(Inseparables, Argentina,
2016) Direção: Marcos Carnevale. Com Oscar Martínez, Rodrigo de La Serna,
Alejandra Flechner.
Por João Paulo Barreto
Difícil falar sobre Inseparáveis,
novo filme argentino estrelado por Oscar Martinez e Rodrigo de La Serna sem
suscitar o original francês no qual foi baseado o longa oriundo do país hermano.
Intocáveis, tocante trabalho lançado
em 2011, conseguiu unir, em uma história aparentemente simples, elementos de
drama e comédia em um equilíbrio notável, sem que a premissa descambasse para o
riso rasgado e vazio baseado em momentos descartáveis de comédia rasa, ou para
o melodrama barato e manipulador, através do uso frágil de uma trilha sonora
inserida com claro impacto artificial.
Além de todos estes elementos de acerto, trata-se de uma
obra que conseguiu uma química singular entre seus protagonistas e que deve boa
parte de seu funcionamento ao carisma de Omar Sy. No sorriso rasgado do ator,
seu personagem, Driss, escondia diversas nuances e camadas, tanto de alegria
quanto de sofrimento, algo que o colocava em uma mescla constante de afeto e
curiosidade por parte do espectador, que enxergava no jovem excluído socialmente
uma pessoa de bom coração, mas que erros passados acabaram por colocá-lo
naquela espiral descendente. E é na amizade com Phillippe, personagem
construído cuidadosamente por François Cluzet, que o rapaz percebe uma segunda
chance de manter seu bom caráter em evidência, mesmo que o mesmo tenha sido
testado de modo negativo anteriormente.
Tito (Rodrigo de La Serna) em seu momento de dança
Então, cinco anos depois, surge a cópia carbono argentina batizada
de Inseparáveis. Reduzindo para um
modo simplista a forma como os dois protagonistas se encontram, aqui, o emprego
oferecido ao Tito (vivido por um esforçado Rodrigo De la Serna) de forma um
tanto ao acaso, já tira boa parte da boa construção do personagem de Driss no
original francês, quando o mesmo estava no local das entrevistas em busca
apenas de uma assinatura no documento que o permitiria renovar seu seguro
desemprego. E esse momento de fúria que desenha a cena já denota bem o modo
como a história do original será reduzida a um meio um tanto preguiçoso, mais
calcado em uma atuação histriônica de Serna do que através de um cuidado no equilíbrio
dramático e cômico visto em Sy.
Já Oscar Martínez não pode fazer muito pelo seu Felipe, o
milionário tetraplégico, a não ser emular a atuação de Cluzet, sendo que, aqui,
ele ainda é prejudicado por uma maquiagem ineficiente que não se justifica (a
barba falsa no final gera estranheza) e pela ausência da mesma química
observada entre os atores franceses.
Martinez e de La Serna - Esforço no emular da mesma química do original
Na já citada utilização da trilha sonora de modo forçado e
buscando manipular a emoção do espectador, o filme acaba reduzindo seu impacto,
percebendo-se ineficaz naquilo que o seu original foi tão eficiente: a criação
de uma empatia instantânea entre seus personagens e o público. Apesar de pouca
coisa ou quase nada funcionar neste remake, é preciso reconhecer que a opção de
simplificar as causas do acidente de Felipe para a equitação ao invés do
parapente conseguiu gerar um impacto emocional mais eficiente que o do
original.
Vamos esperar agora pela versão estadunidense com Bryan
Cranston e Kevin Hart em mais uma refilmagem que parece provar a total ausência
de novas ideias no cinema.
(Des Nouvelles de la planète Mars, França, 2016) Direção:Dominik Moll. Com François Damiens, Vincent Macaigne, Veerie Baetens.
Por João Paulo Barreto
É do sufocamento oriundo da vida contemporânea que trata o mais recente longa de Dominik Moll. Mas não somente aquele advindo da comum sensação de insegurança por conta da falta de dinheiro, possibilidades sérias de desemprego, dificuldades de se conectar com a mente dos filhos adolescentes ou de questões pessoais relacionadas a um casamento falido. Aqui, os problemas são estes e um pouco mais. São os que surgem da cobrança feita a si mesmo por sucesso e realizações profissionais. São aqueles que torturam o homem quando ele percebe-se envelhecer e não cumprir com as imposições feitas a si mesmo e pela sociedade.
No caso de Phillippe Mars (Damiens), chegar aos 49 anos lhe traz uma diversidade de reflexões. Em seus momentos de fuga mental e sonhos, percebe-se no espaço, vestido de astronauta, leve a flutuar na gravidade zero, algo que denota bem sua vontade de escapar do peso de sua existência. Em sua consciência e pedidos de salvação, estão seus pais já falecidos, que parecem surgir em sua mente nos momentos em que mais precisa de conselhos ou de ajuda física, mesmo. Um exemplo claro da construção de um personagem cujas amarras dependentes dos pais refletem muito de uma geração cuja ligação com seus progenitores se estende durante mais tempo do que em outras épocas.
Mars prestes a ter sua cordialidade testada ao seu limite
É a história de um homem que aos poucos vai perdendo sua natureza conciliadora,
sua postura voltada para o diálogo e para uma resolução pragmática de seus
conflitos consigo e com os que os cercam. A meta do diretor e roteirista Moll,
aqui, parece ser a de testar seu protagonista dentro de um esquema que busca
encontrar seu ponto de ruptura. Aquele em que ele finalmente cede, mesmo que de
forma justa e racional, e, também, quando se perde em um comportamento que
flerta com a mesquinhez e com o perverso. De modo curioso, no entanto, ele
ainda consegue demonstrar alguma tendência comportamental louvável, mesmo que estúpida
em seu resultado quase fatal.
Essa não adaptação de Phillippe aos problemas oriundos de sua própria
rotina chega a nos remeter a obras como Um Dia de Fúria, mas a
diferença, aqui, é que qualquer simpatia que viemos a sentir pelo protagonista na
sua conturbada trajetória fica para trás quando o mesmo se deixa levar em uma atitude
sádica. Conhecemos seu verdadeiro eu ali, e mesmo que ainda seja possível vê-lo
agir de modo conciliatório e apaziguador, qualquer vestígio de carisma e
sentimento por sua causa se perdem. Suas fugas mentais daquele dia a dia que
parece querer sufocá-lo passam a ser vistas apenas como covardia, e até mesmo
sua inércia diante do modo como todos parecem querer se aproveitar de sua boa
vontade deixa de ser algo que revolte o espectador a seu favor, parecendo,
agora, apenas a inércia de um mesquinho.
Ao observar sua trajetória durante todo aquele período e desfecho,
porém, o que se nota é apenas uma descrição de um ser humano em suas
limitações, idiossincrasias e imbecilidade. Talvez essa seja uma das poucas
formas satisfatórias de se observar a obra de Moll.
(Get Out!, EUA, 2017) Direção: Jordan
Peele. Com Daniel Kaluuya, Alison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener,
LilRel Howery.
Por João Paulo Barreto
É surpreendente observar como scripts inventivos ainda podem
surgir em uma indústria tão combalida e carente de boas ideias. Sair de uma
sessão como a de Corra!, filme de
estreia do diretor e roteirista Jordan Peele, dá ao cinéfilo uma sensação de
alívio e felicidade por poder se perceber diante de um trabalho realmente
original e recompensador para seu público.
Em Corra!, tal
originalidade, entretanto, não se apresenta ao espectador somente no aspecto diversão
e risadas (que o filme tem de sobra, friso), mas, também, no aspecto reflexão.
É uma prova de que é possível unir os dois tipos de serviços, sem a necessidade
de abrir mão da inteligência e sagacidade de sua proposta no intuito de captar
apenas a simpatia de um público alvo, em geral adolescente que está no cinema
mais pela pipoca e refrigerante do que pela fruição fílmica em si. E isso,
infelizmente, é justamente o que vemos todos os anos na leva de produções descerebradas,
criadas para uma audiência preguiçosa intelectualmente, que não se percebe
estimulada e, por isso, não nota o mais do mesmo que lhe é oferecido.
Catherine Kenner faz sua mágica em Chris (Kaluuya)
Mas, enfim, a proposta desse texto não é a lamentação por
conta da ladeira abaixo que o espectador de cinema vem descendo, mas, sim, tentar
transferir ao leitor a experiência que foi assistir a Corra! Trata-se de um longa que abrange diversos estilos em sua
proposta e em seu resultado final. Além de uma sagaz crítica ao racismo dentro
da sociedade norte americana, o filme de Peele funciona como comédia das mais
eficientes, uma vez que traz um coadjuvante inspirado e que, como de praxe em
diversos filmes, apresenta um ator negro a se destacar na comédia em detrimento
de seu protagonista. Porém, diferente de obras como Maquina Mortífera, Mensagem para Você, Um Espião e Meio, dentre
tantas, aqui a questão racial, pelo menos nesse sentido, não se aplica tanto. No
papel de Rod, LilRel Howery não surge como o personagem negro a servir de ponte
para a trajetória do herói. Dono das melhores falas, ficamos, ao final, na dúvida
em saber quem é o verdadeiro herói do filme.
Na história de Chris Washington (Kaluuya), um jovem e
talentoso fotografo negro que visita os pais da namorada branca, Peele consegue
inserir diversos elementos para um estudo da criação da racista e violenta
sociedade caucasiana estadunidense, que criou seus pilares dentro de um
desenvolvimento financeiro escravocrata e que tenta, até os dias atuais,
manter-se dentro desse mesmo estilo de vida que busca suplantar vidas de afrodescendentes,
seja de modo sanguinolento, como é constante observar nas ações violentas da
policia americana, ou em vias excludentes no âmbito econômico, cultural e
educacional. Tudo, claro, em prol do próprio conforto e segurança egoístas.
Entre predadores: Chris começando a notar algo de estranho ali
E neste caminho, o roteiro do jovem realizador brinca com
diversos estilos, sendo o principal, além de comédia, o de filme de gênero, uma vez que
todo o mistério e tensão existentes por trás das excêntricas atitudes da
família que abraça de modo tão suspeito e entusiasmado o namorado da filha, consegue
criar para Corra! um eficiente clima
soturno, gerando no espectador uma constante apreensão até que o seu final, ao
mesmo tempo catártico e perfeito em sua justiça
poética, entrega a melhor redenção ao publico.
Em uma obra repleta de surpresas, não vale a pena adentrar
em descrições para alcançar limites de caracteres nessa crítica. Diante de
tamanha originalidade e fôlego recuperado diante de uma constante produção cinematográfica
em estado de looping, Corra! é uma
obra que, quanto menos você souber antes de mergulhar naquele universo, melhor.
(Patriot´s Day, EUA, 2016) Direção: Peter
Berg. Com Mark Wahlberg, Michelle Monagha, J.K. Simmons, John Goodman, Kevin
Bacon.
Por João
Paulo Barreto
Comum surgirem obras que retratam acontecimentos trágicos em
solo americano. Normalmente, as dramatizações são produzidas com alguns anos de
intervalo, cinco a seis, é o normal. Foi o caso de As Torres Gêmeas, de Oliver Stone, e Voo 93, petardo de Paul Greengrass. O Dia do Atentado, produção bancada por Mark Wahlberg e (vá lá) bem
dirigida por Peter Berg foi lançada em 2016 nos Estados Unidos, apenas três
anos após o atentado ocorrido em 15 de abril de 2013, quando duas bombas caseiras
foram detonadas durante a Maratona de Boston.
É bem verdade que o filme exagera no quesito patriótico
(desde o seu título original, obviamente). A mudança no nome nacional denota um
dos poucos acertos nesse tipo de decisão quando obras estrangeiras chegam ao Brasil.
Porém, há no roteiro escrito pelo próprio Berg, Matt Cook e Joshua Zetumer,
quando descontadas as falas de efeito e momentos artificiais para captar a “honra
de ser estadunidense”, uma boa construção de personagens, calcada, claro, na
presença do produtor/protagonista Wahlberg, que entrega bons momentos quando,
no papel de um policial responsável pela segurança da maratona, desabafa acerca
dos traumas relacionados ao terrorismo, além de captar uma eficiente cena
emocional, quando se desculpa com a esposa por tê-la colocado no local dos
ataques.
Tommy (Wahlberg) refaz os passos dos terroristas
Do mesmo modo, o trabalho de Berg, em conjunto com os sempre
competentes Trent Reznor e Atticus Ross na criação de tensão através da trilha
sonora, mantém o espectador vidrado nos acontecimentos ali encenados, algo que
se torna contagiante a partir do momento em que os ataques são dramatizados
pela produção. E aqui reside outro aspecto de acerto da obra: suas sequências
de ação. Desde o momento em que a maratona sofre seu revés, até a crucial caça
e captura dos dois irmãos responsáveis pelo ataque, a câmera de Berg,
acompanhada por uma montagem que não sufoca a ação em cortes rápidos e
desnecessários, traz o impacto daqueles acontecimentos de modo genuíno ao
espectador, que, independente do clichê “respiro- aliviado-seguido-de-comemoração-dos-personagens”
quando a poeira assenta, sente um peso parecido ser retirado de seus ombros.
Seguindo acerto semelhante, o desenho de produção,
juntamente com a direção de arte e montagem, cria sequências eficientes mesmo
quando não se trata de elementos de ação. Observe, por exemplo, o modo como o
personagem de Wahlberg é utilizado para situar os investigadores no local e
arredores de onde as explosões aconteceram, colocando a busca pelos dois
transeuntes suspeitos de terrorismo através das câmeras de segurança nos
comércios dos arredores. Uma cena simples que recria uma prática padrão em investigações,
mas que, ao ser encenada dentro do contexto do filme e auxiliada pela montagem
que exibe o resultado do senso geográfico do personagem, dá ritmo à narrativa,
mesmo que usando de elementos mínimos.
Ao final, fica aquele incômodo ainda relacionado à patriotada
excessiva da obra, no entanto, o filme traz uma louvável mensagem edificante de
força e consolo às pessoas feridas e aos familiares dos mortos naquele fatídico
quinze de abril.
(EUA, 2017)
Direção: Ridley Scott. Com Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy
Crudup.
Por João Paulo Barreto
Há uma percepção de que Ridley Scott busca, em Alien: Covenant, provar ao espectador
que ainda é capaz de causar a mesma sensação claustrofóbica que conseguiu criar
em 1979, com a sua incursão original no terror gerado pela criatura desenhada
por H.R. Giger. No entanto, apesar de conseguir trazer de volta o horror e o
gore, existe uma clara perda da eficiente ambientação de mistério seguida de
catarse em detrimento de um espetáculo visual calcado apenas no uso da criatura
como elemento artificial de ação descerebrada.
Surpreendendo pelo fato de trazer astronautas treinados
entrando em um mundo completamente desprovidos de roupas especiais (ok, sem isso
não haveria filme, mas...), o roteiro de John Logan e Dante Harper até consegue
criar bons momentos para os fãs do gênero, quando vemos criaturas hibridas da
forma de vida alienígena clássica surgirem de dentro do corpo de dois dos
tripulantes. Do mesmo modo, ao observarmos o robô David (Fassbender, excelente)
chegando ao planeta originalmente habitado pelos engenheiros criadores da vida
na Terra (um dos momentos mais aterradores do longa).
David em sua bem adequada postura de criador
David, a propósito, é o melhor personagem do filme. O único
com um objetivo concreto, mesmo que insano, e que consegue levá-lo à frente de
modo ao mesmo tempo brutal e sutil, como um titeriteiro a brincar com toda a
tripulação. Seu embate com quem ele chama de irmão, Walter, vivido também por
Fassbender, traz os diálogos mais marcantes da obra. Denota, ao menos aqui, um
apuro na criação de Logan e Harper, quando o roteiro de ambos referencia Byron na
ascensão e loucura de David em sua relação com o Rei Ozymandias.
Com suas paredes repletas de planos e desenhos aludindo ao
traço original de Giger, David é o que se pode chamar de criatura embriagada
pela racionalidade e pragmatismo. Curiosamente, trata-se de um ser artificial,
mas repleto de malícia e dissimulação, características genuinamente humanas. Desenvolvido
por um homem confrontado intelectualmente por ele logo após seu nascimento, David
só demonstra emoções quando se refere ao que cria, algo que gera reflexão justamente
por conta da inexistência de qualquer piedade em seus atos. Na ficção científica
espacial, afinal de contas, são poucas as criaturas cibernéticas que possuem. E
na execução do seu plano, passo a passo vamos observando as nuances de seu
caráter.
Ação meramente visual que beira ao vazio
Ainda em relação à tentativa de inserção da sufocante
atmosfera vista no original de 1979, Scott recria bem o frenético plano dos
sobreviventes em prender o ser entre os corredores da nave, utilizando os espaços
fechados da Covenant de forma a ilustrar a claustrofobia do espaço. Porém, toda a
sequência anterior, com a criatura ainda do lado de fora, perde seu impacto
justamente por conta da clara tentativa de impressionar pelo aspecto visual e
grandioso dos seus elementos, algo que acaba, ironicamente, tendo o efeito
contrário justamente por banalizá-los. E o fato de serem duas criaturas
distintas ilustra bem o critério descartável do seu uso.
No topo disso, é lamentável ao diretor que tenha sido
necessário se render a alusões sexuais no sentido de causar graça entre o
público adolescente. Porém, a despeito de todas essas travas no seu
desenvolvimento, Alien Covenant consegue
entregar uma satisfatória experiência. Algo que seu final aterrador e longe de
qualquer desfecho feliz acerta ao gerar no público pouco alento, mas muita curiosidade
pela próxima continuação.
(Brasil, 2015) Direção: Henrique Dantas. Com depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Ilua São Paulo, Pilar São Paulo, Olney Saão Paulo Jr., Luiz Paulino, Helena Ignez, dentre outros.
Por João Paulo Barreto
A urgência do cinema feito por Henrique Dantas não é algo a
se negligenciar. Realizado antes de A Noite
Escura da Alma, único documentário a abordar os mandos e desmandos
políticos do clã Peixoto de Magalhães, bem como as barbáries causadas na Bahia
pelos militares a partir do golpe de 1964, em Sinais de Cinza, sua lente volta para um individuo único. Alguém
cuja trajetória ceifada de modo tão brutal nos privou de um cinema feito com
afinco, coragem e contestação. A Peleja
de Olney contra o Dragão da Maldade é uma obra que nos leva a refletir
acerca da importância do resgate da memória, acerca da valorização do que é
nosso em termos culturais e, o mais importante, nos alerta que não é tarde
(ainda) para que esta mesma memória do cinema brasileiro possa ser conservada.
Aqui, o foco de
Dantas está na curta e traumática trajetória de vida do cineasta Olney São Paulo,
diretor acusado de subversivo pelo regime por conta da obra Manhã Cinzenta, supostamente exibida
durante um voo sequestrado e desviado para Cuba por rebeldes contra intervenção
militar no Brasil. Foi preso, torturado e, mesmo após ter sido solto pela quadrilha
da ditadura, continuou perseguido física e psicologicamente pelos vermes do
regime, algo que afetaria sua saúde de modo irremediável e o levaria a morrer
em 1978, aos 41 anos de idade. Através
de depoimentos de figuras como Nelson Pereira dos Santos, Silvio Tendler, Luiz
Paulino dos Santos, Helena Ignez, dentre outros, além dos filhos de Olney,
Maria Pilar, Ilya São Paulo e Olney Júnior, o longa aborda a história do
realizador através da força de sua própria obra.
A lenda viva Luiz Paulino é um dos entrevistados no projeto
É a partir das palavras daqueles ligados a Olney e das
imagens de seus filmes projetados nas paredes de casas do sertão que sua
narrativa de resistência é apresentada ao espectador. São longas como Grito da Terra, de 1964, no qual vemos um
levante de lavradores famintos que atacam sacas de farinha. Obra marcante na
filmografia baiana, além de ser um dos primeiros trabalhos do período a trazer
personagens femininas distantes de uma postura subjugada; O Forte, que, baseado na obra de Adonias Filho, apresenta, através
de uma ficção, um registro histórico do monumento do forte de São Marcelo; e Ciganos do Nordeste, filme que aborda a
saga dos andarilhos em solo sertanejo.
Mas, além do resgate das imagens da obra de Olney, a força
do registro realizado por Henrique Dantas está, também, nos depoimentos
captados em sua pesquisa. Principalmente no registro das falas dos filhos do
diretor, Ilya, Olney Jr. e Pilar. Há um peso nas palavras daquelas pessoas. Um
peso que se mescla entre a frustração, a inércia e a tristeza, algo que Dantas
capta sem oportunismo, mas com um senso de respeito pela dor daquelas pessoas,
cujo sofrimento ainda teve um novo revés com a perda do irmão, Irving São Paulo,
em 2006.
Nelsão definindo bem a presença cinematográfica de Olney
Quando vemos Olney Jr. cantar Robert Johnson, além de uma versão
de Wish you Were Here, do Pink Floyd,
percebemos que o poeta encontra ali seu modo particular de denotar a vontade de
ter crescido ao lado de pai. Algo que vemos, também, nas lágrimas de Pilar ao
lembrar tanto de Olney quanto do irmão Irving, e na fala dura e contundente de
Ilya, que não se permite abater ao demonstrar de modo às vezes áspero, mas sem
se deixar amargurar pela frustração, como se sente em relação à perda de seu
velho.
Trata-se de um documentário que ousa. Um filme que traz em
sua construção visual um modo bem sucedido de captar a energia do legado fílmico
de Olney.
E, além disso, traz um alerta para que não se perca este
legado, que se encontra abandonado e carecendo de restauro e conservação..
(Life, EUA, 2017)
Direção: Daniel Espinosa. Com Jake Gyllenhaal, Rebeca Fergunson, Ryan Reynolds,
Hiroyuki Sanada.
Por João Paulo Barreto
Vida, ficção
científica/terror espacial dirigido por Daniel Espinosa, dos violentos e
eficientes Dinheiro Fácil e Protegendo o Inimigo, traz em sua
estrutura todos os elementos de acerto em filmes de horror no espaço sideral.
Desde o mistério em torno do aparecimento do tal ser alienígena, passando pela
sua revelação como uma ameaça aos astronautas, chegando à caçada e eliminação
um a um dos integrantes da nave, o longa consegue criar uma boa atmosfera
dentro de sua premissa.
Com um plano sequência de abertura a referenciar o recente Gravidade, de Alfonso Cuarón, e uma
trilha sonora marcante que valoriza sua intenção de desconforto e tensão para o
espectador, a obra localiza bem seus personagens, demonstrando de modo bastante
econômico as características que vão delinear suas personalidades e justificar
suas ações durante todo o filme.
Dr. David Jordan (Gyllenhaal) diante de um ser longe da sua compreensão
Porém, todo o trabalho de construção do perigo rondando
aquela criatura celular que cresce para se tornar uma espécie de polvo espacial
se esvai quando o design de efeitos visuais opta por uma dar uma óbvia face
maligna ao marciano apelidado de Calvin. Uma vez que vemos o surgimento do ser
unicelular desde sua presença microscópica , a intenção de criar medo no
espectador por conta da cara raivosa da criatura acaba por minimizar e tornar
caricato seu impacto no espectador.
Manter-se fiel à proposta de impressionar justamente pela
sugestão de perigo para, em seguida, entregar o verdadeiro terror físico teria
sido uma opção mais feliz no desenvolvimento da trama. Contrariamente, o filme
acaba cedendo ao clichê fácil, optando por inserir a tal expressão bestial do
vilão de modo a ameaçar a tripulação e o público.
Calvin prestes a mostrar a que veio
Apesar disso, Vida desenvolve-se
bem em seus elementos de terror que remetem ao Alien de Ridley Scott, como quando coloca os tripulantes a caçar a
criatura pelos corredores da estação espacial e sendo surpreendidos por ela
quando menos esperam. Elementos que, claro, no clássico de quarenta anos atrás,
eram inseridos de modo bem mais claustrofóbico por conta da ambientação escura
e labiríntica do seu cenário. Aqui, no entanto, o ambiente clean e hermético da
nave, somado aos efeitos especiais responsáveis pelo design de Calvin que deixam
a desejar na criação em CGI do ser, acabam por reduzir o impacto de sua aparição.
Com um final corajoso, mas que, infelizmente, abre possibilidades
para uma continuação um tanto descabida, Vida,
mesmo com seus problemas, consegue entreter ao se ater no desconforto
gerado por sua tensão. Uma pena que não souberam aprofundá-la através das
várias possibilidades de horror que o seu roteiro poderia oferecer.
(The Fate of the Furious, EUA, 2017)
Direção: F. Gary Gary. Com Vin Diesel, Dwayne Johnson, Jason Statham, Michelle
Rodriguez, Kurt Russell, Scott Eastwood.
Por João Paulo
Barreto
Talvez tenha sido a franquia Velozes e Furiosos a que mais exigiu do espectador e dos críticos a
aplicação do termo suspensão da
descrença. Não somente por ter alcançado tamanha longevidade com oito
filmes em dezesseis anos, mas pela capacidade de sempre conseguir superar os absurdos apresentados em cada um dos
seus longas anteriores.
O que se vê na parte oito nada mais é do que uma reciclagem
das ideias trazidas no decorrer de toda a série, levando em consideração,
claro, a proposta de criar momentos ainda mais impactantes visualmente e que
exijam dos tais veículos o máximo de suas já inacreditavelmente absurdas
capacidades. E se aqui temos Dwayne Johnson desviando um míssil com as próprias
mãos, bom, quanto mais absurdo, melhor.
Deckard e Luke: amor reprimido
Depois de colocar os carros com paraquedas saltando de um
avião e com seus motores em pleno funcionamento na parte anterior, o que fazer
para superar isso? Talvez essa tenha isso a principal pergunta dos produtores
para seu roteirista Chris Morgan, responsável pelo desenvolvimento de quase
todos os filmes da leva. “Vamos colocar um submarino na jogada!” Ao ver isso
acontecendo na tela, o que lhe chega à mente é a percepção que eles terão que
colocar as máquinas possantes no espaço sideral para fazer a nona ou a décima sequência
surpreender.
Em se tratando de sua história e da interação entre seus
personagens, o oitavo trabalho traz momentos de boa química, principalmente
entre Johnson (figura que vem se destacando pelo carisma) e Jason Statham que, digam
o que quiserem, precisam assumir que se amam e que sentem atração um pelo
outro. Observar Luke levantando peso para se exibir para Deckard foi a
comprovação máxima.
Charlize Theron emprestando credibilidade à série
Mantendo a forçada ideia de “somos uma família”, algo que já
soava pretensamente cafona lá em 2001, quando o primeiro chegou às telas, aqui,
ao menos, há a inserção de personagens que, de fato, representam a criação de
uma, como vemos no próprio Vin Diesel a homenagear a figura de Paul Walker
batizando seu filho como Brian, nome do falecido ator na série.
Some a isso a presença de Charlize Theron cedendo sua credibilidade
de “vencedora do Oscar (mas preciso pagar
as contas)” ao filme, e lá está uma vilã que, apesar de ficar no mesmo ambiente
durante quase 100% do tempo, apertando botões e tendo que demonstrar emoções ao
simplesmente observar um monitor, convence no melhor estilo vilão Bond.
Toretto e Cypher: Traição? hmmmm, esse plot twist já estava evidente
No mais, lá estão as perseguições nas ruas de Nova York,
desta vez sendo atacada por “carros zumbis”, corridas de marcha à ré nas vielas
de Havana (com direito a lição de moral de Toretto e respeito à cultura cubana –
toma, Trump!) e todas as piadas envolvendo o Sr. Ninguém, interpretado por Kurt
Russell, aqui com a ajuda de Scott Eastwood, a vitima da vez no grupo de
exímios motoristas que, não se sabe por qual razão, é sempre contratado pela
agência do governo para resolver problemas que agentes treinados podem (e
devem) resolver. Mas, divago.
No geral, o saldo é positivo. Qualquer erro e extravagância cometidos
aqui, eles terão muitos outros longas para corrigir e superar. Para o bem ou
para o mal.
(Brasil, 2016) Direção: Caio Sóh. Com Emílio Orciollo Netto, Nathalia Dill, Renato Góes, Paula Burlamachi.
João Paulo Barreto
Por Trás do Céu, trabalho
vencedor do prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular na edição do anos passado
do CinePE, mais do que uma obra dentre as tantas que buscam representar um
suposto universo fantástico existente no sertão nordestino, é um estudo
pertinente do ser humano em relação aos seus traumas. Assistir ao filme de Caio
Sóh é um exercício de análise do modo como a fuga e a busca do esquecimento de
uma dor podem vir a proteger o individuo de impactos psicológicos ainda mais
severos do que os que já se abateram sobre ele.
No longa, Aparecida (Nathalia Dill) e Edivaldo (Emílio
Orciollo Netto) levam a vida em lavouras, cortando palma para alimentar o gado.
A notícia da chegada do primeiro filho é recebida com susto e alegria. A
comemoração é com rimas de repentistas. Entretanto, os traumas da violência, da
dor e da perda não tardam a chegar. A fuga dos dois personagens centrais é
tanto física quanto mental, principalmente para Aparecida, que em um novo mundo,
esconde seu martírio em situações escapistas.
Aparecida (Nathalia Dill): Traumas do passado escondidos em sua ingenuidade
A tal fuga os leva a um estado de inércia, no qual a
fantasia mental da mulher só não é tão presente quanto a sede de vingança do
marido. Ela parece já ter se desligado do seu passado tenebroso, abraçando no
processo não um futuro que possa se apresentar, mas uma realidade onírica, na
qual a dor é suplantada, substituindo-a por questionamentos que beiram o
infantil. Edivaldo, porém, ainda mantém vivo o sentimento de ódio por aqueles
que o fizeram seguir naquela nova jornada. É justamente isso que o faz olhar
para frente, mas sem esquecer o se passou.
Em visita a Salvador para divulgar o filme, Emílio Orciollo
Netto afirma que “o que Por Trás do Céu
propõe é um diálogo entre esse mundo fantástico, onírico e sonhador com o mundo
realista. Com o mundo duro da realidade, do dia a dia.” Para o ator, é um filme
que aborda uma dicotomia. “A gente encontra estes dois mundos. Que é o da
Aparecida, o do sonho, e o do Edvaldo, que é o mundo da terra, do trabalho, do
dia a dia”, observa.
Edvaldo (Orciollo Netto): Aspereza e tristeza para esconder a dor da perda
O diretor Caio Sóh, em seu roteiro, constrói personagens que
seguem lutando contra a realidade que os cercam. É um filme que aborda a
amargura, mas sem esquecer-se das inserções cômicas, como as do ladrão de cenas
Micuim, vivido por um inspirado Renato Góes. Em um cenário folclórico, repleto
de elementos estilizados, que vão desde asas em uma tartaruga, passando pelo
figurino quase apocalíptico do personagem de Edivaldo, Sóh cria uma fábula
descompromissada com o real, mas que cria reflexões centradas no palpável. Para
o Orciollo Netto, “o filme tem um compromisso
com o sertão do sonho, do lúdico. Não se trata de um documentário que fala
sobre a miséria no nordeste ou sobre as dificuldades de uma família. Ele é
sobre um encontro, no qual se misturam estas estéticas do onírico, do mundo
fantástico.”
Aparecida, em sua doçura e ingenuidade, parece ter a
dolorosa trajetória de sua vida como um borrão de memória. Borrão esse que é
obliterado justamente pelo modo quase infantil como a vida, agora, se apresenta
aos seus olhos. No entanto, tal secura e fel da realidade não tardarão a
fazê-la perceber o quão duro pode ser o mundo fora de todo aquele lirismo. E é
deveras doloroso vê-la assumir a postura de amargura diante de um novo golpe
que esta mesma vida lhe causa.
Emílio Orciollo Netto em visita a Salvador para divulgação
(Reino Unido, 2016) Direção: Benedict Andrews. Com Rooney Mara, Ben Mendelsohn, Riz
Ahmed.
Por João
Paulo Barreto
Há em Una, estreia
no cinema do diretor Benedict Andrews, uma coragem semelhante à de Kubrick e a
de Lars Von Trier. Enquanto o primeiro levou a obra de Nabokov ao cinema de
modo a analisar o pedófilo Prof. Humbert adentrando em sua mente e observando
suas fraquezas e tentações a partir de sua própria óptica (seja ela doentia ou
não, definição que o filme não aprofunda), Von Trier inseriu na parte dois de
sua obra essencial, Ninfomaníaca, uma
cena na qual a protagonista disseca um também pedófilo através do sofrimento
que ela acredita que o mesmo deva sentir na necessidade de dar vazão aos seus
desejos criminosos.
Na obra de Andrews, cujo roteiro se baseia na peça escrita
por David Harrower e adaptada aqui pelo próprio, tal julgamento, entretanto, é
feito pelos dois lados. Não somente por uma óptica unilateral da vitima ou do
perpetrador, ou de uma análise estritamente externa. Este acaba sendo o grande
acerto da produção.
A proposta inicial de discussão do filme é analisar os
traumas a partir da posição da vítima, que teve não somente seu corpo, mas
sentimentos amorosos corrompidos aos 13 anos de idade. A protagonista título,
seduzida por um homem mais velho, leva aquela cicatriz de forma solitária e
conturbada até a fase adulta. É quando
finalmente decide confrontá-lo para, ao menos, compartilhar todo o sofrimento e
trauma psicológico que sofreu não somente pela sedução, mas por ter sido
abandonada física e afetivamente por aquele por quem se apaixonara e com quem
teve sua primeira experiência sexual.
Una reencontra Ray após anos de traumas reprimidos
De um modo positivo da palavra, trata-se de um filme
expositivo. Durante os noventa minutos de duração, vemos o reencontro dos dois depois
de anos do ocorrido. Dali, descrições de sentimentos virão à tona de modo
explosivo, com Una se abrindo pela primeira vez para alguém desde o momento em
que percebeu que teve sua infância roubada. O fato da única pessoa que ela
encontra para confiar aqueles sentimentos traumáticos ser justamente o homem
que os causou, denota bastante da solidão sofrida pela jovem. Solidão não
somente física, mas mental (“Você não faz
nem ideia”, diz a jovem para sua mãe, denotando justamente sua solidão em
todo aquele processo). Incapaz de sentir e de se relacionar, a personagem vivida
por uma excelente Rooney Mara, responde com negativas a questionamentos sobre
ter um namorado, busca fugas em transas casuais com estranhos e chora durante o
sexo com alguém diretamente ligado ao seu primeiro amor.
Do lado de lá, está a presença de Ray, ou Peter, como é
conhecido socialmente nos dias atuais, após quatro anos de reclusão e buscando
fugir de seu passado criminoso. Na evolução de seu roteiro, Harrower opta por
colocá-lo não em uma presença predatória ou exclusivamente doentia, mas em um
estado de confusão mental e insegurança quanto aos seus sentimentos que, apesar
de não justificar de modo algum suas atitudes, ao menos o insere dentro de uma
categoria de personagem longe de clichês vilanescos ou construções unidimensionais.
Trata-se de um homem que cometeu um crime grave ao dar vazão a um sentimento absurdo,
mas que cometeu ato tão brutal quanto quando não pôde (ou foi impedido por circunstâncias
fora de seu controle, como o filme exibe) demonstrar o quão importante Una era
para sua vida, criando para a então adolescente uma ilusão ainda mais áspera.
Ray diante da vazão de um sentimento criminoso
Trata-se, entretanto, de uma obra cuja dissecação foca na
perda sofrida pela sua protagonista. Presa a um sentimento e a ações que lhes
foram apresentados de modo precoce, a infância que lhe foi extirpada e a face
adulta que lhe é imposta acabam por machucá-la de modo irremediável. E enquanto
Ray conseguiu uma nova vida e um novo nome para enterrar os seus erros do
passado, sua vítima ficou presa àquele período. “Tenho o mesmo nome desde sempre. Vivo na mesma casa e sou julgada pelos
mesmos vizinhos daquela época”, explica a jovem em meio ao desespero de sua
dor.
Diferente dePaulina, obra
de 2015 cujo desserviço para a sociedade é óbvio em seu discurso masculino
acerca da submissão da vítima diante de criminosos supostamente criados por um
meio e que têm nisso uma pretensa justificativa para seus atos monstruosos, Una oferece uma discussão mais rica em
seu resultado final.
É um filme que não escolhe lados, preferindo dar ao
espectador uma opção de conhecer as duas faces daquela história. Mas,
felizmente, salienta que para o lado mais fraco daquela balança, a dilaceração
psicológica foi bem mais intensa e que, por isso, seu perpetrador não necessita
de comoção por parte do público, mas, sim, de seu desprezo.
(EUA, 2017)
Direção: Rupert Sanders. Com Scarlett Johansson, Pilou Asbæk, Takeshi Kitano,
Juliette Binoche, Michael Pitt.
Por João
Paulo Barreto
O desafio aqui é falar de Ghost in the Shell, versão
live action, sem cair na armadilha raivosa de criticar a escolha do elenco
norte americano para viver personagens que, na animação, são orientais. Cinema
é indústria. Indústria custa caro. Estampar a cara da Scarlett Johansson no
pôster atrai investidores e público. E, no final, o interesse principal dos
produtores é esse. Então, se não quiser assistir à versão live action, a
excelente animação sempre servirá de consolo.
Dito isso, passemos a análise da obra propriamente dita. Como
entretenimento, Ghost in the Shell funciona
bastante. Trata-se de uma produção caprichada, repleta de boas sequências de ação,
uma direção de arte que se destaca pelo modo como cria um futuro que, em parte,
se vê de acordo com o esperado para a humanidade, no qual superpopulações se
espremem em grandes metrópoles e a publicidade parece invadir o dia a dia das
pessoas de forma incisiva. A cidade do filme, inclusive, mescla uma espécie de
Nova Iorque futurista, com a Los Angeles de Blade Runner (em todas as suas
óbvias referências) com a Tóquio original da animação.
Neste futuro, crimes são previstos com antecedência, algo
que remete à obra de Phillip K. Dick, seres humanos podem ser aprimorados com
tecnologia cibernética e ciborgues coexistem com pessoas. Major (vivida por
Johansson) é uma agente da organização Section 9, que persegue um suposto
terrorista virtual com a capacidade de hackear mentes que possuem melhorias
cibernéticas.
Major em momento de reconstrução
É curioso observar como o filme trabalha a questão da
solidão e dos questionamentos tão comuns à humanidade, mas a partir da óptica
de um robô, ou, no caso, de um ciborgue, uma vez que Major possui apenas o
cérebro humano. Neste sentido, o filme busca trazer certa profundidade à sua
protagonista, colocando-a em uma busca que, diferente da que vemos na animação,
até que enriquece a personagem, apesar de torná-la um tanto deslocada dentro da
trama central, que na animação trata exclusivamente da caça ao terrorista
Puppet Master, um ser virtual que consegue, como um vírus de computador,
penetrar no sistema da organização a fim de destruí-la.
No longa, claro, há algumas mudanças referentes às
motivações da protagonista, que ganha toda uma trama relacionada à busca de
suas origens. Compreensível, uma vez que se trata do maior destaque do filme.
Porém, é decepcionante perceber que os roteiristas Jamie Moss e William Wheeler
cederam à armadilha de colocá-la em uma relação direta com o personagem do
Puppet Master que, aqui, de modo deslocado, ganha uma face humanóide na figura
de Michael Pitt. Ao ceder à tentação reducionista de usar um vilão convencional
(e clichê), ao invés de se ater à animação original, a versão em live action
perde força.
Puppet Master ganha a face de Michael Pitt
Do mesmo modo, a inserção de uma personagem que representa
alguém diretamente oriundo do passado da Major não colabora tanto para o seu
desenvolvimento. Entretanto, apesar disso, a justificativa para a diferença
étnica e o uso de um nome oriental para a personagem de Johansson (Motoko
Kusanagi) é bem justificada dentro da trama, uma vez que o invólucro (ou Shell, como queira) da Major pode até
ser anglo-saxão, mas seu cérebo continua bem japonês, como confirma o nome (ok,
haters, não deu para resistir a esse comentário).
Com cenas de luta e invasões com tiros que remetem a Matrix, algo divertido de se observar
uma vez que o longa de 1999 já usava assumidamente toda e qualquer referência à
animação lançada quatro anos antes, Ghost
in the Shell peca por um falta de criatividade neste sentido, usando
momentos clichê como personagens subindo em paredes ou atravessando vidraças
com os cacos causando aquele já conhecido efeito visual. Ao menos, uma
referência direta ao visual gore da animação é feita quando a personagem precisa
destruir um dos seus membros. Mas as explosões faciais tão hipnotizantes no desenho
fizeram falta. Compreensível, uma vez que na versão americana, a classificação
indicativa (e consequentemente o faturamento) impediria.
Sequências já vistas em outros filmes, mas que ainda funcionam
Há, no entanto, momentos marcantes, como a participação de
Takeshi Kitano como o fodão Aramaki, que no melhor estilo “I´m too old for this
shit”, entrega, para regozijo dos fãs, uma ótima sequência de vingança. Ou ainda as assustadoras inserções das gueixas cibernéticas logo em sua abertura.E como
é curiosamente bom ver Juliette Binoche em papeis tão pop!
Deixe de lado o mau humor. Desapegue e dê uma chance. Depois reveja o desenho
duas ou três vezes para compensar.
(UK, 2016) Direção: Danny Boyle. Com Ewan McGregor, Ewen Bremner, Robert
Carlyle, Jonny Lee Miller.
Por João
Paulo Barreto
Vinte anos é bastante tempo. Eu ainda estava no curso
ginasial há vinte anos. Curioso olhar para trás e perceber suas mancadas e seus
acertos. Seus arrependimentos, seus sucessos e seus lamentos.
Reencontrar-se
com seu passado, não somente com uma fase específica, mas todo um apanhado do
que você fez durante esse tempo até o dia de hoje, pode ser um exercício ao
mesmo tempo satisfatório e perigoso. Nostalgia vicia. Vicia quase (eu disse
quase) da mesma forma que a heroína que vinte anos atrás dominava a vida de
Renton (McGregor). Vicia quase da mesma forma que a mesma droga dominou a vida de
Spud (Bremner) pelas últimas duas décadas. Vicia do mesmo modo que a violência e
agressões físicas tornam a trajetória de Franco Begbie (Carlyle) mais aceitável
em sua própria vida. E vicia tanto quanto o rancor que mantém Simon “Sick Boy”
(Miller) vivo e, claro, mais dependente das carreiras de cocaína. Mas essa
mesma nostalgia te ensina a refletir e a reparar antigos erros.
T2 Trainspotting possui
uma cena na qual Sick Boy censura Renton por querer reviver fatos do passado
daqueles quarentões, quando todos ainda estavam com vinte e poucos anos. “Isso
é nostalgia. Você é um turista em sua própria juventude. Nós éramos jovens.
Coisas ruins aconteceram”. E mesmo com toda sua roupagem pop, trilha sonora
envolvente, cortes secos e rápidos característicos do estilo de Danny Boyle
desde o primeiro filme de 1996, essa continuação não escapa de uma roupagem
triste, de pessoas em busca de uma redenção e do próprio perdão pelos erros do
passado. Pessoas que exibem agora as marcas da idade (e das frustrações e
insanidades) em seus rostos. Na mesma cena, Simon censura Renton, fazendo-o
lembrar que foi ele quem vendera a primeira dose de heroína ao falecido Tommy.
Renton revida e atinge o amigo em cheio ao devolver a lembrança de que, agora,
o bebê morto de Simon seria uma moça cheia de vida e planos para o futuro. T2 Trainspotting, ao final, se resume a
isso. Golpes certeiros na consciência de cada um. Por debaixo da graça inerente
ao longa, há um sabor amargo e uma camada de tristeza por debaixo do seu tom de
comédia.
Down to the memory lane: Simon, Renton e Spud honram Tommy
Para o espectador, porém, é um reencontro com os personagens
marcantes. A ideia de mostrar cada um deles em suas vidas atuais e compará-las
com as pregressas causa graça, principalmente quando o foco está no ingênuo
Spud, que, desde o inicio, já se mostra como a melhor coisa do filme, como
quando explica a razão para seus fracassos está no fato de estar sempre uma
hora atrasado para seus compromissos da vida pós-heroína. “Como eu poderia
saber que existia algo como o horário de verão se eu fui um junkie pelos últimos
vinte anos?” Pergunta relevante...
Trata-se de um filme que funcionaria bem sozinho, mas a
opção de Danny Boyle em inserir constantes referências ao original, no começo,
funciona. Porém, no decorrer das duas horas de projeção, acaba por cansar um
pouco. Mas não ao ponto de enfraquecer demais o longa. No entanto, isso acaba
por torná-lo dependente demais de seu predecessor. Mas entendemos que a pretensão de Boyle é a de fechar um ciclo. E, por isso, qualquer intenção
forçada em referenciar a obra de 1996 acaba sendo relevada em nome da ótima
atmosfera captada pela continuação. E
isso ele consegue sem necessariamente querer causar a mesma revolução visual
que foi o longa noventista. Aqui, não houve nenhuma autocópia ou busca do
impacto sensorial que foi a cena do banheiro. Aliás, é delicioso pescar as
referências feitas durante a projeção, como quando Renton cai por cima de um
capô de carro e sorri para a câmera, ou quando Spud se vê diante da mesma rua
onde anos antes correra após um furto.
Begbie e sua fúria contra Renton
No aspecto visual, Boyle resgata os tons pastéis e os papeis
de parede em casas populares escocesas em uma bem sucedida autorreferência. E nesta mesma passagem, uma sombra familiar na parede parte o coração do espectador. O
momento em que Renton adentra em seu antigo quarto causa no espectador quase o
mesmo impacto que nele mesmo. E o medo do efeito que o disco de Iggy Pop com a
faixa Lust for Life causará nele é
bem compreensível. Apenas a batida inicial da faixa já é suficiente para deixá-lo
apreensivo. E o espectador parece também sentir o mesmo impacto e receio.
A percepção final é a de estarmos diante de três caras
atormentados (Begbie não conta. Continua o mesmo psicopata de sempre).
Atormentados e fracos, como podemos perceber pela recaída de Renton e Sick Boy
pela agulha na veia. Apesar de seu discurso atualizado do monologo Choose a Life, Renton, mesmo com 46
anos, ainda denota o mesmo grau de imaturidade de vinte anos atrás. Não há
muita redenção para aqueles indivíduos e é um alivio perceber que o filme não se
rende a esse artifício sentimental. Quando vemos Begbie pedir perdão ao filho e
se despedir de sua mulher, uma pretensa intenção piegas e inserida, mas, ainda
bem, logo cai por terra. Aquele personagem está aquém de qualquer salvação. Sua
dependência da violência já o dominara.
Contudo, é ótima a sensação ao percebemos ser Spud o mais
forte dos três, o mais fiel ao seu processo de desintoxicação. Como disse o
próprio Renton, Spud nunca machucou ninguém. É com regozijo que percebemos um
final feliz para o coitado.
(Split, 2016, EUA) Direção: M. Night Shyamalan.
Com James McAvoy, Anya Taylor Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica
Sula.
Por João
Paulo Barreto
Com uma carreira repleta de altos e baixos (mais baixos do
que altos, é bem verdade), M. Night Shyamalan acerta a mão em Fragmentado, trabalho no qual ele volta a
mirar nas questões psicológicas do ser humano e suas consequências para o mundo
à sua volta tal qual havia feito no subestimado A Visita, seu longa anterior.
Aqui, diferente da psicopatia cruel e displicente do casal
de idosos do filme de 2015, James McCavoy traz para seus vinte e quatro
personagens (mas somente seis evidenciados e desenvolvidos pelo filme) uma
mescla exata da citada crueldade, de frieza, doçura, inocência, pragmatismo,
aspereza e brutalidade, características inerentes a cada uma das pessoas que
habitam sua mente. Com uma atuação precisa, o jovem ator escocês parece flutuar
de uma performance para a outra, trazendo para o público uma marca reconhecível
para cada personalidade que habita o corpo do protagonista, seja ela a postura inflexível,
um olhar ou um modo infantil de se expressar. Em uma construção na qual as
nuances são imprescindíveis, McAvoy coloca cada uma delas em serviço da sua
excelência.
McAvoy e sua versão infantil
Na história, o atormentado homem sequestra três jovens e as
mantêm como reféns em um ambiente subterrâneo. O pretexto é o de que elas servirão
como alimento para uma criatura que ainda surgirá, algo que logo percebemos se
tratar de uma nova personalidade do sequestrador. Em seu roteiro, Shyamalan
cria uma atmosfera incomoda de tensão justamente pela ideia de que o foco dessa
vez possui raízes no universo real, sem qualquer tipo de escape relacionado com
algo sobrenatural ou imaterial. O perigo aqui é calcado no plausível. E o
incomodo principal do espectador está diante justamente desse fato.
Na figura da personagem de Anya Taylor-Joy, que já havia se
destacado no thriller A Bruxa,
Shyamalan aproveita para explorar uma de suas marcas como roteirista que é a
perda da inocência infantil, além de voltar a aplicar outra marca que é a da
câmera subjetiva a partir do olhar de uma criança. No caso, Casey Cooke,
personagem vivida por Joy na adolescência, possui um passado de abusos, no qual
foi molestada pelo seu tio (a forma como o diretor opta por evidenciar choca
pelo modo ao mesmo tempo sutil e monstruoso como tal fato é mostrado). Neste
arco, a riqueza de interpretações que o roteiro oferece denota bem a
profundidade da escrita do diretor. Em uma história na qual um personagem
monstruoso esconde sua verdadeira face no intuito de conquistar a confiança de
uma criança, o que dizer de um personagem que possui várias personalidades, mas
todas elas são fieis ao próprio conceito de autenticidade, sem dissimulações ou
truques? Ele é o que é. Curioso exercício o de imaginar quem é o verdadeiro
monstro aqui.
Casey em seu primeiro momento de desespero
Mas o que impressiona de fato no filme ainda é a atuação de
McAvoy. Seja em uma sutil homenagem de Shyamalan ao seu principal ídolo, Alfred
Hichcock, com tomadas que referenciam Norman Bates e Psicose (principalmente quando uma personalidade feminina do
protagonista é inserida em rápidos vislumbres para depois se revelar), ou quando
a tal última e definitiva pessoa na mente dele é trazida à vida e sua característica
animalesca é evidenciada de modo ao mesmo tempo fascinante e asqueroso.
O ator durante visita a São Paulo na divulgação de Os Cowboys
Finnegan Oldfield esteve no Brasil em 2016, ocasião em que
divulgou Os Cowboys durante o
Festival Varilux de Cinema Francês, no Rio de Janeiro e São Paulo. Filme atual
em relação à situação do Estado Islâmico e a adesão de jovens europeus à doutrina
de terror preconizada pela organização, Os
Cowboys, apesar de ter sua história centrada no final dos anos 1990 e
início dos anos 2000, traz uma reflexão precisa para o que acontece no velho
continente (principalmente na França) nos últimos anos.
Sobre esses aspectos da obra e outros assuntos, Finnegan Oldfield
conversou com o blog Película Virtual.
OS COWBOYS ME REMETEU EM DIVERSAS CIRCUNSTÂNCIAS AO CLÁSSICO DE
JOHN FORD, RASTROS DE ÓDIO.
Sim, há diversas semelhantes. Mesmo não sendo uma refilmagem
e eu não tendo utilizado o Rastros de
Ódio em minha pesquisa, Thomas (Bidegan, diretor) me mostrou outros filmes
na construção de Os Cowboys, como Cidade das Ilusões (Fat City), de John Huston, que não chega a ser um western, mas é
uma obra que aborda a transmissão de uma pessoa para outra. É disso que fala o
filme, mas utilizando todo esse viés e os códigos todos dos filmes de faroeste.
Foi exatamente isso que ele quis fazer. Utilizando essa referência nos filmes
de faroeste, como o uso dos planos abertos de montanhas e paisagens, por
exemplo. Como no momento em que ele está fumando um cachimbo da paz junto aos
talibans, em outra cena vemos pessoas a emboscá-los de cima de um prédio como
se fossem índios nos desfiladeiros. A partir de um certo momento, o filme passa
a ser um faroeste, principalmente quando já o vemos com seu revolver em punho e
na cintura.
SEU PERSONAGEM NO
FILME É BEM SOLITÁRIO. COMO SE DEU A SUA CONSTRUÇÃO?
Eu li muitas vezes o roteiro. Foram muitas conversas com o
Thomas (Bidegain) sobre a personagem e suas ideias de como ele queria que esse
adolescente se transformasse em um homem, em um cowboy. E isso foi muito
interessante para o trabalho de ator e foi um desafio que eu encontrei para
fazer esse papel.
A FRANÇA VEM PASSANDO
POR UM PERÍODO CONTURBADO EM RELAÇÃO À POLÍTICA E A GUERRA CONTRA O EXTREMISMO
DE ORIGEM RELIGIOSA. COMO FOI ABORDAR ESSE TEMA NO FILME?
Curiosamente, no caso de Os
Cowboys, o filme foi feito antes dos atentados ao Charlie Hebbo, antes dos
atentados de novembro de 2015. Isso o torna um filme ainda mais atual. Outros
diretores realizaram trabalhos com temas relacionados e acabaram pagando o
preço de não ver suas obras sendo lançadas por conta do contexto. Os Cowboys foi lançado na França em 15
de novembro de 2015, dois dias após os atentados. A dúvida que surgiu na época
foi na possibilidade de lançá-lo ou não. Decidimos levar adiante a data
justamente para não deixar que o terrorismo começasse a dar as ordens no
cinema. Eu concordo com o Thomas Bidegain (diretor de Os Cowboys) quando ele diz que é preferível assistir a uma obra
como essa do que aos noticiários que ficam mostrando sem parar esse assunto. É
preferível ver um filme como esse do que os canais de notícias que exibem sem
parar imagens dos atentados sem se aprofundar nos fatos. Concordo que a gente
tem que estar informado sobre o que acontece, mas os filmes possuem uma outra
maneira de contar a história.
EXATAMENTE.
INCLUSIVE, ACHO QUE O FILME TEVE UMA CORAGEM IMPRESSIONANTE DE ABORDAR UM TEMA
TÃO DELICADO QUANTO A PRESENÇA DE CÉLULAS TERRORISTAS NA FRANÇA. E ISSO
JUSTAMENTE NA ÉPOCA DOS ATAQUES EM PARIS.
Foi complicado. Podemos dizer que esses fatos acabaram nos
alcançando. A realidade alcançou a ficção do filme. Quando fomos filmar na
Índia, todos nos diziam para ter cuidado por conta de riscos de terroristas e,
enquanto nós estávamos lá filmando, os atentados ao Charlie Hebdo aconteceram.
Bem ali, no centro de Paris. E decidimos continuar filmando. E essa foi a mesma
atitude quando chegou a hora de lançar o longa
QUAL A SUA POSIÇÃO
COMO CIDADÃO FRANCÊS DIANTE DESTE MOMENTO? É POSSÍVEL UMA COMPARAÇÃO COM A
POSTURA DOS ESTADUNIDENSES APÓS O 11 DE SETEMBRO?
É uma difícil comparação por conta da diferença de escalas
dos acontecimentos em relação a França e aos EUA. A nossa vida passou a ser
pontuada por atentados. A gente lembra do 11 de setembro, dos atentados a Londres,
a Madrid, ao Charlie Hebdo. E, ao mesmo tempo, estamos distantes disso tudo. É
um pouco disso que o filme fala, também. No filme, quando o personagem vê na TV
as torres gêmeas em chamas, ele se sente como se recebesse um cartão postal da
irmã pedindo por ajuda. E a gente na consegue entender o que significa enquanto não vivemos isso na casa da gente.
O FILME ABORDA UMA
QUESTÃO DELICADA QUE É A SEDUÇÃO DO ESTADO ISLÂMICO PARA COM JOVENS ÁRABES E
EUROPEUS. GEROU CONTROVÉRSIAS NA OCASIÃO DO LANÇAMENTO E PRODUÇÃO. DO MESMO
MODO, ELE ABORDA PONTOS RELACIONADOS A PRECONCEITOS, RACISMO E XENOFOBIA. COMO
SE DEU ESSA ABORDAGEM DO ROTEIRO?
O filme, na verdade, apresenta uma questão da emancipação
dessa jovem. Talvez, se ele se passasse em outra época, como os anos 1980, ela
talvez tivesse seguido para outro lugar, como Londres, morar em um cubículo e
ficar se drogando. E a historia começa antes disso, em 1997, quando ainda não
era comum que os jovens se juntassem ao Estado Islâmico. No fundo, é uma
história sobre pessoas comuns que vão se sentir aspiradas por essa agitação e
confusão que acontece no mundo. Em relação ao racismo, é verdade que o pai é
bem aquela figura francesa que tem aquela postura xenofóbica e alguns
comentários racistas acerca de imigrantes. Na metáfora do filme, o pai acaba
considerando que essas pessoas sejam como os índios. Já o filho, não. Ele passa
a ver os estrangeiros de uma maneira muito mais aberta. E isso é o que fará
dele um cowboy, um herói. O Thomas queria fazer um filme sobre essa abertura de
espírito. Sobre a mistura de raças. Sobre como é possível aprender as lições
dos seus ancestrais e de como o conhecimento passa de uma geração para outra.
EM SEUS FILMES ANTERIORES, HÁ UMA CONSTANTE ABORDAGEM DE CUNHO SEXUAL. COMO SE DEU ESSE PROCESSO DE ESCOLHAS DE PAPÉIS?
Não cheguei a ver muitos filmes franceses com temáticas sexuais e não há muitos que sigam essa vertente. Em relação às minhas escolhas, são temas interessantes. Por isso eu aceitei fazer esses filmes. Para Mineurs 27, o que me interessou foi como uma pessoa consegue crescer tendo sido vitima de abusos, como ela consegue superar isso. Bang Gang seguiu o mesmo questionamento de como os jovens vivem essa liberdade sexual e experiências nas quais eles podem erra e em seguida se corrigir e superar tudo isso. Principalmente a visão que as outras pessoas têm disso em tempos nos quais as redes sociais são tão ativas.
QUAIS SÃO OS SEUS
PRÓXIMOS PROJETOS?
Já estou com um novo filme pronto, dirigido por Bertrand
Bonello (diretor de Os Amores da Casa de
Tolerância e Saint Laurent). O
filme se chama Nocturama e aborda um
grupo de jovens de esquerda que colocam bombas em Paris. São jovens que não
percebem muito bem o que estão fazendo, inconsequentes que começam a perceber
que fizeram algo muito errado e começam a perceber a gravidade de seus atos. É
quando o filme começa a ser algo que se passa entre quatro paredes. Esse roteiro foi escrito antes de todos os
atentados e se chamava antes Paris é uma
Festa, mas precisou ter seu título modificado.