(EUA, 1997) Direção: James Cameron. Com Kate Winslet, Leonardo DiCaprio, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, Bernard Hill.
Talvez a inserção dos supostos
efeitos 3D em Titanic não seja a
razão primordial para a escrita de qualquer texto sobre um filme que milhões de
pessoas em todo o mundo já conhecem frame por frame. Muito provavelmente, falar
de Titanic em 2012, quase quinze anos
após a sua estreia em 1997 e exatos 100 anos após a tragédia que inspirou a
produção de James Cameron, seja mais um exercício de admiração, nostalgia e (para
aqueles que, como eu, o assistiram na adolescência) cinefilia.
Então, nesse texto, o que eu
gostaria de propor é uma análise da obra a partir de sua essência, seja ela a
bela (e simples) história de amor e, mais profundamente, o contexto em que seus
personagens são construídos. Alguns textos que li a respeito da obra de Cameron
apontavam falhas no que se refere a essa construção, acusando (não totalmente
de forma injusta) vários personagens de maniqueístas e caricatos. Ok, vamos
combinar: Billy Zane, o maléfico, arrogante, inescrupuloso e ganancioso (ufa!)
Cal, noivo de Rose, é tudo isso e um pouco mais. Parece não haver nenhuma
camada de humanidade no homem, fazendo-nos pensar, apenas, se é possível
existir personagem de tamanha unidimensionalidade. E a interpretação de Zane, repleta
de muletas, caras e bocas específicas já não colabora muito.
O mesmo se aplica à persona de
Ruth, mãe de Rose, alguém cuja ganância e costumaz vivência no mundo da
ostentação e nobreza, a fazem esquecer das pessoas em quem ela precisa pisar
para manter-se no alto. No entanto, é a partir das precipitadas acusações de
maniqueísmo sobre os tais “vilões” do filme que, na segunda visita à sala de
cinema para a sessão em 3D, eu preferi ficar atento a tais personagens no
intuito de, justamente, tentar encontrar alguma profundidade e justificativa
para seus atos. Ao final, acabei saindo da sala de cinema não somente
emocionado (tá, vai dizer que você também não chorou?) como feliz por ter
podido compreender melhor as suas motivações.
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Rose e sua mãe, Ruth: vítimas de uma sociedade patriarcal |
Em determinada cena, por exemplo,
vemos Ruth conversar com Rose, após saber de uma explosão de raiva de seu
genro, Cal. Visivelmente nervosa, ela proibe a filha de rever Jack em qualquer
circunstância. O argumento utilizado explica muito sobre a personagem. “O
dinheiro sumiu. Seu pai nos deixou apenas um nome e muitas dívidas”, explica a
senhora. E ao ouvir a filha dizer que não é justo, a reposta de Ruth não
poderia ser mais adequada para o entendimento de sua personagem: “Para nós,
mulheres, nunca foi justo”. Ora, o ano é 1912. A sociedade ainda é totalmente
patriarcal. Qualquer mulher, ao conhecer um pretendente como Cal, não pensaria
duas vezes em aceitar seu pedido de casamento. Claro que Rose, como se sabe, é
uma exceção. E Jack aparece em sua vida justamente em um momento de total
desespero.
Falemos agora a respeito da unidimensionalidade do personagem de Zane. Garoto mimado, afetado (a atuação não ajuda,
volto a repetir) e herdeiro de milhões, Cal representa a figura do jovem
ganancioso do pós Revolução Industrial em todas as suas facetas. Talvez, nesse
personagem, a justificativa das acusações maniqueístas que o filme recebeu
encontre um alvo justo. Afinal, o cara chegou ao ponto de usar uma criança como
fácil acesso a um bote (a descartando logo em seguida) e a empurrar com o remo pessoas
que se afogavam e queriam embarcar. Certo, não há nada que possamos salvar
nesse cidadão e as acusações de maniqueísmo são totalmente aceitáveis.
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O homem de uma só face: Cal Hockley é a personificação da ganância |
Trazendo o foco desta análise
para o casal apaixonado, o que se vê é a imagem da ingenuidade de uma garota de
17 anos que, no auge de sua sexualidade, encontra em um rapaz aventureiro e
livre o reflexo de todos os sonhos que ela sempre desejou viver. Obviamente, a
imagem idealizada e sem nenhum traço de falhas de caráter de Jack é algo
surreal, levando-nos a pensar se toda aquela paixão iria perdurar se eles
realmente conseguissem desembarcar juntos. Ao imaginar isso, me veio à mente a
cena em que a personagem de Meryl Streep, em As Pontes de Madison, reflete sobre a ideia do encanto acabar
quando os quatro dias de paixão junto ao fotógrafo vivido por Eastwood virarem
uma rotina. Divago...
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A paixão em sua tragicidade: se desembarcassem juntos, quanto tempo o encanto duraria? |
No elenco secundário, tais
facetas de bem ou mal acabam por não ser muito desenvolvidas. Não que isso seja
uma falha, friso. Afinal, personagens como o do engenheiro Thomas Andrews, o responsável
pela construção do barco, acabam por representar apenas carisma e doçura,
trazendo uma pretensa simpatia ao público que enxerga nele a figura de um homem
que viveu pelo seu ideal, mas que, manipulado por hierarquias irresponsáveis, viu
seu projeto ser destruído. Acaba sendo parte de um grupo de elementos que compõem a trama secundária, criando um contexto histórico (nem sempre fiel, claro) para a estória principal que o filme se propõe a contar.
Ao final, quando vemos todo o
núcleo de “personagens bondosos” reunidos em torno do casal apaixonado, percebe-se
que a intenção do roteiro de Cameron era justamente essa. A de manter clara a
separação entre bom e mal no filme. Mesmo que isso, claro, acabe sendo feito de
forma não tão natural quando o olhar apurado consegue sobressair-se da tocante
trilha de James Horner e toda a fragilidade das citadas construções se torne
tão evidente. Mas, em seu climax, quando todo o brilhantismo técnico da produção
enche os olhos, não há como não se encantar. É o filme de uma geração de pessoas
que o viram nos anos 90 e se emocionaram. Felizmente, eu fiz parte desse grupo.
PS. Havia 3D? Mesmo? Excetuando pouquíssimos momentos onde a posição dos atores em cena era supervalorizada pelo efeito (o momento em que Jack desenha Rose é um deles), esta foi apenas mais uma forma de extorquir espectadores com ingressos enganosos e mais caros. Nas cenas onde seria óbvio vê-lo acontecer, quando, por exemplo, a água invade os corredores do navio, nada se viu em 3D. Uma pena, uma vez que o nome de James Cameron virou um sinônimo de excelência nesse tipo de efeito especial.