Inabitável País
CINEMA Selecionado para o prestigiado Festival de Sundance, Inabitável, curta protagonizado por Luciana Souza e dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias, denuncia um Brasil do qual buscamos escapar
Por João Paulo Barreto
"A gente está atrasada". A última frase proferida em Inabitável, curta metragem escrito e dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias, denota não somente um desfecho de saída, de fuga para sua protagonista em um escape que flerta com a ficção científica, mas uma constatação. Nós estamos atrasados. Atrasados como Estado, como nação, como país. Atrasados como um lugar que não é ciente do poder das escolhas democráticas. Um lugar que não é ciente das consequências dessas escolhas. Único curta metragem brasileiro selecionado para a edição 2021 do prestigiado Sundance Film Festival, nos Estados Unidos, que segue em plataforma on line até a próxima quarta-feira, o trabalho assinado por Matheus e Enock é um angustiante retrato de Brasil. Na história de Marilene, mãe em busca da filha desaparecida, Roberta, uma mulher trans que não volta para casa no dia seguinte após uma festa com amigos, a sensação e comprovação de insegurança de um lugar no qual as vidas LGBT, vidas negras, vidas indígenas, seguem ceifadas com um aval do Estado, compõe o desespero físico que é construído com um calejar que transparece na expressão de sua protagonista.
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Marilene (Luciana Souza): dureza no olhar na busca por filha |
A experiente atriz dos palcos baianos, oriunda da Companhia de Teatro Popular e vasta trajetória no Bando de Teatro Olodum, Luciana Souza, dá vida a Marilene, protagonista que tem em sua composição a aspereza que a vida e a falta de surpresas diante de um cotidiano tão brutal lhe servem como uma carapaça de proteção. "É uma temática dura. Eu penso que as pessoas que vivem essa realidade, elas se tornam também duras. Pode ter outras formas de se representar isso. Com certeza, tem. Mas o tema vem a apresentar muitas dessas pessoas calejadas com a doença da vida", explica Luciana acerca de sua composição para a dureza no semblante de Marilene diante daquela busca angustiante e sem respostas por sua filha. "Aquela é uma mãe que, de fato, não cede ao desespero e ao choro, porque ela já temia muito aquilo. É algo que estava no roteiro e que a Luciana soube trazer para as imagens, para as cenas do filme, de uma forma muito fiel. Também foi um trabalho de pensar em como ela não cederia a esse medo, a esse choro, a esse desespero. E, ao mesmo tempo, ela se manteria de certa forma com esperança de que a filha pudesse reaparecer", pontua Enock Carvalho, co-diretor.
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Marilene, junto a Gilka e Juliana, encontra artefato: respostas |
REFLEXÃO URGENTE
Trata-se de um filme com uma mensagem direta sobre esse país que
se tornou inabitável para muitas pessoas. Um Brasil no qual, abertamente, um
então candidato a chefe do Executivo fala que "as minorias têm que se
curvar às maiorias. Ou as minorias se adéquam ou simplesmente desapareçam".
E consegue se eleger com esse discurso. Inabitável
é uma obra que nos mostra essa fuga urgente de um país que parece ter
perdido sua humanidade. "É uma sociedade
adoecida por não conseguir ver o próximo, não conseguir olhar para o lado. Não
conseguir ter empatia e compaixão e, de fato, eu acho que é uma falha social.
Isso é uma falha do ser coletivo, mas que não aprendeu a ser coletivo. Eu
acho que quando as pessoas elegem políticos que são nocivos, que são ameaças,
elas não têm, de fato, essa noção. Algumas têm, mas a maioria delas não tem
noção do que eles podem ser capazes. E eles podem matar permitindo que pessoas
morram. Eles podem matar deixando uma parcela da sociedade descoberta de leis
que protejam seus territórios, que protejam seus direitos. E isso é matar. E
você está colocando essas pessoas no poder. Você está votando por elas. Você
está elegendo e endossando discursos. E o discurso de direita está muito
atrelado ao racismo, ao fascismo, à homofobia", alerta Enock.
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Luciana e Matheus discutem os nortes da personagem |
"É um sistema pautado na mentira, no caos. Quantas vidas
perdidas nessa pandemia é fruto de uma irresponsabilidade de alguém que
poderia, simplesmente, fazer diferente? Que teria todo poder nas mãos para fazer
diferente. E quando pensamos nesses desaparecidos do filme, tentamos criar um
padrão desses desaparecimentos. Claro que a Roberta é o símbolo disso tudo, mas
o filme trata de um contexto que envolve outros desaparecimentos. Essa foi uma
ideia que foi se formando ao longo da finalização do filme. Porque também começamos
a pensar em quem são esses desaparecidos, sabe? E é inevitável não pensar em
cada uma dessas mortes provocadas pela pandemia como, também, pessoas que
sofrem de uma violência do Estado. De um descaso dos políticos e de um descaso
do Estado. Um Estado que parece que não se preocupa em manter as pessoas vivas.
Roberta é uma delas. A Marielle, a Matheusa, a Dandara, e tantas outras vidas
que estão sendo perdidas todos os dias. E as pessoas parecem que estão nesse
estado de letargia absoluta. A gente aqui está cansado, sabe? Está todo mundo
cansado", desabafa Matheus Farias.
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A dupla de realizadores Enock Carvalho e Matheus Farias |
ESPERANÇA E FUGA
Marilene, em seu ensaio de um sorriso nos último momentos de Inabitável, abre para a audiência uma possibilidade
de refletir em uma esperança. Sim, lá está a fuga. Sim, lá está a ideia de que
não há mais futuro aqui. Mas aquele sutil sorriso traz um fio esperançoso. Para Luciana Souza, "o filme dá esse contorno que é uma grande gancho. Esse contorno de
uma certa esperança, mas de uma esperança que só é possível fora daqui. De
alguma forma é até uma utopia. Uma utopia para esse âmbito em que vivemos. A
gente não sabe de muitas coisas do além. Acho que dá esse caminho, dá essa
esperança de que é possível que haja um lugar melhor para se viver",
observa a atriz e questiona: "Que lugar é esse em que a gente vive e que é
um lugar que não nos pertence? É um lugar que não temos o direito de
existência? É um lugar que não temos direito a coisas básicas? Eu acho que o
filme faz essa grande denúncia, sabe? Esse nome Inabitável é esse lugar que não
é habitável. É interessante você falar isso do "Estamos atrasadas". Estamos
atrasados, mesmo. Estamos atrasados de evolução, também. Estamos atrasados de
sanar, de passar para outras questões existenciais, de sanar um tanto dessas
diferenças", finaliza.
Estamos muito atrasados.