domingo, 13 de maio de 2018

A Noite do Jogo

(Game Night, EUA, 2018) Direção: John Francis Daley e Jonathan Goldstein. Com Jason Bateman, Rachel McAdams, Jesse Plemons.



Por João Paulo Barreto

Original ao menos em sua premissa ao abordar uma diversão incomum entre adultos de meia idade que preferem passar suas noites envoltos a jogos de tabuleiro, trivia, adivinhações e desenhos, ao invés de entretenimentos mais de acordo com sua faixa etária e imposições do meio social (leia-se: a busca por álcool e sexo), A Noite do Jogo remete muito ao jovem clássico Vidas em Jogo, comandado há vinte anos por David Fincher e protagonizado por Michael Douglas, mas sem, aqui, o fator surpresa e tensão que embalava o filme de 1998.

A diferença no recente trabalho dirigido por John Francis Daley e Jonathan Goldstein (dois dos escritores por trás do novo Homem Aranha) reside no tom de comédia calcada em diálogos rápidos, além de pistas e recompensas que divertem o espectador ao perceber as piadas visuais que o roteiro apresenta (as gags envolvendo indestrutíveis mesas de centro funcionam bem, por exemplo). Ainda na relação com a obra de Fincher citada anteriormente, é a suspeita do publico em tentar descobrir se aquelas situações são reais ou parte de um jogo arquitetado que, até certo ponto, leva a trama para frente. No entanto, após um período, percebemos que A Noite do Jogo não necessariamente se aterá a essa premissa para contar sua história, que envolve o grupo de pessoas citado acima em busca de desvendar as pistas deixadas por Brooks (Kyle Chandler, dando uma pausa nos papéis densos) para seu irmão Max (Jason Bateman, exagerando nas caras e bocas) em um suposto jogo que envolve sequestro, tiros e perseguições.

O começo da percepção: algo não está certo nessa brincadeira

ESTRUTURA DE ESQUETES

Após apresentada essa narrativa, a comédia se torna justamente o que ela se propõe: uma série de quadros quase de esquetes nos quais cada dupla possui seu tempo individual em cena para fazer o espectador rir. Às vezes até conseguindo, como nas discussões entre Kevin e Michelle, casal junto desde a adolescência, mas que descobrem certa infidelidade em sua trajetória. A tentativa de Kevin em desvendar com qual celebridade sua esposa dormiu durante um tempo brigados causa risos, principalmente quando a possibilidade de ter sido Denzel Washington é levantada. Em outras vezes, tal química não funciona tanto, como na insistência em colocar o personagem de Billy Magnussen, Ryan, em uma constante demonstração de estupidez na suposta inteligência superior dos britânicos.

Somado a isso, o filme erra na longa duração de algumas de suas sequências, como quando é inserida uma cena totalmente inútil na qual Annie (Rachel McAdams, voltando ao timing cômico de meados dos anos 2000) tenta retirar uma bala alojada no braço de Max, ou em todo o desfecho da trama em um aeroporto.  McAdams, entretanto, é responsável por um dos melhores momentos do trabalho, quando, em um bar, repete a fala inicial de Pulp Fiction, deixando o espectador perceber a sagaz referência. Ledo engano, infelizmente, uma vez que logo em seguida o personagem de Bateman precisa gritar para o público de onde vem aquela fala, em clara insegurança do roteiro quanto à sua capacidade de se fazer entender. Em um filme com adivinhações como um dos temas, precisar explicar uma citação de forma tão óbvia é subestimar demais a inteligência de quem assiste. Curiosamente, o mesmo se deu no filme do Homem Aranha escrito pelos diretores, quando uma referência a Curtindo a Vida Adoidado é feita (e explicada com imagens).

Jesse Plemons, o ladrão de cenas

CASTING ACERTADO

A Noite do Jogo tem, porém, cartas na manga (sem trocadilhos) que surpreendem. Uma delas é a opção dos diretores em utilizar maquetes que, inicialmente, remetem aos jogos de tabuleiro para, só então, situá-las como cenários reais. Visualmente, uma excelente opção temática para o longa.

Outro acerto é a atuação de Jesse Plemons como um policial solitário e de comportamento passivo-agressivo. Os momentos em que ele aparece em cena se destacam. Com sua voz calma e cãozinho poodle à tira colo, a construção de seu Gary é o que de mais hilário a comédia tem a oferecer. Inclusive, observar a evolução desse jovem ator em momentos tão marcantes como as séries Breaking Bad e Fargo, ou o violento Aliança do Crime, além dos recentes trabalhos com Spielberg e o próximo filme de Martin Scorsese denotam uma cuidadosa escolha de carreira, aqui, salientada por um timing cômico que salva A Noite do Jogo.  



*Crítica originalmente publicada em A Tarde, dia 13/05/2018


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