O enfrentar de uma nova realidade de dor
Singelo em sua construção, drama francês Amanda traz doloroso
mergulho na vida
pós trauma ligado ao terrorismo
Por João Paulo Barreto
Com os recentes ataques terroristas ocorridos em Paris durante os últimos anos, como o assassinato de funcionários do satírico jornal Charlie Hebdo em janeiro de 2015 e o disparar de tiros contra a plateia de um concerto de rock que acontecia na popular casa de shows Bataclan, diversas obras, de perfil documental ou ficcional, tentaram levar às telas um olhar acerca do que é viver na França diante de um clima tão grande de insegurança, bem como lançar foco quase documental a registros de tentativas de ataques.
Dois exemplos dessa abordagem são os filmes Made in France, que aborda em um formato de thriller a história de um jornalista infiltrado em uma célula da Al Qaeda em Paris; e 15h17: Trem para Paris, eficiente trabalho de Clint Eastwood ao dramatizar passo a passo (e com as testemunhas reais) o impedimento de um atirador por três jovens dentro de um trem que seguia de Amsterdam para Paris, também em 2015.
Amanda, filme
co-escrito e dirigido por Mikhaël Hers , diferente dos citados, foca na
realidade francesa em uma rotina que lida com o trauma oriundo do terror a
partir de uma perspectiva mais intimista, percorrendo um caminho da análise daquele
sofrimento sob o viés daqueles que sobrevivem aos ataques. É o tipo de obra que
acerta justamente por permitir ao espectador adentrar em um drama que, mesmo
ficcional, lhe dá uma dimensão do impacto da perda de um ente querido para as
consequências do terrorismo.
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Sobrinha e tio em uma nova rotina após o trágico |
No papel do protagonista David, Vincent Lacoste, popular
ator francês que carecia de carisma em comédias chinfrins (aqui, surpreendendo
em sua abordagem dramática de dor pela perda da irmã), precisa se recompor para
poder criar a sobrinha órfã, a Amanda do título. Inicialmente reservado em sua
proximidade com a irmã, David, que leva a vida em diversos empregos, tem em sua
perspectiva uma responsabilidade com a qual não esperava ter que lidar. Fugindo
de um esperado clichê, o filme triunfa em não manter seu foco exclusivo na
construção dos laços afetivos que não existiam entre tio e sobrinha,
preferindo, em seu desenvolvimento, abordar a adaptação mental do rapaz a sua
nova condição para, somente em seu último ato, desconstruir a pequena Amanda
emocionalmente diante da percepção da perda de sua mãe.
SÍMBOLOS DA DOR
O filme é repleto de momentos simbólicos dessa condição. O
principal deles cativa por remeter a garotinha a uma conversa e dança que teve
com a mãe quando a mesma lhe fala acerca de Elvis Presley. Uma pista cuja
recompensa surge em um belo desfecho para a trama, quando a constatação da
maturidade atinge em cheio a pequenina Amanda perante a dor que ela tenta ignorar,
mas que acaba por suplantá-la. É justamente quando a jovem Isaure Multrier, na
pele de Amanda, surpreende em um tocante despertar diante da noção do peso
daquele momento em sua vida.
Do mesmo modo, em uma perspectiva da dor da perda que sai do
pessoal para uma constatação mais ampla do mal causado pela intolerância
terrorista, David observa duas amigas que estavam no local do ataque deixar o
hospital. Uma delas pede-lhe o celular emprestado e o rapaz observa a menina
ferida enquanto espera. Em um silêncio simbólico, o filme dá ao espectador um
meio de perceber como a perda e a dor atingem a todos de maneira igual. Quantos
dramas idênticos não estão sendo vividos em decorrência de um mesmo
acontecimento? O aprofundamento dessa reflexão é um dos prós do longa.
Utilizando a força de encarar a nova realidade como meio de readaptação, Amanda se torna uma obra acerca não somente da perda na vida de dois personagens centrais. Torna-se uma forma de analisar o luto e o abraçar da dor como meio de superação.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 26/05/2017