quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Planeta dos Macacos: A Guerra

(War for The Planet of The Apes, EUA, 2017) Direção: Matt Reeves. Com Andy Serkins, Woody Harrelson, Steve Zahn.


Por João Paulo Barreto

A última parte da nova trilogia Planeta dos Macacos abre com um letreiro nos atualizando acerca dos acontecimentos que vimos na parte um, Rise, e na a sua sequência, Dawn. O último trecho do texto nos esclarece que estamos diante do início da Guerra proposta pelo próprio título deste novo exemplar da franquia. E, pelos minutos iniciais, parece que não seremos decepcionados. Ledo engano, infelizmente.

Apesar dessa percepção de resultado aquém do esperado ao subir dos créditos finais, o longa até possui sua cota de boas sequências bélicas. A primeira, logo em seus minutos iniciais, inclusive. Em uma clara alusão ao conflito nas matas da Vietnam, com capacetes talhados em mensagens contra o inimigo, aqui, no caso, destinadas aos símios, o filme começa bem, com uma batalha na selva entre os humanos e os macacos. A sequência parece preparar o terreno para, justamente, o que o título promete. A violência entre símios munidos de lanças e montados em cavalos contra humanos pesadamente armados, de fato, empolga. 
Toda a cena é construída de modo a criar um impacto visual forte, preparando terreno para o que esperamos que seja um futuro encontro entre o líder símio Cesar (Andy Serkins, se consolidando cada vez mais) e o militar inimigo humano, dessa vez um coronel insano vivido por Woody Harrelson.

O insano coronel vivido por Wooy Harrelson
A partir deste inicio sanguinolento, porém, mesmo contando com uma boa construção do drama pessoal do personagem de Cesar, que tem na perda de entes ligados a ele toda a criação da animosidade e busca de vingança contra o militar, o filme acaba apostando em um desfecho frágil. Ao invés de se concentrar em uma batalha massiva entre os representantes liderados pelos dois antagonistas, algo que poderia ligar direta e eficientemente ao longa clássico original, este prefere apostar em um final sem qualquer ligação com a produção estrelada por Charlton Heston, que, inclusive, teve ecos no primeiro exemplar da nova franquia. Sendo assim, o que temos é a criação de um clímax irregular, calcado unicamente em uma suposta engenhosidade na criação de armadilhas visando resgate e fuga de macacos prisioneiros, algo que, apesar de criar algumas sequências que podem justificar o título do trabalho, não consegue convencer na ideia de que aquele é o embate para o qual fomos preparados nos dois longas anteriores.

É inegável, entretanto, que a construção do personagem de Cesar desde o primeiro filme até seu momento trágico nesta terceira parte é o grande esmero da produção. Possuindo mais humanidade, reflexão, carisma e capacidade de liderança que qualquer homo sapiens que venha em seu encalço, o Cesar de Andy Serkins, desde seu tom de voz até modo de olhar, consegue captar bem a dor e o peso que aquela criatura carrega. Seu não interesse em continuar qualquer guerra contra os humanos é palpável. Sua vingança, entretanto, acaba por falar mais alto diante dos seus atos. Em uma época na qual o poder mundial parece ter sido dominado por criaturas que demonstram pouco a qualquer traço de humanidade que possam ainda possuir, a obra dirigida por Matt Reeves traz pertinentes reflexões acerca de quem pode ser considerado, no uso negativo da palavra, um animal naquele contexto.

Momento Coronel Kurtz de atuação
Do lado de lá das linhas inimigas, Woody Harrelson está bem à vontade no papel insano do militar rebelde com ecos de coronel Kurtz (o filme, inclusive, faz uma boa referência ao clássico de Coppola adaptando seu nome em uma pichação). Seja raspando a cabeça com navalha enquanto confere suas tropas ou demonstrando sua crueldade no intuito de manter as rédeas em seus prisioneiros, seu personagem se encaixa bem na proposta de “o louco que passou a tomar conta do hospício” que o filme busca.

Além disso, contando um escape na comédia que a presença de Steve Zahn e sua inconfundível voz cômica trazem para o personagem Bad Ape, o filme dilui um pouco do peso esperado pelo seu tema, chegando, em certos momentos, a cansar na tentativa de inserir graça em seu desenvolvimento.

Bad Ape: alívio cômico que abusa um pouco da boa vontade
Fica para o espectador mais atento a reflexão acerca da ausência de diálogo em tempos de guerra, quando o filme utiliza justamente essa ideia como fator desestabilizador que pende a balança para o lado símio daquela batalha.

Um tanto óbvia, vale dizer, mas, ainda assim, reflexiva em seu resultado final. 

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