sábado, 16 de maio de 2020

Um Crime Entre Nós | Papo com a cineasta Adriana Yañez e com a diretora do Instituto Liberta, Luciana Temer


A brutal perda 
da Infância 



DOCUMENTÁRIO Com estreia amanhã no canal GNT e disponibilizado na página do Facebook do Instituto Liberta, Um Crime Entre Nós traz à sociedade um urgente foco para o combate ao abuso e à exploração sexual infantil

Por João Paulo Barreto


Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, a cada hora, no Brasil, quatro meninas de até 13 anos são estupradas. Além disso, segundo estudo do Ministério da Saúde, a maioria das vitimas de abuso sexual tem até cinco anos de idade. Um estudo trazido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública concluiu que 82% das vitimas de estupro são do sexo feminino, sendo a maioria delas negras e jovens, e que, segundo relatório de atividades da Childhood Pela Proteção da Infância, surgem, a cada ano, 500 mil casos de exploração sexual infantil. Diante de tais fatos e estatísticas, a urgência de uma obra como Um Crime Entre Nós, que será lançada on line amanhã, e o necessário alcance da mesma para o maior número possível de pessoas, é algo prioritário. Mas para além dos números e frieza das porcentagens e estudos citados, o que o filme dirigido por Adriana Yañez traz ao seu público é humanidade. Prioritariamente humanidade, mas, também, afeto e empatia para as crianças traumatizadas e que, por consequência, se tornam adultos para sempre marcados.

Amanhã, 18 de maio, é a data escolhida como o Dia Nacional do Combate ao Abuso e Exploração Sexual Infantil. A ação requerida por tal data, porém, necessita de uma conscientização de todo o país quanto ao peso e seriedade que tal alerta deve trazer à nossa sociedade. Sociedade essa que tem no machismo e no patriarcado características que a serem modificadas em suas raízes. Sociedade essa que tem nas palavras do seu atual chefe do Executivo a normalização na ideia de gastar verba pública para (sic) “comer gente”; a normalização de alguém que afirma em plenário não estuprar uma mulher parlamentar por ela ser feia, que define os casos de feminicidio como “mimimi” e que usa um pronunciamento público para falar das características de “pegador” do próprio filho como uma qualidade a ser vendida. Sociedade machista essa que elegeu tal cidadão e que tem em sua natureza a normalização do estupro, bem como da prostituição de adolescentes e, por consequência, de crianças que são tratadas como objetos em uma troca mercantil na rotina social, e, também, dentro do turismo sexual.

Referência no acompanhamento a mulheres no sistema carcerário, dr. Dráuzio Varella 


CONTRA A OBJETIFICAÇÃO

Parte fundamental de sua ação conscientizadora, o Instituto Liberta foi um dos produtores do documentário dirigido por Adriana Yañez. A diretora-presidente do instituto, a professora de Direito Constitucional, Luciana Temer, aponta as diretrizes do Liberta nas ações de conscientização. “Com o documentário, queremos sensibilizar as pessoas sobre esse assunto. A missão do Instituto Liberta é fazer o Brasil falar sobre isso. Buscamos criar uma empatia nas pessoas para com essa situação. Entender a dimensão do problema, que é gravíssimo. A violência sexual não é uma exceção. É uma regra no cotidiano do nosso país. Temos que apontar o que acreditamos ser um caminho, que é o da educação. É por onde caminha o filme. O caminho das boas práticas, que está em levar esses processos de discussão para as escolas, que é o que pode salvar nossa sociedade no final das contas”, afirma Luciana.

“A educação é uma chave fundamental para o combate à violência sexual infantil”, explica a diretora do documentário, Adriana Yañez, que traz, em pontual momento do filme, uma abordagem pedagógica em sala de aula. “A escola se mostrou, em todas as pesquisas, o principal espaço de denúncia e encaminhamento desses casos. Falar de sexualidade com crianças é dar ferramentas de autoproteção para que elas conheçam o próprio corpo; os limites que devem colocar para as outras pessoas; o que não devem aceitar e como pedir ajuda caso sentindo algo errado. A falta de informação e de atenção ao comportamento das crianças faz com que muitas delas sejam violentadas durante muitos anos sem que nenhum outro adulto saiba”, alerta.

A cineasta Adriana Yañez

A professora Luciana pontua, ainda, a urgência em se priorizar a infância. De não sensualizar crianças e adolescentes, algo que leva a uma consequente objetificação da mulher. “Crianças e adolescentes têm que ter direito ao desenvolvimento integral. Inclusive, o sexual. O desenvolvimento sexual tem que ser saudável e sadio. Essa sexualização precoce não tem, aqui, nenhuma conotação moral. Ninguém aqui está falando de moralismo”, explica a professora ao alertar para o risco de uma sociedade calcada no machismo e patriarcal. “A questão é a naturalização, e isso tem menos a ver com a questão da sexualização, e muito mais com o machismo. É a objetificação do corpo da mulher, que independe da idade que ela tem. Essa conotação de que a mulher é um objeto a servir ao homem. Isso é uma mentalidade muito machista e que está enraizada na nossa sociedade. Esse contexto machista, e que tem a ver com feminicidio, reflete o modo como a mulher é vista na sociedade. E a criança já é vista dessa forma, sexualizada, como propriedade do homem. Isso é algo que vai se construindo ao longo de todas as idades. Desde a menina até a adolescente, a jovem e a mulher”, finaliza.

A diretora do Instituto Liberta, a professora Luciana Temer


HUMANIZAÇÃO E EDUCAÇÃO

Como observado, a urgência em se encarar e resolver o problema do abuso e da exploração sexual vai além das estatísticas e números trazidos. É preciso que a sociedade se incomode com isso. Enxergue a situação tal qual o absurdo que ela representa. No processo de entrevistas e leitura dos casos de abusos e explorações sofridas, o filme de Adriana Yañez nos traz uma angústia necessária. No uso das animações para ilustrar as vidas trágicas daquelas pessoas, bem como na força da leitura de depoimentos, algo além da reflexão é alcançado. O filme lhe traz um ímpeto de mudança. De ajudar naquela causa. E isso denota muito da missão alcançada pelo longa nessa conscientização. “As entrevistas com as pessoas da rede de proteção oferecem um panorama muito profundo da questão e olhares muito sensíveis às histórias das vítimas. Mas acredito que as histórias individuais, as experiências vividas com todas as suas particularidades, nos fazem nos aproximar de qualquer tema de uma outra maneira. É como melhor podemos compreender a dor, o alívio, o medo, o desamparo. Conecta com a nossa humanidade,” explica a cineasta acerca do aspecto de captação dos depoimentos para o filme.

Ao final, Um Crime Entre Nós nos deixa em uma posição de urgência, de nos fazer refletir e agir naquela mudança. Além de fazer valer a lei, que pune crimes de abuso e exploração sexual, a mudança também deve vir da sociedade como ser consciente e humano. Mudar a sociedade a partir da preservação das crianças. E isso somente a educação, distante de qualquer dogma religioso ou moralista, consegue. A diretora Adriana Yañez finaliza: “Outro ponto elementar é o papel da educação na transformação do pensamento machista, racista e misógino que rege nossa cultura. Desde muito cedo, é preciso que as relações de gênero, a história, a cidadania e o respeito sejam trabalhados com as crianças, despertando questionamentos e consciência para pensar e fazer diferente. São conteúdos tão importantes quanto português e matemática, sem os quais não será possível transformar as desigualdades e violências estruturais”.

Este é o norte a ser seguido.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 17/05/2020




sexta-feira, 8 de maio de 2020

Antologia da Crítica Pernambucana – Discursos sobre cinema na imprensa (1924 – 1948)

Pilares do Pensamento Crítico Nordestino



LIVRO Com importante reunião de textos da primeira metade do século XX, escritos de cinema que corriam risco de se perder ganham longevidade merecedora e valiosa à prolífica cena de Pernambuco 

Por João Paulo Barreto

Dentro de uma atual realidade de apagamento proposital e canalha da História do século XX no Brasil, a urgência em se registrar movimentos como o da crítica de cinematográfica no prolífico estado de Pernambuco, a partir dos anos 1920, demonstra-se, através da leitura do livro Antologia da Crítica Pernambucana – Discursos sobre cinema na imprensa (1924 – 1948), como uma ação crucial e enérgica de salvamento da memória de um país que se perde na fugacidade e futilidade de uma era de aparências digitais. Organizado pela realizadora e pesquisadora, Gabi Saegesser, e pelo também pesquisador e crítico de cinema, André Dib, o material tem como esmero fundamental a reunião de escritos que se encontravam dispersos, perdidos em arquivos de jornais e revistas que se esfarelavam e em microfilmagens de difícil acesso ao público interessado.

O livro passa por quatro períodos centrais na história dos discursos sobre cinema na imprensa tanto de Pernambuco quanto na do sudeste, cujas revistas Cinearte e A Scena Muda, bem como o jornal O Fã, trouxeram diversas publicações de autores oriundos de Recife, como Mário Mendonça, Evaldo Coutinho e Josué de Castro, nomes de grande importância para o pensamento crítico no nordeste. Iniciando pelo Ciclo de Recife, período que abrangeu 1923 a 1931, quando diversas produções ficcionais foram lançadas no estado, o livro adentra na chegada do cinema sonoro em Recife, com as diversas correntes pró e contra a inovação que tomaram conta dos escritos na imprensa. Após esse fato, vem a repercussão do lançamento do filme Coelho sai,em 1942, primeiro longa sonoro realizado no nordeste. Em seguida, aborda-se a histórica passagem de Orson Welles por Pernambuco, ocasião em que o diretor de Cidadão Kane captou imagens para o documentário It´s All True (1943), fato que alimentou muito do imaginário cinematográfico no estado. Encerrando com o surgimento dos primeiros cineclubes no estado, o livro traz registros na imprensa de Pernambuco para os principais acontecimentos cinematográficos durante a primeira metade do século XX.

Co-organizador do livro, o pesquisador e crítico de cinema, André Dib

Co-organizador, o crítico André Dib salienta a importância do registro de toda uma época que a obra traz. “Elegemos estes momentos principais, divididos em quatro capítulos no livro, para que possam mostrar como se pensava também a produção do cinema no Recife e a produção do cinema no mundo”, explica. Na questão crucial da preservação, Dib pontua ainda que “o esforço, quando foi definido esse recorte, ficou claro de que a ideia inicial ainda estava presente: preservar as formas de pensar cinema daqueles períodos. Se a gente não reúne o que estava disperso, talvez não ficasse tão claro como um patrimônio, mesmo. Um patrimônio que é o pensamento sobre cinema”, esclarece.

RECIFE E SUDESTE

Dentro dos quatro capítulos trazidos pelo livro, os aspectos da trajetória da crítica de cinema, que começou a ser produzida em Pernambuco a partir dos anos 1920, permitem ao leitor uma percepção da construção dos modos de observação da arte cinematográfica pela imprensa que se familiarizava com aquele tipo de expressão artística surgida em 1895. Inicialmente, como bem salientam os organizadores, os textos têm um perfil mais informativo acerca das produções. Após um período, surge o que é definido como textos reflexivos em um perfil “laudatório e ufanista”. As publicações de textos sobre os filmes do Ciclo do Recife, no decorrer daquela década, são destaques em impressos do sudeste, como os citados Cinearte e A Scena Muda. 

Co-organizadora, a pesquisadora e realizadora, Gabi Saegesser Foto: Hans Santos

“A Cinearte, no Rio de Janeiro, pertencia ao Adhemar Gonzaga, que tinha uma produtora, era exibidor e estava envolvido em diversas áreas da atividade cinematográfica. Ela publicava muitos escritos do Mário Mendonça sobre o Ciclo do Recife. Adhemar, com toda essa atuação na área, tinha um desejo genuíno de que o cinema nacional fosse forte. Que fosse uma indústria. Ele tinha essa visão de empresário, visionário, de amante do cinema brasileiro”, contextualiza Dib.

KANE EM RECIFE

A visita do diretor Orson Welles a Recife e Olinda, em 1942, é um daqueles acontecimentos que, quase 80 anos depois, ainda alimenta o imaginário de muita gente, cinéfilos ou não. De passagem pela capital pernambucana na vagem de ida e volta do Rio para Fortaleza, o cineasta pôde se aproximar da cultura nordestina, tendo contato com jangadeiros, conhecendo o frevo e dando a opinião definitiva sobre a questão do cinema falado vs. mudo.

“Ele deu muitas entrevistas. E apesar de nada disso ter gerado textos críticos, incluímos na coletânea por conta dessa força do imaginário cinematográfico que representa essa presença de Orson Welles no Recife. Ele declarou vontade de dirigir um filme de cangaceiro e com ele no papel de Lampião. Ele assistiu a um espetáculo de frevo. Antes de ver, comentou que o frevo parecia uma tarantela. Uma coisa meio ofensiva para os pernambucanos. Não se sabe o que ele achou do espetáculo. Mas há textos na coletânea dizendo que a especulação é que ele teria mudado de opinião”, explica Dib. Sobre a questão do cinema mudo vs falado, o comentário de Welles “That’s a lero lero” ficou imortalizada. “O que importa é a liberdade do artista. E esse That´s a lero lero virou o título do filme do Lirio Ferreira e Amin Stepple”, relembra. 

Orson Welles, em 1942, desembarca no Recife
  
PRIMEIRO FILME SONORO

Um dos importantes pontos do livro, algo que salienta justamente essa necessidade do resgate de publicações, é o fato de que, perdida em um incêndio, a única cópia de Coelho sai, primeiro filme sonoro produzido no nordeste, só pode ter suas imagens acessadas através do registro da imprensa da época, que trouxe a produção, também, em uma versão filme-revista. “Hoje, só é possível conhecer o filme pelos textos que o descreveram e pelos anúncios, fotos de bastidores. A Scena Muda publicou fotos e textos sobre Coelho Sai. É curioso que é, também, uma adaptação musical. Coelho sai é um frevo de Nelson Ferreira, e virou essa revista, o filme-revista de atrações musicais e de performances. Envolveu toda a classe artística da época”, explica André Dib, que lamenta a perda trazendo um alerta: “É realmente uma pena que o filme se perdeu. Mas aí a gente vê a importância do registro da imprensa, e também dessa preservação desses registros. Porque, da mesma forma que se perdeu o filme, esses jornais também estão indo embora. Eles estão se esfarelando nos arquivos”, finaliza.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 09/05/2020


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Palestra - História do Blues

Blues 
 Do Mississippi a Salvador 

O prodigioso guitarrista e doutor em Música pela UFBA, Eric Assmar

PALESTRA Referência no estudo do Blues no Brasil, guitarrista Eric Assmar apresenta nessa sexta, às 20h30, no YouTube, palestra musical sobre a história do grito negro que pariu o Rock and Roll 

Por João Paulo Barreto
Especial para A Tarde

Um mergulho pela História do Blues, passando pelo desenvolvimento do estilo musical desde seu surgimento com as work songs oriundas do período da escravidão dos povos afrodescendentes nos Estados Unidos do final do século XIX; pelo surgimento de ícones como Charley Patton (1891 - 1934), "Blind" Willie Johnson (1897 - 1945), dentre outro, avançando para pilares como Robert Johnson (1911 - 1938), Son House (1902 - 1988), T-Bone Walker (1910 - 1975), Muddy Waters (1913 - 1983), Howlin' Wolf (1910 - 1976), dentre muitos outros, e enveredando-se pela influência do estilo no Rock and Roll de Elvis Presley (1935 - ?) e daqueles oriundos da Inglaterra na presença de nomes como Yardbirds, Beatles, Led Zeppelin e Stones. Some a isso toda uma onda de influências que o estilo trouxe para a música feita no Brasil, que, a partir do anos 1980, passou ter seus próprios ícones do Blues na figura de artistas como André Christovam, Blues Etílicos, Celso Blues Boy (1956 – 2012), dentre outros, até chegar à Bahia de nomes como Álvaro Assmar (1958 – 2017), Talk’ in Blues e movimentos como o do Bar Ateliê e do Festival Wednesday Blues, em Salvador.

Ufa! Mas, calma, toda essa onda de informação será trazida a nós por um mestre. Quer dizer, mais que um mestre. Um doutor em Blues. O exímio guitarrista baiano, Eric Assmar, apresentará nessa sexta, dia 08, às 20h30, ao vivo em seu canal do YouTube, a palestra História do Blues: do Mississippi ao Rio Vermelho, na qual, em quase uma hora de papo, música e informação preciosa, contextualiza para os apreciadores do Blues a importância do estilo como identidade musical e Histórica no século XX. “É uma palestra que eu já tinha feito em algumas outras ocasiões e em alguns eventos privados e corporativos. Mas essa vai ser a primeira vez em que eu vou apresentar esse trabalho no formato on line”, explica Eric. 

Muddy Waters (1913 - 1983) - Pai do Chicago Blues

FORMATO

Em uma realidade de imprescindível confinamento para impedir uma propagação ainda maior da pandemia, a internet passou a servir como uma aproximação segura entre fãs e artistas. Pensando nisso e em um melhor aproveitamento por parte da audiência, Eric trará um formato de captação de áudio e imagem especial. “Já venho fazendo lives gratuítas em meu perfil do Instagram, participei do evento Bahia de Mãos Dadas, que trouxe vários artistas do nosso estado em uma campanha de levar arte às pessoas via internet e tornar menos sofrido esse momento. Então, para essa palestra, eu resolvi usar o meu canal do YouTube por entender que o acesso nas smartTvs é mais fácil para fazer esse link”, pontua.

No caráter histórico do Blues, Eric, que teve sua tese de doutorado voltada para o Estudo da Guitarra Blues, apresentará os principais elementos na formação do estilo musical. “Começo com a questão das worksongs, que serviram como base para o que viria a ser chamado de blues posteriormente. A escravidão dos povos negros nos trabalhos em campos de algodão, a diáspora, os cantos dos escravizados ouvidos nessas worksongs dos campos de trabalhos forçados dos Estados Unidos, e identificando o Blues como uma música que surge a partir, também, dessas referências com canções de matriz religiosa e de povos indígenas que habitavam a América do Norte. Vou estar no formato solo, cantando e tocando violão. É um conteúdo dedicado a pessoas que amam o blues de um modo geral. Ele não fica somente segmentado a músicos”, salienta. 

André Christovam - Principal nome no Blues brasileiro 

FIGURAS HISTÓRICAS

Além dos nomes citados no começo, Eric traz outros pilares do Blues para o papo, que contará com projeção de imagens para ilustrar as fases do Blues e, claro, música ao vivo para brindar às tais lendas do estilo. “Após a apresentação com as origens, na presença de nomes como Charley Patton, “Blind” Willie Johnson, Robert Johnson, Son House, sigo para a década de 1940, quando começa a eletrização do estilo, com melhores captações dos instrumentos. A partir daí, falo do que foi chamado de Chicago Blues, que é quando o estilo chega aos grandes centros urbanos. É quando surgem as bandas de Blues, com guitarras elétricas, baixo acústico ou elétrico e, claro, o uso de gaitas. Um dos grande nomes nesse período é o de Little Walter (1930 – 1968), figura chave na gaita do Blues”, finaliza Eric.

Diante de tanta frivolidade em tempos virtuais, nos quais a internet possui papel central na nossa rotina, poder ter acesso a algo como um breve compêndio da História do Blues, e, ainda, através de um dos seus maiores representantes na Bahia e Brasil, bom, só posso dizer que a próxima sexta feira trará mais satisfação a esses tempos de confinamento.

*Matéria publicada originalmente no Jornal A Tarde, dia 06/05/2020

sábado, 2 de maio de 2020

Aeroporto Central | Papo com Karim Aïnouz


Incerto Refúgio 


Disponível nas plataformas digitais, premiado filme de Karim Aïnouz aborda com humanidade o drama de refugiados de guerra na chegada e permanência indefinida em aeroporto alemão 

Por João Paulo Barreto

Da gigantesca e impressionante estrutura arquitetônica do desativado Aeroporto de Tempelhof, em Berlin, na qual a guia turística contextualiza os visitantes da importância histórica do local e da razão de sua imponência física relacionada à expansão bélica do nazismo na Alemanha da década de 1930, passando para uma panorâmica aérea do prédio e a um corte súbito para o ambiente fechado onde é feito o cadastro de homens e mulheres, todos refugiados de guerra. O local serviu por quatro anos como local de permanência de refugiados de guerra na espera por um visto de estadia na Alemanha. O modo abrupto e pontual como as duas cenas se contrapõem logo nos minutos iniciais de Aeroporto Central, documentário de Karim Aïnouz, denota bem a condição psicológica de muitas daquelas pessoas no aguardo incerto de um visto de permanência na Alemanha.

“O Tempelhof tem uma coisa que é muito singular. É a maior edificação nazista que ficou de pé depois da guerra. Uma cicatriz mal suturada do que foi o nazismo, do que foi a escalada da arquitetura nazista. É curioso como a história é irônica. O que foi um lugar destinado a consertar aviões que iam promover a guerra e a morte, virou um lugar de abrigo de pessoas que estavam fugindo da guerra”, pontua Karim.

O cineasta cearense, residente em Berlin, nos dá a perspectiva daquela sensação de espera através de duas daquelas pessoas, dois refugiados dos horrores da guerra: o jovem estudante sírio de 18 anos, Ibrahim Al Hussein, e o fisioterapeuta e estudante de medicina iraquiano, Qutaiba Nafea. O antigo aeroporto, que antes da chegada dos refugiados à Alemanha já tinha suas pistas sendo utilizadas como parques públicos de recreação e convivência, se torna a residência dos dois e de outras centenas de pessoas oriundas de países do Oriente Médio, onde as guerras religiosas, terroristas e milicianas seguem sendo travadas. Pela narração de Ibrahim, Karim Aïnouz concede ao espectador aquele aprofundamento na vida do jovem.

 Ibrahim Al Hussein e Qutaiba Nafea: refugiados à espera de um visto

LEMBRANÇAS URGENTES

Em certo momento, Ibrahim relembra um verão que teve que passar todo em casa por conta dos conflitos que aconteciam próximos ao rio Eufrates, onde costumava ir durante a estação. Também nessas lembranças, ele referencia o fato de que, onde morava, seu vizinho mais próximo vivia a um quilometro de distância. Logo, apesar de habituado ao isolamento, não se adaptava à distância familiar, uma vez que deixara pais e sete irmãos para trás, em Alepo. Naquela permanência de 15 meses no aeroporto, enquanto sua situação de residente na Alemanha era avaliada com o governo, criou vínculos e amizades, colocando a cada dia seus planos de futuro à prova.

Convivendo no mesmo lugar, mas ao menos com sua esposa ao seu lado, o fisioterapeuta Qutaiba teve a função de tradutor lhe atribuída, tendo em sua rotina algo que lhe ocupava a mente e lhe permitia focar em algo diferente da lembrança do conflito do qual fugiu no Iraque. Obviamente, esse otimismo soa como um eufemismo, uma vez que, lidando diariamente com os relatos que precisava traduzir para as equipes alemãs, qualquer possibilidade de escape mental dentro de uma rotina de trabalho lhe era quase nula. Nas conversas do homem com um profissional de saúde presente no lugar, conhecemos sua experiência médica no Iraque e sua vontade de conseguir aplicar aqueles conhecimentos em uma possível nova vida na Alemanha.

Através do dia a dia de Ibrahim e Qutaiba, Aïnouz leva à frente sua narrativa, colocando o aeroporto, também, como um personagem do filme, uma vez que, naquele momento, o lugar representa o porto seguro para aquelas famílias que fogem dos horrores da guerra. Nessa rotina, vemos refeições sendo servidas, pessoas a caminhar pelos hangares, conversar ao celular, consultar assistentes sociais, bebês recebem vacinas e crianças são examinadas por médicos, em um modo direto de observação daqueles dias. 

Os dormitórios situados no aeroporto

IGNORÂNCIA SOBRE O OUTRO

Em certos momentos, tal modo permite ao espectador um vislumbre da imagem que o ocidente tem da cultura oriunda do mundo árabe. Um exemplo surge na época de Natal. De maneira até ingênua, mas não menos patética, vê-se uma árvore de Natal instalada na área de convivência e alguém vestido de Papai Noel a interagir. “Uma coisa da Alemanha, que é muito fascinante, é uma certa ignorância sobre o outro. Quer dizer, se você estivesse em um país que tem uma história colonial como a França, que tem uma relação muito forte com o muçulmano, eles teriam consciência de que aquelas pessoas não são católicas”, explica Karim. Porém, observando a necessidade de se pontuar a passagem do tempo, nota-se até certo significado no ato. Porém, não menos nonsense. “Tinha até uma certa inocência ali. Crianças oriundas de uma população majoritariamente muçulmana brincando com o Papai Noel. Havia algo ali que era até um pouco patético. Mas era humano, também. Porque eu não acho que em momento nenhum existia uma força colonizadora naquele ato”, salienta o cineasta.

Ao nos colocar diretamente em contato com aquelas duas pessoas tentando nutrir uma esperança por um futuro diferente do trágico passado do qual escaparam, Aeroporto Central permite uma reflexão dolorosa acerca da necessidade de se despir de preconceitos quanto ao mundo árabe. “Se você pensa no que aconteceu em Berlin, no Mercado de Natal, em 19 de dezembro 2016, ou o que houve em Cologne na noite de ano novo daquele mesmo ano, você observa uma vilanização do jovem árabe. Ele se torna o grande vilão das narrativas migratórias. Quando eu conheci Ibrahim e Qutaiba, minha intenção era poder registrar que eles representam o oposto disso”, explica Karim.

Em uma das cenas mais simbólicas, Ibrahim, que passou 15 meses no aeroporto, observa a queima de fogos do réveillon daquele ano. Em sua postura, um anseio por um futuro seu e para sua família que ficou na Síria, é palpável. “Minha vontade era de construir uma narrativa que de alguma maneira fosse o contracampo dessa narrativa fascista de demonização do imigrante, principalmente do jovem árabe”, finaliza Karim.

*Texto publicado no Jornal A Tarde, dia 03/05/2020


sábado, 25 de abril de 2020

Moraes Moreira e os Filhos de João | Papo com Henrique Dantas


“Moraes Moreira é todo um país” 

Em 2009, Henrique Dantas e Moraes Moreira no Festival de Brasília. Foto: Aline Arruda

TRIBUTO No despertar doloroso da perda do cantor, compositor e amigo pessoal, cineasta Henrique Dantas, que levou a história dos Novos Baianos aos cinemas, relembra sua amizade com o poeta

Por João Paulo Barreto

“De alegria cantar, porque sei que a dor não tem lugar permanente no coração de ninguém. De ninguém.” Foi com a citação desse verso de Sempre Cantando, clássico de Moraes Moreira lançado em 1975, que comecei a conversar com o cineasta Henrique Dantas, diretor do filme Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano, documentário sobre a banda pilar da Música Popular Brasileira, lançado em 2009 e disponibilizado gratuitamente na plataforma Looke (www.looke.com.br). Com o consolo dessa esperança que a letra traz ao acordar pesaroso da perda de Moraes Moreira, revi o filme de Henrique e conversei com o realizador da obra. Na perda do amigo e nas lembranças da produção que levou onze anos para se completar, entre diversos depoimentos dos integrantes e de pessoas que cercaram aqueles filhos de João, Henrique Dantas tinha em sua voz o pesar recente. No entanto, a lembrança da energia positiva de Moraes levou à frente aquele nosso papo.

“Moraes falou tudo através das músicas dele. Eu estava lendo aqui as nossas mensagens, mas não tive coragem de ouvir os áudios que ele me mandou. Aí me deparei com algo que mostrava muito dessa humildade que ele tinha. Ele me perguntou o que eu achava de Ser Tão, o disco dele. Imagine! (risos) Quem sou eu pra achar alguma coisa sobre o que Moraes compôs. Isso é algo muito doido”, relembra Henrique. Muito dessa generosidade de Moraes fica perceptível no processo de criação de Filhos de João. Inicialmente sem vontade de participar, de falar sobre a sua antiga banda, Moraes acabou sendo convencido por Henrique através de uma identificação mútua entre os dois baianos. Dessa identificação, uma amizade surgiu e Moraes topou participar do documentário. “A utopia dos Novos Baianos é algo que sempre me cativou. Passei muito tempo querendo viver em uma comunidade, do mesmo modo que eles viveram. Quando conheci a sua história, a utopia deles passou a ser a minha utopia, também. É como aquilo que falava o Neruda: quando você escreve uma poesia, ela passa a ser de quem lê”, cita.

Ao lado de Baby Consuelo, ainda nos anos 1970

“SÃO TODOS FILHOS DE JOÃO”

Na criação do documentário, mais de uma década se passou. A cada depoimento captado, uma identidade de um artista que surgiu junto com duas das obras pilares do cinema baiano, Caveira My Friend e Meteorango Kid, que tinham músicas daqueles que viriam a se tornar o fenômeno Os Novos Baianos, foi sendo registrada por Henrique. Libertário e fiel a uma vontade deixar sua marca artística no mundo, Antonio Carlos Moraes Pires contou a Henrique que deixou o emprego que tinha, aos 20 anos de idade, no promissor Banco do Estado da Bahia, porque exigiram que ele deveria cortar o cabelo. “Moraes era corajoso. Pediu demissão do banco naquele momento. Vindo do interior, tendo que pagar pensão pra morar em Salvador, o cara larga uma dessa. Isso porque ele sabia que iria virar um país. Ele tinha certeza disso. Da força dele quanto artista. E eu acho que isso é algo indispensável. E não é a prepotência, não. Mas, sim, a crença calada em seu próprio talento”, define Dantas.

No filme, essa ideia utópica frisada por Henrique é trazida pela vida em conjunto da banda, que, primeiro, morou em um apartamento no Rio de Janeiro, local onde criaram um grande entrosamento. Lá, receberam a visita de João Gilberto que lhes trouxe uma relação mais próxima com o samba. Dessa influência, surgiu Acabou Chorare, álbum que imortalizou a banda. No apadrinhamento de João Gilberto, uma relação de paternidade citada por vários dos entrevistados para o filme, principalmente Tom Zé e o cineasta Orlando Senna. “Havia um problema em usar o nome Os Novos Baianos como título do filme, que iria se chamar Novos Baianos – Retrato de um Brasil Musical. Mas várias pessoas com quem eu conversava diziam deter os direitos do nome. Eu não ia usar, pois ia acabar sendo processado por cinco lados diferentes”, diz, entre sorrisos, Henrique Dantas. Nas falas de Tom Zé e de Orlando Senna, essa relação da banda com João Gilberto se evidencia. “Lembro de comentar na época com o (cineasta) Caio Vecchio ‘olha, rapaz, para mim, ali são todos filhos de João’. E foi quando esse conceito para o nome do filme surgiu”, relembra Dantas.

Poster do filme de Henrique Dantas

UTOPIA E ALEGRIA

No mais recente filme de Henrique Dantas, Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar, exibido ano passado no Festival de Brasília, Moraes Moreira aparece para um depoimento acerca da lenda de Caymmi. “Eu me lembro que falei com ele na ocasião sobre o filme que estou fazendo sobre o cinema udigrudi baiano e disse que ia entrevistá-lo. E a ideia de fazer um filme sobre ele, sobre Moraes, também surgia em nossas conversas. Eu achava que Moares ia ser tão eterno. Juro a você que eu não esperava que ele morresse tão cedo. Dia nenhum. Por nada. Se um dia eu fizer um filme sobre ele, vou transformar Moraes em um país. Porque eu acho que ele deveria ser chamado assim. Deveria haver um país chamado Moraes Moreira”, declara o cineasta.

No último encontro, entrevista para filme sobre Caymmi. Foto: Luciana Queiroz

Através de um artista que nos trouxe tanto, a perda dele em um momento tão triste e sombrio do Brasil não deixa de ser pontuada por Dantas. E seu legado, também. “Moraes é um cara que me deu de presente duas coisas: a utopia dos Novos Baianos e a Alegria como modo de viver. Ele me deu duas coisas fundamentais e que são minhas. E não tem período ruim, não tem período fascista nenhum que tome isso de mim”, finaliza Henrique.

O poeta cumpre sua trajetória com esmero.


* Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 26/04/2020


sábado, 18 de abril de 2020

Brincante - O Filme | Papo com Antonio Nóbrega

Lúdico Necessário 



CINEMA EM CASA Liberado gratuitamente no YouTube, Brincante, filme de 2014 dirigido por Walter Carvalho e com o multiartista Antonio Nóbrega, ganha ressiginificação e traz luz a tempos tão sombrios 

Por João Paulo Barreto

A necessidade do lúdico nunca foi tão essencial. Não como uma simples fuga de uma realidade que parece querer nos estilhaçar psicologicamente dentro dessa apreensão em torno do nosso futuro, afinal, nenhuma fuga é capaz de nos fazer esquecer o que atualmente nos assombra. Mas, sim, como uma espécie de paliativo. Algo que sirva como um breve momento de alivio diante de tantas más notícias e presságios sombrios a nos ameaçar. Foi com essa sensação de leveza momentânea que revisitei, após seis anos, Brincante – o Filme,obra de Walter Carvalho acerca do projeto cultural liderado pelo multiartista Antonio Nóbrega.

E a impressão de adentrar em uma realidade de leveza que nos tira dessa gravidade da atualidade se confirmou em cada um dos breves 90 minutos do filme, que foi disponibilizado gratuitamente no YouTube, no canal do Instituto Brincante, essa semana. Para acesso direto, basta buscar por Brincante – O Filme íntegra.

Antonio Nóbrega em cena de Brincante

OUTROS CONTORNOS

A ressignificação que a obra nos traz seis anos depois de seu lançamento comprova a importância da arte popular em tempos nos quais ela é abertamente negada por aqueles que detêm os mecanismos políticos de propagação cultural. O desânimo nesse sentido e a vontade de mergulhar nesse lúdico vêm forte quando lembramos disso. Quando lembramos que, há poucos anos, havia um Brasil que tinha uma valorização maior destinada ao cinema, à dança, às artes plásticas, ao circo, à música popular, à arte mambembe, ao cordel, à poesia, onde projetos de difusão de tais expressões possuíam um espaço em planejamentos, ao invés de serem esculachados por interesses mesquinhos de projetos pessoais de política. É quando, mesmo sem querer, voltamos ao real.

Tal real, repleto de tempos acelerados, regidos por uma necessidade estranha de constantes conexões virtuais, nos afasta da introspecção necessária à reflexão. “Escutai com silêncio e atenção o momento imortal da criação. É o mundo que recomeça agora”, afirma Tonheta, personagem de Antonio Nóbrega logo nos minutos iniciais de Brincante. É quando saímos da constante pressa desse mundo, no qual telas de celular e metas de “likes” se tornam obsessões. Em Brincante somos levados a um mundo de desaceleração e apreciação. A dança, a música e os sorrisos adentram a grande metrópole, que rima com a simplicidade das pequenas cidades. “As redes sociais tomam um tempo bastante grande nosso. Às vezes desmensurado. E nós ficamos até um pouco atônitos, sem saber como responder a elas. Há momentos em que pensamos em negá-las completamente. Isso ocorre muitas vezes quando estamos sendo excessivamente requisitados,” opina Antonio Nóbrega.

Tal busca por uma menor velocidade no absorver de informações precisa chegar a adultos e crianças. Estas, sim, ainda sem a consciência do que é um tempo menos frenético, capaz de ser encontrado em expressões artísticas, requerem um atenção maior. “A gente quer restituir à criança uma cultura que seja mais compatível com a sua idade física e com a sua idade mental. É provável que o uso do celular traga ganhos em algum sentido. Mas é também muito provável que ele traga perdas. E essa equalização é que consiste na luta que todos nós temos de tentar empreender para ver como colocamos tudo isso nas nossas vidas de uma forma menos agressiva e menos dominadora”, explica Antonio Nóbrega.

A arte como fuga lúdica dentro de uma realidade

PROJETOS BRINCANTES

Além do filme já disponibilizado no canal do Brincante no YouTube, a partir de amanhã, dia 20, e seguindo até o dia 29, sempre às 19h, um total de 40 aulas de música, dança e poesia serão disponibilizadas no mesmo canal. No site do instituto (institutobrincante.org.br), contribuições voluntárias podem ser feitas para ajudar na manutenção do local atualmente fechado por conta da pandemia.

“Nós nos dedicamos principalmente ao ensino da percussão, da música e da dança brasileira. Sobretudo aquelas ligadas ao universo chamado de cultura popular, que é muito rico em representações simbólicas. Matrizes culturais, sejam em relação à música, à dança e à poesia. Vamos aproveitar esse período para mostrar como é que a gente trabalha esse universo. Como é que a gente dinamiza, recria e potencializa. Temos um elenco bastante grande, heterogêneo de professores. E cada um deles vai mostrar um pouco do que faz em sala de aula, as suas atividades com os alunos dentro do Instituto Brincante. Essa é a filosofia desse evento”, pontua Antonio Nóbrega

Em uma atualidade na qual pretensamente poderosos e com exércitos de ignorantes ao seu redor se declaram abertamente contra a cultura e a arte, esse tipo de iniciativa representa um alento para a angústia que se faz presente em uma realidade de incertezas. Principalmente para a identidade cultural do Brasil. “Esses cantos, esses toques e essas danças são as pedras do meu céu e as estrelas do meu chão. Com eles, soletro, penso e esperanço meu sonho humano. Com eles aprendi a amar o meu país e o seu povo”, ouvimos Antonio Nóbrega dizer ao final de Brincante – O Filme. E a vontade de esquecer a realidade que nos cerca só cresce. Mas esquecer não significa abandoná-la. Sigamos resistindo.

*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 19/04/2020


terça-feira, 14 de abril de 2020

Mídia física vs. streaming

DVDs e blu-rays vivem!

Lançamentos do selo Obras Primas do Cinema


COLECIONISMO Com oficial queda na qualidade de sinal das plataformas de streaming, acesso a filmes através de mídia física, apesar do mercado combalido, ainda é um caminho para alimentar a cinefilia

Por João Paulo Barreto

Dentro das mudanças nos meios de acesso ao cinema em casa, definitivamente a mais impactante negativamente em termos de qualidade de imagem e som se deu com a ascensão do streaming a partir da segunda metade dos anos 2010. Enquanto que nos anos 1990, a migração do VHS para o DVD gerou um aumento impressionante nessa mesma qualidade no consumo de filmes, hoje, com as plataformas digitais, o que temos é uma disparidade. Há, sim, uma oferta imensa de entretenimento entre série e filmes. Mas é tão fácil assim ter acesso a exatamente o que a pessoa deseja assistir? Ou acabamos por nos tornar reféns de algoritmos que constroem um menu de opções ao “nosso gosto”? E na questão do aproveitamento em termos de imagem e som? Com conexões ruins de internet, lentidão no acesso e filmes que simplesmente desaparecem ao capricho das gigantes de streaming, o benefício é tão vantajoso assim em relação aos discos digitais de DVD e blu-ray?

Em tempos urgentes de quarentena por conta da pandemia do COVID-19, plataformas como a Netflix e a Globo Play anunciaram a necessidade de diminuir a sua taxa de bits devido a alta quantidade de pessoas conectadas.  Do mesmo modo, muitos provedores de internet têm sinalizado aos clientes intermitências no sinal. No acesso aos filmes, outro contra: o processo de escolha das obras segue uma demanda imposta pelos próprios canais, que mantêm em seus catálogos apenas filmes com muitos espectadores, podendo torná-los indisponíveis no momento em que decidirem que eles têm poucas visualizações ou apelo. Indo na contramão desse modo de alimentar a cinefilia, o mercado voltado para colecionadores de DVDs e blu-rays no Brasil ainda respira. Selos como Versátil Home Vídeo e Obras Primas do Cinema possuem lançamentos mensais em uma regularidade constante e, o mais importante, clientes fieis que têm na compra e no colecionismo de filmes seu modo de acesso à sétima arte em casa.

Lançamentos do selo Versátil Home Vídeo 

CURADORIA E CUIDADOS

Para Rodrigo Veninno, um dos curadores do selo Obras Primas do Cinema, empresa que mantém uma média de três a cinco lançamentos mensais em boxes de filmes, a escolha do catálogo de obras se baseia em ajudar o espectador a sanar a dificuldade de encontrá-las. Principalmente em tempos de downloads via torrents. “Geralmente, quando eu planejo um lançamento em qualquer linha, seja de um tema ou de um diretor, ator ou atriz, eu me baseio em duas dificuldades do espectador: a de encontrar aquele filme para assistir e a de encontrar uma legenda”, afirma Rodrigo. E complementa com o fato de que o idioma pode ir muito além do inglês. “Claro que não é todo mundo entende o idioma inglês. Mas, é preciso lembrar que há um público que gosta, também, de cinema tcheco, de cinema japonês, por exemplo. A dificuldade nesses casos é ainda pior”, explica.

Diretor da Versátil Home Vídeo, outro selo a se dedicar a lançamentos de filmes voltados para o colecionismo no Brasil, André Melo destaca que a relação do cliente com o produto é algo que traz uma afetividade que nenhum streaming pode suprir. “Quando adquire um box, esse cliente pega a capa, vê em verniz ali aquela imagem selecionada. Lá está escrito o nome do diretor, autor, atriz, ator que ele admira. Ele tem um relacionamento com aquele produto. É uma coisa muito mais afetiva, de se abrir o filme, ter um encarte, ter uma luva toda delicada em volta. E há os cards com imagens de quando aquelas obras foram lançadas no cinema. E isso é uma coisa que você não acha no Google. Você não acha isso facilmente no mercado”, explica.

Celso Menezes, do Blog do JC, e sua coleção

E ainda é importante pontuar que, para além dos longas em imagem e som ideais, na mídia física há um diferencial que nenhum streaming traz. André explica: “Nesse produto, o público encontra making of dos filmes, comentários do diretor, entrevistas do elenco. Isso é uma coisa que a Versátil coloca nos seus lançamentos e tenta cada vez mais manter. Buscamos sempre não fazer um lançamento cru, só com o filme” pontua o diretor da Versátil.

LOJAS VIRTUAIS

Com as até então gigantes do varejo como Livraria Cultura e Saraiva entrando em recuperação judicial, ou outra tradicional revendedora de mídia física como a Lojas Americanas queimando (sem renovar) seus estoques, as lojas on line dos próprios selos têm entrado no jogo da venda direta para o consumidor, sem a necessidade de passar pelos revendedores. “Até 2016, a gente trabalhava com 70% a 80% do foco de nossa receita voltado para as duas livrarias. Após essa crise que começou a afetar ambas, mudamos nosso foco. Fizemos uma aproximação com nosso cliente via redes sociais. E muitos começaram a nos procurar perguntando como adquirir nossos produtos. Hoje, posso dizer que 70% a 80% de nosso faturamento vem de nossa própria loja”, salienta André Melo.

Além de colecionador e dono de um acervo de quase cinco mil filmes, Celso Menezes, é roteirista e colaborador do Blog do JC, um dos maiores sites voltados para informações de blu-rays e DVDs lançados no Brasil e no exterior. Para ele, uma das muitas vantagens da mídia física é o acesso rápido às obras. “O acervo disponível no streaming é limitado. A busca pelos filmes não é tão fácil. Hoje, se você falar que vai assistir a, por exemplo, a filmografia do Hitchcock, vai ser como? Não tem locadoras, você não vai ver na TV aberta ou fechada. Na Netflix, se tiver, vai ser um ou outro. Existe uma demanda. Citei o Hitchcock por ser um grande cineasta, mas existem mais cineastas, existem outros movimentos cinematográficos, e tudo isso não está no streaming. E alguns títulos mais clássicos que havia lá, foram retirados pela Netflix”, ratifica Celso. 

Itamar Castelo e sua coleção
Outro cinéfilo inveterado, Itamar Castelo tem uma coleção com mais de 1500 unidades entre blu-rays e DVDs. Coleciona filmes desde os anos 1990. Hoje, adquire muitos de seus itens via internet. Para ele, “empresas como Versátil e Obra Primas do Cinema têm uma preocupação com a apresentação, a qualidade do produto. Tanto fisicamente como em suas embalagens e cards. Como filmes clássicos, catálogos inéditos, versões remasterizadas e restauradas. Além disso, blu-rays com maior capacidade e qualidade de imagem”, pontua em relação a importância dos selos nacionais para os cinéfilos.


Ainda sobre o streaming, André Melo, do selo Versátil, é enfático. “No Netflix e outras plataformas, é um algoritmo que identifica que você gosta de um tipo de tema e você vai parar com um robô que define o que pode ser que você goste, a questão do conteúdo e onde o mesmo é armazenado. E ali você não vai encontrar nem 1% do que foi feito de audiovisual na História. Acho que nenhuma plataforma tem essa capacidade. Com o DVD, blu-ray e os extras que vêm nas mídias, a experiência se torna muito mais do que apenas consumir um filme”, finaliza.



*Matéria publicada originalmente no Jornal A Tarde, dia 14/04/2020



sexta-feira, 3 de abril de 2020

Isolados, mas com Cultura


Quarentena
com Cinema Baiano

Astrogildo e a Astronave, de Edson Bastos,
é um dos destaques disponíveis 

Com as imprescindíveis medidas de confinamento para evitar uma ainda maior epidemia do COVID 19, uma opção de acesso à cultura vem da recente filmografia baiana disponível on line

Por João Paulo Barreto

Com o necessário fechamento de salas de cinema, teatros, suspensão de shows musicais e outros eventos de entretenimento, o confinamento em lares até que haja um controle mínimo da pandemia do COVID - 19 tem feito as pessoas se voltarem aos filmes disponibilizados em plataformas digitais, bem como, os que ainda mantêm o hábito de consumir filmes em mídia física (o caso deste que vos escreve), os bons e velhos disquinhos de DVD e blu-ray. E, em decorrência da imprescindível necessidade de se ficar em casa, cineastas da Bahia têm liberado seus conteúdos em plataformas digitais, como YouTube, Vimeo, além de canais de streaming, que já exibem as produções feitas aqui no estado.

CURTAS METRAGENS

A produtora Olho de Vidro, por exemplo, liberou on line no Vimeo curtas recentes, como Estela (vimeo.com/238511289), curta de 2017 estrelado por Paula Lice, que, no Panorama Internacional Coisa de Cinema, recebeu menção honrosa por sua atuação. O curta é dirigido por Hilda Lopes Pontes e também teve exibição no II Festival Poe de Cinema Fantástico. Ainda no âmbito do cinema de gênero, A Triste Figura (vimeo.com/255212158), filme de 2018, dirigido por Calebe Lopes, também teve seu link aberto para apreciação on line. Na obra, Carlos Betão vive um pastor evangélico de comportamento nefasto e abusivo. Confrontado por sua filha, vivida por Dora Goritzki, o homem tem um surpreendente encontro com um destino fatídico. Com uma ambientação precisa na criação de uma proposta sobrenatural, o curta é mais um exemplo da evolução do diretor como contador de histórias no cinema fantástico. Por último, O Sorriso de Felícia (vimeo.com/265312447), psicodélico curta dirigido por Klaus Hastenreiter, também teve seu link liberado no Vimeo. Para o cineasta e fundador da Olho de Vidro, “Esse é um momento muito delicado que estamos vivendo e esta é a nossa singela maneira de procurar contribuir com a rotina enclausurada de quem está neste isolamento”

Paula Lice em Estela, de Hilda Lopes Pontes

A Triste Figura, de Calebe Lopes, e O Sorriso de Felícia, de Klaus Hastenreiter

Outra produtora baiana a liberar alguns dos seus trabalhos on line é a Gran Maître Filmes. Os filmes Ele Foge, de Dino Galeazzi e O Vizinho de Frau Kutner, do diretor Marcos Alexandre, ficam disponíveis no canal YouTube da produtora a partir de 08 e 09 de abril, respectivamente. Na obra dirigida por Marcos Alexandre, uma representação da arte da atuação através das lembranças de um ator e seu último papel. Indiretamente, uma coincidente rima com a necessidade atual da clausura se faz valer. Já em Ele foge, Dino Galeazzi, outro representante do cinema de gênero na Bahia, traz um vislumbre de um apocalipse zumbi. Para o fundador da Gran Maître, Marcos Alexandre, a disponibilidade dos filmes possibilitará com que novos públicos possam conhecer mais sobre as nossas histórias e realizações. “É um momento em que grande parte das pessoas estão em sua casa, em quarentena, usufruindo e a procura de conteúdo audiovisual, seja pela internet e/ou streaming. Portanto, vejo que entraremos junto com outros coletivos, produtoras e realizadores para distribuição online de filmes independentes”, afirma. 

Ele Foge, de Dino Lucas Galleazzi

O Vizinho de Frau Kutner, de Marcos Alexandre

A Voo Audiovisual, dos cineastas Edson Bastos e Henrique Filho, também liberou diversas produções no canal YouTube da produtora. Dentre elas, O Filme de Carlinhos, lúdica homenagem ao cinema pelos olhos infantis, e Astrogildo e a Astronave, outro curta a abordar, através da beleza da fantasia, um notório personagem de Ipiaú, terra natal de Edson. Para o diretor e fundador da Voo Audiovisual, a situação, mesmo apresentando aparência de uma ficção científica, tem resultados brutais na realidade. “Nunca imaginamos que isso um dia aconteceria na vida real. Sets de filmagens adiados, telenovelas adiadas, cinemas fechados, projetos parados, eventos adiados, mas tudo isso porque confiamos nas orientações das organizações de saúde como a OMS, estamos vendo o que outros países estão passando e acreditamos que o isolamento é fundamental”, afirma Edson Bastos e salienta: “Já estamos vivendo desemprego no Audiovisual desde que Bolsonaro foi eleito. São muitos projetos parados, sem liberação de recursos, por questões ideológicas do presidente, que não entende nada sobre cultura e audiovisual, e emperra a nossa economia de gerar emprego e renda.”

O  Filme de Carlinhos, de Edson Bastos e Henrique Filho

LONGAS

No âmbito dos longas baianos, um dos destaques são os da produtora Hamaca Filmes, do cineasta Henrique Dantas, que também disponibilizou alguns dos seus trabalhos, como os documentários Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade (vimeo.com/133508577) e A Noite Escura da Alma (vimeo.com/134948902). Dentre os curtas, o infantil A Bicicleta do Vovô (vimeo.com/298676827) e o documentário Ser Tão Cinzento (vimeo.com/401492387). 

“Estamos ouvindo nestes tempos recentes essa ladainha deque artistas não servem para nada, que artistas são um câncer para a sociedade. Agora, nesse momento de quarentena, se não existisse arte, estariam todos pirados. Então, a Hamaca Filmes, em tempos de pandemia, onde a Arte ganha novos significados numa sociedade que tentava desmerecê-la, vem a público disponibilizar parte dos seus filmes”, pontua Henrique Dantas e salienta que está fazendo os esforços necessários para disponibilizar o restante das obras. 
                     

Cartazes de dois dos filmes de Henrique Dantas disponibilizados on line na plataforma Vimeo




Outros dois longas baianos disponibilizados on line são Depois da Chuva (vimeo.com/112407880), filme de Cláudio Marques e Marília Hughes, bem como Trampolim do Forte, longa metragem de João Rodrigo Mattos, disponibilizado no YouTube, na página da produtora DocDorma. Em tempos de clausura para nossa própria segurança, esse mergulho na filmografia recente do cinema baiano traz um respiro necessário para a arte. 

Cena de Depois da Chuva, de Cláudio Marques e Marília Hughes 
Cena de Trampolim do Forte, de João Rodrigo Mattos 

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 04/04/2020






quinta-feira, 2 de abril de 2020

Pearl Jam - Gigaton


Pearl Jam e o rock como luto político



Com Gigaton, décimo primeiro álbum de estúdio, banda de Eddie Vedder leva aos fãs uma precisa reflexão da dor do luto e da necessidade de agir em tempos politicamente sombrios

Por João Paulo Barreto

Quando, há quase três anos, Chris Cornell cometeu suicídio, enforcando-se em um quarto de hotel após ceder sua mente torturada a essa maldita doença chamada depressão, não somente um pai, esposo, lenda do rock e dono de uma das vozes mais possantes do grunge nos deixou. Para Eddie Vedder, também um fiel amigo, irmão e companheiro se despedia desse mundo amargurado e sofrível. Tal perda afetou profundamente o vocalista do Pearl Jam. Juntos, no começo dos anos 1990, momento chave tanto para o Pearl Jam quanto para o Soundgarden, os dois criaram o breve, porém pulsante, projeto paralelo Temple of the Dog, algo que os uniria afetivamente para sempre.

Introspectivo, Vedder calou-se diante da tragédia da perda de Cornell e seguiu para sua turnê solo por países europeus. Stone Gossard, Mike McCready, Jeff Ament e Matt Cameron, seus companheiros de palco, de estúdio e de vida, entenderam e respeitaram seu silêncio. Mas, para os fãs, o medo de um fim da banda devido a esse golpe era palpável. O último disco datava de quatro anos antes, e levaria mais três para que um novo trabalho surgisse, cravando o maior hiato sem qualquer lançamento do Pearl Jam desde seu debut: o petardo Ten, há quase trinta anos, em 1991.    

Mike, Matt, Eddie, Jeff e Stone: quase 30 anos de banda

CONTRA TRUMP

Sempre ativistas politicamente, os integrantes da banda começaram a se concentrar no novo trabalho em tempos ainda mais tristes do que os do começo do século XXI, quando Riot Act, disco de 2002, fora lançado como um míssil direcionado à gestão de George W. Bush. Aqui, tal míssil é substituído pelo resultado de um Gigaton, explosivo nome que batiza o álbum recém lançado. E tal explosão, claro, é direcionada para a estupidez representada pelo atual presidente estadunidense. Em Quick Escape, por exemplo, a tal fuga repentina do título narra a busca por algum lugar que “Trump não tenha fodido ainda”. Em um crescente inicial que remete a Kashmir, clássico do Led Zeppelin, Vedder, em parceria com o baixista Jeff Ament, em uma linha exata do instrumento, canta sobre um mundo cujas fronteiras ficam além da prepotência e egoísmo do atual cheetos lua que ocupa a Casa Branca.

Antes disso, em sua evolutiva faixa de abertura na constante batida das baquetas de Matt Cameron, Vedder traz a denúncia de um ensurdecedor silêncio que a inércia dos que aceitaram o fúnebre futuro do mundo pontua de maneira torturante. “Enquanto o silêncio se torna mais e mais alto, meu coração passa a martelar/E os ventrículos bombeiam em horas extras/Nossas liberdades cheias com o risco de serem circunscritas/Uma vida interrompida e circuncidada ”. O homem por trás de clássicos como Do the Evolution e Given to Fly traz a necessidade de acordar para essa reflexão.

Mas este silêncio ensurdecedor que advém da inércia logo cai por terra quando, em Seven O’Clock, Vedder canta sobre a urgência que nos persegue. “Não há tempo para depressão ou auto-indulgente hesitação/Essa situação fodida requer todas as mãos à obra”. E nessa avalanche, logo a tal bomba é jogada novamente no salão oval, onde “a merda presidindo na figura de nosso presidente/falando com o próprio espelho, o que ele fala, o que ouve em retorno?” E como amordaçar esse cão sarnento e raivoso é mais do que necessário, Eddie Vedder sentencia e pergunta: “Em uma tragédia de erros, quem será o último a dar risada?” E tudo isso através de uma melodia que embala os ouvidos em uma balada a contar a pesarosa história de nossa tragédia contemporânea.

Chris Cornell e Eddie Vedder no começo dos anos 1990

CORNELL

Ainda sobre o amigo Chris Cornell, pode soar como uma livre interpretação de um ouvinte de longa data da banda, mas, pensar em Cornell e no luto de Vedder ao escutar uma balada bluesy como Comes Then Goes, é inevitável. Aqui, Eddie pergunta: “Onde você esteve? Posso encontrar um vislumbre do meu amigo? Não saberia dizer onde ou quando um de nós deixou o outro para trás”. E, nessa mesma leva reflexiva de perguntas e modos de encontrar um conforto mental para a dor do luto e da comichão advindo do “eu poderia ter feito mais”, ele volta a arguir aquele que parece não estar mais ali: “É você? Aqui eu estou. Intensa lembrança de dor, autonegligenciada de novo./Igual a você, eu a mantenho aqui dentro.” E parece encerrar a conversa com um lamento e uma constatação da dor física e aparentemente irremediável que advém da depressão: “Pensei que você havia encontrado um jogo no qual você pudesse vencer. Ao final, tudo é uma vivissecção”.

AINDA OTIMISTA

Mesmo com sombrias e densas reflexões, Gigaton, dentre as suas doze faixas, é capaz de trazer certo otimismo. E isso distante de qualquer falso discurso de coach. No seu quase fechamento, Retrograde, como uma mescla de desesperança e um aviso para que o futuro não seja perdido por conta da mediocridade, egoísmo e oportunismo dos que atualmente detêm o poder, quase encerra o disco de modo totalmente preciso, porém pessimista como penúltima faixa. “Sete mares se elevam/Futuros para sempre desvanecidos/Sinta o atraso em nosso entorno” canta Vedder em longos vocais que remetem ao seu disco solo, Into the Wild, trilha sonora para o filme homônimo dirigido por Sean Penn há 12 anos.

Tal sensação de que vamos terminar aquela viagem de maneira a perceber que tal atraso oriundo de forças retrogradas são inevitáveis, acaba por ficar para trás no momento em que a proposta de encarar nossos dias como uma fase ruim que superaremos nos atinge positivamente. Esse sentimento nos pega na última faixa, River Cross,mas não sem antes, em sua exata metáfora de passagem de tempo, nos alertar do quão urgente é a necessidade de mudança. “Através de nuvens de tempestades, eles tomaram o palco” lembra Vedder como tal situação tomou conta de nosso presente. E sobre essa desesperança, um otimismo disfarçado diante de tamanhas e densas sombras que se avizinham: “Deixe que seja uma mentira que todos os futuros morrem”.

Esperamos que sim.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 03/04/2020