(Jurassic World - Fallen Kingdom, EUA, 2018) Direção: Juan Antonio Bayona. Com Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Justice Smith, Rafe Spall, James Cromwell
Terror em casa mal
assombrada encontra dinossauros
Com mescla de estilos,
Jurassic World: Reino Ameaçado acerta
ao inserir
elementos de gênero incomuns à franquia
elementos de gênero incomuns à franquia
Por João Paulo Barreto
O principal acerto do diretor espanhol Juan Antonio Bayona
ao adentrar no universo criado por Steven Spielberg no clássico de 1993, Parque dos Dinossauros, é utilizar sua experiência
em filmes de suspense e de fantasia para reinventar o conceito de pavor que as
criaturas ferozes do período jurássico podem causar tanto em suas “vitimas
reais” quanto no espectador que experimenta aqueles medos de dentro da sala
escura. Ao optar por não mais apostar na
óbvia utilização dos cenários grandiosos da natureza como ponto de clímax para
seu filme, algo realizado com eficiência em Jurassic
World, longa de 2015, o cineasta trilha
um caminho de tensão que se aproxima da eficiente claustrofobia vista no
desfecho da obra original. Aqui, entretanto, ele a constrói com uma assumida
referência ao gênero do terror.
Claro que o filme ainda investe no espetáculo visual oriundo
da Ilha Nublar, que, agora, segue ameaçada não somente pela ingerência humana
na ambição de tirar lucro das criaturas não mais extintas, mas, também, por
conta de um vulcão em erupção que deverá destruí-la junto a boa parte dos seus animais.
As sequências de fuga, tanto dos bichos quanto dos humanos que seguem para o
local no intuito de salvar algumas espécies, impressiona. Dentre estes, o herói
Owen Grady, vivido por Chris Pratt, e, também, a agora defensora dos direitos
dos dinos, Claire Dearing, mais uma vez na pele de Bryce Dallas Howard.
![]() |
Climax na mansão: elementos de terror clássico em casa mal assombrada |
Acompanhando
os dois, os coadjuvantes clichês de sempre, sendo eles uma cientista de
aparência moderna e agilidade surpreendente, e o alívio cômico na presença de
Justice Smith, jovem ator negro repleto de caras e bocas cujo único propósito
em cena parece ser o de fazer a audiência rir por conta de sua insegurança. Claro que isso o levará à coragem no momento
ideal. Curioso como Hollywood ainda insiste em escalar atores afrodescendentes
com um intuito reservado apenas ao campo da comédia.
TERROR CLÁSSICO
Mas, mesmo com a estrutura previsível cujo destino dos personagens
parece estar fadado no momento em que os conhecemos, o que mais chama atenção
na proposta de Bayona é justamente a adequação daquele terror a algo mais de
acordo com sua experiência oriunda de filmes como O Orfanato, de 2007, e o recente Sete Minutos Depois da Meia-Noite. Lá, sensações como o suspense e
o pânico que experimentavam os habitantes de suas histórias possuíam uma
roupagem sobrenatural e de apelo para um cinema thriller mais tradicional. O
que vemos em Jurassic World é uma
reutilização destes elementos e artifícios clássicos, mas acertadamente usando
os repteis não somente como ferramentas de sustos fáceis, mas como símbolos de
um terror, apesar de simples, eficiente. Logo, é com um sorriso de canto de
boca que vemos um dinossauro caminhar pelo telhado de um casarão para, em
seguida, adentrar sorrateiramente em um quarto escuro através da janela para
espreitar sua pequena vitima que se esconde debaixo de um lençol. Quer pesadelo
mais ameaçador para uma infância do que aquele que se esconde debaixo da cama
como um bicho papão?
![]() |
Dino-Papão: reutilização do terror infantil em estilo jurássico |
O uso elementar da mansão na qual o terceiro ato se
desenrola confirma esse controle de Bayona no mesclar de gêneros em seu filme. No porão da casa, dezenas de monstros se fazem
presentes tanto na figura das gigantescas criaturas, quanto na de gananciosos
bilionários a participar de um leilão para a compra dos animais. Impossível não
pensar nas seminais obras que utilizam o simbolismo da casa mal assombrada com
criaturas escondidas, como A Queda da
Casa de Usher, A Volta dos Mortos Vivos ou até mesmo Evil Dead. Mais do que isso, neste ponto, Bayona dá ao seu filme aquela discussão comum, mas ainda
pertinente, das obras anteriores e questiona: quem são os verdadeiros monstros
naquela história?
Apresentando um final simbólico e que retorna à discussão vista
na obra de 1993 acerca dos riscos vinculados aos poderes que a ciência concede
ao ser humano, Jurassic World – Reino
Ameaçado acaba por levar a franquia para um nível que desperta a
curiosidade do espectador justamente pela ideia de sair da premissa básica e,
convenhamos, esgotada dos quatro filmes anteriores. Com um desfecho em aberto,
as possibilidades que uma conclusão para essa nova trilogia trazem são
diversas. Resta torcer para que, no próximo filme, os nomes por trás do roteiro
e direção ousem da mesma forma que Juan Antonio Bayona fez aqui.
*Texto publicado original em A Tarde, dia 23/06/2018