Somos todos Bacurau!
Com faroeste moderno, cineastas Juliano Dornelles e Kleber
Mendonça desenham o triste Brasil do apagamento histórico, humano e cultural
que segue em curso
Por João Paulo Barreto
Ao chegar à cidade de Bacurau, no interior do Nordeste, e escutar
a explicação acerca do fato de que o nome do local é o mesmo de um pássaro da
região, a forasteira vivida por Karine Teles replica dizendo que o animal se
encontra extinto. A tréplica da dona da mercearia é exata: “Aqui, não. Mas é que
ele só sai de noite. Ele é brabo!” Uma brabeza pela sobrevivência tão
necessária quanto a que existe na obra Bacurau,
resposta fílmica de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles ao ímpeto de
extinguir povos e culturas que atualmente segue em voga por pretensas
lideranças no poder.
A resistência contra essa tal morte certa que ameaça seus
moradores está logo em sua simbólica imagem inicial, quando, na rodovia que
leva a Bacurau (“17km. Se for, vá na paz”,
adverte a placa), um caminhão pipa destroça caixões vazios que tomam conta da
estrada após um acidente envolvendo o carregamento de uma funerária. De cara, o
tom de sua obra é dado.
Em uma densa atmosfera de faroeste moderno, Juliano e Kleber
desenham a ambientação de seu longa, quando vemos o futuro distópico brasileiro
se confirmar no apagamento proposital de quem ainda ousa resistir. E tal
resistência é total no que se refere ao domínio tanto físico quanto ideológico
do local onde vivem seus habitantes. Essa é a mesma resistência que vira as
costas e fecha as portas para político que, em busca de voto, traz livros
velhos, comida, remédios de tarja preta, caixão e vela para angariar apoio, mas
que, ao partir, leva uma prostituta local consigo. A cidade de Bacurau é a
representação da inteligência crítica que precisa existir e resistir.
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A despedida que simbolizará a resistência |
A citada resistência dos seus habitantes está não somente
nas armas expostas no museu da cidade, em uma precisa metáfora da História e do
conhecimento como poder. Ela já surge nos versos repentistas cantados por
Carranca (Rodger Rogério). No repente, poderosa manifestação, mais um símbolo
do poder cultural como arma contra o apagamento. Em sua letra, o repentista enquadra os dois forasteiros que chegam ao
lugar com ares de superioridade. “Não quero seu dinheiro”, avisa Carranca. Tal
sentimento de superioridade e arrogância é o mesmo do qual os dois forasteiros se
tornarão vitimas quando se julgarem membros igualitários do grupo de
mercenários contratado para aniquilar toda a população local.
É neste momento que, em seu roteiro, Kleber Mendonça e
Juliano Dornelles inserem sua principal noção do que é o Brasil e, mais
propriamente, o Nordeste para estrangeiros em situação dominante e o modo como
alguns ainda insistem em lamber suas botas. “Você parece branca, mas seu nariz
e lábios a entregam,” provoca um dos gringos mercenários quando, entre advertências
para não falarem “brasileiro” ali naquele ambiente, sela o fatal destino dos
dois.
TRISTE FUTURO
A legenda que abre Bacurau
indica aquela realidade ser a de um Brasil em futuro não muito distante.
Tragicamente, soa muito bem como o nosso atual presente. No caminhão a
desbravar aquela estrada precária repleta de caixões como sinais, segue Teresa
(Bárbara Colen), que volta a Bacurau para o enterro de sua avó, dona Carmelita
(Lia de Itamaracá, símbolo da música brasileira). Seu reencontro com sua terra
é feito de olhares de reconhecimento desânimo por cansaço, como bem demonstra a
figura de Domingas (Sonia Braga, de maneira precisa). O pai de Teresa explica
para a população que sua mãe gerou muitos filhos, pessoas donas das mais
variadas profissões e moradoras de muitas partes do mundo. “A única coisa que
ela não gerou foi ladrão,” salienta.
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A chegada anunciada à Bacurau da paz |
Os quadros nas paredes da casa, em uma precisa direção de
arte, desenham a rica trajetória de vida daquela anciã. O símbolo de sua
partida é o mesmo que simboliza a morte de toda uma cultura. Não é por menos
que é a sua imagem, sorridente e plena, a surgir no clímax do filme, quando
todo o plano de aniquilação de um povo e de sua História encontra uma resposta
à altura oriunda dos habitantes de Bacurau.
Já a pergunta repetida algumas vezes para os dois forasteiros sobre a possibilidade deles terem ido ao lugar para visitar o museu encontra resposta justamente nisso. É naquele museu que se preservam, ao mesmo tempo, a História e a salvação de Bacurau. A mesma cidade que, em sua independência ideológica e social, se tornou uma ameaça para a dominação constante que se avoluma por todos os lados. Na sua História, a experiência que se ensina ao seu atual povo a maneira precisa de se enfrentar o mesmo mal que se apresentou ali por séculos.
Nesse futuro distópico onde mortes também são oferecidas
como opção para fuga, como bem mostra a notícia vista em uma televisão ligada,
encontrar a força da resistência sanguinolenta em um símbolo histórico como um
museu é por demais recompensador.
A História nos ensina muito. Porém, olhar ao nosso entorno e
percebê-la como algo que parece inútil para 57 milhões de eleitores é por
demais desanimador.
Mas, sigamos. Continuaremos a ser Bacurau.
Mas, sigamos. Continuaremos a ser Bacurau.