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OSCAR
CINEMA Após quase um ano sem estreias em salas, premiação foca nos lançamentos de plataformas digitais, refletindo período com pouco a oferecer em termos de qualidade, mas ainda com obras que impactam ao refletir tempos atuais e o resgate de fatos históricos
Por João Paulo Barreto
Acontece hoje, a partir das 20h, a 93ª cerimônia de entrega dos prêmios do Oscar. Em um período atípico, a Academia de Artes Cinematográficas e Ciências precisou se adequar. E tais mudanças, em decorrência da pandemia da COVID-19, trouxeram adaptações tanto nos critérios da escolha dos filmes indicados, quanto na forma como se dará a festa. Em relação aos critérios, o ponto principal é a abertura de indicações de obras lançadas unicamente em streaming (plataformas digitais como Amazon, Netflix, etc), o que não era permitido até a edição de 2020. Vale frisar que indicados como Roma, de Alfonso Cuarón, e O Irlandês, de Martin Scorsese, apesar de produções bancadas e lançadas por tais plataformas, tiveram o até então obrigatório período de exibição em salas de cinema naqueles longínquos e, agora, nostálgicos, 2018 e 2019.
A importância do distanciamento social não foi esquecida pela organização da festa do Oscar. Pelo menos em teoria, claro. Assim, em uma não inédita situação, a cerimônia acontecerá simultaneamente em dois lugares distintos. Mas diferente do período ainda nos anos 1950, quando a festa acontecia tanto em Los Angeles quanto em Nova York (um pesadelo logístico para a época), este ano a cidade na costa oeste estadunidense contará com os dois pontos de realização. O primeiro é o habitual Dolby Theatre, onde a entrega dos prêmio já ocorre desde 2002. E, inovando para um período de mudanças essenciais, a premiação também acontecerá na tradicional Union Station, terminal de transporte ferroviário construído em 1939 e que, no decorrer das décadas, se tornou cenário de diversos filmes, além de, atualmente, abranger galerias de arte e restaurantes.
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Union Station, Los Angeles |
Diante dos baixos índices de audiência observados nas premiações do Globo de Ouro e do Grammy neste começo de ano (sim, a festa só acontece porque anunciantes bancam e eles querem audiência para suas marcas), o Oscar optou por não utilizar transmissões via Zoom (aplicativo de vídeo-conferência) para a entrega das estatuetas, trazendo a reunião para um âmbito presencial reduzido apenas aos indicados e seus acompanhantes. Segundo carta co-assinada e divulgada pelo cineasta Steven Soderbergh, um dos produtores do evento, os protocolos anti-COVID trazidos pela Academia prevêem tratar a cerimônia como um set de filmagens, com testes feitos na hora e equipes médicas com instrumentação necessária para exames PCR, bem como toda preparação prévia para evitar aglomerações. Em resumo, com vacinações atualmente na faixa etária dos 16 anos de idade, não é deslocado citar Ed Mota ao dizer que "se eu fosse americano, minha vida não seria assim".
INDICADOS
Mas em uma matéria sobre o Oscar, comentar seus indicados também é importante. Ao citar na linha fina o tal reflexo de um período com pouco a oferecer em termos de qualidade na sua lista de selecionados, confesso certa dureza na fala. Mas é somente por observar um ano anterior, no qual obras eternas como Parasita e O Irlandês foram premiadas e indicadas, que não pude deixar de transparecer tal sensação de desânimo com o quadro geral de indicados.
Neste propósito de definir filmes cujos impactos que justifiquem uma indicação ao suposto "maior prêmio do Cinema", em alguns deles não são encontrados, ao subir dos seus créditos finais, tal percepção. Cito como exemplo Bela Vingança, um até eficiente thriller com raízes no subgênero exploitation da década de 1970, rape and revenge. A obra escrita e dirigida pela britânica Emerald Fennell traz urgente denúncia contra casos de misoginia e feminicídio, mas ao terminar, a sensação de um filme apenas "ok" é inevitável. Importante em sua abordagem, claro, mas não a ponto de figurar entre as supostas oito melhores produções do ano. Do mesmo modo, O Som do Silêncio, longa que retrata um músico que perde sua audição e busca se adaptar àquela nova realidade, constrói para o espectador um apelo naquele drama pessoal que rima efeitos sonoros e a criação de um ambiente diegético para seu público, porém, falta-lhe o impacto necessário que outras obras oferecem.
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Frances McDormand em cena de Nomadland |
Em proposta semelhante na ideia do cinema calcado no real, Minari traz Steven Yeun, o primeiro ator asiático a ser indicado ao Oscar, no papel de um agricultor sul-coreano que, nos anos 1980, tenta se firmar com sua família no estado do Arkansas. A obra foca em uma narrativa de introspecção, oferecendo para a audiência a possibilidade de refletir sobre os aspectos da personalidade daquela família, seus rumos dentro de uma rotina na qual sobrevivem como imigrantes em um país altamente xenofóbico, bem como os ecos da perseverança dessa mesma família em nossa própria realidade.
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Viola Davis e Chadwick Boseman: preferidos |
Nos filmes cujos resgates de fatos históricos e suas recriações norteiam de maneira primorosa suas narrativas, pontuo a força da atuação de LaKeith Stanfield e Daniel Kaluuya no potente Judas e o Messias Negro, obra baseada em fatos reais e que reconta a tensão da luta dos Panteras Negras contra um sistema opressor no racista Estados Unidos do final dos anos 1960. Em uma narrativa que impressiona por sua intensidade e atuações, Kaluuya entrega aquela que pode lhe garantir o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Do mesmo modo, Mank, retrato indefectível da Hollywood clássica da década de 1930, traz um Gary Oldman inspirado (como sempre) na criação do roteirista responsável por Cidadão Kane, e os perrengues que a produção de Orson Welles precisou passar. Sob a batuta de um perfeccionista David Fincher, o filme, para estudiosos da história do cinema, é um delicioso mergulho no glamour plástico e frágil de uma época que não existe mais.
Mas como dupla perfeita na atuação entre os indicados este
ano, é imprescindível falar de Chadwick Boseman e de Viola Davis em A Voz Suprema do Blues. Boseman,
infelizmente derrotado por um traiçoeiro câncer em 2020, não poderá receber em
vida a consagração da quase certa premiação pela sua atuação na pele de um
atormentado trompetista que tenta sobreviver de sua música em um mundo de
exploração. E Viola Davis, na pele da deusa Ma Rainey, cria para a audiência a
percepção exata de quão gigante era aquela voz suprema do Blues, em um título
nacional mais do que adequado. Prêmio mais do que concreto, aliás. Façam suas
apostas!
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 25/04/2021