Em Chamas surpreende
pela construção catártica
Filme do sul-coreano Chang-dong Lee apresenta estudo preciso da natureza humana
Por João Paulo Barreto
A perceptível calma da construção cênica e estrutura do
roteiro que o cineasta sul-coreano Chang-dong Lee traz para Em Chamas, seu novo filme, é um dentre diversos elementos que fascinam
o espectador atento àquela trama cuja catarse final se anuncia de forma
gradativa. Ao privar o público de respostas imediatas diante daquela sensação
de sufocamento e desespero que seu protagonista passa na busca por uma amiga
desaparecida, Lee capta um sentimento de angústia que reverbera além de sua
história. E realizar isso sem manipulação de falsos sustos ou diálogos
expositivos é algo para poucos.
Se em seu filme anterior, Poesia, de 2010, ele seguiu um caminho da singeleza a contar o
drama de uma paciente de Alzheimer que inicia um curso de poesia como forma de
escape da prisão que a doença começara a lhe impor, Em Chamas segue por um caminho mais observacional do comportamento
errático e do cinismo como forma a definir o arco de sua trama. Ao se envolver
afetivamente com a bela Shin, sua amiga de infância que reencontra por acaso
após anos sem contato, Lee Jong-su resolve ajudá-la e passa a alimentar um gato
que supostamente vive em seu quarto alugado enquanto ela viaja para a África.
Na viagem, ela conhece Ben, jovem milionário e sedutor com quem se envolve,
abandonando Lee. É a partir dessa premissa simples o diretor Chang-dong Lee
insere em sua construção diversas pistas de que aquela relação possui algo de
errado, e que essa sensação, ao infligir
no jovem Jong-su tamanho desespero por respostas, acaba por abalar também o
espectador naquela iminência de uma tragédia.
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Tensão disfarçada: personagens em estudo mútuo |
ESTUDO OBSERVACIONAL
Aos poucos, o filme se consolida como um estudo de
personagem. Jong-su, em sua pouca auto-estima e insegurança diante do que sente
por Shin, a vê se envolver cada vez mais com Ben. Rico e sedutor, o jovem
oriundo do bairro de classe alta de Gangnam, em Seul, estuda de modo claro
Jong-su, trazendo para si algumas de suas características, como a leitura de
autores específicos. Sendo claramente alguém de índole duvidosa, a relação de
Ben com os que lhe cercam beira o de um predador com potenciais vítimas, algo
que fica claro ao serem reveladas peças de colecionismo que o jovem mantém e o
modo misterioso como observa aqueles ao seu redor.
Em seu roteiro, Chang-dong Lee opta por inserções de elementos
a definir a personalidade de dependência afetiva de Jong-su e uma forma de
inserir símbolos do sentimento que ele tem por Shin. Seus momentos solitários e
de intimidade no quarto dela ao lembrar-se de sua transa; a dúvida acerca da
existência ou não de um animal a ser alimentado, algo claramente inserido de
forma brincar com o espectador; a bela metáfora do sol a adentrar no quarto
minúsculo e bagunçado em um único momento do dia, que é quando, justamente, ele
se faz presente. Neste contraste, a partir do momento em que se confirma o
desaparecimento da jovem, o mesmo local aparece impecável, algo que confirma o
cuidado do roteiro na representatividade física de seus personagens.
Trata-se de uma obra que se baseia justamente nisso. No
observacional e, também, na gradativa construção de ápice surpreendente que
funciona não somente de modo catártico para o espectador, mas, também, como uma
resposta para a inércia de seu protagonista. Repleto de imagens simbólicas,
como o dançar de Shin diante do pôr-do-sol , ou as chamas finais a remeter não
somente ao título, mas ao estado de espírito de de Jong-su, o longa de Chang-dong
Lee reside em um tipo de cinema recompensador, mas que não se baseia unicamente
em uma explosão emocional final como uma resposta ao tempo investido pelo seu
público. Mergulhar naquela estudo analítico do comportamento é o que o torna
mais instigante. Mas, ainda assim,
prepare-se bem para o final acachapante.
Texto originalmente publicado em A Tarde, dia 18/11/2018