Com respeito ao mito, documentário aborda sumiço de João
Gilberto
Criador da Bossa Nova tem sua personalidade esmiuçada com
delicadeza
Por João Paulo Barreto
O mistério em torno da figura do cantor e compositor João
Gilberto já é algo bem notório. Recluso,
o artista não aparece em público faz muito anos e evita contato até mesmo com
os amigos de longa data. Essa áurea em torno do ilustre baiano de Juazeiro
levou o escritor alemão Marc Fisher a caçar o homem pela cidade do Rio de
Janeiro, entrevistando pessoas ligadas a ele e tentando em vão um encontro com
o ídolo, cuja canção, Ho-ba-la-lá, fascinou
o escritor e se tornou título do livro À
Procura de João Gilberto. Marc não chegou a ver seu exímio trabalho de
investigação publicado. Morreu em 2011, aos 40 anos de idade.
Corta para 2017 e o cineasta francês Georges Gachot,
apaixonado pela música brasileira e diretor de diversos documentários acerca do
tema, se debruça sobre a aventura de Fischer. O resultado acaba por cativar o
espectador por conta de sua simplicidade. Um dos acertos de Onde Está Você, João Gilberto? reside em
não mitificar de modo condescendente a figura do criador da Bossa Nova. Ele,
aqui, não é tratado de forma artificial ou bajuladora. Tampouco a privacidade
do interprete de Chega de Saudade é
invadida. A ideia não é polemizar os problemas recentes em sua vida, mas, sim,
abordar suas opções de reclusão.
SEM TALKING HEADS
Do mesmo modo que Fischer se propôs a buscar pelo cantor,
Gachot refaz seus passos em uma tentativa de desconstruir a figura do
compositor através do contato com diversos nomes de sua trajetória de vida. Mas
não como um modo investigativo e inconveniente para desvendar a personalidade
de João Gilberto. O que Gachot traz aqui é um meio de honrar o legado de
Fischer, cujos últimos passos seguiram a trilha deixada por Gilberto. A
estrutura documental de Georges Gachot cativa o espectador de forma a tornar a
narrativa envolvente. Muito disso se deve a opção de não apelar para um
convencional e batido artifício de “cabeças falantes”, com entrevistas
sequenciadas. “Durante as filmagens, fui pouco a pouco perdendo a relação com a
realidade que é a essência de um documentário”, afirma o diretor Georges
Gachot. “Perdi a objetividade necessária que eu normalmente tive em outros
trabalhos. Esse filme se tornou algo pessoal porque me identifiquei com um
personagem que se suicidou. Isso me desestabilizou bastante”, explica o
diretor ao tocar no trágico fato a respeito do autor Marc Fischer.
Assim, o cineasta revisita os mesmos nomes que Fischer encontrou.
Pessoas como João Donato, que fala acerca do processo de composição com
Gilberto. Do mesmo modo, a reveladora entrevista com Roberto Menescal, que
aborda o peso da amizade com João Gilberto em sua vida. Neste ponto, a não
romantização do seu tema, trazendo um sincero depoimento de Menescal sobre sua
parceria com João, ajuda na citada desconstrução do mito, mas Gachot opta por
fazê-lo com elegância, sem desonrar seu protagonista ausente.
![]() |
Ex-esposa de João, Miucha é uma das entrevistadas |
ANSEIO DE JOÃO
Nas conversas com Miucha, primeira esposa de João Gilberto, Gachot
encontra falas reveladoras acerca da proximidade que Fischer quase concretizou
com o cantor. Ao relembrar o jovem escritor alemão, o filme traz a questão da
saudade, algo que atormentou o escriba. “O roteiro permitiu transcender a música
de João. A vida de Marc e seu destino trágico deu ao meu roteiro uma
grande força de expressão. Fischer se tornou uma vitima da saudade. Por dentro,
ele se perdeu”, diz o cineasta francês.
Seria inconsequente e irresponsável tentar explicar as razões para Marc
Fischer ter optado pela escolha definitiva em seu destino. O filme de Gachot
(acertadamente) não se arrisca nesse campo. Mas, distante de qualquer
melancolia, a obra leva sutilmente tal reflexão ao espectador. “Ninguém
que já conheceu João conseguirá jamais esquecê-lo. Porque ele é anseio. Ele
sempre foi. Desde o começo. Ele é intangível como o anseio. Incorpóreo como o
anseio”, explicação que surge em certo momento do filme e que corrobora
justamente o objetivo de não decifrar seu objeto de estudo.
Na capa de Chega de
Saudade, Gachot observa a descrição de Fischer para seu ídolo. “Seus olhos,
ao expressar distância, parecem dizer: ‘Vocês não me entendem. Eu não sou como
vocês’”. Ainda bem, João. Ainda bem.