O público como gato escaldado
Constrangedor visual e dramaticamente, adaptação do musical Cats
para as telas te dá vontade de ver
a peça teatral
Por João Paulo Barreto
Qual a ideia de resultado plausível no que se refere a
efeitos visuais que um filme quer transmitir (ou quiçá alcançar) quando coloca
todo o seu elenco formado tanto por rostos conhecidos quanto por quase anônimos
dentro de um artifício cujo resultado aplicativos de câmeras de celular conseguem
construir melhor do que o exibido nos cinemas?
Dirigido por Tom Hopper e estrelado por diversos desses
rostos, Cats, a adaptação para a
telona do bem sucedido musical de teatro escrito por Andrew Lloyd Weber em
1981, nos faz sair do cinema com essa pergunta na cabeça. Não somente pela
estranheza que cada uma das cenas leva à mente do espectador por conta de
aspecto visual de sobreposição tosca de pelos de gato em rosto de atores, mas,
também, por esse fato trazer a noção exata do quão não adaptável para o cinema
aquela peça teatral é.
E tal estranheza não é apenas uma questão de gosto pessoal
diante das imagens vistas. Em termos de utilizar o “estranho” e o “tosco” como
atributos cinematográficos, nomes como o de Tim Burton, por exemplo, já fazem
isso há muito tempo e encantam com resultados muito melhores que os de Hopper
aqui. Não. O que acontece com Cats é
justamente a ideia de tentar disfarçar através de sua não maquiagem uma
proposta de live-action que
simplesmente diminui qualquer impacto dramático que seu elenco (muito
esforçadamente, saliento) tenta trazer à tona.
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Aquele efeito básico de aplicativo engraçadinho de celular |
BARATAS DANÇARINAS
Diferente da adaptação realizada em 1998, quando a própria
peça teatral foi transposta para um projeto filmado pelo diretor David Mallet,
com a presença de diversos atores que se juntaram ao elenco de bailarinos, a
versão Cats de 2019 deixa de possuir
qualquer razão em sua existência justamente por levar ao seu público a reflexão
de que tal experiência, se vista em um palco de teatro, possivelmente alcançaria
melhores resultados do que a que temos na sala de cinema.
Na história, a gata abandonada Victoria (Fancesca Hayward)
encontra um grupo de gatos de rua que vivem no bando dos jellicle, felinos
dançarinos e cantores liderados por Old Deuteronomy (Judi Dench) e que têm na
boêmia e na glória dos velhos tempos representados por figuras como Gus - O
Gato Teatral (Ian McKellen) e Bustopher Jones (James Corden) suas rotinas de
ode à nostalgia.
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As baratas dançarinas: constrangedor |
De número musical em número musical, vamos sendo
apresentados a diversos personagens felinos e suas personalidades. A melhor
delas está em James Corden, que sabe usar bem sua presença física rechonchuda
como meio de comédia, e em Ian McKellen, que consegue, mesmo com seu rosto
felino, trazer peso para a melancolia de seu personagem cujos dias de brilho
desvanecem.
Mas o que fica na memória, de fato, são os momentos de
constrangimento alheio, como quando um grupo de ratos e baratas humanóides
dançam (e são degustadas) para a gata vivida por Rebel Wilson. É neste ponto em
que o público, diante daquela tentativa preguiçosa de se fazer comédia, percebe
o desastre daquele projeto e seu fracasso ao tentar empreender qualquer gag
visual que cause alguma graça.
E desanima ver o esforço gigante (e não recompensado) de uma
atriz e cantora de tamanho talento quanto Jennifer Hudson, que até tenta
inserir peso em sua personagem combalida pela rejeição e fracasso, mas acaba
por perder-se em uma expressão constante de tristeza que se embaça no efeito
felino de seu rosto. Ao menos na sua voz marcante durante o número musical, um
vislumbre desse talento.
Mas aí já é tarde demais. A lembrança das baratas humanóides cantando, dançando e alimentando gatos já nos marcou.
Mas aí já é tarde demais. A lembrança das baratas humanóides cantando, dançando e alimentando gatos já nos marcou.