Inconsciente e brutal Sertão
Na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, cineasta baiano Geraldo Sarno lança Sertânia¸seu novo filme, um abordar da
migração como sina violenta de um povo faminto
Por João Paulo Barreto
Geraldo Sarno fala, no auge dos seus 81 anos, com empolgação
acerca de Sertânia, seu novo filme. Trata-se de um brutal estudo da
identidade do povo brasileiro através do olhar de um imigrante que escapa,
ainda criança, junto à mãe, do massacre de Canudos.
Em Sertânia, Vertin Moura vive Antão, o jovem imigrante que, criado em
São Paulo, retorna para o sertão após perder a mãe. Em busca de notícias do
pai, cuja morte em Canudos reprimiu em suas traumáticas memórias infantis,
acaba por se juntar ao bando do cangaceiro Jesuíno (Julio Adrião), cuja figura
de autoridade se torna quase paterna na vida de Antão.
Nessa migração entre a
tragédia da vida do protagonista e a rima com a própria migração geográfica que
seu personagem atravessa, um reflexo dos anseios de um próprio povo vitima de
arbitrariedades de poderosos ignorantes e de uma luta pela sobrevivência.
Em Sertânia, Sarno, dono de uma longa
carreira em que abordou através de documentários essa peleja do imigrante do
nordeste em terras sudestinas, reencontra seu primeiro filme, Viramundo, documentário de 1965 que
mostra como a submissão econômica e religiosa de um povo andam de mãos dadas.
Sobre
Sertânia e seus aspectos, o cineasta
falou com exclusividade ao A TARDE.
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Geraldo Sarno |
No fundo, Sertânia tem uma ligação com Viramundo. O herói do Sertânia é um viramundo. É um migrante que sai da Canudos derrotada. Canudos de Antonio Conselheiro. Com a mãe, ele é levado para São Paulo. E depois volta. Formado pelo padrasto na carreira militar, ele volta para o sertão e se encontra em um grupo de jagunços. Portanto, tem a ver com primeiro filme que eu fiz. Esse é um dos temas, o tema do exílio, da migração. Que é uma questão social central nesse país. Como a maior parte da população brasileira em grande parte do território nacional não tem uma viabilidade econômica e social, este acaba sendo um país de tangidos pela sorte. A migração não é em uma direção única. Uma migração, na verdade, é uma circulação. A população brasileira, em milhares e milhões, circula ao Deus dará pelo território nacional. A depender da sorte. Choveu, tem como plantar no sertão e milhares voltam para plantar. Tem uma seca de cinco anos, eles vão para o sul ou vão para a Amazônia, ou vão para onde for, e para que? Para encontrar uma maneira de sobreviver. Essa é a vida. E ficam nessa circulação. Aí perde o emprego, a idade não permite mais. Não encontram um emprego qualquer que seja em SP ou onde for. Pela idade ou pela doença ou pelo que seja, o cara volta. E volta pior do que quando saiu, às vezes.
Na figura de Antão
em sua volta ao sertão e busca pelo pai, há muito dessa questão que você aborda
de um povo sem raízes, sem um passado, e que vive a migrar.
Antão volta porque ele quer procurar pelo pai. Este é outro tema
presente no filme: o da paternidade. Ele tem vários pais no filme. O próprio
chefe dele, o Jesuíno, é o mesmo ator que faz a figura do pai dele. É o Julio
Adrião. E não é por acaso que a gente botou o Julio Adrião para fazer o papel
do cangaceiro chefe e o papel do pai dele, real, da vida quando ele era menino.
O outro, evidentemente, é o major que o leva para São Paulo. A mãe vai
trabalhar de empregada na casa do major, e o filho passa a ser criado por ele
até a morte da mulher. Após isso, ele vai em busca do pai no sertão. A pergunta
constante é aquela: "Cadê o pai, mãe? Cadê o pai? O pai morreu?" Ele
quer o pai, o pai que ele viu ser morto, mas que foi reprimido. Ele passou a
vida sem saber o que aconteceu ao pai e a mãe não contou. Sua volta ao sertão
em busca do pai é um segundo tema do filme. E é um tema universal na
cultura humana. A questão da paternidade no Brasil, por exemplo, é uma questão
gravíssima. Quantos milhões de brasileiros não conhecem o pai? Não viveram em
uma família que tem pai? São milhões. O pai é a mãe. Nós temos historicamente
uma questão de construção da família junto ao povo brasileiro que é muito
séria.
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Vertin Moura vive Antão, o Gavião, trágico herói de Sertânia |
Tendo o olhar do protagonista como sendo
o olhar da própria câmera, é pertinente observar como a obra tem na imagem
fílmica esse aprofundamento do seu personagem principal.
Sim. Este é o tema do ver, do olhar. O cinema entra aí. O tema
do olhar. Quando ele vê o pai, ele não vê apenas o pai ser morto. A partir daí,
ele perde um véu de relação ao real, ao mundo. Ele começa a ver as coisas como
são. É quando ele vê o que acontece com os retirantes. Ele os vê, e acaba
vendo, também, a morte do pai, fato que ele tinha reprimido. Ele se vê criança
junto à mãe vendo o pai ser morto. Esse é um tema central para mim. O tema do
"Ver". Isso em várias sequências. Por exemplo, as duas meninas, cegas
e surdas, que nunca vão ouvir ou ver nada na vida. Um cérebro humano sem visão
e sem audição. Isso é uma tragédia terrível. Chegamos a isso. A gente vai até
esse ponto. Nós vemos essa questão do ver na luta de cangaceiros e policiais,
em que a cegueira dos dois lados faz com que eles se matem em algo sem sentido.
São as lutas e as repressões que não têm sentido. Que são feitas do povo contra
o povo, mesmo. Enfim, é a cegueira. Cegueira política, cegueira social. É uma
forma de cegueira porque o olhar é mental. Você olha com a mente. Sua mente,
seu cérebro, sua formação cultural, sua formação humana, sua formação ética e
social. É o que te faz ver. Porque, ver, você vê a partir de uma perspectiva.
Todo olhar tem uma perspectiva. Essa perspectiva é cultural. O mesmo fato pode
levar duas pessoas diferentes a conclusões completamente opostas. É a sua educação,
a sua formação cultural que te permite ver. A humanidade no homem só surge
dessa formação cultural. Educacional. O homem é um ser social. É aí que se
forma o ser humano.
A quebra de quarta parede, quebrar o ilusionismo da narração que
está se desenvolvendo, para mim, tem como objetivo trazer para dentro do filme
uma reflexão sobre o cinema. Sobre a arte do cinema. Sobre linguagem
cinematográfica. O filme, nesse momento, indaga o cinema. Indaga o cinema que
está sendo feito. O filme indaga o filme. Lembrando, sim, que a obra toda é uma
subjetiva. Toda ela se passa na cabeça do Antão. É ele ferido que pensa aquele
filme, que pensa aqueles momentos. Que pensa aquele mundo que o filme tenta
traduzir em imagens. E essa mente pensa como? Pensa como cinema. O cineasta é a
cabeça dele, que faz o filme. Então, para poder tirar a ilusão cinematográfica,
para que o cinema adquira uma personalidade mais forte, para que se perceba que
aquilo é um filme, é um filme que está narrando, você tem que sair dessa
bobajada desse cinema comercial, pura ilusão. O filme tem quebras. Uma quebra é
essa.
Como se dá esse
planejamento de montagem?
No set, eu não vejo o que eu filmo. Depois que acabou a filmagem
do dia, a equipe vai ver, o fotógrafo vai revisar, tudo vai ser visto. Mas eu só
vejo depois, lá na montagem. Eu não perco nenhum plano que está sendo filmado.
Mas depois só vejo na montagem. Isso foi uma prática minha que exercitei
durante muitos anos desde o primeiro filme que eu fiz no sertão. Porque eu
tinha viajar 1500km, ida e volta, ficar uma semana, um mês, para fazer os
filmes documentários, e era tudo em película. Não tinha tempo de mandar revelar
e voltar para ver. Então, isso me fez exercitar a mente. Fui me habituando a
filmar sem precisar ver a imagem.
*Entrevista originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 27/01/2020