“Para a indústria do cinema,
o que está acontecendo é uma devastação.”
o que está acontecendo é uma devastação.”
Paulo Sérgio Almeida, diretor do Filme B |
Nada é mais importante do que a preservação das vidas humanas
nessa pandemia do coronavírus. As medidas de não aglomeração de pessoas diante
da proliferação do COVID-19 fizeram muitos filmes cuja demanda de público
lotariam salas de cinemas em situações normais serem adiados para o final do
ano, diminuído, assim, um imenso e já certo prejuízo financeiro. São obras como
Um Lugar Silencioso Parte II, continuação
do esmero de 2018 dirigido por John Krasinski; o novo filme da Marvel Studios, Viúva Negra, além dos novos 007 e o mais novo longa da lucrativa
franquia Velozes e Furiosos.
Sobre o assunto, o A Tarde conversou com Paulo Sergio Almeida,
fundador da Filme B, empresa brasileira especializada em análise e números do
mercado cinematográfico no Brasil. Mais completo site no acesso a informações
relacionadas ao aspecto de negócios oriundos da produção de cinema e
distribuição de filmes em território nacional, o Filme B é peça fundamental na
pesquisa para quem se interessa ou tem o cinema como meio de subsistência
direta ou indireta. Confira a entrevista.
Por João Paulo Barreto
Com o adiamento e
suspensão dos lançamentos, como você prevê os próximos meses no mercado das
salas de cinema no Brasil?
Em 2020, você pode contabilizar um janeiro e fevereiro muito bons.
Março com sinais de crise. Havia algumas salas abertas no começo do mês, mas, a
partir de agora aí, temos zero de cinemas funcionando no Brasil. Abril, maio,
junho e julho, zero de salas. Nós nunca vivemos uma situação como essa. É o colapso!
O cinema, como o resto da economia, vai entrar em colapso. A previsão é de no
mínimo três meses sem possibilidade de reabertura de salas.
A mesma previsão vale para outros países. China, Itália, França,
Inglaterra, Coréia do Sul, Japão, Espanha, Portugal e EUA. Todas as salas
fechadas. Quer mais do que isso? É uma devastação. Para a indústria do cinema,
o que está acontecendo é uma devastação. Quando acabar a crise, a gente vai ver
quem sobrou.
Com os adiamentos
das estreias internacionais, como o streaming entra nisso?
O cinema hoje está globalizado. Eu não posso lançar um filme no
Brasil ou em qualquer outro lugar de maneira separada. Ou o filme vai para o
mundo todo ou não vai. Isso em relação ao filme estrangeiro. Todos os
lançamentos de blockbusters estão sendo adiados, um depois do outro. Acabou de
ser adiado o Minions, grande
blockbuster infantil para as férias de julho. Já foi adiado 007, Trolls e o novo Velozes e Furiosos. Não é caso destes
citados, mas há uma série de filmes que deverão ser lançados diretamente no
streaming. Essa é a grande revolução. Os filmes estão, na sua maioria, prontos.
Exceto Minions 2, que foi cancelado e
o Ilumination, o estúdio de animação sediado em Paris, foi fechado. Mas todos
os outros estão prontos e com a campanha na rua. Os investimentos estão feitos,
e não podem parar de repente para ser lançados apenas no ano que vem. Aí você
tem que investir de novo no marketing, fazer tudo de novo, para recuperar as
campanhas. O que está acontecendo é que os filmes estão indo direto para
streaming. Vai ser um ano perdido para o cinema. Praticamente perdido. Se
voltar à atividade no Brasil, deverá voltar por volta de agosto, setembro. Mas
aí com títulos debilitados, com a frequência ao cinema debilitada. Não podemos
esperar grande coisa.
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Um Lugar Silencioso - Parte II é dum dos filmes adiados |
E para o cinema
nacional?
Em relação ao cinema nacional, o panorama é mais dramático.
Porque toda a operação de cinema nacional no Brasil, a Ancine, Secretaria
Especial de Cultura, está tudo paralisado desde que o governo Bolsonaro entrou.
Todos os lançamentos já vinham sendo
adiados por falta não de recurso da Ancine, pois eles existem, mas por falta de
uma diretoria, por falta de comando e de gestão. São atos que esse governo vem
fazendo com a cultura propositadamente. O que os filmes nacionais estão
tentando fazer, também, é ir direto para o streaming. Mas a Ancine proíbe esse
lançamento direto nas plataformas. Em relação ao filme americano, não tem lei
que proíba. É um acordo entre o exibidor e o distribuidor de se manter uma
janela. Mas em um momento como esse, de força maior, os exibidores estão
compreendendo que eles não podem fazer nada, já que as salas estão fechadas e o
distribuidor não pode ficar com o filme parado sem faturamento. Ele tem que
pagar seus empregados. Tem que fazer a máquina girar. Aqui no Brasil, os
principais filmes são financiados com dinheiro do fundo setorial, via Ancine,
via BNDES, e tem uma regulação que obriga os filmes a estrearem antes nos
cinemas e depois no streaming. Os produtores estão tentando, junto à agência,
que essa proibição seja cancelada. Pelo menos momentaneamente, para que os
filmes possam entrar direto no streaming, também. Porque, senão, vão ficar dois
anos parados.
Filmes de alto
orçamento como 007, Um Lugar Silencioso
Parte 2 e Velozes e Furiosos, apesar
de já adiados, podem ser lançados no streaming?
Não. Hoje, os filmes de orçamento muito alto precisam da
bilheteria do cinema. Mesmo a Disney, que já tem o seu próprio canal. Ela até
poderia lançar os filmes no seu próprio streaming, mas não teria um bom retorno.
Só poderia ser feito com filmes médios e pequenos. Filmes de grandes
orçamentos, não. Isso poderia até quebrar a MGM, que é a detentora dos direitos
dos filmes da franquia 007. Não pode
abrir mão da bilheteria. Principalmente da China. Hoje, o mercado dos grandes
filmes é guiado pela China. Então, esses filmes não podem ir para o streaming
diretamente. Um Lugar Silencioso Parte II
não vai direto para o streaming nunca. O retorno é muito baixo. Minions 2 seria um desperdício lançar direto no streaming. O que está sendo
lançado no streaming são filmes como Bloodshot,
da Sony, que teve a bilheteria interrompida e tem que ser lançado no streaming,
ou Trolls, que é um desenho da
Universal que já está com a sua campanha no ar e tem uma bilheteria média. Agora,
é importante ressaltar o seguinte: não é só ver isso na área da produção dos
filmes, a gente tem que ver isso na área do mercado. Poucos exibidores vão
resistir a ficar quatro meses fechados. Só os grandes. E, assim mesmo, com
medidas drásticas de demissão de funcionários, de corte de custos violentos. Enfim,
vai ser uma loucura. Realmente, a indústria nunca mais será a mesma.
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Nova aventura do 007, principal investimento da MGM, pode dar prejuízo |
Podemos prever como
será a relação entre shoppings e salas de cinema quanto a taxas de aluguel?
Isso vai ser uma longa negociação. Depende, primeiro, de
determinações oficiais. Se o governo do estado determinou que os shoppings e
cinemas têm que fechar, ou que existe um
estado de calamidade pública, isso abre um espaço enorme para os exibidores
negociarem com os shoppings. De pagar o mínimo, que eles chamam de mínimo
garantido. Fora isso, tem a negociação com os empregados. O governo autorizou a
você fazer o pagamento de férias de um mês. Após isso, ou a pessoa trabalha em
casa com 50% de redução de salário, ou partem para demissão voluntária. A
exibição no Brasil é muito diferenciada. Existem desde de empresas
internacionais, multinacionais, como Cinemark e UCI, como empresas nacionais
familiares, como a Orient, aí em Salvador. Todos os outros, tirando a Cinemark,
a Cinepólis e a UCI, são empresas nacionais familiares que não têm acesso a
crédito como as multinacionais têm. Cada uma precisará de uma solução. Já
lá fora, a situação é preocupante no seguinte sentido: os estúdios de hoje
estão ligados a conglomerados de mídia. Estúdios como Universal Pictures e a Paramount, por exemplo, estão alavancados
em Wall Street. E a bolsa de valores está virando pó. Eles estão pedindo ajuda
ao Trump. E eu tenho certeza que Trump vai dar. Tanto os exibidores como os
estúdios vão ter um apoio. Para eles, o cinema é uma questão de Estado. Enquanto
aqui no Brasil, o Estado é contra o cinema.