Emma Thompson entrega atuação primorosa ao viver
juíza que luta contra o próprio pragmatismo
Embate
ente razão e sensibilidade em Um Ato de
Esperança
Por João Paulo Barreto
O pragmatismo versus o emocional é o que move Um Ato de Esperança, novo filme de
Richard Eyre (diretor do marcante Iris, com
Judi Dench). Emma Thompson vive Fiona Maye, uma personagem extremamente
racional, de pensamento prático e atitudes calculadas como sua profissão de
juíza exige. Observá-la em suas análises jurídicas, focada na leitura de autos
enquanto advogados lhe conferem informações que ela escuta e analisa
simultaneamente, e, de imediato, muitas
vezes censurando colegas pelos seus erros que ela corrige, é perceber como o
domínio de seu campo de trabalho lhe é total e prioritário. De fala rápida,
expressa apenas o necessário para se fazer compreendida, como quando dá
instruções ao seu assistente ao telefone e desliga no meio da ligação quando já
lhe passou suas ordens.
Essa concentração e foco, entretanto, não se
evidenciam em sua vida conjugal. Casada há vinte anos, recebe queixas de seu
marido (Stanley Tucci) por não ter a mesma dedicação com a vida a dois. Nesse
momento, Eyre cria uma comparação precisa ao mostrá-la não escutando o marido
falar, pois está a escrever sobre um julgamento no qual trabalha, quando o
mesmo foco dividido, porém total, pode ser constatado quando quem fala com ela
refere-se a assuntos de trabalho. O roteiro de Ian McEwan, também autor do
livro que deu origem ao filme, cria pontes eficientes de comparação destes
aspectos da vida de sua protagonista, que evita criar intimidades maiores até
mesmo em conversas informais, como quando interrompe seu assistente quando este
falava acerca de seu final de semana.
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Ambos pragmáticos em suas crenças |
PRAGMATISMO DESCONSTRUÍDO
Aos poucos, McEwan desconstrói sua protagonista ao
inserir sinais de uma personalidade que, sim, é capaz de se deixar levar pelo
emocional, como quando a vemos tocar o piano que a faz relembrar o momento em
que este lhe foi presenteado, ou quando resolve conhecer um jovem paciente que
sofre de leucemia e cujo dogma religioso como testemunha de Jeová o impede de
receber transfusões de sangue se tornou um debate judicial que caberá à juíza
decidir. Após diversos casos de vida ou morte que ela teve sob sua
responsabilidade, este lhe dá o ímpeto de conversar com aquele rapaz obstinado
que acredita no ensinamento religioso mesmo que sua vida se torne algo em jogo
dentro daquele impasse. Neste ponto, o filme acerta ao não partir para uma
abordagem denunciatória dentro de um contexto de fé versus razão, preferindo
focar na personalidade obstinada, mas contraditoriamente frágil e repleta de
dúvidas de Adam (FionnWhitehead), que passa a enxergar na figura da juíza uma
influência que o tirou da inércia religiosa de seus pais.
Nesta escolha, uma suposta fragilidade do roteiro ao
inserir um tema tão profundo que se desvencilha tão facilmente (sim, o garoto
acaba por receber a transfusão) se justifica por percebermos como a ingenuidade
do adolescente é evidente. E Fionn Whitehead, que dá a Adam um olhar perdido,
fala insegura e carência à flor da pele, acerta ao construir seu personagem em
uma mescla de rebeldia e total deslumbre por aquela figura que chama de “my lady”, que, mesmo sendo um tratamento
formal jurídico, quando dito pelo rapaz, fica evidente tal deslumbramento
romântico. E esse desvencilhar dos dogmas perante o racional concede a Adam
algo que Fiona acaba trazendo para si. Ao tocar o violão no leito do hospital,
a juíza acompanha os versos do poeta Yeats que o rapaz dedilha e aquele
desvencilhar acaba sendo algo que embala ambos.
Sem idealizações românticas semelhantes às de Adam,
o roteiro de Ian McEwan acerta ao dar ao espectador uma análise de como duas
mentes fieis a comportamentos pragmáticos e, em relação ao adolescente,
idiossincrático em uma linha que beira o absurdo, podem aprender uma com a
outra. No caso de Fiona, dentro desse seu pragmatismo, permitindo que a
magistrada pudesse se envolver emocionalmente trazendo para si uma reflexão
acerca da própria vida sem emoções. No caso do jovem rapaz, por permitir, ainda
que brevemente, pudesse experimentar em vida um horizonte mais amplo que o da
Bíblia que o aprisionou.
Em seu título original, aliás, The Children Act (algo como “o ato infantil”), o filme de Richard
Eyre denota exatamente a proposta de seu roteiro, algo que, no título nacional,
acaba por levar o espectador para uma premissa de dramalhão choroso que não faz
jus ao eficiente resultado que a obra traz. Principalmente no que tange ao seu
final repleto de reflexão e desesperança.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 25/03/2019