Índios no Poder (Distrito Federal, 2015, 21min) Direção: Rodrigo
Arajeju.
Representando o perfil de engajamento e relação com o presente
momento de exclusão democrática e política
pelo qual passa o país, é pertinente que um curta como Índios no Poder seja exibido na quarta mostra competitiva do
Cachoeira Doc 2015.
Abordando o fato de que o perfil dominante do plenário da
câmara em Brasília é composto por pessoas brancas, pardos e negros, sem a
presença de nenhum indígena a representar os interesses dos povos nativos do
Brasil, o documentário traz posicionamentos contundentes acerca da perseguição
executada por ruralistas e outros membros que compartilham dos interesses
agrários dessa bancada, dentre eles a aprovação da PEC 215.
Polêmica pelo fato de que concede ao congresso o direito de
votar sobre os interesses relacionados com a demarcação de terras indígenas, a
Proposta de Emenda Constitucional prevê retirar do poder executivo as decisões
exclusivas desse mérito, permitindo aos deputados influenciar nas decisões,
algo que beneficia os ruralistas em sua totalidade.
O filme tem alguns momentos marcantes, como o que vemos um
candidato indígena distribuir de mão em mão seus santinhos e conversa com
possíveis eleitores em frente a cartazes de candidatos a presidente, em uma
clara alusão ao domínio da máquina eleitoral que beneficia os endinheirados e
torna a necessidade de uma reforma política ainda mais urgente. A cena remete a
outra marcante, quando em A Cidade é uma
Só?, de Adirley Queiroz, vemos o protagonista Dildo caminhar em frente a
carreata da então candidata Dilma carregando seus poucos santinhos impressos.
Com imagens de arquivo do
falecido deputado Juruna, o primeiro índio a ocupar uma cadeira na câmara, a obra consegue criar um discurso bem pertinente acerca da
necessidade de igualar as vozes. Principalmente no atual contexto, no qual a
liderança Kaiowa Guarani é executada e a
sanguinolenta e conveniente (para o agronegócio) PEC 215 segue em frente.
Índios e a representação da exclusão no cenário político nacional |
Vozerio (Rio de Janeiro, 2015, 98min). Direção: Wladimir Seixas.
Filme de imagens impactantes e discurso poderoso, Vozerio aborda as manifestações
ocorridas no período que antecedeu a copa do mundo no Brasil, ocasião em que
diversas ocupações em defesa de minorias, que acabaram por ser enxotadas dos
seus locais de moradia em nome do progresso e das melhorias relacionadas ao tal
“legado” da copa e das olimpíadas.
Com depoimentos de vários membros dos movimentos de
protestos, como o cartunista Carlos Latuff, cujo traço é o que melhor
representa toda a realidade da opressão vista no Brasil e que teve seus desenhos
censurados em algumas ocasiões, além do cineasta Silvio Tendler, que tem uma
das melhores participações do filme ao ser indagado acerca de um processo
policial que sofreu por convocar, via internet, manifestantes para comparecer
em frente a um prédio onde simpatizantes da ditadura se reuniam.
Captação in loco e montagem eficiente dão ao filme uma narrativa frenética |
Vozerio é um filme
que tem em seu impacto imagético e em sua eficiente montagem seus maiores
trunfos. Uma obra cujo discurso de luta
contra a opressão é feito de forma tanto brutal, direta e seca, com suas
imagens que causam estampidos, quanto de modo reflexivo, mas não menos
desconfortável, a partir dos registros das performances de artistas na
representação do modo como a dominação de um poder político excludente visava calá-los.
E isso é visto de modo deveras visceral, como quando são
apresentadas performances de rua que envolvem corpos nus na sarjeta suja, sufocamento
em sacos plásticos ou quando lábios são lacrados com costura para representar a
intimidação do Estado através do silêncio forçado.
Ouvindo diversas fontes a representar uma atuante massa
contestadora do atual sistema político, Vozerio
tem uma linha narrativa que caminha em direção à catarse de seu inflamável
final. Com breves pausas na intensidade de suas cenas, o filme mantém-se, no
entanto, em um ritmo enérgico constante, o que causa no espectador um
desconforto bem-vindo, algo que o força a encarar aqueles fatos de modo
reflexivo. E esse modo forçado é por demais bem-vindo, friso.
Apesar de tropeçar em certos momentos por conta do grande
leque de fatos que deseja abordar (como quando deixa de lado os conflitos aqui
para uma contextualização comparativa às guerras no oriente médio), o filme não
perde seu ritmo, apostando de modo eficiente em seu maior trunfo, que são as
imagens in loco. Sendo isso algo que
funciona como um registro crucial do que acontecia no caos planejado das ruas
e, tão importante quanto, o que acontecia ao redor delas, nas discussões intelectuais
acerca dos fatos, nos planejamentos prévios na internet, a grande força
diferenciadora contra uma televisão que só manipula.
Um filme de intensidade palpável.
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