O Dorivar de uma Vida
Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar,
doc de Henrique Dantas,
mergulha na trajetória e na religiosidade Caymmi
Por João Paulo Barreto
O poeta, cantor e compositor Tiganá
Santana, em seu depoimento no documentário Dorivando
Saravá – O Preto que Virou Mar, traz uma exata definição para Dorival
Caymmi e sua relação musical entre o real e a beleza de composições que parecem
vindas de um outro lado dessa realidade. Tiganá afirma: “Caymmi é um
lapidador do criar. Um homem que desvela descrições profundas do real. O belo
dele parece vindo de outro lugar. Parece surreal. Se a gente vai por tradições negras, a partir
de uma leitura de religiões de matrizes africanas, não há efetivamente uma
divisão entre dois mundos. Um mundo invisível, espiritual, o é a partir de um
mundo tangível”, explica. Na sua exata análise acerca de Caymmi, Tiganá vai
mais além: “Há, portanto, o outro lado. Não um outro mundo. Eu acho que Caymmi
é um mediador a partir do criativo, das artes. Um mediador entre estes lados“,
finaliza o músico.
É com essa apresentação que o norte do filme dirigido por Henrique
Dantas, que tem sua estreia nessa sexta, dia 29, na 52ª edição do Festival de
Brasília, é definido. Cadenciado em suas imagens poéticas de elementos a
representar o lendário Dorival Caymmi e sua relação com o mar e com o Candomblé
como um ato de resistência, o documentário se equilibra de maneira precisa entre
um desenhar imagético e uma estrutura de depoimentos que guia a plateia pela
trajetória do artista. Assim, a convidando a adentrar na profundidade daqueles
objetos simbólicos de uma vida repleta de calma e parcimônia como foi a de
Dorival. Da mesma maneira que se mergulha em um mar profundo e prístino.
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Tiganá Santana fala sobre a poética de Caymmi |
Henrique Dantas explica que os objetos simbólicos que trouxe em
seu longa vêm de um planejamento minucioso. “Quando começo um filme, uma obra de arte (sou artista visual de formação,
mestre e professor em artes visuais), eu entro em um estado de atenção focada
naquele universo que quero apresentar”, explica. “Ao me deparar com a história
de Caymmi, percebi que os filmes que foram realizados sobre ele eram obras
biográficas feitas por pessoas que vivem no sudeste do país e que desconheciam
a história preta de Caymmi na Bahia”, salienta o diretor. Um mergulho nessa
história é o que é proposto aqui.
MERGULHO LITERAL
O mar se faz presente em sons, imagens e
camadas sob as quais se desenrolam causos inesquecíveis do que significa
“dorivar” a vida durante aquele mergulho de pouco mais de 85min representado
pelo filme de Henrique Dantas. E esse ritmo conduz a audiência do começo ao
final de sua trajetória, tanto da vida do Homem que tanto cantou Janaina quanto
da série de estórias que degustamos sob o olhar de pessoas que vivenciaram
aquele mundo Caymmiano.
Desta maneira, em Dorivando Saravá, desde o começo, é perceptível essa ideia de
trazer para a obra mais do que um simples contar de uma trajetória tão rica
quanto a do músico através do olhar daqueles que a viveram junto com ele ou que
admiram tal existência plena. Ao inserir os citados símbolos da religiosidade
de Matriz Africana tão cantada por Dorival em suas canções, a obra coloca em
discussão uma necessidade urgente de trazer a música do compositor baiano como
um instrumento, também, de resistência contra a violência sofrida por essas
religiões em um Brasil neo-pentecostal, onde a política se misturou de maneira
pútrida com as igrejas.
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Gil aborda a influência de Caymmi em sua geração |
Deste modo, a obra dirigida por Dantas traça
uma forma de perceber como o abismo de intolerância religiosa que o Brasil
adentrou é perigoso. “O movimento neopentecostal no mundo é algo assustador.
Existem muitas igrejas no Brasil que falam mais do diabo do que de Deus e
nessas técnicas de convencimento e persuasão vão levando as pessoas como gado
para onde elas quiserem. Estudei em colégio de freiras em Ilhéus, e, com isso,
li muito a Bíblia e posso garantir que nesse livro não existe o ódio plantado
por esses falsos profetas,” explica Henrique.
Oriundo de uma época em que as religiões
de Matriz Africana eram consideradas criminosas pela lei de então, Dorival
Caymmi trouxe seu respeito por esse pilar representativo de boa parte do povo
que vive aqui. Em tempos atuais, nos quais “cantoras” se recusam a falar o nome
de Iemanjá em canções, olhar para o século XX e ver pessoas como Caymmi
valorizando esse rico manancial de cultura e afeto dentro do Candomblé nos faz
perceber como estar do lado certo da História é algo que devemos sentir orgulho
por tal pertencimento.
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O cineasta Henrique Dantas: reconhecer da própria negritude. |
AUTO-RECONHECIMENTO
O processo de pesquisa acerca desse
Caymmi negro, não embranquecido por uma sociedade racista e hipócrita, deu ao
cineasta Henrique Dantas uma oportunidade de mergulho em sua própria vida e em
um salientar do seu auto-reconhecimento como homem negro.
“Meus filmes refletem
muito meus mergulhos pessoais e, nesse caso específico, passei por um processo
de transformação muito pessoal onde percebi e reconheci a minha própria
negritude. Não movido apenas por filosofias ou desejos, mas, sim, por ter
passado por experiências modificadoras”, afirma Henrique Dantas. O cineasta,
durante o processo de filmagem de Dorivando
Saravá, integrou, ainda, uma equipe de curadoria que o ajudou nesse
processo pessoal de reflexão. “Sim. Algo muito importante foi o convite para
integrar a comissão de seleção da Mostra de Cinema Negro Mahomed Bamba, quando
me deparei com 130 filmes pretos que me mostraram muitas das situações que
sofri minha vida inteira e não entendia que eram situações de racismo”,
finaliza.
Temos na obra de Dorival Caymmi uma
forma de nos reconhecermos como brasileiros, como oriundos de uma cultura rica,
repleta de respeito e tolerância, que não cedeu nem cederá lugar para
truculências oportunistas. Caymmi, que tanto trouxe a calma, o bom humor e a
reflexão como modo de vida, é alguém de
imprescindível reencontro na sempre conectada, desatenta e fugaz rotina do
século XXI. Permitir-se dorivar é
algo que, curiosamente, se tornou urgente hoje em dia. Dorivando Saravá – O Preto que Virou Mar nos dá uma oportunidade
única para tal intento.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 28/11/2019