Na edição de 25 de setembro da Revista Muito, encartada semanalmente no Jornal A Tarde, tive a honra de ver publicada a entrevista que fiz com o cineasta Eryk Rocha.
Na conversa, o diretor do premiado documentário Cinema Novo, filme vencedor na categoria em Cannes esse ano, e longa de abertura do Festival de Brasília 2016, falou sobre a experiência de trazer à tona obra tão impactante.
Clique no link para ler a entrevista e a crítica do filme e, abaixo, você confere a versão impressa da revista.
http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1804341-eryk-rocha-quero-pensar-o-cinema-como-traducao-poetica
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
Meu Rei
(Mon Roi, França,
2015) Direção: Maïwenn. Com Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot, Louis Garrel.
Por João Paulo Barreto
Marie-Antoniette, ou simplesmente Tony, se entrega à descida
de uma montanha sobre os velozes esquis para neve. Parece um gesto suicida de
sua parte. Mas, até o momento final, quando se machuca seriamente, sente o
vento gelado no rosto, sente seus cabelos esvoaçarem de modo refrescante e, o
mais importante, sente uma emoção que, apesar de saber se tratar puramente da
adrenalina, ela não se importa com sua origem artificial e previsível: quer
vivê-la com a maior intensidade possível.
A descrição acima se adéqua, também, a um momento anterior
da vida de Tony. Ao conhecer Giorgio em uma boate, relembra-o do fato de que já
o havia encontrado anteriormente. Quase como em um prólogo de sua vida que está
para começar no final daquela madrugada, tomando café da manhã com aquele
homem, o tempo em que foi garçonete e que o serviu vem à tona como uma
lembrança antiga. É a partir deste reencontro que os dois se envolvem e a
descida intensa na vida de Tony começa a se assemelhar bastante com a mesma que
abre o filme, quando seu inicio promissor, excitante e emocionante ainda não
pareceria terminar do modo traumático e amargo como acabou.
![]() |
Os sorrisos iniciais que não tardarão a se perder. |
“Não se deve ter mais nada a perder para se amar de verdade.
Deve-se superar as maiores alturas para desafiar esse abismo”, afirma Tony durante
uma de suas audiências como advogada. E sua vida no momento em que se envolve
com o bom vivant Giorgio se assemelha muito àqueles fatos. São dias exuberantes,
de alegria contagiante, de sexo intenso, de emoções que não lhe cabem. Os
sorrisos são constantes e os planos para o futuro não poderiam ser melhores. A
gravidez não tarda a chegar e os planos felizes parecem se multiplicar dia após
dia.
Neste ponto, ainda durante a gestação, aquele relacionamento
sofre seu primeiro revés, com a necessidade de Giorgio em cuidar de uma
ex-namorada suicida começando a influenciar negativamente a sua relação com
Tony. As crises se iniciam, as brigas também, e a violência e gritos entre os dois só é apaziguado com a
chegada de Simbad, o bebê que nasce com um olhar sério e beleza impar. Os dias parecem
novamente esperançosos, mas, claro, sabemos se tratar apenas de uma trégua. Na
distância física de Giorgio, que viaja a trabalho, ou em sua necessidade de
manter-se sempre em festas, como se ainda tivesse vinte e poucos anos, outros reveses
daquela relação.
![]() |
A chegada de Simbad e a esperança fugaz de uma relação |
Meu Rei, em certos
aspectos, lembra Brilho Eterno de uma
Mente sem Lembranças e seu modo de exibir os vestígios e desgastes de uma
relação, quando o desrespeito mutuo suplanta sorrisos e carícias. No entanto,
aqui, não há nenhuma outra opção além de encarar aquelas dores. Na pele de
Giorgio, Vicent Cassel traz uma jovialidade comum aos seus personagens. Um
carisma que se perde ao passar do tempo. Já em Emmanuelle Bercot, vemos na sua
Tony um olhar de curiosidade e insegurança, algo que, gradativamente, se
transforma em decepção e tristeza. É um filme que demonstra de modo áspero como
um relacionamento pode se tornar tão pernicioso, ao ponto de até mesmo a coisa
mais bela oriunda dele, uma criança, não ser mais capaz de torná-lo válido de
qualquer esforço em mantê-lo.
Enquanto vemos Tony se recuperar de sua grave lesão no
joelho em uma clínica especializada e suas memórias nos levar às lembranças
daquela irrecuperável relação, notamos como aquelas duas fases de sua vida se
complementam, sendo que apenas uma é passível de se obter algum êxito. Entre
ela e Giorgio pouco se salva. E a aspereza que fica para trás reverbera naquele
relacionamento que sempre estará ligada por conta da vida que os dois criaram e
compartilham.
O silêncio passivo agressivo de Giorgio em seu momento final
junto a Tony deixa claro, no entanto, que aquelas lesões nunca irão se curar.
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Sete Homens e um Destino
(The Magnificent Seven, EUA, 2016)
Direção: Antoine Fuqua. Com Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vicent
D’Onofrio, Byung-hun Lee, Martin Sensmeier, Haley Bennett.
Por João
Paulo Barreto
Alguns filmes são como pilares. Instituições. Não se deve
ousar sequer pensar na possibilidade de refilmagens, adaptações para séries de
TV ou reimaginações. É o caso de obras como O
Poderoso Chefão, Taxi Driver ou Rastros
de Ódio. Claro, hoje há uma tendência, modinha mesmo, de se adaptar para TV
ou refilmar sucessos. Típico caso de ausência de novas ideias. caso. Algumas
podem dar certo, outras passam longe (vide a bem sucedida série Fargo ou o horror chamado Ben Hur). Então, foi com certa desconfiança,
mas uma pitada de boa fé, que vi há alguns meses o primeiro trailer do novo Sete Homens e um Destino.
E acabou se revelando uma grata surpresa em termos de
qualidade a adaptação do clássico de John Sturges, que contava com Yul Brynner
e Steve McQueen encabeçando um elenco, junto a James Coburn, Charles Bronson e
Robert Vaughn. Aqui, Denzel Washington e Chris Pratt repetem a química
conseguida entre os protagonistas do filme de 1960 que, desta vez, tem na
presença de Antoine Fuqua uma direção firme para as cenas de ação nas quais não
comete o erro de modernizá-las ou de trazer uma montagem com cortes acelerados,
algo bem comum nas propostas de atualização de clássicos.
![]() |
Washington e Pratt: à altura de Brynner e McQueen |
Em um plot bem semelhante ao que vimos na versão original
(que já se tratava de uma reimaginação para a obra de Kurosawa, Os Sete Samurais), o latifundiário e
assassino Bartholomew Bogue (Sarsgaard) decide tomar à força uma cidade por
conta de suas terras. No processo, mata diversos membros da comunidade, o que
leva um grupo deles a procurar vingança e justiça contratando o caçador de
recompensas Chisolm (Washington) que recruta mais seis matadores para fazer o
serviço.
Com uma estrutura inicial de apresentação dos personagens
que remete em modo de tributo ao clássico de 1960, como quando vemos um duelo
semelhante ao que vimos com James Coburn a usar uma faca contra um revolver
(aqui, um grampo de cabelo resolve), a escolha dos novos integrantes do bando
demonstra-se bem eficiente. A começar por um inseguro Ethan Hawke a viver
Goodnight Robicheaux, pistoleiro cuja lenda é alimentada por uma precisão no
tiro, mas que esconde os traumas da guerra a torná-lo incapaz de matar
novamente. Outro que surpreende é Vincent D’Onofrio, ator cujo controle vocal já
é notório (veja-o em Demolidor e
compare com seu personagem aqui) e que usa sua corpulência de modo
impressionante na pele do brutamontes Jack Horne, ou o “urso em roupas humanas”
como define Josh Faraday, vivido com o carisma habitual de Chris Pratt.
![]() |
Emma Cullen em busca de justiça e/ou vingança |
Além disso, na presença da viúva Emma Cullen (Bennet), uma
personagem feminina forte e determinada, sem a comum fragilidade vista em
alguns filmes, o longa de Fuqua acerta ao torná-la uma das figuras chaves da
trama, cujo desfecho forte e que exibe um passado em comum entre dois outros
antagonistas (algo que remete claramente ao final de Era uma vez no Oeste) colabora para enriquecer ainda mais a
história.
Pecando apenas por não tornar muito factível o interesse do índio
Red Harvest (Sensmeier) na empreitada, algo que é observado pela forma incomum como
ele se aproxima do bando, ou no modo como a desistência de um dos integrantes é
previsivelmente contornada pelo seu retorno em um momento crucial do embate contra
os homens de Bogue, o roteiro de Nic Pizzolato e Richard Wenk cumpre bem sua intenção de homenagear o
longa de 56 anos atrás, imprimindo uma roupagem sem firulas, que faz jus a
estrutura dos westerns clássicos.
Ao pontuar apenas o seu final com o famoso tema original
composto por Elmer Bernstein, o filme de Antoine Fuqua acerta ao optar por uma
identidade própria, algo alcançado com eficiência pela trilha composta pelo
saudoso James Horner, aqui em seu último trabalho.
![]() |
Os Sete Magníficos em sua nova versão |
domingo, 18 de setembro de 2016
Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva IX
Orquestra Invisível Let´s Dance (São Paulo, 2016, 20min) Direção:
Alice Riff.
Com uma estrutura já convencional de apresentação de
personagem, o documentário Orquestra Invisível
Let´s Dance tem justamente nessa escolha de desenvolvimento sua principal
falha. Ao optar pela captação de depoimentos de maneira um tanto repetitiva,
sem inovar nos discursos um após o outro, o filme acaba precisando da
redundância de uma narração em voz over para levar pela mão o espectador em sua
história.
História essa que, ao menos, cativa o público por conta do imenso carisma de seu protagonista. No caso, trata-se de Osvaldo Pereira, o primeiro DJ do Brasil e precursor das vitrolas e das trocas de discos de vinil nos bailes dos anos 1950 e 1960. Substituindo as grandes orquestras que, até então, eram contratadas para animar os bailes e, por consequência, carecendo de um grande investimento por parte dos organizadores,
Seu Osvaldo, como era
conhecido, revolucionou o negócio dos bailes. Sendo apenas ele à frente do som e um grupo pequeno de
pessoas na organização das festas, o ramo se tornou rentável, uma vez que o
retorno financeiro era bem maior sem a necessidade de se bancar grandes grupos
de músicos profissionais. Daí a ideia de chamar o que Seu Osvaldo oferecia de
“Orquestra Invisível”, uma vez que, ele sozinho, junto a uma vasta coleção de
vinis, era responsável pela animação de diversas festas.
![]() |
Seu Osvaldo, o primeiro DJ do Brasil |
É neste ponto que o documentário dirigido por Alice Riff acerta,
quando a influência musical é colocada em evidência ao se abordar o tipo de som
que Seu Osvaldo tocava à época. Exibindo uma invejável coleção de vinis, que
vão desde um Ray Conniff ainda sem a característica principal dos cabelos
grisalhos à marca registrada dos bailes do período com Glenn Miller inserindo o
clima, o curta utiliza bem a fala de Seu Osvaldo para relembrar o período da
forma como deve ser feito: com as influências musicais que o definiram como um
precursor dos bailes blacks e do funk que, para usar uma gíria do período, se
tornariam uma “coqueluche” cultural.
Tributo a uma figura que merece o registro para a
posteridade não somente pela sua importância histórica, mas pelo carisma tão
contagiante quanto seu som.
Antonieta (Santa Catarina, 2015, 15min) Direção: Flávia Person.
Antonieta é um filme
de ritmo eficiente que, mesmo centrado em uma constante narração em off, consegue,
com o importante suporte imagens de arquivo, captar muito bem a atenção do
espectador. Através de breves e concisos
quinze minutos, o curta narra a intensa vida de Antonieta de Barros, a primeira
mulher negra a se tornar parlamentar no Brasil.
Filha de uma ex-escrava, Antonieta tem em sua trajetória no
estado de Santa Catarina do começo do século passado, um exemplo de resistência
e do necessário pensamento à frente do seu próprio tempo. Em sua história, a
paixão pelo magistério a leva a adotar a vocação de modo exclusivo, não
sobrando espaço em sua vida para casamento ou filhos. Um sacerdócio, como
insere a narração.
![]() |
Antonieta de Barros |
Trata-se de um curta que prima por uma precisa pesquisa do
seu tema de estudo. Que delineia, sem a necessidade floreios, a vida de sua
personagem de modo conciso, trazendo para o espectador o peso exato da
importância de Antonieta de Barros para o tempo em que viveu, no qual despertou
o respeito disfarçado oriundo das influentes famílias brancas e racistas (suas
classes eram disputadas por todos os representantes da elite catarinense que
queriam os filhos como alunos de Antonieta) e se firmou na luta pelos direitos
das professoras quando fundou a Liga dos Magistérios. No absurdo pensamento da
época, as professoras não podiam se casar ou ter filhos, pelo fato de que essa
condição poderia levar as crianças a indagá-las sobre sua sexualidade e vida
afetiva.
Ao utilizar imagens oriundas das primeiras décadas do século
XX para ilustrar a narração explicativa da vida de sua personagem, a montagem
do curta demonstra sagacidade, como, por exemplo, no momento em que traz a
opinião de Antonieta acerca da necessidade obrigatória do saber como sendo uma arma.
“Só vive no sentido humano da palavra o que pensa. Os outros se movem, tão
somente”, insere a voz over. E a exatidão do momento coincide com imagens de
bovinos sendo levados à frente pela violência de boiadeiros. Uma clara alusão à
vida de gado que apenas o conhecimento poderia evitar.
![]() |
Antonieta em meio aos colegas de parlamento no começo do século XX |
Personagem de tema riquíssimo, traz para a obra a
importância de se enxergar a nossa identidade de Brasil. Alguém que lutou desde
o começo para se destacar e fugir das amarras que a manteriam confinada ao
detalhe da cor de sua pele ou ao seu gênero. Luta pela emancipação feminina no
intuito de escapar das amarras do pensamento retrógrado. Nesse ínterim, se torna
cronista de jornal, assinando a coluna “Farrapos de Ideias” sob o pseudônimo de
Maria da Ilha e batendo de frente com declarações pejorativas e racistas acerca
de seus escritos. “Intriga barata de senzala”, carimba um historiador da época.
Na réplica, já se encontrando exonerada da escola onde
lecionava pelas forças sombrias e racistas do período do Estado Novo, Antonieta
demonstra sua elegância e orgulho pela sua luta ao afirmar que “não houve
intriga barata, nem cara. As considerações foram ditadas pelo coração de uma
negra brasileira que se orgulha de sê-lo e que nunca se pintou de outra cor.”
Na força de seu discurso, a sensatez que apenas os detentores da razão possuem.
Uma pena que a diabetes a tenha levado com apenas 51 anos. Imaginar
o que Antonieta teria feito em mais trinta anos é algo por demais desafiador e
reconfortante.
Ao conhecer sua vida, fica a certeza de que, contra os
hipócritas e racistas, a pena é mais forte que a espada.
Mas a arma afiada não pode ser descartada, friso.
Abigail (Rio de Janeiro, 2016, 17min) Direção: Valentina Homem e Isabel Penoni
Existe uma ambientação quase de cinema de gênero no inicio do
curta dirigido por Valentina Homem e Isabel Penoni. Trata-se de um filme
extremamente sensorial.
Desde seu convidativo plano sequência de abertura, quando
somos levados a conhecer os cômodos da casa da personagem-título, com as
camadas dos seus objetos pessoais expostos a desenhar sua personalidade para o
espectador que não a conhece, até o momento chave daquela introdução, quando o
filme interrompe o silêncio gritante (e, até então, imperceptível) para inserir
um intenso som metálico, um assustado latido e a aparição de uma representação
do candomblé a tomar toda a nossa atenção e nos tirar daquele quase transe de
imersão onde nos encontrávamos. A energia da cena é palpável.
Abigail traz uma
forma de apresentação de sua personagem que foge de clichês descritivos
convencionais. Mesmo em sua narração em off, não se percebe uma necessidade
explicita de descrever a vida de Abigail Lopes, indianista e esposa de
Francisco Meireles, um sertanista que, ao lado dela, lutou pelos direitos dos
nativos. A voz, entretanto, nos convida a adentrar naquele contexto. E, somado
ao modo aconchegante como passeamos por aqueles recintos, acabamos por nos
sentir à vontade ali e ainda mais curiosos por conhecer a trajetória daquela
senhora que, já na fase final de sua vida, em uma fala marcante captada pelas
diretoras, se considera teimosa como justificativa ao fato de possuir suas
coisas.
![]() |
Momento de entrega e de união de suas duas missões |
De fato, é algo não tão simplório quanto teimosia o que
explica tudo que o que ela conquistou, não somente em relação às posses
materiais, obviamente, mas em termos sociais na aproximação com os indos e na
defesa pela sua causa. É resignação. Neste processo, foi responsável pela
pacificação dos Xavantes, algo que o filme levanta como um fato do qual ela se
arrepende por considerar que eles tiveram acesso ao que não presta ao lado dos
brancos.
Ao abraçar o
candomblé e uni-lo à cultura indígena que já havia absorvido, Abigail encontra
um equilíbrio denotado no momento em que comenta acerca do Obaluaê, um dos
símbolos dessa cultura, que pertencia ao seu filho, Apoena Meireles,
assassinado em 2004. “A gente não pode ter medo de nada”, diz a senhora
enquanto parece confortar uma das diretoras presentes. Um pedido de benção
demonstra a admiração pela mulher em estudo.
Na mescla de cumplicidade com sua protagonista, o filme
cumpre um papel ainda mais importante que o de registrar a vida e luta de
Abigail Lopes. O de cultivar o respeito por aquela cuja trajetória fez a
diferença para todo um povo e que, no final de seus dias, encontra o conforto
no exílio particular de seu próprio mundo, representado pela presença física
que aquele lar, o segundo personagem do filme, denota.
Retrato de Carmem D. (Rio de Janeiro, 2015, 21min) Direção: Isabel
Joffilly.
Em outra obra da nona Mostra Competitiva em que se observa
uma relação intima do espaço físico com o estudo de seus personagens, Retrato de Carmem D. possui uma carga
dramática mais pesada e, por conta da interação entre suas duas figuras
centrais, o resultado acaba sendo de uma intensidade palpável.
Carmem Dametto, conhecida psiquiatra residente do Rio de Janeiro,
atende seus pacientes em casa, um imóvel situado em local de perceptível silencio
e de calma bucólica. No entanto, o lugar esconde certo desequilíbrio emocional.
E o filme de Isabel Joffily ressalta justamente esse fato ao confrontar as
diferenças entre a profissional e sua filha, Marcela, jovem cujos traumas de
ter vivido sob a criação pragmática da mãe afloram de forma marcante em seus
depoimentos.
Entre lágrimas, a vemos falar acerca do modo como Carmem não
demonstrava uma cumplicidade de mãe quando as dúvidas comuns à infância
surgiam, afirmando-se não como uma amiga ou como uma psiquiatra para a filha,
mas apenas como mãe, posição que, para ela, não apresentava os atributos ou
obrigações que a filha afirmava.
![]() |
As dores de uma trajetória vindo à tona e sendo confrontadas |
É um filme que se equilibra muito bem sob as a discussões
das duas mulheres. Discussões essas que podem surgir de pontos tanto graves,
quanto ínfimos, como vemos todo um enérgico argumento que revisita declarações
duras do passado, como quando a jovem afirma ter sido chamada de filha da puta
pela própria mãe quando ainda era criança. E isso acontece a partir de uma
simples conversa acerca da opção de dar ou não leite para os gatos da casa.
Em tons de voz sempre altos, ambas parecem estar a todo
momento sob o fio da navalha para iniciar uma briga. Porém, há uma cumplicidade
notável entre as duas. Chamados de “mãe” ou de “Marcela” demonstram isso. As
rememorações do passado, sobre festas infantis feitas com pacientes presentes
que hoje causam risos ou o suporte demonstrado pela jovem ao falar do caso onde
a mãe foi acusada de assassinato quando um paciente morreu em sua clinica no
final dos anos 1980 (caso já encerrado e Carmem sendo inocentada), também
exibem tais laços entre as duas.
![]() |
A piscina a representar de modo perfeito o cuidado que aquela relação pede |
E a casa, em toda sua grandeza, com os objetos da rotina a
compor o ambiente doméstico, sem nenhum tipo de “bagunça cênica” inserida pelo
filme, serve como um local perfeito para demonstrar o equilíbrio entre ambas. Em
um momento simbólico, vemos Marcela dentro da agora abandonada e vazia piscina
que, repleta de lodo, carece de uma reforma para voltar a aparentar o que é. Lá
de dentro, a vemos acariciar os cachorros na borda e comentar sobre se lembrar
da mãe bronzeada e defini-la como “briguentinha”, por conta de sua impaciência
em responder as perguntas de criança. É um take que mostra a beleza de um lugar
que carece apenas de atenção.
Rima muito bem com a necessidade da relação entre mãe e
filha.
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva VIII
Entretempos (Ceará, 2015, 7min) Direção: Yuri Firmeza e Fred Benevides.
Tema essencialmente presente entre as obras selecionadas para as mostras competitivas do Cachoeria Doc, Entretempos aborda as transformações de cidades não somente pelo seu viés geográfico e urbanista, mas pelo cunho social e, de forma traumática, excludente no quesito étnico.
Através de colagens de imagens que desenham um panorama de construções e demolições em bairros populares do Rio antigo, mais propriamente a região conhecida como Pedra do Sal ou “pequena África”, nos arredores da Praça Mauá, o filme de Yuri Firmeza e Fred Benevides apresenta uma marcante crítica ao modo como a exclusão racial se encontra tão escancarada na pretensa ideia de “modernização” dos locais comuns a todos.
Nas animações publicitárias de empreendimentos imobiliários, juntamente com a inserção das figuras brancas como um modo a demarcação territorial, uma chocante observação do modo selvagem como a gentrificação de áreas completas de uma cidade pode acontecer tão às claras.
Em seu título, Entretempos propõe esse intervalo, algo que, em um mundo ideal, significaria uma evolução. No entanto, a repetição das mesmas práticas do período colonial se observa apenas como uma roupagem disfarçada, mas tão óbvio quanto o que é evidenciado pelas imagens dos documentos comprovadores de negociações por escravos.
![]() |
Embranquecimento e gentrificação de uma cidade |
* * *
SemTítulo #2 – La Mer Larme (São Paulo, 2015, 31min) Direção: Carlos Adriano.
Em Sem Título #1: Dance of Leitfossil, o cineasta Carlos Adriano apresentou, em pouco mais de cinco minutos, uma belíssima homenagem a Bernardo Vorobow, seu companheiro de longa data, parceiro na direção de diversos trabalhos e experiente programador que esteve, por quase 40 anos (de 1970 até sua morte, em 2009), à frente de diversos centros de programação cinematográfica, como o Museu da Imagem e Som.
Conhecido como o “Sr. Cinemateca do Brasil”, Vorobow tem sua imagem inserida à bela justaposição da dança de Fred Astaire e Ginger Rogers com a música Desfado, interpretada pela cantora portuguesa Ana Moura. Trata-se uma obra cujo ritmo enérgico, somado ao casamento perfeito entre imagem e som, cativa o espectador de forma acachapante, tornando impossível que um sorriso não se faça presente do começo ao fim de sua breve projeção.
![]() |
A cumplicidade observada em um frame |
Na sua continuação SemTítulo #2 – La Mer Larme, Adriano dá uma vazão ainda maior à homenagem que continua a merecer Vorobow por sua trajetória no cinema nacional. Aqui, a escolha musical fica por conta da canção francesa La Mer, de Charles Trenet, interpretada por ele e por uma grande variedade de artistas. Nas imagens, observamos dois homens a conversar em um convés, no qual violência da maré e dos ventos os leva a compartilhar uma cumplicidade em comum. Cumplicidade essa que faz referências à forma escolhida pelo diretor a homenagear Vorobow, cujas imagens são, assim como em seu antecessor, novamente inseridas juntamente com registros de um cateterismo, em uma clara alusão às complicações cardíacas que o levaram.
Nas imagens, uma estendida justaposição das cenas já citadas e de colagens de obras seminais dos primórdios do cinema. Uma diferente experimentação, com união de imagens e repetição constante de seu tema musical, algo que pode até causar estranhamento no público desavisado por conta de sua duração e experimentalismos, mas que, da mesma forma que em sua primeira parte, leva o espectador a perceber e se comover diante de um teor saudoso e um modo particular e idiossincrático de se observar o luto.
* * *
Filme de Aborto (São Paulo, 2015, 63min) Direção: Lincoln Péricles.
Há em Filme de Aborto, do diretor Lincoln Péricles, uma análise pertinente do modo como subempregos (no caso, telemarketing) são capazes de destruir auto-estimas e causar depressões. Neste aspecto, o filme funciona por tocar em um assunto delicado, algo já notório e que afeta muitas pessoas. Nesta proposta, ao trazer o tema para uma dramatização, o longa acerta por evidenciar algo que merece atenção. Mas, como seu título já diz, outro ponto é verificado.
Trata-se de uma obra inventiva, que aborda a questão do direito feminino ao aborto de maneira a alfinetar uma sociedade paternalista e machista na qual as mulheres não possuem os mesmos direitos e conivências. Somando-se ao drama imposto pela necessidade empregatícia, o filme acaba mirando e desenvolvendo não exclusivamente um único aspecto que aflige seus personagens, o que gera um problema no foco que o trabalho possui. A escolha não chega a prejudicar o resultado, mas o modo como isso é executado, sim. Principalmente quando o filme opta por inserções de imagens (vide a sequência com o vagabundo de Chaplin) que servem apenas para causar uma quebra em sua narrativa, mas que não alcançam qualquer intento.
Desconsiderando isso, é interessante focar nos pontos de acerto de Péricles. O mais óbvio reside na inversão irônica de um casal que deseja ter filhos, mas, no contexto, quem engravida é o homem. O aborto, nesse caso, é legal, uma vez que não é realizado pela mulher. Neste aspecto, o filme traz boas reflexões e causa até bons momentos em sua acidez, como quando vemos dois “grávidos” conversarem enquanto esperam o atendimento na clínica onde será feito o procedimento, algo que remete às esquetes surreais propostas pelo grupo britânico de humor, Monty Python.
![]() |
Inversão dos papéis e a reflexão dura através da ironia do humor |
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva VII
Nunca é Noite no Mapa (Pernambuco, 2016, 6min) Direção: Ernesto de Carvalho.
Vencedor do prêmio de Melhor Curta Metragem da edição 2016
do Cachoeira Doc, Nunca é Noite no Mapa apresenta
uma ideia simples, mas de uma sagacidade impar. Trata-se do tipo de filme cujo
tema central e modo de execução rimam em um pertinente uníssono e cuja denúncia
contida em seu conteúdo reverbera de forma ainda mais evidente por conta dessa
mesma forma de execução.
A partir de visitas ao google mapas espaçadas por intervalos
de tempo, o diretor Ernesto de Carvalho avalia as imposições arbitrárias
realizadas em Recife durante o período que antecedeu a Copa do Mundo,
registrando as mudanças que ocorreram na região, com a derrubada de casas para
a passagem de novas avenidas.
![]() |
O diretor se insere em seu experimento se tornando objeto de observação |
Ao se colocar como elemento dentro do seu filme, o
narrador/diretor observa as mudanças ao seu redor como um dos elementos
diretamente afetados por aquelas ações agressivas. Não que ele já não cumprisse
esse papel, uma vez que vive dentro daquela realidade. Mas, ao se propor
analisar os objetos dispostos dentro do mapa do mesmo modo como eles são
classificados por aquele olhar digital e desumano, o narrador acaba por trazer
uma nova perspectiva, tornando o mapa a sua realidade e mantendo-se ali,
inserido até o fim, como sendo apenas isso: um objeto a ser apenas exposto sob
a visão de uma máquina.
Assim, as camadas daquele universo vão sendo sobrepostas uma
após a outra, trazendo à tona a forma selvagem com aquelas mudanças são
impostas. Em seu título, um congelar do tempo é proposto pelo filme. Nesse
ínterim, pessoas são descartadas dentro de um universo virtual.
Algo que reverbera e reflete de modo brutal na realidade que
serviu como modelo fotográfico para aquele registro atemporal.
* * *
Fort Acquario (Ceará, 2016, 7min) Direção: Pedro Diógenes.
Das formas mais eficientes de se denunciar o abusivo poder
dos mais abastados sobre uma população que os sustenta, a tática de se usar seu
próprio discurso contra o opressor é uma das que melhor funciona.
Em Fort Acquario, o
diretor Pedro Diógenes consegue essa proeza de modo bastante eficiente. Ao
utilizar a oportunista fala de um arquiteto ao expressar-se sobre todos os
supostos benefícios que a construção de um aquário de visitação pública trará à
praia de Iracema, em Fortaleza, Diógenes contrasta toda a argumentação ensaiada
do homem com fotos da utilização da praia de modo democrático e acessível a
todos. Da forma como deve ser.
![]() |
A observação do uso do espaço público como ele deve ser: sem apropriações |
Nesse intento, as imagens de pessoas a caminhar pelo
calçadão com os tapumes da obra a destoar da paisagem e as palavras do
arquiteto a afirmar que aquela será uma revitalização que trará de volta ao
lugar as famílias que lá merecem frequentar, servem justamente como um resposta
das mais eficientes àquela forma baixa de se vender uma ideia.
Na opressão imposta pela classe dominadora que insiste em se
apropriar dos espaços comuns em nome de uma suposta segurança geral, o filme
ainda acerta em cheio ao usar a voz daquela que, até então, era um dos símbolos
de rede Globo, talvez a maior aliciadora de intelectos e manipuladora de fatos
em detrimento de interesses escusos como os que estavam por trás daquela
construção em Fortaleza.
* * *
Dia de Pagamento (Pernambuco, 2015, 28min) Direção Fabiana Moraes.
Como um filme de personagens que se encadeiam a partir da
narração em off que guia o espectador por duras trajetórias de vida, Dia de
Pagamento funciona através de um registro do modo como um suposto progresso
muda a vida de gente simples. Nem sempre para melhor, friso. Na estrutura de
seu documentário, a cineasta Fabiana Moraes insere a encenação de situações que
ajudam a compor a mise en scène do filme e colaboram com uma quebra do que correria
o risco de se tornar uma estrutura documental clichê.
Não é o caso aqui. Nas apresentações de seus personagens, a
diretora traz suas histórias e rotinas de modo a familiarizar o espectador com
aquela realidade. A de pessoas como a dona de casa e mãe de três filhos, que
trabalha por pouco mais de mil reais e têm nessa quantia a perspectiva de um
mês inteiro. Que precisa pagar em dez prestações quatro cadeiras plásticas, mas
que consegue observar o mundo ao redor de sua casa pequena e perceber que ao
menos aquilo lhe pertence. Na pequena habitação adquirida, ela consegue se
sentar à porta e observar aquilo como sendo seu.
![]() |
O registro das mudanças em nome do suposto progresso |
A representação do progresso em questão é a transposição do
Rio São Francisco, obra que altera rotinas e difere paisagens. Nessa mutação de
toda uma região, as mudanças podem ser traumáticas justamente pelo modo
temporário e fugaz com que seus benefícios se apresentam. Um exemplo disso está
no enquadramento que conta a história do dono do bar que faturava cinco mil
reais por mês no auge do movimento de operários, mas que, agora, tem sua renda
mensal restrita a quinhentos reais.
É um filme humano em sua essência. Por mais simplória que
essa definição possa parecer, ela tem sua eficiência na forma como a diretora
Fabiana Moraes consegue captar uma face única de seus entrevistados. Seja no
gracioso momento em que ensina uma senhora a linha que ela terá que proferir
(sendo necessárias diversas repetições) ou na triste abordagem de outra
moradora idosa que conta a experiência de perder seu jumento para uma pedrada
oriunda de uma explosão planejada (isso sem contar o fato de que a indenização
que lhe ofereceram foi de dez reais). É nestes encontros que a obra se constrói
e encontra seus melhores resultados.
* * *
Aracati (Rio de Janeiro e Ceará, 2015, 62min) Direção: Aline
Portugal e Julia de Simone.
![]() |
É curioso o fascínio gerado pelo média metragem Aracati,dirigido pelas professoras de
roteiro Aline Portugal e Julia de Simone. Trata-se de um filme extremamente
sensorial, um literal estudo do vento que leva o nome título do filme e que tem
como sua característica mais marcante o fato de que sopra no mesmo horário
diariamente, levando movimento a várias turbinas geradoras de energia eólica no
estado do Ceará e a certeza de uma rotina infalível aos moradores da região.
A partir de um inicio que segue uma estrutura formalista,
exibindo o local de manufatura dos gigantescos moinhos de vento que adentram o
estado, o filme gradativamente caminha para uma abordagem humana, exibindo as
transformações dos lugares e o modo como as mesmas afetam os habitantes ao
redor. Nisso, alagamentos de cidades para criação de represas apagam não
somente as estruturas físicas dos locais, mas, também, o emocional de seus
cidadãos.
![]() |
O progresso e contraste de paisagens |
Nessa certeza de mudança constante, as pessoas ao seu redor
tendem a se tornar meros observadores de toda aquela mutação. E a partir da
presença da câmera da dupla de cineastas, um novo contexto é percebido na vida
daqueles cidadãos. Um deles caminha pelo lugar onde antes havia uma cidade, mas
que, agora, apenas ruínas de um alagamento permanecem. Em um tom de nostalgia,
o vemos comentar que aquela foi a primeira casa da rua. Ele caminha pelos
“cômodos”, observa uma mala esquecida na areia que cerca o local. É de sua vida
que estamos falando. É da sua estrutura de vida que lhe foi retirada em nome de
algo que supostamente se chamaria progresso. O progresso físico das coisas.
Aquele que suplanta o emocional e sentimental de outras.
Aracati é um filme
que trata desse tom passageiro, dessa mensagem que aborda o transitório. Que
usa a metáfora do vento a cruzar a região de modo a salientar justamente essa
ideia de mudança que, de forma contraditória, se torna algo indelével, uma vez
suas alterações são definitivas.
No som oriundo do soprar constante do Aracati é que está uma
das poucas coisas imutáveis na vida dos habitantes daquela região.
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Bruxa de Blair
(Blair Witch, EUA, 2016) Direção: Adam
Wigard. Com James Allen McCune, Callie Hernandez, Corbin Reid, Brandon Scott,
Wes Robinson, Valorie Curry.
Por João
Paulo Barreto
Creio até que demorou tempo demais para que o fenômeno de
1999, The Blair Witch Project, filme
de terror em formato documental dirigido por Daniel Myrick e Eduardo Sanches
sob o troco de orçamento que é a bagatela de 60 mil dólares trazer um retorno
mundial de quase 250 milhões de dólares.
Sim, foram 17 anos de diferença entre aquele filme e uma
continuação realizada nos mesmos moldes (Bruxa
de Blair 2 – O Livro das Sombras,
lançado em 2000 e sem as características do original não conta). De lá para cá,
uma revolução digital aconteceu. O Big
Brother se tornou um dos mais populares programas de TV. Realmente, a
demora surpreende. Aqui, novas e menores câmeras digitais; equipamentos de
captação minúsculos que podem ser usados como bluetooths no ouvido; drones;
GPS; google maps; internet 3G, enfim, tudo o que poderia ser possível de ser
utilizado no intuito de não permitir que um grupo de jovens se perdesse em uma
flores foi utilizado. Mas, ainda assim, eles se perderam.
Mas, enfim, Bruxa de
Blair (em uma feliz utilização de um nome mais clean para diferenciá-lo do
original) até que funciona ao emular as principais características de seu
antecessor do século passado e, pelo menos, poupa o espectador de overdoses de câmeras
trêmulas, uma vez que o seu original ficou notório por levar muitos
espectadores a sentir enjôos por conta do excesso de imagens tremidas e
rápidas, algo que se repetiu em filmes como Voo
93 e Jason Bourne, ambos de Paul
Greengrass.
![]() |
"Não entre após o anoitecer": mas será que alguém segue conselhos? |
Na continuação, o irmão da jovem Heather, protagonista do
primeiro filme, resolve investigar o seu desaparecimento após um suposto vídeo
da casa onde ela teria sido vista pela última vez surgir no youtube. Munido de
todo o equipamento citado acima e da companhia de mais três amigos, além do
casal de guias responsável pela publicação do vídeo on line, ele resolve
adentrar na floresta de Black Hills, em Maryland.
Curiosamente, um dos atrativos do filme está na observação
do espectador para com os truques de montagem e registro utilizados pelo
diretor Adam Wingard, cuja carreira é dominada apenas por filmes de terror. É
interessante notar como os cortes das imagens seguem precisamente uma captação
subjetiva, utilizando somente as câmeras inseridas naquele universo. Apesar de
em alguns momentos se notar certos ajustes no enquadramento que difere da
posição onde se encontram os personagens (nada que não seja perdoável), o filme
consegue se manter fiel a esse seu artifício durante toda sua breve hora e
meia.
No entanto, o som diegético da obra incomoda em certos
aspectos justamente por quebrar essa ideia de imersão. Em certos momentos, ao
se virar para a câmera de alguém que o chama, certos personagens geram um susto
no espectador, algo que é acompanhado de um som que, de modo deslocado, chama a
atenção do seu interlocutor (e do público, friso) para, logo em seguida, ser
esquecido. E perceber que isso volta a se repetir outras vezes sem qualquer cerimônia
acaba por quebrar essa boa sintonia que o filme possui.
![]() |
O caos impera, mas o show tem que continuar: vamos filmar! |
Outro ponto que é impossível de não se observar está em seu clímax,
quando certa personagem, dentro de um momento de puro pânico e horror, se
arrasta por um claustrofóbico subterrâneo, em meio a choro, grito e desespero,
mas se preocupa em atirar a câmera à frente para captar sua trajetória.
Excetuando esses detalhes, o filme cumpre sua função de
causar medo no espectador, principalmente por seus momentos finais, quando descobrimos
um pouco mais sobre a tal entidade.
São outros tempo, diferentes daqueles do final dos 1990. O
filme, claro, não deve ter o mesmo resultado nas bilheterias, mas, enfim, até
que vale a ida ao cinema.
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva VI
Procura-se Irenice (São Paulo, 2016, 25min) Direção: Marco Escrivão
e Thiago B. Mendonça.
O ano de 2016 trouxe para o Brasil as Olimpíadas. Seria uma
excelente oportunidade para o Comitê organizador dos jogos fazer justiça à
figura de Irenice Rodrigues, a corredora recordista que representaria o Brasil
no evento que, em 1968, foi realizado no México. Infelizmente, a “atleta apagada”
da história continuaria com essa alcunha se não fosse pelo obrigatório curta documentário
dirigido por Marco Escrivão e Thiago B. Mendonça.
À frente do seu tempo por conta de suas opiniões decididas e
postura de não se rebaixar diante do autoritarismo dos militares, Irenice é
trazida de volta à vida através dos depoimentos de pessoas que a conheceram à época
em que seus recordes na pista de atletismo eram constantes. Além disso, a dupla
de diretores insere a performance da bailarina e atriz Kanzelumuka, que
simboliza de modo eficaz a presença da atleta, cuja mordaça simbólica é
apresentada, aqui, de forma real, e a bandeira para qual ela tanto queria
prestar a reverência do alto de um pódio, acaba sendo a mesma que a amarra, a impedindo
de correr.
Vitima de um racismo escancarado no período em que treinava,
sendo diversas vezes questionada acerca de sua presença nos locais como alguém
que, ao invés de reconhecida como uma atleta vencedora, seria empregada
doméstica de alguma família abastada que estaria presente, Irenice era uma
vitima de seu país, um Brasil que naufragava diante de um poderio covarde e
autoritário, ao invés de preservar seus ícones mais representativos.
“As pessoas só atiram pedra na árvore que dá fruto”, afirma
uma das fontes entrevistadas, explicando que os argumentos de Irenice acerca do
cenário de influência maléfica do militarismo no esporte e sobre o modo
vexatório como ela era tratada no seu meio, dentre outros pontos
pertinentemente levantados, eram argumentos válidos, que, em caso de
reverberações, daria, sim, frutos. Então, o apedrejamento oriundo dos poderosos
não tardou.
![]() |
A mordaça e a bandeira que se tornaram sua prisão |
“A história da Irenice é uma história de uma punição. É a
história de uma segregação. De uma exclusão. É a história de um apagamento”,
frisa uma das fontes na fala que fecha de modo marcante a obra.
A definição perfeita de uma saga que merecia esse registro
trazido à tona no documentário.
* * *
(A Noite Escura da Alma, Bahia, 2015, 85min) Direção: Henrique Dantas.
Abordando de forma precursora a história da ditadura militar
na Bahia, A Noite Escura da Alma, de
Henrique Dantas, é uma obra que, mais do que a reflexão, traz ao espectador,
principalmente aos nascidos ou que vivem na Bahia há muito tempo, um sentimento
de revolta para com todos os mandos e desmandos que o estado sofreu durante os
anos em que viveu sob a sombra do Carlismo.
Reafirmando o fato de que a arte é uma das armas mais
poderosas contra a opressão, o diretor Henrique Dantas acerta ao utilizar
performances de atores no intuito de denotar a brutalidade dos métodos da
ditadura e as ações dos torturadores. E isso sem a necessidade de ser
panfletário em seu discurso ou gratuito em suas imagens e no modo como a mensagem
é passada à platéia.
“Quando você se propõe a contar uma história
da ditadura militar na Bahia, uma história que você não possui uma imagem
sequer, uma vez que tudo foi apagado, tudo se torna mais difícil”, explica Henrique.
“Você não encontra nada nos arquivos de
televisão daqui da Bahia. Só se acha jornais, e, ainda assim, o que se permitia
que saísse impresso na ocasião”, complementa o cineasta. Acaba que, A Noite Escura da Alma se torna um filme
no qual toda a indignação e ojeriza que ele gera contra os representantes
políticos da época surgem não através de fotogramas de arquivo, mas, sim,
através de palavras. Em discursos pesados vindo de vozes inicialmente sem rosto
e oriundas de pessoas que passaram pelo terror, o longa demonstra sua força.
São depoimentos fortes, que constroem a narrativa para o espectador, o fazendo
mergulhar nos mesmos porões onde aqueles cidadãos estiveram.
Na presença de
personagens como Juca Ferreira, Lucia Murat, Emiliano José, Theodomiro dos
Santos, Carlos Sarno, Haroldo Lima, dentre outros, a voz dos que sobreviveram
ao terror daquele período ecoa pelas paredes do Forte do Barbalho, local
oportunamente escolhido pelo diretor para captar os depoimentos. Era no lugar
onde se concentrava a maioria das ações de repressão militar, onde as torturas
aconteciam e assassinatos eram cometidos. O peso da captação daquelas
entrevistas no Forte acaba por contribuir para a atmosfera do filme, mas, sem
necessariamente explorar de modo displicente o emocional das suas fontes.
![]() |
O silêncio imposto por um poder que controlava tudo |
Fortes em suas palavras, as vozes captadas por Henrique
Dantas trazem fatos relevantes para nossa história, como a questão levantada por
Theodomiro dos Santos, um dos presos à época e protagonista de uma das mais
famosas fugas da penitenciaria Lemos de Brito. Em um dos trechos, Theodomiro
aborda a questão da mão pesada do então governador (colocado no posto pelo
ditador Emílio Garrastazu Médici) Antonio Carlos Magalhães, cuja perseguição
deflagrada a qualquer um contra seu governo era notoriamente violenta e o fato
de que boa parte da responsabilidade pela ausência de memórias relacionadas ao período
ditatorial na Bahia se deve às ações perpetradas por ele.
Em uma época em que seu herdeiro se esforça para desvincular
sua imagem à notória e contumaz truculência que se tornou marca de sua família,
esse ponto de abordagem torna A Noite
Escura da Alma ainda mais essencial. “Eu
me lembro de ter ficado inseguro de inserir tal trecho no filme.”, afirma o
diretor Henrique Dantas. “Na ocasião, eu
liguei para o Theodomiro e falei: ‘Theodomiro, o filme está pronto. Mas tem uma
parada que você fala e que coloca o ACM como assassino. E aí, meu velho?’”,
continua Henrique. A resposta de Theodomiro é uma declaração que simboliza não
somente sua postura decidida, mas, também, uma resposta contra os anos de
silêncio forçado em que vivemos aqui na Bahia. “Ele chegou e disse: ‘Henrique, eu sou que nem índio. O que eu cuspo,
eu não boto pra dentro de novo, não’. Eu me lembro que cheguei a me emocionar
na ocasião”, recorda-se Dantas.
![]() |
O diretor Henrique Dantas (Foto:Jackson Romanelli. Divulgação) |
Trata-se de uma obra que gera no público uma reflexão
urgente acerca do fato de que a Bahia é uma terra vitima da alegria, fato levantado
por Dantas na sua narração inserida no começo do filme. Onde os problemas
sociais acabam sendo irresponsavelmente escondidos por políticos que usam o
carnaval e a alcunha que esse lugar possui como um fator de influência para
deixar, por ainda mais tempo, a venda nos olhos de seu povo. Iludido por um
suposto estado constante de felicidade (A terra da alegria, como diz a
propaganda oficial), esse povo não se permite apurar seu senso crítico,
deixando-se levar por uma memória curta ou apagada por interesses mesquinhos.
“Meu filme não tem a
pretensão de colocar as pessoas dentro da memória, mas, ao menos, ele as risca,
sabe? Como aquela riscada que você faz do seu nome e o de sua namorada em um coração,
desenhado no muro de sua casa. É um pouco disso que meu filme faz. Ele pega
aquela muro ali no meio do caminho, desenha um coração sangrando e coloca o
nome dessas pessoas dentro”, afirma Henrique Dantas.
De fato, esse coração sangrando aqui na Bahia precisava ser
trazido à tona, principalmente em um período como o atual. Um filme essencial.
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva V
Orestes (São Paulo, 2015, 93min) Direção: Rodrigo Siqueira.
Filme de suma relevância para um Brasil cujos extremos de
sua população se digladiam entre um pensamento que busca compreender a origem
da questão da violência e outro que, com olhos injetados e atitude fascista,
exige, sem qualquer julgamento, a vida do réu como pagamento pelo seu crime, Orestes, de Rodrigo Siqueira, diretor do
crucial Terra Deu, Terra Come, te
coloca contra a parede.
Trata-se de uma obra essencial para um momento em que vemos
torturadores assumidos subir em um púlpito de um plenário para prestar
homenagem a assassinos seriais de um período sombrio da história. A reflexão
por trás de Orestes reside justamente
nesse contexto, o qual a (auto)análise dos representantes de nossa sociedade
que se fazem presentes através de opiniões calcadas no radicalismo e que
precisam ser revistas.
Ao se propor adaptar o mito grego de Orestes, personagem de
Ésquilo que, na obra, mata a mãe para vingar seu pai e acaba sendo julgado por
cidadãos de Atenas, Siqueira cria dois campos de análise. É quando o filme
assume duas frentes de reflexão: uma explicita no sentido de se confrontar
opiniões dissonantes da sociedade, intento alcançado em sessões de psicodrama
nas quais se reúnem pais cujos filhos foram mortos em ações da polícia; ex-presos
políticos e torturados na ditadura; a filha de uma militante assassinada no
período e uma ferrenha defensora da pena de morte.
![]() |
A militante pró pena de morte e seus argumentos falhos |
A outra frente de reflexão possui um teor mais teatral e de acordo com a alusão literária que possui o título da obra. Aqui, um julgamento simulado e realizado na Faculdade de Direito da USP coloca o personagem de Orestes (aqui, acusado de matar o pai por conta do assassinato da mãe, uma militante contra a ditadura) como réu a ser julgado pela grande platéia presente, no qual os pertinentes discursos de um advogado de defesa e um promotor adéquam a história à realidade que se vê no Brasil. Em discursos eloquentes e repletos de profusão, vemos o mito proposto por Ésquilo se tornar uma metáfora ideal para uma das propostas de análise mais contundentes da obra, que é a questão da máxima do olho por olho e que o mais fraco seja esfacelado.
Nos momentos em que são abordadas as pessoas que compõem as sessões de psicodrama, o filme, de fato, demonstra sua força. São personagens repletos de dores, mesmo a representante do radicalismo pela pena de morte, alguém cuja máscara do pragmatismo não tarda a cair diante dos fatos que lhe são apresentados pelos outros presentes. No entanto, é na figura de Ñasaindy Barrett, uma das presentes, filha de Soledad Barrett, militante delatada pelo famigerado cabo Anselmo, e de José Maria, também assassinado pelo regime militar, que o filme encontra seu mais doloroso relato.
![]() |
O julgamento simulado na Faculdade de Direito da USP |
Apresentando suas lembranças embaçadas e construídas mais a partir de fotos do que propriamente de vivências com os pais, Ñasaindy confronta sua dor ao falar do tal delator, cabo Anselmo, que o filme exibe em uma entrevista concedida ao programa Roda Viva e cujo vídeo é exibido a partir de uma busca no youtube. Nas rememorações de Ñasaindy, o filme apresenta os traumas da perda de Soledad, brutalmente assassinada. Em certo momento, durante a sessão de psicodrama, um dos presentes assume o papel de cabo Anselmo, permitindo a Ñasaindy despejar palavras engasgadas. Momento deveras libertador tanto para ela quanto para o espectador.
Orestes acaba por ser um filme essencial não somente por funcionar como resgate da história e denúncia dos crimes de um período, mas por permitir a audiência a encarar e refletir dentro de suas próprias hipocrisias. A principal delas representada pela postura da personagem atuante na defesa da pena de morte, que, defensora de uma política de morte ao bandido a partir de um frágil discurso elitista, tem seus argumentos destituídos de qualquer moral a partir dos diálogos travados de modo enérgico com os presentes às sessões.
Em um grupo de pessoas no qual se encontram vitimas, além de pais e mães de outras vitimas, a força vista naqueles indivíduos para expressar suas contundentes e imprescindíveis opiniões contra o fascismo declarado de uma das presentes é a mesma força que a obra de Rodrigo Siqueira possui.
Força essa que nos empurra contra a cadeira durante seus breves 90 minutos, mas que nos sacoleja ao final para levantar e lutar com ainda mais ênfase contra esse regime opressivo que parece estar querendo voltar.
Mas não conseguirá. Não, mesmo!
Cachoeira Doc 2016 - Mostra Competitiva IV
Índios no Poder (Distrito Federal, 2015, 21min) Direção: Rodrigo
Arajeju.
Representando o perfil de engajamento e relação com o presente
momento de exclusão democrática e política
pelo qual passa o país, é pertinente que um curta como Índios no Poder seja exibido na quarta mostra competitiva do
Cachoeira Doc 2015.
Abordando o fato de que o perfil dominante do plenário da
câmara em Brasília é composto por pessoas brancas, pardos e negros, sem a
presença de nenhum indígena a representar os interesses dos povos nativos do
Brasil, o documentário traz posicionamentos contundentes acerca da perseguição
executada por ruralistas e outros membros que compartilham dos interesses
agrários dessa bancada, dentre eles a aprovação da PEC 215.
Polêmica pelo fato de que concede ao congresso o direito de
votar sobre os interesses relacionados com a demarcação de terras indígenas, a
Proposta de Emenda Constitucional prevê retirar do poder executivo as decisões
exclusivas desse mérito, permitindo aos deputados influenciar nas decisões,
algo que beneficia os ruralistas em sua totalidade.
O filme tem alguns momentos marcantes, como o que vemos um
candidato indígena distribuir de mão em mão seus santinhos e conversa com
possíveis eleitores em frente a cartazes de candidatos a presidente, em uma
clara alusão ao domínio da máquina eleitoral que beneficia os endinheirados e
torna a necessidade de uma reforma política ainda mais urgente. A cena remete a
outra marcante, quando em A Cidade é uma
Só?, de Adirley Queiroz, vemos o protagonista Dildo caminhar em frente a
carreata da então candidata Dilma carregando seus poucos santinhos impressos.
Com imagens de arquivo do
falecido deputado Juruna, o primeiro índio a ocupar uma cadeira na câmara, a obra consegue criar um discurso bem pertinente acerca da
necessidade de igualar as vozes. Principalmente no atual contexto, no qual a
liderança Kaiowa Guarani é executada e a
sanguinolenta e conveniente (para o agronegócio) PEC 215 segue em frente.
![]() |
Índios e a representação da exclusão no cenário político nacional |
Vozerio (Rio de Janeiro, 2015, 98min). Direção: Wladimir Seixas.
Filme de imagens impactantes e discurso poderoso, Vozerio aborda as manifestações
ocorridas no período que antecedeu a copa do mundo no Brasil, ocasião em que
diversas ocupações em defesa de minorias, que acabaram por ser enxotadas dos
seus locais de moradia em nome do progresso e das melhorias relacionadas ao tal
“legado” da copa e das olimpíadas.
Com depoimentos de vários membros dos movimentos de
protestos, como o cartunista Carlos Latuff, cujo traço é o que melhor
representa toda a realidade da opressão vista no Brasil e que teve seus desenhos
censurados em algumas ocasiões, além do cineasta Silvio Tendler, que tem uma
das melhores participações do filme ao ser indagado acerca de um processo
policial que sofreu por convocar, via internet, manifestantes para comparecer
em frente a um prédio onde simpatizantes da ditadura se reuniam.
![]() |
Captação in loco e montagem eficiente dão ao filme uma narrativa frenética |
Vozerio é um filme
que tem em seu impacto imagético e em sua eficiente montagem seus maiores
trunfos. Uma obra cujo discurso de luta
contra a opressão é feito de forma tanto brutal, direta e seca, com suas
imagens que causam estampidos, quanto de modo reflexivo, mas não menos
desconfortável, a partir dos registros das performances de artistas na
representação do modo como a dominação de um poder político excludente visava calá-los.
E isso é visto de modo deveras visceral, como quando são
apresentadas performances de rua que envolvem corpos nus na sarjeta suja, sufocamento
em sacos plásticos ou quando lábios são lacrados com costura para representar a
intimidação do Estado através do silêncio forçado.
Ouvindo diversas fontes a representar uma atuante massa
contestadora do atual sistema político, Vozerio
tem uma linha narrativa que caminha em direção à catarse de seu inflamável
final. Com breves pausas na intensidade de suas cenas, o filme mantém-se, no
entanto, em um ritmo enérgico constante, o que causa no espectador um
desconforto bem-vindo, algo que o força a encarar aqueles fatos de modo
reflexivo. E esse modo forçado é por demais bem-vindo, friso.
Apesar de tropeçar em certos momentos por conta do grande
leque de fatos que deseja abordar (como quando deixa de lado os conflitos aqui
para uma contextualização comparativa às guerras no oriente médio), o filme não
perde seu ritmo, apostando de modo eficiente em seu maior trunfo, que são as
imagens in loco. Sendo isso algo que
funciona como um registro crucial do que acontecia no caos planejado das ruas
e, tão importante quanto, o que acontecia ao redor delas, nas discussões intelectuais
acerca dos fatos, nos planejamentos prévios na internet, a grande força
diferenciadora contra uma televisão que só manipula.
Um filme de intensidade palpável.
Assinar:
Postagens (Atom)