A omissão da igreja colocada em xeque
Com o pungente Graças a Deus, diretor
francês François Ozon
cria teia investigativa contra a pedofilia no clero
Por João Paulo Barreto
Dono de uma filmografia diversificada e que não se atém a um
único estilo (até um tanto irregular, mas não o caso aqui), o diretor francês
François Ozon constrói em Graças a Deus uma
estrutura quase documental de cinema. Ao trazer a investigação baseada em fatos
reais que sobreviventes de abusos sexuais perpetrados pelo padre Bernard Preynant
( que nos anos 1980 era responsável por acampamentos de férias e catequeses com
jovens de até 15 anos de idade), Ozon traz uma análise da dor e do trauma em
diferentes níveis e marcas deixadas em cada vitima com que o pároco teve contato
durante o período.
Trata-se de uma obra dolorosa, mas que se mantém lúcida por
não se deixar levar pela manipulação do drama ou pelo maniqueísmo em sua
abordagem. Do mesmo modo, consegue atrelar um equilíbrio curioso no adentrar nas
questões de fé que seus personagens trazem consigo. A começar pela figura de
Alexandre Guérin (vivido por Melvil Poupaud). Pai de cinco filhos, católico
praticante, Guérin foi vitima de abusos sexuais por parte do padre e é ele quem
inicia a avalanche de denúncias contra o representante da igreja. Ozon dedica
seu primeiro ato quase todo à busca do homem em seguir adiante com sua luta por
justiça e alertar em relação à presença atual de Preynant na instituição
católica como um dos seus mais prestigiados membros.
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Alexandre Guérin em sua busca por justiça |
SOBRIEDADE E PRAGMATISMO
Ao abordar em sua queixa formal a omissão de bispos e
cardeais diante da presença de alguém com o histórico do padre em questão,
Guérin demonstra, em certos momentos, sua relação de afinidade com a religião
na qual fora doutrinado, mantendo-se fiel aos seus preceitos e considerando a
importância daquele legado para seus filhos, estando dois deles às vésperas de
passar por rituais cristãos, como crisma. Personagem de maior profundidade
dentre todos os construídos por Ozon, Guérin traz em sua relação com a religião
uma separação, apesar de não muito digna aos olhos de um ateu como eu,
compreensível perante a importância que o catolicismo tem em sua vida. E é
pertinente observar a maneira sóbria e pragmática com que o homem separa o
trauma sofrido da fé com que se alimenta através da igreja, mesmo tendo em sua
vida uma chaga perpetrada por um de seus representantes (o momento em que este
questiona os atos do padre, hoje um idoso, é um dos mais potentes do filme,
inclusive).
Remetendo ao premiado Spotlight
e dividindo o foco de seus 137 minutos com outras vitimas de Preynant, construindo,
assim, um rico quadro investigativo, Ozon revela a reflexão que Graças a Deus propõe de maneira
pungente, colocando cada personagem diante do encontro com o passado e da dor
que se esforçavam para manter adormecida. Assim, quando vemos o atormentado
Emmanuel Thomassin (vivido por Swann Arlaud) sofrer o choque representado por
um ataque epilético na “simples” leitura de um artigo de jornal que aborda o
caso de pedofilia, percebemos o quão dilacerante é aquele reencontro. E mesmo
tendo uma subtrama descartável e mal desenvolvida que traz os problemas
conjugais com sua namorada, seu arco se apresenta de maneira pesada para o
espectador por perceber as marcas que seu futuro trouxe após o contato com o
padre.
Da mesma maneira, quando François Debord (o conhecido rosto
de Denis Ménochet, de Bastardos Inglórios
e Custódia),um dos idealizadores
do grupo de pessoas em busca de justiça, precisa desligar o telefone pedindo
desculpas a uma das vitimas que perdera o controle emocional ao simplesmente ouvir
o nome do padre Preynant, percebe-se como o inflamar daquelas chagas ainda
perdura. Debord, inclusive, representa bem o modelo díspar de relação com a
religiosidade que Guérin traz. Ateu, o homem não mede qualquer esforço para
tornar evidente a negligência da igreja perante o caso, cogitando até mesmo
desenhar um pênis com fumaça no céu sobre a catedral da cidade para propagar o
caso para todos. Uma cena que prima pelo humor nonsense, mas pertinente.
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O grupo de vitimas comemora uma vitória no caso |
MANIQUEÍSMO AUSENTE
Em um ponto que pode causar certo desprezo ao espectador
imediatista, mas que demonstra bem a citada ausência de maniqueísmo e
parcimônia na construção do roteiro de Ozon, o cineasta insere, também, a
figura do próprio réu naquele caso. Na presença do veterano Bernard Verley na
pele do padre Bernard Preynant, uma oportunidade para se observar como a estrutura
do texto de Ozon busca uma abordagem completa do caso, colocando, sim, a figura
de Preynant como um pedófilo cuja punição é urgente, mas, da mesma forma,
oferecendo ao espectador uma oportunidade de avaliar o homem distante de
conflitos rasos entre bem vs. mal ou como um antagonista superficial.
Assim, quando ouvimos a fala de Preynant admitindo sua culpa
e deixando claro sua “fraqueza” diante da presença de crianças, bem como o fato
de que o mesmo chegou a informar sua impulsividade aos seus superiores na
igreja, percebe-se que Ozon não busca suavizar as monstruosidades perpetradas
pelo homem, mas, sim, permitir ao espectador adentrar, também, na mente daquela
figura deprimente. E isso sem necessariamente se render a embates que
relativizem os fatos ou construir seu personagem de maneira unidimensional. E, obviamente,
de maneira alguma tornando menos graves tanto suas atrocidades quanto o
silêncio oportunista do clero, brilhantemente representado pelo texto de Ozon
ao ilustrar o título do filme em uma fala oriunda de maneira grotesca a partir
de um dos seus membros.
Ozon entrega em Graças
a Deus uma análise não somente dos traumas que os atos contra crianças
perpetraram para sempre em suas vidas. Ao usar a fé alheia de pessoas com
personalidades ainda em formação e de fácil manipulação, os crimes de Preynant,
tendo o acobertamento da instituição religiosa que representa, denotam de
maneira precisa o modo como a manipulação maligna através religião é um dos
maus que qualquer credo pode possuir. E isso não atinge somente casos extremos
como o visto aqui, mas o sequestro de opiniões e de mentes colocadas sob o cabresto
do não questionamento e da aceitação. Diversos são os “lideres” e “mitos” que
se sustentam através disso.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 20/06/2017