Ringo 80
TRIBUTO Responsável
pela popularização da bateria como instrumento fundamental no Rock and Roll e
membro da banda pilar que ajudou a moldar a cultura pop no século XX,
Ringo
Starr chega aos 80 anos
Por João Paulo Barreto
“Por muitas vezes, na infância, os médicos disseram a minha mãe
que eu ia morrer. Continuo aqui.” Com essa frase, Richard Starkey,
universalmente conhecido como Ringo Starr, abre sua participação no
documentário Anthology, lançado em
1995, quando ele tinha 55 anos de idade e, junto com Paul McCartney e George
Harrison (e John Lennon em falas de arquivo), rememorou a história da banda que
ajudou a consolidar como a mais importante do século XX. Hoje, Ringo chega aos
80 e, sim, continua por aqui e tocando sua bateria. Ainda bem. Com aquela
maneira até então incomum de segurar as baquetas, diferente do chamado “traditional grip” oriundo do Jazz, Ringo
revolucionou a música quando, diante de uma audiência de mais de 70 milhões de
pessoas, tocou bateria em 9 de fevereiro de 1964, no Ed Sullivan Show, em Nova York, durante a primeira visita dos
Beatles aos Estados Unidos. Em uma metáfora perfeita, John Bryant, notório
baterista da banda de Ray Charles, afirmou que, ali, “Ringo mostrou ao mundo que a força era necessária para colocar
ênfase no ‘rock’ (rocha) de Rock and Roll. Então, ele segurou as baquetas como
se fossem martelos e se empenhou para construir as fundações do Rock”.
Com uma infância repleta de problemas de saúde, Richie, como era
chamado (o nome Ringo surgiria algum tempo depois por conta de sua paixão por
faroestes, estilo no qual trabalharia como ator), ficou anos internado por
conta de um grave caso de peritonite, uma inflamação oriunda de uma apendicite
supurada. Nesse período, viu a morte de perto e a superou. Mas não pela última
vez. Criado por uma mãe solteira (o pai, um confeiteiro, foi embora quando ele
tinha cinco anos), eram palpáveis as dificuldades em sua família durante os
anos da Segunda Guerra Mundial e o período pós-conflito, quando a Inglaterra (e
Liverpool, no caso) se reconstruía dos bombardeios sofridos.
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Ringo em estúdio com os Beatles: técnica em prol do trabalho conjunto |
DESTINO TRAÇADO
No mesmo obrigatório documentário de 1995, Ringo afirma que sempre
teve olhos para a bateria. “Nas vitrines, enquanto todos os garotos olhavam
para as guitarras, eu só via a bateria”, conta. Instrumento caro, apenas jovens
de classes abastadas podiam ter um kit completo. Era o caso de Pete Best,
primeiro baterista do embrião que viria a ser os Beatles, ainda contando com
cinco integrantes (Stuart Sutcliffe no baixo). Por ter um instrumento, Pete
Best foi chamado por George Harrison de última hora para entrar na banda, que
tinha alguns shows agendados em inferninhos noturnos da boêmia Hamburgo, na
Alemanha. Movidos a prelundin, um estimulante, chegavam a tocar 8 horas por
noite. Ringo, naquele momento, fazia parte da Rory Storm and The Hurricanes,
banda de Liverpool que já tinha alcançado certa fama local e buscava fugir do
tradicional Skiffle, ritmo dominante
nos anos 1950 britânicos, seguindo uma vertente mais voltada para o Rock and
Roll influenciados por nomes dos Estados Unidos como Chuck Berry, Bill Haley
& His Comets, Little Richard, Eddie Cochran e, claro, Elvis Presley.
Durante aquela primeira ida a Hamburgo, Ringo estreitou os laços
com John, Paul e George, com quem chegara a tocar na mesma ocasião por lá e em
Liverpool. Tendo outras experiências profissionais com aqueles que viriam a ser
seus parceiros de vida na música, a amizade gerou uma confiança que não seria
esquecida por eles no momento chave da virada na vida de Ringo e dos Beatles.
Após diversas dificuldades com um temperamental Pete Best, a banda, quando
confrontada pelo produtor George Martin em relação às limitações do batera, na
ocasião da gravação do primeiro disco, Please
Please Me, ao final de 1962, decidiu optar pelo talento de Ringo em
detrimento às constantes ausências e problemas comportamentais de Pete Best.
George Martin sugeriu a troca do baterista por Andy White, exímio músico que
chegou a tocar uma versão de Love me Do, primeiro
single dos Beatles. Mas John, Paul e George já tinham tomado sua decisão de
convidar Ringo, o melhor baterista de Liverpool, que receberia naquela mesma
noite um telefonema convocatório do empresário Brian Epstein e, bom, com o
perdão do clichê, o resto é História. E com H maiúsculo.
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Durante a última apresentação ao vivo dos Beatles, em janeiro de 1969 |
INFLUÊNCIA
Membros de duas bandas formadoras do cenário rocker brazuca, João
Barone, bateristas dos Paralamas do Sucesso, e Charles Gavin, que durante 25
anos segurou as baquetas nos Titãs, têm em Ringo Starr a presença definidora de
um norte a seguir como músicos. Barone salienta a entrada de Ringo na banda
como ponto de ignição para o quarteto de Liverpool. “Quando o Ringo entrou para
a banda, os Beatles deram certo. Começaram a ganhar a reputação deles.
Porque foi a partir desse momento que a banda se projetou para virar o fenômeno
que eles viraram. E isso só atesta a sua importância. Porque, muitas vezes, já
tem outros casos de bandas que acabaram porque o baterista saiu, ou perderam a
importância porque entrou outro no lugar. E o Ringo foi aquele cara que teve
esse papel importantíssimo na amalgama do fenômeno beatle”, explica Barone.
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João Barone em show dos Paralamas Foto - Fotorobproduções |
Pesquisador musical e apresentador do programa O Som do Vinil (Canal Brasil), Gavin traz o marco divisor que Ringo
representou desde aquela lendária apresentação no Ed Sullivan Show. “A partir daquele momento, o baterista ocupou um
espaço. Ringo trouxe não só a figura do baterista, mas tirou aquela coisa de
ficar sempre ali atrás, por razões óbvias, tudo bem. Mas ele deixou de ser
coadjuvante. Ele trouxe a presença do baterista para o lugar do protagonista.
Em pé de igualdade com os outros. Eu nunca vi ninguém dizer que o John era mais
importante que o George ou que o Paul era mais importante que o Ringo. Isso que
era genial nos Beatles. Todos ali eram importantes. Todos ali, de alguma forma,
tinham o seu espaço, o seu papel a cumprir”, aponta Gavin. No decorrer de treze
discos lançados entre 1963 e 1970, a marca experimental e precursora de Ringo
ajudou a moldar a unicidade dos Beatles. Diante de talentos tão impares quando
Lennon, McCartney e Harrison, o baterista soube dar consistência às criações
deles, tornando o som da banda algo
distante de atitudes individualistas, vaidosas ou ególatras. Charles Gavin aponta
essa personalidade técnica do beatle em faixas centrais. “Em Something, Ringo traz coisas que cumprem
o papel de sua bateria em uma balada. Ele usa o silêncio. Em Come Together, ele faz o mesmo. Ele usa
a pausa. No refrão, ele toca só o bumbo. Hoje não se usa muito essa técnica.
Mas se você observar algumas das grandes músicas dos Beatles, a parte da
bateria é muito simples. Ele era um baterista que simplificava a parte rítmica.
Sabia não ser espalhafatoso”, pontua Gavin.
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Charles Gavin, pesquisador musical e baterista dos Titãs entre 1985 e 2010 |
João Barone confirma essa capacidade técnica de Ringo destacando a
sua presença como ponto de construção conjunta da banda. “Ele demonstrou ao longo das obras primas dos
Beatles a sua capacidade de pensar em cada uma das músicas. Em fazer com que as
coisas funcionassem dentro dos somatórios. Isso é uma virtude. O músico em si
tem uma ideia musical de quando ele está construindo. Ele tem uma percepção
musical do que está ouvindo. Mas o público em geral não tem muito isso. Uma
pessoa que tem uma certa instrução, uma certa referência musical, é capaz de
entender a música pelo seu somatório. Cada uma das partes, se você for
desmembrar, você vai ter determinadas sensações e percepções. Mas o
público fica meio sujeito a uma visão mais superficial da música, do
efeito causador. Então, muitas vezes equivocadamente, as pessoas são levadas a
achar que Ringo era um baterista limitado”, explica Barone.
Após os Beatles, Ringo lançou mais 20 álbuns solo, sendo o último
deles ano passado, em outubro. O nome do disco? “What’s my Name”, uma alusão à pergunta que faz nos seus shows ao
vivo. Na resposta do púbico, ele sempre treplica: “é por isso que eu estou aqui”. Após superar a quase morte
prematura na infância; o alcoolismo e a dependência química durante os anos
1970 e 1980; ter se tornado um exemplo de saúde e longevidade a partir dos anos
1990 e pelo século XXI adentro, que seu carisma e sua genialidade técnica
permaneçam fisicamente entre nós por muito mais tempo. Seu nome e legado,
porém, já são eternos.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 07/07/2020