que ainda não estourou para a fama.

Stock (Pattinson) e Dean (DeHaan) na recriação da icônica imagem 
O filme trabalha de modo bem natural a amizade dos dois homens. As dúvidas de James Dean em relação ao seu próprio talento e os problemas pessoais de Stock, ele mesmo com pouco mais de vinte anos, divorciado e distante do seu filho pequeno, se contrapõem no drama dos dois protagonistas. No entanto, é ao adentrar nas neuroses e ansiedades de Dean que o filme começa a engrenar.

Convencido após longa insistência por parte do fotografo, o ator cede e se permite fotografar em sua rotina em Nova York, local de origem de sua carreira no teatro e que decide revisitar. As lentes de Stock capturam Dean em suas atividades comuns, como a ida ao cabeleireiro, uma visita ao Actor Studios, local onde tomou aulas de atuação com o criador do lendário Método, Lee Strasberg, e um flagra de bebedeira ao ser capturado dormindo bêbado à mesa de um bar em uma noite de dança que incluiu passos com a eterna Mulher Gato do seriado sessentista do Batman, Eartha Kitt, em uma bela cena tributo.

Capturando o astro em sua intimidade
Famosas pela sua iconicidade, as fotos mais representativas de James Dean são as capturadas por Stock em Times Square e na fazenda onde cresceu o rapaz, em Indiana, local que revisita na companhia do fotógrafo, nos momentos de maior beleza do filme, por apresentar o jovem mais à vontade por estar com sua família. Nesta aproximação da vida privada do ator, o roteiro de Davies denota seu ponto alto. Ao trazer à tona a dolorosa lembrança de ter perdido a mãe aos nove anos (fato que nos é apresentado em um belo dialogo em um vagão de trem), o filme nos permite adentrar nas camadas daquela personalidade, desnudando a imagem de mito que o garoto começava a construir e que, tragicamente, alcançaria níveis absurdos nos meses seguintes.

Falhando ao preferir se manter isento de polêmicas ao não abordar o lado gay do ator no suposto caso que teve com Marlon Brando e preferindo focar apenas no romance com a atriz italiana Pier Angeli, o longa até consegue superar essa falha por conta do modo profundo como trouxe à tona o lado traumático e afetado pela perda sofrida na morte da mãe em sua infância.

DeHaan e sua atuação minimalista
Nessa construção do personagem, Dane DeHaan cria sua versão de James Dean beirando a perfeição. Com seus olhos cansados, às vezes tomados por gritantes olheiras, voz pausada e postura um tanto curvada, o ator transmite a tal insegurança do rapaz que parecia desconfiar do quão grande ele viria a se tornar e temia tamanho fardo a ser carregado, mesmo tendo desejado aquilo desde o seu primeiro momento em Nova York após ter deixado Indiana.

Em sua última cena, ao recitar o poema We must go home, do poeta James Whitcomb Riley, nascido na mesma Indiana do astro, ele observa as montanhas da janela de um avião a caminho de Los Angeles. Não percebendo ter sido a ida a Indiana junto a Stock sua última visita ao lar, James Dean nota mãe e filho nas poltronas ao lado da sua e os observa com ternura.

Demoraria, no entanto, poucos meses para ele, realmente, voltar para casa de forma triste e definitiva.  

Dois Caras Legais

(The Nice Guys, EUA, 2016) Direção: Shane Black. Com Russell Crowe, Ryan Gosling, Angourie Rice, Kim Basinger.


Por João Paulo Barreto

Shane Black tinha uma fama de roteirista de qualidade que o precedia quando estreou na direção de seu primeiro longa metragem em 2005. Na ocasião, Beijos e Tiros foi recebido de forma calorosa por seus diálogos rápidos, direção dinâmica, excelente química entre os protagonistas (Val Kilmer e Robert Downey Jr. estavam perfeitos em seus papeis) e uma trilha sonora inspirada. Black conseguira acertar novamente na criação de personagens marcantes, algo que havia feito de modo inspirado quando deu vida à dupla de policiais Martin Riggs e Roger Murtaugh vivida por Mel Gibson e Danny Glover no já clássico Máquina Mortífera.

Com uma recepção fria do seu regular Homem de Ferro 3, foi com curiosidade que acompanhei a sessão de Dois Caras Legais, seu novo filme. E, de fato, Black não decepcionou. Voltando à fórmula que o consagrou, ao unir dois protagonistas dispares e que têm justamente nessa química de opostos o que realmente os torna interessantes para o público, o diretor e roteirista encontra em Russell Crowe e Ryan Gosling a dupla ideal para gerar boas piadas em momentos inspirados.

March pego um tanto desprevenido por Healy
Ambientado em 1977, período no qual as luzes de neon e a música disco dominavam qualquer ambiente pop (algo muito bem utilizado pelo filme, friso), Shane apresenta os dois protagonistas nos papéis de detetives particulares que se unem para solucionar um caso de desaparecimento de uma jovem atriz pornô que parece estar envolvida em um complô relacionado à mafiosa indústria automobilística de Detroit, pólo americano na construção de carros.

Seguindo as pistas do seu desaparecimento, o roteiro escrito por Black em parceria com Anthony Bagarozzi, usa as investigações como pura desculpa para destrinchar suas falas espertas em velozes diálogos, o que funciona muito bem quando temos um personagem durão e violento como o Jackson Healy, de Crowe, fazendo dupla oposta com o abobalhado Holland March, de Gosling. Nessa boa química, as conversas entre os dois entregam os melhores momentos, como quando Healy conhece March e decide conseguir informações de modo não muito pacifico, ou quando este é pego desprevenido no banheiro, o diretor opta por uma rápida, porém eficiente, gag visual envolvendo a porta do toalete e um cigarro.


"Hey, vocês querem ver meu pau?" "Não, garoto, não queremos ver seu pau."
Com uma excelente recriação de época ao inserir os anos 1970 em suas referências musicais e visuais, além, claro, na abordagem da indústria pornô do período, o que lembra um pouco o que vimos em Boogie Nights, de Paul Thomas Anderson, Dois Caras Legais acerta principalmente por seu perfil descompromissado, sem que isso queira dizer que se trata de um filme de roteiro preguiçoso. Sua história, inclusive, chega a ficar um tanto confusa em certo momento por conta da inserção de reviravoltas e personagens em excesso, mas nada que prejudique o resultado.

No final, a impressão é a de que os realizadores se divertiram no processo de criação tanto quanto o público se diverte conferindo aquela trama. Com a junção perfeita de Crowe e Gosling nos perfis bad cop, good cop (a cena em que eles interrogam um barman é hilária), e os diálogos exatos de Black (“Dad, there are whores here, n’stuff”, “Don´t say n’stuff. Just say, Dad, there are whores here”, March corrigindo a filha), percebe-se o acerto na escolha dos dois.

Boas risadas no melhor estilo Shane Black são sempre bem vindas.