Virtual Panorama
FESTIVAL Adaptado à nova realidade, tradicional Panorama Internacional Coisa de Cinema inicia hoje sua 16ª edição de maneira virtual, com sessões e debates acontecendo on line
Por João Paulo Barreto
Começa hoje, e segue até a próxima quarta-feira, a décima sexta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema. Se estivéssemos em um período fora de uma pandemia, a tradicional mostra teria acontecido em outubro/novembro do ano passado, no Espaço Itaú Glauber Rocha, com sessão de abertura lotando as três salas (e com a quarta sala sendo liberada, pois teria muita gente). Como sempre aconteceu, após a sessão, um debate riquíssimo e uma festa repleta de sorrisos, boas vibes e música no salão térreo do cine Glauber, antigo Guarani, celebraria mais um ano de cinema brasileiro.
Esse texto pode parecer começar como em uma reminiscência, um lamento, mas o simbolismo de ver aquelas salas lotadas, ano após ano, bate pesado ao perceber que 2020 foi o primeiro que isso não aconteceu desde muito tempo. Mas não é um lamento, esclareço. O Panorama, assim como diversas outros festivais, resiste. Seguindo um novo padrão de normalidade, a mostra se transfere para os espaços virtuais da internet, mas mantém a mesma qualidade em sua seleção de filmes, debates e consonâncias com um pensamento crítico, social e cinematográfico. Principalmente quando a necessidade desse pensamento crítico se torna tão importante neste insano começo de nova década.
Cláudio Marques, co-diretor do festival junto com a cineasta Marília Hughes, observa os desafios das adaptações pelas quais precisaram passar o Panorama em sua versão on line. "Transpor o Panorama para o formato mobilizou outras estratégias e sentidos. Primeiramente, passamos a lidar com um território muito mais amplo. E isso tem tanto um lado positivo quanto desafiador. Se antes o Panorama era um festival pro público baiano, agora ele se torna um evento nacional e pode alcançar pessoas em todo o território nacional, desde que elas tenham computador ou celular e uma boa internet", afirma Cláudio em relação à ampliação de uma audiência para além da sala de cinema que a edição alcançará.
BRASILEIROS
A seleção de filmes brasileiros que a mostra traz para as
Competitivas Nacionais de Curtas e Longas revela
uma diversidade de trabalhos realizados durante os últimos meses e aponta um
norte para um futuro no qual o cinema feito no Brasil precisará ser ainda mais
de resistência. Distante de qualquer clichê, essa afirmação é uma constatação
diante dos atentados que essa indústria passou a sofrer de 2019 em diante.
Cláudio observa um perfil menos ficcional nos filmes inscritos. "Senti que recebemos
menos ficções esse ano. Achamos, ainda, que se trata de um efeito provocado
pelo represamento das obras em escala mundial. Produtores e diretores aguardam
que voltemos ao “velho anormal”. Temi que já fosse um reflexo da desordem
provocada por Bolsonaro, mas creio que sentiremos isso, mais fortemente, a
partir do ano que vem", explica o diretor.
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Filho de Boi, de Haroldo Borges e Ernesto Molinero |
Dentre as ficções selecionadas, destacam-se produções da Bahia, como Filho de Boi, de Haroldo Borges e
Ernesto Molinero, a contar a história de um garoto e sua relação de
encantamento com o circo; Eu, Empresa, de
Leon Sampaio e Marcus Curvelo, filme reflexo da geração youtuber no qual Curvelo traz seu alter-ego, Joder, para mais uma
tentativa de deixar a sina de perdedor
para trás; e Voltei!, da
premiada dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa, aqui, abordando em uma atmosfera
teatral, em um único ambiente, um momento decisivo para o Brasil e para uma
família em reencontro. Também da Bahia, serão exibidos os documentários Rio de Vozes, de Andrea Santana e Jean
Pierre Duret, impactante relato acerca da urgência na preservação do Rio São
Francisco; e O Amor Dentro da Câmera, de
Jamile Fortunato e Lara Belov, que presta uma bela homenagem ao amor de décadas
e à vida em parceria que tiveram Orlando e Conceição Senna.
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Rio de Vozes, de Andrea Santana e Jean Pierre Duret |
Dentre os curtas metragens, destaque para O Barco e o Rio, trabalho amazonense que aborda uma relação
familiar conturbada e com anseios de fuga; 5
Fitas, filme de Heraldo de Deus e Vilma Martins a pintar belo retrato de
uma religiosidade que resiste ao tempo nessa Bahia que vai perdendo raízes, e Ventania no Coração da Bahia, de Tenille
Bezerra, documentário sobre a festa de Iansã. Dois filmes que trazem um retrato
baiano de um período que parece ter sido há muito tempo, mas que se anseia por
ter de volta.
HOMENAGEM
A cineasta, atriz e escritora Conceição Senna, falecida em 2020, é a
homenageada dessa edição do Panorama. Para Cláudio, a importância da homenagem
traz em seu peso um reconhecimento do legado deixado por ela e a importância
desse mesmo legado para as novas gerações. "Conceição
faz parte de uma geração muito corajosa. Hoje, temos dificuldades imensas, mas
já conhecemos muitos caminhos já trilhados anteriormente. Temo que a nova
geração não reconheça a importância dos que estão indo, nos deixando. É um
problema agudo em nosso país: a falta de memória e reverência aos que já tanto
lutaram. Conceição, ainda por cima, sofreu os obstáculos por ser mulher. Atriz,
diretora, apresentadora, dona de um sorriso belíssimo, uma gana de vida
incomensurável! Fica aqui o nosso respeito e gratidão por ela!",
celebra Cláudio.
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O Amor Dentro da Câmera, de Jamile Fortunato e Lara Belov |
LEI ALDIR BLANC
Com o incentivo da Lei Aldir Blanc, votada e aprovada graças aos
esforços da oposição na câmara e senado federal, o festival pôde acontecer
nesse começo de 2021. "A Lei Aldir Blanc
trouxe um respiro fundamental em tempos muito difíceis. Além de trabalho,
trouxe possibilidade de sobrevivência para todo um setor severamente ameaçado.
Sobre o futuro? Sou e tenho que ser otimista até como forma de sanidade mental.
Os editais são formas importantes, mesmo que imperfeitas, de democratizar o
acesso aos recursos. Eles precisam de continuidade e regularidade, precisam ser
anuais, algo que nunca aconteceu na Bahia, por exemplo", alerta Cláudio.
O Panorama segue divulgando uma produção feita no Brasil e no mundo em curtas e longas metragens. Segue discutindo o Cinema. E o mais importante: segue resistindo em um período em que o Cinema, a produção cinematográfica e a indústria cultural têm sua importância e relevância questionada por ineptos que "nos governam".
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 24/02/2021