Por João Paulo Barreto
A cena em que o agente do FBI
Patrick Denham (Kyle Chandler) segue para casa de metrô naquilo que ele mesmo
considera uma das piores partes do seu dia, momento o qual ele define como
(sic) “suando as bolas dentro de um terno que eu usei nos últimos três dias”
pode ser considerada a que melhor define a premissa de ascensão e queda de
Jordan Belfort, o operador trambiqueiro de Wall Street vivido com vigor por
Leonardo DiCaprio.
Não que Scorsese queira
transformar seu filme em uma lição de moral emblemática e ingênua dizendo que
os justos e honestos trabalhadores do “american dream” são aqueles que se dão
bem no final de tudo. Não é isso. A cena em questão se torna emblemática pelo
momento em que ela é inserida. Após toda a merda da vida de excessos de Belfort
atingir o ventilador, vemos o agente responsável por sua derrocada e prestação
de contas com a sociedade não sentir nenhum regozijo ao retornar para casa após
um bem cumprido dia de trabalho. Pelo contrário. Sua expressão de conformismo
velado junto aos outros passageiros do metrô lhe traz ao rosto uma expressão
ambígua, como se ele se perguntasse: “vale a pena?” (E Scorsese e sua montadora
habitual, Thelma Schoonmaker, nos brindam com um poderoso racord de imagem ao
inserir o ônibus que leva Belfort para a prisão logo em seguida – a pergunta
que fica é: quem é o prisioneiro aqui? Gênio!).
Jordan Belfort exercitando seu poder motivacional |
Pelo modo como vemos Jordan
“cumprir sua pena”, a resposta à questão que o agente Denham parece se fazer deve
ser não. Não vale a pena. Como um reflexo de prisões que vimos acontecer no
Brasil durante tantos anos, ricos não cumprem pena. Apenas passam períodos em
prisões que mais parecem spas. Mas não vamos colocar a carroça na frente dos
bois para comentar a vida do jovem lobo do título. Após três horas que passam
como se fossem 15 minutos, O Lobo de Wall
Street cumpre sua missão de nos ensinar o que é o capitalismo no mundo de
vidro da bolsa de valores de Nova Iorque.
Com uma estrutura bastante
semelhante a do seu jovem clássico Os
Bons Companheiros, Scorsese apresenta seu protagonista em sua entrada no
mundo ambicioso do mercado de ações. Ambientado nos anos 1980, em plena febre
estadunidense da cocaína (Mark Hanna, personagem de Matthew McConaughey em seus
breves e hilariantes minutos em cena, demonstra bem o uso indiscriminado da
droga em um restaurante), Jordan é como Henry Hill: deslumbrado e ambicioso, ele
vê sua ascensão rápida naquele universo como algo infinito, mas a cada atitude
desregrada, percebemos sua derrocada dobrar a esquina e se tornar cada vez mais
próxima.
Mark Hanna encontra em Belfort seu pupilo |
No entanto, diferente do
personagem vivido por Ray Liotta, Jordan teria tudo para se dar bem de forma
honesta. Competente e bom de lábia, ele até aparece como alguém focado em crescer
de modo justo naquela indústria, mas logo ao conhecer Hanna, lá se vai toda e
qualquer chance daquele jovem de se manter preso a algum principio moral que
exista em sua conduta. As regras foram apresentadas. Para se ter sucesso na
Wall Street dos anos 1980, a resposta está em prostitutas e cocaína, segundo o
mestre Hanna. E o pupilo Belfort segue a cartilha à risca.
Scorsese apresenta em O Lobo de Wall Street não apenas a saga
da derrocada de um homem (como já fez
em diversas películas). Não. Aqui ele decide ir mais a fundo. Aqui, a ideia é
meter o dedo na ferida e mostrar todo o excesso que a combinação de grana, pó, pílulas
e ócio podem criar. Donnie Azoff (Jonah Hill) se masturbando em público já está entre as cenas
mais surreais e insanas de 2013. Orgias, drogas consumidas de locais não muito
comuns em filmes e um DiCaprio que parece ter se entregado ao papel da maneira
mais insana e, ao mesmo tempo, cômica e trágica possível. Quando vemos Jordan
com paralisia cerebral momentânea por ter ingerido uma quantidade exorbitante
de calmantes vencidos, podemos até rir, afinal, a cena é hilária. Mas acabamos
por fazê-lo com os dentes meio trincados, rindo, mas balançando a cabeça em
reprovação ao tentar concluir o que há de errado com aquele rapaz. Sem muito
sucesso, saliento.
Jordan e Donnie percebem os efeitos colaterais de pílulas vencidas |
Neste momento, a fase amarga de
uma vida de excessos já começa a cobrar seu preço. Traições, acordos perigosos
e com toda e qualquer moral que ainda resta posta latrina abaixo, Jordan tenta
se prender a qualquer traço que o ligue à sua vida. E em um momento de
intimidade particularmente constrangedor, quando o jovem não encontra mais o
suporte da linda mulher que o acompanha, este tenta se agarrar a qualquer vestígio
do que ainda considera sua vida e foge (ou tenta) com sua filha. O sangue
quente a descer de sua testa e a cair nos olhos parece
fazê-lo perceber que a hora de acordar já passou faz tempo.
Mas esse é um filme de Scorsese.
E quando falamos nisso, temos que imaginar os travellings e planos sequenciais
elegantes, além da trilha sonora inspirada. E lá estão estes elementos. A forma
como a câmera parece passear pelo salão onde os funcionários da firma de Jordan
trabalham ilustra bem a energia pulsante do lugar. Do microfone centrado em um
tablado a demonstrar perfeitamente a megalomania e o poder de persuasão do
discurso de Jordan, vemos o homem convencer a todos acerca de qual deve ser o
modo de ganhar dinheiro naquele lugar.
Com a inserção da versão
frenética dos Lemonheads para Mrs.
Robinson em um dos momentos conclusivos da trajetória de crimes financeiros
do bando, gosto de acreditar que
Scorsese pensou em ilustrar toda a ingenuidade daqueles jovens inconsequentes e
remetê-la à mesma do casal adolescente a fugir no final de The Graduate: torcendo
para que desse certo todo aquele plano ousado, mas sabendo que seus dias de
liberdade estavam contados.
Imaginando como funciona a mente cinéfila do
diretor, é muito provável que a referência seja essa mesma.
Nenhum comentário:
Postar um comentário